História 60 Dias Para o Amor - Capítulo 17


Escrita por: ~

Postado
Categorias Inuyasha
Personagens Inuyasha, Kagome, Kohaku, Miroku, Rin, Sango, Sesshoumaru
Exibições 187
Palavras 9.230
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Comédia, Drama (Tragédia), Ecchi, Hentai, Lemon, Luta, Magia, Mistério, Romance e Novela, Shonen-Ai, Shoujo (Romântico), Sobrenatural, Suspense, Violência, Yaoi
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


დ Olá, minna-san!!

დ Primeiro de tudo, quero pedir desculpas pela demora, MAS estava editando o visual dos capítulos, cm vão notar nesse. Não sou do tipo que muda uma coisa num capítulo só e deixa os outros cm estão. Odeio essa desordem u-u

დ Agora sanem suas dúvidas sobre oq o Sesshy fez com a Kah! Boa leitura :3

Capítulo 17 - Capítulo XVII


...

Capítulo XVII

“Pressão de Senhorzinhos”

ϾϿ

“Existem dois modos de viver a sua vida: um deles é vivendo como se todos os dias fossem os últimos, e o outro é viver como se você nunca fosse morrer. A única maneira errada é viver como se não importasse.”

...

 

 

Dia Quinze

.

Ela acordou com passos na sala.

Sabia que era de manhã, e sabia que não estava sonhando, pois seu corpo dolorido e sua cabeça latejante eram comprovantes bem óbvios de sua consciência voltando. Os cheiros que sentiu foram dois: o primeiro, fora o de Sesshoumaru, e isso a deixou em alerta como se tivesse tomado um susto. Como se, de repente, tivesse sido apunhalada no peito com uma injeção de adrenalina.

Não se movera, entretanto.

O segundo cheiro fora desagradável de várias formas diferentes.

Parecia algo podre, misturado com madeira queimada, e folhas secas. Tentou se recordar de alguém em específico, mas sua memória não estava das melhores, por isso deixou de lado, ocupada em tentar ouvir. Sabia que estava deitada no meio da sala do Dai-youkai, mas se isso o incomodasse, ou se fosse uma pessoa importante, ela já estaria fora dali, tirada a pontapés — e não duvidava que fosse literalmente —, então se deixou relaxar no chão duro. Mesmo que seu braço e perna do lado direito de seu corpo, pedissem para que ela se movesse e voltasse a senti-los.

—— Sesshoumaru-sama —— Oh, era Jaken. Fazia tempo que Kagome não implicava com ele. Agora sabia por que do cheiro podre.

Sua voz soara alta, como sempre, e irritante, quase ricocheteando pelos cantos da sala e incomodando seus tímpanos sensíveis naquela manhã.

—— Temos uma reunião importante no território do Sul, e-

—— Fale baixo. —— Ela sentiu algo fisgar em sua nuca, e soube que eram os olhos do youkai baixinho. Talvez por ele estar mais perto dela, e do chão. Sorriu com o pensamento.

—— Não precisa se preocupar. Já acordei. —— Abriu os olhos, dando de cara com o rosto de Sesshoumaru. De longe a pior coisa que poderia ver ao acordar, e de longe a melhor. Ainda mais quando ele a encarava com aquela cara de quem chupou limão logo pela manhã, e ela mal dissera seis palavras. Sorriu para ele enquanto se sentava, radiante demais para quem estava morrendo de dor de cabeça e marteladas pelo corpo.

Espreguiçou-se dolorosamente, ouvindo seus ossos estalarem, e depois mirou o pequeno youkai, pondo-se de pé.

—— Já que acordou, pode ir embora, miko! —— Ela fechou os olhos, sentindo seus tímpanos ricochetearem dentro dos ouvidos. Olhou-o em seguida, com óbvia ameaça de que o mataria se continuasse a ataca-la sonoramente daquela forma.

—— Quem decide isso é o Sesshoumaru, não você. —— Cruzou os braços, olhando para o Dai-youkai, igualmente o esverdeado, e ambos sendo ignorados. —— E mais uma coisa —— Jaken a olhou, franzindo o sobrolho onde não se via sobrancelha alguma, mas ela não se voltou a ele, não querendo perder a expressão do Dai-youkai quando ela continuasse. ——, Sesshoumaru não vai a essa reunião seja onde for até tomar o café da manhã conosco. —— Agora ele ergueu a cabeça, e ela sorriu presunçosa, como se o desafiasse a contestá-la.

Jaken olhou de um para outro, se perguntando como as coisas podiam ter mudado tanto em questão de duas semanas. Era... Incabível.

—— Não adianta me olhar assim, querido. —— Sem dúvida, seu nível de petulância estava aumentando. Fosse a ressaca, fossem as dores por todo seu corpo que exigiam lembra-la do por que de ter dormido ali  por estar bêbada, óbvio, mas deixando claro que ela não o estaria, nem seria forçada a estar, se Sesshoumaru não fosse o porco egoísta que ele era ——, algo a estava deixando insolente.

Jaken arregalou os olhos, suando frio e sentindo que seu Senhor estava a um passo de matar aquela mulher. Mas como sempre, ele se via enganado, ao momento que ela prosseguiu:

—— Estou mentindo por você, fingindo que sou sua “companheira” de bom grado —— Enumerou nos dedos, com falsa despretensão. —— para que seu povo não fale mal de você pelas suas costas... O mínimo do mínimo que você pode me fazer, é tomar a porra do café da manhã, almoçar e jantar a mesa com todos nós. —— Ela inclinou a cabeça, sorrindo ladeira. —— Saveh? —— Ele provavelmente não gostara da última palavra, pois seus olhos se estreitaram mais depois que ela o dissera.

Mas não é como se estivesse ofendendo-o, era? Não que ele soubesse, claro.

Sorriu mais, aproximando-se da mesa pela frente, debruçando-se sobre ela e o segurando o pulso, que repousava calmamente sobre alguns papéis. Ainda sendo mirada pelas íris fulminantemente douradas.

—— Qual é. Você não precisa comer, se não quiser. —— Deu a volta na mesa, sem soltá-lo, e puxou-o. —— Basta tomar um chazinho, ou um café... Apenas ficar vendo seus servos fazendo estapafúrdias na mesa e percebendo como eles não têm modos e como agem como crianças. Pode até fuzilá-los, se quiser. —— Gargalhou, não conseguindo o intento de convencê-lo, obviamente. Parou, inclinando a cabeça de forma séria e fitando-o com quase a mesma intensidade com que era fitada. Tirando a parte de que ele provavelmente a queria morta naquele segundo. —— Por favor?!?

.

(...)

.

Kumi se ajeitou sobre seu zabuton, olhando de forma travessa para o Inu-youkai a sua frente, que fazia o mesmo movimento, mas ocupado em babar sobre a comida farta na mesa para reparar na olhada indiscreta da outra.

—— Vamos lá, Yasuhiko. —— O albino ergueu os olhos para ela, parando seus hashis a meio centímetro do recipiente com pedaços de pepino. Franziu o cenho para ela, reparando que aquele sorriso ladeiro, tanto lhe lembrava Satoru quando estava prestes a aprontar alguma, como o fazia pensar que estava cedo demais para aquele tipo de coisa. Fosse lá o que quer que fosse. —— Se você pudesse fazer um único desejo, independente de qual, que sem dúvida nenhuma se realizaria... Qual pedido seria?

Os demais youkais, e o hanyou, pararam o que faziam pouco a pouco, começando a ficar interessados pela resposta do outro, quanto pela linha de raciocínio repentina da Inu-youkai.

—— Se eu pudesse fazer qualquer desejo... Sabendo que ele se realizaria... —— Levou uma mão ao queixo, fitando o teto com extremo interesse, pensando numa boa resposta como se ela fosse depender a sua vida. Quando a encontrou, o sorriso malicioso surgiu, voltando a fitar a albina à frente. —— A primeira coisa que eu pediria seria que todas as mulheres no mundo fossem gostosas com peitões e coxas grossas. —— Assentiu consigo mesmo, antes que Kamui batesse em sua mão, também divertido.

—— Antes de fazê-las serem mais gostosas, teria que fazê-las cegas, para você conseguir alguma coisa. —— A alfinetada fez uma onda de “oh’s” se espalhar pela mesa, junto de algumas risadas divertidas, apenas para esquentar o clima.

—— Esqueci que você é o pegador, Daichi!

O outro riu, apoiando o rosto no punho e o cotovelo na mesa, olhando o amigo da ponta da mesa, e sentindo-se tão satisfeito internamente por ter conseguido irritá-lo, que era quase estúpido.

—— Não é por que eu não quero. Sou homem de uma mulher só, Yasuhiko. Diferente de você, eu declaro meu amor a apenas uma pessoa.

—— Que desculpa esfarrapada. —— Daichi riu, dando de ombros. Pouco lhe importava se Yasuhiko acreditava nele ou não. Não precisava disso.

—— E você? Kamui! —— A Inu-youkai logo tentou mudar o foco de atenção ao sentir aquele clima pesado se instaurando. Já que ela começara, tinha que pelo menos consertar.

O homem pareceu confuso a principio, ainda expectante de que os outros dois sairiam no tapa. Quando pensou numa boa resposta, sua boca se abriu, mas não fora bem para a resposta.

—— Sesshoumaru-sama?

—— “Sesshoumaru-sama”? —— Alguns se entreolharam, sem entenderem o que ele quis dizer com aquilo, quando seguiram seus olhos, vendo o Senhor do Oeste na entrada da cozinha, com Kagome o segurando pelo pulso, e um pequeno youkai esverdeado ao lado deles. Mesmo que os olhos da miko transmitissem uma travessura atípica dela própria, a aura ao redor da morena era de puro cansaço e depressão.

Daichi demorara a seguir os demais, olhando de seu Senhor para a “mulher” dele, e dela para a mão em volta do pulso masculino, como se o tivesse carregado ali. Quando notara que estava ocupando a ponta da mesa, lugar de Sesshoumaru por direito — como Daichi sempre fazia, já que o Dai-youkai nunca descia para comer (nunca mesmo), e ele gostava de sentir-se importante ali na ponta —, rolou para o lado, empurrando Inuyasha e em consequência os demais, jogando Kamui para fora da mesa.

O youkai olhou para os lados, atordoado com o empurrão repentino.

—— Vai se juntar a nós hoje, Sesshoumaru-sama? —— A voz de Maiko soou quase divertida demais, o que fez Kagome a olhar de esguelha, reparando que os olhos âmbares estavam presos na sua mão ao redor do pulso dele. O soltou, cruzando os braços e lhe bufando em sua direção, ainda enfezada por ela ter feito aquela lavagem cerebral barata na noite anterior.

Não sabia que tinha um psicológico tão fraco assim.

Caminhou até a outra ponta da mesa, ficando entre Kamui e Yasuhiko. Dando falta de seu familiar rabugento, ela olhou em volta — até mesmo embaixo da mesa —, e em seguida para Inuyasha, lhe fazendo uma pergunta muda com os olhos irritados e sensíveis. Ele deu de ombros, despreocupadamente. Ela rolou os azuis.

Sesshoumaru se acomodou a outra ponta da mesa, entre Daichi e Takao, que até o momento havia permanecido num silêncio anormal e preocupante.

—— Sirva-se, Senhor! —— Incentivou Kumi, meio hesitante em fala-lo.

Kagome notou como quase todos, com exceção dela, Inuyasha e talvez Daichi, pareciam quase ansiosos com a presença do Dai-youkai ali, enquanto ela quase — quase —, se divertia com a cena de ver todos aqueles ombros tensos, e olhos vidrados numa única pessoa. Sorriu, apoiando-se sobre a mesa e mirando Sesshoumaru com desafio. Quando ele pareceu notar, a fitou, estreitando os olhos tão perigosamente, que no fundo, sua mente agradeceu a distância que os separava.

—— Sobre o que falavam? —— Voltou-se para Kamui a seu lado, que ainda parecia atordoado antes de olhá-la, franzindo o cenho, ignorando o outro na ponta propositalmente.

—— Falávamos sobre, se você fosse capaz de fazer um único desejo que pudesse se realizar definitivamente, qual ele seria. —— Quem respondeu fora Kumi, com os olhos pregados em sua tigela de ensopado, olhando de forma tímida demais para a miko. O que a fez rir de leve.

Talvez eles não se sentissem a vontade, mesmo, na frente de Sesshoumaru.

Quem diria.

—— Mas isso já deu briga, então... Vamos tentar não tocar em pontos fracos uns dos outros. —— Satoru alertou, olhando todos os rostos na mesa. —— Era Kamui que ia responder.

Todos se voltaram para ele, vendo-o mastigar um pedaço de cogumelo de forma faminta, antes de responder, sorridente.

—— Eu pediria pela paz mundial!

—— Mentiroso!

—— Cala-te, fingido! —— Uma onda de ofensas, tapas, e comida arremessadas atingiram o Inu-youkai, que teve de se jogar para trás de Kumi a fim de não ser mais atingido. Todos estavam brincando, claro, uma vez que risadas não escaparam do recinto.

—— E você, Kagome-sama? —— Ela ergueu o rosto para Daichi, reparando como ele alternava entre “Kagome-sama” e “miko-chan”, quando estava na presença de Sesshoumaru, e quando não o estava. Sorriu.

—— Se eu pudesse fazer um pedido... Pediria por pedidos infinitos. —— As risadas foram quase gerais, enquanto uns apontavam para ela, orgulhosos de sua escolha. Assentiu, repreendendo-se depois pela dor que a fez ver estrelas diante os olhos.

—— Sempre tem alguém que diz que se tivesse um pedido, pediria mais três. —— Resmungou Yasuhiko emburrado, na maior parte, por não ter tido a ideia. Kagome lhe piscou, tentando esquecer a ressaca e se divertir.

Foi apenas quando Heima passou pelo portal, ainda aparentando cansaço e uma cara de sono, que ela desviou os olhos e parou de sorrir. A maior parte dos youkais seguiram seus olhos. Viu-o estancar no lugar ao ver todos o olhando, inclusive as costas do Dai-youkai que permanecia silencioso e indiferente.

Como Kagome dissera, ele não precisava comer, necessariamente, se não quisesse. Ela só não contava com o fato de que ele fosse seguir a risca.

Ergueu os carmim para Kagome, franzindo o cenho para ela, como se soubesse que aquilo era unicamente responsabilidade dela. A miko sorriu de leve, ainda meio torpe e dolorida, tentava deixar isso de lado e parecer menos rabugenta. Ergueu a mão, fazendo sinal para que ele permanecesse a olhando.

—— Vamos ir ver o Daiki-san?

.

(...)

.

Não era realmente necessário dizer que o kitsune quase correu para o vilarejo. Se recusara a subir no lombo de Ah-Un, e pouco o próprio pareceu feliz em dar carona a um homem rabugento feito o moreno. Sendo assim, eles acabaram apostando uma corrida idiota no meio do caminho, que começou de uma forma que Kagome não entendeu na hora. Mas quando deu por si, já estava rindo, animada com a rivalidade besta e primordial daqueles dois.

Não fora preciso dizer que Heima venceu, e que sem dúvida, ele se comportou muito pior do que Ah-Un (ou uma criança), como se o outro youkai realmente ligasse para alguma coisa.

O que não fora, nem de longe, a coisa mais estranha ou incomum, melhor dizendo, que ela vira naquele dia.

Assim que chegaram ao vilarejo, Kagome sentiu-se reconfortada ao ver todas aquelas pessoas ainda trabalhando duro na reconstrução de suas casinhas. Não é como se ela esperasse vê-las prontas depois de menos de cinco dias, mas o que a surpreendia de verdade, era ver os sorrisos naqueles rostos cansados e manchados de terra e bronzeados pelo acesso ininterrupto do sol em suas peles.

Sango dissera que tinha que de estar constantemente lembrando-os de pararem para se refrescar numa sombra e comer algo, ou eles trabalhariam a finco por dias e noites. Miroku ajudava frequentemente, tanto, que quando a miko o viu com aquela tez avermelhada, quase não conteve a risada. Mesmo que não tenha conseguido com extrema eficácia conter as risadas, o mau humor do houshi se dissolveu ao receber o presente que a morena levara.

—— É uniss- quer dizer... Pode ser usado tanto por garotas, quanto por garotos. —— Se corrigiu, sabendo que eles não entenderiam. Sorriu, apontando para o tecido grosso, e deliciando-se com a expressão quase chorosa na face dos dois. —— Mesmo que eu tenha certeza que esse bebê vai ser um lindo garotão. —— Miroku a olhou.

—— Que Buda a ouça! —— Kagome riu animada, passando seus olhos ao redor, quando sua atenção fora completamente roubada por Heima e Daiki, mais longe.

Estreitou o olhar, inclinando a cabeça de forma automática, como se pudesse ver melhor após fazer isso; olhando de um ângulo diferente. Sentiu seu estômago se revirar de forma nervosa quando assistiu aquela conversa de longe. Daiki sorrindo tão abertamente e aquela expressão tão alegre, tão... Infantil no rosto de Heima. Era incomum. Era... Estranho, e a deixava nervosa.

Quando o kitsune menor deu um passo à frente, ela sentiu que o outro retrucaria, empurrá-lo-ia enquanto dizia que ele estava invadindo seu espaço pessoal, como ele sempre fazia, recusando qualquer contato físico com outro ser vivo. Não sabia o que estavam falando, pois era baixo demais, e longe demais, mesmo para seus ouvidos aguçados, ela só percebia murmúrios.

Mas Heima não o afastou, pelo contrário, seu rosto se inclinou, e um sorriso travesso surgiu nos lábios dele.

Quando Daiki corou, independente do que foi que Heima disse, ela sentiu como era ter um derrame internamente.

Eles pareciam... Estar... Flertando?! Ela estava ficando louca?!

‘E lerda.’ Ouviu Seiji se pronunciar, num tom tão lento e metódico, que era como estar cansado e ter que explicar a uma criança por que o estava. ‘Isso não é nem de hoje, Kagome.’

—— Como eu não percebi? —— Surtou, levando as duas mãos ao rosto e ignorando os olhares de Sango e Miroku, que evidentemente, estranharam sua reação repentina, entreolhando-se em seguida. —— Isso... Isso muda tudo!

—— Muda o quê, Kagome-sama? —— Ela não se virou para Miroku prontamente, sentindo-se cada vez mais vermelha ao notar aquela expressão maliciosa na face sempre tão indiferente ou irônica, de Heima. O sorriso em Daiki mostrava que ele estava envergonhado, mas não incomodado.

Ela deveria ter percebido.

‘Não se culpe. Meu irmão sempre soube ser discreto sobre isso. Se ele souber que você esta notando alguma coisa, ele vai negar e disfarçar.’ Assim que ele terminou a sentença, ela se virou de costas para eles, quase roboticamente e em movimentos duros, de olhos arregalados e sorriso forçado, criando uma careta que assustou Sango logo de cara.

—— Va-Vamos ajudar o-o pessoal? —— Saltou sobre o casal, quase fazendo a taijiya derrubar a trouxa com o presente embrulhado. Apontou para as pessoas sobre as casas, energeticamente.

—— Tudo bem... Mas... Por que essa pressa toda? —— A taijiya se desvencilhou de seu braço, girando nos calcanhares e praticamente bailando para longe dela. A olhou com uma sobrancelha arqueada. —— Me deixe guardar o presente antes.

Kagome a viu se afastar, e logo assentiu.

—— Certo, faça isso! Vai lá! Sem pressa! Banzai~

Enquanto fitava as costas de Sango se afastar, seu rosto foi se movendo e logo ela estava de cara com o rosto de Miroku, que a olhava com aquelas sobrancelhas franzidas e os olhos estreitos, os lábios crispados e vincas no meio da testa. Ele estava, obviamente, desconfiado.

—— O que você está fazendo? —— Indagou tão calmamente, que ela se afastou, quase como se ele de repente, tivesse sido possuído.

Riu amarelo, coçando a nuca e desviando os olhos:

—— Nada.

—— Você acha que está enganando alguém? —— Ela o olhou de canto, depois fechou os olhos, derrotada.

—— Não. —— Suspirou pesadamente, relaxando os ombros e voltando a encará-lo.

Agora Miroku sorria, olhando sobre o ombro, em direção à Heima e Daiki, cruzou os braços. Ela seguiu seus olhos, e depois se voltou para ele, disposta a pedir por discrição, quando ele prosseguiu solenemente:

—— Não precisa se preocupar, Kagome-sama... Não faremos alarde sobre isso. —— Voltou-se para ela. —— Pode ser que Heima-san seja discreto, mas Daiki-san é outro caso. Ele praticamente passou um dia inteiro falando do Heima-san para as pessoas aqui do vilarejo. Em como ele era bom, gentil, forte, inteligente, e como eram próximos desde que eram crianças, e de como sempre fora protegido pelo amigo. —— Riu, dando de ombros. —— Pessoas que já estão apaixonadas têm facilidade para identificar outras que partilham desse mesmo sentimento. Elas sabendo ou não. —— Quando os cobalto caíram sobre ela, foi como uma facada, fazendo-a se encolher um pouco. —— Não precisa se preocupar.

Ela assentiu, suspirando.

—— Só não quero que Heima se afaste ou aja de forma rude com Daiki-san, por que acha vergonhoso admitir o que ele sente, e isso acabe ferindo Daiki-san. —— Ele concordou, balançando a cabeça.

—— Mesmo tendo passado pouco tempo com ele, Kagome —— Ela ergueu os azuis para os escuros de Miroku, vendo uma seriedade atípica ali. ——, Heima-san não me pareceu desse tipo de pessoa. —— Sorriu mais compreensivo, apoiando a mão em seu ombro. —— Acho que... Temos apenas que dar a ele tempo, para se acostumar conosco. Para confiar na gente.

Ela assentiu, confiante.

—— Certo, vamos fazer isso!

—— Fazer o quê? —— Os dois quase saltaram no lugar ao ouvirem a voz de Heima tão perto. Kagome levou a mão ao coração, enquanto o houshi apenas dava um passo atrás, tentando não evidenciar que seu coração ia cair da boca se ele falasse. Olhou para o lado.

—— Hum... —— A miko tentou respirar contidamente, olhando para seu familiar e depois para o menor, sorrindo para ele de forma amarela, e se voltando para Heima. —— Ajudar os moradores, claro! —— Ergueu os braços ao alto da cabeça, satisfeita consigo mesma. —— Vamos ajuda-los, sim? Mão na massa!

—— Eles não parecem precisar de ajuda. —— Heima apontou, obrigando os demais a olharem na direção, vendo que as pessoas trabalhavam calmamente, sem nenhuma expressão de pressa ou frustração nos rostos.

Kagome sentiu um músculo próximo a seu lábio se contrair em desgosto várias vezes, como se fosse um tique.

—— Eles não parecem mesmo... —— Constatou baixinho, pousando a mão sobre o local latejante, sentindo-o saltar. Voltou-se para Heima com uma face serena, mas levemente irritada. —— Mas não interessa. Vamos ajudar.

Daiki sorriu, olhando de esguelha para o maior e vendo como ele parecia desgostoso com a ordem.

Suspirou, bagunçando os cabelos e seguindo em frente aos demais, ignorando o pedido de Kagome para que os esperassem.

.

(...)

.

—— Aqui, jii-san! —— Kagome ergueu os braços ao alto da cabeça, permitindo que o homem pudesse apanhar os objetos com facilidade. Um sorriso satisfeito e duvidoso no rosto. Afinal, ninguém podia ser tão feliz trabalhando arduamente abaixo daquele sol de torrar a cabeça, a ponto de sorrir daquela forma. Como quem ganhou o doce da vez.

Mas a miko conseguia ver a satisfação por trás dele.

Aquelas pessoas sorriam por serem capazes de ajudar umas as outras. Por estarem vivas, e por serem capazes de sentir dor, calor, e por sentirem o vento na pele, mesmo que abafado. Eles não ligavam se ia demorar, se ia ser trabalhoso, se iam martelar o dedo, cortar a mão, se as costas doeriam. O esforço valeria a pena.

Se perguntava, o que havia acontecido com a humanidade desde então.

—— Obrigado, ojou-sama! —— A morena assentiu e fez uma breve mesura, antes de se afastar e se juntar à Daiki e Heima, que a observavam fazia um tempo.

—— O que acha de irmos descansar um pouco, Kagome-san? Você se esforçou o dia inteiro. —— A miko estava começando a amar cada dia mais aquele kitsune. Ele era tão fofo, se preocupando com ela, lhe sorrindo e sendo gentil.

O completo oposto do rude e mal humorado do seu familiar.

—— Claro!

Dirigiram-se mais para dentro da floresta, onde Kagome sabia que havia uma fonte. Era longe o suficiente para que ficassem fora do alcance dos ruídos incessantes. Das marteladas e das conversas, de futuras intervenções alheias. A miko ficara, realmente, agradecida pela ideia. Seu corpo já havia se acostumado com o trabalho pesado, mesmo que pouco o fizesse no castelo, mas bastou passar um dia inteiro naquilo, para se sentir familiarizada com o esforço.

Ainda sim, não queria dizer que não estava cansada.

Tanto, que ao pôr os olhos naquele lago, circundado por pedras altas e largas, não precisou de muitos pedidos para que ela saísse correndo, tirando a yukata cinza que usava por cima, e se jogar na água fria, sendo bem recebida e envolvida. Mergulhara o máximo que sua respiração permitiu, nadando pela água cristalina com braçadas lentas, mas longas, vendo quão fundo aquele lago podia ser, e emergindo com uma enorme lufada de ar e nadando até a beira do lago, onde Heima e Daiki estavam acomodados, a olhando.

—— A água está deliciosa, por que não entram? —— Daiki lhe sorrira quase de forma infantil, como se estivesse apenas esperando o convite, olhando para Heima em seguida, e, mesmo depois da evidente recusa do mais alto, ao virar o rosto para a floresta, o menor se pôs de pé, tirando a parte de cima de sua yukata e saltando sobre a cabeça de Kagome, jogando água para o alto e quase acertando o kitsune sobre a pedra.

A miko riu de forma divertida, vendo o moreno nadar tão bem e tão rápido quanto ela, há pouco minutos. Sorrindo, apoiou os dois braços na pedra, e ficou apenas com a cintura submersa, olhando de forma travessa para seu familiar. Heima tinha menção do olhar dela, e do sentimento impresso ali, uma vez que o escrutínio não era nem um pouco disfarçado. E talvez fosse por isso que ele não a olhava, com as mãos apoiadas atrás das costas, e as pernas estendidas além da pedra, ele fingia ver a vegetação ao redor, apreciando a sombra que aquela enorme figueira projetava sobre eles.

Kagome também fingiu prestar atenção na árvore caduca, que assim igualmente era conhecida pelo fato de perder suas folhas todos os anos, trocando suas folhagens por outas novinhas.  Geralmente no início do inverno. E sem dúvida nenhuma, uma das coisas mais lindas de se ver de perto. Não queria apressar Heima a uma conversa, mas também não podia perder a oportunidade de ouro que lhe era oferecida.

—— Heima? —— Ele a olhou de canto, fazendo-a rir baixinho. —— Podemos conversar?

—— Já não estamos? —— Ela rolou os azuis, olhando por sobre o ombro quando ouviu que Daiki emergia, buscando ar. Depois de uma risada divertida, ele voltou a mergulhar, deixando-os a sós por um tempo.

—— Sobre Daiki. —— A fala pareceu deixar o outro enrijecido no lugar, olhando-a seriamente, mas com aquele brilho de alerta, ou talvez, de desconfiança.

—— Qual o problema com ele?

—— Nenhum. E é exatamente isso que quero falar. —— Não sabia como tocar naquele assunto, pois sabia que talvez, Heima fosse acabar se fechando como uma ostra e se afastando. Ela não queria isso, precisava forçar uma abertura naquela muralha que ele colocava em volta de si, vez ou outra. E pelo que ela podia notar, os únicos que podiam transpassa-la, eram Daiki e Seiji.

Ela precisava forçar sua entrada. —— Estava pensando em pedir a Daiki para ser meu familiar também.

O corpo se empertigou tão rápido que Kagome quase saltou da pedra para desviar dele, achando que o kitsune ia pular sobre si, quando ele apenas se aprumara, olhando-a com olhos arregalados. Ela não conseguiu entender, entretanto, se era surpresa, raiva, incredulidade ou felicidade. Ele apenas estava ali, a olhando com olhos arregalados, em completo silêncio e em total inércia de movimentos, que podia parecer um boneco muito real e assustador.

—— He... Heima? —— Ele piscou, e de repente, era raiva ali. Agarrou o pulso dela, aproximando-se ao mesmo tempo que a puxava para perto. Kagome achou que ele ia beijá-la, mas com aquela expressão de raiva contida, duvidava muito disso.

—— Você está louca? O sol afetou seus poucos miolos, miko?

Kagome soltou um muxoxo baixo, não parecendo nem um pouco intimidada com a irritação dele. Baixou a cabeça, como se do nada, ela tivesse ficado pesada demais para se sustentar. Heima ficava olhando-a nos olhos, mesmo que não pudesse ver diretamente.

—— Por que não voltamos à época em que você me chama pelo meu nome com um carinho tão comovente na voz, que é capaz de fazer muralhas chorarem?

—— Eu nunca te chamei com carinho na voz. —— Ela riu, apoiando a outra mão sobre a dele e parecendo mais calma e divertida.

—— Mas poderia. Que tal testarmos? —— Heima se afastou como se ela tivesse pegado fogo. Kagome riu, voltando à posição de antes, com os braços sobre a pedra e, agora, com o rosto sobre eles, enquanto o kitsune cruzava os braços de músculos desenhados, sobre o peito firme, mas encoberto pela yukata marrom.

Por que, aliás, ele ainda estava com aquilo? Ele não sentia calor? Era tímido demais? Ela poderia mandar que ele tirasse!?

—— Não pense em fazer isso. —— O som de Daiki emergindo outra vez os calou instintivamente. Kagome olhou para o menor, e acenou displicentemente, o que pareceu irritar Heima, ainda mais quando o outro retribuiu de forma animada e totalmente sem fôlego, voltando a mergulhar.

—— Ele parece um kappa que ficou anos fora d’água. —— Gargalhou, voltando-se para Heima e sumindo com o riso. —— Vou apenas sugerir, idiota. Se ele não quiser, tanto faz.

—— Se tanto faz pra você, por que sugerir, afinal?

Kagome crispou os lábios, depois mordeu o lábio inferior, fitando a pedra acinzentada abaixo de si com tamanha dúvida, que poderia parecer estar tentando ler os pensamentos da outra. Não seria a primeira vez que via algo do tipo. Patrick Rothfuss receba seus cumprimentos.

Suspirou, erguendo os azuis para o familiar.

Como dizer a ele que notou o climão que estava rolando entre ele e o “boy magia” da vez, e que queria, como uma fujoshi assumida e documentada, ajudar os dois a ficarem juntos? Sendo assim, para aproxima-los, ou ela desfazia o contrato com Heima, que estava fora de cogitação por dois motivos bem únicos e óbvios; o primeiro sendo que: ela queria ver de camarote esse lance amoroso entre os dois, e claro, poder meter o bedelho quando lhe conviesse, e segundo: ela gostava de mandar nele. Ou, ela convidava Daiki para ser seu familiar. O que seria tudo duas vezes melhor.

Sorriu, dando de ombros.

—— Gosto dele e o quero por perto. —— Olhou sobre o ombro, vendo o corpo do kitsune nadando de um lado para o outro. —— Sem contar que ele é gentil comigo, e acho que estou apaixonada.

Sentiu um puxão em seu ombro.

—— Do que está falando? —— Ao ver a expressão no rosto de Heima, ela não pôde segurar. Kagome realmente tentou não rir, mas ao ver aquela incredulidade e frustração nas orbes carmim, ela teve que rir. E muito. Muito mesmo. A ponto de se engasgar com a própria saliva e ficar tão quente, que teve de se abanar. —— Maldita...

Balançou a cabeça, limpando as lágrimas do canto dos olhos. Quando Daiki se aproximou, subindo na pedra e ensopando todo o local.

—— Já que Daiki está aqui pra te fazer companhia, Hei-chan, vou mergulhar. —— Daiki não teve tempo de assimilar alguma coisa ali, antes de ver a miko jogar o corpo para trás e afundar na água. Voltou sua atenção para Heima, vendo-o fulminar o lugar onde Kagome sumira, por longos segundos, antes de soltar um choramingo e alisar a nuca.

Riu alto, sentando-se ao lado do amigo e vendo a ira ser direcionada a si agora.

—— Isso é o que ganha por fulminar sua mestra. —— Era um tipo de retaliação automática. Quando o familiar tinha pensamentos inadequados, normalmente furiosos ou perigosos, em relação a seu mestre, ele recebia uma picada na nuca que ia ficando mais forte conforme o sentimento se procedesse.

Já ouvira história de familiares que tiveram de ser purificados depois de acabarem com uma enorme mancha de miasma na nuca, alastrando-se pelo corpo. Esse tipo de contaminação podia afetar o mestre, fazendo-o sentir a mesma dor, e por vezes, levando ambos à morte. Também era facilmente passado para outros familiares.

Era melhor Heima tomar cuidado com o rumo que seus pensamentos revoltados tinham. Ele não era mais responsável apenas pela própria vida. E isso, tinha de ser bem claro em sua cabeça.

—— Lembrei! —— Voltou seus azuis para Kagome ao ouvi-la quase gritar, enquanto saía da água de forma urgente, aproximando-se deles um pouco ofegante e confusa.

—— O que?

—— Yuki me disse que eu deveria tentar condensar meu houriki e dar uma forma a ele. Mas não faço a menor ideia do que ele quis dizer. —— Os olhos da miko de repente eram preocupados e frustrados sobre o menor, como se implorasse a ele que a desse uma resposta.

—— Condensar seu houriki? —— Ela assentiu, sentando-se.

—— Normalmente, eu apenas libero meu poder espiritual em objetos, sendo assim, o uso “indiretamente”, compreende? —— Daiki assentiu, curvando-se para perto dela. —— Até hoje, eu apenas o envolvia ao redor das flechas que usava, e as lançava. Quando fazia isso, elas deixavam de ser madeira, penas e um pedaço de ferro, e passavam a ser Hama no Ya’s. —— Sorriu, olhando as próprias mãos. —— Eu nunca usei meu poder... Sem esse tipo de intermédio.

Parando para pensar, todas as vezes que ela usara seu poder, fora colocando-o sobre outra coisa, ou usando outro objeto para ajuda-la. As duas únicas vezes que pudera usar seu houriki diretamente, foi quando acabara sendo trazido para a Sengoku Jidai, e afastara a youkai centopeia com as mãos.

Depois daquilo, não se lembrava de ter conseguido outra vez. Fossem as flechas, fosse pelo arco, fosse usando pulseiras purificadas ou pé de youkais. Ela entendia o ponto onde Yuki queria chegar, ela só não sabia como chegar lá.

—— Eu vejo... Ele quer que você dê forma a seu houriki? —— Ela assentiu. —— Isso não seria como se ele estivesse pedindo que você... Usasse a energia pura? Sem outro utensílio? Como criar uma lança de energia? Ou um escudo?

Kagome o olhou por breves instantes, com o cenho franzido. Ela já conseguia criar escudos, mesmo que no início ele mais surgisse por conta própria do que por força dela. Mas não tinha pensado em criar um tipo de arma, com energia pura. Será que ela conseguiria? Queria dizer que ela estaria entrando em um cenário nunca explorado por ela antes. Conseguiria sair sã daquilo? De onde Yuki tirou que ela podia ser capaz de conseguir algo daquele patamar?

O que, nela, o fez crer que Kagome era esse tipo de pessoa? Aquele tipo que consegue dar tudo de si em algo, e inovar para um nível superior, com uma ideia supercriativa e fantástica, que surpreende todos e os fazem parecer tolos por não terem pensado naquilo também?

Ela não era a protagonista de um mangá shounen.

Suspirou minguado, quando uma ideia brilhou em sua mente, e ela arregalou os olhos ao mesmo tempo que seu corpo era impulsionado para cima pela euforia. Daiki e Heima a olhavam de forma curiosa, estranhando o salto.

—— Isso é fantástico... —— Ela disse tão baixo, que se não fossem youkais, não passaria de resmungos.

Ela olhou para Daiki e saltou sobre ele, apertando seu rosto entre as mãos e o enchendo de beijos estalados, entre risos nervosos tanto dele, quanto dela.

—— Você. É. Fantástico. Daiki! —— Ela se afastou, olhando-o nos olhos. —— É muito esperto! Como não pensei nisso antes? Ainda bem que tenho você para conversar.

Heima fingiu que aquilo não doeu.

Daiki riu, assentindo sem entender direito a situação.

—— Eu ajudei?

—— Não só ajudou, como me deu uma ideia incrível! Só falta colocar ela em prática... Depois que você me responder uma coisa. —— O kitsune estava ficando zonzo. Quando ela afastou as mãos de seu rosto, tão rápida, foi como se ele tivesse cambaleado, mesmo que permanecesse sentado.

—— O-O quê?

—— Quer ser meu familiar? —— Heima arregalou os olhos, se pondo de pé num salto assustado, enquanto o menor a fitava nos olhos, sério e concentrado.

—— Como?

—— Isso mesmo! —— A risada nervosa da outra foi um sinal de que ela não conseguiria dizer de novo.

.

(...)

.

Ela suspirou audivelmente, fazendo um bico com os lábios.

Olhou pela janela sem trancas do escritório de Sesshoumaru, vendo que a noite já havia caído, e com ela, uma brisa fria de início de noite. Podia ver tantas estrelas no céu, em qualquer lugar que ela estivesse que parecia estar um pouco mais perto da órbita estelar.

Era bom pensar daquela forma. Meio retardado, mas bom.

—— Tenho algo pra avisar —— Deu ênfase ao “avisar”, deixando explicito que não ligava pra opinião dele, mesmo que aquele castelo fosse do próprio, e que ele não fazia ideia de que o “avisar” dela envolvia um novo hóspede. ——, e sei que você não vai gostar, provavelmente, na verdade, obviamente... Mas prometo ser bem responsável por ele. —— Ela estava falando de algum gato ou cachorro?

Não voltou-se para o Dai-youkai, sabendo que não teria sua atenção mesmo.

—— Daiki vai ficar aqui também. —— Fez uma breve pausa, ouvindo quando ele parou de escrever.

Oh, merda... Ela preferia NÃO ter a atenção dele.

Girou o rosto, sendo pega pelas íris douradas. Engoliu em seco, não sabendo se enfiava a sua cabeça no chão, ou saltava pela janela. Não achava que a queda a mataria.

Ele estava sério. Não aquele sério de indiferente, era o sério do tipo facilmente irritável. Mais fácil que o já costumeiro “facilmente irritável”. O que significava que ele não estava de bom humor naquele dia, pois quando era o costumeiro “facilmente irritável”, ele não daria importância para aquilo.  

Deu pra entender?

Riu de forma desengonçada, quase parecendo uma tosse.

—— Fiz um contrato com ele... —— Sesshoumaru soltou a pena calmamente sobre o papiro, sem deixar de olhá-la. Quando o pequeno objeto pousava, quase seguramente ali, mais seguro que Kagome, evidentemente, ele franziu o cenho para ela, como se exigisse uma explicação.

Era estranho entender esses franzir de cenho dele, mesmo sem o homem dizer uma palavra? Ela achava que sim. Pelo menos começava a achar.

Ergueu as mãos em frente ao corpo, como se fosse impedi-lo de se aproximar dela, quando o albino mal se movia, ou como se fosse mesmo funcionar se ele quisesse assim, uma aproximação intimidante.

—— Eu... Fui obrigada... Daiki estava... Morrendo! —— Ela se assustou com sua própria incapacidade de mentir. Alguém acreditaria naquela baboseira? E desde quando se salva um youkai ao fazer um contrato com ele? Será que é possível? E se não fosse, será que Sesshoumaru sabia disso?

Ela estava cruzando os dedos mentalmente, na esperança de que não.

—— E como Heima e ele são tão amigos... Eu não pude deixar de ajudar. Essa foi a única saída, eu juro! —— Ela estava, realmente, ficando cada vez mais uma cara de pau.

—— Se tornou uma mártir dos kitsunes, miko?

—— Ka.go.me. Fizemos um trato, não se esqueça. —— Lembrou-o, meio contrariada.

—— Esse castelo não é sua casa. Não traga quem você bem entender para cá. —— Ela bufou, achando-o falador demais.

—— Ouch! Obrigada por deixar isso bem claro. —— Ralhou de forma irônica. —— Mas não vou mudar de ideia. Se não gostou, basta dizer que eu e meus dois youkais vamos embora e você se vira com Yuki pra achar outra maluca para aguentar você e toda essa pressão de Senhorzinhos, e ajudar vocês com esse “pequeno” probleminha que anda rondando seu reino, Senhor do Oeste. Duvido que encontre alguém que suporte essa situação como eu, ou que se quer aguente você. Mas vai ser divertido procurar, acredito. Todas vão ver você e o Yuki e vão correr na direção oposta! —— Ditou firme, sem nem um pingo de convicção. Mas não desviou os olhos dos dele, sabendo que precisava se impor. —— Já percebeu como você é mal agradecido? Depois do que fiz por você, o que custa deixar Daiki ficar? Ele é um amor de kitsune, e você nem vai notar a presença dele nesse enorme castelo. Duvido que vocês cheguem a se cruzar por aí. —— Cruzou os braços sobre o peito, batendo uma das pernas no chão freneticamente, sentada em forma de lótus sobre o zabuton azul. —— Você nem tem que gostar dele... Apenas tolera-lo. —— Sorriu de canto, divertida. —— Como faz com todo o resto do mundo.

Sesshoumaru não disse mais nada por longos segundos, que pareceram anos. Ela sabia que não era por que estava cogitando a ideia, ou por que ela havia o tocado de forma comovente, muito menos por estar tentando identificar se a última fala fora um motejo ou não. Ele poderia muito bem estar pensando em quem chamar para substitui-la, ou como faria para enxota-la dali junto da corja. Usando o chicote ou Bakusaiga?

Ele provavelmente iria de chicote. Sádico!

—— Mantenha os dois fora de confusão. —— Ela sorriu tão abertamente, que nem pareceu que, há poucos instantes, tinha uma aura raivosa sobre ela.

—— Obrigada, Sesshoumaru-sama! —— Ele voltou a escrever, e ela se pôs de pé.

Precisava contar as boas novas aos dois.

Confessava que teve de segurar muito sua vontade de sair saltitando da sala de Sesshoumaru até o andar de baixo, onde havia deixado os dois kitsunes esperando a decisão a ser tomada. O sorriso em seu rosto era tão evidente, e um pouco assustador, diga-se de passagem. Era satisfação e euforia se entrelaçando e deixando-a daquela forma, entorpecida.

Não sabia se parte disso, também não se devia ao fato de que, outra vez, Sesshoumaru ter cedido a ela sem muito esforço da sua parte. Tudo bem que não tinha o mínimo pingo de esperança de que isso aconteceria naquele momento, ou em futuros, pois ela sabia que teriam mais, entretanto, não podia deixar de sentir-se de ego inflado. Afinal, não era qualquer um que podia convencer aquele Dai-youkai e dobrá-lo a sua maneira. Ainda mais, sem realmente, ter crença de que isso vá funcionar.

Aquilo foi totalmente involuntário. Pelo menos, em parte fora.

De forma satisfeita, exalando uma aura pura e radiante ao redor de si, diferente do momento que acordara aquela manhã, e do que acontecia com ela há tempos, Kagome desceu as escadas quase de forma saltitante. Quando então seu mundinho cheio de brilhos e alegria ruiu junto do som de socos e resmungos irritados.

Seu corpo parou no meio dos degraus, como se já tivesse visto o que acontecia, quando ela podia facilmente imaginar a cena.

Ao passar pelo portal do cômodo, pôde ver um amontoado de youkais e um hanyou, se enrolando no chão, derrubando moveis, objetos, entre chutes, socos, palavrões, puxões de cabelo, de roupa, e pelo que ela podia ver, até mordidas.

—— Hey... —— Chamou, mas aquele monte de pele, roupa e sangue, não pareceu ouvir a voz quase ameaçadora ao ser proferida de forma tão baixa.

—— Seu filho da puta!! Sua mãe deveria ter comido você assim que nasceu, seu projeto de verme!

—— Ruja menos montanha de estrume!! Sua mãe deveria ter te esmagado assim que ela tossiu você pra fora! —— Desde quando Takao e Heima chegaram ao ponto de enfiarem as próprias mães em discussões idiotas?

—— Hey... —— Novamente, agora, mais rouca e grave do que antes. Uma veia saltando em seu pescoço ameaçava estourar a qualquer segundo, parecendo até ter uma vida própria.

—— Por que não pode parar de ser tão mesquinho, youkai de merda? Daiki não é nenhum monstro, deixe de implicar com quem entra e sai desse castelo. Ele não é seu! —— Mesmo que Kagome quisesse concordar com a fala de Inuyasha, vê-lo puxando o cabelo de Daichi não ajudava muito para que ela tivesse alguma vontade de ficar ao lado do hanyou.

—— Por que está xingando Takao e batendo em mim? —— O Inu-youkai ralhou, puxando a Hi-Nezumi de Inuyasha,

—— Porque você o defendeu! —— As posições se inverteram, e antes Inuyasha que estava sobre as costas do Inu-youkai, agora era prensado contra o chão, quando Daichi se jogou para trás. O hanyou pareceu ficar com falta de ar, mas ao enrolar as pernas no tronco dele, deixou o albino sem conseguir se mover, parecendo uma tartaruga caída de costas a tentar se endireitar.

—— Ele é meu irmão!!

—— Não deveria dizer isso com tanto orgulho!

Takao, que até a pouco estava num emaranhado de confusão com Heima à suas costas e Daiki diante dele, tentando lhe dar uma chave de braço, enroscado nele como um bicho-preguiça, olhou para Inuyasha e Daichi no chão, próximos, e não hesitou em chutar o hanyou, obviamente ofendido.

Claro que não conseguira usar muita força, uma vez que era ocupado por dois kitsunes bem determinados em lhe arrancar os cabelos da cabeça, e as roupas do corpo, em expressões tão irritadas, mas em atitudes tão controvérsias e infantis, comparadas com aquelas expressões, que a miko não estava mais entendendo o que se passava.

Foi apenas quando Takao se desequilibrou, graças ao fato de Heima estar enroscando suas pernas, e caiu sobre a mesinha baixa de madeira no centro do cômodo, espatifando-a como se fosse feita de gravetos, que Kagome despertou. Uma ira tão animalesca, que Daichi e Inuyasha sentiram primeiro, antes de verem. E provavelmente Heima só a viu, colado aquele monte de músculo que se contorcia no chão tentando achar uma forma de se erguer, pois a fisgada em sua nuca a denunciou.

E que ela não estava no melhor humor.

—— Eu disse... Hey! —— Os cinco mal puderam ver o que acontecia quando uma luz rosada os cegou e os arremessou para direções diferentes.

Não teve explosão, nem fogo, nem nada destruído, além daquilo que eles já haviam quebrado, e daquilo que eles quebraram ao serem jogados sobre. Houve apenas atordoamento, confusão e dor, principalmente.

—— Puta. Que. Pariu... Eu estava a pouco convencendo Sesshoumaru a deixar Daiki ficar, garantindo que ele não seria um problema —— Caminhou até o centro do “ringue” que se tornara aquela sala, olhando para todos os youkais jogados em cantos estratégicos, tentando se endireitar, alisando cabeças doloridas, ajeitando roupas fora de lugar, tocando locares doloridos e averiguando a extensão dos ferimentos. ——, e encontro vocês se pegando no meio da sala? E da forma mais escrota que poderiam fazer ainda? SE QUEREM BRIGAR, BATAM COMO HOMENS E NÃO GAROTINHOS DE DOZE ANOS QUE ESTÃO APRENDENDO A BRIGAR AGORA!

Inuyasha e Heima se entreolharam. O primeiro, evidentemente culpado, enquanto o segundo parecia mais confuso com o rumo do sermão. Ela estava incentivando-os ou o quê?

—— Daiki! —— O kitsune sentiu sua nuca latejar, e um pouco surpreso e frustrado consigo mesmo, ele a olhou, coçando a nuca. —— Não sabia que você era do tipo brigão.

Os olhos azuis eram apenas repreensivos, não irritados ou decepcionados, como ele imaginaria estarem. Talvez Kagome estivesse acostumada com aquele tipo de situação? Sim, talvez ela estivesse.

—— Desculpe...

—— Quero saber como isso foi acontecer. —— Voltou-se para Daichi, do outro lado, que já estava de pé, tirando um pouco de sujeira da roupa. Quando ele notou que era observado, ergueu os olhos âmbares para ela, quase parecendo arrependido. Quase.

Ele apontou para seu próprio rosto.

—— Eu?

—— Sim. Comece a falar. —— Ela podia ver que pouco a pouco, todos já se colocavam de pé.

Daichi pareceu consternado, olhando para os demais como se esperasse colaboração, do tipo como um motim. Vendo que não seria ajudado, e que estava sozinho naquilo, suspirou minguado, dando de ombros.

—— Takao não aceitou muito bem a presença de Daiki aqui. Disse que era corja remelenta demais no castelo. —— Kagome suspirou, imaginando algo do tipo.

—— Como começaram a se estabefear?

—— Hum... Heima não gostou do apelido! —— Riu de forma travessa, e a miko pôde ouvir um rosnado atrás de si, junto de outro risinho. —— Depois, Daiki tomou as dores também. Tentei separá-los, mas alguém me acertou uma cotovelada no meio da cara e não pude deixar barato. Então o hanyou se meteu.

—— Achei que ele fosse seu irmão. —— Resmungou o dito cujo, de forma irritada, olhando o Inu-youkai ao lado.

Daichi deu de ombros displicentemente, olhando ao redor.

—— Quem fica quieto com uma cotovelada de graça dessas?!?

Inuyasha concordou, parecendo mais conformado agora.

Kagome respirou fundo, quando olhou para os três atrás de si.

—— Quero que peçam desculpas um ao outro. —— Takao e Heima a olharam em incredulidade, depois raiva e então asco, antes de voltarem-se um para o outro e rosnarem. Daiki apenas a olhou sério, depois riu baixo, coçando a sobrancelha e virando o rosto. —— Não estou pedindo, malditos. AGORA! —— Takao riu desdenhoso, cruzando os braços.

—— Você acha, realmente, que sou obrigado a acatar ordens suas, pulga? Não sou nenhum de seus malditos familiares, então não venha com ordens pra cima de mim, entendeu?

—— Eu sou sua Senhora, filho de uma cadela. —— Ele não pareceu ofendido, sabendo que era verdade. Muito menos pareceu intimidado. —— Você é que planta discórdia nesse castelo, projeto de estrume! Peça desculpas!

—— Me obrigue! —— Kagome abriu a boca para dizer algo, quando de repente, Heima saltou sobre o pescoço do Inu-youkai, lhe dando uma chave de braço, e derrubando-o no chão, enquanto ainda o prendia daquela forma.

O som estrondoso que eles fizeram ao caírem, lembrou à miko de um trovão cortando os céus em uma tempestade. Deu dois passos atrás, temendo estar na mira da montanha que caía dos céus.

—— Heima!

—— Vou baixar sua bola, Monte Takao! Fazer você engolir essa arrogância à força! —— Kagome não entendeu nada do que aconteceu em seguida.

Heima parecia estar com a vantagem, mas Takao era mais forte, e provavelmente mais acostumado a chaves de braço do tipo, não sendo muito difícil a ele para se esquivar do aperto, invertendo as posições. Vendo que Heima estaria ferrado se Takao colocasse as mãos nele de verdade, Daiki interferiu, agarrando os braços do Inu-youkai atrás das costas.

—— Seu merdinha!

Um vulto negro e branco passou por ela, e puxou Daiki das costas do maior. Heima aproveitou a distração e envolveu o pescoço de Takao com as pernas e o jogou para o lado, num segundo som estrondoso, enquanto tentava sufoca-lo. Enquanto isso, o kitsune de pé espalmou as mãos do Inu-youkai maior de si, antes de ter seus ombros empurrados e uma troca de afasta e empurra começar a ser trocado.

Inuyasha tentou afastar os dois, mas levou um tapa na cara tão repentino que até a miko se sobressaltou, sabendo que agora, nem mesmo Sesshoumaru impediria que aquele Inu-youkai sofresse a ira do hanyou. E dito e feito, assim que Inuyasha saltou sobre Daichi outra vez, Daiki aproveitou a brecha para tentar ajudar Heima, mas ele parecia estar indo muito bem na tarefa de tentar matar Takao.

Kagome coçou a nuca, vendo que a situação voltara ao que era quando ela chegou ali, com propensões de piorarem.

—— O que está havendo aqui?

Assim que ouviu a voz de Kaneki, soube que tinha mais idiotas para se meterem na briga. Tudo bem que Yasuhiko estava tentando afastar Heima de Takao, mas talvez ele não tenha levado na boa o encontra que ganhou daquele kitsune intruso que nunca vira na vida. E o “quem é você, seu merda?” pareceu apenas o prelúdio de um embate tão ou mais ridículo que aqueles outros dois.

E então fora a vez de Satoru e Kamui. O primeiro tentou afastar Inuyasha de Daichi, que pareciam estar tentando tirar a roupa um do outro, entre puxões de cabelo, no caso do hanyou, já que o outro lhe puxava a bochecha como uma tia chata faria com seu sobrinho fofinho. Já Kamui, se viu caindo sobre Heima e Takao quando tentou afastá-los e recebeu uma rasteira, involuntária, de Yasuhiko e Daiki se engalfinhando no chão.

Heima afastou Kamui de si, jogando-o sobre Takao, que fizera o mesmo, e em seguida o Inu-youkai se irritara com tantos empurra e chuta, que começou a distribuir socos e pontapés a torto e a direito, sem querer saber de quem seria atingido, apenas querendo atingir pra machucar.

Kagome olhou para Kaneki na porta, quando viu a aura funesta que emanava de si. Ela pensou em pedir calma a ele, estranhando, e se assustando um pouco, aquela expressão de fúria desmedida, quando então jogou os braços ao alto e saiu do cômodo.

—— O QUE PENSAM. QUE ESTÃO. FAZENDO? —— Poderia se dizer que Kagome se sentiu comovida com a dor alheia, sabendo que aqueles youkais, e o hanyou, sofreriam a ira de um homem que ela nunca vira erguer a voz uma vez se quer, mas seria mentir na maior cara dura.

Como havia lido em algum lugar: “Há três coisas que todo sábio teme: o mar na tormenta, uma noite sem luar e a ira de um homem gentil(28)”.

.

(...)

.

Ela parou de andar ao notar o lago onde, noutro dia, havia tido a mais bela visão de toda sua vida. Onde descobrira, na verdade “assumira”, que estava inegavelmente atraída por Sesshoumaru e aquela maldita personalidade distorcida dele.

Onde sentira como seu mundo podia ser balançado pela simples imagem daquele Dai-youkai, e teve um breve vislumbre da extensão do poder que ele podia ter sobre ela.

Pelo menos, agora.

Se naquele momento, ele tivesse pedido a ela, com aquela expressão no rosto, aquele cheiro cítrico e viciante, que ela simplesmente batesse a cabeça na pedra até abrir um racho, ela achava que teria o feito. Ou na pior das hipóteses, cogitado a ideia. Ele poderia ter lhe pedido qualquer coisa naquela altura, e ela acataria, como uma boa cadelinha fiel e obediente.

Mas vendo naquele segundo, parecia apenas um lago normal. Com um vento normal, e um cheiro normal.

Sem Sesshoumaru... Não parecia tão mágico assim, parecia?

Piscou, olhando ao redor e se aproximando do local onde ele estivera sentado. Acomodou-se ali também, recostando a cabeça na pedra e querendo dormir, para descansar o corpo e a mente esgotados, quando o som de algo emergindo da água a assustou, quase a derrubando do cômodo assento. Olhou de forma alarmada para a ninfa, a mesma daquela noite, que agora, aproximava-se tão rapidamente, que se sentiu no ímpeto de saltar dali, receosa.

Mesmo que ela sorrisse, ainda a assustava, com aqueles olhos azuis cristalinos e quase... Irreais de tão belos e enormes. Aquela pele lisa, brilhante, e aquela aura misteriosa ao redor. Vendo agora, aquela ninfa pareia mais lhe despertar receio do que curiosidade e fascínio, como na noite em que a vira e ouvira cantar.

Teria sido a música?

—— És Kagome, Hime-sama? —— A miko franziu o cenho com a forma que ela a chamara, e por saber seu nome. Sem contar com a voz de veludo, tão calma e branda, que parecia se arrastar, lembrando à miko uma cachoeira a correr, ou o som da água batendo contra pedras.

ninfa se aproximou, apoiando os braços na pedra, próximo de suas pernas, olhando-a de forma tão travessa, que parecia uma criança.

—— Sim... Como sabe...?

—— Kaneki-sama!

—— Sei... —— Assentiu, desviando os olhos. “Claro... Quem mais seria? Sesshoumaru? Pfft...”

—— Sempre quis conhecer-te, Hime-sama! —— Sorriu mais abertamente, tendo a atenção da miko em seguida. —— A mulher que salvara o coração de pedra, do Ouji-sama!

“Ouji-sama?” Kagome segurou a vontade de rir, crispando os lábios e apertando as mãos uma contra a outra. “Ela não deve estar falando do crápula do Sesshoumaru...”

—— Eu salvei? —— Ela assentiu, solene. —— Como?

—— Ouji-sama sempre fora tão solitário. Nunca viera até aqui... Para ouvir-me cantar. Mesmo durante dois séculos... Sempre fora... Distante e frio. —— Ela falava ainda sorrindo, o que deixava a miko com o pensamento de que ninfas eram deturpadas. —— Ouji-sama sempre será precioso, para nós. Merece a felicidade, como merece o amor. Nossas preces sempre foram sobre isso. Nossa forma de retribuir.

—— Retribuir o quê?

—— Ele nos salvara, Hime-sama! Há dois séculos... Nós que éramos caçadas por youkais e humanos. Para sermos usadas como ingredientes de poções e magias negras... Vendidas para pessoas cruéis, que nos escravizavam, machucavam... Tiravam nossa pele e nossa liberdade. —— A miko sentiu-se tentada a dizer “sinto muito”, mas se viu apenas interessada na história, de forma egoísta, querendo que ela apenas informasse como o Dai-youkai entrava naquilo. Quando se tornara aquela pessoa odiável? —— Ouji-sama nos encontrou sem intenção, sem dúvida... Mas nós fomos salvas por ele. Libertas. Curadas. Ele nos devolveu nossas vidas, e nós decidimos dar elas a ele... Como agradecimento. E foi de coração, de alma, e com fé, que nos devotamos ao Ouji-sama.

Kagome assentiu, não entendendo muito bem, mas sabendo que não teria detalhes daquela história. Infelizmente.

—— Fico feliz que isso tenha acontecido.

Ela concordou com um maneio solene.

—— Cantamos apenas para Ouji-sama... Nossas músicas acalmam a alma perturbada e o coração confuso. Mas Ouji-sama nunca nos ouvira, até a outra noite. E tudo graças à Hime-sama, que salvara seu coração de pedra, e o aquecera.

Kagome tinha algum problema sério ao pensar que queria apenas ver a cara de decepção daquela ninfa, quando contasse que isso não fora graças a si, e sim a uma criança?

Sorriu, alisando as próprias coxas.

—— Amei ouvi-la cantar no outro dia. Desculpa ter ouvido. —— Ela negou, aproximando-se tão rápida, como feita de sabão ao deslizar pela pedra, que Kagome sentiu um arrepio subir a espinha.

“Eita visão estranha... Sensação esquisita”.

—— Hime-sama... Gostaria de ouvir também?

Kagome abriu a boca para dizer que sim, que queria ouvir, mas o pensamento de que ela não era digna daquilo cortou sua mente de forma rápida e precisa, emudecendo-a. Aquela música era para ser ouvida apenas pelo salvador dela, e pela salvadora de seu salvador. Mas Kagome não era ela, era?

A expressão de animação e antecipação no rosto da ninfa era quase comovente. Ela queria cantar tanto quanto Kagome queria ouvir.

Sorriu, jogando tudo para o alto e ligando o botão do “foda-se” em sua mente.

—— Sem dúvida.

 


Notas Finais


Heima - https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/originals/8f/6e/d3/8f6ed3cfb3066bcb1e3e983f68f5716d.jpg

Daiki - https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/originals/e1/01/7e/e1017ed3362db918753ea72a22765643.jpg

(28) Trecho do livro de Patrick Rothfuss, “O Temor do Sábio”

დ Agora a Kah começa a treinar de vdd u-u

დ Espero que tenham gostado do capítulo. Até a próxima ^^


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...