Tópico Ruas

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10 de dezembro, 1952 - 17h
Alexis H. Grey


Oh, céus. Era só o que me faltava iniciarem a 3ª Guerra Mundial! Mal havíamos nos recuperado da maldita 2ª, quê diabos se passa pela cabeça desses seres malignos? Odeio os seres humanos. Desliguei a televisão, irritada até o último fio de cabelo, apanhando meu jaleco branquíssimo e os materiais básicos.

Eu iria a uma palestra com o pessoal da faculdade, ser a assistente do professor de genética. E, ok, minhas mãos pareciam-me trêmulas de expectativa. Afinal, talvez eu finalmente entendesse o erro nas células com o qual eu nasci – não estou brincando. Você consegue mover alguma coisa só de olhá-la? Pois bem.

Deixei que Dallas – meu irmão gêmeo, aquela pessoa teimosa – dirigisse o carro, estranhamente soturno. Fazia certo frio ao final do outono, formando uma atmosfera gelada e opaca sobre nós. E ameaçava chover; certamente teria eu de secar metade da casa quando voltasse. Uma coisa que Dallas ama fazer é andar na rua sob chuva, o infeliz.

— Algum problema? — questionei quando ele parou de frente á faculdade. Dallas suspirou, as mãos no volante e o olhar fixo em frente.

— Essa coisa de genética certamente tem haver com o que nos tem acontecido — afirmou, em tom categórico. — Será que sairá daí com algum tipo de resposta?

Refleti sobre a pergunta; franzi o cenho, bagunçando a franja.

— Ah... Espero que sim. Mas não poderei questionar diretamente sobre isso; darei um jeito. — Estiquei-me para depositar um beijo em sua bochecha. — Comporte-se.

Dallas deu de ombros, analisando algo á vista. Desci do carro e caminhei até o portão de ferro úmido, assustando-me com buzinadas. Voltei o olhar para nosso carro, confirmando ser a peste de meu irmão apressando-me. Revirei os olhos, rindo um pouco e adentrando o local.

Notei estar atrasada; como sempre. Todos da minha turma já estavam dentro do auditório. Bufei, vestindo o jaleco, amarrando os cabelos com um elástico preto e enfiando os cadarços do tênis de qualquer jeito para dentro. Entrei no auditório, sentindo uma lufada de ar quente no rosto, e subi os olhos para ver quem era o professor – que eu havia esquecido o nome - acima do pequeno palco.

Aproximei-me sob olhares de censura, e o professor sorriu-me levemente.

— Professor... — comecei, estreitando os olhos para seu crachá. — Xavier. Perdoe-me pelo atraso... Acaba de começar? — indaguei baixinho.

— Na verdade, Srta. Hastings, estava esperando-te — disse, lançando-me um olhar misterioso. — Não gostaria que perdesse nenhuma parte da palestra.

— Obrigada — agradeci, com um sorriso nervoso. — Estive bastante curiosa por isso. — Acrescentei, posicionando a lousa como um modo de se entreter.

Professor Xavier assentiu, desviando os olhos calmamente para o público. Analisei-o brevemente; a expressão fleumática de um rosto bonito e jovial; parecia não ser muito mais velho que eu. Os olhos azuis escuros esboçavam conhecimento, mas certa insegurança. Acho que era sua primeira palestra. Apressei-me em pegar a paleta de anotações, deparando-me com alguns tópicos. O Professor começou a falar alguns dizeres sobre sua estréia no assunto, e ergui os olhos rapidamente para acenar á menção de meu nome como voluntária, voltando os olhos para os tópicos.

Um deles, em questão, destacava a palavra mutantes em negrito. Torci os lábios, levantando a cabeça e forçando um sorriso paciente. Então Xavier começou a introdução, reforçando o fato de que a genética tem evoluído nos últimos tempos. Hum... Isso me parecia... Lógico.

Não demorou que ele chegasse ao tópico com a palavra estranha, e virei o cartaz central para mostrar o próximo. Ilustrava as células humanas e outro tipo de combinação parecida, mas diferente do normal. Fitei o desenho com atenção, achando extremamente interessante e curioso.

— Não parece natural. E realmente não é; uma célula humana leva em média 6 horas para duplicar todo seu genoma, de 3 bilhões de pares de bases. E ela só comete um erro a cada 10 bilhões de pares de bases, o que significa menos de um erro para cada três células duplicadas. É um sistema impressionante que pode gerar o que chamamos de mutantes.

Engoli em seco, finalmente olhando para o professor. Ele desviou o olhar para mim rapidamente, voltando a explicar, com gestos das mãos.

— Basicamente, seres humanos de células modificadas que atribuem conseqüências como habilidades diversas e, no conceito da maioria, sobrenaturais. Apesar de que os cromossomos são apenas o que os diferenciam de nós, humanos dentro dos padrões. — Completou, sorrindo displicentemente. Alguns estudantes bateram palmas, enquanto outros o encararam ora perplexos, ora taciturnos.

Minha mente estava embaraçada, anuviada, e tive de balançar discretamente a cabeça para manter o foco. Habilidades diversas... Sobrenaturais. Não havia outra explicação...!

— Professor, licença — chamei, levantando a mão. Xavier voltou-se para mim, atento. Todas as cabeças se viraram de uma vez. — Pode responder-me se há muitos mutantes por aí? Sequer existem?

— De fato, existem. Não se sabe quantos deles estão perdidos pelo mundo, mas certamente são minoria. — declarou convicto. — O interesse do governo quanto á eles é preocupante no momento; embora precisemos ter paciência.

— A atitude deles pode não ser adequada... — Xavier confirmou minha hipótese com a cabeça, e respirei, prosseguindo. — Como esses seres podem ser identificados?

O Professor tombou o rosto, pensativo.

— Depende muito. Algumas mutações são visíveis, afetam a aparência da pessoa. Outras podem ser facilmente escondidas.

Após a fala, o auditório encheu-se de murmurinhos. Alguns minutos depois, a palestra deu-se por encerrada, sob eufóricos aplausos. De fato, Professor Xavier era extremamente bom.

Depois de cumprimentar algumas pessoas e evitar cruzar com o professor, liguei para Dallas que em cinco minutos chegou ao portão da faculdade. Percebi seu olhar ansioso antes mesmo de eu pisar na rua e, olhando rapidamente para trás, vi Xavier observando-me correr para o carro. Acenei-lhe, minimamente envergonhada pelo meu comportamento.

— Dallas — disse, respirando com descompasse. — Não somos aberrações. Quer dizer, não os únicos...! — disparei.

— Como é? — Olhou-me confuso. — Tenha calma mulher!

— É! Não estamos sozinhos nesse mundo, irmão. Eu acho que somos...

— Mutantes? — adivinhou. Parece que andou pesquisando, hein.

— Isso. Exatamente isso.

Fechei os olhos, tentando manter-me calma. Como, cara. Dallas recostou no banco, uma das mãos na testa. A coisa não tá muito bonita pro nosso lado, meu caro.

Iniciado ]]