Tópico # Resenha do livro

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~Crisuke

Usuário: ~Crisuke
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Sangue quente ou Warm bodies


Título: Sangue Quente
Autor: Isaac Marion
Editora: Leya

Imagine um mundo pós-apocalíptico, dominado por zumbis. Mas zumbis de verdade mesmo, que se arrastam pelas ruas, gemem e comem cérebros. Esse é o mundo de Sangue Quente.

Sangue Quente é aquele livro que, pela sinopse, você já tem que ler com a mente aberta. Sim, é sobre um zumbi que se apaixona por uma humana, mas, dadas às circunstâncias e explicações que permeiam a narrativa, o romance não cai no absurdo.
Pelo contrário. Chega a ser divertido e comovente em alguns momentos.
R é um zumbi que não tem lembranças de sua vida, ele apenas acredita que não foi “transformado” há muito tempo, pois ainda está com uma boa aparência (não tem pedaços do corpo faltando e, segundo ele mesmo diz, poderia passar por um “Vivo” que teve uma noite em claro, devido às olheiras). Ele vive em um aeroporto junto de muitos outros zumbis e, uma de suas distrações é ficar andando na escada rolante (quando o gerador de energia permite). Em um desses “passeios” ele acaba conhecendo “uma zumbi” e logo os Ossudos (a geração mais anciã de zumbis, que, após longo período de deterioração, basicamente viraram esqueletos) acabam por casarem-nos e darem duas crianças zumbis para que eles cuidem como filhos. Essa parte inicial do livro é realmente um barato e arrancou-me algumas risadas, pena que a nova família de R aparece muito pouco no restante da narrativa.
Após essa introdução à vida de R no aeroporto, a história (que se passa em primeira pessoa) segue seu curso, quando R e outros zumbis vão até a cidade se alimentar. Eles encontram um bando de humanos e devoram-nos. É importante saber que, quando um zumbi se alimenta do cérebro de um humano, ele tem flashes da vida da pessoa (o que é muito atrativo, já que eles não têm memórias e, muitas vezes, nem muita consciência). R se alimenta do cérebro de um rapaz e passa a experimentar algumas de suas emoções e vivenciar momentos de sua vida. Acontece que esse rapaz é o antigo namorado de Julie, a garota que R acaba poupando durante o “banquete” e levando até o aeroporto consigo.
Ter de se preocupar com a segurança de Julie, alimentá-la ou até dialogar com ela (visto que R consegue pronunciar poucas palavras) são apenas os desafios iniciais que o zumbi apaixonado encontrará.
Julie acaba se afeiçoando ao simpático “monstro”, porém, ela tem que voltar à sua cidade. Assim, R e seu amigo M ajudam-na a sair em segurança do aeroporto (Pausa para falar de M, o único amigo de R – M é muito engraçado e os “diálogos” entre eles são impagáveis. Sem contar que ele se acha super atraente.). Então, voltando à fuga, Julie consegue entrar em sua cidade que, na verdade é um estádio, visto que os humanos têm de se manter seguros dos ataques dos zumbis.
Mas pobre de R. Ele sente tanto a falta da garota, que decide entrar no estádio, fingindo-se de “Vivo” para reencontrá-la. E é aí que o problema e a solução coexistem na narrativa. Em determinado ponto, R é descoberto como invasor da cidade-estádio, porém, ele está mudando, já não é como os outros zumbis, e, talvez, haja uma esperança...
Vou parar por aqui, para não contar detalhes importantes para o desfecho da narrativa, mas gostaria de dizer que o final é satisfatório e até bonito, apesar de ser previsível.
Não posso concluir a resenha sem confessar que gostei muito dos personagens. A Julie é cheia de erros e rebeldias, mas bem construída. E o mais amável é, sem dúvidas, o zumbi-protagonista, que realmente é muito simpático, doce e engraçado. Na metade do livro eu já estava bem afeiçoada a ele e realmente compreendia suas atitudes e torcia para que tudo desse certo.
E, por fim, o livro cumpre seu papel de conscientizar sobre o rumo de nossas vidas e de nossas atitudes, enquanto tendo os zumbis como metáforas de nós mesmos, e a destruição do planeta como um futuro não-ficcional.


Trecho: “Nós comemos, dormimos e andamos pela neblina em uma maratona cinzenta e sombria que não tem linha de chegada (...). Nenhum dos moradores do aeroporto pareceu se importar quando eu matei quatro de nós hoje. Nós nos vemos do mesmo jeito que enxergamos os Vivos, como carne. Sem nomes, sem rostos, descartáveis. Mas Julie tem razão. Tenho pensamentos. Tenho uma espécie de alma, mesmo que seja murcha e impotente. Talvez os outros tenham também. Talvez exista algo que valha a pena ser resgatado.” (pág. 86)