História A colônia - Capítulo 2


Escrita por: ~ e ~M_Goulart

Postado
Categorias Terraria
Tags Starbound, Terraria
Exibições 11
Palavras 7.489
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Famí­lia, Ficção Científica, Magia, Mecha, Romance e Novela, Sci-Fi, Survival
Avisos: Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Mutilação, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Pessoas, depois de dia, aqui está o mais novo capítulo! Primeiro, nossas sinceras desculpas por não agilizar com a história.
Antes de tudo, podem notar uma diferença entre a visão de cada personagem, mas digamos que a M_Goulart ficou com a parte de interpretar a Annine. Bom, e creio eu que ficou incrível.
Boa leitura!

Capítulo 2 - A calmaria antes da tempestade


Fanfic / Fanfiction A colônia - Capítulo 2 - A calmaria antes da tempestade

Na zona 10, era possível encontrar vários laboratórios específicos, como hoje é sábado, eles ficam abertos para quem quiser trabalhar em algo, bom, antes de dormir eu havia recebido uma mensagem de minha amiga Annine, por ela ser bem excêntrica, ficou enrolando muito para me dizer o que queria, e só agora que vou poder saber.

Havia 10 laboratórios diferentes, um específico para cada área que os cientistas se ocupavam, todos com uma numeração, cinco de cada lado do corredor, que era formado por vários sofás e mesas de vidro, potes com plantas, e dois televisores que mostravam o canal próprio da empresa, o chão era de mármore branco, com luzes básicas de chão.

Caminhei até o final do corredor e cheguei ao LAB-8, ou laboratório de biotecnologia, a porta era cinza esverdeada, com uma janela circular, abaixo havia uma célula como emblema e o um aviso “apenas pessoal autorizado”, e na fechadura havia um leitor de digitais, eu inseri o polegar no feixe luminoso e a porta deslizou para o lado.

Entrei e desci as escadas de metal, o laboratório tinha um formato circular, com um grande tubo de vidro cheio de grandes cabos de luz azul, no piso estava um terminal de controle de energia, que permitia que o laboratório funcionasse.

Me aproximei do centro e reparei que Annine estava virada para frente, fazendo algo que não consegui ver por conta do seu cabelo azul, ao se virar, ela então me notou e veio andando na minha direção.

– Bom dia! – cumprimentou ela, animada.

– Seria um bom dia se eu estivesse deitado na minha cama, dormindo. – resmunguei e ela desfez o sorriso e ficou sem graça.

– Nossa como você é chato... – ela resmungou. – Ok, vem cá! – ela me puxou pelo braço até sua mesa de trabalho.

Na mesa havia um tanque lacrado de vidro, dividido em quatro partes, em cada uma havia um tubo preto com válvula no topo, e embaixo havia três ratos e um coelho pequeno. Parece que Annine queria fazer algo com os bichinhos.

– O que é isso? – perguntei esperando pela explicação do equipamento, que aliás, era bem interessante.

– Eu sei que é cruel, e vou me arrepender depois, mas eu tenho que testar os efeitos de determinado gás em alguns seres vivos... – disse ela olhando com dó para os bichinhos, as vezes sinto pena por ela se sentir assim quando tem que matar as cobaias pelo avanço científico.

– Ok eu te ajudo. – assenti com a cabeça

– Certo. – Annine pegou duas máscaras de gás no balcão ao lado e arremessou para minhas mãos. – Só por precaução, use a máscara. – acrescentou ela enquanto colocava a máscara de gás.

Pus a máscara e por meio dos visores meio embaçados, pude ver Annine mexer em um vaporizador de fluídos que estava ao lado do tanque, que não era nada mais que um tubo cheio de líquido roxo, e embaixo estava uma chama.

O líquido entrou em ebulição, e o vapor foi seguindo por outro tubo até as quatro válvulas do tanque, Annine se virou para mim e gesticulou para que eu ficasse próximo ao tanque.

– Liga a primeira válvula, espere dois segundos e depois feche! – pediu ela.

Fiz o que ela pediu e girei a válvula, dois segundos contados e a fecho.

– Agora preciso que faça o mesmo com as outras, mas esperando 2 segundos a mais. – disse ela novamente, enquanto anotava no tablet.

– Ok Anne... – disse eu e fui fazendo o mesmo com cada válvula, a segunda foi aberta, 4 segundos e depois a fecho, faço o mesmo com as outras, sempre acrescentando mais dois segundos. – Qual o motivo disso? – perguntei enquanto fechava a última válvula.

– Esses segundos são a quantidade de gás, quero testar os efeitos em relação a quantidade e tempo. – explicou ela e voltou a olhar com dó para os bichinhos, que até agora estavam muito inquietos. – Me desculpa Darli, Rain, Gunt e Bonni.

Não importa se eu falasse algo, ela nunca aceita que vai perder seus bichinhos, que na verdade são cobaias, e a vida de uma cobaia é triste demais.

Me afastei um pouco e fiquei ao lado de Annine, que estava vidrada no tanque que estava roxo por conta do gás, a primeira cobaia estava andando de um lado para o outro, o gás estava incomodando seus pulmões, a segunda cobaia estava chiando enquanto fazia o mesmo que a primeira, o coelho estava fazendo um barulho horrível, e também estava inquieto. Por último, a quarta cobaia estava se debatendo e chiando alto, tanto que aos poucos começou a gritar e bater em si própria.

Annine estava se sentindo muito mal por ver aquilo, tanto que se virou para não ver, enquanto eu me preocupava com alguém entrar no laboratório e ver esse teste estranho.

Mais alguns segundos e as cobaias ficaram caladas, ou melhor, faleceram após a exposição ao gás tóxico, Annine então se virou novamente e caminhou para mais perto, eu acabei fazendo o mesmo.

– Ah por que eu fiz isso, eu vou ter pesadelos depois... – ela reclamou após notar que estavam mortos.

Dei uma olhada rápida e vi que alguns estavam espumando algo pela boca, água, sangue e algumas bolinhas brancas minúsculas, que eu sequer sabia o que poderia ser.

– Era só isso mesmo que você queria fazer? Matar algumas cobaias? – questionei

– Olha, eu não queria que chegasse a isso, eu esperava que eles morressem sem dor! – ela se defendeu, com nervosismo.

– Bom, até agora você não me disse um motivo... – comentei

– Eu fiquei lendo alguns registros sobre as colônias da primeira era, e alguns falavam sobre esse gás como algo proveniente de locais subterrâneos do Planeta Terraria, e que estava matando algumas criaturas, então resolvi investigar... – ela explicou, depositou o tablet numa mesa próxima e tirou a máscara. –  eu queria ganhar uma promoção e assim eu poderia entrar no grupo de colonização. – disse ela enquanto sorria e olhava um pouco para o alto, comportamento de quem sonha “alto”.

– Isso é muito legal – digo com um pouco de animação, mas me detenho em não manter. –, mas olha, não acho que a colonização seja algo bom para você… sabe, acho que é mais seguro você ficar aqui, comigo e com a parte técnica da coisa. – do nada sinto que não devia ter me preocupado tanto.

Ela se virou e olhou séria.

– Erock, antes de tudo, esse experimento horrível e cruel deve ficar apenas entre a gente, fui clara? – disse ela, mas sua vozinha aguda me fez não respeitar aquela “ordem”. – Ah por que eu fiz aquilo? Eu sou um ser humano horrível! – ela lamentou-se e caminhou até um armário próximo.

– Olha, talvez você que se apega demais a essas cobaias, que pessoa faz isso? – questiono enquanto via ela abrindo o armário a procura de algo.

Quando ela me ouviu, se virou e fez cara feia.

– Alguém que ainda tem coração no meio de tantas pedras frias! – ela retrucou e voltou a vasculhar seja lá o que estava procurando. – Sabe, quando você trabalha para uma empresa pelo resto da vida, você aprende a gostar de algumas coisas e odiar outras, e o que eu mais odeio é sacrificar as almas de pobres animaizinhos porque sou obrigada, e pelo futuro da ciência. – ela então cruzou os braços e ficou olhando para a última prateleira acima dela.

Ela se virou e me olhou paciente, deu um pequeno movimento com a cabeça indicando o armário, eu havia entendido. Revirei os olhos e fui buscar uma caixa na última prateleira do armário, que por sinal era até um pouco mais alto que eu.

Era uma caixa cinza com uma fita azul na tampa, onde se lia em tinta preta: “Anie :3”

– Obrigada! – disse Annine tirando a caixa das minhas mãos, e logo em seguida a pôs na mesa.

Ela retirou uma pequena câmera e um tripé, ligou ela e acenou, Annine então se virou para mim e gesticulou para que eu saísse do campo de visão da câmera, ao fazer ela finalmente ativou a gravação.

– Entrada Número 1. Os boatos que ouvi se confirmaram, o gás é realmente venenoso e causou asfixia nas cobaias. Usei um tanque retangular de vidro de totais 300 litros, divididos em 4 tanques com totais 75 litros, no primeiro, segundo e quarto tendo um rato, e no terceiro, um coelho. O procedimento foi introduzir 200ml do gás em cada tanque por alguns segundos, sendo 2 no primeiro e fazendo acréscimo de mais 2 assim por diante. – ela faz uma pausa e olha para o tanque. – A primeira cobaia ficou mais nervosa e morreu um tempo depois, a segunda cobaia ficou agitada e fazia barulhos, demorou um pouco mais que a primeira para morrer, o coelho morreu alguns segundos depois da exposição, fazendo barulhos altos, por fim a última cobaia morreu segundos depois enquanto se debatia e gritava. O que se sabe até agora é que o gás provoca uma forte asfixia pulmonar, e possivelmente uma parada cardíaca, no entanto, mais testes devem ser analisados, inclusive os corpos das cobaias, por sorte já marquei de fazer isso e relatar mais tarde. Desligando.

Ao terminar, ela parou a gravação e foi em direção da máquina, ativou um botão e o gás que ainda estava nos tubos retornou para o recipiente com o líquido roxo, lacrou o frasco e o guardou numa gaveta trancada com um cadeado, como todo aquele sigilo, eu mesmo supus que ela tinha pegado o frasco de algum lugar que não devia ter pego.

– Você pode pegar uma lona aí no armário? – ela perguntou apontando para um amontoado de tecidos desorganizados dentro dele, que péssimo!

Reviro os olhos e pego a primeira coisa que tinha na montanha de panos, uma pequena cobertura branca de tecido branco, e entrego para minha coleguinha. Annine estendeu pelo ar o pano branco e cobriu tudo que estava perto do tanque improvisado de testes, ela então retirou as luvas que até então eu não tinha percebido que ela estava usando, acho que era por serem transparentes.

– Quer almoçar comigo? – ela pergunta e põe a mão na cintura.

– Pode ser… – digo assentindo com a cabeça.

Ela sorriu e saiu caminhando em direção a entrada do laboratório, passamos pela escada e novamente pela porta lacrada, Annine inseriu o polegar no leitor de digitais e a porta deslizou para o lado. Seguimos andando pelos corredores da zona 10, que por acaso é uma das maiores se comparada ao complexo da empresa Rariaz, Annine me tirou de meus pensamentos quando disse:

– Depois do final de semana, poderia acordar mais cedo e me ajudar a limpar o que deixamos no laboratório? – perguntou ela, ela provavelmente notou que eu não iria fazer isso só de olhar nos meus olhos. – Por favor? – pediu ela fazendo um olhar de criança pidona.

– Ah ok – respondi, com um pouco de frustração.

O que detesto mesmo é quando me pedem favores, não tem coisa mais chata que isso, sério.

– Obrigada! – ela agradeceu com seu simpático e engraçado sorriso.

Annine era uma pessoa incomum, sempre sendo gentil e fofa, ainda queria saber por que ela vivia me seguindo pelos cantos durante nosso tempo na Academia Científica, uma espécie de universidade do governo internacional que seleciona crianças superdotadas para trabalharem como cientistas, no caso de Annine e eu, estivemos em turmas separadas, devido às áreas de atuação diferentes.

Desde o dia que meus pais desconhecidos me venderam para o governo, eu vivia meus dias só treinando para ser um dos melhores da Academia, e eventualmente acabei conhecendo Annine no refeitório, onde ficamos amigos e desde então seguimos no mesmo caminho.

Caminhamos até o elevador e já dentro dele, apertei alguns números no painel e ele fechou a porta, começando a subir alguns andares. Se bem que estou ficando cansado de ficar indo de um lado para o outro, ainda mais de elevador, queria mesmo era aproveitar o sábado e dormir o dia todo.

Dou uma olhada no implante que ficava no meu pulso direito, nele mostrava basicamente a minha numeração e o horário atual, que indicava ser por volta das oito e meia, talvez eu tenha perdido a noção do tempo torturando as cobaias com gás, Annine me deixa confuso às vezes, por que diabos ela aceitou essa função, sendo que fica chorando por causa das cobaias mortas, bom talvez eu esteja sendo cruel demais.

O elevador então para e desliza a porta, havia um corredor e mais à frente um saguão com várias mesas, onde era possível notar a presença de algumas pessoas. Saímos do elevador e caminhamos em direção ao saguão.

– San? – chamou Annine, usando seu “apelido carinhoso”, que na verdade era como os japoneses chamam seus superiores, já que Annine gosta de mangás – O que planeja para aproveitar seu dia? – ela perguntou

– Dormir o dia todo. – respondi e soltei um sorriso de lado

Ela então gargalhou.

– Sorte que você não tem trabalho para fazer, queria poder procrastinar sem me preocupar. – comentou ela com um sorriso de quem não consegue parar de rir.

Por um momento acabei rindo de leve, as vezes não consigo me conter, ainda mais porque Annine era alguém que eu podia me sentir bem, também porque ela era a única.

Seguimos pelo saguão e fomos até as pias de lavagem, uma caixa de vidro com esguichos de água e pentatinol, um líquido usado para matar bactérias, ponho as mãos e a máquina quase rasga minha pele com os esguichos de água e pentatinol, sério, incomoda bastante. Após jatos de ar quente, minhas mãos se encontram limpas e pouco molhadas, pego um papel para secá-las e o jogo numa lata de lixo.

– Aff minhas mãos ficam ardendo depois disso. – comentei

– Eu to acostumada a passar por isso todo dia, – comentou Annine e secou suas mãos com o papel especial. – Desde que comecei a trabalhar no LAB-8, faço isso todo dia.

Sorri novamente, enquanto pegava uma bandeja, aos poucos fui pegando os alimentos que queria colocar no prato, ovos de codorna, salada de repolho, alface e tomate, três coxas de frango e uma asinha, arroz e um molho escuro que não sei o nome, mas de qualquer jeito eu como.

Annine era vegetariana, por causa disso ela sempre comia qualquer coisa que não fosse carne, o porque disso seria o quanto que animais são tratados de forma cruel nas granjas e fazendas, bom se ela soubesse mais sobre isso, ela seria vegana, aliás não quero ver ela quase subnutrida porque quase tudo que comemos é feito de forma cruel. Mas esta é a realidade dura do nosso mundo.

Ela pegou a mesma salada que eu, ovos, pedaços de queijo e um bife de soja, que só por deus, é um negócio muito ruim.

Nos sentamos numa mesa ali próxima, então começamos a comer, era uma espécie de almoço adiantado, que era servido no sábado, já que todo mundo ou estava descansando ou fazendo trabalho extra, em meio a colheradas no meu almoço, tenho alguns vislumbres de Annine brincando com a comida.

– San, eu te contei sobre eu achar uma coisa inimaginável no centro da cidade? – perguntou Annine me fazendo um olhar simpático.

– Ah acho que não, o que foi que você achou? – perguntei com um pouco de lerdeza.

Annine então tirou do seu bolso, algumas coisinhas de várias cores que estavam dentro de um plástico.

– Adivinha!

Fico pensativo e então respondo:

– Um saquinho com migalhas. – como um pouco da minha comida e volto a olhar para Annine e seu saco de migalhas.

– Não né? São sementes que achei no parque, sabe, é muito difícil achar isso no meio de tanto concreto e metal da cidade. – ela respondeu e apontou sua cabeça para a janela onde era possível ver uma parte dos prédios altos de metal.

– E onde você vai plantar essas coisinhas? – perguntei, dando um sorriso de deboche.

– Olha, talvez eu plante no meu laboratório, e quem sabe uso pra alimentar minhas cobaias... – ela então coloca as mãos no rosto, como se estivesse arrependida – ah porque eu matei elas! – ela choramingou.

– Annine, se você soubesse de metade dos horrores desse mundo, você ficaria calada. – comentei sem dar a mínima, o que pode ter sido um erro, por que ela iria ficar emburrada.

Ela cruzou os braços e me olhou feio.

– Nossa, você não tem nenhuma consideração pelo que eu tô sentindo né? – disse ela e pegou uma folha de alface.

Annine ficou tentando falar enquanto mastigava, algo que eu detesto, é quando essa moça fica me irritando falando com a boca cheia, mal costume desgraçado. Por causa disso, ignorei tudo que ela estava falando, que por sinal parecia mais um macaco tentando soletrar.

– Eu odeio quando faz isso! – resmunguei quase sussurrando.

– Oh me desculpa! – disse ela com um sorriso cínico, e foi comendo outros vegetais, dessa vez sem cometer o ato abominável de falar enquanto mastiga.

– Olha eu me preocupo demais com você, mas... – digo sem pensar e logo me calo, foi suficiente para ela ficar de boca aberta e deixar o garfo cair.

– Ah que fofinho! Erock tem sentimentos, e também se importa com sua amiga – ela gargalhou e logo me olhou com um sorriso sincero, ainda com umas risadinhas. –, você é o sociopata mais fofo que conheço! – ela riu e voltou a comer.

– Melhor esquecer o que eu acabei de dizer, ou nunca mais vou te ajudar a torturar suas cobaias. – ameacei com um sorriso maldoso.

– Para com isso, eu não sou um monstro! – ela choramingou enquanto batia o punho fechado na mesa.

Acabei gargalhando enquanto ela despencava de quase chorar por causa das cobaias que ela tinha matado no laboratório, não sei por que, mas as vezes sou cruel demais com ela.

Olho para minha bandeja e vejo que estava quase acabando de comer, quando começo a conversar acabo perdendo a noção do tempo, por falar em tempo, é uma coisa estranha pensar que você deve seguir à risca uma rotina quase diária e obrigatória, é assim desde que me conheço por gente, ou seja quando a Rariaz me comprou.

– San? – chamou Annine.

Saio de meus pensamentos e noto que Annine estava me olhando com um pouco de preocupação.

– Ah foi mal eu estava pensando em algo. – digo com calma.

– Está tudo bem? – ela perguntou com um olhar sincero.

– Sim.

Dou uma breve olhada no relógio de meu implante e vejo que eram quase 9 da manhã, durante o sábado gosto de dormir o dia todo, afinal meu sono nunca segue um padrão, e também que muitas vezes acabo sendo chamado para trabalhar durante a madrugada, horário comum onde os servidores ficam de manutenção, além de que são propensos a ataques hacker e roubo de informações.

– Amy, eu acho que vou indo, tenho que descansar para hoje à noite – expliquei e ela assentiu com a cabeça. –, sabe, os servidores não funcionam direito se não passarem por manutenção.

– Ok vejo você depois quem sabe! – disse ela com um sorriso. – Pode deixar que eu limpo sua bandeja, tchau!

– Tchau, baixinha! – me despeço com um tom de brincadeira e me levanto da mesa onde estava sentado.

– Cala boca! – ela faz um biquinho de quem não estava gostando, só consegui rir baixo por causa de sua vozinha.

Saio andando do refeitório e refaço o caminho até meu dormitório, dessa vez resolvo usar outra rota, o que passa pela área de treinamento e instrução, as vezes gosto de ir lá só para ver os colonos tendo aulas sobre colonização de planetas, as vezes é engraçado.

Sigo até o fim da sala e aperto uns botões, o elevador aparece e se abre,  onde novamente encontro as mesmas garotas que estavam falando bobagens antes de chegar no LAB-8, uma moça de cabelo curto e castanho e olhos pretos, já a outra tinha o cabelo longo e solto, de cor rosa com as pontas roxas, se eu tivesse prestado atenção antes, talvez não teria saído do elevador.

Dessa vez estavam xingando a chefe delas, que provavelmente não devo conhecer, e pelo que falavam dela, não devia ser uma pessoa amigável.

– Ei você é o Erock Skywind certo? – perguntou a moça de cabelo bicolor

– Sim, sou eu. – digo com um sorriso simplório.

– Eu não sei se lembra de mim, mas não foi você que consertou o projetor de slide semana passada? – ela perguntou com empolgação.

– Nossa, mas você é louca, Rebexa. – comentou a moça de cabelo curto, logo pude saber que a de cabelo bicolor se chamava Rebexa, nome atraente. – É incrível como você é obcecada por isso.

– Sou mesmo, agora me deixa terminar! – ela então prepara a garganta. – você tinha esquecido isso na minha mesa. – ela estende um colar branco, com um pentagrama virado pra baixo.

Pego aquele colar e lembro que o tinha perdido a uma semana atrás e já havia desistido de procurar, aliás, bom, agora eu podia parar de procurar na minha gaveta de meias.

– Ah obrigado, sra. Rebexa, certo? – agradeço, e ponho o colar no pescoço.

– De nada! Sim, sou Rebexa e essa é minha amiga Marin – ela dá um sorriso de orelha a orelha, e por um momento finjo não estranhar essa garota. – Ei me passa seu número, quem sabe a gente conversa depois, por que eu tenho um pouco de claustrofobia e não gosto muito de elevadores.

– Ah claro. – digo com pouca emoção e ela estende o tablet pessoal dela, onde digito meu número de identificação, sim, usamos uma numeração para quase tudo na Rariaz.

Entrego o aparelho de volta e ela sorri contente para mim, o elevador desliza a porta e ambas as duas se despedem.

– Até mais! – disse Rebexa, contente.

– Até breve, Skywind. – disse Marin com um sorriso enigmático

Elas saem e fico sozinho no elevador, dessa vez penso em qualquer coisa que não seja sobre aquela garota estranha, ah acabei pensando nela, droga. Enquanto o elevador subia e passava pelas laterais, tenho um pequeno vislumbre de algumas salas de aula, onde os colonos estavam tendo lições passadas em slides sobre várias situações que podem acontecer em naves espaciais, bom, é quase como uma escola, só que sem notas e apenas obrigação de prestar atenção, até por que dá prejuízo para a empresa se os colonos morrerem por falta de cuidados com a própria vida.

Aperto um botão e o elevador acaba parando no local que eu queria, a porta desliza e saio caminhando em direção ao meu dormitório, o bom do elevador do refeitório, é que ele leva diretamente aos dormitórios da zona 18 e 17.

Saio do elevador e sigo caminhando até o 666-B, meu dormitório de número interessante, como a mente das pessoas é um mar de perversão e poluição, eu fico pensando sobre quem faz parte de uns dormitórios específicos, com números de duplo sentido. Ponho a mão no leitor e a porta se abre, onde me deparo com Kirk gargalhando com um filme que passava na televisão de parede.

Kirk era meu colega de quarto, era um bagunceiro chato e irritante, também era chamado de Mr. Rabbit Foot, por que ele muitas vezes usava pantufas de coelho, ele trabalhava como analista também, porém, não sabia qual área.

– Opa! – disse ele quando me notou no quarto. – Erock, você precisa ver esse filme, é engraçado demais!

Dou uma breve olhada no que estava passando, era basicamente três caras que tentam se dar bem em vários empregos, acho que já tinha visto esse filme a um tempo atrás, ele só consegue ser um pouco engraçado por causa da violência gratuita.

– Que graça tem em humor pastelão? – digo com tédio na voz.

– Não sei, mas achei engraçado. – ele movimenta os ombros, sem muito o que dizer. – Ei, tem algum plano para hoje? – ele pergunta e come um pouco de pipoca.

– Tenho um encontro com o travesseiro e quem sabe vou trabalhar durante a madrugada. – respondi e Kirk grunhiu, como entendimento.

– Hmm então não vou atrapalhar, aliás, você tá de cabelo novo? – ele perguntou e logo me sinto desentendido.

– Não, por que?

– Tá desengonçado. – ele respondeu e logo acabo pondo minha mão e noto que não tinha me arrumado mais cedo. Droga.

Acabo indo para o banheiro e vejo que nem notei minha cara de quem acabou de acordar, sequer lembrei de pentear o tufo e franja lateral, que ficava cobrindo parte da minha testa de pele escura. Acho que já sei por que algumas pessoas estavam achando engraçado, eu falando, aff, vou matar a Annine por não ter dito isso.

[Annine]

Termino de comer o que estava no meu prato, vendo Erock sair do refeitório e ao terminar saí de onde estava, com um pouco de pressa. Tenho que começar a “parte 2” do experimento. Entrei no elevador e apertei o botão correspondente ao meu andar. Dentro do elevador havia outras duas pessoas, um rapaz e uma senhorita. Nunca vi o rapaz, mas adorei a tatuagem dele de âncora, muito bonita. A moça ficava em um laboratório perto do meu, mas não lembro o nome dela. Logo no andar de cima, o rapaz saiu, e entrou um homem, também estranho. Posso dizer que é médico pelas suas roupas, e que está com uns 40 anos… Sendo generosa...

A melodia aguda e irritante do elevador me avisou que estava agora no meu andar, então segui em frente, para o laboratório. Eu sempre passava por ali, e sempre via os mesmos rostos, sérios e concentrados, de pessoas que eu provavelmente nunca iria chegar a conhecer. E que provavelmente não ligam muito para mim, também. Devem achar que eu tenho algum problema, mas eu me importo, pelo menos um pouco, com as pessoas a minha volta. Quando disse que eu “sempre vi os mesmos rostos”, eu quis dizer sempre. As pessoas crescem, morrem, e são substituídas, mas continuam iguais por aqui… É assim desde que eu me entendo por gente, desde que fui deixada aqui pelos meus pais.

Será que mais alguém liga? Será que o Erock liga para as pessoas em volta? Não sei, mas gosto de acreditar que no fundo ele liga, então…

Então…

– Espera, onde eu estou? – Comecei a virar minha cabeça de um lado para o outro para achar qualquer coisa que eu possa usar para me localizar e encontrei uma porta. – BL5902!?

Quando notei que estava falando em voz alta, apenas disfarcei um pouco e voltei pelo caminho que vim. Me distraí demais, e passei do meu laboratório, um dos vários que ficam dentro do LAB-8. Preciso memorizar o número, BL5864. Droga, eu tenho que parar de fazer isso, é estranho!

Finalmente cheguei no meu querido laboratório, mas o que senti foi o oposto de felicidade. Os corpos sem vida dos meus adoráveis amigos mamíferos estavam fedendo, e muito, mas isso não se igualava à sensação devastadora no meu peito quando os vi de novo.

– Oh, o que foi que eu fiz?! – Ao encará-los, quase sentia as lágrimas escorrendo pelas minhas bochechas. Me dirigi à um pequeno banheiro no laboratório, sem tirar os olhos de minhas vítimas, e joguei um pouco de água gelada - e bem gelada - no meu rosto, para me ajudar a me concentrar. Me dirigi a cadeira, me sentindo um pouco melhor, e peguei meu tablet dentro da bolsa lilás, procurei o nome “Kolman Honeygreen” na lista de contatos. Apenas espero que Kolman esteja de bom humor.

< K, pode quebrar um galho para mim? :)

Hoje?>

< Yep.

Não dá não, Anne.>

< Ah, qual é?!

To ocupado demais hoje! >

< Nem vem, vc me deve uma!

Vc é chata hein!? >

Tá! Eu vou ter um tempinho daqui a uma hora, ok? >

< Tá maravilhoso!!! Mto obrigada, K!

< S2

Não se atrase, baixinha >

< Cala boca -_-

Com as notícias, eu fiquei bem animada! Pus as luvas descartáveis e comecei logo a colocar meus mascotes peludinhos nas sacolas para conservar corpos. Primeiro foi Gunt, um ratinho branco de 1 ano e meio. Eu na verdade não cuidei tanto dele antes do terrível trauma de ser usado em uma experiência, mas ele parecia bem manso. Depois foi Rain, minha ratinha com manchas brancas de 3 anos. Cuidei dela pela vida toda, e só experimentei nela uma vez, e aí perdeu completamente o nariz. O nariz de ratos tem uma função parecida com a da orelha humana, então imaginei que a pobrezinha não iria aguentar muito mais. Já Darli era faminto e agitado demais. Demorou um pouco para nos entendermos… Tinha 2 anos e meio, e continuou firme e forte mesmo depois de tantas experiências… Já Bonni? Cuidei desde filhote… Eu roubei ele durante uma aula! Estava com ele fazia 7 anos já! Sim, ele já estava velhinho, mas… seria melhor eu ter deixado ele morrer naturalmente do que morrer s-sufocado...

– AI, QUE DROGA!!! – Limpei com força as pequenas lágrimas que se formaram no canto do meu olho. – Eu deveria ter deixado eles terem uma linda morte natural mesmo!!!

Peguei as bolsas e coloquei-as com cuidado dentro de uma caixa de vidro fumê bem escuro resistente, que tinham alguns buracos caso os animais testados ainda estivessem vivos - o que não foi o caso… - e fui até Kolman, com a visão um pouco embaçada.

==||==

A sala de espera estava diferente desde a última vez que eu passei por ali. As paredes estavam azul claro, mas continuavam sem nenhuma textura. Cobrindo toda a parte de baixo de duas paredes tinha um bando de poltronas perfeitamente encaixadas, sendo que as outras duas paredes sem poltronas tinham a porta por qual eu entrei e um vaso de plantas, e a outra tinha a porta para o laboratório do Kolman, e uma mesinha com revistas. A maior parte do chão era coberto por um belo tapete listrado, de diferentes tons de verde e amarelo.

Eu sentei na cadeira do canto, para ver se tinha algo interessante perto das revistas, e coloquei a caixa com meus amiguinhos na cadeira entre mim e uma das quatro pessoas da sala. Infelizmente não achei uma revista que me agradasse… O que dá para fazer é esperar então.

A maioria das pessoas estavam com caixas iguais às minhas, ou um pouco maiores. Do outro lado da sala, duas pessoas estavam sentadas bem afastadas. Uma delas era um loiro com cabelo bem longo, preso em um rabo-de-cavalo, e ele estava mexendo em uns papéis. Havia um rapaz que eu reconhecia por sempre esbarrar nele no elevador quando venho para cá. Uma vez ele deixou uns papeis caírem e me ofereci para ajudar, e nisso notei que a maioria eram partituras de músicas clássicas. Mas depois nunca mais falei com ele.

De repente a porta do laboratório abriu, e de lá saiu uma pessoa, mas ela andou tão rápido que nem vi como ela era. Da mesma porta, surgiu meu amigo com seu uniforme, olhando para sua prancheta.

– Fádrico Aldebrand. – Meu amigo ruivo chamou com uma voz super entediada. Um senhor grisalho, mas aparentemente jovem, se levantou com suas coisas e entrou no laboratório de Kolman, que estava sem emoção. Antes do Sr. Tédio entrar, ele me viu no canto da sala. Eu acenei de levinho, e ele me deu um sorrisinho, antes de fechar a porta com força.

Peguei meu tablet para ver as horas - eram 10h35 - e para jogar um pouco. Eu tenho esse joguinho no tablet chamado Crazy Chicken Chaos, onde eu assumia o papel de uma galinha armada com uma bazuca, e o objetivo era dominar os galinheiros, usando é claro a selvageria. Nem sei por que eu estava viciada naquilo, era bizarro pensar que galinhas são terroristas, mas ainda sim, é um jogo muito legal.

– Ai, droga! – Subitamente, a moça do meu lado estava derrubou sua pilha perfeita de papéis, que só não acaba se espalhando pela sala inteira por causa do tapete. Imediatamente, a morena tirou seus fones e se agachou para pegar as folhas. Sem precisar olhar para meu tablet, fechei o jogo bobo e levantei da minha cadeira, também me abaixando e pegando as folhas.

– Aqui está, senhorita. – estendi minha mão cheia de papéis.

– Muito obrigada mesmo, senhorita. – ela se sentou nos joelhos e pegou as folhas da minha mão, pondo-as em cima da cadeira. E assim que ela voltou a pegar papéis, eu voltei a ajudá-la. Vi que um dos papéis havia voado para o outro lado da sala, e engatinhei até ele, e o teria pego na hora se um senhor não tivesse ajeitado o pé bem em cima do meu alvo.

– Com liçensa, senhor. Está pisando na folha. – Olhei para o rapaz loiro e pedi para mover o seu pé com toda a calma do mundo, mas acho que não foi calma suficiente, pois ele olhou para mim com uma cara de nojo, e demorou uns 4 segundos para realmente mover o pé. Peguei o papel, infelizmente com manchas de sapato, me levantei e dei meu jeitinho de pisar no pé daquele babaca, que me lançou outro olhar, dessa vez de ódio. Voltei para meu banco e entreguei o papel para a senhorita. – Aqui está.

– Muito obrigada! – Embora ela não tenha olhado para mim, eu vi o sorriso que ela deu. – Qual o seu nome?

– Sou a Dra. Annine Bubblefire, biotecnica. E você? – Sorri e, ao tentar levantar minha mão para um cumprimento, eu a bati de leve no encosto de braço. Ela viu e soltou uma risadinha bem baixa, mas muito fofa

– Eu sou Lyshia Duskymoon, bioquímica. É um prazer conhecê-la! – Ela me cumprimentou alegre. – Novamente, muito obrigada por me ajudar com os papéis… eu sou um desastre ambulante…

– Que coincidência... – Soltei uma risadinha. Nesse momento, Lyshia virou o rosto para mim, e me olhou com um sorrisinho no rosto. – ...Eu também!

– Jura? Bom saber que não sou a única… – Ela me mostrou língua, e depois riu de leve. Eu ri com ela, mas assim que olhei para ela novamente, parei. Seus olhos são muito claros… será...?

– Hm, Lyshia, posso perguntar algo?

– Claro. – A moça voltou a arrumar seus papéis.

– Você por acaso é cega?

– Err… – Suas mãos travaram, e ela olhou para baixo. – Sim, por quê?

– Nada não! – Eu falei um pouco alto, acidentalmente. Acho que ofendi ela… – Eu só notei que seus olhos são bem claros… e que você não olhou em meus olhos, mas só.

A maçaneta vez um ruído bem alto, gritando que alguém ia sair do laboratório. E foi exatamente o que aconteceu, dela saiu uma pessoa com muita pressa e Kolman, com seu olhar de morto na prancheta.

– Annine Bubblefire.

Me levantei, peguei minhas coisas e segui pela porta branca do laboratório. Pus minhas coisas em uma cadeira do laboratório e andei até Kolman.

– Kolman! Quanto tempo!! – O abracei pelas costas e prolonguei meu “O” em Tempo. No entanto, ele estava muito distraído e quase caiu no chão…

– Annine!!! – Ele me fitou furioso e andou até sua escrivaninha.

– Foi mal aí.

Ele me olhou com certa raiva, mas logo retornou a sua postura profissional, assim como eu. Peguei a caixa com as cobaias, me sentei aonde ela estava e a pus no meu colo.

Diferente da sala de espera, o laboratório estava igualzinho, a não ser por um quadro novo, um que eu acho que nunca vi. Contudo, era só isso, as paredes ainda eram de azulejos brancos, assim como o piso, e as ferramentas continuavam nos mesmos lugares, por causa do jeito super-organizado de Kolman...

O rapaz ruivo se sentou em sua escrivaninha, colocou seus óculos e começou a escrever meu nome com sua letra de médico.

– Quando você fez o experimento? – Seus olhos continuaram no papel, pronto para escrever.

– Hoje mesmo. Eu começei às sete horas e devo ter terminado umas… oito e meia.

Após terminar de escrever o que eu disse na prancheta dele, ele disse:

– Sente-se aqui. – E apontou para a cadeira em frente à escrivaninha dele. Me levantei, peguei a caixa e me sentei na cadeira indicada, colocando a caixa no meu colo novamente. – Espera, cadê os papéis do experimento?

– Ah, sim… Os papéis… – Soltei um suspiro. – Eu não trouxe…

Imediatamente, Kolman cruzou seus braços e ergueu uma de suas sobrancelhas grossas.

– Tá! – Cruzei meus braços também e me encolhi na cadeira. – Não tenho permissão para esse experimento…

Kolman ajeitou seus óculos e se levantou devagar.

– Anne, eu vou ser claro com você. – Seus olhos já haviam me revelado a resposta. – Da última vez que te ajudei com um das suas experiências proibidas, eu me meti em problemas. Eu quero muito te ajudar, mas assim não dá!

– Por favor, Kolman! – Tirei a caixa do meu colo, praticamente jogando ela no chão e implorei com minhas mãos juntas em frente ao meu pescoço. – Você tem que me ajudar!

– Não tenho não, você tem que se ajudar, Anne! – Ele começou a se estressar, mas sua preocupação comigo era notável também. – Você tem que parar de agir que nem uma criança rebelde, ok?! Porque assim não dá para te ajudar.

Revirei os olhos e me virei para outro lado.

– Annine, você não pode continuar assim. – Ele deu a volta em mim para ficar na minha frente, mas eu estava olhando para baixo. – Cuidando das cobaias, tentando ajudar todo mundo... Isso não vai levar você a lugar nenhum, sério.

Saí do quadradinho onde estava, esbarrando no ombro do Kolman, e comecei a pegar minhas coisas… se bem que só tinha a caixa para pegar.

– Annine, está agindo como uma criança...

– Ok, pai! – Cravei meus olhos enfurecidos nele, que não reagiu. – Se tudo isso, abre aspas, não vai me levar a lugar NENHUM, fecha aspas, por que você se importa comigo?! Isso também não vai te levar a lugar nenhum, lembra?!

Abri a porta do laboratório e empurrei ela para o lado sem olhar para trás, disparando até a porta da sala de espera.

– Dra. Annine? – A voz de Lyshia me impediu de andar quando estava à 3 centímetros da porta. Rapidamente, me virei para ela.

– Oi, Lyshia. – Eu queria parecer feliz, mas não dava para esconder o quanto eu estava irritada, assim como ela não escondeu que ficou um pouco espantada ao me ouvir com raiva.

– Aqui. – Ela me deu um papel pequeno com números, claramente um número de identificação. Logo depois, a morena deu um sorriso de orelha à orelha. – Me liga mais tarde.

– Pode deixar! – Tentei devolver o sorriso, mas logo depois eu acelerei novamente na direção da porta.

ARGH!!! Por que ele sempre faz isso?! Sempre que eu peço algo ele me trata como uma criança, e joga na minha cara que eu sou… incorreta!!! QUE SACO, porque ele não me dá uma folga?! É sempre assim: “Você não devia fazer isso?” e “Fazer isso é errado!”... só falta ele me por de castigo!!! E, sério, por que ele ainda liga?! ELE JÁ JOGOU NA MINHA CARA ANTES: EU NÃO TENHO JEITO!!! É mesmo?! Então por que raios você ainda tenta me ajudar?!

Esmaguei meu polegar contra o leitor de digitais e passei pela porta, pisando forte. Minha vontade foi de lançar a caixa para longe no chão, e embora o vidro seja resistente o suficiente para você ficar de pé em cima - sério - foi só pensar em meus amados que eu delicadamente coloquei eles em cima da bancada. Sentei em uma cadeira no laboratório e apoiei minha cabeça nos meus braços, que por suas vez estavam apoiados no meu joelho.

– Por que nada pode ir como eu planejo…? – Murmurei, observando meu laboratório circular; contudo meus olhos pararam na caixa de vidro escuro que continha os corpos de meus bichinhos, que deveriam ter sido violados por Kolman. Mas, novamente, nada pode ir como eu planejo. Suspirei logo em seguida, com um sorrisinho se formando no canto da minha boca. – Não é hora de ficar parada.

Estiquei bem minhas costas. Bem do meu lado estava minha bolsa lilás, e dentro dela peguei um pente e um pompom de cabelo. Comecei a pentear meu cabelo azul e, sem demorar muito, fiz um coque com meu cabelo. Não ficou bom, mas vai segurar, então deixa assim mesmo. Melhor não fica… Me levantei, vesti um par de luvas descartáveis, peguei meu tablet e arrumei para ele um lugar perto o suficiente para gravar o procedimento, e longe o suficiente para não me atrapalhar; também peguei alguns instrumentos (como facas, agulhas e uma balança) e arrumei-os ao na bancada, onde a caixa de vidro estava antes de eu colocá-la no chão. Me abaixei e peguei o corpo de Darli, o ratinho exposto à dois segundos de gás, e o coloquei em cima da bancada.

– Eu tenho que me ajudar, não é, Kolman? Eu mesma vou fazer a autópsia. –  E… gravando. – Essa é a necrópsia de Darli, um rato de dois anos e meio, exposto à dois segundos de dióxido de oftônio, ou como é mais conhecido, gás-do-pesadelo.

Antes de sequer tocar no bisturi, eu examinei o corpo de Darci a procura de marcas, mas não encontrei nada. Então, eu peguei uma agulha bem fina e, sem muito drama, arranjei uma amostra de sangue do pequeno animal. Coloquei o sangue em um potinho pequeno e o pus em baixo da mesa.

– Sem nenhum tipo de anomalia no corpo da cobaia. – Me direcionei para o vídeo.

Só então peguei o bisturi e me preparei para abrir o pequeno tórax do pequeno Darci. Seu rostinho parecia tão infeliz… não deve ter sido nada agradável... sufocar… e me doi tanto fazer isso com ele...

Ai, Annine, PODE PARAR! Se concentra e acaba logo com isso!

Coloquei o bisturi ao lado de suas patinhas frontais e fiz um corte diagonal até a parte de cima do abdômen, e dali, uma linha reta para baixo. Levei o bisturi para a outra patinha frontal, e aí… foi exatamente como cortar cebolas: a partir de um momento, meus olhos começaram a encher de água, deixando a minha visão ruim, e me forçando limpar os olhos com os pulsos, mas tentei continuar concentrada.  Realizei um corte conectando a pata com o ponto da “parte de cima do abdômen”, formando um Y. Respirei fundo e puxei a delicada pele de Darci, revelando seus órgãos internos… ew…

Não precisei me esforçar muito para puxar as costelas para fora do corpo de meu pequenino, mas precisei me esforçar para não quebrar os ossos em meus dedos (eu tentei usar uma pinça, mas fiquei estressada e usei a mão mesmo). Com a costela fora, eu tinha acesso para os órgãos abdominais, mas eu já havia dissecado um rato antes, o meu querido Wailu, e não via diferença nenhuma em coloração, tamanho, nada. Com muito cuidado, peguei os órgãos do peitoral de Darci e pus cada um deles na balança, e todos com o mesmo resultado…

– Os órgãos do peitoral da cobaia não estão alterados em cor, tamanho, ou peso.

O que eu faço agora…?

Não sei como prosseguir… Tento observar o ambiente a minha volta, mas nada me dava uma única ideia, e não ajudou nada meus olhos ficarem focados em Darli e sua expressão de sofrimento…

Ai, o que eu fiz? Se eu não tivesse feito nada, e ficado no meu quarto hoje ao invés de fazer essa experiência maluca, Darli não estaria morto…  Me sentindo muito culpada, peguei a carcaça do pequeno rato, as costelas, os órgãos separados, as luvas descartáveis, e coloquei tudo no saco de onde eu o tirei, mas, é claro, não coloquei de volta na caixa de vidro, e sim bem atrás dela. Encerrei a gravação no meu tablet, peguei novas luvas e um novo corpo para explorar, o corpo de Gunt. Assim que tudo estava novamente preparado, iniciei uma gravação no meu tablet.

– Essa é a necrópsia de Gunt, um rato de um ano e 7 meses, exposto à quatro segundos de dióxido de oftônio, ou gás-do-pesadelo.

Segurei o bisturi com força e me preparei para cortar o peito de Gunt em forma de Y, assim como fiz com Darli, mas me lembrei na hora que eu deveria fazer uma análise externa do corpo. Examinei todo o corpinho fraco de Gunt, mas não encontrei nada incomum.

– Não há nenhum tipo de anomalia no corpo da cobaia. – Repeti desanimada.

Agora sim era hora: peguei o bisturi e coloquei ao lado das patinhas de Gunt, assim como fiz com Darli. Eu não sei o que aconteceu, mas assim que a fria lâmina encostou em meu pequeno Gunt, eu congelei. Eu simplesmente parei.

E então a ficha caiu: eu tinha matado esses animaizinhos inocentes pela ciência, mas ainda pior do que isso, eu estava violando seus corpos por isso… Não, não, não, por que eu fiz isso? Eu sabia que eu me sentiria mal depois, e eu fiz assim mesmo!

– AI, QUER SABER?! – Grito enquanto arranco as luvas das minhas mãos. – JÁ CHEGA DISSO!!!

Esmaguei o bisturi contra a bancada, joguei o pobre corpo de Gunt no saco de onde eu tirei, peguei todos os meus animais sacrificados e taquei tudo direto na lixeira gigantesca que havia no laboratório. Essa era a última coisa que eu queria fazer, mas EU NÃO AGUENTO MAIS!!! Eu NÃO vou conseguir fazer uma autópsia, eu DESISTO!!!


Notas Finais


Temos uma boa notícia, abrimos vagas para fichas de personagens, bom por isso vou deixar algumas informações necessárias, já que ainda sequer explicamos como funciona o universo da fic.

- Características físicas (cabelo, olhos, etc...)
- Personalidade (sejam criativos pois os personagens mais interessantes são escolhidos)
- Classe (isso importante pois serve para decidir um papel para o personagem, se ele é um militar, cientista, ou se apenas um colono, também coloquem uma função que ele pode fazer)
- Sugestões (aqui vocês podem sugerir habilidades, poderes, armas, entre outras características adicionais para o personagem, é claro, sejam criativos)
~~~
Até o próximo capítulo!


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