História { Eclipse - Mijan} - Capítulo 3


Escrita por: ~

Postado
Categorias Harry Potter
Personagens Alvo Dumbledore, Bellatrix Lestrange, Dobby, Draco Malfoy, Gregory Goyle, Harry Potter, Hermione Granger, Lord Voldemort, Minerva Mcgonagall, Pansy Parkinson, Poppy Pomfrey (Madame Pomfrey), Severo Snape
Tags Amor, Aventura, Dracomalfoy, Drama, Drarry, Eclipse, Harrypotter, Poção
Visualizações 218
Palavras 6.389
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Colegial, Comédia, Romance e Novela, Shonen-Ai, Shoujo (Romântico), Survival, Violência
Avisos: Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Spoilers, Tortura
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Boa leitura!♡

Capítulo 3 - Terceiro Capítulo- Chá Amargo.


Draco assistia à forma imóvel de Harry Potter, contorcendo-se contra a parede da cela e tremeu. O calabouço estava frio. Era assim que as coisas funcionavam, o que não significava que Draco tinha que gostar. Pôs seus pés sobre o recosto da cadeira e apertou o cobertor sobre os próprios ombros. Tinha sido uma longa noite, e ela não acabaria por aí.

Seu chá havia tempos estava frio, deixado intocado no chão a seus pés. Sua mãe sempre se recusara a deixá-lo adoçar o chá (chá adoçado era simplesmente impróprio), e apesar de seu aroma forte, Draco jamais apreciara o gosto amargo. Como ele gostaria de uma bebida um tanto quanto "mais forte" para mantê-lo aquecido – uma que teria abafado os pensamentos ridículos que insistiam em passar por sua cabeça descontrolados.

Por um momento (um ataque de insanidade momentânea, para ser mais exato), ele quase cometeu um deslize e pediu desculpas à Biddy, antes que ela saísse dos calabouços. Ele, Draco Malfoy, desculpando-se para um elfo-doméstico? Absurdo! Mas que era ainda pior, Potter tinha instigado tudo aquilo, apenas para virar as costas para Draco e se enrolar aparentemente adormecido no chão.

Ninguém dava as costas para um Malfoy, e ali estava Potter, calmamente fazendo exatamente isso, como se não houvesse nada no mundo que o preocupasse. Draco considerou apontar a varinha para o odioso cativo, mas com qual finalidade? Torturá-lo? Por alguma razão, a idéia havia perdido a graça. Controlá-lo? Aparentemente isso não iria funcionar. Não, ele queria vencer Potter em seu próprio jogo.

Não importasse a situação, Potter sempre tinha conseguido sair ganhando. Oh, e não era somente Quadribol. Havia a Copa das Casas, o Torneio Tribruxo, cobertura da mídia, fama e fortuna... Era o suficiente para deixar Draco enjoado. Agora o que sobrara do garoto, adormecido no chão frio do calabouço, estava ganhando num jogo de esperteza.

Draco apertou os dentes. Não, isso era só o primeiro round. Haveria muito tempo para reverter esta situação. Ele só não podia deixar Potter o atingir. Ele certamente não ia ficar ruminando isso. Mas isso era exatamente o que ele estava fazendo, e sabia disso.

Draco girou a cadeira, virando de costas para que não pudesse ver Potter e a cela.

Era impossível Potter saber o efeito que seu comentário sobre "ganhar lealdade" estava produzindo em Draco. Como um Malfoy, ele havia passado sua vida inteira tentando ganhar respeito, prestígio, e o mais importante, poder. Lealdade era meramente a conseqüência lógica desses atributos, não uma qualidade que viesse sozinha. A lealdade de seu pai ao Lord das Trevas, sua própria lealdade ao seu pai; a lealdade era simplesmente dada à pessoa com mais poder.

Poder. Era sobre isso que tudo era. O objetivo final. Era a última etapa, naturalmente, requerendo tempo, astúcia e apadrinhamento. Era uma aspiração remota de Draco quando era mais jovem, então respeito havia se tornado seu objetivo intermediário. Ele o havia procurado em seus amigos, seus professores, e acima de tudo, em seu pai. Crabbe e Goyle tinham sido fáceis. Mostrava-se aos idiotas um truque com cartas e eles o adorariam como se fosse da linhagem de Merlim. Professores eram um pouco mais difíceis. Ele havia conseguido notas altas em suas aulas, particularmente Poções, mas com amantes de sangues ruins como Dumbledore controlando a escola, o nome Malfoy não causava mais a mesma impressão de antes. Draco havia conseguido se realmente se envergonhar algumas vezes, havia tido problemas com alguns professores, e cada uma das vezes, tinha alguma coisa a ver com Potter. Detenção na Floresta Negra, confusões com hipogrifos, e momentos dolorosos como uma doninha saltitante – tudo isso era cortesia de Potter, de um jeito ou de outro.

Naturalmente, sempre que Potter inadvertidamente o instigava a algo desse gênero, seu pai fazia questão que ele soubesse o quanto desgostoso estava. Não era fácil para ninguém conseguir o respeito de Lucius Malfoy. A tarefa se tornava ainda mais difícil quando ele era seu pai. Draco nunca havia conseguido ser bom o suficiente, nunca capaz de se mover rápido o suficiente, mesmo que não houvesse nada que ele quisesse mais. Só os deuses sabiam, ele jurava que quanto mais tentava, mais ele falhava em atender às expectativas de seu pai. Como único herdeiro dos Malfoy, tinha uma reputação a manter. Tinha um destino para cumprir. Apenas grandes coisas podiam vir de um nome como Draco Malfoy.

Chegou tão perto, também.

Seu pai havia ficado satisfeito com o boletim de Draco ao final de seu primeiro ano. Satisfeito, claro, até ouvir das notas da sangue-ruim Granger. Draco assistiu envergonhado enquanto seu pai retirava o boletim da moldura em cima da lareira e o reduzia a cinzas com um aceno da varinha. Superado por uma sangue-ruim. Era humilhante. Era uma desgraça. Não era o lugar de um Malfoy.

Embora não tivesse nem chegado perto dos efeitos de seu primeiro jogo de quadribol.

"Agora, Draco, essa é a melhor vassoura que o dinheiro pode comprar. Eu não vou tolerar meu filho se exibindo em nada que não seja a melhor vassoura, nem espero nada além do melhor de sua performance".

Claramente sua performance não suprira as expectativas do pai. Ele se distraíra demais atormentando Potter para notar o pomo de ouro voando logo acima de seu ombro. Não somente isso, mas Potter o havia vencido com um braço quebrado. Todo mundo havia se derretido com o heroizinho, enquanto Marcus Flint arrastava Draco para um canto para berrar insultos que teriam feito um trasgo corar. Apesar da severidade da vergonha, a carta de seu pai havia sido muito pior. Sua coruja de igreja havia chegado à manhã seguinte com uma carta que dizia simplesmete, "Eu estou desapontado".

Então Draco se concentrou no ano seguinte. Da próxima vez, ele não deixaria Potter distraí-lo. De olho no pomo, e ele com certeza ganharia. Oh, tinha sido um a idéia adorável enquanto durou.

No ano seguinte, Potter havia voado para o campo em cima de uma Firebolt. Draco havia revivido os últimos segundos daquele jogo várias e várias vezes em sua cabeça desde então. Ele tinha estado tão a frente de Potter, se concentrando no pomo. Não havia nada entre ele e seu prêmio dourado... Até que Potter havia vindo acelerando diante dele, mais rápido do que Draco achava possível. Sua mão tinha estado meros milímetros do pomo de ouro quando o apanhador da Grifinória havia o empurrado para fora do caminho e agarrado a pequena bola, e a Taça de Quadribol, para a Grifinória.

Era uma loucura. A única razão que poderia explicar o que aconteceu era que o Potter perfeito tinha uma vassoura melhor. Assim, só o que Draco precisava era pedir uma Firebolt para seu pai, certo?

Ele não poderia estar mais errado. Os olhos de seu pai tinham sido adagas de aço, rasgando Draco em pedaços tão efetivamente quanto suas palavras.

"Draco, você nem se provou digno de sua última vassoura. Agora você quer desculpar a sua incompetência culpando a ótima vassoura que eu te comprei ano passado?".

"Não, pai! É só que eu...".

"Silêncio. Pare de inventar desculpas. Você foi incapaz de vencer Potter quando tinha uma vassoura melhor. Você tem que merecer".

Tudo voltava a isso, não?

Bom, desta vez ele merecia, não merecia? Esta noite, Draco deveria estar se vangloriando da vitória que havia ganhado. A ruína de sua existência estava presa seguramente numa cela no calabouço dos Malfoy, e Draco o colocara lá. Seu pai... Seu pai estivera verdadeiramente orgulhoso dele. Ele tinha dito. Amanhã o Lord das Trevas conferiria honra a família Malfoy e Draco teria o crédito. Então por que diabos Draco se sentia como se não pudesse se olhar nos olhos naquele momento?

Era tudo pelo mesmo motivo, sua aflição: o garoto que dormia na cela, não mais do que quatro metros distante, esquecido do mundo.

O doce som do "Eu estou tão orgulhoso de você, Draco" de Lucius Malfoy havia sido completamente abafado pelo comentário sarcástico de Harry, "Que nobre da sua parte". Porque as palavras de Potter ressoavam mais nítidas em sua mente do que as palavras tão esperadas de seu próprio pai? Malditas barbas de Merlim; se não fosse o desejo expresso do Lord das Trevas de ter o garoto vivo, ele mesmo teria matado o cabeça de cicatriz insuportável.

Draco teria passado a lâmina banhada em veneno pela garganta magra de Potter ao invés de simplesmente perfurar o ombro como uma picada de abelha inofensiva. Ele teria simplesmente ficado lá em pé, e teria rido da glória de assistir o sangue de Potter se esvaindo por sua pele, encharcando seu suéter e formando poças no chão. Teria apreciado as poças, memorizado o tom exato do vermelho sangue escuro. Teria mesmo sido uma doce vingança sentir o cheiro metálico da força vital de Potter, escorrendo por seus dedos como areia. Ele teria enxugado a lâmina na manga de Potter, colocando a mancha de sangue final para servir de testemunha de sua vitória, e assistido enquanto a gota final de vida se esvaía do corpo de Potter. Olharia com triunfo nos olhos aterrorizados e...

Draco olhou para baixo, para os dedos à mostra e as mãos espalmadas em seu colo. Elas estavam tremendo. Era somente isso, não era? Agora, pensando sobre isso, não estava tão certo de que poderia ter feito. A missão havia sido um sucesso precisamente porque a responsabilidade era pequena e a recompensa grande. Mas e se a missão tivesse sido matar? Ele não tinha na verdade considerado essa possibilidade, não seriamente, até que Potter tinha lançado o desafio em sua cara, corajoso e desafiador.

"Não acho que você seja forte o suficiente para me matar".

Ele poderia? Poderia Draco levar o punhal à garganta de Potter? Se ele tivesse sido ordenado, poderia ter realmente envenenado Potter em vez de simplesmente estuporá-lo? Poderia ele honestamente olhar diretamente nos olhos verdes perfurantes de Potter e dizer, em alto e bom som, "Avada Kedavra"?

Draco inclinou a cabeça para frente em suas mãos trêmulas e enterrou os dedos no rosto. Mais do que qualquer coisa, ele queria poder responder essas perguntas com um "sim" ressonante, mas ele havia visto alguma coisa queimando naqueles olhos, alguma coisa viva, alguma coisa muito humana. Você não pensa em seu inimigo como outra pessoa, mas simplesmente como meios para um fim. Ele poderia ter matado Potter? Não sabia mais. Ele simplesmente não sabia.

Harry certamente tentara dormir apesar do desconforto físico, mas toda vez que chegava perto, outro pensamento alarmante passava por seu cérebro, o acordando. Teria sido tão mais fácil simplesmente deixar o mundo se desvanecer, mas era tarde demais para isso. A realidade finalmente o atingira, irreversivelmente. A realidade de sua situação o deixara chocado demais para se mover. Ele não queria pensar, mas sua mente estava girando. Como tudo mais, estava completamente fora de seu controle. Talvez fosse devido á presença de seu captor, mas a maioria dos pensamentos perturbadores de Harry se concentrava no garoto loiro do outro lado das grades. Dado que ele estava prestes a enfrentar o bruxo maligno mais poderoso de seu tempo – novamente – era uma hora estranha para ele estar pensando no valentão dos tempos de escola.

Ainda assim, era exatamente o que Harry estava fazendo. Não fosse por aquela doninha nojenta, estaria dormindo confortavelmente em sua cama de dossel de volta à torre da Grifinória, sem preocupações além do trabalho de Poções. Não estaria congelando no chão frio de uma masmorra. Seu ombro não estaria latejando com a dor sempre crescente onde Malfoy o havia apunhalado. Sua mente com certeza não estaria escavando em seu subconsciente.

Harry estava quase com medo de afastar as vestes para ver o quanto era ruim o dano em seu ombro. Certamente não seria bonito, mas pensando bem, percebeu que poderia facilmente ter sido pior. Muito pior.

E se, em sua necessidade por vingança e ódio dominante, Malfoy tivesse ao invés passado a faca na garganta de Harry? Era possível. Pessoas como Malfoy não precisavam de força para matar. Era simplesmente parte da natureza delas. Pessoas não eram seres de carne e osso para eles. Eram obstáculos bloqueando o caminho para o objetivo final.

Harry somente tinha insinuado que Malfoy não poderia tê-lo matado porque sabia que nunca poderia acontecer, e esse simples fato serviria para enfurecer Malfoy completamente. Não que o canalha não poderia ter feito se tivesse a chance; Harry tinha certeza que Malfoy não teria nenhum problema em apunhalá-lo pelas costas, literalmente. Não, Malfoy simplesmente não ia ter a chance de provar que podia matar Harry porque Voldemort nunca permitiria que mais ninguém o fizesse. Voldemort queria demais a vingança final, e Draco só poderia sentar e assistir. Numa reviravolta doentia da ironia, Malfoy na verdade tinha que proteger Harry, mantê-lo vivo para o uso de Voldemort. Isso tinha que ser um golpe no ego de Malfoy.

Claro, se Harry escapasse, seria ainda melhor. Se? Não. Quando. Tinha que ter uma saída. Ele era o maldito Menino Que Sobreviveu. Havia escapado de Voldemort mais de uma vez; certamente poderia escapar de Draco Malfoy. Talvez – se ele escolhesse as cartas certas –, pudesse manipular o idiota sonserino. Possivelmente atormentá-lo até abrir a porta da cela. Devolver sua varinha. E então o quê? Bom, ele pensaria em alguma coisa quando a hora chegasse. Primeiro, tinha que atingir Malfoy, e – se ele era remotamente perceptivo – parecia que já tinha começado.

Harry quase se perguntou qual teria sido a expressão no rosto de Malfoy quando ele deu as costas. Risque isso; estava morrendo para saber, para ver que tipo de vantagem ele poderia ter sobre o outro garoto. Malfoy não tinha dito uma palavra, não havia produzido um som; nenhuma pista para Harry seguir, e Harry se recusava a ceder até mesmo à sua curiosidade na frente de Malfoy. Mas para alguém que sempre tentava ter a última palavra, era um tanto surpreendente que a coleção de insultos de Malfoy não tivesse sido usada. Ainda mais curiosa havia sido a ligeira mudança no tom de sua voz. Teria Harry atingido tão fundo? Malfoy sabia que ele próprio nunca poderia matar Harry. Seria esse mesmo um pensamento tão perturbador para o sonserino?

Harry mordeu o lábio inferior. Isso não poderia estar totalmente certo. Talvez seu insulto repentino tivesse chegado perto demais da verdade? Malfoy sempre havia sido um covarde, se escondendo atrás de seus amigos grandalhões, correndo ao primeiro sinal de perigo, usando o nome do pai como um escudo. Fazia sentido. Ele era simplesmente um covarde, e Harry o chamara disso. Sim, é claro. Era completamente óbvio... Não, não era. Harry enfiou os dentes um pouco mais fundo no lábio.

Quando chamou Malfoy de covarde a primeira vez, acusando-o de se esconder atrás faz vestes do pai, havia recebido uma resposta imediata, e tinha sido uma bem profunda. Harry sentiu sua garganta se fechar um pouco quando se lembrou do comentário sobre seus pais. Se aquelas grades não estivessem lá, teria esmagado a traquéia de Malfoy com as próprias mãos. Cinco centímetros e ele o teria alcançado. Ao invés disso, ele estava preso, e não havia nada que pudesse fazer para defender os pais a não ser lançar um olhar gelado na direção do canalha que os insultara em primeiro lugar. Se olhares pudessem matar...

Mas não podiam, infelizmente. Engraçado, Malfoy aparentara por um segundo como se fosse exatamente o que olhares pudessem fazer. Aqueles olhos cinzentos, que sempre se estreitavam em zombaria, tinham se arregalado, brilhando em um susto difícil de esconder. Foi bem feito para o imbecil. Medo era exatamente o que aqueles olhos deviam mostrar. Mas mesmo assim, tinha havido alguma outra coisa também.

Harry soltou o lábio inferior dos dentes, e puxou a parte de dentro das bochechas com os dentes de trás. Ele mordeu. Com força. A dor não conseguiu distrair sua mente da pequena manifestação que tomava conta dela. Tinha havido medo, tudo bem, mas também algum tipo de reconhecimento. Reconhecimento? Que diabos ele estava reconhecendo? O quanto angustiadamente irado Harry estava? Isso ia requerer um entendimento de emoções humanas. O idiota não tinha humanidade suficiente correndo nas veias para reconhecer uma emoção tão básica quanto o amor se o atingisse no rosto.

Harry soltou a parte de dentro das bochechas dos dentes. De onde saiu isso?

Ele não teve muito tempo para pensar sobre isso antes que sua linha de raciocínio fosse interrompida pelo som de uma tosse engasgada. Depois de horas guardando silêncio, Harry decidiu deixar a curiosidade levar a melhor. Ele estivera sentado perfeitamente parado por tanto tempo que cada músculo parecia se partir quando ele virou e encostou as costas retas na parede e virou a cabeça para olhar para Malfoy. A visão diante de seus olhos era chocante, para dizer o mínimo.

Malfoy estava curvado, enrolado numa colcha bordada adorável, com a cabeça nas mãos. Seu cabelo normalmente liso estava se encrespando nas pontas. Ainda mais divertido, seus ombros estavam tremendo, ligeiramente, mas definitivamente tremendo. Harry deixou sua boca se abrir em espanto. Essa era uma oportunidade boa demais para perder. Que comece o jogo.

"Qual o problema, Malfoy? Perdeu o ursinho de pelúcia?".

A cabeça do loiro se levantou, revelando as feições clássicas de Malfoy deformadas por uma coisa normalmente incomum para elas; emoção. Bom, que idéia. A víbora era realmente capaz de alguma coisa semelhante a sentimentos humanos. Harry não podia identificar bem a emoção, mas quase parecia verdadeira. Quase.

"O que você disse pra mim, Potter?". Sua voz era baixa e rouca.

"Oh, me desculpe, eu interrompi um momento pessoal? Eu vou te dar um pouco de privacidade... Ah, espere, eu não posso! Que coisa, né, Malfoy?".

"Qual é a droga do seu problema?". A fala arrastada estava de volta.

"Me deixa pensar". Ele parou para causar efeito. "Ah, sim, eu lembro agora. Eu estou preso num calabouço com você, esperando a destruição nas mãos de um bruxo das trevas perturbado. É mais ou menos isso". Ele se permitiu bufar, o que lançou uma onda de dor por seu ombro, que o fez estremecer. "Quase esqueci, punhalada adorável também".

Malfoy hesitou por uma fração de segundo, não muito, mas o suficiente para Harry notar, antes de finalmente responder, "Você não merece nada melhor".

Harry olhou para Malfoy sem acreditar. O sonserino estava cuidadosamente evitando seus olhos, se mostrando ao esticar o pescoço como um pavão limpando as penas. "Eu não mereço nada melhor? Não mereço? E como exatamente você está julgando isso?".

"Você passou a vida inteira se metendo em coisas que eram grandes demais para você". Malfoy torceu o nariz. "Você se exibe por aí como se fosse dono da escola, e todos os professores puxam o seu saco, fazem concessões para você, principalmente o amante de sangues-ruins do Dumbledore. Você arranjou uma briga com o bruxo das trevas mais poderoso do século, e acima de tudo...". Malfoy se virou e olhou para Harry, cuidadosamente colocando seu olhar acima das sobrancelhas de Harry. "...Você mexeu com a minha família. Nunca um bom movimento, Potter".

Harry engoliu a seco. Por onde ele poderia começar a desmentir as acusações? Ele suspirou. Comece de cima até chegar a baixo, ele supôs. "Malfoy, eu tinha um ano de idade quando me envolvi com o Voldemort".

Malfoy estremeceu com o nome, mas Harry o ignorou e continuou mesmo assim.

"Da última vez em que eu conferi os livros de história, ele invadiu a minha casa, matou meus pais e então tentou a chance comigo. Eu era jovem demais para me lembrar de alguma coisa e você diz que eu arranjei a briga? Muito engraçado, Malfoy. Muito impossível, mas muito engraçado".

"Não isso, seu idiota. Na escola. Você mexeu com os assuntos do Lord das Trevas por conta própria. O ano passado foi ruim o suficiente, se exibindo para o Ministério como um heroizinho glorioso, mas você faz coisas assim desde o começo. Meu pai me contou tudo sobre elas. Você tinha que ir e ser o grifinoriozinho valente, protegendo a droga da Pedra, e entrando em confusões na Câmara Secreta. A escola finalmente teria se livrado da sujeira dos sangue-ruins, e você tinha que entrar no caminho".

Harry se levantou, se controlando contra qualquer demonstração de dor quando seu ombro mandou ondas pulsantes pelo seu braço e peito. Ele andou vagarosa e deliberadamente pelo chão até as grades da cela. "Não chame as pessoas assim. Foram bons bruxos e bruxas que o monstro atacou, muito melhores e mais respeitáveis do que alguns que eu poderia mencionar". Ele olhou expressivamente para Malfoy.

Malfoy bufou. "Melhores o cacete. Um lufa-lufa e aquele garoto magrelo do Creevey. E o monstro teria feito um favor à escola se tivesse matado aquela horrorosa, Granger".

Uma fúria ardente surgiu no peito de Harry, e ele começou a apertar as grades como se esperando que ele pudesse as entortar sozinho, escapar, e estrangular o canalha do outro lado. Não dê atenção, Harry. Isso é exatamente o que ele quer. Não morda a isca. Mantenha o controle. Ele abaixou as mãos. Por uma mandíbula apertada, ele falou no tom mais indiferente que conseguiu. "Você só tem inveja dela".

"Do que você está falando, Potter?".

Ele está fazendo perguntas. Isso significa que está na defensiva. "A única razão porque você quer Hermione fora do caminho é porque ela é melhor do que você em tudo, até em Poções".

"Humph. Você pensa bem demais daquela sua amiguinha de sangue ruim".

Harry sacudiu a cabeça, a fúria se tornando determinação enquanto ele entrava no jogo da isca. "Ah, eu penso bem demais dela, e com razão, não apenas o fato de que ela é muito mais inteligente que você. É, você que tem inveja dela. Ou isso ou é porque ela é minha amiga. É isso, Malfoy? Precisa de outro jeito de me atingir? Qual dos dois é? Inveja das notas dela...". Harry parou e levantou uma sobrancelha. Vá até o fim. "...Ou inveja da amizade dela comigo?".

O rosto de Malfoy se contorceu como se ele estivesse engasgando com algum queijo ruim. Ele gaguejou brevemente, finalmente falando rispidamente, "Eu não tenho a mínima vontade de me comparar com uma sangue-ruim patética, nem tenho inveja da amizade dela com tipos que nem você". O veneno na última palavra era palpável.

Harry estreitou os olhos e fitou Malfoy pela metade de baixo dos óculos, controlando um risinho triunfante. Fácil demais. "Eu não estou totalmente convencido. Hermione e Ron são dois dos melhores bruxas e bruxos que eu poderia conhecer. Eles morreriam por mim, e eu morreria por eles. Isso é lealdade, Malfoy, e é o suficiente para se ter inveja".

"Crabbe e Goyle...".

"Rolam e vão buscar para qualquer um que ofereça um biscoitinho canino para eles".

"Ah, claro, realmente uma coisa especial".

Draco não tinha percebido que tinha se movido de seu assento até parar fora do alcance de Potter.

"Crabbe e Goyle fariam qualquer coisa que eu os mandasse fazer".

"Um cocker spaniel bem treinado também. Eles te seguem como filhotinhos crescidos, se bem que nem tão inteligentes, e você os usa. Sem alguém maior e mais forte para se esconder atrás, você não é nada".

Draco sentiu sua irritação se transformando em fúria quando ele olhou para seu preso insolente. Potter era seu prisioneiro, sob seucontrole, e o garoto ousava se levantar e fazer pouco dele? Draco podia sentir suas mãos começarem a tremer. Ele cerrou os punhos, esperando que Potter não tivesse notado. "Sem seus amiguinhos aqui, você mesmo não é muito, Potter", ele rosnou.

O moreno inclinou a cabeça para o lado pensativo, parecendo confiante demais mesmo com os óculos quebrados se equilibrando precariamente em cima do nariz. "Se você é tão seguro assim, Malfoy, porque você não me devolve minha varinha, me deixa sair e me enfrenta sozinho?".

Calor, estava começando a subir por trás das orelhas de Draco. No momento, não havia nada que ele quisesse mais do que ter um duelo de verdade com o canalha insolente na cela, apenas para provar que Potter não tinha nenhuma chance contra ele, mas isso era uma coisa que ele não ia poder tentar tão cedo. Além disso, era só um truque. Potter estava tentando incitá-lo a permitir uma chance de escape. Tente mais, Potter, isso não vai funcionar.

Draco forçou a si mesmo a respirar profunda e calmamente. "Você gostaria disso, não, Potter?".

Potter soltou um bufo pelo nariz. "Na verdade, eu gostaria de usar o banheiro. Aonde diabos eu deveria ir?".

O lábio superior de Draco se curvou num sorriso desdenhoso. Ele levantou uma mão e apontou para um buraco no chão no canto mais distante da cela. "Todos os confortos de casa, não, Potter? Tenho certeza que é páreo duro para a casa dos Weasley". Ele levantou o queixo. Certamente tinha ganhado dessa vez?

Potter deu um passo em direção ao canto com um pé, mas sua postura permaneceu a mesma. "Nada que você tenha poderia ser a metade de algo que os Weasley tem, Malfoy. Agora, se importa? Eu gostaria de um pouco de privacidade".

Mais uma vez, Harry deu as costas para Draco, e o deixou de queixo caído. Aquele canalha inacreditável tinha feito de novo. Como Potter sempre conseguia pegá-lo desprevenido?

Draco virou de costas para a cela, ainda confuso e irritado. Ele não tinha a mínima vontade de ver Potter cuidando de seus assuntos, então ele voltou mal-humorado para a cadeira e se aconchegou em suas almofadas. Era uma boa coisa que seu pai não pudesse vê-lo naquele momento. Um Malfoy não deveria se aconchegar.

Ele chutou o chão distraidamente, fazendo o possível para ignorar o som de uma corrente de água atingindo o buraco no chão. Devia ser quase de manhã, porque ele podia ouvir seu estômago reclamando sonoramente pelo café. Engraçado; ele não estava realmente com fome. Draco nem mesmo notou Potter deixar o canto da cela e se mover de volta para o ponto em que tinha passado a noite.

Olhando para a parede a sua frente, Draco estava fazendo o melhor que podia para esvaziar a mente. Ele não queria pensar sobre o quão enlouquecida essa história estava ficando. Haveria quase três semanas de guarda antes que o Lord das Trevas apanhasse seu prêmio. Se as últimas horas haviam sido tão ruins, como em nome de Merlin ele iria agüentar o resto? Ele não tinha esperado que uma festa do pijama com Potter fosse um mar de rosas, mas ao mesmo tempo, ele nunca pensara que o lado mais forte da luta de poder seria do outro lado das grades.

Seus pensamentos foram interrompidos por seu estômago roncando de novo, mas antes que ele pudesse mentalmente mandá-lo calar a boca, foi atendido por um alto estalido. Biddy apareceu diante dele carregando uma bandeja com suco de abóbora, torrada, bacon, algumas frutas, e, claro, um bule fumegante de chá.

"Senhor Malfoy, senhor! Biddy está sendo enviada pela Senhora Malfoy. A senhora está dizendo a Biddy para lembrar o jovem senhor de que ele deve comer um café da manhã de verdade, senhor".

Draco franziu a testa. "Eu não estou com fome".

"Senhor, a Senhora Malfoy está insistindo, senhor". O elfo doméstico hesitou. "O Senhor Malfoy mais velho também está querendo Biddy para dizer para o senhor que o prisioneiro também deve comer, senhor."

Draco notou que haviam, de fato, dois copos ao lado da jarra de suco de abóbora, e um prato vazio extra. Ele revirou os olhos e assentiu com a cabeça. Um Malfoy é sempre agradável, sim; mas isso não deveria significar que ele teria que dividir o mesmo café da manhã que Potter. Provavelmente Biddy havia sido mandada preparar café da manhã para ambos Potter e ele mesmo, e não tinha sabido que não era apropriado que prisioneiros comessem tão bem quanto seus captores. Draco suspirou. Ele não tinha a energia para corrigir propriamente o elfo doméstico ignorante naquele momento.

"O senhor Malfoy está precisando de mais alguma coisa de Biddy, senhor?".

Ele sacudiu a cabeça. "Não, você pode ir".

"Sim senhor, Senhor Malfoy, senhor". Ela se curvou e pegou a bandeja que ele tinha deixado a noite anterior, com o bule de chá frio ainda cheio.

Enquanto ela ficava em pé reta para desaparecer de volta para a cozinha, Draco deu uma boa olhada nela. Se curvando em sua cadeira, era a primeira vez que ele ficava da altura de um elfo-doméstico. Vestida numa fronha decrépita e parecendo claramente miserável, não era uma visão que nenhum Malfoy deveria se abaixar para ver. Contudo, agora que a vira, não havia como fingir que não. Já se sentindo emocionalmente ferido, isso era mais uma coisa estapeando seu cérebro em direções que nunca tinha ido. Não tinha realmente pretendido dizer; deve ter escorregado das profundezas obscuras de seus pensamentos rodopiantes. Possivelmente pela primeira vez na história, um Malfoy realmente olhou um elfo doméstico nos olhos e disse, "Obrigado".

As orelhas de Biddy se aprumaram em encanto absoluto e seus olhos maiores do que o normal se encheram d'água nos cantos. Ela começou a sacudir a cabeça em alegria, guinchando alto. "Oh, Senhor Malfoy, senhor! O senhor é muitamente de nada, senhor! Se o senhor está precisando de qualquer outra coisa de Biddy, é só chamar, senhor!". Ela quase derrubou a bandeja, se curvando tão baixo. Ainda mantendo-se curva, ela desapareceu com um estalido alto.

Draco pressionou os pés contra o chão de pedra e se empurrou um pouco para cima na cadeira enquanto percebeu o que tinha feito, e o que Biddy havia dito. Era inesperado, para dizer o mínimo. Seu pai nunca teria aprovado. Um Malfoy nunca agradece a um elfo-doméstico. Levaria ao atrevimento das criaturas. Eles poderiam ter idéias, talvez até se achar merecedores de agradecimentos.

Biddy nunca o havia dito para "só chamar" se quisesse alguma coisa. Claro, ele teria chamado se desejasse, com ou sem a permissão dela. E ela teria vindo; nenhum agradecimento era necessário. Era a função de um elfo-doméstico. Ainda assim, isso era estranhamente diferente. Não havia sido servidão rude e forçada. Biddy tinha oferecido seus serviços de boa vontade. Era altamente não ortodoxo, mas era quase... Bom. Talvez, só talvez, Potter tivesse alguma razão.

Harry encarou Malfoy. Ele devia estar delirando, pois por um momento, tinha quase parecido que Malfoy agradecera o elfo-doméstico. Era isso. Delírio.

Malfoy devia ter percebido que Harry estava encarando, e se virou para ele usando sua melhor máscara de desdém. "O que você está olhando, Potter?".

"Eu tive uma visão. Por um momento, ainda que breve, você quase pareceu um ser humano. Embora você não precise se preocupar, porque então eu percebi que devo estar simplesmente ficando louco". Harry se inclinou contra a parede e fechou os olhos, se preparando para a próxima rebatida.

"O que você sabe, Potter?".

Harry se afastou da parede e virou de volta para Malfoy. Qualquer que fosse o ataque verbal que ele esperava, não era aquele. O outro garoto ainda estava olhando para Harry com desdém, mas sua voz não tinha contido a mesma dureza venenosa de sempre. Parecia quase... divertida.

"Um Malfoy é sempre agradável", Draco continuou. "Eu só estou cumprindo as expectativas do meu nome".

"Isso não seria um motivo de orgulho pra mim. Eu vi o quanto 'agradável' seu pai era com o Dobby. Eu nunca tinha visto um tratamento tão revoltante com um ser vivo em toda a minha vida". O pensamento se terminou silenciosamente na mente de Harry:Exceto talvez o jeito que os Dursley me tratavam.

"Meu pai simplesmente espera o tipo de lealdade e respeito devido à uma pessoa do nível dele". Malfoy torceu o nariz, embora sua voz tenha começado a oscilar.

"Então alguém do nível dele tem que recorrer a bater em criaturas indefesas e deixá-las famintas para se sentir poderoso? Seu pai é doente".

"Meu pai é um grande homem!". Malfoy berrou como um animal ferido. "Ele é um homem orgulhoso e digno, continuando uma tradição de família orgulhosa e digna".

"Tradição de quê? Crueldade?".

O ar quente no balão de Malfoy aparentemente tinha murchado. "Eu não esperava que você entendesse".

Harry concordou. "Tudo bem, porque eu acho que não quero". O que tinha para entender? Lucius Malfoy era o Canalha-Maligno-original, e Draco era Canalha Maligno-em-treinamento. A tradição dos Malfoy era o melhor da Sonserina; o uso desenfreado de astúcia e ganância na procura interminável por poder. Nenhum custo era alto demais, nem mesmo a vida humana.

Então por que Malfoy tinha agradecido a Biddy?

Tinha que ser mais um jogo, Malfoy estava tentando promover sua própria guerra mental nele, um contra ataque talvez. No entanto, esse jogo parecia diferente, e Harry se sentiu curioso quanto à onde ele poderia levar. Malfoy estava esbarrando o pé para frente e para trás, mais uma vez aconchegado em sua cadeira, olhando para a bandeja de café da manhã em frente a ele. Harry o observou silenciosamente, esperando que o sonserino fizesse o próximo movimento.

"Você quer um pouco de chá?".

"Quê?". Harry se achou perguntando, sem ser capaz de manter a surpresa fora de sua voz.

"Você é surdo? Eu perguntei se queria um pouco de chá. Eu tenho que te alimentar, lembra? Não faz nenhuma diferença pra mim, mas você não serve para Você-Sabe-Quem se morrer de fome".

Malfoy não usava o nome de Voldemort. Parando para pensar, nem seu pai. Em algum lugar nas profundezas de seu cérebro, Harry arquivou essa informação para usos futuros, enterrando-a embaixo dos assuntos mais importantes do momento. "Chá?".

"Não me faça perguntar de novo, Potter, ou você vai usá-lo".

"É adoçado?".

"Chá adoçado? Não seja absurdo. Não é próprio colocar açúcar no chá". Era sua mãe falando, e Draco sabia.

Harry acenou com a cabeça. "Então não, obrigado. Sempre acho que tem gosto amargo sem açúcar".

Draco levantou a cabeça um milímetro da bandeja de café da manhã e olhou Potter com o canto do olho. Que tipo de jogo era esse, então? Potter não podia dizer isso! Era muito... Muito... Ele não ia ter nem preferências do jeito de beber chá em comum com seu prisioneiro. Ele não ia. Ele era um Malfoy.

Draco abaixou a cabeça de novo e a sacudiu, como se pudesse banir a similaridade pelas orelhas. Sem mais uma palavra, ele empilhou duas fatias grossas de torrada em um dos pratos ao lado de várias fatias de bacon e despejou um copo cheio de suco de abóbora. Potter estava observando cada movimento do processo. Deixa ele. "Maçã ou laranja?".

"Eu não estou com fome".

Draco suspirou e repetiu, mais insistentemente dessa vez. "Maçã ou laranja?".

Uma pausa. "Maçã".

Em silêncio, Draco carregou o copo e o prato para a cela. Havia uma abertura horizontal larga o suficiente para um prato cheio. Em sua noite passada na cela, ele tinha se perguntado para que a abertura servia. Agora ele sabia.

Potter não tinha se movido de seu lugar à parece, e Draco bateu os pés impacientemente. "Morrer de fome não vai te fazer bem nenhum". Era como tomar conta de uma criança petulante.

A resposta veio numa fala arrastada sarcástica que soava muito familiar. "Oh, Malfoy, eu não sabia que você se importava".

Draco quase derrubou o café da manhã. Seu cérebro estava gritando protestos contra a imitação ridícula. Aquilo era a coisa mais absolutamente longe da verdade. O garoto era seu inimigo jurado pessoal, sem mencionar inimigo de sua família. Ele odiava Potter profundamente. Olhando por seu nariz, Draco reprimiu a fala arrastada em sua própria voz. "Nada poderia estar mais longe da verdade. Eu estou meramente seguindo ordens. Precisamos de você vivo".

Potter se inclinou para frente e se ajoelhou, então se leventou, claramente favorecendo o ombro esquerdo agora. Ele olhou para o chão enquanto se aproximava das grades, sem realmente parecer notar Draco. Suas mãos seguraram o prato no mesmo instante que seu rosto se levantou, mantendo o olhar no de Draco. "Eu preferiria morrer nos meus próprios termos a deixar Voldemort me usar para seus propósitos. Eu até preferiria deixar você me matar."

Draco não podia olhar para longe. Atrás dos óculos de Potter havia bolas de fogo verde, brilhando com acusações não ditas. Emoções endurecidas se enrolaram em volta do peito de Draco e apertaram. Raiva, ressentimento, medo...

Potter finalmente se virou e voltou a seu lugar na parede com seu café da manhã. Draco foi deixado no lugar, inalando profundamente enquanto a tira de ferro em volta de seu peito era substituída por uma nova sensação, desta vez, um estranho tipo de calor combustível acompanhado por um tipo diferente de falta de ar. Naquela horrível consciência ardente ele percebeu que era assim que era ser magoado.

Como Potter estava fazendo isso? Draco não se importava com o que o garoto pensava dele. O grifinório era fraco, Draco se lembrou mais uma vez. Ele estava desarmado e aprisionado, indefeso... ainda assim, ele era mais forte do que Draco jamais havia sido. Era isso que o aterrorizava. Draco havia finalmente descoberto que seu rival tinha a vantagem, mesmo sob circunstâncias desiguais, e provavelmente sempre teria, até o dia em que finalmente morresse. Bom, pelo menos havia um fim a vista, e a responsabilidade não cairia sobre Draco. Estranhamente, o pensamento não o tranqüilizava como ele achou que fosse.

Potter estava sentado quieto em seu canto, jogando a maçã distraidamente de uma mão para a outra com nada mais que uma virada do pulso.

Draco apertou o maxilar, querendo que a repugnância familiar tomasse conta de sua agitação. Quando isso não funcionou, ele se decidiu por irritação. "É comida, Potter. Não um brinquedo".

Sem perder o ritmo, Harry mordeu um grande pedaço da maçã e recomeçou a jogá-la. Com a boca cheia, ele resmungou, "É os dois".

Draco sentiu seu rosto ficando quente. Essa era uma batalha perdida, parecia. O garoto era irritante demais para Draco lidar com ele. Ainda assim, era só esperar até que o Lord das Trevas chegasse. Só esperar. Potter certamente não podia enfrentar isso, podia? Não. O garoto se entregaria, e então, novamente, seria a imagem do patético inimigo grifinoriozinho amante dos sangues ruins que Draco sempre adorou odiar. Era só esperar.

Horas se passaram. Draco fez uma vigília silenciosa da coisa toda, se recusando a ser puxado para outra batalha verbal, e, milagrosamente, Potter não parecia tão inclinado a lhe oferecer uma. A maçã tinha sido posta de lado e o buraco mordido tinha se tornado marrom. O vapor tinha parado de sair do bico do bule de chá havia muito tempo. Biddy veio, pegou a bandeja e desapareceu. O tempo todo, Potter não se mexeu ou falou, e Draco também não.

Draco se sentiu começando a cochilar quando um sibilar de dor o acordou. Se endireitando na cadeira, ele viu Potter curvado no chão, a agonia em seu rosto parcialmente encoberta pela mão apertada contra sua testa. Draco estava tão assustado pela mudança súbita que nem se permitiu um tempo para pensar num comentário esperto. "O que foi?"

Levou um momento para Potter afastar a mão do rosto e revelar uma expressão sombria. Ele sussurou uma palavra. "Voldemort."

A porta da masmorra se abriu com um estrondo, e Draco não precisou olhar para saber quem acabava de chegar.



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