História 88 Keys - Capítulo 6


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Clássico, Drama, Musica, Piano, Rock, Romance
Exibições 5
Palavras 2.240
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Colegial, Drama (Tragédia), Famí­lia, Musical (Songfic), Romance e Novela
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas da Autora


ta grande viu

Capítulo 6 - Bowie


DAVID BOWIE

REBEL REBEL

+

O isqueiro se acendeu com um tilintar baixo e eu rapidamente levei a chama até a ponta do cigarro que se pendurava entre meus lábios. Senti o prazer momentâneo que a nicotina me proporcionava e me reclinei, apreciando a vista.

Do alto da arquibancada eu podia avistar nitidamente as líderes de torcida praticando suas danças e acrobacias no campo de futebol do colégio. Suas saias curtas subiam ainda mais quando se movimentavam bruscamente, o que as faziam, para mim, uma ótima distração naquela tarde tediosa.

Ajeitei meus óculos escuros e dei mais uma tragada no cigarro. As garotas no campo tentavam incansavelmente formar uma daquelas pirâmides ridículas, mas sempre acabavam por cair umas em cima das outras. Eu não via sentido naquela coisa toda, mas ainda assim era melhor do que assistir horas de aula que não me acrescentariam em nada.  

Meu celular vibrou em meu bolso e eu desviei meu olhar das garotas por um instante. Reconheci o número imediatamente e não pude evitar a tensão que se espalhou pelo meu corpo naquele momento.

“Droga.” Murmurei. “Alô?”

“Boa tarde, eu gostaria de falar com o responsável por Alexander Hawk”. A voz que eu, infelizmente, já estava acostumado a escutar preencheu meus ouvidos de forma dolorosa.

“Sou eu, Jackson Hawk.”

Vários cenários do que poderia ter acontecido passavam por minha mente e as especulações que eu criava iam de mal à pior.

“Ah, Sr. Hawk! O jovem Alexander se envolveu em uma pequena confusão e eu gostaria de falar com o senhor pessoalmente. Agora é um bom momento para uma reunião?” Toda a formalidade e falsa simpatia me deixavam enojado.

À minha frente, as líderes de torcida finalmente conseguiram alcançar o objetivo. Evelyn Williams se encontrava no topo de pirâmide, seus cabelos loiros voavam com a brisa e seus braços balançavam no ar. Ela estava acenando para mim com um sorriso enorme estampado em seu rosto enquanto as outras garotas gritavam em comemoração.

Eu forcei um sorriso de volta, acenando discretamente com meus dedos que seguravam o celular em minha orelha.

Droga! A senhora irritante ainda estava na linha!

“Sr. Hawk? Ainda está aí? É muito importante que o senhor venha, caso contrário não posso liberar Alexander.”

“Sim, sim, estou a caminho.”

Desliguei o celular e me levantei rapidamente. Que diabos aquele pestinha havia aprontado dessa vez? Enquanto descia as arquibancadas dei minhas últimas tragadas no cigarro que já estava em seu fim. Joguei-o no chão e pisei em cima, pronto para ir quando ouvi meu nome ser chamado múltiplas vezes.

Virei-me e fui de encontro com os seios de Eve que praticamente pulavam de seu top apertado.

“Não vai ficar para o resto do treino, Jack?” Ela sorriu novamente, seu corpo assustadoramente próximo do meu.

“Não posso, docinho.”

Ela projetou seu lábio inferior para frente em um puta de um beicinho e alisou meu peito, agarrando minha gravata no processo e a puxando levemente em provocação.

“Que pena. Poderíamos fazer algo depois que acabasse...”

Seu olhar malicioso me dava várias ideias do que poderíamos fazer. Aquela insinuação toda me deixava animado de diversas maneiras, mas eu precisava cuidar de Alex.

“O que me diz, Jack?” A súplica em seu sussurro me deixava arrepiado.

“Ah, que se foda.” Murmurei. Alex poderia esperar.

+

Depois de uma sessão extremamente quente de amassos em uma sala vazia, eu me encontrava nos portões do colégio de Alex.

Uma coisa era certa: Eve sabia exatamente o que estava fazendo. Definitivamente manteríamos uma amizade completamente sincera a partir de agora.

O gabinete da diretora se encontrava em um corredor medonho, as paredes com a pintura descascando e as luzes que piscavam em certos intervalos de tempo. Na porta de madeira estava pregada uma placa com os dizeres “Diretora Gibbins.” Bati duas vezes e girei a maçaneta, encontrando o perfil de Alex assim que entrei. Ele encarava um ponto fixo à sua frente e se recusou a me olhar nos olhos.

“Que bom que pôde se juntar a nós, Sr. Hawk.” Ela segurava uma expressão de ódio em seu rosto e eu pude notar a tensão que se espalhava pela sala.

 Nenhum de nós gostaria de estar aqui neste momento e eu me sentei na cadeira vaga ao lado de Alex. Somente ali pude perceber a gravidade da situação. O olho direito de meu irmão caçula estava inchado e tomava uma coloração arroxeada. Seu uniforme antes branco agora estava manchado de vermelho.

“Meu Deus, Alex.” Foi tudo o que eu consegui murmurar. “O que aconteceu com ele?”

Perguntei, enraivecido. Então eu senti a culpa me invadir. Enquanto meu irmãozinho esperava, ferido, por horas nesta sala cheirando a mofo, eu me divertia com uma líder de torcida. Que tipo de responsável eu estava sendo naquele momento? Senti vergonha.

Por toda a reunião eu não consegui pôr meus olhos em Alex, apenas fingi prestar atenção nas inúmeras palavras que a diretora soltava, tentando não levar a sério os insultos que se dependuravam nas entrelinhas. Saímos do colégio quarenta minutos depois e pegamos o caminho de casa em silêncio.

Minutos haviam se passado sem que trocássemos uma palavra sequer, porém, a preocupação começava a tomar minha cabeça.

“Alex” comecei, mas não tive a chance de completar minha fala.

“Se for me dar sermão, nem comece, Jack. Você não tem esse direito.” Seus punhos estavam cerrados e seu olhar finalmente se encontrou com o meu.

Magoado. Alex estava inteiramente magoado.

“O que?” Senti então a raiva começar a borbulhar dentro de mim. “Você que estava errado, em primeiro lugar. Sorte a sua que a velhoca só te deu uma semana de suspensão ao invés de te expulsar por bater no neto dela.”

“Você vive dizendo que somos um time, mas quando eu preciso, você desaparece!” Tudo bem. Essa machucou. “E o babaca mereceu.”

Alex começou a chutar uma pedrinha na rua enquanto caminhávamos. Refleti sobre suas palavras. Ele tinha toda a razão. Levei meses para fazê-lo acreditar que, depois de tudo que passamos, seríamos sempre nós dois contra todos. Ele tinha todo o direito de estar puto da vida.

“Pelo menos eu espero que ele esteja pior que você.” Murmurei.

Ao ouvir Alex segurando a risada, meus ombros relaxaram.

“Eu detonei o nariz dele.” Disse “O professor de matemática teve que leva-lo ao hospital. Esse sangue aqui” Ele apontou para a camiseta manchada “Não é meu”.

“Bom garoto”.

Passei um dos braços ao redor de seu pescoço e baguncei seus cabelos loiros tão semelhantes aos meus. Ele me afastou, mas não deixei de notar o sorriso em seus lábios.

“Para com isso, otário”.

A essa altura já estávamos quase na porta de casa. Parei um instante antes de entrarmos e encararmos nossa tia.

“Desculpa, Alex. Eu falei sério quando disse que nós éramos um time. Eu posso até demorar um pouco, mas eu sempre vou aparecer. Sempre. Tá bem?”

“Eu sei” Ele disse “Não precisa vir com esse papo meloso pra cima de mim”.

Não segurei o riso. Eu amava aquele garoto mais que tudo na minha vida e iria até o inferno para protegê-lo.

Estava tão distraído com nosso pequeno momento de afeição que não percebi que alguém nos observava. Quando me dei conta, Lin já fechava o portão da casa de sua avó e atravessava a rua às pressas, preocupação irradiando de sua aura. Mesmo sabendo que não era por mim que ela se aproximava, não pude deixar de sentir um leve desconforto.

Ainda era estranho tê-la por perto. Depois de tudo o que ela disse naquela noite, porra, depois de tudo o que eu disse naquela noite... Eu não ficaria surpreso se ela agisse como se eu não mais existisse.

“Meu Deus, Alex! O que aconteceu? Por favor, me diz que não foi você” A última frase foi direcionada a mim, seu tom de voz mudando completamente de preocupação para ódio. Ela se aproximou ainda mais, pronta para deferir um tapa contra meu rosto, mas eu segurei seu pulso antes que me tocasse.

Wang Lin, com todos os seus assustadores 163 centímetros de altura e 48 quilos, achava que poderia realmente me causar alguma dor. Aquilo me divertia de tal forma que fui obrigado a segurar o riso.

“Me larga, seu idiota!”

Fiz como ela havia pedido e soltei seu pulso magro. Senti-me um pouco ofendido por ela concluir tão rapidamente que eu havia espancado Alex. Ela estava ciente do que eu vivi no passado. Imediatamente as memórias vieram à tona, todas as noites em claro que passávamos juntos no quintal de Dona Fan, os ferimentos que ela não se cansava de limpar e as lágrimas que ela derramava em silêncio quando pensava que eu não a estava olhando.

Todos os dias que nos ocupávamos ao máximo para que eu não tivesse que retornar para o inferno que eu chamava de casa e também as noites as quais eu me escondia em seu quarto. Eram as únicas noites que eu conseguia realmente descansar. Chacoalhei as memórias de minha mente, guardando-as no lugar mais profundo que consegui encontrar, e voltei à realidade.

“Calminha aí, China-in-box. É claro que não fui eu. Ou você acha mesmo que eu seria capaz de machucar meu próprio irmão da mesma maneira que eles me machucavam?”

Vi sua expressão se suavizar e seu olhar desconcertante desviar-se do meu. Ela se lembrava, assim como eu.

“Desculpa, Jackson. Eu não quis...”

“Está tudo bem. Esquece.” Coloquei um fim no assunto e dei uma olhada de soslaio para meu irmão. Ele pressionava os dedos ao redor de seu olho machucado, fazendo caretas de dor de vez em quando. “Ele entrou em uma briga no colégio.”

Lin suspirou.

“Ele é mesmo seu irmão, não é?”

Eu ri, balançando a cabeça. A semelhança do gênio de Alex com o meu era impressionante, realmente.

“Você está bem, Alex?” Lin deu alguns passos em sua direção e passou um braço ao redor de seu ombro.

“Estou. Você deveria ver o outro cara.” Ela riu. “Mas minha cabeça dói um pouco.”

Tendo ouvido essas palavras, Lin se separou de meu irmão caçula e revirou sua mochila, procurando por algo. Retirou de lá uma cartela de comprimidos e as entregou a ele. Porém, neste processo, notei que ela deixou cair um pedaço de papel. Imediatamente me curvei e o peguei.

“Tome apenas um e vá se deitar. Funciona rapidinho.”

“Obrigado, Lin.”

Dito isso, ele se virou para mim, piscou um dos olhos de maneira esquisita e entrou em casa. Imediatamente percebi sua intenção de me deixar a sós com Lin. Filho da mãe.

“Bem, eu vou indo. Desculpa de novo.” Ela falou, ainda constrangida, e se virou para partir.

Lembrei-me do pedaço de papel que eu segurava em minhas mãos e chamei por seu nome, chamando sua atenção novamente.

“Você deixou cair isso.”

Ao perceber o que eu lhe estendia, seus olhos quase saltaram de seu rosto. Ela deu alguns passos em minha direção, mas assim que seus dedos tocaram o papel, eu retraí meu braço.

“Jackson! Devolve!”

Ela parecia realmente desesperada para obter de volta o que eu mantinha seguro em minha mão. Estendi o braço, segurando-o acima de minha cabeça e sorri para ela.

“Vem pegar.” Sua irritação me divertia imensamente.

“Por favor, Jackson, não estou no humor para as suas brincadeirinhas idiotas.”

“É só um pedaço de papel, Lin. O que tem de tão importante aqui?”

Nesse momento, eu desdobrei o que segurava em mãos e comecei a ler. Na verdade, era um panfleto. Quando percebi que se tratava de um concurso de música, não pude deixar passar a expressão de surpresa que tomou meu rosto. À minha frente, ouvi Lin suspirar.

“Meu Deus, Lin. Você vai participar, não vai?”

Seus olhos raivosos desviaram-se dos meus e ela finalmente tomou o papel de minhas mãos, amassou em uma bolinha e se virou sem dizer uma palavra. Fui atrás dela e a alcancei em duas passadas. Agora caminhávamos lado a lado, ela tentava apertar o passo, mas não conseguiria se livrar de mim tão facilmente.

“Não que nada disso seja da sua conta, mas não. Eu não vou participar dessa estupidez. Pode parar de me seguir agora.”

“Você é louca? Lin, não é possível que você não tenha percebido que essa é sua grande chance!”

Eu estava inconformado. Essa garota não tinha noção do tamanho da oportunidade que estava jogando fora, da mesma maneira que agora ela jogava a bolinha de papel na primeira lixeira que avistou.

“Chance de que, Jackson? De jogar fora tudo o que trabalhei para conseguir todos esses anos?”

“Não!” Eu parei e a forcei a parar comigo, segurando seus ombros e a fazendo me encarar. “É a sua chance de finalmente acabar com todos os segredos. De se livrar de tudo isso, você não percebe? Eu vejo todos os dias o quanto isso te incomoda, Lin. Eu...”

“Não faça isso, Jackson.” Ela me interrompeu. Afastou-se de mim de forma que eu não pudesse mais tocá-la e olhou nos meus olhos por uma fração de segundo. “Só... Não faça. Nada disso se diz respeito a você. É a minha vida, é minha decisão. E eu já escolhi, não há nada que você possa fazer.”

Eu não tinha mais o que falar. Ela tinha razão, eu não deveria me intrometer em sua vida quando fui eu quem a afastou em primeiro lugar.

“Você está certa. Me desculpe. Não vou mais me meter.”

Dessa vez, quando ela tentou partir, eu não a impedi. 


Notas Finais


Xx


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