História A canção de Jercy - Capítulo 8


Escrita por: ~

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Categorias Mitologia Grega, Os Heróis do Olimpo, Percy Jackson & os Olimpianos
Personagens Annabeth Chase, Apollo, Atena, Calipso, Charles "Charlie" Beckendorf, Clarisse La Rue, Connor Stoll, Frank Zhang, Gleeson Hedge, Grover Underwood, Jason Grace, Leo Valdez, Luke Castellan, Nico di Angelo, Octavian, Percy Jackson, Personagens Originais, Piper Mclean, Poseidon, Quíron, Travis Stoll, Will Solace, Zeus
Tags Jasico, Jason Grace, Jercy, Nico Di Angelo, Percy Jackosn, Pernico
Exibições 113
Palavras 3.873
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Crossover, Drama (Tragédia), Famí­lia, Ficção, Lemon, Luta, Musical (Songfic), Romance e Novela, Violência, Yaoi
Avisos: Adultério, Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir culturas, crenças, tradições ou costumes.

Notas do Autor


Olá semideuses!
Feliz dia das crianças para todos.
O capítulo anterior foi o termino da fase da infância dos nossos heróis e agora vem a fase juvenil/adolescência.
Espero que curtam mais esse capítulo. Obrigado aos comentários e favoritos e boa leitura.

Capítulo 8 - Mestre Quíron


Fanfic / Fanfiction A canção de Jercy - Capítulo 8 - Mestre Quíron

O desjejum, todos sabiam que ele havia partido. Seus cochichos e olhares seguiram-me até a mesa, demorando-se sobre mim enquanto eu pegava a comida.

Mastiguei e engoli, embora o pão fosse como pedra em meu estômago. Ansiei por estar bem longe do palácio; precisava de ar.

Caminhei até o bosque de oliveiras, sentindo a terra seca sob meus pés. Perguntei-me se deveria buscar o convívio dos outros garotos, agora que Jason se fora. Teria algum deles visto o que eu fizera? Quase desejei que sim. Castiguem-me, pensei.

Senti o cheiro do mar. Estava por toda parte, em meus cabelos, em minhas roupas, em minha pele pegajosa. Mesmo ali no bosque, atapetado de folhas e terra mofadas, aquele miasma salgado me perseguia. Meu estômago revirou por um instante e pressionei-o contra o tronco nodoso de uma árvore. A casca áspera friccionou minha fronte, acalmando-me. Preciso me livrar desse cheiro, pensei.

Caminhei para o norte, para a estrada do palácio, uma faixa poeirenta aplainada por rodas de carroças e cascos de cavalos. Logo adiante do pátio, ela se bifurcava.

Uma trilha corria para o sul e o oeste, em meio a campos relvados, rochedos e colinas; por aquele caminho eu viera, fazia três anos. A outra serpenteava para o norte, rumo ao Monte Ótris, e, ultrapassando-o, ia ter ao Monte Pélion. Segui-a com os olhos. Bordejava os sopés cobertos de matas antes de desaparecer entre eles.

O sol me fustigava — quente e impiedoso no céu de verão — como se quisesse me empurrar de volta para o palácio. Porém eu resistia. Ouvira dizer que nossas montanhas eram belas, coroadas de pereiras, ciprestes e regatos de gelo recém fundido.

Lá haveria sombra e frescor. Bem longe da canícula da praia e do revérbero das ondas.

Posso ir embora. O pensamento foi rápido, aliciante. Eu tomara a estrada pensando unicamente em fugir do mar. Entretanto ele se estendia diante de mim até as montanhas. Até Jason. Meu peito arfou, como para acompanhar o atropelo dos meus pensamentos. Eu não possuía nada: nem uma túnica, nem uma sandália; tudo era de Grace. Não preciso nem mesmo arrumar minha bagagem.

Só a lira de minha mãe, guardada no baú de madeira do quarto, me fez hesitar por um momento. Talvez pudesse voltar para apanhá-la. Mas já era meio-dia.

Restava-me apenas a tarde para fugir antes que dessem pela minha ausência — tentava assim me valorizar — e mandassem alguém em meu encalço. Relanceei o olhar para o palácio e não vi ninguém. Os guardas estavam em outra parte. É agora. Tem de ser agora.

Eu corri. Para longe do palácio, pelo caminho que levava às matas, as solas dos pés ardendo contra o chão incandescente. Enquanto corria, prometi a mim mesmo que, caso encontrasse Jason de novo, pensaria duas vezes antes de fazer qualquer coisa. Aprendera já o que custava agir intempestivamente. A dor em minhas pernas, o arfar dolorido em meu peito — nada disso importava. Corri.

O suor escorria por minha pele e pingava no chão aos meus pés. Meu corpo ia ficando cada vez mais sujo. Poeira e fragmentos de folhas se colavam em minhas pernas. O mundo à minha volta se estreitou, tinha agora as dimensões de minhas passadas e a extensão da próxima jarda poeirenta a percorrer.

Finalmente... após uma hora? Duas? Eu já não podia mais. Inclinei-me tomado de cãibras, o ardente sol da tarde começava a arrefecer, o latejar do meu sangue ensurdecia meus ouvidos. O caminho agora era ladeado por densas matas e o palácio de Grace havia ficado muito para trás. À direita, assomava o Ótris e, mais além, o Pélion. Contemplei seu pico e tentei calcular a distância que nos separava.

Dez mil passos? Quinze mil? Retomei a caminhada.

Passaram-se horas. Meus músculos estavam trêmulos e lassos, meus pés se arrastavam trôpegos. Agora o sol ultrapassara em muito o zênite e flutuava baixo no quadrante ocidental. Eu dispunha ainda de quatro, talvez cinco horas antes do anoitecer — mas o pico continuava longe como sempre. De repente, compreendi: jamais chegaria ao Pélion antes do anoitecer. Não tinha comida, nem água, nem esperança de encontrar um abrigo. Tinha apenas as sandálias nos pés e a túnica encharcada no corpo.

Não alcançaria Jason, disso já tinha certeza. Ele deixara a estrada e o cavalo havia muito tempo, estava agora subindo as encostas a pé. Um bom rastreador observaria o mato ao lado da estrada, descobriria os talos partidos ou pisados pelos pés de um menino. Porém eu não era um bom rastreador e o mato ao lado da estrada não me dizia coisa alguma. Meus ouvidos zumbiam agredidos pelo canto das cigarras, pelo chamado agudo dos pássaros, pelo ruído de minha própria respiração. Meu estômago doía de fome ou desespero.

Havia, porém, algo mais. Aquele som baixo, quase fora dos limites da audição.

No entanto consegui identificá-lo, e minha pele, mesmo ao calor, esfriou. Sim, eu conhecia aquele som: era o de alguém se esgueirando furtivamente, tentando não fazer barulho. Um passo em falso, uma folha levemente pisoteada — mas fora o suficiente.

Apurei os ouvidos, o medo oprimia minha garganta. De onde vinha o ruído?

Meus olhos vasculharam o mato de ambos os lados da estrada. Não esbocei o mínimo movimento; qualquer som ecoaria forte nas encostas. Nem pensara em perigos enquanto corria, mas agora minha mente só se concentrava neles: soldados enviados por Grace ou pela própria Tétis, mãos alvas e frias como a areia em meu pescoço. Ou bandidos. Eu sabia que eles espreitavam pelas estradas, já ouvira

histórias de meninos raptados e mantidos prisioneiros até morrer de maus-tratos.

Meus dedos perderam a cor enquanto eu prendia a respiração e permanecia imóvel para não denunciar minha presença. Avistei então uma moita de milefólios em flor que poderia me ocultar. Agora. Depressa.

Pressenti um ligeiro movimento no mato ao meu lado e me virei para olhar. Tarde demais. Alguma coisa — alguém — me golpeou por trás, arremessando-me de rosto no chão. Caí pesadamente, com aquele fardo sobre mim. Fechei os olhos e esperei a punhalada.

Nada aconteceu. Nada, a não ser o silêncio e os joelhos que pressionavam minhas costas. Passou-se um instante e ocorreu-me que os joelhos não eram muito pesados e me imobilizavam sem a intenção de ferir-me.

— Percy. — Per-cy.

Não me movi.

Os joelhos se ergueram e mãos me viraram de costas gentilmente. Jason me olhava de cima.

— Achei mesmo que viria — disse ele.

Meu estômago revirava — de nervosismo e alívio ao mesmo tempo. Lá estavam aqueles cabelos brilhantes, aquela curva suave dos lábios levemente arqueados.

Minha alegria era tão intensa que nem pensei em respirar. Não me lembro do que disse então. Talvez “sinto muito”; ou talvez algo mais. Abri a boca.

— O garoto está ferido? — A voz soou às nossas costas. Jason se virou. De onde eu estava, por baixo dele, só conseguia ver as pernas do cavalo do homem — de cor castanha, com os machinhos cobertos de poeira.

A voz soou novamente, contida e incisiva:

— Devo presumir, Jason Grace, que este seja o motivo pelo qual você se demorou a ir ao meu encontro na montanha?

Minha mente se esforçava por compreender. Jason não procurara Quíron.

Esperara ali. Por mim.

— Saudações, mestre Quíron. E queira desculpar-me. Sim, foi por isso que me demorei. — Apelara para seu tom de voz principesco.

— Percebo.

Gostaria que Jason se levantasse logo. Sentia-me ridículo ali no chão, por baixo dele. E amedrontado. A voz do homem não revelava cólera — tampouco doçura.

Era clara, grave e sem o mínimo resquício de emoção.

— Levante-se — ordenou o homem.

Jason obedeceu, devagar.

Eu teria gritado, se minha garganta não estivesse estrangulada pelo medo. Só consegui emitir um grunhido quase inaudível e recuei de um salto.

As pernas musculosas do cavalo terminavam num tronco igualmente musculoso de um homem. Olhei admirado para a impossível sutura de animal e ser humano, onde a pele macia se tornava pelo castanho brilhante.

Ao meu lado, Jason baixou a cabeça.

— Mestre Centauro — disse ele —, lamento muito pelo atraso. Porém tinha de esperar meu companheiro. — Ajoelhou-se, arrastando a túnica imaculada pelo chão poeirento. — Por favor, aceite minhas desculpas. Há muito que desejo ser seu discípulo.

A face do homem — do centauro — era séria como sua voz. Parecia mais velho com sua barba negra cuidadosamente frisada.

Ele observou Jason por um momento.

— Não precisa se ajoelhar diante de mim, jovem Grace, embora eu aprecie essa cortesia. E quem é este companheiro que nos fez esperar?

Jason se virou para mim e estendeu-me a mão. Segurei-a hesitante e me levantei.

— Este é Percy.

Houve um silêncio e pressenti que era a minha vez de falar.

— Senhor — murmurei. E também baixei a cabeça.

— Não sou nenhum senhor, Percy Jackson.

Minha cabeça se ergueu imediatamente à menção do nome de meu pai.

— Sou um centauro, professor de homens. Chamo-me Quíron.

Engoli em seco e sacudi a cabeça num breve cumprimento. Nem pensei em perguntar-lhe como sabia meu sobrenome.

Seus olhos me estudavam.

— Vocês estão cansados, creio eu. Precisam de água e comida. O caminho até minha morada no Pélion é longo, longo demais para que o percorram andando.

Temos, pois, de encontrar outro meio.

Virou-se, e eu tentei não reparar muito no modo como suas pernas de cavalo se moviam sob o corpo.

— Montem em mim — disse o centauro. — Em geral, não me disponho a isso logo ao travar conhecimento com alguém. Mas exceções devem ser feitas. — Interrompeu-se. — Vocês aprenderam a cavalgar, suponho?

Apressamo-nos a assentir.

— Que falta de sorte! Então esqueçam o que aprenderam. Não gosto que me esporeiem ou me ponham rédeas. O da frente se agarrará à minha cintura e o de trás se agarrará à cintura dele. Se acharem que vão cair, avisem.

Jason e eu nos entreolhamos.

Meu companheiro deu um passo à frente.

— Como devo...?

— Eu me agacharei — disse Quíron. E suas pernas dianteiras se dobraram sobre a poeira. Seu lombo era largo e estava ligeiramente coberto de suor.

— Segure meu braço para se equilibrar — instruiu. Jason obedeceu, levantou a perna e montou.

Era a minha vez. Ao menos, eu não iria à frente, muito perto do lugar onde a pele se transformava em pelo castanho. Quíron estendeu-me o braço e eu o segurei. Era grande e musculoso, coberto por um pelo negro e espesso que em nada se parecia com a cor de sua metade animal. Acomodei-me, com as pernas arqueadas em torno daquele vasto lombo, um tanto desconfortável.

— Agora vou me levantar — disse Quíron.

O movimento foi lento, mas ainda assim procurei me segurar em Jason. O centauro ainda não havia se erguido totalmente, mal havia chegado à altura de um cavalo normal, e minhas pernas já balançavam tão acima do chão que eu me sentia tonto. As mãos de Jason pousavam de leve no tronco de Quíron.

— Você cairá se não se segurar com força — advertiu o centauro.

Meus dedos já estavam insensíveis de tanto pressionar o tronco de Jason.

Contudo nem por um instante pensei em afrouxar o aperto. A marcha do centauro era menos estável que a de um cavalo e o chão era desigual. Eu escorregava perigosamente sobre aquele pelo suado.

Não conseguia ver o caminho, mas íamos subindo rapidamente em meio às árvores, levados pelos passos seguros e ritmados de Quíron. Eu estremecia toda vez que uma sacudidela fazia meus calcanhares tocar os flancos do centauro.

Enquanto avançávamos, Quíron ia nos mostrando coisas no mesmo tom sossegado de voz.

Lá está o monte Ótris.

Aqui, no lado norte, o bosque de ciprestes é mais denso, como podem ver.

Este regato vai desaguar no rio Apidano, que corta o território de Fítia.

Jason se virava para me olhar, rindo.

Subimos mais e mais; e o centauro, balançando a grande cauda negra, espantava as moscas importunas.

Quíron parou de repente e fui de encontro às costas de Jason. Entráramos numa pequena clareira da mata, uma espécie de bosque rodeado por afloramentos rochosos. Ainda não havíamos chegado ao topo, mas ele estava próximo e o céu azul refulgia acima de nós.

— Pronto — disse Quíron, se ajoelhando. Apeamos um pouco hesitantes.

Diante de nós, abria-se uma caverna. Porém dar-lhe esse nome é diminuí-la, pois não era feita de pedra negra, mas sim de quartzo rosa-claro.

— Venham — chamou o centauro. Nós o seguimos, cruzando a entrada que era alta o suficiente para que ele não tivesse de se abaixar. Piscamos, pois estava muito escuro lá dentro, embora mais claro do que deveria estar por causa das paredes de cristal. Ao fundo, havia uma pequena fonte, cujas águas desapareciam pelas reentrâncias da rocha.

Das paredes, pendiam coisas que eu não consegui reconhecer: estranhos utensílios de bronze. Acima, no teto, linhas e manchas de tinta representavam constelações e movimentos celestes. Em prateleiras escavadas na pedra viam-se dezenas de pequenos jarros de cerâmica cobertos por marcas identificadoras. A um canto, instrumentos musicais, liras e flautas; e, ao lado, ferramentas e panelas.

Só havia uma cama na proporção humana, alta e coberta de peles de animais, preparada para Jason. Não consegui saber onde o centauro dormia. Talvez não dormisse.

— Sentem-se — disse ele. Ali dentro estava bem fresco, um clima perfeito depois da jornada ao sol, e afundei-me gostosamente em uma das almofadas que Quíron nos indicou. Ele foi até a fonte, encheu dois copos e os trouxe para nós. A água era doce e fria. Bebi, com o centauro postado à minha frente.

— Amanhã você estará cansado e dolorido — advertiu-me. — Será melhor então que coma.

Tirou de uma panela que fervia sobre um pequeno fogo, no fundo da caverna, um ensopado de carne com legumes picados. Havia frutas também, morangos vermelhos e suculentos que ele guardava num buraco da rocha. Comi rapidamente, surpreso por estar com tanta fome. Não tirava os olhos de Jason e estremecia meio tonto de alívio ao pensar que havia escapado.

Com a minha coragem renovada, apontei para alguns dos instrumentos de bronze na parede e perguntei:

— Para que servem?

Quíron sentou-se à nossa frente, dobrando suas pernas de cavalo.

— Para fazer cirurgias — explicou.

— Cirurgias? — Eu nunca tinha ouvido aquela palavra.

— Curas. Esqueci como vocês são ignorantes nas terras lá embaixo. — Sua voz era neutra, calma, objetiva.

— Às vezes, membros precisam ser extirpados. Uns cortados, outros suturados.

Não raro, removendo alguns, salvamos o resto. — Reparou que eu examinava os instrumentos, experimentando-lhes o gume agudo ou serrilhado.

— Gostaria de estudar medicina?

Enrubesci.

— Não sei nada sobre isso.

— Sua resposta nada tem a ver com o que perguntei.

— Lamento, mestre Quíron.

Não queria irritá-lo. Ele poderia me mandar de volta.

— Não precisa se desculpar. Basta responder.

Hesitei um pouco.

— Sim. Gostaria de estudar. Parece útil, não?

— Muito útil — concordou Quíron. Virou-se para Jason, que acompanhava atentamente a conversa.

— E você, Jovem Grace? Também acha que a medicina é útil?

— Claro. Mas, por favor, não me chame de Jovem Grace. Aqui, sou apenas Jason.

Algo perpassou os olhos escuros de Quíron. Talvez um lampejo de divertimento.

— Muito bem. Vê alguma coisa sobre a qual gostaria de saber mais?

— Aquilo ali — respondeu Jason, apontando para os instrumentos musicais, as liras, as flautas e a cítara de sete cordas. — Você toca?

O olhar de Quíron era firme.

— Sim, eu toco.

— Eu também — disse Jason. — Ouvi dizer que você ensinou a Héracles e Jasão, embora tivessem certamente os dedos muito duros. É verdade?

— Sim, é.

Aquilo me pareceu irreal por um momento: ele conhecera Héracles e Jasão.

Conhecera-os desde crianças.

— Gostaria que me ensinasse.

A face rígida de Quíron se descontraiu.

— Para isso você foi mandado aqui. Para que eu lhe ensine o que sei.

À luz mortiça da tarde que avançava, Quíron nos guiou pelas encostas próximas à caverna.

Mostrou-nos onde os leões da montanha tinham seus covis e onde se localizava o rio, lento e aquecido pelo sol, onde poderíamos nadar.

— Tome banho, se quiser.

— E Quíron olhou para mim. Eu me esquecera do estado lamentável em que me achava — todo suado e coberto pela poeira da estrada. Corri os dedos pelo cabelo e senti que estavam cheios de areia.

— Eu vou tomar banho também — apressou-se a dizer Jason. Tirou a túnica e eu fiz o mesmo logo depois. A água estava fria, mas não desagradável. Quíron ia nos instruindo da margem:

— Aquelas ali são carpas, estão vendo? E percas. Aquela é uma vimba, que não encontrarão no extremo sul. Podem reconhecê-la pela boca retorcida e a barriga prateada.

Sua voz se misturava ao som das águas correndo sobre as pedras, amenizando qualquer estranhamento que pudesse ter havido entre Jason e eu. Percebia-se alguma coisa no rosto de Quíron — firme, calmo, imbuído de autoridade, que nos tornava de novo crianças, sem outro mundo para além da diversão do momento e da ceia da noite. Com ele por perto, era difícil nos lembrarmos do que poderia ter acontecido naquele dia na praia. Até nossos corpos pareciam minúsculos diante do corpanzil do centauro. Como pudéramos pensar que havíamos crescido?

Saímos da água frescos e limpos, sacudindo os cabelos aos últimos raios de sol.

Agachei-me na margem e, com pedras, procurei raspar a sujeira e o suor de minha túnica. Teria de ficar nu até ela secar, mas a influência de Quíron já era tão grande que não me importei com isso.

Nós o seguimos de volta à caverna, as túnicas ainda úmidas pendentes dos ombros. Ele parava de vez em quando para mostrar trilhas de lebres, codornizes e gamos. Disse que logo sairíamos à caça e que nos ensinaria a rastrear. Ouvíamos atentos, questionando-o a todo instante. No palácio de Grace, para nos ensinar, só havia o irritante professor de lira ou o próprio Grace, que quase sempre caía no sono enquanto falava. Não sabíamos nada da vida nas matas e das outras habilidades sobre as quais Quíron discorrera. Lembrei-me dos aparelhos dependurados nas paredes da caverna, das ervas e dos instrumentos de cura.

Cirurgia fora a palavra que ele empregara.

Já estava quase totalmente escuro quando entramos de novo na caverna. Quíron nos incumbiu de algumas tarefas fáceis, juntar lenha e acender a fogueira na entrada. Depois de acendermos o fogo, sentamo-nos à volta, gratos por aquele calor bem-vindo no frio da noite. Nossos corpos estavam agradavelmente fatigados, exaustos pelo exercício; cruzamos as pernas satisfeitos. Falamos sobre aonde

iríamos no dia seguinte, mas arrastadamente, em palavras pastosas e lentas de tanto contentamento. A ceia foi um cozido com um tipo fino de pão que Quíron assara em folhas de bronze sobre a fogueira. Para sobremesa, morangos com mel da montanha.

Enquanto as chamas bruxuleavam, meus olhos se semicerraram e mergulhei num estado muito próximo do sono. Estava aquecido, o chão embaixo de mim era macio, coberto de relva e folhas caídas. Não podia acreditar que, ainda naquela manhã, acordara no palácio de Grace.
A pequena clareira na entrada, as paredes brilhantes da caverna eram mais cheias de vida do que aquele palácio esbranquiçado jamais fora.

A voz de Quíron se fez ouvir, assustando-me.

— Devo dizer-lhe que sua mãe me mandou uma mensagem, Jason. Senti os músculos do braço de meu companheiro tensos contra mim. Minha garganta se contraiu.

— Ah, e o que disse ela? — As palavras de Jason eram cuidadosas, neutras.

— Que se o filho exilado de Jackson o seguisse, eu deveria impedi-lo de permanecer em sua presença.

Sentei-me totalmente desperto. A voz de Jason ecoou displicentemente pela caverna: — Ela explicou o motivo?

— Não.

Fechei os olhos. Ao menos não seria humilhado diante de Quíron com a história do que ocorrera na praia. Contudo isso era um frágil consolo.

Quíron prosseguiu:

— Sem dúvida, você sabia o que ela pensava do assunto. Não gosto de ser enganado.

Minhas faces ficaram rubras. Ainda bem que estava escuro. A voz do centauro soava mais rude do que antes.

Limpei a garganta, subitamente áspera e seca.

— Sinto muito — ouvi-me dizer. — Não foi culpa de Jason. Vim por conta própria. Ele ignorava que eu o faria. Não pensei... — interrompi-me. — Achei que ela não ficaria sabendo.

— Tolice de sua parte. — O rosto de Quíron desaparecia na sombra.

— Quíron... — começou Jason, ousadamente.

O centauro ergueu a mão.

— Como é comum, a mensagem chegou hoje de manhã, antes que vocês aparecessem. Assim, a despeito de sua insensatez, não fui enganado.

— Então você já sabia? — perguntou Jason. Eu não teria falado com tanta desenvoltura.

— E já decidiu? Ignorará a mensagem?

A voz de Quíron demonstrou certo desconforto.

— Ela é uma deusa, Jason, e, além disso, é sua mãe. Você faz tão pouco caso assim dos desejos dela?

— Eu a respeito, Quíron. Porém, neste caso, ela está errada. — Apertava tanto as mãos que eu podia ver seus tendões, mesmo na penumbra.

— E está errada por que, Jovem Grace?

Observei-o na sombra, meu estômago se revirava. Não sabia o que ele iria dizer.

— Ela acha que... — hesitou por um segundo e eu quase prendi a respiração. — Ela acha que Percy é um mortal e, portanto, indigno de ser meu companheiro.

— E você, o que acha? — pressionou Quíron, no tom de quem ignorava totalmente a resposta.

— Que ele é digno.

Meu rosto ardia. Jason, cerrando as mandíbulas, replicara sem nenhuma hesitação.

— Entendo. — O centauro virou-se para mim: — E você, Percy? Julga-se digno?

Engoli em seco.

— Não sei se sou digno. Mas quero ficar aqui. — Parei e senti minha garganta secar de novo. — Por favor.

Fez-se um silêncio. E então Quíron disse: — Quando trouxe vocês aqui, eu ainda não havia resolvido o que iria fazer. Tétis costuma achar muitas coisas erradas; às vezes, com razão, outras vezes, não.

Sua voz continuava indecifrável. Esperança e desespero lutavam dentro de mim.

— Ela é jovem e tem os preconceitos de sua raça. Eu sou mais velho e gabo-me de poder decifrar um homem com mais clareza. Não faço objeções a que Percy seja seu companheiro.

Meu alívio foi tamanho que me senti vazio por dentro, como se meu corpo houvesse sido atravessado por uma tempestade.

— Ela não vai ficar nada satisfeita, mas já enfrentei a cólera dos deuses antes. — Fez uma pausa. — Bem, está tarde e é hora de vocês dormirem.

— Obrigado, mestre Quíron — disse Jason, com voz franca e vigorosa.

Levantamo-nos, mas eu ainda hesitava.

— Quero apenas... — apontei para Quíron. Jason compreendeu e desapareceu na caverna.

Virei-me para encarar o centauro.

— Partirei, se causar problemas.

O silêncio foi tão longo que pensei não ter sido ouvido. Contudo ele falou, por fim:— Não vá perder com tanta facilidade o que ganhou hoje.

Ele me desejou boa-noite, e eu fui para junto de Jason no fundo da caverna.


Notas Finais


Até mais cupcakes...


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