História A confusão do meu coração - Capítulo 31


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Drama, Escola, Lesbicas, Orientadora, Professora
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Palavras 6.314
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Escolar, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Yuri
Avisos: Homossexualidade, Mutilação, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas da Autora


Não tô com saco pra colocar imagem aqui.
Aviso logo que esse capítulo foi feito sob circunstâncias um tanto distintas dos anteriores por isso eu encontrei extrema dificuldade em narrar uma prosa dramática, até porque o caminho até aqui vocês sabem o quão dramático foi e eu não queria escrever mais do mesmo. Entretanto, não sabia se haveria um modo inovador de escrever esse capítulo que não podia ser comediante, pelo menos não diante do que foi apresentado nos anteriores.
Enfim, eu espero de verdade que meus leitores possam gostar do resultado.

Capítulo 31 - Tudo (de ruim) acontece ao mesmo tempo


         Qualquer outra adolescente de dezessete anos, lésbica e fora de qualquer relacionamento sério ao escutar a pergunta “você por acaso está grávida?” com certeza soltaria uma gargalhada e perguntaria de volta “que bizarro, de onde tirou essa ideia?”

         Eu estava prestes a rir da cara da Camila e perguntar o que ela tinha na cabeça para supor algo desse tipo, mas lembrei que ela não sabia nada da minha orientação sexual e, o pior a ser relembrado: havia sim uma enorme chance de eu estar grávida. Meu pai abusou de mim.

         Essa recordação, junto com a visão do meu rosto pálido e debilitado refletido no espelho do banheiro quase me fez vomitar outra vez. E Camila cruzou os braços esperando uma resposta que eu não podia dar. Dizer que sim, eu podia estar grávida ou que não, era impossível, seria uma resposta acompanhada de dezenas de explicações que eu não gostaria de ter que dar, pelo menos não naquele dia.

         — Me tira daqui — pedi com a voz quase inaudível.

         — O quê? — Cami não escutou muito bem.

         — Olha, Camila, eu não tô legal, vou pedir uma autorização pra ir embora. Me acompanha?

         Dei passos para frente rumo à saída do banheiro e Camila me interceptou colocando as mãos nos meus ombros.

         — Eu vi essa cena, vi você passando mal e te fiz uma pergunta. Mereço uma explicação, não?

         Havia um misto de preocupação e irritação no rosto da minha amiga. Provavelmente a preocupação era devido o meu estado e a irritação por julgar — com toda a razão — que eu estava escondendo algo dela. Para ela eu não teria mais como ocultar detalhes da minha vida, mas dentro daquele banheiro e naquela manhã eu definitivamente não falaria nada.

         — Sim, merece — respondi. — Mas não agora. Por favor, não comenta com ninguém sobre isso e não fica colocando na cabeça a ideia de que...

         — Que você provavelmente está grávida? — sua voz aumentou um pouco o tom. — Raquel, o que mais você quer que eu pense? Você acabou com as minhas suspeitas quando disse que não era mais virgem! Caramba, o que mais eu preciso saber de você, somos amigas ou não?

         — Não me pressiona, Camila! — Senão eu vou começar a chorar, queria complementar. — Eu tenho alguns segredos sim, mas não contei por falta de confiança.

         Aí sim Camila pareceu realmente ofendida. Abriu a boca buscando o que me falar, mas a surpresa estava estampada no seu rosto.

         — Falta de confiança em mim?

         — Não, Cami, falta de confiança em mim mesma! Me desculpa, a gente se fala outro dia.

         Os efeitos pós-vômito já estavam diminuindo, já me sentia mais capaz de andar sem cair. Me afastei da Camila e saí do banheiro com ela no meu encalce.

         — Você não vai sair dessa escola hoje sem conversar comigo — ela falava me seguindo.

         — Já disse que hoje não! — me virei rapidamente para dizer e segui para o segundo andar, rumo à sala de diretoria.

         — Eu só estou preocupada — falou ao me alcançar e passou a caminhar ao meu lado. — Tudo bem, respeito seu tempo, mas não me deixa confusa!

         Soltei um riso de nervoso.

         — É um dos meus talentos naturais deixar as pessoas confusas. Eu mesma já sou bastante confusa, meu coração nunca sabe diferir o certo do errado, todo confuso.

         Paramos em frente à diretoria. Foi uma atividade bem rápida. Camila forçou ainda mais um tom dramático — como se a situação já não fosse dramática por si só... — e em dois minutos saí da sala com um pequeno papel nas mãos que me autorizava sair mais cedo.

         — Agora você vai mesmo escapar de mim. — Camila estava visivelmente muito chateada. — Só espero que fique bem para amanhã conversarmos sobre tudo o que você ainda não me contou.

         Apesar da chateação, beijou meu rosto antes de voltar para a sala de aula. Logo estava sozinha outra vez, permitindo que meus pensamentos mais desesperadores tomassem conta de mim. Algumas coisas até podemos fazer um esforço para evitar, mas essa não. De todas as desgraças da minha vida, a suspeita de gravidez era a pior.

         Sabe quando algo tão ruim acontece com você e aí não consegue aceitar logo de cara, parece que é irreal? Eu já estava acostumada a vários tipos de desastres emocionais, traumas psicológicos, rasteiras que a vida dava em mim... Agora, ter a infelicidade de ter um pai como algoz, e, como a pior consequência do meu pior desalento, poder estar gerando um filho desse homem era o auge de não saber mais o que fazer com a vida.

         O que era de se esperar: eu estava extrapolando os níveis de nervosismo. O que era de se esperar, mas não estava acontecendo: eu chorar. Por incrível que pareça as lágrimas não conseguiam se libertar, não conseguia manifestar em forma de choro todo o meu desespero e isso era tão horrível quanto ter uma crise de choro.

         Tanto as lágrimas em abundância quanto a total falta delas era um péssimo sinal. Geralmente, quando eu não conseguia chorar era porque meu organismo estava em modo de autodefesa, ou seja, manteria uma armadura bem frágil no decorrer do dia para desmoronar à noite. Já podia prever várias crises noturnas.

         Balancei a cabeça várias vezes para ignorar o problema, mesmo sabendo que isso sempre piora as coisas. Eu tinha que voltar para casa e ver se meu lado racional preparava para mim uma resolução que não envolvesse mais pressões emocionais.

         Como tudo na minha vida tem que vir da pior maneira e ainda acompanhada de reforços do mal, topei com Jennifer perto do portão de saída. Dessa vez ela não estava sozinha, discutia com outra garota. Eu reconheci a segunda, era a Maria Luísa. A indignação tomou conta de mim. Tudo bem me humilhar e me fazer de piada para dezenas de pessoas, tudo isso só envolvia a minha pessoa, mas atingir meus amigos era o mesmo que me atingir com maior intensidade.

         — Esse seu cursinho idiota é só uma desculpa — escutei Jennifer dizer. — Está na cara que você só veio pra esse fim de mundo pra ficar perto da sua queridinha, a Raquel.

         — E se for isso mesmo? — perguntava Maria com um tom desafiador que fez até a mim recuar.

         — Não pense que vou ser sua refém pelo restante do ano todo. Eu não vim pra cá com o objetivo de ser pisada mais uma vez por você, garota desprezível!

         Dessa vez Jennifer não aparentava temor, parecia mais confiante que nos dias anteriores. Como se já tivesse ensaiado sua discussão com a Maria Luísa várias vezes. Eu imaginava bem como tudo isso terminaria e não seria nada legal.

         — Se me julga desprezível, por que simplesmente não me esquece? — Maria Luísa permanecia firme, diferente de mim que já teria me retirado com a intimidação da Jennifer.

         — Você e a Raquel são iguaizinhas, se fingem de fortes, mas não passam de umas idiotas medrosas, basta uma pressãozinha que desmoronam. Eu teria feito a Raquel sair correndo dessa escola se você não tivesse aparecido do nada para atrapalhar noutro dia.

         — Ai de você se ousar continuar perturbando minha amiga! — Fazendo jus à sua altura superior e seu tom de voz intimidador para garotas metidas a agressoras, Maria Luísa só precisou colocar uma mão sobre o ombro direito da Jennifer e a puxar para mais perto para fazê-la dar um passo para trás.

         — Você não é tudo isso. Conheço sua fraqueza e como usá-la contra você — Jennifer ainda conseguiu ameaçar.

         — Engraçado, digo o mesmo a você.

         O clima ficou mais tenso. Eu sabia que Jennifer e Luísa já se conheciam há mais tempo do que eu, bem provável que discussões como essa já tivessem se repetido muitas outras vezes. Só que nessa hora eu percebi que as duas realmente partiriam uma pra cima da outra se ninguém interceptasse. E eu não queria ver as duas brigando na escola, apesar de desejar muito assistir à surra que minha inimiga levaria, mas Maria Luísa não podia sujar sua imagem logo no dia da matrícula. Precisava dela por perto.

         — O que está acontecendo aqui? — Saí da pequena camuflagem em que me encontrava minutos antes e me mostrei para as duas.

         — Ótimo! Agora a diversão ficará completa — comemorou Jennifer.

         — Cala a boca, Jennifer, ninguém aqui está a fim de continuar com essa discussão — disse muito irritada a Maria. — Que bom que você apareceu, Raquel, precisava mesmo falar contigo.

         — Ora, ora, as duas já vão sair pra namorar e me deixar falando sozinha? Que falta de educação!

         — Hoje você não está no topo da minha lista de preocupações — eu falei. — Nos dá um tempo.

         — Jamais, Raquel. Quando te vi no primeiro dia de aula fiquei tão feliz por ter de volta meu hobby de infernizar sua vida que não abrirei mão disso por nada.

         — É agora que eu deixo marcas permanentes dessa idiota! — Tive que segurar Maria Luísa para evitar a brigar e mais atenção para onde estávamos.

         — Luísa, a gente deve ir — falei com o pouco de tranquilidade que me sobrava. — Eu passei mal nessa manhã, pedi autorização para sair mais cedo. Vem comigo?

         Ao me escutar dizer que passei mal, seu rosto se virou para o meu com pressa a fim de avaliar se eu estava bem. Isso fez Maria Luísa desistir de partir pra cima da Jennifer e se atentar exclusivamente a mim.

         — Deveria ter dito isso antes. Vamos pra casa.

         Atravessamos o portão sem olhar para trás, como se Jennifer Jinks não existisse e não fosse importante. Bem, a existência irritante daquela garota era impossível de negar, mas a sua importância naquele dia não era nada perto da que eu deveria dar para meus maiores problemas. E um deles estava bem ao meu lado: Maria Luísa. Como contaria as suspeitas da Camila?

         E ainda tinha minha tia e a Giovanna. Eu já era um grande peso na minha nova família, minha suposta gravidez faria desmoronar de vez a instabilidade que um dia tivemos. Era nesses momentos principalmente que eu voltava a cogitar a morte. Só que eu não podia mais me concentrar por muito tempo em pensamentos suicidas. Isso só atrasaria meu tratamento e me afundaria cada vez na depressão.

         Eu queria melhorar, mas como, se a cada passo parecia que as Parcas estavam tecendo minha vida dentro de uma casa de horrores tendo uma surpresa desagradável a cada curva?

         — Está me ouvindo, Quel? — Parecia que Maria estava falando comigo.

         — Desculpa, estava absorta.

         — O que aconteceu com você? Passou mal por quê? Estou preocupada.

         — Não precisa ficar assim. Me sinto melhor agora. Não quero falar sobre isso.

         E eu realmente não queria, apressei o passo e caminhei a frente apenas escutando os passos de Maria Luísa atrás de mim. Me sentia péssima por estar optando pela via mais difícil: esconder a verdade da minha melhora amiga e da minha família; entretanto, no fundo, eu sentia que isso era o certo a se fazer.

         Percebendo que eu não estava muito para conversa, Maria Luísa não se dirigiu a mim até chegarmos na minha casa. Elizabeth e Gio estariam lá mesmo ainda cedo, ficariam para o almoço já que minha tia passaria a tarde e a noite fora trabalhando e minha prima havia retornado às aulas da faculdade.

         Aquele poderia ser o melhor dia da minha vida. Aquela quarta-feira tinha tudo para ser perfeita. Eu acordei até de bom astral, Luísa me acompanhou, se matriculou na mesma escola em que eu estudava e, mais tarde, após o maravilhoso almoço que nos esperava — o qual eu, por falta de disposição e fome, mal provei —, disse as palavras que eu mais estava esperando escutar desde quando se mudou:

         — Eu andei pensando desde quando vim pra cá e vocês me fizeram o convite então... Bem, eu cheguei à conclusão de que me faria muito bem ficar constantemente perto da Raquel e ajudaria a não me sentir sozinha e sem família se eu aceitasse morar com vocês.

         Mesmo com minhas preocupações rondando minha cabeça, consegui sorrir de felicidade pela notícia. Agora, oficialmente, eu tinha a companheira de quarto mais agradável da Terra. Só não manifestei isso audivelmente porque Giovanna poderia ficar com ciúmes.

         A partir daquela hora eu poderia ter chamado Maria para meu quarto, colocado os papos em dia, descansado um pouco, treinado um pouco com Blackjack, minha bicicleta, e em seguida poderíamos ter ido à praça tomar um sorvete e respirar mais ar puro.

         Eu poderá fazer tantas coisas... inclusive chorar para ver se o derramamento de lágrimas levava para bem longe de mim esse aperto no peito por não ter coragem de conversar com ninguém e esclarecer minha preocupação de maior intensidade atualmente.

         Não tinha mais saída, eu não tinha mais como desconsiderar meus pensamentos. Afinal, estava ou não grávida? O pior era que tudo indicava que sim. O pior era que minhas condições para conceder esse filho eram as piores possíveis. Eu sabia muito bem quem era o pai.

         Depois do almoço deixei Maria Luísa assistindo televisão na sala com a desculpa de que iria tomar banho.

         Fui para o meu quarto, deixei minhas roupas pelo caminho e entrei no banheiro com a finalidade de tomar um banho gelado bem demorado. Quem sabe a água não levasse pelo ralo tudo de ruim que me rondava?

         Enquanto tomava banho, minhas mãos muito trêmulas tocavam minha barriga na região do ventre. Não posso estar grávida. Não posso!, era só o que eu pensava. Meu lado super insano e até comediante pensou se essa não seria a melhor desculpa para eu ir até a cidade onde morava cerca de um mês atrás, procurar Elisa e dizer: “Ei, quanto tempo! Olha só, tenho novidades, tô grávida de você!”

         Mas a questão era que “gay não reproduz” ah, hahaha! Talvez eu pudesse repetir essa maldita piada quatrocentos e oitenta e sete vezes na minha cabeça para ver se esquecia as palavras da Camila.

         Raquel, você por acaso está grávida?

         Eu queria ter dito: não, lésbicas não ficam grávidas quando transam com outras mulheres. Mas minha consciência complementaria: a não ser quando são abusadas sexualmente pelo pai.

         Maldita realidade.

         E eu ainda não chorava. Fechava os olhos, recebia aquelas imagens terríveis da noite em que um pênis penetrou em mim contra minha vontade, a noite que antecedeu minha primeira tentativa de suicídio.

         O que me dava mais raiva/nojo/tristeza era imaginar que, para eu estar esperando um filho da pessoa que me colocou no mundo, meu pai deveria ter ejaculado dentro de mim. E pensar nisso era extremamente horrível, tanto que me fez vomitar no banheiro duas vezes. Eu não conseguia tirar da minha cabeça a ideia de o homem que deveria me amar mais que tudo, cuidar de mim e me proteger havia me violado e me deixado uma marca eterna.

         Eu estava grávida? Não sabia, mas infelizmente muita coisa indicava que sim. E meu pai estava na prisão pagando pelo abuso, entretanto nem a pior pena do mundo reverteria minha situação.

         Nada mesmo. Até porque eu não pensava em abortar. Isso não. Deveria doer muito, deixar marcas muito maiores, marcas físicas e psicológicas. Pensar em aborto seria quase como pensar em tentar me matar outra vez. Não tinha estabilidade para isso.

         Entretanto, eu teria esse filho? Passaria nove nesses carregando uma criança que foi se formar em mim sem planejamento para depois parir e fazer o quê? Dar pra alguém? Colocar num orfanato? Criar?

         Caramba, tudo isso era muita tortura. Eu não sabia se seria capaz de suportar. Nem se seria capaz de contar para alguém.

         Foi então que eu me toquei que estava perdida de verdade. Nada reverteria minha situação. Contudo, meu inferno estava somente começando. Ainda era duas e meia da tarde quando saí do banheiro após tomar banho e limpar a sujeira que havia feito ao vomitar até nada mais restar no meu estômago.

         Não estava chorando. Nem as mãos suando. Nem o coração apertando. Nem a mente anuviando, me deixando confusa e com os olhos embaraçados. Eu estava até tranquila. Já disse que isso era um péssimo sinal?

         Com certeza meu cérebro estava absorvendo todo o impacto da situação para jogá-lo contra mim no final do dia me privando de uma boa noite de sono e de vontade de viver.

         Me restou somente suspirar e rezar muito para meus enjoos e o atraso da minha menstruação serem apenas coincidência e eu estar com o útero livre de qualquer ser se desenvolvendo dentro de mim.

         Escolhi qualquer pijama no guarda-roupa e me joguei na cama sentindo meu corpo quase que anestesiado pelas minhas palpitações aceleradas. Eu não chorei mesmo com meu coração começando a bater desenfreadamente. Eu simplesmente peguei no sono.

 

—#-

         O que me acordou no final da tarde foi o som de vídeo-chamada no computador. Ué, vídeo-chamada? Quem seria e por que me procuraria pela webcan?

         Ainda sonolenta, me levantei já planejando somente em rejeitar a chamada. Mas não fiz isso porque a pessoa que queria falar comigo era ninguém mais ninguém menos que Elisa Albuquerque.

         Rapidamente dei enter para atender. Esfreguei os olhos para acordar de vez e me preparar para mais um tombo do dia. Elisa me chamando pela webcan a essa hora? Falando nisso, que horas eram? Por quanto tempo eu dormi? Maria Luísa ainda estava em casa?

         Não tive tempo de lavar o rosto e ficar com uma cara mais apresentável, em segundos vi Elisa na tela do computador. Meu coração deu um salto. Era ela mesmo!

         — Boa tarde, Raquel — sua voz estava tímida. Eu não consegui responder de imediato, fazia tanto tempo que não a escutava, que não a via que precisava de um minuto para me recuperar do choque inicial.

         Seu cabelo não havia crescido, sua feição era a mesma, só havia uma coisa de diferente: seu olhar. Era o mesmo que eu via em mim sempre ao acordar. Era um olhar de quem estava há dias sem ter uma noite de sono decente e regada pelas lágrimas.

         Estava bem claro nos seus olhos, Elisa andou chorando. Seria por mim?

         — O-oi, Elisa, quanto tempo — consegui falar.

         — Não quero ocupar muito seu tempo, só precisava falar com você uma última vez. Para garantir que está bem.

         ...falar com você uma última vez.

         A dor era perceptível na sua voz. Estaria ela sofrendo tanto quanto eu com a nossa separação?

         — Essa não precisa ser a última vez — me apressei em dizer. — Sabe que eu não vou ficar bem se me abandonar para sempre.

         — Nunca passou pela minha cabeça que eu precisaria fazer isso, mas sinto muito pelas coisas terem tomado esse rumo. — Desviou os olhos da câmera e vi que estavam vermelhos. Ela iria chorar. Até Elisa estava chorando nesse dia, menos eu.

         — Para, Elisa, nada de despedidas. A gente pode e deve resolver as coisas de uma maneira mais simples! — Eu já sentia minha garganta fechando. Lágrimas se acumularam nos meus olhos.

         — Não, Quel. O amor não é simples. Ele não pode ser tratado como algo simplório, por isso eu acho melhor a gente se afastar de vez para evitar sofrimentos de ambas as partes.

         — Acha mesmo que isso vai dar certo! — comecei a gritar. — Olha pra você, tá até chorando! Eu não vou aceitar isso. O que eu fui pra você? Provavelmente pouca coisa, não é, pra você estar me dando um fora definitivo pela internet.

         — Raquel, por favor, não deixa tudo isso mais difícil pra mim.

         — E pra mim? Você também não pode facilitar as coisas?

         — Desde o início você já deveria ter sacado que nunca iríamos dar certo. Sinto muito. — Enxugou uma lágrima do rosto. — Adeus.

         Eu não tive tempo de contestar ou dar tchau, a tela do computador escureceu e o aviso de fim de conversa ficou piscando no centro. O que eu mais queria era poder bater naquela máquina até o rosto de Elisa voltar a aparecer, mas sabia que isso não iria acontecer.

         Já era. Foi o nosso fim. O fim mais tosco da história dos dramas sapatônicos da Terra.

         E, quando eu pensei que meu dia não poderia ficar pior, escutei o som de estilhaço de vidro atrás de mim. Me virei com o susto e encarei Maria Luísa muito pálida atrás de mim, com a boa entreaberta e um copo que antes estava cheio de suco de laranja agora despedaçado no chão.

         Demorei poucos segundos para compreender a situação. Maria havia subido para me levar um suco no quarto e acabou se deparando comigo conversando com a ex-orientadora. A curiosidade falou mais alto e agora ela havia descoberto tudo da pior maneira.

         — Então era ela... — falou ainda atônita. — Eu sabia que você tinha alguém especial por quem esperar, sabia que seu coração pertencia a outra, mas... a Elisa? Não acredito, Raquel, você é apaixonada pela nossa orientadora?

         Se o tom de voz da minha amiga fosse de raiva ou desgosto, eu teria como ficar com raiva, entretanto, com seu tom melancólico e cheio de decepção me senti mal por ter feito mais essa burrada de esconder meu passado com a Elisa — sim, agora era passado.

         — Calma, Maria Luísa, a gente pode conversar e esclarecer tudo.

         — Sim, podemos e devemos. Raquel, eu nunca que havia imaginado que...

         Maria Luísa não sabia onde se enfiar depois dessa. Eu também não saberia no lugar dela.

         — Primeiro se senta, eu vou te contar tudo. — Manipulava minha voz para transmitir tranquilidade e iniciei a história do ponto de origem.

         Eu havia acabado de receber o pior adeus da minha vida, as emoções estavam a flor da pele, entretanto eu deveria controlar tudo isso para dar a impressão de que estava tudo bem. Eu sabia o quanto foi intenso tudo o que eu vivi com a Elisa, mas não podia transmitir tudo isso para a Maria Luísa, somente pioraria as coisas. Agora ela morava comigo, era meu dever fazer de tudo para estarmos sempre de bem.

         Só que o rosto abatido da minha amiga e os olhos vermelhos ameaçando chorar indicavam que eu havia falhado ao extremo dessa vez. Eu contava com aperto no coração as desventuras e momentos especiais que tive com Elisa como se tivesse contando sobre o dia que deixei o ovo queimar na frigideira. Não importava o quanto eu disfarçasse, o quando diminuísse a significância daquele relacionamento, Maria Luísa não era idiota, ela percebia minhas mais profundas emoções que eu tentava inutilmente esconder.

         Foi a pior conversa da minha vida. Teria doído muito menos se Maria tivesse explodido, gritado, me xingado, mas não, ela só baixou a cabeça e chorou um pouco. Pareceu não acreditar quando contei dos mais íntimos momentos que tive com a orientadora, que eu a amava muito e estava sofrendo com a distância.

         Me perguntei para quem estava sendo a maior tortura, para mim ou para Maria Luísa. No fim, ela somente sussurrou antes de sair do agora nosso quarto:

         — Talvez tenha sido uma péssima ideia escolher ficar perto de você.

         Se já não bastasse ter que conviver com a atual suspeita de gravidez, a despedida dolorosa da Elisa, agora eu tinha minha melhor amiga bastante decepcionada comigo. Talvez esse fosse o momento de criar um canal no YouTube sobre tutoriais de como se ferrar com as pessoas e tomar no cu.

 

         —#-

POV Travesseiro

         Lá vinha ela outra vez. Com o semblante de todas noites, demonstrando cansaço mesmo não tendo feito nenhum grandessíssimo esforço durante o dia. Mesmo suas manhãs sendo rotineiras e as tardes no mesmo ritmo. Entretanto eu sabia, mais do que qualquer um, que energia física não era o que estava em maior baixa naquela garota.

         Não haveria maratona desgastante o suficiente para bater o desgaste da mente da Raquel. Eu sentia seu sofrimento todas as vezes em que ela se deitava na cama, que suas lágrimas começavam a rolar e me molhar. Qualquer outro no meu lugar provavelmente ficaria muito enraivecido, poderia até pensar “caramba, eu fui feito para servir de suporte na hora do sono, não pra ser o confidente de tantas noites mal dormidas!”

         Mas eu não me sentia assim, irritado. Queria muito fazer algo por ela. É horrível ver alguém sofrer em cima de você e não poder fazer nada para confortar. E naquela noite não seria diferente. Havia contado raríssimas vezes em que a vi se deitar e não demorar para adormecer, isso com certeza deixava Raquel mal o dia seguinte inteiro. Uma noite ruim geralmente proporciona um dia ruim e um dia ruim se vinga na noite.

         Eu não a escutava, ela não conversava comigo e foram poucas as vezes em que a vi falar sobre si dentro do quarto para eu então ter a oportunidade de escutá-la. Nessa tarde eu a escutei e foi uma história que me deixou bem... surpreso, digamos assim. Travesseiros costumam vivenciar momentos muito marcantes na vida de seus donos, tudo o que ocorre no quarto não escapa dos seus olhos. Como eu era ainda novo, comprado para a mudança, não havia visto ainda Raquel com nenhuma mulher e escutar seu relato para a melhor amiga quase me fez pular daquela cama e lhe dar um abraço.

         Tudo o que eu a via fazer era dormir, chorar e trocar de roupa. Será que Raquel pensava em mim tanto quanto eu nela? Quando ela sai para a escola eu fico na expectativa esperando-a retornar, jogar a mochila num canto do quarto e se jogar na cama após o banho.

         Queria poder falar para tranquilizá-la nesse momento. Mas era somente um objeto.

         Começou com uns pequenos soluços. Raquel se deitou na cama uma hora após Maria Luísa, a nova colega de quarto que eu ainda estava tentando me acostumar. Provavelmente havia esperado a outra menina dormir antes de também se deitar, ela não gostava de chorar na frente das outras pessoas.

         Em menos de dois minutos ela se sentou, cruzou as pernas, cobriu a boca com as mãos para evitar fazer mais barulho e somente se permitiu chorar pelos dez minutos seguintes.

         Geralmente essa era a fase inicial das suas crises. Quando se virou para mim e me tocou, eu sabia o que estava por vir e não a culpava por isso. Era a segunda fase. Seu primeiro soco foi com o punho direito. Os seguintes foram revezamentos de direita-esquerda. Eu sabia que Raquel não estava com raiva de mim, ela mal sabia que eu a observava nessas horas. Suas pancadas faziam eu sentir no meu próprio tecido sua amargura, sua luta pessoal, seu desespero. Ela não queria estar ali.

         Ela não queria dormir mais nessa noite. Se fosse para fechar os olhos, que fosse para sempre; foi isso que ela sussurrou uma vez sozinha. Infelizmente eu não podia dizer que tudo ficaria bem porque eu mesmo não sabia se ficaria e não conseguia falar.

         Partindo para a terceira fase do seu sofrimento noturno, se deitou de bruços com o rosto sobre mim. Ainda chorando, suas lágrimas quentes me tocavam quase me fazendo chorar também. Maria Luísa provavelmente não a escutava, mas eu recebia em primeira mão todos os seus ruídos de dor emocional, todo o choro que não pararia tão cedo.

         E eu, estático, torcia para algum dia o conforto que eu oferecia — conforme indicava minha etiqueta — fosse o suficiente para resgatar Raquel do poço de tristeza onde ela se encontrava.

 

—#-

POV Maria Luísa

         Fingir que nada estava acontecendo até pode ser fácil quando a pessoa que está chorando bem ao seu lado não é uma das que você mais ama no mundo. Geralmente não sou de ignorar o sofrimento alheio, quase sempre me compadeço de quem está passando por uma situação difícil e procuro ajudar no que está ao meu alcance. Mas naquela noite...

         O que eu mais queria era pegar meu travesseiro e descer para a sala a fim de dormir sem escutar o choro da garota que eu gostava. Queria poder ignorar a crise que ela estava tendo como forma de vingança por ter escondido de mim tanta coisa que teve com Elisa Albuquerque.

         Mas eu não era uma pessoa assim. Mais forte que a mágoa que eu estava sentindo era o amor que transbordava no meu coração. Mais forte que meu desejo de fugir dali e buscar minha felicidade ao lado de uma garota instável, “normal” segundo as normas da sociedade, foi meu impulso de chamá-la pelo nome. De sentir-me também a voz embargar por querer chorar ao mesmo tempo.

         Raquel Oliveira poderia ser tudo o que a taxavam de ruim, poderia ter todos os problemas do universo e condenada por todos eles, mas mesmo assim eu a queria por perto. Eu não queria uma garota comum, eu não queria um romancezinho fofo e colorido. Eu queria sentir com intensidade tudo o que aquela garota poderia sentir.

         Queria participar da sua tempestade e não me abrigar num beco distante. Eu queria poder ser a nuvem passageira e ela a carregada que alaga cidades. Se eu tivesse oportunidade, não escolheria mudar nada na Raquel, a não ser, é claro, curá-la da depressão. Só que isso não dependia só de mim. Havia um conjunto de pessoas que eram responsáveis por aquela vida e eu era uma dessas pessoas.

         A vida da Raquel também dependia de mim e não me perdoaria se algum dia eu a perdesse. Seria minha culpa.

         Engoli o orgulho, a mágoa, e procurei esquecer por um tempo as palavras que me disse mais cedo.

         — Raquel — a chamei outra vez. Ela estava com o rosto enterrado no travesseiro, mas mesmo assim não conseguia abafar seu choro. — Raquel, tudo bem? — perguntei como uma idiota. Claro que nada estava bem.

         Coloquei os pés trêmulos para fora da cama e caminhei devagar até sua cama. Tinha medo de fazer alguma coisa errada e deixar tudo ainda pior. Nunca havia passado por situação semelhante. Já havia visto Raquel chorar, sido sua confidente em momentos de desespero, mas o que se passava naquela noite era diferente.

         Ela estava tendo a infeliz crise sobre a qual já havia me falado umas vezes. E o que eu poderia fazer? O que eu poderia dizer? Deveria chamar alguém? Elizabeth, sua tia, era médica, talvez pudesse ajudar melhor do que eu... Mas não estava na casa nessa noite. Pensei em acordar Giovanna, essa com certeza deveria saber lidar com a prima de uma maneira  melhor, mas Gio teve um dia exaustivo na faculdade e agora eu era a companheira de quarto. Eu decidi morar com a Raquel e sabia que aquela não seria a única vez que a veria passar por uma crise de ansiedade ou ataque de pânico — nunca conseguia entender a diferença.

         Com cuidado me sentei na cama da Raquel e a sacudi para perceber minha presença. Ela finalmente largou o travesseiro e me olhou com os olhos inchados e vermelhos.

         — Você... — iniciou. — O que quer comigo?

         Meu coração quase se despedaçou ao escutá-la falar com visível sofrimento.

         — Raquel... Olha, para de chorar, por favor. Tá tudo bem, eu vou ficar aqui contigo.

         — Você não vai! — ela gritou, isso me assustou. — Você me odeia assim como todos eles!

         — Não, não te odeio, não fala isso.

         — Não há... — não conseguiu terminar sua frase de imediato porque as lágrimas a impediram. — N-não há ninguém nesse mundo capaz de sentir compaixão por mim e entender que eu nunca, nunca fiz de propósito! NUNCA!

         Me segurei para não sair correndo daquele quarto e chamar os bombeiros, a cruz vermelha, sei lá.

         — Tá, entendi. Raquel, olha pra mim, tá conseguindo me escutar? — eu sinceramente não sabia o que falar ou fazer naquele momento, só sentia que estava piorando a situação.

         — Todos eles, todos! — Raquel abraçou os joelhos e ficou em posição fetal. — Eu não consigo mais parar. Me perdoa, Maria Luísa. — Reprimiu um soluço e ergueu um pouco a cabeça somente para poder me enxergar por dois segundos. — Eu não vou mais aguentar se isso persistir. Me desculpa.

         — Eu já disse que tô aqui com você. Seja lá o que for isso, vai passar.

         Me aproximei mais para tocar seu braço e não sabia se eram meus dedos tremendo por eu estar nervosa ou se era a Raquel. Talvez nós duas.

         — Nunca passa. É uma dor eterna, Luísa, você não tá entendendo!

         Doeria bem menos receber facadas no coração porque suas palavras embargadas me atingiam com dor maior.

         — O que eu posso fazer? — perguntei já desesperada.

         — Deixa eu sair desse quarto e dar um fim nisso tudo.

         Minha respiração parou no momento em que Raquel fez menção de sair da cama.

         — Nada disso! — Eu a impedi. — Você é muito jovem pra decidir quando deve ser seu fim ou não. Jamais vou permitir.

         — Maria Luísa, já disse que você não tá entendendo. — Ainda sentada na cama, com os pés para fora, enxugou as constantes lágrimas e puxou o ar pela boca inúmeras vezes. Seus lábios sangravam um pouco, Raquel devia tê-los mordido para evitar que seus soluços escapassem e me acordassem. Eu sabia que ela odiava acordar as pessoas quando passava mal de noite.

         — O que eu preciso entender? — perguntei inocentemente.

         — Que eu não tô suportando mais já faz muito tempo. — Eu queria pedir para ela parar de falar. Queria poder acabar com essa tortura para nós duas, suas palavras faziam meu coração apertar porque eu sabia que elas expressavam exatamente o que Raquel sentia naquela hora. — Você acha que eu tentei me matar duas vezes por quê? Eu não tô mais conseguindo. — Encarou o chão. — Sou uma covarde, não é? Sempre que encontro um obstáculo eu só penso em morrer, não me vem à mente nenhuma outra resolução mais sensata. Na verdade a morte parece a solução pra tudo nessa vida. Sinto muito, Luísa, eu não queria te fazer sofrer.

         Meu lábio inferior tremeu. Eu também passei a encarar o chão. Meu coração acelerou tanto que perdi o fôlego. Se Raquel continuasse a me falar essas coisas, seria eu a iniciar uma crise naquele quarto.

         — Não faz nada disso que você tá pensando.

         — Eu não acrescento em nada aqui nessa família. — Voltou a chorar com a intensidade de antes. — Fui a pior decepção dos meus pais, nunca soube me defender na escola, fiz sofrer as pessoas mais importantes da minha vida e te incluo nessa lista. Meu pai não teve dó de mim e deu a tacada final de toda dor e sofrimento. E, já não bastando isso, agora eu... — Se conteve e não concluiu o raciocínio. — Eu só sei que de nada mais me adianta continuar vivendo. Dói demais.

         — Não fala isso, Raquel, você é muito importante pra gente. Não imagina o sofrimento que eu vou sentir se você morrer.

         — Depois passa. Sempre passa. Em poucas semanas você nem vai mais se lembrar da minha existência curta nessa Terra.

         — Para de falar isso. — Senti uma lágrima descer pelo meu rosto.

         — Eu vou me matar mais cedo ou mais tarde, a realidade é que você nem ninguém vão poder impedir quando a hora chegar. Já disse que sinto muito, Maria Luísa, eu te amo muito, mas não me sinto mais capaz de continuar viva.

         Como se estivesse se dando conta das próprias palavras e como elas a descreviam verdadeiramente naquela noite, puxou o travesseiro para si e o abraçou somente para tentar evitar soluçar, mas, como sempre, não dava certo. Retirei o objeto das suas mãos e não me importei com o som do seu choro. Ele deveria sair, eu não deveria contê-lo.

         — Maria Luísa... — voltou a falar me olhando nos olhos. — Sou uma pessoa horrível pra você, não é?

         O estopim foi esse. Fui muito imbecil ao julgar que estava realmente tendo uma conversa com a Raquel de verdade. A menina que estava me falando todas aquelas coisas, que estava libertando suas lágrimas ainda era a Raquel sob efeito da crise. Sua mente clarearia após tudo isso passar e estava nas minhas mãos a chance de salvá-la nessa noite.

         — Cala a boca! — falei tão alto que me assustei.  — Cala a boca, Quel! — Eu comecei a chorar. Por um instante senti o que provavelmente Raquel deveria estar sentindo. Uma dor horrível no coração, a boca seca, as mãos trêmulas e a mente embaralhada. — Você nunca foi e nunca será uma pessoa horrível pra mim, entendeu? Eu te amo.

         Como resposta: mais lágrimas.

         Com a visão anuviada pelo choro, tentei focá-la sob meu olhar. Era uma garota tão bonita... Mesmo com o rosto molhado e o cabelo bagunçado, essa era a pessoa que eu queria encontrar ao meu lado todos os dias ao me acordar. Eu precisava cuidar da Raquel.

         Fiz o que deveria ter feito logo ao sair da minha cama: a abracei com ternura. A puxei para mim com tanto desejo de apaziguar seu sofrimento que nem havia percebido o quanto eu também estava precisando daquele carinho.

         — Vai ficar tudo bem com você — eu disse já contendo minhas lágrimas. — Eu te amo. Amo muito e todo esse amor que sinto por você vai te tirar desse poço de solidão. Eu prometo que vou ajudar você.

         — D-desculpa por isso. Me desculpa — ela somente murmurava.

         Fechei os olhos e pelos minutos seguintes a única coisa que pude fazer foi abraçá-la e lhe dirigir palavras afetuosas até sentir seu corpo parar de tremer, nossa respiração se normalizar e os riscos de Raquel sair correndo daquele quarto em busca de um meio para seu suicídio diminuírem.

         Quando tudo pareceu estar voltando ao normal, já era mais de duas da manhã. Afastei-me um pouco de Raquel e a beijei no rosto.

         — Dorme agora, você precisa — disse ao seu ouvido. — Qualquer coisa eu estou aqui do seu lado.

         E realmente fiquei sentado ao seu lado até Raquel se acomodar na cama e fechar os olhos. O início de madrugada foi intenso, sentia o cansaço também tomar conta do meu corpo. Certifiquei-me de que Raquel estava dormindo de verdade e voltei para minha cama.

         Limpei os resquícios de lágrimas com o lençol e mergulhei nos sonhos. Neles eu também não pude ter Raquel ao meu lado com a qualidade de vida que tanto desejava vê-la.

         Não só ela, eu também me sentia perdida.


Notas Finais


Essas notas sim serão importantes e vocês devem ler.
Primeiro: demorei um pouco mais para postar dessa vez porque eu queria muito matar a Raquel e tinha motivos mais que suficientes para isso. E como sei que se eu matasse a protagonista eu seria caçada por todo o Brasil, decidi respirar um pouco, colocar a cabeça no lugar e escrever algo menos dramático — como se eu conseguisse...
Como não queria escrever mais drama como sempre, utilizei a narração sob ponto de vista de um travesseiro porque sim! E a visão da Maria Luísa foi importante pra poder não só enxergar o lado de quem sofre, mas de quem observa o sofrimento.
Segundo: é o seguinte, o próximo capítulo só vai sair em setembro, lá pelo dia 10 provavelmente. O motivo disso é porque eu estarei envolvida em projetos pessoais até o final de agosto e minhas férias se iniciarão no dia 25 e a partir dessa data eu darei uma super revisada nessa fanfic. Vou reler todos os capítulos anteriores, melhorá-los e repostá-los. Vou também fazer uma nova capa e tô pensando muito em uma espécie de trailer para a fanfic, mas é só algo a se pensar.
Também tem uma surpresinha que eu tô preparando pra vocês; uma não, no mínimo umas três! E preciso de tempo para isso, por esses motivos não me matem por eu ficar cerca de um mês sem atualizar, tô avisando desde já que é pra não se desesperarem tanto pensando que abandonei.
Terceiro: o mês de setembro é muito importante para mim pelo fato de ser setembro amarelo. Pra quem não sabe, nesse mês é intitulado de “mês de prevenção ao suicídio” e eu geralmente me envolvo de maneira indireta na causa que acontece em todo o país. Por isso eu ficarei afastada no começo de setembro, tenho uns planos para o mês esse ano.
Ano passado eu não pude fazer muita coisa porque me abalo com muita facilidade e logo no início de setembro eu li uma infeliz postagem no facebook de um idiota que dizia: “não sei por que estão se comovendo tanto se disponibilizando no chat pra falar com as pessoas, isso não adianta em nada.”, além de tantas outras do tipo “setembro amarelo é desnecessário”, acompanhadas da clássica e ignorante frase “quem quer se matar se mata mesmo, não tem nada que possa fazer”.
Como eu apoio muito a causa do setembro amarelo, nesse mês eu provavelmente participarei muito de palestras ou farei minha parte pela internet mesmo seja por blog, vídeo ou até escrevendo. Desde já eu também convido vocês a conhecerem o movimento caso ainda não conheça. É bem legal e sim, salva muita gente!
Quarto e último tópico, mas não menos importante: tô participando de um concurso do Sweek — pela centésima vez — e eu gostaria muito que vocês me ajudassem (falo como se fosse a maior influenciadora digital da década). Há o prêmio de melhor história em português, o qual eu estou muito confiante, mas há também o de maior popularidade, que premia a história com mais seguidores no site do Sweek.
Se puderem, pelo amor do queijo das coxinhas, acessem o link abaixo, que é o da minha história, criem uma conta e me ajudem a ganhar esse concurso porque vale uma câmera e eu preciso muito de uma. E, claro, criem uma conta pros pais de vocês, primos, irmãos, crushs, objetos da casa e etc... Preciso de no mínimo 300 seguidores.
Bem, é isso. Até setembro se der tudo certo. Se quiserem me xingar podem ficar à vontade para enviar mensagem no privado.
Tchau.
P.S: em casos extremos de desejo de desistência da vida, não sofra sozinho, disque 141, a CVV sempre está com disposição para te ajudar 24 horas.

https://sweek.com/story/BgQBDAlsCAUFBwgJAwEFBw==


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