História A Colônia - Capítulo 2


Escrita por: ~

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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Agente, Americanos, Apocalipse, Avião, Devora, Eua, Floresta, Massa, Mutação, Negra, Peru, Profundezas, Queda, Terrivel, turistas, Virus, Zombie
Visualizações 2
Palavras 1.713
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Aventura, Drama (Tragédia), Fantasia, Ficção, Mistério, Romance e Novela, Suspense, Terror e Horror
Avisos: Álcool, Linguagem Imprópria, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


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Capítulo 2 - Minneapolis, Minnesota


O agente Mike Rich odiava ter que ligar para a ex-esposa. Era uma merda, especialmente quando sabia que o marido dela — e ele odiava que aquele cara fosse a porra do marido dela agora — talvez atendesse o telefone, mas ele não podia fazer nada. Ia se atrasar, e se havia algo que irritava sua ex-esposa mais do que seus atrasos para buscar a filha deles era quando ele sabia que ia se atrasar, mas não avisava. Cacete, se ele tivesse sido melhor nesses dois aspectos, talvez Fanny ainda fosse sua esposa. Ficou encarando o telefone.
— Resolva isso de uma vez, Mike.
Seu parceiro, Leshaun DeMilo, também era divorciado, mas não tinha filhos. Leshaun sempre dizia que havia cortado todos os laços. Não que ele apreciasse muito a vida de solteiro. Saía em encontros com uma determinação ferrenha. Mike também achava que o parceiro vinha pegando um pouco pesado demais na bebida ultimamente, e em mais de uma ocasião depois do divórcio ele chegara para trabalhar com uma cara péssima.
— Você sabe que, quanto mais esperar, pior vai ser — avisou Leshaun.
— Vá se foder, Leshaun — respondeu Mike, mas pegou o telefone e digitou o número da ex-esposa.
Claro que o novo marido dela atendeu.
— Presumo que esteja ligando para avisar que vai se atrasar de novo.
— Acertou na mosca, Dawson — disse Mike.
— Você pode me chamar de Rich, Mike. Sabe disso.
— É, desculpe. É que, sabe, quando eu escuto Rich, acho que é comigo.
Agente Rich e tal. É estranho chamar você pelo meu sobrenome. Que tal

Richard?
— Desde que não seja Ricardão, ou pelo menos não na minha cara, vou
sobreviver.
Essa era outra característica irritante do novo marido de Fanny. Rich
Dawson era advogado de defesa — o que já era suficiente —, mas também era
um ótimo sujeito. Se Dawson não tivesse feito fortuna livrando da cadeia os
babacas que Mike se dedicava a prender, e se Dawson não estivesse comendo
sua ex-esposa, Mike conseguia se imaginar tomando uma cerveja com o cara.
Teria sido muito mais fácil se Dawson fosse um babaca completo, porque aí ele
teria motivo para odiá-lo, mas Mike sabia que só podia ficar puto consigo
mesmo. Ainda não havia decidido se devia ver pelo lado positivo o fato de
Dawson ser ótimo para Annie ou se isso fazia com que o novo marido de sua ex-
esposa fosse ainda pior. Era uma agonia para Mike saber que sua filha tinha
aceitado Dawson daquele jeito, mas fora bom para ela. Durante pouco mais de
um ano, entre ele e Fanny se separarem e Fanny começar a namorar Dawson,
Annie tinha ficado calada. Não ficara triste, ou pelo menos não admitira, mas
não falava muito. Porém, no ano e meio desde que Dawson entrou em sua vida,
Annie voltou a parecer ela mesma.
— Pode passar o telefone para Fanny?
— Claro.
Mike se remexeu no assento. Ele nunca reclamava de ter que passar horas a fio sentado no carro, bebendo café velho e sentindo o cheiro fétido e denso de meias e suor que preenchia o veículo quando eles precisavam ficar cozinhando debaixo do sol. Estava fazendo quase trinta graus. Calor fora de época para o mês de abril em Minneapolis. Ele se lembrava dos anos em que ainda havia neve no chão no fim de abril. Fora do verão, trinta graus era quente para Minneapolis.
Mike e Leshaun costumavam deixar o motor em ponto morto e ligar o ar-condicionado — ou, nos invernos de Minnesota, o aquecimento —, mas a filha de Mike tinha sido convertida pela escola em uma daquelas jovens ambientalistas militantes. Fizera ele e o parceiro prometerem não ligar o motor se só fossem ficar parados. Se estivesse sozinho, Mike provavelmente teria cedido e ligado o ar-condicionado, mas Leshaun não deixava.
“Promessa é promessa, cara, especialmente para sua filha”, dissera Leshaun.
Ele até havia comprado copos reutilizáveis de metal para o café, para deixar no carro. Pelo menos não chegara a obrigar Mike a lavar e reaproveitar a garrafa de mijo nos dias em que montavam tocaia em algum lugar que não tivesse um McDonald’s ou uma Starbucks por perto para usarem o banheiro. Já não era mais tão comum eles montarem tocaia. Mike meio que sentia falta de dias como aquele, quando havia tocaias. Era um tanto romântico o ato de ficar sentado, esperando. E esperando. E esperando. Mas naquele dia as costas de Mike estavam de matar. Já fazia nove horas que eles estavam no carro, e passara o dia anterior no clube com Annie, nadando com a filha, jogando-a para o alto e correndo atrás dela. Com nove anos, Annie estava começando a dar
trabalho, mas o que ele deveria fazer? Não brincar na piscina?
Mike endireitou as costas e se alongou um pouco, tentando se acomodar.
Leshaun estendeu uma caixa de Advil, mas Mike balançou a cabeça. Seu estômago também estava incomodando — café, rosquinhas, hambúrgueres e
batatas fritas cheias de óleo e todas as porcarias que faziam com que fosse cada vez mais difícil manter a forma, correr os quilômetros e fazer as flexões necessárias para ele continuar passando nas avaliações físicas —, e engolir um punhado de comprimidos para aliviar a dor nas costas não parecia uma boa ideia. Merda, pensou Mike. Ele tinha só quarenta e três anos. Jovem demais para já se sentir velho.
— Quanto tempo, Mike? — Fanny apareceu do outro lado da linha já com todas as pedras nas mãos.
Mike fechou os olhos e tentou fazer uma respiração purificadora. Era assim que o terapeuta dele chamava: respiração purificadora. Quando abriu os olhos, Leshaun o encarava. Ele ergueu uma sobrancelha e gesticulou com a boca: “Peça desculpas”.
— Sinto muito, Fanny. De verdade. Estamos de tocaia, e o pessoal que vem nos render se atrasou. Vou demorar só mais meia hora. Quarenta e cinco minutos, no máximo.
— Você ia levá-la para o futebol, Mike. Agora eu é que preciso ir.
Mike fez mais uma respiração purificadora.
— Não sei o que mais posso dizer, Fanny. Sinto muito mesmo. Encontro vocês no campo.
Ele queria estar lá. O cheiro da grama recém-aparada e a imagem de sua filhinha correndo atrás de uma bola tinham algo de especial. As arquibancadas fajutas de madeira o lembravam a sensação de ser criança, de ficar olhando para a lateral do campo durante uma partida de beisebol ou futebol e ver o pai dele sentado, assistindo, solene. Ver Annie brincar com as outras crianças, ou fazer uma careta, ou se concentrar enquanto tentava aprender um drible ou alguma técnica nova, era um dos melhores momentos da semana. Mike nunca pensava no trabalho, na ex-esposa ou em mais nada. O campo de futebol era um mundo à parte: a gritaria das crianças e os apitos dos técnicos funcionavam como um botão de reinicialização. A maioria dos pais ficava batendo papo uns com os outros, lia livros, tentava adiantar o trabalho, falava ao celular, mas Mike só assistia. Só isso. Ele via Annie correr, chutar a bola e rir, e, durante aquela hora de treino, o mundo se resumia àquilo.
— É claro que eu posso levá-la, mas a questão não é essa. A questão é que você continua fazendo isso. Quer dizer, eu posso me separar de você. Posso me divorciar. Mas ela não tem escolha, Mike. Por mais que ame Rich, você é o pai dela.
Mike olhou de relance para Leshaun, mas o parceiro estava se fazendo de surdo. Leshaun estava cumprindo sua obrigação: vigiar o beco. Era pouco provável que o verme que eles estavam esperando, Dois-Dois O’Leary, aparecesse, mas, levando em conta que ele tomava tanta metanfetamina quanto vendia, e que ele tinha deixado um agente ferido em uma batida policial na semana anterior, talvez não fosse a pior coisa do mundo que um dos dois prestasse atenção.
— Só posso pedir desculpas.
Mike olhou para Leshaun de novo e decidiu que não ligava se ele ouvisse.
Até parecia que não havia conversado com o parceiro sobre seu relacionamento com Fanny — ou sobre o relacionamento de Leshaun com a ex-esposa dele — mais do que com o terapeuta, ou até do que com a própria Fanny. Talvez, se ele tivesse conversado com Fanny tanto quanto havia conversado com Leshaun, eles ainda estivessem casados.
— Você sabe que eu lamento. Por tudo. Sinto muito por tudo. Não só pelos atrasos. — Mike esperou Fanny dizer algo, mas só ouviu silêncio. Continuou: — Venho conversando com meu terapeuta sobre isso, e sei que é tarde demais. Quer dizer, acho que me atraso com tudo, mas estou tentando dizer que eu deveria ter pedido desculpas para você há muito tempo. Nunca quis estragar nosso casamento, e, embora eu não fique muito feliz com a situação, estou feliz por você estar feliz. E, sabe, Dawson… Rich… parece fazer você feliz, e eu sei que Annie o ama. Então, sabe, sinto muito. Estou fazendo o possível para ser um cara diferente, um homem melhor, mas sempre vai ter uma parte minha que não vai
mudar. E isso vale para o meu trabalho também.
— Mike. — A voz de Fanny parecia fraca, e Mike se remexeu no banco de novo. Não dava para saber se era o celular bosta que estava falhando a ligação ou se ela estava falando mais baixo. — Mike — repetiu ela. — Eu preciso conversar com você sobre uma coisa.
— O quê? Quer se divorciar de mim de novo?
Leshaun se aprumou no banco e inclinou a cabeça um pouco para fora da janela aberta. Mike endireitou as costas. Um carro estava entrando no beco.
Um Honda, que não era bem o tipo de veículo de Dois-Dois, mas foi o primeiro sinal de atividade que eles viam fazia algum tempo. O carro parou, com a traseira em cima da calçada, e então um adolescente negro, de quinze ou dezesseis anos, saiu pela porta do carona. Mike relaxou, e Leshaun se recostou no banco. Dois-Dois vendia armas e anfetaminas, mas também era membro do grupo Nação Ariana. Era pouco provável que ele fosse visto por aí com um garoto negro.
— Quero mudar o nome de Annie — afirmou Fanny.



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