História 366 Universos - Capítulo 3


Escrita por: ~

Postado
Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens J-hope, Jimin, Jin, Jungkook, Rap Monster, Suga, V
Tags 366 Dias, Astronomia, Depressão, Drama, Jikook, Kookmin, Romance, Yaoi
Visualizações 573
Palavras 4.615
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Famí­lia, Lemon, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Universo Alternativo, Yaoi
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Sexo, Suicídio, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Oi! Demorei???? Perdoa se sim, e perdoa o número enorme de palavras também, sou meio exagerada. Mas sem mais delongas, vamos pro capítulo. Leiam com carinho e escutem a playlist!

Capítulo 3 - Capítulo Dois


Fanfic / Fanfiction 366 Universos - Capítulo 3 - Capítulo Dois

Capítulo Dois

Este lado do hemisfério parece incrivelmente vazio no outono.

“Oi Hyung, tudo bem? Acredito que sim. O céu está tão bonito hoje que por um segundo cogitei a ideia de você ter dado mais cor e brilho a ele, como você costumava fazer com meus desenhos. Faz um tempo que não escrevo para você, me desculpe, eu estava tão triste esse tempo todo que mal consegui tocar em um lápis, assim como não tenho conseguido tirar mais fotos.

Eu sinto sua falta...

Eu fui atrás do Yoongi, lembra dele, né? Ele me perdoou por ter sumido, acredito que está tudo bem entre nós agora.

E tem esse garoto, Park Jimin... ele me parece muito diferente dos outros garotos, sua aparência é tão diversificada que eu fico com vontade de conversar com ele, mas eu não acho que ele queira ser amigo do ‘esquisitão que anda com uma câmera’.

Para falar a verdade, acho que ninguém quer ser.”

Encarei o bloquinho, deixando o lápis de lado por um segundo. Por que eu continuava fazendo isso?

Parecia ridículo escrever cartas para pessoas mortas, mas de alguma forma, eu me sentia bem com isso. Haviam coisas que eu simplesmente não podia contar para ninguém, nem mesmo para Yoongi.

Coisas que apenas eu e Wonwoo sabíamos, e que eu preferi enterrar junto com ele.

Folheei o bloquinho, vendo todas as coisas que já havia desabafado ali para alguém que sequer podia ler, quis chorar, mas me contive. Não ali, não em público.

— Jungkook? — A voz da minha mãe me fez erguer a cabeça, guardei o bloco no bolso do paletó e sorri fraco para ela.

Estava de preto, como todos no local.

Iria fazer três anos. Três anos desde que ele desistiu de mim e de si mesmo, e como sempre eu era obrigado a vir ao cemitério junto da minha mãe e seu marido, segundo ela para “fazer uma visita ao meu irmão”.

Acontece que eu sabia que não era apenas isso. Eu tinha certeza que todas as vezes que ela me trazia aqui era justamente para me vigiar, ficar de olho nas emoções que eu expressava todas as vezes que olhava para a lápide, porque ela desconfiava de mim. Mamãe nunca confiou no que eu contava a ela sobre o pequeno acidente, e eu não tinha coragem de dizer a verdade.

Mas, céus, eu não queria me culpar todos os dias por ele ter se jogado daquele maldito prédio, mas não podia negar ter uma parcela de culpa, em todo caso.

Ela sentou do meu lado, acariciando minhas costas, e levantou os óculos escuros, revelando sua íris cansada e os vestígios de lágrimas que rediziam no canto dos olhos. Abracei-a devagar, descansando a cabeça na curva de seu pescoço, enquanto sentia o carinho na altura dos ombros.

Eu sabia o quanto ela estava cansada, todos estávamos, na verdade.

A partida do filho mais velho da família Jeon nunca foi realmente superada, sequer estávamos a caminho disso.

— Você ainda escreve cartas para ele? — Ela perguntou, afastando-me de leve para poder olhar em meu rosto.

Assenti.

— Eu... posso vê-las?

Engoli em seco. Por mais que eu ache ridículo, não tinha coragem de deixar alguém ler aquilo, era pessoal demais.

— Desculpe.

— Não, tudo bem. — Ela sorriu — Foi burrice minha ter pedido por isso.

Suspirei, fechando os olhos ao ganhar um beijo na testa.

— Continue escrevendo, se te faz bem. Eu farei o mesmo.

Olhei para ela, era claro que queria dizer mais alguma coisa, mas não conseguia. Por fim, sorriu, meneou a cabeça e deixou as flores em frente a lápide.

Seu marido ocupou o lugar onde ela estava a poucos segundos atrás e juntou as mãos, sem olhar em meu rosto.

— Eu sinto muito pelo seu irmão... A sua mãe sempre fica meio mal nessa época do ano, eu entendo, ainda bem que não é comigo... — Arqueei a sobrancelha e ele pigarreou — Desculpe, sei que não estou ajudando.

Ri de canto.

Um ano depois que meu pai foi embora, minha mãe casou-se com o senhor Choi, um homem na faixa dos quarenta, com cabelo meio grisalho e barba malfeita, que usava óculos e casaco de lã preto. Ele era um cara legal, só que meio palhaço demais e falava as coisas erradas nas horas erradas, como piadas em momentos importunos.

Eu sempre odiei esses momentos em que minha mãe decidia reunir todos nós, mas não eles em si, o problema era o clima pesado que ficava entre a gente sempre que alguém tocava no assunto “morte”.

Quando decidimos que já estávamos ali encarando o chão do cemitério tempo o suficiente para começar a chover, minha mãe abriu o guarda-chuva e o colocou sobre os dois, abri o meu e enfiei as mãos nos bolsos do jeans escuro.

— Então, não vai querer passar lá em casa? Posso fazer bolinhos, você e seu irmão sempre gostaram. — Ela me olhou pesarosa e me limitei a sorrir.

— Estou bem, mãe.

— Tem certeza? Nós podemos comprar comida no restaurante que abriu perto de casa, se preferir e...

— Mãe, sério. Estou bem. — Interrompi.

Ela suspirou.

— Nem você deixa eu te mimar mais...

— Todos temos que amadurecer um dia.

A abracei de leve e apertei a mão do meu padrasto, que sorriu fechado ao passar o braço pela cintura dela.

— Cuide bem dela — Alertei — Sério, eu sou perigoso quando quero.

Ele riu e balançou a cabeça.

— Se cuide, Jungkook.

Acenei enquanto saía, parando de repente ao ver, não muito longe, aqueles mesmos cabelos laranjas molhados pela chuva.

Não estava vendo seu rosto, mas pela silhueta e a bicicleta azul piscina encostada ao muro, tive certeza de que era ele. Quis chama-lo, mas o que eu diria? Se ele estava ali provavelmente as coisas não estavam tão boas, e eu não iria incomoda-lo.

O garoto virou, e nossos olhares cruzaram por uns segundos antes de alguns amigos irem até ele.

Eu nunca tinha visto Jimin chorando — poucas foram as vezes que eu realmente o vi com meus próprios olhos — então por que aquilo me preocupava?

. . .

Minha cabeça havia começado a latejar lentamente. Desliguei a luz do abajur e tentei dormir, mas como sempre, não consegui, e cheguei a uma conclusão: eu não vou. Era pra ser fácil assim sempre, não é? Chegar a conclusões simples quando algum incômodo aparece, mas nunca é para mim, sempre há um monólogo que se estende até que eu consiga acreditar que consigo resolver meus problemas sozinho, ou até que eu jogue a sujeira para baixo do tapete e finja que está tudo bem.

Levantei da cama e calcei os tênis, enfiando-me num moletom e colocando o capuz. Conectei os fones no celular e deixei que uma música calma tocasse, respirei fundo e corri.

Eu não sabia para onde estava indo, apenas segui o ritmo dos meus passos. No caminho, passei pelo hospital, onde Yoongi costumava estar quando sua leucemia o levava a crer que ele teria apenas mais uns meses de vida. Entretanto, ele estava nessa a uns anos, então era provável que continuasse comigo por mais alguns, e isso já era o suficiente para me manter firme.

Como melhor amigo, Yoongi sempre me disse que queria que eu chorasse muito no enterro dele, e eu começava a chorar antes dele terminar a frase. As palavras "enterro" e "morte" nunca tiveram um bom efeito em mim.

Ao contrário dele, eu costumava ser bem chorão, e por esse e outros motivos as pessoas adoravam me importunar. Já ele sempre se manteve com postura, nunca permitia que nada nem ninguém o deixasse para baixo, e, consequentemente, era sempre briguento, ainda mais com quem costumava me zombar, e eu só o vi chorar uma vez.

Quando estávamos mais ou menos no 1º ano do ensino médio, me peguei escutando uma conversa dele com sua mãe na enfermaria da escola. Ela o contava calmamente sobre o resultado de seus exames, e aquela foi a primeira vez que eu ouvi a palavra "leucemia". Ouvi seus resmungos, e então o ruído de seu choro. Foi perturbador. No mesmo dia, assim que cheguei em casa, pesquisei, li e estudei diversas informações sobre, e claro, chorei. Para mim, eu iria perder meu melhor e único amigo, além de Wonwoo. Todavia, para minha surpresa, não foi Yoongi quem partiu um tempo depois da descoberta sobre um câncer. E não foi um câncer que matou meu irmão.

Sequei meus olhos, correndo mais um pouco, senti o suor escorrendo pela testa com mais frequência. Parei em frente a ponte, respirando fundo, contando até três como me ensinaram a fazer quando eu me sentisse fora de órbita, e então me apoiei nas grades. Fechei meus olhos. Eu queria sentir o vento, queria sentir algo além do vazio, queria que tudo fosse diferente.

Meus calcanhares doíam pela maneira que eu me equilibrava, mas eu só conseguia olhar para baixo.

Enquanto James Bay cantava nos fones, diminui o aperto nas grades, e apenas me segurei, sem me inclinar, levantando o olhar para as estrelas. Sabia que meu irmão estava ali, em algum lugar, e que podia me ver, me perguntei se ele imaginava o quão doloroso estava sendo aguentar tudo sem ele para me dar apoio.

Por algumas horas antes do amanhecer, fiz de conta que era um garoto normal vendo as estrelas, que estava tudo bem passar por momentos difíceis e que uma hora tudo iria se encaixar. E quando enfim amanheceu, eu já estava um pouco longe de antes, correndo de volta para casa.

. . .

Esfreguei meus olhos com as costas das mãos, estava ficando sonolento, mas o copo de café recém-comprado num Starbucks me mantinha mais acordado. As noites mal dormidas haviam se tornado frequentes, e vir à aula era o mínimo de esforço que eu tinha que fazer se quisesse ser reconhecido algum dia.

O professor escrevia algo na lousa, que consegui ler após forçar minha vista umas vezes: "o que separa a fotografia das outras artes?".

— Leiam o que está escrito na lousa, acredito que todos aqui saibam fazer isso — Seokjin brincou, e alguns riram, como eu — Agora, quero respostas. Para vocês, o que separa a fotografia de outras artes?

Uns responderam "a imagem", outros "a visão", e alguns até arriscam responder "a câmera".

Escrevi uma única palavra no meu bloco de notas:

"Instantes."

— Jungkook? — Ouvi e levantei a cabeça, senti os olhares sobre mim, querendo me esconder. Engoli em seco ao ver o professor com o olhar curioso. — Qual sua resposta?

— Eu... não sei.

Ouvi risadinhas.

Droga, não, não.

Aquilo me lembrava o ensino médio. Senti o vômito subir e descer pela minha garganta.

Seokjin sorriu.

— Eu vejo que você sabe.

Cocei minha nuca.

— Posso ir ao banheiro? — Soltei, quase como num sussurro. Mais risadas.

— Acredito que essa não seja a resposta, então diga o que quero saber e poderá se retirar.

Não sei porquê, mas tinha a sensação de que ele estava realmente falando sério.

— Instantes. — Respondi, e, vendo que ele sorria ao ouvir, complementei, me sentindo um pouco mais confiante: — O que separa a fotografia das outras artes é a técnica de eternizar os instantes numa única imagem.

Jin aplaudiu, e os alunos o acompanharam, sorri pequeno, escondendo o rosto pela franja e mordendo o lábio. É gostoso a sensação de acertar pelo menos uma vez.

— Viu? Não é difícil. — Piscou e se virou para a classe, andando de um lado para o outro gesticulando ao falar — A resposta que ele deu está absolutamente correta. ​E, com base nisso, quero que me respondam uma única questão e me tragam daqui duas semanas, valendo metade da nota bimestral. É tempo o suficiente para pensar.

Alguns burburinhos começaram, e ele voltou a escrever na lousa:

"Para você, qual a importância da fotografia?"

— Vocês podem responder como quiser, validarei a questão de acordo com o pensamento de cada um. Respondam com cuidado. Estão dispensados.

Dito isso, recolhi minhas coisas e passei pela porta com pressa, uma sensação estranha percorria meu corpo, e eu não sabia o que era. Falar em público nunca foi meu forte, e ter a atenção inteira voltada para mim era como um pesadelo. Contudo, havia sido libertador. Por mais que eu tivesse falado tão pouco, me sentia mais livre.

Mas, como tudo que é bom dura pouco, Yifan, o garoto chinês que estuda no prédio da frente, esbarra — acredito que propositalmente — em mim, me fazendo ir ao chão em questão de segundos.

— Olha por onde anda, esquisitão.

Como todas as vezes, as pessoas riem, abaixei a cabeça, recolhendo os destroços da minha câmera. Senti vontade de chorar outra vez, ela havia sido um presente e agora estava toda quebrada, apenas um toque e eu sentia que ela seria completamente destruída.

Apertei os lábios, vendo pés aparecerem no meu campo de visão.

— Babaca. — Jimin olhou para Yifan com nojo antes de me estender a mão — Está tudo bem?

Engoli em seco e hesitei em aceitar sua ajuda, então antes que eu me movesse, o ruivo pegou meu braço e me levantou, agarrando a minha mochila logo em seguida.

— Não respondeu minha pergunta, Jungkook. — Ele sorriu de canto, e imediatamente me lembrei do episódio no terraço.

— Estou. — Peguei minha mochila que estava em sua mão e enfiei a câmera quebrada na mesma.

Queria perguntar porque não o vi em lugar nenhum a mais de dois meses, mas não tive coragem. Também queria perguntar porque gosto tanto de tê-lo por perto, já que não éramos amigos, nem colegas, no máximo conhecidos.

Reparei nas suas olheiras evidentes e não consegui evitar perguntar:

— E com você? Está tudo bem?

Jimin pareceu surpreso pela minha pergunta.

— Claro. — Respondeu, mas logo corrigiu: — Vai ficar.

— Bom, preciso ir. Até mais. — Tentei passar por ele rapidamente, mas o mesmo segurou meu braço.

Meu coração estava batendo forte, sentia que a qualquer momento ele iria sair pela boca. Sua mão era quente, e os dedos macios pressionavam minha pele sem fazer força.

— Eu preciso da sua ajuda, Jungkook.

— Minha ajuda?

O garoto me puxou para um canto, se encolhendo dentro da jaqueta de couro e desviando o olhar.

— Há algumas coisas que eu tenho que fazer, e eu quero que você esteja junto.

Nada podia ser mais estranho do que isso. Além de eu ser bem inútil em maioria das coisas, ele tinha bastante amigos. Muitas pessoas poderiam ajuda-lo, e eu não imaginava estar incluso naquela vasta lista.

— Por que eu? Seus amigos não podem te ajudar com isso? Sua namorada, talvez? — Coloquei as mãos dentro do bolso do moletom.

Eram apenas boatos que ele namorava, mas ao que tudo indica, era verdade. Eu o vi com a garota uma vez, era bonita, o tipo que ele escolheria caso quisesse alguém para beijar. Por algum motivo, quis que ele dissesse “eu não tenho namorada”, mas ele não disse.

— Acredite, nenhum deles poderia. Eu posso explicar depois o motivo disso tudo, mas primeiro, tem que dar sua palavra de que vai me ajudar nessa. — Ele estendeu a mão para que eu apertasse.

Encarei seus dedos decorados com anéis prateados. Ele tinha bastante estilo. Olhei para ele, relutante, e o mesmo ergueu as mãos em rendição.

— Tudo bem. Se topar, eu arrumo sua câmera. Posso contar com você, Jeon Jungkook?

Suspirei e assenti, podia estar errado, mas jurei ter visto um sorriso no canto de seus lábios.

— Legal, até mais, Jeon. A gente se vê.

Vi-o montar sua bicicleta azul e sair pedalando ao redor do campus, percorri os dedos pelos fios de cabelo, os ajeitando e então respirei fundo.

O que tinha acabado de acontecer aqui?

. . .

Park Jimin era realmente superpopular. E não, não precisei passar a semana toda o perseguindo no campus ou o observando mudar de sala durante os períodos, eu só precisei acessar o Facebook dele e checar o total de amigos: 2.786, e comparar com o meu: 42. Eu nem conhecia as quarenta e duas pessoas com quem tinha amizade na rede social, e nem sequer sabia porquê exatamente eu tinha a porra de um Facebook, se eu preferia mil vezes o Twitter, que era onde eu podia falar mal da minha própria vida e da dos outros sem ser incomodado.

De qualquer forma, eu ainda pensava em pedi-lo em amizade, mas era inútil já que eu não costumava usar aquela ferramenta, e também não costumava fazer amigos.

Antes que eu saísse da conta, uma janelinha se abriu, fazendo um pequeno toque, e meu coração pulou.

Por sorte, era apenas Min Yoongi enchendo meu saco outra vez.

Yoongi: Comecei a acreditar em milagres assim que te vi online. Qual a probabilidade de você sair de casa às uma da manhã comigo para dar uma volta de carro?

Tive vontade de deixa-lo no vácuo, mas se eu o fizesse provavelmente levaria um murro no dia seguinte.

Jungkook: Apenas 1% se for para comer.

Yoongi: Esse 1% também é válido para sanduíches secos acompanhados de cerveja barata?

Dei risada.

Jungkook: Talvez.

Yoongi: Ótimo. Abra a porta.

Ouvi batidas na porta do apartamento e franzi o cenho.

Yoongi: Abra logo.

Fechei o notebook e o deixei de lado, calçando minhas pantufas de coelho só para abrir a porta e dar de cara com o mesmo.

— Como...?

— Vamos. — Me puxou.

Tentei o parar, fechando a porta, mas ele continuava me puxando e de alguma forma, o esverdeado continuava sendo mais forte que eu.

— Pelo menos me deixe trocar de roupa! Eu estou ridículo!

E quando chegamos na calçada, Yoongi sorriu para mim e disse:

— Você sempre está ridículo.

Revirei os olhos, cruzando os braços e batendo meu pé no chão, com a pantufa de coelho, impacientemente.

O garoto foi até um carro estacionado de mal jeito na calçada e deu alguns tapinhas leves no capô, sorrindo orgulhoso.

Por mais velho que fosse seu Impala preto, estava bem cuidado, o que indicava que Yoongi prezava pelo bem do carro, já que sempre foi preguiçoso demais para limpar e cuidar de algo.

Lembrei-me que uma vez o mesmo chegou a ter um peixe, mas o pobre coitado não durou nem duas semanas, porque o dono não lembrava de trocar sua água e dava comida demais.

— É pra durar até semana que vem. — Dizia depois que despejava metade do saco de ração para peixes dentro do aquário.

Ri baixo quando lembrei do desespero que ele teve quando o bichinho morreu, e do quanto ele pediu perdão por ser um péssimo pai, o jogando no vaso sanitário e dando descarga.

— Ele está em um lugar melhor agora. — Eu o confortava, dando tapinhas em suas costas enquanto o mesmo encarava o vaso com pena.

— Espero que no céu dos peixes ele seja feliz.

Como se lesse meus pensamentos, Yoongi mandou língua e pegou as chaves, abrindo a porta dianteira.

— Diga oi ao meu bebê.

Revirei os olhos e ri.

— Depois eu sou o ridículo. — Abri a porta de trás, me assustando ao dar de cara com Jimin. Ele olhou de relance e acenou, e consequentemente, abaixei a cabeça.

Eu deveria saber que, para Yoongi me chamar para dar uma volta de carro às 1 da manhã, tinha que envolver algo do seu plano de me "enturmar" com seus novos amigos.

No banco da frente, ao lado dele, tinha um garoto sorridente com outro no colo, que eu reconheci ser Taehyung, já o vi marcando o ruivo em fotos de baladas. O sorridente virou para trás e estende a mão para mim.

— Oi, Jungkook! Eu sou o Hoseok. — Apertei sua mão, um pouco receoso, e o moreno apontou para o outro, que sorriu também e acenou — Esse aqui é o Taehyung.

Cumprimentei os dois com um sorriso tímido, logo recebendo algumas reações exageradas.

— Ah, esse garoto é um fofo! Tae, podemos adota-lo? — Pediu e o acastanhado riu baixo — Por favor, amor...

— Tudo bem.

Olhei para Hoseok, que brincava com as mãos do namorado. Eu nunca imaginaria que eles fossem gays, mas isso de longe era um problema, na verdade, eu até me sentia mais calmo. Talvez, só talvez, aqui eu tivesse um espaço, um espaço com pessoas que me aceitassem e que seriam legais comigo, diferente de todas as outras.

— Ótimo. Ele é oficialmente nosso filho agora.

Ri envergonhado, e Yoongi ligou o carro, dando ré.

— Vocês até podem, mas ele já é maior de idade. — Advertiu.

— Você é maior de idade? — Jimin perguntou.

No momento, meu coração pulou de um jeito que eu achei que ele fosse sair do peito com um mortal para trás.

— Hm... Sim. — Falei, tentando não gaguejar.

— Ah, bom saber. — Disse e se sentou no meio do banco, com o corpo bem próximo ao meu, apenas para sussurrar algo no ouvido de Hoseok, que assentiu e fez um gesto para Yoongi. Taehyung estava bem acomodado no colo do parceiro, olhando para a janela, alheio a tudo. Assim como eu.

— É, hyung. — Chamei e os quatro olharam em minha direção, corrigi: — Yoongi-hyung.

— Sim?

— Pode ligar o rádio?

Os meninos riram.

— Poder ele até pode... — Taehyung falou — Mas o máximo que o rádio vai fazer é explodir.

Jimin riu, e por um segundo, penso que gosto do som da sua risada. Senti vontade de ouvi-la mais vezes, porém me mantive quieto.

— Cale a boca — O dono do carro o repreendeu bem-humorado e me olhou pelo retrovisor — Eu acabei quebrando o rádio quando bati a cabeça do Hoseok nele uma vez, então o nosso único entretenimento é o Jiminie e o J-Hope. E o Tae, quando ele quer.

— Quem é J-Hope? — Perguntei, confuso e eles riram mais uma vez. — Não entendi a piada.

— J-Hope é o apelido do Hoseok — Jimin explicou — Ele era conhecido assim no clube de dança.

— Era?

— Não fazemos mais isso a um tempo. — Ele deu de ombros.

Hoseok – ou melhor, J-Hope – juntou as mãos e começou a fazer uma batida, enquanto o ruivo cantava uma música.

Era Shape Of You, do Ed Sheeran. Não costumava gostar daquele estilo de música, mas ficava bem na voz dele.

Quando o Park parou de cantar, ele me olhou esperançoso, sabendo que eu conhecia a letra.

— Ah, não...

— Por favor!

Com Park Jimin pedindo algo desse jeito tão... manhoso, seria burrice recusar, certo?

Comecei a cantar baixo.

— Mais alto!

Respirei fundo e segui o ritmo, Yoongi e Taehyung aproveitavam o espetáculo, Jimin fazia o backing vocal, e eu reparei que nossas vozes se encaixavam perfeitamente.

E quando terminamos, ele levou as pontas dos dedos até o cabelo laranja, jogando-o para trás e sorrindo.

— Na próxima trago o violão.

Sorri, sentindo as bochechas esquentarem, e passei a língua pelos lábios, os mordendo em seguida. Fiquei feliz em saber que haveria uma “próxima”.

Jimin me encarava, então por instinto o encarei de volta.

Em seguida, desviou o olhar e colocou sua cabeça para fora da janela, fechando os olhos. Vi seus cabelos ruivos serem bagunçados e acabei me prendendo em cada detalhe seu. A pele alva do seu pescoço bem a mostra, os lábios bem desenhados formando um sorriso pequeno... tudo parecia ter sido esculpido.

Ouvi as risadas altas dos outros na frente, mas nem mesmo prestei atenção no motivo dos risos, porque estava ocupado demais me perdendo na beleza daquele garoto.

Eu só parei de o fitar quando Yoongi parou o carro perto de um lago, e todos desceram, então eu fui também. Nos sentamos na beira do córrego, com cuidado para não sujar os tênis na terra – ou no meu caso, a pantufa – e jogamos conversa fora.

O ar de fora era quente e úmido, mas aconchegante, era quente o suficiente para que não usássemos casaco e fresco o suficiente para não suarmos.

Jimin se levantou e ficou buscando pedrinhas por entre o matagal, enquanto eu observava quieto, depois, arrastou o corpo para perto do meu e se sentou do lado, com as mãos carregadas de pedra.

— Bela pantufa. — Sorriu e eu corei — Toma. Jogue assim. — Me deu algumas pedrinhas e curvou um pouco o corpo para jogar, a pedra quicou no lago três vezes antes de imergir completamente.

Tentei uma vez, mas ela mergulhou direto e ele riu, se levantando e me levando consigo.

— Vou te ensinar. — Ele ficou atrás de mim e segurou meu antebraço, me curvei um pouco e ele tomou impulso para jogar a pedrinha.

E então a pedra quicou duas vezes e afundou. Sorri.

— É legal fazer isso.

— É. Você pode fingir que as pedras são seus problemas e afundar todos eles. Eu faço isso às vezes. — Ele colocou as mãos no bolso da calça e olhou para o lago.

Por algum motivo, seu "às vezes" parecia mais constante do que gostaríamos que fosse. Comecei a me perguntar se havia mesmo algo de tão errado com ele, se isso envolvia seu sumiço de alguns meses, ou se algum dia seremos amigos a ponto de ele confiar a mim esses segredos.

— Vou ver se o Hoseok trouxe os sanduíches. — Quebrou o silêncio, assenti e esperei, jogando algumas pedras.

A primeira: a culpa, a segunda: a saudade, a terceira: a dor, a quarta: eu mesmo.

Quando os garotos se juntaram e pegaram sanduíches que o moreno havia preparado para todos, embrulhados em guardanapos, eu já havia afundado alguns dos meus maiores problemas.

Peguei o meu e dei uma mordida. Estava seco e quase sem gosto, mas pelo menos ele havia tentado.

Taehyung tirou da mochila algumas latinhas de cerveja e jogou uma para cada. Hoseok o olhou de modo acusatório e o mesmo sorriu afetado.

— Fique calmo, não é nada demais.

O moreno suspirou, assentindo, e seu namorado me passou um copo. Agradeci.

Eu não costumava beber, mas se todos estavam bebendo, então eu tinha que parecer legal.

Acontece que sanduíche de maionese e peito-de-peru com cerveja não era uma combinação muito agradável, e eu tinha certeza que me arrependeria depois.

Olhei para o céu, ouvindo a falação deles, as risadas, até quando tentavam me incluir na conversa, e Yoongi apenas dizia:

— Dê um tempo a ele.

Ele me conhecia mais do que ninguém, sabia o que era o melhor a se fazer quando eu queria ficar só, apenas observando o mundo.

— Eles são tão melosos — o ruivo logo comentou, se referindo ao casal a frente, concordei e dei um último gole da cerveja no meu copo, que desceu queimando pela minha garganta. — Você fez como eu disse?

Olhei para ele, entendi que ele estava falando das pedras. Ou melhor, dos problemas.

— Sim, mas eu acho que vou precisar de mais pedras depois, aquelas não foram o suficiente.

— Eu te entendo — ele bebeu e jogou a lata vazia na cabeça de Taehyung, que o mandou o dedo do meio. — Desculpe, a ideia de te trazer aqui foi minha.

— Como?

— Eu pedi para o Yoongi te convidar para vir conosco porque eu sabia que se eu convidasse seria estranho, já que a gente mal se conhece. — Ele cruzou os braços e olhou para o céu também.

— Por que queria que eu viesse?

— Porque eu gostei de você.

— Você gostou de mim mesmo ou acha que devíamos ser amigos porque precisa da minha ajuda? — Perguntei.

Ele sorriu.

— Os dois.

Depois de um tempo em silêncio, me virei para ele.

— Vai me contar por quê e para que precisa da minha ajuda?

— Não estou com tanta pressa, e aqui tem muitos ouvidos — ele apontou com o queixo para os meninos — Amanhã, no terraço do seu prédio, te darei as respostas que precisar, se você der as que eu preciso.

Joguei uma pedra no lago sem que ela precisasse quicar para afundar, e então olhei para as pantufas de coelhinho.

— Tudo bem.

Ele estalou a língua, com aquele mesmo sorriso travesso no rosto, e cruzou os braços atrás da cabeça, olhando fixamente para o céu.

— É ótimo negociar com você, Jeon Jungkook.


Notas Finais


Desculpa mesmo se o capítulo ficou muito grande :( Espero que tenham gostado.

O trailer da fanfic está indisponível em dispositivos móveis, mas se vocês clicarem em "versão para desktop" dá pra assistir suave: https://www.youtube.com/watch?v=AqXRHwj-s60&t=25s

E a playlist: https://open.spotify.com/user/taehyungerz/playlist/5qTcmyQlmFGKOeTMwxmVAU?play=true&utm_source=open.spotify.com&utm_medium=open&play=true

Até o próximo <3


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