História { Eclipse - Mijan} - Capítulo 6


Escrita por: ~

Postado
Categorias Harry Potter
Personagens Alvo Dumbledore, Bellatrix Lestrange, Dobby, Draco Malfoy, Gregory Goyle, Harry Potter, Hermione Granger, Lord Voldemort, Minerva Mcgonagall, Pansy Parkinson, Poppy Pomfrey (Madame Pomfrey), Severo Snape
Tags Amor, Aventura, Dracomalfoy, Drama, Drarry, Eclipse, Harrypotter, Poção
Visualizações 83
Palavras 16.507
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Colegial, Comédia, Romance e Novela, Shonen-Ai, Shoujo (Romântico), Survival, Violência
Avisos: Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Spoilers, Tortura
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Boa leitura!!!

Capítulo 6 - Sexto Capítulo - Discussões Pertubadoras.


Harry estava deitado de costas, em um chão de pedra quase igual ao que acabara de deixar. Ao seu lado, podia ouvir Draco se mexendo e mal tinha se ajoelhado quando se viu olhando para a ponta da varinha de Draco de novo. O outro garoto olhava-o friamente, agitando a varinha para ele como se estivesse afastando um animal perigoso.

Um rápido olhar em volta informou a Harry que eles estavam sozinhos na masmorra. Ao seu lado, uma cela vazia esperava, a porta aberta e a chave na fechadura. O único som era o eco da água pingando em algum canto escuro do corredor. Na privacidade momentânea, Harry permitiu-se um suspiro, e alguns segundos para respirar.

Ele se virou para Draco, deixando uma multidão de pensamentos voarem por sua mente. O que diabos tinha acabado de acontecer? Estranho, elétrico, tinha passado por ele como um banho de água fria, deixando-o acordado e alerta, fazendo seu corpo formigar e ficar sem ar, e tinha certeza de que Draco sentira a mesma coisa. Tinha visto o olhar de pura surpresa escrito claramente no rosto de Draco quando seus olhares se encontraram.

Agora, no entanto, não havia nenhum sinal disso nos modos de seu captor. Quase podia se enganar e pensar que tinha sido uma ilusão, mas seu instinto lhe disse que era mais esperto que isso. Sabia que tinha sido real e estava certo de que Malfoy também sabia.

Apoiando-se nos calcanhares, disse com uma casualidade enganosa, "Eu me pergunto onde será a festa".

"Cala a boca, Potter". A voz de Draco voltou a ser arrastada, para a grande surpresa de Harry. Não que devesse esperar nada diferente, mas...

Draco gesticulou rapidamente com a varinha em direção à cela. "Levante-se. De pé. E sem movimentos rápidos. Eu ficaria muito feliz em te estuporar e te jogar lá dentro". Não havia dúvidas de que a ameaça era real.

Harry levantou uma sobrancelha inquisidora e se levantou, nunca tirando os olhos de Draco. O sonserino era um pequeno enigma, Harry decidiu. Logo quando parecia que houvera uma mudança real na pessoa que Harry sempre conhecera como Malfoy, seu pai chegou e cada padrão de comportamento precisamente treinado voltou ao seu lugar.

Bom, talvez nem todos. O Malfoy que Harry costumava conhecer sempre parecera genuíno, nunca um ator, até agora. E provavelmente tinha sido bem autêntico até aquele ponto, mas aparentemente as sementes de dúvida tinham sido semeadas. Malfoy não mantinha os amigos por perto. Mas se o palpite de Harry estivesse correto, tinha acabado de deixar o inimigo chegar mais perto. Provavelmente perto demais. Quase debaixo da pele.

A expressão no rosto de Draco quando suas mãos se tocaram provou sem sombra de dúvida exatamente o que era atuação e o que era real. Naquele instante, os olhos de Draco traíram-no.

"Malfoy...?".

"Eu não dei permissão para falar!", ele disse, rispidamente. "Só entre na droga da cela. AGORA!".

Ele sacudiu a varinha na direção de Harry, como se para enfatizar a ordem mais firmemente, mas na realidade era um movimento nervoso, feito para encobrir o medo que parecia se mostrar em suas cordas vocais.

Draco não tinha o luxo de considerar as emoções e pensamentos se revirando em sua mente no momento. Estava desesperadamente tentando enterrá-los embaixo da situação mais imediata. Verdade, o aposento estava vazio a não ser por eles, mas ao invés de acalmar Draco, isso tinha inflamado cada nervo cuidadosamente treinado que possuía com vigilância e cautela. Não podia ter certeza, mas suspeitava que podia estar sob vigilância.

Isso normalmente não teria sido um problema. Teria assumido sua pose praticada e confiante, mostrado sua personalidade normalmente arrogante e cheia de si. Em algum ponto, teria aproveitado direito ter Potter na ponta da varinha, tornando os dois ameaças inofensivas e não tão inofensivas. Por último, poderia ter feito uma demonstração apropriada para o Lord das Trevas, ou quem quer que estivesse assistindo. No entanto, isso não era tão fácil no momento.

Seu subconsciente continuava cutucando-o pelas brechas em seu medo, afastando-o no momento em que sua mão tocou a de Harry. A sensação estranha que ele sentira quando tocara Harry antes tinha aumentado, ocupando sua consciência. Houvera um arrepio ao toque humano, uma alegria de certo modo culpada. Ele se regalava com isso, não podia afastar a lembrança do toque de seu corpo. Era quase como se uma conexão sutil tivesse surgido entre eles, cimentando sua nova compreensão em outra coisa, uma coisa que ele não podia bem definir, alguma coisa que o deixava nervoso e perturbado. Uma coisa que nunca deveria existir entre eles.

NÃO, ele disse a si mesmo com firmeza. Ele não sentira aquilo. Não sentira. Sua lealdade a seu pai e ao Lorde das Trevas era verdadeira. Tinha que ser. Não tinha outra escolha. No momento, tanto faz se queria fazê-lo ou não, tinha uma tarefa a cumprir. Voldemort lhe dera uma missão, e mesmo se parecesse uma tarefa secreta e descartada, nada escapava ao olho do Lorde das Trevas. Nem mesmo as emoções mais profundas de alguém. Até agora, não havia nada a temer sobre isso. Potter acabava de mudar tudo.

Harry respondeu aos cutucões de Draco, sua expressão ainda inquisidora, virando-se para andar sem pressa até a cela.

Os pensamento de Draco ricocheteavam de Harry para o Lorde das Trevas, para seu pai, para sua tarefa, e de volta para Harry, deixando-o ligeiramente tonto. Cara um dos passos dolorosamente lentos de Harry fazia o coração de Draco bater um pouco mais forte enquanto os segundos pareciam se esticar. Um pouco mais e seus nervos em frangalhos atingiriam um nível de pânico que ele não seria capaz de esconder. Alguém suspeitaria de algo, ainda que ele não tivesse muita certeza do quê.

Mais rápido, droga! Ele cutucou Harry nas costas com a varinha. "Pare de demorar!".

Não tinha doído, Draco não usara um feitiço para fazer doer, mas Harry se virou como se tivesse, e o encarou irritado. Draco se pegou começando a se arrepender, até que viu o olhar irritado de Harry sumir enquanto o garoto procurava em seus olhos. Isso fez Draco se sentir terrivelmente vulnerável, como se todas as camadas de proteção houvessem se partido. Harry parecia capaz de fazer isso com ele com uma estranha facilidade.

Depois de apenas um milésimo de segundo, Harry acenou com a cabeça quase imperceptivelmente e continuou a andar para a cela.

Draco hesitou, momentaneamente atordoado. Rapidamente apagou a surpresa do rosto, escondendo o fio de esperança que sentiu. Se aquele aceno significava o que ele pensava, então Harry realmente ia cooperar com ele. De boa vontade. Mas porque Harry faria tal coisa?

Talvez o que quer que Draco tivesse sentido quando suas mãos se tocaram não tivesse sido sua imaginação e Harry também sentira. Afastando o pensamento para depois, Draco guiou Harry de perto até a porta da masmorra, ainda se sentindo nervoso, mas não tanto quanto antes.

Quando Harry passou pela porta, sem realmente perceber que o fizera, Draco deixou sua mão encostar em suas costas, como se o empurrasse para a frente. As pontas dos dedos acariciaram o tecido,

pressionado contra as costas magras demais por baixo e ele percebeu que não se sentia particularmente inclinado a trancar Harry.

Harry sentiu a ligeira pressão contra suas costas, não um empurrão, apenas um toque. Ele se virou novamente quando um tipo de surpresa diferente passou por ele. O toque de Draco vinha carregado de uma certa proteção, e uma solidariedade peculiar. Não era o que seria esperado de Draco Malfoy, mas então, nada ultimamente tinha acontecido do jeito que ele esperava.

A porta se fechou entre eles, mas Harry continuou a encarar Draco até ser forçado a olhar para longe. O rosto ainda era Malfoy: frio, impassível, arrogante. Mas diferentemente de antes, o concreto frio das íris de Draco brilhava para ele como prata polida, os olhos de uma pessoa que finalmente acordara de uma longa noite sem sonhos. Pela primeira vez, eles falavam diretamente com Harry, brilhando com confusão e desculpas. Por baixo disso, ainda havia o medo.

Draco inclinou a própria cabeça apenas uma fração de centímetro, um sinal de respeito. Era só o que podia fazer sem se permitir desmoronar. Estava começando a hesitar, traído pelos pensamentos confusos que continuavam a dançar sem controle por seu subconsciente. Aqui, bem debaixo do nariz de Voldemort, era o pior lugar em que podia perder o controle. Finalmente, girou a chave na fechadura, mantendo o máximo que podia de sua dignidade exterior.

Para qualquer espectador, nada incomum havia ocorrido entre os dois adolescentes nas masmorras. Nada de emoções fortes, nada de tons de voz sutis. Draco só podia esperar que pudesse manter essas aparências... Pelo menos até o problema ser retirado de suas mãos.

Antes mesmo de ele pôr a chave no bolso, a porta da masmorra se abriu com um estrondo. Draco se virou, suspeitando com uma onda de terror, que Voldemort havia chegado, mas em vez disso seu pai correu pelo corredor, respirando com dificuldade.

Lucius apreciou a cena rapidamente, notando com satisfação que Harry estava seguramente trancado na cela. Sua respiração se acalmou um pouco enquanto ele retomava a pose e se virava formalmente para Draco. "Excelente, Draco. Excelente", disse, com pressa.

Draco podia ver que Lucius ainda estava num estado altamente agitado, mas ao invés de perguntar esperou que seu pai revelasse os motivos para aquela ansiedade.

"Os oficiais do Ministério chegaram no portão da frente no momento em que eu saí da passagem sul". Lucius explicou. "Não devíamos ter esperado tanto, mas o que está feito está feito. Sua mãe vai poder alegar ignorância e deve poder ficar com a Mansão. Eles podem fazer uma revista completa, mas qualquer item questionável pode ser atribuído a mim".

Ele lançou um olhar curto e cheio de significado por sobre o ombro para Harry. "Não é como se a minha imagem pública possa ficar ainda mais suja".

Harry se inclinou casualmente contra o lado da cela. "Suponho que você vá tentar me culpar pelo fato de finalmente ter sido pego, e sua reluzente imagem pública destruída".

O rosto de Lucius se contorceu como se estivesse constipado. "Uma vez na vida, Potter, eu vou concordar com você".

"Que bom", Harry disse, os olhos brilhando audaciosamente. "Porque eu não ia querer dividir o crédito desse feito com mais ninguém".

Pela segunda vez naquele dia, Draco se pegou se controlando para não rir das maneiras de Potter na frente de seu pai. Por sorte sua, conseguiu abafar antes que Lucius se virasse para ele.

"Draco, eu devo partir imediatamente. Espero que você mantenha a dignidade". Pausou, deixando as muitas implicações daquela última palavra ecoarem. "Enquanto eu estiver fora".

Draco concordou com a cabeça, e então perguntou, "Pai?".

Lucius inclinou a cabeça, dando permissão a Draco para falar.

"Onde está todo mundo? O quartel general parece deserto".

Apertando os lábios, Lucius falou, preocupado. "Muito observador, Draco. Você está correto, é claro. Temos que nos assegurar de que mantenhamos o Ministério distraído o suficiente para impedi-los de achar Potter até que o usemos. Esta noite em particular, enquanto o mudamos, o Lorde das Trevas planejou uma série de ataques para mantê-los ocupados".

Por sobre o ombro de seu pai Draco viu Harry ficar em pé mais reto, os olhos verdes escurecendo quando a preocupação tomou conta de sua expressão.

Lucius continuou falando. "Eu devo me juntar a eles. Fique aqui, cumpra a sua tarefa". Ele se virou para ir embora, o barulho de seus sapatos ecoando no chão de pedra. Quando estava prestes a virar o corredor, no entanto, ele parou e olhou por sobre o ombro para Draco.

"O Lorde das Trevas manifestou um desejo de falar com você em particular quando voltar". A tensão e ansiedade em sua voz eram palpáveis, e suas palavras finais ecoaram ameaçadoramente. "Esteja preparado".

Com isso, ele foi embora.

Draco sentiu seus joelhos começarem a fraquejar enquanto o eco das palavras de seu pai sumia das profundezas da passagem, continuando a reverberar em sua mente. O próprio Lorde das Trevas queria falar com ele. Não de passagem, como havia feito antes, mas em particular. Uma vez isso teria sido a maior honra que Draco poderia ter imaginado, perto da aprovação imortal de seu pai. Agora, no entanto, parecia ser um novo fator na equação.

Draco havia se preparado durante anos para seu encontro inevitável com Voldemort. Seu pai o assegurara de que nenhum outro de sua geração serviria o Lorde das Trevas tão bem; ele era um Malfoy. Agora, havia sido Draco quem capturara Potter, efetivamente se colocando acima dos seguidores de Voldemort, e o colocando numa posição invejável pela estimativa da maioria dos Comensais da Morte. Alguns dias atrás, sua própria avaliação da situação teria sido a mesma. Nem tanto agora.

Pela primeira vez em sua vida, ele se achou questionando tudo. A si mesmo, o nome de sua família, Voldemort; Draco se sentia culpado de duvidar de tudo o que sabia e tudo em que confiava, logo quando estava prestes a enfrentar um julgamento de Voldemort. Como um Comensal da Morte, vida, poder e sobrevivência são baseados em certas coisas. Coloque uma delas no lugar errado, e o resto da defesa desmorona. Ele seria julgado, possivelmente com muita crueldade. Voldemort tinha uma tendência comum de se fazer juiz, júri e, quando lhe dava na telha, carrasco.

Não estava pronto para isso agora, repentinamente despreparado. Se Voldemort soubesse de sua dúvida, se Voldemort suspeitasse de sua lealdade hesitante e fraqueza, não haveria nada que pudesse fazer para se defender. O Lorde das Trevas não dá segundas chances.

Draco empurrou para trás os pensamentos lúgubres, tentando colocar alguma força em suas pernas trêmulas, e sendo apenas parcialmente bem sucedido. Sempre havia pensado que era forte o suficiente para enfrentar, mas agora, mesmo que quisesse ser destemido, era demais.

Mas então, ele tinha a mesma idade de Harry, que estava enfrentando seu próprio encontro com Voldemort, e o destino de Harry era muito mais certo. Para Draco, isso era o que ele sempre quisera, o caminho que aceitara e que fora escolhido por seu pai. Harry nunca tivera escolha nenhuma. Quase parecia injusto.

Sabendo que o quartel general estava deserto e que não havia olhos o seguindo, Draco finalmente se virou para olhar a cela. Harry não estava mais de pé contra a parede com um sorriso afetado como estivera antes. Ao invés disso, estava encolhido contra a parede, com os braços em volta dos joelhos, seu rosto contorcido em uma expressão dolorosa, os olhos fechados.

Seus próprios medos temporariamente deixados de lado em favor de sua curiosidade, Draco abriu a boca para perguntar o que estava errado, mas se impediu, aproveitando a oportunidade para silenciosamente observar o rosto de Potter.

A pele de Harry estava muito pálida, quase tanto quanto a de Draco, mas parecia mais com o forte contraste da franja negra caindo descuidadamente por sobre a testa, parcialmente escondendo sua cicatriz. Havia manchas de sujeira em seu maxilar e seu nariz, e sua bochecha tinha um machucado feio. Não teria parecido nada mais do que uma criança inocente, em vez de um homem que havia enfrentado a morte mais vezes do que qualquer um deveria... A não ser por sua expressão.

Abaixo de suas bochechas, seu maxilar estava cerrado, lábios finos e amarelados, e círculos negros emolduravam seus olhos. Ele estava um trapo, mas, apesar de sua exaustão visível, a dor emocional que estava obviamente o corroendo, o inferno que ele tinha vivido nos últimos anos, ainda mais nos últimos dias, ele não estava chorando, não estava admitindo a derrota. Draco, que não era nem o alvo de Voldemort, sentia-se prestes a desmoronar com a perspectiva de encontrar o Lorde das Trevas sozinho. Harry, ao contrário, mantinha-se forte.

Foi aquela demonstração de força silenciosa que forçou Draco a reconhecer a estranha beleza e elegância que não imaginara possível, especialmente na forma desse garoto de aparência estranha. Era magnético, e Draco se perguntou como teria sido se tivesse ficado em companhia de tal força muito tempo antes. Agora que a havia visto tão claramente, poderia se forçar a esquecer? Poderia ele ainda se humilhar, como sempre havia sido treinado para fazer, diante do poder frio de Voldemort, e continuar a desprezar a força que vira em Harry Potter?

Finalmente, ele se permitiu vocalizar sua curiosidade, e talvez até um pouco de preocupação. Mantendo sua voz tão calma quanto possível, ele perguntou, "O que foi? A cicatriz está doendo?".

Harry abriu um olho, e então o fechou mais uma vez antes de responder. "Não, não é a cicatriz, apesar de que essa droga fica pinicando. É irritante depois de um tempo".

Harry se calou de novo, não mostrando sinais de que ia responder mais alguma coisa sem ser perguntado. Draco sabia que não ficaria satisfeito até obter uma resposta. Cedendo à sua necessidade de saber, ele andou até a cela, apoiou o rosto nas grades e perguntou por elas, "Então, o que é?".

Dessa vez nenhum traço da íris verde apareceu debaixo das pálpebras. Ao invés disso, Harry pressionou o rosto contra os joelhos e respondeu suavemente, "O que quer que Voldemort esteja fazendo hoje. O que quer que ele esteja fazendo para distrair o Ministério. Se todos os Comensais foram com ele, deve ser enorme. Eu me pergunto... Me pergunto quantas pessoas, pessoas inocentes, vão morrer hoje à noite. Quantas já morreram".

Mordendo o lábio, Draco ponderou cuidadosamente se havia alguma resposta que podia dar a Harry, antes de falar alto, "Não é como se devesse realmente importar para você. Eles ainda não vão tocar em Hogwarts. Quer dizer, você provavelmente nem conhece nenhuma delas".

A voz de Harry se tornou ainda mais baixa, mas a força por trás dela cresceu. "Eles são seres humanos inocentes. Sim, importa para mim".

As palavras de Harry penetraram fundo, e Draco percebeu que estava quase começando a lamentar pelas vítimas da noite quando percebeu sua tolice. De repente se lembrou exatamente por que o Grifinório era tão irritante. Com tudo o mais pesando em sua mente, não queria outro sermão. Tinha seus próprios problemas para se preocupar. "Você vai me dar outro de seus discursos santos, Potter? Eu não preciso ouvir agora".

"Qual o problema, Malfoy?". A voz de Potter estava mal acima de um sussurro agora, mas continha um tom definitivo de divertimento sádico por baixo. "Não gosta de ouvir sobre as piores coisas que Voldemort e seus Comensais da Morte fazem? A dura realidade das carnificinas te deixa enjoado? Todas aquelas pessoas inocentes, morrendo sem necessidade, sujando seus tapetes? Seu próprio pai já matou a cota dele".

A dor daquela última frase apenas serviu para instigar Draco ainda mais. "Eles são só trouxas, sangues ruins e amantes de trouxa", ele disse, desafiadoramente. "Mal são humanos".

Harry não se moveu, não falou, mas seus olhos se abriram e responderam por ele, rasgando Draco, o queimando com uma definição afiada.

Draco podia discursar e proferir insultos para uma parede o dia inteiro, fazia-o regularmente com Crabbe e Goyle para ficar bem treinado naquela habilidade. Até em seu estado de exaustão por falta de sono, poderia facilmente ter se segurado em uma discussão com Potter, tinha certeza, se o garoto tivesse mantido seus olhos fechados. Cada uma das vezes, aqueles malditos olhos penetrantes o impediam. Não podia se segurar diante do olhar de Potter. Suas palavras não pareciam ter impulso suficiente para atravessar as barreiras.

Quase retirou o comentário, mas não podia. Não aqui. Não nas próprias masmorras do Lorde das Trevas. Cada pequeno golpe que Potter desferia era mais um prego no caixão de Draco, mais uma rachadura em sua armadura contra Voldemort. Cada vez que Potter ganhava um ponto contra ele, deixava-o mais fraco, menos capaz, sentindo-se estranhamente vazio. Se Draco encontrasse Voldemort sob aquelas condições – e o encontro estava se aproximando –, não queria pensar no que podia acontecer.

Raiva. Era disso que ele precisava. Ser duro, frio, sem nenhum traço de fraqueza, compaixão, ou qualquer outra emoção frágil e humana que permitiria a Voldemort despedaçá-lo. Precisava de esvaziar a cabeça, pensar do jeito que sempre fora treinado para pensar.

Satisfizera sua curiosidade o suficiente, agora era hora de trabalhar. Respeito a parte, Draco não se deixaria mudar suas crenças de longo tempo por causa dos sermões santos de Potter. Potter não ia vencer daquela vez.

Como ele ousa?, Draco pensou consigo mesmo. Perfeito Maldito Potter. Ele acha que só porque eu não transformei cada segundo seu em pura miséria que ele de repente tem algum tipo de controle sobre mim? Eu o deixei ter mais controle do que deveria. Potter pode ser poderoso, mas não tem nenhuma chance de que eu vá deixá-lo ter tanto poder assim sobre mim! Eu não vou deixar. Ele NÃO vai me destruir!

Instigado pelos próprios pensamentos, Draco se segurou no fio da competitividade acirrada familiar, tudo que uma vez definira sua relação com Potter. Isso tudo não significara nada. Qualquer coisa em que ele se tivesse deixado acreditar sobre abaixar a guarda em nome da curiosidade havia sido uma maldita farsa. Seu pai estava certo. Ele nunca devia ter olhado nos olhos de Potter. Era um erro, um escorregão, uma falha quase fatal em sua missão de entrar na cabeça de Potter. Quase esquecera de si mesmo, e isso era imperdoável. Era hora de reclamar sua posição nessa luta por poder, e se fechar para as incertezas que o corroíam. Seu orgulho, sua herança; ele era um Malfoy, e droga, faria Potter saber disso. O jogo ainda não estava acabado.

"Potter! Pára de olhar para mim assim!". A ordem vinha carregada de desprezo. "Você com seus amigos sangues ruins e amantes de trouxas... Argh! Todos do seu tipo são iguais. Todos idealistas, pensam que estão sempre certos, não? Pensa que pode me fazer sentir culpado por uma multidão de sangue-ruins?".

Harry meramente o encarou ameaçador, fazendo o estômago de Draco se revirar de novo. Não gostava das emoções naquele olhar, especialmente depois dos outros olhares que Potter lançara em sua direção nos dias e horas passados, mas não podia deixar isso abalá-lo.

"Além disso", ele adicionou um certo veneno ao desprezo, "quer eu tenha te trazido aqui ou não, é você quem o Lorde das Trevas quer, é por você que aquelas pessoas estão morrendo esta noite. Se não fosse por você, nada disso nunca teria acontecido".

Harry não se moveu, seu olhar gelado congelando Draco no lugar. O silêncio parecia abafado, sufocante, quebrado unicamente pelas batidas rápidas do coração de Draco ecoando em seus ouvidos.

Potter. Pessoas morrendo. A prisão temporária de Lucius em Azkaban, e as dúvidas e medos de Draco. Tudo estava errado por causa de Potter.

Levantando o queixo, Draco lançou o golpe final. "É tudo sua culpa".

Harry suspirou profundamente e fechou os olhos por um momento antes de olhar para Draco de novo. Parecia como um homem velho e sábio que tinha ficado cansado de ouvir as idiotices de jovens aprendizes e cansado de discutir.

"É minha culpa", ele disse, e a ironia doentia que veio com essa declaração fez Draco dar um pequeno passo para trás. "Claro, é minha culpa. Logo, Voldemort vai me matar, mas essas pessoas continuarão morrendo, e ainda vai ser minha culpa. Faça com que ponham isso no meu epitáfio. 'Foi culpa do Harry Potter'".

"É o seu desejo se tornando realidade, Malfoy. Tudo o que você sempre quis, embalado num pacote bonitinho. Eu vou estar morto, os sangue-ruins vão estar mortos, e você vai ser o queridinho de Voldemort. Glória... Poder... Uma vida de servidão, só para você".

A voz de Harry se abaixou perigosamente, a tensão aumentando por trás de cada palavra. "Só se lembra, quando você estiver de pé sobre sua primeira vítima como um fiel Comensal da Morte de Voldemort, e você estiver olhando por cima da varinha para aquele trouxa ou sangue-ruim, ouvindo aos lindos gritos de dor até que você decida acabar com ele ou ela com um bom 'Avada Kedrava', só se lembre que é TUDO MINHA CULPA".

Draco ficou mudo, hipnotizado pela demonstração de Harry, que se reproduzia em sua mente como uma foto bruxa mal revelada. Uma contradição, Draco poderia ter agüentado isso, poderia ter abastecido sua raiva artificial, poderia ter continuado a briga. Isso, no entanto, não era uma contradição. Pego com a guarda baixa, aquela que Draco sempre acreditara ser a língua mais eloqüente de Hogwarts, a sua própria, ficou sem gás. Harry não se submetera ao jogo de Draco. Passara por cima dele.

Apertando os dentes, Draco esticou as mãos e agarrou duas das barras de metal e inclinou a testa no espaço entre elas. O metal frio contra suas têmporas acalmou a dor de cabeça que ele tinha acabado de perceber que começava a latejar ali.

"Com medo, Malfoy?".

A pergunta era tão diferente da que Draco havia feito antes do duelo anos atrás. Não possuía o mesmo rancor, nada do desprezo. Esse fato pegou Draco mais de surpresa do que o fato de que a pergunta tinha sido feita, ainda que não pudesse ver aonde Harry estava levando a conversa.

"De quê?". Tentou soar confiante, e falhou completamente.

"Voldemort. Eu vi você congelar quando seu pai disse que Voldemort queria falar com você".

"Você viu?". A pergunta saiu como um guincho. Draco não estava acostumado a mostrar suas emoções. Estava menos acostumado ainda com as pessoas as notando.

Uma faísca de divertimento passou pelo rosto de Harry. "É uma reação bem normal, julgando pelo fato de que talvez uma dúzia de bruxos no mundo consigam falar o nome dele. A maioria das pessoas está com muito medo".

"Você não está", Draco disse, mais rapidamente do que pretendia. "Com medo, quero dizer".

Harry deu de ombros indiferentemente. "De um jeito, sim, de outro não".

"Bom, pelo menos você está acostumado".

"Malfoy, você nunca se acostuma a enfrentar cara a cara sua própria mortalidade".

Draco riu amargamente. "Uma nova emoção a cada vez, não é?".

"Alguma coisa assim".

Observando o outro garoto, seu rosto pressionado contra as barras, um pensamento inoportuno veio à cabeça de Draco. "Eu acho... Eu quase entendo".

"Entende mesmo?", Harry perguntou, sem esconder o divertimento à declaração ousada. "Como é que é isso?".

"Enfrentar... Você-Sabe-Quem", Draco disse, suavemente.

Harry bufou. "Uma discussão frente a frente com Voldemort pode não ser a idéia de diversão de ninguém, Malfoy, mas você é o servo dele, não o alvo. Ele não te quer morto. Ele não se importa nem um pouco".

Draco o olhou friamente. "É isso mesmo, Potter. Você está certo sobre isso. Ele não se importa, e eu não importo para ele. Ninguém importa no final. Ele não é muito mais cordial com seus seguidores do que com os inimigos. Quem sabe? Ele pode decidir que eu não valho a pena".

Harry não podia entender bem porque Draco estava divulgando esta informação. O que Potter estava dizendo? E por quê? "Você quer que eu sinta pena de você ou coisa assim?".

"Não, Potter", ele suspirou profundamente. "Não quero".

Harry o estudou cuidadosamente, o cabelo loiro não mais perfeitamente liso, círculos cansados embaixo de seus olhos, as grades da cela deixando marcas em suas bochechas. Os nós dos dedos de Draco eram pontos brancos em dedos apertados com força em volta das barras, como se ele estivesse preso, olhando para fora.

"Você é tão prisioneiro quanto eu".

Draco sentiu sua garganta se apertar, nervoso de novo. "Como é isso, Potter?".

"Você não vê?". Harry inclinou a cabeça para o lado numa pose clássica de curiosidade.

Draco afastou o rosto das grades, como se elas o machucassem. "Eu não sou prisioneiro de ninguém!".

Um canto da boca de Harry se repuxou em um divertimento perverso. Era uma reviravolta fascinante ver esse jogo em particular virado. Ao mesmo tempo, no entanto, queria que Malfoy entendesse esse pequeno fato, como se, de algum jeito, realmente fizesse uma diferença. Talvez fizesse. "Ah, existem diferentes tipos de prisões, Malfoy, mas são prisões do mesmo jeito".

"E exatamente em que tipo de prisão eu estou, Potter? Explique para mim, porque felizmente a minha mente não funciona como a de um grifinório".

Harry sacudiu a cabeça incredulamente. "Eu já te disse antes, só que não com tantas palavras. São as escolhas que você faz, Malfoy. Elas são as suas próprias barras e correntes pessoais".

A boca de Draco se abriu ligeiramente, e ficou assim por um momento antes de responder, "Não isso de novo, Potter!"

"Você perguntou e eu te dei uma resposta honesta, o que é mais do que você merece", Harry disse, encolhendo os ombros.

As conversas desses últimos dias estavam correndo em círculos na cabeça de Draco, e sua exaustão não estava deixando nada mais fácil. A frustração de Draco com esse fio de pensamento atingiu o pico. Ele largou as grades e bateu o pé, irritado. "E eu já te disse, não é minha escolha! É simplesmente o que eu tenho que fazer! É o meu nome, minha herança...".

"Não é o que você quer?".

"Sim! Não! Que diabos você está fazendo? Pare de tentar me confundir!". Aquilo não era mais engraçado. Por que as suas palavras sempre pareciam vir na ordem errada perto de Harry? O que acontecera com

todas as réplicas que tinha guardado durante os anos? Por que a ponta afiada de sua astúcia de repente estava tão cega quando a parte de baixo de um caldeirão?

Harry deu de ombros indiferentemente, incitando Draco ainda mais.

"Ouça bem, Potter. Isso é exatamente o que eu quero. Quem não ia querer estar no time vencedor? Quem não ia querer mais poder do que alguém poderia imaginar?". Ele apontou o polegar para o próprio peito. "É o que euquero".

Olhos verdes se moveram de Draco para o chão, e então de volta para Draco. Harry falou com uma voz suave, quase preocupada. "Então porque você está com tanto medo?".

O olhar de Harry, de uma honestidade quase gentil, a rapidez com que seu próprio medo era usado contra ele e a verdade por trás da simples pergunta – tudo passou por Draco, sacudindo-o até a alma. Mordendo o lábio inferior, ele se virou e arremessou as costas contra as grades da cela. Passou os braços em volta do próprio peito, enrolando os dedos nas dobras de sua camisa e fechou os olhos com força contra a dor latejando por trás deles, esperando com uma esperança fútil que Potter não tivesse visto a expressão em seu rosto. Depois de um momento passado tentando se recompor, ele abriu os olhos e respirou, trêmulo.

"Porque, Potter", ele disse, o mais calmamente possível, ainda olhando para longe, "às vezes, quando você quer jogar para o time vencedor, o preço que se paga pelas falhas é muito, muito alto".

A sua voz falhou de novo, e ele mais uma vez fechou os olhos, sem ousar se mexer, muito menos se virar. Aquilo era vergonhoso além de qualquer coisa que já tivesse experimentado, e havia muito para comparar. A única coisa que tinha a seu favor era que lágrimas de verdade ainda não tinham escapado de seus olhos.

Harry ouviu as palavras calmas e refreadas; mas os ombros de Draco tremeram, e sua respiração estava desigual. O garoto estava realmente triste, chorando, mesmo que Harry não pudesse ver as lágrimas.

Não ouça, Harry, ele disse a si mesmo. Este é Draco Malfoy. Ele te entregou para Voldemort. Ele é tão mal quanto é possível. Pessoas como ele nem tem um coração para partir...

Harry suspirou. Pessoas sem coração não choram.

"Malfoy, eu...". Que diabos ele ia fazer? Consolar o desgraçado? Conversa civilizada era perfeitamente aceitável quando nenhuma emoção estava envolvida, mas agora, assim? Claro, já tinha aceitado que Malfoy não era um idiota completamente desumano, mas apoio emocional? Estender uma mão a ele?

Harry olhou para sua mão direita, a que ele usara para tocar a Chave de Portal, a que havia tocado a mão de Draco. Quase podia sentir o fantasma da sensação dos dedos de Draco contra os seus; aquelas mãos, mornas, macias, totalmente humanas. Naquele instante alguma coisa em sua percepção do outro garoto mudou. Eles haviam dividido o mesmo medo, a mesma conexão elétrica, e com isso a sensação de estar completamente sozinhos havia desaparecido completamente, mesmo em face de serem jogados na gaiola pessoal de Voldemort. Não era uma coisa que se podia esquecer ou ignorar facilmente.

Gostando ou não, ele e Draco estavam juntos nisso.

Draco ainda não tinha se movido e seus ombros também não tinham parado de tremer. Com todas as coisas que Draco tinha feito, dito, e desejado para eles pelos anos, Harry teria jurado que não acharia nada melhor do que ver Draco ter tudo voltando para assombrá-lo. Harry sempre tinha imaginado que iria adorar o dia em que visse Draco finalmente desmoronando e chorando de desgosto. No entanto, ele sabia como era enfrentar Voldemort. Tendo visto aquele sinal inesperado de humanidade, tendo visto Draco por baixo da fachada familiar que ele conhecia como Malfoy, não podia mais desejar algo de ruim para ele.

Harry se levantou e se aproximou de Draco cuidadosamente. Se Malfoy sentiu sua aproximação, não demonstrou. Parando perto das grades, Harry procurou alguma coisa para dizer, mas não encontrou.

Draco ouviu os passos de Harry se aproximando e sentiu seu hálito atrás dele. Uma vergonha furiosa queimou suas bochechas. "Suponho que você ache isso maravilhoso, Potter". Sua voz estava engasgada e hesitante. "Decidiu vir olhar mais de perto para poder rir de mim? Vá em frente, Potter. Ria à vontade".

Harry franziu as sobrancelhas com as palavras de Draco. Ele observou a cabeça do loiro se inclinar para frente, expondo um pescoço longo e agora inesperadamente vulnerável. Mechas soltas de cabelo caíam por sobre a nuca de Draco, loiro prateado no pálido, tudo tremendo com o movimento desigual de sua respiração. Sua expressão mudou para uma melancolia solidária. "Não, Malfoy, eu não estou rindo".

Surpreso pelo tom da voz de Harry, Draco levantou um pouco a cabeça e ele quase começou a se virar. As palavras não eram de zombaria, não estava rindo. Quase soavam como se Potter se importasse. Não, aquilo não era possível; ele estava simplesmente imaginando.

Então, de um jeito que Draco não tinha possibilidades de negar, o impossível aconteceu.

Uma pressão morna se encostou no ombro direito de Draco, lançando um arrepio quente por sua espinha. Sua respiração se prendeu e os pelos de seu pescoço se arrepiaram. Draco ficou rígido com a surpresa, uma dúzia de reações possíveis passando por sua cabeça.

Potter está me tocando! Me tocando! Bata nele, afaste-se! Mande ele se afastar. Ria de seu traseiro grifinório super sensível. Insulte-o. Fique totalmente enojado por tê-lo deixado te tocar...

Ainda assim, Draco não pôde fazer nenhuma dessas coisas, primeiro porque estava chocado demais para se mover, mas, mesmo quando havia superado a surpresa, foi interrompido por um pensamento que não achou que fosse seu.

Mas você não está enojado, está? A vozinha ecoou em sua cabeça mais uma vez, mais alto do que das outras vezes, e continuou. Ele já te tocou antes, ou mais especificamente, você o tocou. Admita, você está feliz pelo toque agora. Agradecido.

Não, não pode ser.

A vozinha não ouviu, só continuou alegremente. E você está agradecido porque é a coisa mais humana que já sentiu, a mais alarmante, a mais vívida. Você sempre era atraído para os conflitos com ele porque fazem você se sentir vivo.

Não...

Agora, você o tocou de verdade, se deixou ser humano, e não pode mais viver no seu pequeno vácuo. Vocês se conhecem, de um jeito que você nunca se permitiu conhecer seus amigos. O jogo começou, Draco. É tarde demais para fingir ignorância. O jogo começou.

Draco mal estava consciente de que chegara a se mover até que as pontas dos dedos de sua mão esquerda esbarraram no tecido cobrindo seu ombro direito, procurando por aquele toque humano que tinha sentido tanto a alguns minutos atrás como há uma vida inteira. Sem saber exatamente por quê, ele se achou repentinamente consciente do quanto precisava senti-lo de novo. Era um fruto proibido; amizade com o inimigo, onde as linhas definindo amigos e adversários haviam se borrado além do reconhecimento.

Finalmente, sentiu o calor da mão de Harry encostar na sua e, imediatamente, Harry se afastou. Por um instante fugaz, Draco se pegou com medo de que a sensação repentina de conforto que ele sentiu tivesse sido apenas uma ilusão.

Desanimado, estava prestes a abaixar a mão em uma tentativa de se poupar de maiores embaraços quando foi impedido por dedos quentes e secos circulando sua própria mão e apertando com força. Uma emoção que Draco não podia reconhecer o invadiu, e um único suspiro engasgado escapou de seus lábios antes de sua garganta se apertar.

Era uma completa loucura. Harry Potter estava segurando sua mão. Devia ter odiado, mas ao mesmo tempo parecia ser a única coisa o ancorando à realidade, qualquer que fosse ela, e ele estava

agradecido. Ficou parado um momento, sua mente entorpecida demais para realmente considerar o que estava acontecendo, relutante em quebrar o contato, ou incapaz. Depois de alguns instantes, mesmo que pudesse ter sido uma hora, Draco percebeu que sua mão estava tremendo. Assim como o resto de seu corpo. Tinha que se recompor, voltar à realidade.

Com a respiração trêmula, afastou a mão e lentamente se virou. De um rosto neutro, dois brilhantes olhos verdes o olhavam curiosamente. Draco esticou a mão e agarrou uma das barras com a mão para se acalmar e abaixou os olhos.

"Você está bem?", Harry perguntou, gentilmente.

Draco apertou os dentes. Não podia responder àquilo. Tinha muito medo do que poderia ser forçado a dizer, e, uma vez na vida, não achava que podia mentir se quisesse. Em vez disso, olhou para sua mão, os nós dos dedos brancos em volta da barra, seguindo as linhas da mão para o pulso e as manchas escuras que ainda o circulavam, cicatrizes de sua própria punição muito tempo antes. Olhou de seu próprio pulso para o de Harry, escondido pela manga do suéter desgastado que ele usava, e então de volta para o seu.

Por medo de que sua voz fosse se partir de novo, perguntou num sussurro, "Os cortes nos seus pulsos, das correntes, já estão curados?".

"Quê?". Harry soou surpreso.

"Eu perguntei se os ferimentos nos seus pulsos já estão curados".

Harry o olhou curiosamente por um instante, mas ao invés de responder, ele lentamente envolveu a manga direita com a mão esquerda e empurrou o tecido para cima, e então estendeu o braço para Draco ver.

Draco afastou o sentimento de enjôo que estava se formando em seu estômago quando absorveu a imagem. O pulso de Harry estava circulado por um anel de cicatrizes que pareciam dolorosas, descascando nas bordas, algumas escorrendo um pouco, obviamente por falta de cuidados decentes. Os ferimentos deixariam um bracelete permanente de cicatrizes amarronzadas, um lembrete permanente da dor e humilhação que Harry havia passado, a punição, acorrentado a parede, um prisioneiro do calabouço dos Malfoy.

Do mesmo jeito que Draco.

"Eu podia curá-las para você", Draco disse, gentilmente, sem se deixar olhar do pulso de Harry para seu rosto. "Se você quiser".

Ele observou quando Harry abriu e fechou o punho, como se o testando se a mão presa a um pulso tão machucado ainda estava funcionando direito. "Acho que preferiria que não".

"Vai deixar a cicatriz, sabe".

"Eu sei", Harry reconheceu. "Já estou bem acostumado com cicatrizes".

"Então porque você quer mantê-la?".

Harry abaixou a mão, e a manga caiu e cobriu as feridas mais uma vez. "Para me lembrar, suponho. É outra provação que eu passei, algo que eu superei. O que não me mata só pode me deixar mais forte, ou assim diz o ditado. Eu não sei se é verdade. Acho que deve ter alguma coisa aí, senão porque tantas pessoas diriam?".

"Oh". A idéia parecia um pouco masoquista para Draco, mas quem era ele para dizer qualquer coisa. Ele olhou para o próprio pulso de novo, e se perguntou se aquilo era tão diferente.

"Porque você quis saber disso, assim de repente?".

Draco levantou a cabeça, considerando a pergunta. Ele realmente não tinha idéia de porque queria contar a Harry sobre os próprios pulsos, sua experiência no calabouço dos Malfoy. Poderia ter sido uma réplica bizarra, alguma coisa que dissesse, "Há, eu fiz isso também, e era mais novo", mas aquilo não estava nem um pouco certo. Ele poderia ter feito algo assim quando tinha doze anos, mas não agora. Especialmente não agora. Ele queria simpatia? Absolutamente não. Havia superado suas necessidades por essa emoção anos atrás e a dor verdadeira do incidente era só uma lembrança. Draco Malfoy não precisava de pena pela dor do passado.

Era, talvez, que ele na verdade quisesse alguma coisa em comum com Harry. Um laço, uma provação em comum, e entendimento. Talvez, só o que ele queria era que Harry o entendesse, por qualquer razão.

Sem nenhuma expressão, Draco abaixou a mão livre, delicadamente segurou a ponta da manga entre o dedão e o indicador, e a puxou para revelar seu próprio pulso magro. Ele o levantou para Harry poder ver. A fraca luz de tochas da masmorra faziam as velhas cicatrizes ainda mais aparentes.

Harry deu um passo a frente e se inclinou, examinando o pulso oferecido calmamente, cuidadosamente. Draco virou o braço para que Harry pudesse ver todo o circulo de machucados.

"Essas são...".

"Eu as consegui do mesmo jeito que você. Mesmo lugar, mesmas algemas".

Os olhos se arregalaram, assustados, descrentes. Draco lhe deu um aceno de cabeça solene em confirmação.

"Por quê?". Era tudo que Harry podia dizer.

Draco deu de ombros. "Eu me meti em encrenca".

"Seu... Seu pai fez isso com você?".

"Era uma punição justa!", Draco gritou, mais na defensiva que tinha pretendido.

"Então o que você fez para merecer isso?".

Draco abaixou a mão de volta para a grade, a agarrando com força, seu pulso ainda exposto. "Eu queria levar alguma coisa comigo para Hogwarts para impressionar os outros alunos do primeiro ano. Eu sabia que ia ficar na Sonserina, e eles ficam muito impressionados com poder". Fez uma pausa e respirou profundamente antes de continuar. "Eu entrei escondido no estúdio do meu pai, procurando por alguma coisa adequada para levar, e ele me pegou".

Harry o olhou alarmado. "Isso foi antes do primeiro ano?".

O lábio de Draco se retorceu, mas era mais uma expressão de dor do que de orgulho. "E daí?".

"Você só tinha onze anos, e seu pai te acorrentou num calabouço?".

"Foi só por uma noite". Draco afastou a descrença de Harry.

Harry deu meio passo para trás, os olhos se arregalando, sem querer ouvir o que Draco dizia. Não importava. Ele já havia visto o suficiente nos olhos de Draco para saber. Os Malfoy podiam gostar de pensar que tinham classe, mas eram tão desalmados quanto os Dursley. Forçando submissão, obediência. Os Dursley nunca haviam danificado Harry, mas em uma brincadeira perversa da psicologia, os Malfoy haviam danificado Draco.

A idéia de Draco como um prisioneiro em sua própria casa, para o seu próprio nome da família, um escravo de Voldemort, treinado cuidadosamente, afiado até a perfeição, aprisionado pelos ecos de sua própria criação, aprisionado por suas próprias cicatrizes.

E Harry entendeu.

Esse era Malfoy. O garoto que ele era, um produto de sua herança; mas novas idéias estavam começando a criar raízes, flores selvagens num campo cuidadosamente cultivado. Ele era um Malfoy, mas ele também era Draco, e além da repugnância profunda que ainda sentia por Malfoy, Harry não podia se impedir de vê-lo pelo que era, quem era, e porquê. Ainda que Harry fosse um participante voluntário, era mais uma vítima.

Harry sentiu um aperto no peito. Por um momento, ele o confundiu com pena, mas não era. Piscou, surpreso. Pelas barbas de Merlin, estava simpatizando com Draco Malfoy.

"Só por uma noite". Repetiu, encarando Draco diretamente, procurando por algum sinal de que tudo fosse uma piada, mesmo que soubesse perfeitamente que não era. O Malfoy que ele conhecia nunca admitiria uma fraqueza, muito menos como uma piada. Harry percebeu que devia ser mesmo difícil para ele admitir isso.

"Era uma lição que eu precisava aprender", Draco disse, secamente.

"Que tipo de droga de lição, Malfoy?", Harry perguntou, repentinamente irritado, mas não com Draco. "Que tipo de lição requer um menino de onze anos acorrentado à parede de um calabouço durante a noite?".

"Não foi tão terrível assim!". Draco protestou, tentando vagamente reclamar seu ego. Ele afastou a mão das grades e distraidamente começou a esfregar o pulso. "Meu pai queria que eu aprendesse alguma obediência. Eu o tinha desobedecido, e foi errado. Eu tinha que aprender a dar valor ao meu nome, aprender que eu tinha que lutar pelo poder, não roubá-lo. Ele queria que eu fosse forte...". Sua voz sumiu.

Harry olhou para Draco com uma expressão incomodada por um momento. "Ele conseguiu?".

Draco sentiu sua garganta apertando de novo, e sua falha em dar uma resposta incitou um aceno de cabeça de Harry.

Ainda esfregando o pulso, Draco se virou e disse, suavemente, "Você sabe o que foi pior?".

"O quê?".

"Não muito tempo depois do meu pai sair, tive uma coceira terrível na ponta do nariz. Não pude coçá-la a noite toda".

Quando ele olhou de volta, Harry estava sorrindo de novo, numa combinação de divertimento e empatia. Draco deu uma risada em resposta.

"Por que você não curou suas cicatrizes por mágica?", Harry perguntou simplesmente.

Piscando uma vez, Draco percebeu que ainda estava esfregando o pulso e rapidamente separou as mãos e agarrou a grade mais uma vez, dessa vez com a outra mão, precisando fazer alguma coisa com as mãos para se impedir de retomar o movimento nervoso. "Pelo mesmo motivo que você, acho. Para me lembrar; para que nunca esquecesse".

Ele olhou pelas grades, encarando a famosa marca na testa e Harry, e então seus estonteantes olhos verdes. "Acho que cicatrizes são mesmo lembretes poderosos...".

Harry replicou com um ronco neutro.

Draco olhou para baixo, inexplicavelmente envergonhado. Ele nunca havia falado dessas coisas com ninguém, mas ali estava, contando seus segredos mais pessoais para seu inimigo jurado.

Mas ele não é mais seu inimigo, é?

Draco piscou em resposta a esse pensamento errante. Não, acho que não.

Quando Draco piscou de novo, ficou chocado ao encontrar duas grossas lágrimas descendo por suas bochechas, finalmente escapando depois de ele tentar tanto segurá-las. Estava prestes a se virar quando um calafrio agora familiar subiu por seu braço quando Harry esticou a mão pelas grades e passou os dedos em volta do pulso de Draco. As lágrimas silenciosas se tornaram um resmungo de protesto. Ele tentou afastar a mão, mas Harry a segurou rapidamente, antes de puxar a mão de Draco pelas grades apenas alguns centímetros. Draco estava surpreso em saber que não sentia uma vontade imediata de se afastar.

Harry virou a mão de Draco gentilmente, quase ternamente, e empurrou a manga para longe do círculo de manchas escuras em volta do pulso. Segurando a palma de Draco com uma mão, Harry passou dois dedos levemente pela pele machucada, delineando as antigas cicatrizes. Ele virou a mão de Draco, expondo a parte de dentro sensível do pulso, e seus dedos pousaram sobre o ponto de pulsação.

Draco podia sentir sua própria artéria batendo contra os dedos de Harry. Ele também se sentia assustadoramente vulnerável. Assim, Harry podia fazer qualquer tipo de coisa violenta com ele, mas Draco sabia com uma certeza alarmante que não era crueldade que Harry tinha em mente. Era como se Harry estava decidindo consigo mesmo se Draco tinha mesmo um coração. Claro, Draco sabia que tinha, pois esse coração por acaso estava martelando em seu peito, e Draco estava igualmente certo de que Harry sentia seu pulso elevado. Quando ele pareceu ter chegado à sua conclusão, ele deu à mão de Draco um único aperto firme e a soltou.

Draco não se moveu. A mão ainda estendida diante de si, ainda sentindo o toque prolongado em seu pulso, ele tentou afastar o vácuo frio que tomava conta de si de novo, o vazio gelado que tinha sido sua única companhia dentro das paredes que construíra em volta de si.

As paredes haviam desmoronado.

Era um erro mortal: ele tinha se permitido sentir. Sua proteção, que havia ficado progressivamente mais fraca na presença de Harry, acabara. Todos os anos de um treinamento cuidadoso, destruídos por um mero toque, e ele estava prestes a ficar cara a cara com o Lord das Trevas.

Ainda congelado no lugar, ele perguntou num sussurro rouco. "Porque você fez isso?". Ele olhou para a expressão pensativa de Potter, e repetiu, mais asperamente desta vez. "Por quê?".

Harry deu de ombros, mas não era um movimento casual. Parecendo que lágrimas iam saltar de seus próprios olhos, ainda que estivessem perfeitamente secos, ele disse, suavemente: "Tinha que fazer. Não sei porque. Só tinha que ver...".

Draco estava dividido entre a necessidade enorme de ceder ao alívio que sentira em se permitir ser humano, falar abertamente, tocar; e o medo que estava se formando em sua mente como água negra e gelada. Pelo amor de Merlin, ele estava no quartel general de Voldemort! Ser fraco aqui era arriscar sua vida, e Potter estava certo. Ele estava com medo.

Aterrorizado.

Afastando a mão repentinamente, ele a puxou para seu peito, mantendo-a perto de si, e ficou em pé o mais reto possível contra o terror pulsando em suas veias. Ele olhou para Harry desesperadamente. "Nunca mais faça isso".

"O que foi? Eu só achei...".

"Bom, você achou errado, Potter!", ele berrou. "Você não tem idéia do que acabou de fazer".

Harry deu um passo para trás, visivelmente estupefato. "O que quer dizer, o que eu acabei de fazer?".

"O que você fez! Você... Você simplesmente estragou tudo!".

"Como eu estraguei qualquer coisa? Para alguém que você apunhalou, capturou e entregou a Voldemort, eu diria que tenho sido completamente gentil com você! Eu estavatentando te ajudar! Pelo que eu pude ver, ambos estamos contra Voldemort, e você está morrendo de medo! Eu sei como isso é. Obviamente, você não".

"Você não tem a MÍNIMA idéia de como é para mim agora!".

"Ótimo, Malfoy. Da próxima vez que você estiver a beira das lágrimas, me lembre de ser um canalha desalmado com você. Aparentemente é como as pessoas funcionam por aqui!".

Draco bateu o pé em frustração, emoções quentes pulsando por trás de seus olhos mais uma vez. "Isso é exatamente o que eu preciso! Você simplesmente não entende!".

"Bom, caralho, Malfoy. Explique para mim então, porque uma vez na vida você está certo. Eu não entendo".

Draco virou a cabeça para o lado, tentando desesperadamente formar um pensamento coerente através do labirinto que parecia estar se formando em sua mente, antes de dar a resposta mais calma que conseguiu.

"Cinco dias atrás, Potter, quando eu estava planejando tudo isso, eu estava pronto. Eu poderia ter encarado Voldemort. Desapegado, frio, calculista; é assim que você tem que ser perto dele. Raiva pura é a única emoção que você pode se permitir sentir, porque ela encobre o seu medo, te permite odiar. Foi para isso que eu fui treinado. Eu mal estava pronto, e só porque eu tinha ensinado a mim mesmo a não sentir, mas eu poderia ter feito. É assim que é, Potter. Controlar seu medo, controlar suas emoções. O Lorde das Trevas pode olhar direito pelos seus olhos para sua alma. Sabia disso?".

Harry estremeceu interiormente, mas não disse nada.

"Se as suas paredes desmoronarem, se ele chegar a ver seu medo, então você não é digno. Se você não é digno, é descartado. Eu espero que não precise explicar isso para você".

"Nem um pouco, acho que posso descobrir sozinho", Harry disse, asperamente. "Só pensei que um pouco de consolo não ia fazer mal...".

"Isso é exatamente o que vai me matar aqui, Potter! Você realmente não entende, não é?".

Draco apertou a palma da mão contra o rosto em frustração. Não havia razão para simplesmente não falar tudo. Ele mal tinha forças para conter-se, mesmo que quisesse. Era hora de ser honesto, consigo mesmo tanto quanto com Potter. Ele tomou fôlego lentamente pelos dedos trêmulos antes de afastar a mão.

"Eu fui ensinado a contar comigo mesmo, a não sentir nada. Você é a única pessoa que pode tirar emoção de mim que eu não pude impedir, mas enquanto era raiva, eu ainda estava seguro. Você acabou de destruir a única defesa que eu tinha, Potter. Em três malditos dias, você me destruiu".

A mandíbula de Harry pendia frouxamente enquanto ouvia ao discurso de Draco.

Draco mal notou a facilidade com que estava mostrando tanto de si mesmo através de suas palavras. Era bom desabafar tudo. Seus pensamentos ferviam livremente até a superfície, vindo quentes e rápidos.

"Contanto que você estivesse me provocando, eu ainda podia te odiar. Mas não, você tinha que ir e virar um ser humano para cima de mim. Tinha que se tornar real. Caralho, você até decidiu ser legal. De repente você me forçou a realmente sentir. Eu não tenho defesa contra isso. Agora, eu não tenho nada, nenhuma parede, nenhuma segurança... Nada para me defender do Lorde das Trevas".

Ele riu amargamente. "É quase irônico. Eu te trago aqui para morrer, e você tão efetivamente me mata".

Harry inalou profundamente em assombro com a franqueza repentina que Draco estava mostrando, a honestidade dolorosa. "Você ainda não está morto, Malfoy".

Draco bufou. "Perto o suficiente. E não era isso que você sempre quis ver?".

O olho de Harry tremeu. "Não, Malfoy", ele disse finalmente. "Não é isso que eu quero".

Draco parecia duvidoso. "Mesmo que eu tenha feito isso com você?", ele disse, indicando a cela, as masmorras em volta deles.

Harry considerou o olhar assombrado nos olhos de Draco. A pele dele estava mais pálida do que o normal. O suor frio começava a brotar em sua testa, e os círculos escuros em volta de seus olhos eram toda a prova de que Draco estava exausto, emocional e fisicamente. O ligeiro tremular de seus lábios de um rosa pálido; o tremor forçado de sua posição demonstrando ainda mais este fato. Quando tinha sido a última vez que o garoto dormira?

"Não", Harry respondeu com uma gentileza firme. "Porque nenhum ser humano merece ter que lidar com isso, Malfoy. E você também é humano".

Draco sentiu seus joelhos encontrarem o chão quando suas pernas finalmente cederam embaixo dele. Ele ficou ajoelhado por um momento, entorpecido para o mundo a sua volta, sem sentir, sem ouvir, sem ver. Se ele fizesse qualquer uma dessas coisas, seria humano novamente, e temia isso mais do que tudo.

Humanos são frágeis. Eles sangram, eles se cortam, criam cicatrizes, morrem.

Eu não quero morrer.

Não aqui. Não assim.

"Eu não quero morrer".

"Eu entendo isso. Eu também não". A voz de Harry se partiu.

Draco não tinha estado consciente de que falara alto. Ele percebera como realmente estava exausto, começando a perder o controle de suas faculdades, até se tornando um pouco histérico. Piscando umas duas vezes como se isso fosse dissipar a neblina que invadia seu cérebro, levantou a cabeça contra o peso de chumbo que parecia ter se depositado sobre ele.

Olhou pelas grades para onde Potter agora estava ajoelhado em frente a ele; observou quando Harry fechou uma mão pequena sobre uma das barras entre os dois. As bordas do ferimento em seu pulso ainda eram visíveis sob a manga. Draco olhou para elas um momento, e então de volta para o rosto de Harry, que o estava examinando com algo como preocupação.

Foi então que Draco percebeu que os cantos das feições de Harry estavam embaçados. De fato, tudo estava se misturando como uma pintura em aquarela deixada na chuva. Apenas vagamente se lembrava que faziam horas desde que tomara sua poção para dormir sem sonhos, e a pequena parte de seu cérebro que ainda funcionava logicamente o repreendeu por seu esquecimento. Não que importasse, é claro. Era tarde demais.

Sentindo a parte superior de seu corpo se inclinar para a frente quando seu senso de equilíbrio desapareceu, a mão de Draco se levantou e agarrou uma barra por suporte, esbarrando na mão de Harry. Ele podia sentir o calor irradiando dela e o pequeno arrepio que atravessou a dormência que se espalhava, e o deu a força de um momento, apenas o suficiente para sussurrar, "Obrigado".

Então, estava caindo para frente contra as grades, sua exaustão finalmente tomando conta dele. Sentiu uma mão agarrando a sua, e a última coisa que ouviu antes de desmaiar foi seu nome.

"Malfoy? Malfoy! Draco!".

"Malfoy?". Uma voz familiar falou asperamente em seu ouvido enquanto alguma coisa o cutucava nas costas.

Vá embora, ele pensou. Eu estou tão cansado. Muito, muito cansado. Me deixe em paz.

"Malfoy! Acorde! Você está dormindo há horas! Argh!".

A urgência e dor na voz finalmente arrancaram Draco de seu sono adoravelmente sem sonhos, e ele percebeu com um choque onde estava: caído contra as grades da cela de Potter.

Dormindo em serviço. No quartel general do Lorde das Trevas. Caralho.

Com uma onda de puro terror, ele saltou de pé, cambaleando, vacilante por um momento.

Examinou as masmorras rapidamente, preso no medo irracional de que alguém tivesse chegado e o encontrado dormindo no chão. Ao invés disso, o aposento estava vazio, e ele ainda estava sozinho com Potter. Furioso de que outra fragilidade humana havia posto sua vida em risco, descontou sua raiva no único alvo disponível.

"Potter! Seu idiota! Como pode ter...?".

Draco de repente ficou em silêncio quando percebeu que Harry ainda estava de joelhos. Só que agora, ele estava esfregando a testa com as mãos. Draco sabia que isso só podia significar uma coisa.

"Ele voltou?".

Ainda esfregando, Harry acenou a cabeça em confirmação. "Ele voltou".

Draco sentiu seus olhos se arregalarem. "Por que você me deixou dormir assim?".

Harry abaixou a mão e o olhou mesmo com a dor. "Você precisava desse sono".

"Mas se ele tivesse voltado, e decidido vir aqui embaixo?", Draco gaguejou, ainda nervoso.

"Eu sabia que ia perceber o instante que Voldemort voltasse. Achei que seria bom para você descansar um pouco".

Um sentimento de gratidão surgiu em Draco, apenas um instante antes do medo agarrá-lo de novo. Seu cérebro entorpecido pelo sono ainda estava lutando para acordar, e irracionalmente rápido se juntou a seu medo.

"Caralho! Isso significa que ele logo vai vir aqui! Como eu vou fazer isso, droga? Ele vai olhar uma vez para mim, e vai saber. Ele vai saber que eu não sou forte o suficiente. Oh, Merlin...".

Harry observou enquanto Draco começou a andar pela pequena parte do corredor freneticamente, e um olhar de arrependimento passou por seu rosto.

Draco parou de andar de repente, e se virou para encarar Harry. "Eu te disse, não olhe para mim assim! Você só vai deixar pior. Isso é, a menos que você esteja mesmo tentando me matar, o que eu não duvidaria".

Harry pareceu considerar isso, então sua expressão mudou. Ele se levantou. Seus olhos se estreitaram maliciosamente por trás de seus óculos e sua boca se retorceu num sorriso maligno. "Quem se importa, Malfoy? Você é só um idiota sonserino gosmento. Uma cobrinha, se curvando e beijando o chão embaixo dos pés da maior cobra de todas".

"Que diabo...?". Draco estava completamente surpreso pela repentina mudança de atitude em seu prisioneiro, ainda não acordado o suficiente para processar a súbita mudança na conversa.

"É, Malfoy. É isso. Tremendo em suas botas, não está? É isso, a cobrinha covarde dele numa coleira. Uma coleira curta, na verdade".

"Qual é a droga do seu problema?".

"Heh, o meu problema? Absolutamente nenhum. Lembra? Eu sou o alvo principal de Voldemot, mas é você que está morrendo de medo".

"Vai se ferrar, seu... Seu... Seu patético cabeça de cicatriz!".

"Cabeça de cicatriz? É o melhor que pode fazer, garoto-doninha? Talvez Voldemort goste de uma doninha para combinar com seu rato de estimação. Você se lembra como quicar, Malfoy?".

Draco explodiu por um momento com a lembrança, sentindo a vergonha furiosa do incidente tão fresca quanto um ferimento novo, e se lembrando de como Potter tinha sido a causa dele, antes de gritar, "Seu desgraçado arrogante!".

"É 'Desgraçado Arrogante Que Sobreviveu' para você, garoto-doninha". Harry começava a parecer muito satisfeito consigo mesmo. "Eu enfrentei Voldemort quatro vezes e ainda estou aqui. Qual será o seu titulo depois de seu pequeno encontro com Voldemort? 'Malfoy, a Doninha Covarde Que Não Conseguiu Direito' soa bem".

Draco fechou os punhos enquanto encarou Harry, o jeito casual do garoto o enfurecendo ainda mais. "Sua maldita aberração metida a santo! Depois de tudo que eu fiz por você; sabe de uma coisa, pode esquecer! Por mim, Você-Sabe-Quem pode te abrir e te deixar para sangrar até a morte. Eu vou assistir e rir!"

"Não, se Voldemort já tiver feito isso com você, não vai. Você é tão digno de pena, Malfoy. Realmente é".

Foi a última gota. Agitando, cada músculo em seu pescoço inchado de modo não natural, Mafoy finalmente ouviu o suficiente. "FODA-SE!".

"Você está irritado com alguma coisa, Malfoy?". Harry provocou, parecendo estranhamente satisfeito.

"Óbvio que estou, droga!".

"Não está com medo, está, seu fraco covarde?".

"Eu nunca tenho medo!". A resposta foi automática, algo que Draco havia repetido para si mesmo tantas vezes em sua juventude. Ele não sentia nada além do antigo sentimento de raiva familiar em suas veias. Quente. Queimando. Empurrando todo o resto.

Ele encarou Harry, mentalmente amaldiçoando o garoto por sua estupidez, sua ingratidão, suas maneiras insolentes. Ele se sentia irritado. Ele se sentia poderoso. Ele se sentia...

Ainda estremecendo ligeiramente contra a dor em sua testa, Harry acenou com a cabeça uma vez em aprovação. "Ótimo. Então fique assim, seu idiota".

Draco só teve um milésimo de segundo para registrar o que Harry havia na verdade feito, antes de ouvir a porta da masmorra se abrir com um estrondo e Lucius Malfoy entrar no corredor enfurecido. Draco se virou para cumprimentar o pai com um aceno de cabeça respeitoso, e tudo voltou automaticamente ao lugar.

Todos os seus velhos gestos praticados, de suas expressões faciais até sua postura se formavam tão facilmente quanto uma escultura sem falhas que havia levado anos para ser feita. Essa obra de arte tinha sido entalhada em sua raiva fria, que Potter havia tirado dele e tão facilmente devolvido ao lugar.

Em três dias, sem mágica, Harry havia feito Draco em pedaços e o reconstruído. Ainda assim, por baixo de toda a arquitetura, havia um elemento escondido que não estava ali antes. Ou talvez, Draco nunca tivera consciência dele até agora.

Lucius lançou a Harry um rápido olhar desdenhoso antes de virar para o filho. Não havia nenhuma saudação calorosa, apenas negócios, como sempre. "Os ataques de ontem a noite foram altamente bem sucedidos, Draco, então o Lorde das Trevas deve estar num humor bem moderado. Ele espera por você no saguão principal".

Draco começou a sentir a fria onda de medo tomar conta de si mais uma vez, mas tão rapidamente se agarrou à sua raiva residual como se fosse salvar sua vida. Ele inclinou a cabeça numa pequena curvatura, "Sim, pai".

Um sinal de preocupação e afeição parental passou brevemente pelos olhos de Lucius, mas foi rapidamente afastado. "Você vai conseguir, Draco. Lembre de seu treinamento. O Lorde das Trevas espera subserviência, mas ele não permite fraqueza em seus seguidores. Quando ele andar, siga atrás dele. Dois passos atrás e a sua esquerda, até que ele o convide a andar a seu lado. Mantenha os olhos abaixados até que ele lhe diga para olhá-lo. Ele vai te questionar, e quando o fizer, mantenha em mente que tudo e todos são secundários à sua obediência a ele".

Sem poder ou sem querer falar por medo de deixar suas emoções transparecerem, Draco meramente curvou a cabeça mais uma vez.

"Muito bem, então", Lucius disse, com uma casualidade que escondia a situação. "Eu o livrarei da tarefa de guarda até que retorne". Um "se você retornar" não dito pairou no ar, uma preocupação sempre presente quando em companhia de Voldemort.

"Agora...", ele disse, inclinando a cabeça em direção à saída. "O Lorde das Trevas está esperando".

Draco lançou um último olhar ao rosto de seu pai, procurando por mais algum sinal de interesse e preocupação, mas não havia nada. Apenas a fachada aristocrática: a marca registrada do desprezo Malfoy. No entanto, quando ele se virou para partir, ele olhou rapidamente para Harry, que o observava atentamente, mandando um encorajamento silencioso quando Lucius parecia para o mundo todo não se importar.

Ele não podia se dar ao luxo de fazer nenhum gesto, mas Draco tinha certeza de que Harry percebera a gratidão que ele sentia. Se Voldemort pudesse ver o que Draco estava pensando através de seus olhos, por alguma razão, tinha muita certeza de que Harry também podia. Quando ambas essas idéias uma vez o aterrorizavam, a segunda não mais. A primeira... Bem, ele estava prestes a descobrir. Sem outro olhar, Draco se virou e deixou as masmorras, deixando a porta se fechar com um estrondo.

As escadas de pedra eram um pouco largas demais para um andar confortável, e iluminadas por candeeiros distantes demais um do outro para o gosto de Draco. Enquanto subia, considerou exatamente o que Harry acabara de fazer por ele. Trazia um novo significado ao conceito "cruel para ser gentil". Harry havia escutado ao que Draco dissera. Escutado e entendido. Draco ainda podia sentir o rubor de raiva em suas bochechas, e seu pulso ainda estava elevado pela discussão acalorada. Ele cautelosamente cuidou daquele fogo, tentando direcioná-lo à sua fonte: Potter. Havia achado combustível suficiente para mantê-lo aceso, mas quanto mais pensava na estranha gentileza que Potter havia mostrado, mais incapaz de senti-lo ele se tornava.

Afastou seus pensamentos de Harry e se concentrou no som oco de seus passos ecoando pela escada vazia, tentando afastar seus pensamentos de Potter.

Passos. Ocos, vazios, como sua vida, ou mais especificamente, como sua vida havia sido.

Ocos, do jeito que ele fora criado para ser, desprovido de qualquer sentimento humano verdadeiro.

Todas as coisas que tinham sido negadas enquanto crescera; seu treinamento duro, suas lições, ecoando em seu cérebros como passos no corredor.

Do jeito que tinha sido afiado e moldado com um propósito, um objetivo na vida, ser o servo perfeito de Voldemort.

Nascido, criado e treinado para a escravidão.

Encolher-se de medo... Ele odiava isso com paixão.

A raiva escaldante retornou; quente, mas sem rosto. Fúria vazia e oca.

Alcançou o topo da escada e observou o saguão diante de si. Um teto alto, em sua maior parte iluminado pela luz do dia se infiltrando por janelas altas e estreitas. Sem confortos, sem decoração ou ornamentos. Frio, desalmado, puramente funcional e grande apenas em tamanho. Era o lugar perfeito para o Lorde das Trevas. Portas de madeira ficavam de cada lado do saguão de entrada, mas no canto mais distante havia uma porta maior do que as outras.

Era isso, e Draco estava tão preparado quanto podia estar.

Não notou que estava andando em direção à porta; ele a viu aumentar de tamanho cada vez mais até que por fim estava passando por ela. De pé a apenas cinco metros de distância, parecendo tão terrível quanto na memória que Draco tinha dele, estava Voldemort.

Draco deu dois passos silenciosos para dentro do aposento e imediatamente se abaixou em um joelho, olhando para o chão a frente de si. Aproximar-se mais seria inapropriado para um Não Iniciado.

"Meu Senhor", ele disse, em suas melhores maneiras.

Voldemort não falou, mas ao invés disso cruzou a distância entre si mesmo e Draco. Mais uma vez, Draco se viu olhando para as pontas brilhantes das botas de Voldemort. Ele mentalmente lançou um pouco de calma artificial em seu corpo, mantendo sua mente silenciosa mas alerta, como um predador.

"Diga, minha jovem cobra, você é uma criança ou um homem?".

Sua mente deu uma rápida cambalhota com a pergunta inesperada. O primeiro instinto de Draco foi responder que era certamente um homem, mas ele se impediu. Ele não podia fazer essa afirmação sem a aprovação de Voldemort. Ao invés disso, ele respondeu, "Meu Senhor, não sou nada além de um humilde servo, para o senhor nomear".

O silêncio caiu sobre o aposento, e Draco começou a temer que tivesse respondido incorretamente.

Depois de alguns instantes temerosos, no entanto, uma risada curta e cruel escapou de Voldemort. "De fato", ele disse. "Muito astuto, jovem Malfoy. Se ao menos todos os meus servos fossem tão afiados e tão precisos. Mas então, nenhum deles me trouxe Harry Potter. Siga-me".

Com isso, Voldemort passou por Draco e rapidamente saiu do aposento, lançando no rosto de Draco uma rajada de ar frio que cheirava a pedras de uma masmorra quando ele passou. Draco se levantou e rapidamente andou atrás do Lorde das Trevas, para a esquerda, dois passos atrás, como seu pai lhe instruíra. Não tinha idéia de onde Voldemort o levava, mas não estava em posição de perguntar. Nunca era a posição de um servente questionar seu senhor.

Os dois pares de passos ecoavam em perfeita sintonia pela entrada do saguão e pelos corredores desertos, até o fim de uma escada em espiral. Voldemort começou a subir, e Draco, engolindo seu desconforto crescente, só podia continuar a segui-lo cegamente.

"Malfoy, você está preparado para sacrificar qualquer coisa para obter poder?".

Outra pergunta capciosa.

"Para servi-lo, Meu Senhor, qualquer coisa". As palavras soaram falsas nos ouvidos de Draco, como se ele não pudesse acreditar que haviam saído de sua própria boca. Mais uma reação que havia sido programada em sua mente desde a infância.

"Verdade?". O desafio pairou no ar enquanto eles continuavam a subir.

Draco engoliu em seco. "Sim, Meu Senhor".

"Você é uma cobra ambiciosa, jovem Malfoy, mas talvez jovem demais. No entanto, um dos meus servos mais leais mal tinha a sua idade quando se juntou a meus seguidores. Baseado na convicção de seu pai de que você era apto a tanto, a tarefa quanto aos méritos do nome Malfoy, eu lhe permiti uma oportunidade. Em resposta a essa chance, você me trouxe Harry Potter". O Lorde das Trevas parecia estar falando mais consigo do que com Draco. "Sua ambição poderia levá-lo longe, talvez as fileiras mais altas entre os Comensais da Morte, mas tal poder tem seu preço".

Draco sabia que nada vinha sem um preço; que tudo tinha que ser conquistado. A idéia não era nova para ele, mas ainda assim ele ouviu atentamente enquanto eles continuavam a subir, sentindo que estaria pronto para esse desafio.

"Você está disposto a matar, Malfoy?".

"Ao seu comando e sem hesitar", Malfoy respondeu automaticamente.

Eles chegaram a um pequeno patamar, e com alarmante rapidez Voldemort girou no lugar, circulando Draco tão rápido que o garoto teve que parar para não colidir com o Lorde das Trevas. Ele se abaixou em um joelho, rapidamente curvando a cabeça.

"Ao meu comando...", Voldemort disse lentamente, saboreando cada palavra como se tivesse experimentando um gole de um bom vinho, "e sem hesitar".

Draco tinha sido preparado para responder aquela pergunta por anos. Mas agora que ele realmente dissera... Soava diferente. O olhar de Voldemort perfurava o topo de sua cabeça, e Draco lutava para manter sua mente vazia.

"Sem hesitar". Voldemort ecoou novamente. "Me diga, e se precisasse matar ou deslocar um seguidor menos digno para subir nas filas?"

Draco congelou com a pergunta. "O que quer dizer, Meu Senhor?".

Voldemort riu, uma risada curta e cruel. "Um Comensal da Morte não ganha influência somente por minha palavra. Obviamente sabia disso?".

"Sim, meu senhor", Draco respondeu automaticamente.

"Bom. Eu não terei ninguém além dos melhores como meus seguidores, e somente os melhores destes serão merecedores de ascensão nas filas. Um verdadeiro Comensal da Morte nunca se deixaria ser liderado por um inferior".

"Sim, meu senhor".

"E se é capaz de derrotar alguém, você é superior. Simples lógica, é claro. Em que nível está, Malfoy? Quanto poder está disposto a reclamar? Com uma performance como a que me deu quando capturou Potter, eu esperaria que você cumprisse as expectativas do nome de sua família. Seu pai me mostra sua astúcia através de suas... Negociações com outros, e ele está num nível muito favorável. No entanto, é sempre bom ver sangue novo, se provado digno".

Draco não gostou do rumo da conversa. Nem um pouco.

"O quanto você deseja o poder, jovem Malfoy? Você é um sonserino de verdade? Fará o que é preciso? Você está disposto até a... Deslocarseu pai?".

Draco sentiu suas entranhas congelarem. Claro que não era esperado que ele...

Não haveria razão para...

Seu pai era tão leal quanto qualquer outro! Por que Voldemort sugeriria tal coisa? Era impensável, matar seu próprio pai. A mera sugestão o fazia se sentir como um galo sendo posto numa briga pela diversão de seu mestre, e ele odiava.

O Lorde das Trevas certamente notou a hesitação de Draco. "Malfoy, não há lugar para sentimento em alguém que deseja me seguir. Ou você me serve francamente, ou não me serve. Não me diga que você é sentimental com seu pai".

"Não, meu senhor", Draco disse rapidamente.

"Está certo disso?".

Draco pensou cuidadosamente. Agora seria a hora errada para mentir. No entanto, não parecia uma mentira. "Estou certo, meu senhor".

Uma pausa cheia de expectativa pairou inconfortavelmente entre eles.

"Você é leal a ele?".

Bom, certamente, pensou Draco, mesmo que obviamente não pudesse dizer aquilo. Sua lealdade era para com Voldemort, e Voldemort sozinho. Seu pai havia dito... O que era exatamente a chave da resposta.

Curvando a cabeça ainda mais baixo, Draco respondeu, "Minha lealdade a meu pai se estende somente até onde ele me instruiu a dar minha lealdade, primeiramente, ao senhor".

Draco ouviu o som de sua própria respiração, que parecia estranhamente alta em seus ouvidos enquanto esperava por algum sinal de que o Lord das Trevas aprovara.

"Uma lição valorosa a aprender. Seu pai parece tê-lo treinado bem. Deste modo, se eu ordenasse, você poderia matá-lo?".

"Sim, meu senhor".

Voldemort deve ter aprovado, pois enquanto dava um passo atrás, ele disse, laconicamente, "Ande ao meu lado".

Draco deveria ter se sentido honrado de ser convidado a andar ao lado do Lord das Trevas, mas ao invés disso, se sentiu como um cachorrinho obrigado a andar de sapatos. Ele vagamente se perguntou o que deveria fazer se Voldemort o instruísse a também latir como um cachorro.

Foi em silêncio que eles alcançaram o topo da longa escada, abrindo-se no que era obviamente uma torre de observação, com uma janela em cada uma das direções cardeais.

Ainda era de manhã cedo, Draco podia ver, e o orvalho da noite ainda não havia evaporado completamente da floresta que se espalhava em todas as direções. Instintivamente, Draco conferiu sua posição pelo ângulo do Sol. Seu pai o havia ensinado isso, apenas outra faceta de seu treinamento. Era ainda outro lembrete de que, por toda a sua vida, ele treinara para o conflito de um jeito ou de outro.

Voldemort se aproximou da janela ao sul e olhou para fora. "Olhe, Malfoy". Não era um convite, mas uma ordem. Draco aproximou-se da janela. Era uma vista espetacular de um vale arborizado, cercado por

montanhas altas, mas o Lorde das Trevas não desperdiça tempo admirando a paisagem com Comensais da Morte em potencial, então o que ele queria que Draco olhasse?

"A apenas cem milhas para o sul está a minha primeira vitória na conquista do mundo Bruxo".

O coração de Draco deu um pequeno salto.Hogwarts. Sua mente rapidamente se voltou para memórias familiares de uma cama quentinha, as masmorras, a rotina diária. Estavam tão perto de Hogwarts.

Voldemort deve ter notado sua expressão de saudade, e suas palavras sibilaram ameaçadoramente. "Você, é claro, não sente nenhum sentimento impróprio em relação a Hogwarts, sente Malfoy?". Não uma pergunta, mas uma ameaça. "Olhe para mim".

Draco rapidamente acalmou sua mente, pôs sua melhor máscara neutra.

Essa não era a hora de entrar em pânico.

Ainda assim, nada poderia tê-lo preparado totalmente para encontrar aqueles hediondos olhos vermelhos. Como os de Harry, eles o rasgavam, deixavam-no em pedaços. Diferentemente dos de Harry, não havia humanidade neles, nenhuma paixão, nenhuma verdade. A voz sibilante chegou aos seus ouvidos de novo. "Diga, Malfoy. Hogwarts tem algum significado para você?".

Não minta. Ele vai saber. Você não pode mentir.

O próprio conselho mental de Malfoy se misturou entre seus pensamentos. "Meu Senhor, Hogwarts é... Familiar para mim. Nada mais".

"Já vi". Os olhos de Voldemort se estreitaram em fendas vermelhas e Draco teve que olhar para longe de novo. Voldemort riu de seu óbvio nervosismo.

"Ah, sim, familiar". Ele falou com tipo de nostalgia retorcida. "Hogwarts também é familiar para mim, lembra-se? Eu passei sete anos lá, cercado de imundície sangue-ruim. Forçado a ser contaminado por bruxos que fingiam se importar com o futuro da magia, enquanto a poluíam com sua mera presença".

"Malfoy". A voz de Voldemort era mais uma vez afiada e direta. "Eu não estou totalmente convencido de que você não tenha nenhum sentimento em relação a Hogwarts. Você deverá provar que sua lealdade é infalível. Você irá liderar um lado do ataque".

"Sim, meu senhor", Draco disse, inexpressivamente, tentando não realmente pensar sobre o que Voldemort acabara de dizer.

"Você deveria estar satisfeito de ter esta honra, Malfoy. Enquanto a escola desmorona, você verá onde está o poder. Você deverá provar o poder do controle absoluto sobre a vida e a morte... E o medo. Controlar o medo de uma pessoa é controlá-la completamente. Você sentirá esse poder sobre aqueles que são certamente seus inferiores: Sangues ruins, mestiços e trouxas. Um Comensal da morte sabe ganhar poder pelo medo. Você, Malfoy, também aprenderá".

Ele fez uma pausa, e Draco se sentiu suando debaixo do colarinho. Isso soava tão familiar... Tão familiar...

Potter.

Harry já havia lhe dito isso. Cada palavra. Poder pelo medo... Poder vazio... Sem se importar... Apenas tirando. Ele sabia, maldito seja. Ele sabia...

"Um Comensal da Morte também sabe quando temer, Malfoy. Não o encolhimento patético que você arrancará dos sangues ruins, mas respeito apropriado por seus superiores; por sua vida; sua glória se localiza em seu medo. Você tem o potencial para se tornar um de meus servos mais valorosos, mas lembre-se de seu lugar. Valorize sua vida; não esqueça de quem é o mestre".

"Você é o mestre, meu senhor", Draco disse, rapidamente, enquanto curvava a cabeça e os ombros numa profunda curvatura, mas sua mente estava girando.

Nada além de um servo, um peão, no jogo do Lorde das Trevas. Uma semana atrás, esse pensamento nunca teria lhe ocorrido. Agora, era só o que podia pensar. Fazia um sentido tão horrível.

Ele apertou os dentes, ainda olhando para o chão. Ele tinha medo, sim, mas uma dor estranha estava crescendo em seu peito... Dor. Afastadas pelas palavras do próprio Voldemort, as crenças de Draco, as bases nas quais apoiou toda a sua vida, estavam voando para longe dele. Sem nenhuma convicção, nenhuma crença, as únicas coisas ancorando-o à realidade eram os fios trêmulos de seu medo.

Então alguma coisa muito mais tangível puxou-o de volta para a realidade mais rápido do que podia piscar.

A pressão afiada de aço moldado na base macia de seu pescoço, sem romper a pele, mas por pouco. Draco sentiu seu coração parar no peito.

Os longos dedos de Voldemort brincavam com o cabo do punhal que segurava, e sua voz sibilou maliciosamente. "Eu sou o mestre, jovem Malfoy? Realmente? Você se acovarda como uma criança diante de mim, indigno de me chamar de mestre, ou você se curva a mim em medo humilde e respeito como um servo apropriado?".

Lutando para controlar seu tremor, e tentando mais ainda controlar o instinto imediato de pular para longe do punhal em sua garganta, Draco deu a única resposta que podia. "Eu não desejo nada mais do que servi-lo, meu senhor".

"Servir-me, Malfoy, é servir com um único propósito. Hesitar em meu comando é evocar um destino pior do que a morte".

Naquele momento, com a ponta do punhal começando a perfurar sua pele sensível, Draco não queria considerar um destino pior do que a morte, mas ele estava certo de que o Lorde das Trevas podia pensar em alguma coisa.

"Você pode seguir qualquer ordem, Malfoy? Você faria qualquer coisa em meu comando? Sem hesitar? Eu devo saber que é digno. Eu devo saber que é capaz. Você é realmenteleal?".

"Minha vida é sua, meu senhor, para destruir se assim desejar".

"Ah, mas e se eu desse essa escolha a você?"

Escolhas... Escolhas... O choque que perpassou Draco com essa frase quase afastou sua atenção do punhal até que Voldemort mudou a posição, fazendo o metal afiado apertar um pouco mais fundo. Se era um escolha, eram opções horrorosas. Mas então, tinham sido suas próprias escolhas que o levaram àquele ponto em primeiro lugar.

"Eu não vou mover esta lâmina, Malfoy. No entanto, se eu o comandasse a se apunhalar na adaga em minha mão, poderia fazê-lo? O serviço a mim é absoluto. Inquestionável".

Draco sentiu seu estômago se revirar, uma dormência parecia tomar conta dele. Não podia fazer seus lábios se moverem, não podia responder. Ele engoliu uma vez, tentando forçar sua garganta seca a funcionar, a dar a resposta esperada, mas não conseguia. Só havia um jeito de responder.

Respirando profundamente, Draco se inclinou para frente apenas uma fração de centímetro. Ele abafou sua reação quando a lâmina finalmente perfurou a pele, e sentiu um fio de sangue quente escorrer por seu peito. Ele parou e esperou por qualquer sinal de Voldemort de que ele havia passado no teste. Naquele momento, com a ponta de uma faca enterrada em sua pele, nas mãos de Voldemort, falha só poderia significar uma coisa.

Ele esperou vários segundos agonizantes. A dor aguda em sua garganta não era nada comparada ao medo gelado apertando seu coração dentro do peito, a sensação de enjôo na boca do estômago.

Então, a lâmina foi retirada.

"Muito bem, jovem Malfoy. Você realmente tem o espírito de um Comensal da Morte, mas sua lealdade total deve ser provada. Esteja certo de onde está, Malfoy. Agora, você pode retornar ao seu posto de guarda".

E foi isso.

Sem um adeus cerimonioso, nada para marcar seu sucesso em sobreviver ao encontro com Voldemort. O Lorde das Trevas retornou para a janela, dispensando-o.

"Sim, meu senhor". Draco não estava certo de como se levantou, estupefato como estava. Ele só se tornou consciente de que tinha se movido quando percebeu que estava quase no fim da escada. Não havia nenhum som atrás dele, nenhum sinal de que Voldemort o seguira. Nenhuma indicação de que havia outra alma viva no lugar, e Draco certamente se sentia isolado o suficiente.

Suas pernas tremiam com seu peso. Depois da torrente de emoções, isso parecia um choque subseqüente. Com isso, junto com a sensação nojenta do sangue ainda escorrendo por seu peito. Percebeu que não podia se arrastar o resto do caminho até as masmorras. Não agora, não assim. Precisava se recompor.

Apoiando a mão na parede para manter o equilíbrio, ele meio cambaleou, meio correu pelo corredor até que alcançou o primeiro aposento com a porta destrancada, e se escondeu dentro. Um rápido feitiço a trancou por trás dele.

Sozinho num quarto deserto, Draco finalmente perdeu a compostura. Inclinou a cabeça contra a parede e lentamente escorregou até o chão quando suas pernas cederam, tremendo miseravelmente. Sua respiração estava rasa e desigual, mas ainda assim, não ia chorar alto, nem ia deixar as lágrimas lhe escaparem. Não merecia a permissão de chorar. Suas próprias decisões, suas próprias escolhas, o levaram ali. Não era fardo de ninguém além de si, e ele merecia o tormento que ganhara.

Era sua própria escolha: viver sua vida em servidão a um homem que queria nada mais do que seu medo.

Draco estendeu a mão para o pescoço e passou os dedos pelo ferimento dolorido, e então para baixo pelo traço pegajoso de sangue que ainda escorria por seu peito, molhando os dedos no liquido vermelho. Afastou a mão e a estendeu diante de si, as pontas dos dedos cobertas em grossas manchas de seu próprio sangue parcialmente seco e coagulando. Com uma fascinação mórbida, esfregou o dedão e o indicador, observando o sangue secar completamente e formar pedacinhos grudentos. Os pedaços de sangue caíram no chão, do mesmo jeito que o sangue de Harry caíra dos dedos de seu pai.

O sangue de Harry no punhal de Draco, o sangue de Draco no punhal de Voldemort... Exceto que Harry nunca havia tido escolha.

Draco abafou seus soluços quando percebeu que tinha voluntariamente entregue seu próprio sangue a Voldemort. Ele tivera uma escolha. Draco apenas nunca viu a escolha por si mesmo até ser tarde demais; não estava pronto para ela.

Inevitavelmente, a necessidade de uma decisão imediata havia chegado. Seu pai teria dito que ele faria uma decisão firme. A escolha honrosa, Lucius Malfoy teria ficado orgulhoso de ver seu filho então. No entanto, Draco tinha mais experiência. Força não tinha sido seu motivo. A única coisa que o empurrava para a lâmina havia sido medo. Fantoche numa linha, dance para o Príncipe Negro, seu palhaço tolo.

Você é um peão, Draco.

Você foi manipulado sua vida inteira.

Lavagem cerebral para ser o escravo perfeito para o Lorde das Trevas.

Curve-se para seu mestre, Draco. Humilhe-se como um elfo doméstico. Encolha-se de medo. Sacrifique sua própria vida por um mero capricho.

Você não pode dizer que não. É tarde demais para isso. A escolha não é mais sua. Você já tomou sua decisão.

As vozes em sua cabeça provocavam-no sem piedade.

Você nem teria percebido a bagunça em que está, se o seu rival jurado não tivesse enfiado algum juízo em você.

Potter...

Era Potter que ele tinha que culpar por colocar idéias assim em sua cabeça. Sem Potter para virar as coisas de ponta cabeça, do avesso, ele teria ficado mais do que satisfeito em ser o artista de circo de Voldemort. Maldito Potter, com seu cavalheirismo. Maldito seja por estar certo. Maldito por cada pouco de miséria a que tinha submetido Draco...

E então lhe ocorreu. Harry ainda estava sozinho nas masmorras com seu pai. Draco sentiu um pouco mais de sangue se esvair de seu rosto.

Ah, merda...

Sem saber exatamente por que a idéia de Harry preso com seu pai o assustava tanto, ou considerar por que estava preocupado com o garoto em primeiro lugar, Draco destrancou a porta sem pensar duas vezes e se encontrou correndo em direção as masmorras. As batidas de seu coração abafavam até o som de seus passos ecoando pelo corredor. Escorregou ligeiramente quando deu uma volta até a escada das masmorras, correu escada abaixo, e quase colidiu com a porta no fim. O coração batendo forte, levantou o trinco e escancarou a pesada porta de madeira.

Por algum motivo, Draco havia esperado que gritos, uma discussão ou até uivos de dor o recebessem, mas a passagem estava sinistramente silenciosa. Fechou a porta atrás de si e prendeu a respiração, ouvindo, esperando, seus pés congelados no lugar. Então ouviu: um arfar engasgado, o som de alguém lutando contra algum tipo de dor horrível.

Harry.

Ele correu pela passagem, virando no corredor que levava para a cela de Harry. Seus pés e sua respiração pararam subitamente quando ele conseguiu ver completamente a cena diante de si.

Harry estava no chão, com o rosto para baixo, contorcendo-se, ofegando, obviamente vítima da Maldição Cruciatus... E a varinha de Lucius ainda estava apontada para ele. Os olhos de Harry estavam fechados com força, e como antes, sua boca estava escancarada, buscando ar, mas sem gritar.

Lucius finalmente notou a chegada de Draco e abaixou a varinha. O corpo rígido de Harry caiu imóvel no chão quando a maldição foi removida, e Lucius se virou para Draco. Um sorriso de escárnio satisfeito tomava conta de seu rosto.

"Draco, você retornou bem na hora para um pouco de diversão. Ótimo que tenha retornado, é claro". Ele olhou a mancha de sangue no colarinho de Draco. "Você obviamente teve a aprovação do Lorde das Trevas. Não esperava nada menos. Potter parecia insinuar que você não conseguiria. Então o desgraçado teve a audácia de sugerir que eu não tinha nenhuma preocupação com o seu bem estar. Eu achei necessário lembrá-lo de seus modos". Um sorriso maligno que era todo dentes se espalhou pelo rosto de Lucius.

Draco olhou para Harry casualmente, aparentemente zombando dele. Na realidade, estava verificando quantos danos seu pai teria causado. Ele viu o braço de Harry se mover e sua cabeça negra se virou para o lado enquanto um gemido escapava dele.

Pelo menos está consciente, Draco pensou com alívio. Em voz alta, ele respondeu. "Tenho certeza de que o ensinou uma lição valorosa, pai. Ele precisa ser ensinado".

Com isso, o rosto de Lucius se contorceu em outro tipo de sorriso desagradável. "Certamente, Draco, No entanto, o garoto não estava me insultando. Seu primeiro insulto foi direcionado a você. Talvez você devesse ter a honra de completar a lição?"

Draco olhou para seu pai incredulamente. Foi apenas por força de vontade que ele impediu seu queixo de cair.

Pense rápido, Draco. Pense rápido.

"Pai... Eu nunca usei uma Maldição Imperdoável. E se eu não puder fazê-la funcionar?".

"Draco", seu pai disse com um ar de superioridade, "você vai precisar usar essas maldições logo. Que hora melhor para praticar?".

Não havia escapatória, Draco percebeu. Se ele não o fizesse, seu pai ia suspeitar de deslealdade. Se ele recusasse abertamente, morreria instantaneamente, e Harry também. Por alguma razão, não tinha realmente considerado o fato de que se importava com o destino de Harry, mas de algum jeito, sabia que importava. Também sabia que não queria machucar Harry. Já se sentia culpado o suficiente.

Se ele usasse a Cruciatus, ele podia se desculpar depois, explicar porque o fizera. E então tudo estaria bem. Uma desculpa esfarrapada com certeza, mas teria que ser suficiente. Não havia outra opção. Tudo o que ele tinha que fazer era não pensar no que estava fazendo. Ele simplesmente não podia se permitir ver o ser humano do outro lado de sua varinha. Para fazer funcionar uma Imperdoável, ele precisava sentir raiva, raiva desapegada e vazia. Ele não podia se permitir sentir... O que quer que parecia estar sentindo pelo garoto deitado de rosto para baixo na cela.

Ele se preparou e procurou pelos últimos restos de raiva deixados de seu encontro com Voldemort. "Sim, pai", Draco finalmente respondeu, rezando para que sua voz soasse fria e cruel, porque para seus próprios ouvidos, ele soava morto de medo. Seus dedos encontraram a varinha no bolso das vestes. Próximo à sua própria varinha, a mão de Draco esbarrou em outro pedaço de madeira polida que ele pusera ali: a varinha de Harry.

Quando um bruxo conquista outro, o vencedor fica com a varinha do perdedor, um sinal de que tem poder sobre o outro. Tecnicamente, Draco tinha Harry nas mãos. Era certo torturá-lo. Também era certo libertá-lo. No entanto, na frente de seu pai, se ele algum dia quisesse algum tipo de opção de fazer o segundo, ou qualquer opção, pensando bem, ele não tinha escolha sobre o primeiro.

Draco deu dois passos em direção às grades da cela e apontou a varinha para Harry. Seus olhos trocavam de seu pai para a forma prostrada de Harry. O garoto ainda gemia suavemente enquanto os efeitos colaterais da maldição lentamente acabavam.

Não pense nisso, Draco. Apenas não pense nisso. Deus, Potter, não olhe para cima. Por favor, só não olhe para cima.

Como se em uma resposta silenciosa aos pensamentos de Draco, a cabeça de Harry finalmente se virou para cima. Seus óculos estavam mais uma vez arranhados e sujos, se equilibrando perigosamente na ponta do nariz. Harry abriu os olhos vagamente, e olhou por cima das lentes para Draco.

Draco olhou nos olhos de Harry, e alguma coisa nele estalou.

Ele não podia fazê-lo.

"Draco", a voz do pai veio de trás dele. "Não me diga que está tão sobrecarregado por sua visita ao Lorde das Trevas que é incapaz de realizar uma tarefa tão simples". A desaprovação e impaciência em suas palavras eram palpáveis.

"Não, pai", Draco respondeu automaticamente, mas toda a sua atenção estava em Harry. Aqueles vívidos olhos verdes estavam silenciosamente implorando, pedindo a ele para não fazê-lo passar pela maldição outra vez. Tão cansado, tão machucado, mas não vencido. Mesmo depois de tudo aquilo, Harry ainda não desistira. Apesar de tudo, ele confiava que Draco não o machucaria. Ele tinha realmente posto sua confiança em Draco. Estava escrito claramente em seus olhos, que permaneciam solidamente presos aos de Draco, sem hesitar um instante, mesmo quando o resto de seu corpo tremia.

"Não tenho certeza, Draco", seu pai discursou. "Você parece perturbado. Ter passado no teste do Lorde das Trevas, você deve ser mais forte do que isso. Eu não criei meu filho para ser fraco".

"Eu sou forte, pai", Draco disse, com tanta convicção quanto podia reunir, o que, em sua estimativa, não era muita.

"Então prove", Lucius rosnou.

Draco forçou seu aperto na varinha, e fechou os olhos contra as emoções que ameaçavam rasgá-lo por dentro.

Raiva.

Ele precisava de raiva, ódio, mas não podia senti-los, não direcionados a Harry. Não mais.

Ele procurou por alguma coisa que o irritasse, mas não podia afastar seus pensamentos da situação horrorosa em que tinha sido cruelmente jogado. Apenas alguns dias antes, ele não poderia ter imaginado nada melhor. Ter obtido a aprovação do Lord das Trevas, ter capturado Harry Potter, ter deixado seu pai realmente orgulhoso dele; era tudo o que sempre quis.

Agora parecia diferente. Jogado ali por seu pai, encarcerado ali por Voldemort. Forçado a cumprir a vontade de um senhor que queria o medo tanto de seus seguidores quanto de seus inimigos. Um senhor que o segurara a ponta de faca, ameaçando sua vida por sua lealdade. Uma vida inteira de ser alimentado a nada além de medo frio e cruel, apenas para torná-lo a ferramenta perfeita para torturar e matar...

E ali, Draco encontrou sua raiva.

De olhos ainda fechados, ele abriu a boca para começar a maldição, mas em algum lugar no meio da palavra "Crucio!". Seus olhos se abriram por vontade própria, e ele olhou uma ultima vez nos olhos de Harry antes da maldição atingi-lo.

Não havia medo, nenhum encolhimento. Ao invés disso, Draco viu o olhar mais chocante de pura traição

E então a maldição o atingiu.

Harry virou de costas como se atingido por um golpe físico. Primeiro, ele se encolheu como se pudesse se afastar da dor, mas não havia escapatória. Seus braços se contorceram e seu corpo tremeu violentamente. Sua boca se abriu, mas ao invés da tensão silenciosa, quebrada apenas por um ofegar ocasional, um grito de gelar o sangue ecoou pelas masmorras, e por Draco.

Draco afastou a varinha, quebrando a maldição, mortificado e enojado pelo que acabara de fazer. Sua vítima desafortunada estava deitada de costas, estendida, o peito se movendo para cima e para baixo. Draco quase achou que podia ver as costelas de Harry através da camisa. Ele moveu a atenção para o rosto de Harry; os dentes trincados por entre lábios pálidos, o cabelo grudando na testa suada, e algo novo... Uma lágrima rolando por cada bochecha.

Lucius se aproximou por trás de Draco, e rapidamente Draco rezou para qualquer poder que estivesse ouvindo que o que tinha feito já tivesse sido suficiente. Ele nunca poderia fazê-lo de novo, não importava o quanto tentasse.

"Hmmmm...", Lucius murmurou. "Você não manteve a Maldição por muito tempo, mas conseguiu fazê-lo gritar". Ele abaixou a voz. "Nem o Lorde das Trevas conseguiu arrancar um grito dele".

Draco piscou.

Lucius continuou. "Você deve ter utilizado uma maldição poderosa para conseguir isso... Suficiente para uma primeira tentativa".

"Sim, pai", Draco respondeu, inexpressivamente. Voldemort não fizera Harry gritar, nem seu pai. Mas ele sim, e Draco sabia o porquê. A dor física sozinha não era suficiente para fazer Harry ceder. Draco, no entanto, havia causado um ferimento muito mais profundo.

Na cela, Harry gemeu uma vez, agarrou o estômago e virou para o lado.

Draco olhou para longe rapidamente. Ele não podia assistir àquilo e manter a pose na frente do pai. Ele encontrou o olhar de Lucius, e seu pai lhe deu um breve sorriso.

"Você servirá bem ao Lorde das Trevas, Draco. Agora, eu devo retornar a meu mestre". Ele parou brevemente, e então sorriu outra vez. "Parabéns".

Draco ficou parado enquanto escutava os passos do pai se distanciando pelo corredor. Ele esperou a porta da masmorra bater antes de ousar olhar para a cela. Harry não havia se movido. Ele ainda estava deitado de lado, de costas para as grades.

Com um movimento rápido, Draco correu para as grades da cela e caiu de joelhos, tão perto de Harry quanto possível. "Potter! Potter! Você está bem? Deus, Potter, por favor!".

Uma das pernas de Harry se moveu, e a resposta chegou a ele numa voz terrivelmente rouca. "Foda-se, Malfoy".

"Potter, por favor escuta!". Depois do que acabara de acontecer com Voldemort, ele precisava que Harry o escutasse. Ele precisava de alguém para entender, e Harry era a única pessoa que podia entender. Sem ele, Draco estava sozinho. "Eu não quis fazer isso! Eu não tinha escolha! Eu sinto muito! Eu...".

Com uma súbita explosão de emoção, Harry se levantou e encarou Draco com uma veemência que não estava ali antes. "Eu te disse, Malfoy", ele rugiu, "nunca me diga que sente muito a menos que possa provar".

"Mas eu...".

"Eu sei como as Imperdoáveis funcionam. Você tem que realmente querer machucar alguém para elas funcionarem". Apesar da veemência em sua voz, o corpo de Harry ainda tremia terrivelmente, provavelmente entrando em choque, e a preocupação de Harry aumentou.

"Mas eu não quis te machucar!", Draco gritou, frustração e pânico começando a se amontoar.

"Porra, Malfoy! Você realmente espera que eu acredite num monte de bosta que nem esse?". As palavras de Harry eram pura raiva, mas Draco começou a perceber a dor escondida escapando, e aquilo o incomodava muito mais do que a raiva. "Quem você queria machucar, Malfoy? Voldemort? Você é o bichinho dele, o fantoche. Eu não posso acreditar que tentei te ajudar".

"Por favor me ouça!". Draco estava quase implorando agora. "Harry...".

"NÃO!", Harry sibilou, lançando um olhar de puro desprezo. "Nunca use meu primeiro nome! Você. Não. Merece".

Draco balbuciou silenciosamente, aprisionado pela raiva nos olhos de Harry. Ele queria explicar o que estava acontecendo, queria que Potter o escutasse, mas não importava. Suas palavras não significariam nada. Harry havia confiado nele, mesmo que não houvesse nenhuma razão substancial para essa confiança, e Draco havia o traído. Agora só podia provar alguma coisa com ações, mas que ações poderia fazer? Havia alguma coisa que podia fazer?

Com um suspiro de derrota, ele só abaixou a cabeça. "Certo, Potter".

A única resposta foi um grunhido enojado. Harry deu as costas a ele e se arrastou pelo chão até a parede, se acomodando de costas para Draco, lidando com sua dor e isolamento. Era uma visão familiar para Draco agora, mas depois de tudo o que acontecera, doía de um jeito que era completamente estranho para ele.

Ele afastou os olhos de Harry, agarrou uma das barras da cela, e se levantou pesadamente. Como era possível simultaneamente se sentir esmagado entre uma pedra e uma superfície dura, e também como se estivesse balançando perigosamente à beira de um penhasco sem nada para se segurar?

O que seu pai pensaria? Depois de anos criando Draco pelas melhores tradições Malfoy, para ser poderoso, apoiar certos ideais, como Lucius Malfoy reagiria a idéia de que seu filho estava tendo dúvidas? Não essas não eram dúvidas. Essas reservas estavam longe de serem dúvidas. Draco poderia ter jurado servir a Voldemort, mas não podia mais fazê-lo. Era impossível.

Depois de tudo o que vira e sentira, ele não podia continuar com a vida que vivera antes. O laço nauseante de medo em suas entranhas quando pensava em Voldemort confirmava isso. No entanto, muito mais estranha e chocante era a dor que sentia em seu peito quando pensava em Harry. Voldemort era poderoso, mas Harry tinha algo a mais, e Draco sabia que por baixo disso tudo, a aprovação de Harry teria significado muito mais do que a de Voldemort.

Mais uma vez, Draco estendeu a mão para a base do pescoço e sentiu o ponto aonde o sangue seco havia se incrustado no ferimento; era a marca da "aprovação" de Voldemort. Era também a marca do tipo de existência que, sem nenhuma esperança, ele estava destinado a ter como servo de Voldemort.

Finalmente ele se afastou das grades e caminhou até a cadeira que Biddy lhe trouxera. Tremendo no ar frio das masmorras, ele enrolou a colcha em volta dos ombros. Sua mente vagueou involuntariamente para o garoto sentado no chão da cela, e ele tremeu mais violentamente. Sozinho e aprisionado, Harry era menos uma ferramenta de Voldemort do que ele, e era mais forte. Agora, Draco entendia exatamente o que Harry quisera dizer. As escolhas que ele fez, a prisão que construíra para si mesmo, suas correntes e sua servidão. Não era um jogo mental em que Potter estava tentando brincar com ele. Era frio, afiado e real, como o punhal que Voldemort pusera em sua garganta.

Ele não podia viver com medo, não podia continuar sendo um peão. Ele não podia continuar a ser como era antes.

Então... O que ele podia fazer?



Notas Finais


Uffa!!! Mais um capítulo postado. Obrigada por estarem acompanhando. Eu fico feliz por estarem lendo pois é preciso Coragem pra ler 😉😂


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...