História A deusa da primavera - Capítulo 5


Escrita por: ~

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Categorias Mitologia Grega
Tags Deméter, Deuses, Hades, Perséfone, Troca
Exibições 10
Palavras 3.408
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Aventura, Drama (Tragédia), Famí­lia, Fantasia, Ficção, Hentai, Romance e Novela, Saga
Avisos: Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir culturas, crenças, tradições ou costumes.

Capítulo 5 - Capitulo 4


Lina olhou ao redor do balcão e acenou com a cabeça, satisfeita. Tinha reunido todos os ingredientes e utensílios de cozinha necessários para o preparo da massa.
E ainda havia encontrado uma pequena vela verde que recendia vagamente a pinho. Era uma relíquia do Natal anterior, e ela tivera que revirar duas caixas de enfeites antes de encontrá-la.
Abriu o livro e o colocou sobre o balcão, ao lado de sua tigela de aço inoxidável favorita.
Então, começou a ler.
Em primeiro lugar, acenda a vela verde e concentre-se em Deméter, Mãe da Colheita.
Sendo uma chef consumada, Lina seguiu as instruções com precisão.
Acendeu a vela e permitiu que os pensamentos fluíssem para a deusa da Colheita, divindade esquecida havia tanto tempo, perguntando-se quantos rituais culinários lindos e excêntricos não teriam sido esquecidos com ela.
Continuou a ler:
Misture o fermento na água morna de uma tigela pequena e deixe essa mistura repousar
por cerca de dez minutos, até ficar cremosa.
Ela suspirou, sentindo-se relaxada e feliz conforme suas mãos experientes se moviam.
Enquanto a levedura descansa, concentre-se e respire fundo três vezes, de modo a
realizar uma limpeza. Imagine a energia sendo filtrada pelo centro do seu corpo,
percorrendo sua espinha até a cabeça, e depois se derramando como numa cachoeira ao
redor, para ser reabsorvida em seu âmago novamente. Quando se sentir revigorada, poderá
começar a Invocação de Deméter.
As instruções a lembraram um pouco de uma aula de relaxamento new age que havia tido uma vez. Sorrindo, Lina acertou o timer da cozinha para dez minutos antes de dar início às etapas do exercício de concentração.
Tinha de admitir que, em pouco tempo, se não estava se sentindo, assim, revigorada, ao menos se sentia bem mais desperta e atenta.
Voltou para a receita.
Quando estiver pronta, leia o seguinte em voz alta: Ó graciosa e magnífica Deméter,
deusa de tudo o que é cultivado e colhido… Eu clamo por parte da tua presença, para que
enriqueças o presente generoso que tão abundantemente já forneceste. Peço também que
sopres a tua magia nesta cozinha… ”
O timer soou e Lina de um pulo, surpresa pelos dez minutos terem passado tão depressa.
Misture a farinha e o sal em uma tigela grande enquanto invoca: “Vem, Deméter, eu te
chamo com este sal e farinha, riquezas da tua terra!”
O ritmo da invocação combinava harmoniosamente com a receita, e Lina encontrou-se ansiosa por ler as linhas seguintes.
Faça um buraco no centro da farinha; em seguida despeje o fermento dissolvido, 1 xícara
mais 3/4 de água, 1 colher de sopa de óleo e a banha. Fale com a diva enquanto misturar a
farinha aos poucos no líquido e produzir uma massa leve da qual poderá fazer uma bola:
“Rogo-te, ó deusa da Colheita, e te dou boas-vindas aqui, no centro daquilo que tu
criaste.” Então amasse-a sobre uma superfície revestida com farinha até ficar macia, lisa e
maleável, de dez a quinze minutos, polvilhando com mais farinha conforme a necessidade.
À medida que a massa tomar forma, recite o seguinte a Deméter: “Que o poder seja
evocado, que me venha a energia… E que ele me una a ti, ó deusa da Colheita. Faz-me
maior e melhor. Dá-me força e concedei-me o domínio… ”
As mãos de Lina se moveram de modo ritmado enquanto ela espalhava a massa sobre abancada. Seus olhos se fecharam com as palavras, as quais lhe vieram tão facilmente aos lábios como o movimento familiar às suas mãos.
— Ó, Deméter, minha irmã e guardiã, eu te dou graças. Que o meu chamado caia com leveza nos teus ouvidos, e possam tua sabedoria e força permanecer comigo, crescendo com tanta perfeição quanto os grãos maduros para a colheita…
Lina continuou a amassar a mistura, os pensamentos correndo soltos. Que intrigante era casar a magia de uma deusa antiga com a perfeição de uma receita que fora passada de mãe para filha e preservada por gerações! Era uma ideia tão maravilhosa e natural instar a força de uma diva por meio da culinária.
Se aquilo funcionava de verdade, se uma deusa realmente ouvia ou não, isso era outra história. O fato era que se tratava de um lindo e poderoso ritual. Um ritual que, no mínimo, poderia ajudá-la a focar os pensamentos no que era positivo e lembrá-la de ter sempre um
momento para desfrutar a feminilidade da carreira que escolhera.
O perfume adocicado da vela de pinho mesclou-se ao da levedura e da farinha, e o aroma final era delicioso e inebriante.
De repente, alimentada pela estranha fragrância, Lina sentiu uma onda de sensações percorrerem o corpo. Por um momento, ficou tonta e desorientada, como se tivesse sido subitamente deslocada da cozinha e transportada, com massa e tudo, para o meio de uma
floresta de pinheiros.
Esfregou as costas da mão cheia de farinha na testa. Sentiu-a quente, porém seu próprio toque a recompôs, e a tontura se dissipou.
Tinha sido um dia difícil. Não devia estar surpresa por se sentir daquela maneira.
Moveu os ombros e fez a cabeça pender para a frente e para trás, fazendo com que seus músculos sobrecarregados pelo cansaço se alongassem e relaxassem. Com certeza dormiria bem naquela noite.
Olhou a conclusão da receita. Eram as mesmas instruções de costume: deveria colocá-la num tigela, cobri-la e esperar que crescesse por pelo menos oito horas.
Impaciente, correu os olhos pelo restante da receita a fim de completar o ritual.
Retire uma pequena porção da massa. Escolha um lugar especial, do lado de fora, onde
possa deixar sua oferenda. Respingue-a com vinho e apresente-a a Deméter, dizendo: “Ó,
deusa da Colheita abundante, da força, do poder e da sabedoria, eu te louvo, te venero e te
agradeço. Bendita sejas!”. Nota: É possível acrescentar um pedido pessoal ou outros
louvores antes da conclusão do ritual. Que chovam bênçãos sobre você, e que a fome nunca
lhe aflija!
Lina abriu um sorriso sardônico. A curva de seus quadris só lhe permitia sentir fome de vez em quando. Não que fosse gorda, corrigiu-se depressa. Era apenas… voluptuosa.
E ser assim não era exatamente agradável naqueles tempos.
Bufou. Jamais entenderia a obsessão da atual geração por aquelas mulheres desnutridas que morriam de fome ou então vomitavam qualquer coisa que ameaçasse lhes arredondar os corpos. Ela era toda suavidade e curvas, e preferia a si mesma dessa forma.
— Eu sou como uma deusa — falou com firmeza.
Sem mais hesitação, tirou um pequeno pedaço da massa recém preparada e o colocou de lado para remodelar e cobrir o resto. Já havia feito a invocação, portanto era justo que partisse direto para a conclusão. Afinal, uma boa cozinheira nunca deixava uma receita por completar.
Não levou muito tempo para arrumar sua já imaculada cozinha e carregar a máquina de lavar louças. Após secar as mãos, serviu-se de uma taça de vinho fresco e embrulhou o pequeno pedaço de massa em uma toalha de papel antes de sair do cômodo.
Equilibrando a taça e a massa em uma das mãos, abriu a porta do armário no corredor com a outra. Antes que vestisse o casaco, ouviu o ruído das patas de Edith no corredor azulejado.
Sorrindo, ela tirou a guia da buldogue de seu gancho.
— Não importa se está dormindo. Basta eu abrir a porta e você vem correndo, não é? — Riu, prendendo a guia na coleira da cadela.
A buldogue bocejou, depois fungou para ela.
— Eu sei que é tarde, mas tenho algo que preciso terminar e conheço o lugar perfeito para isso.
Longe de reclamar, Edith foi a primeira a alcançar a porta do apartamento. Tanto que Lina precisou fazer malabarismos para equilibrar o vinho sem derramá-lo.
— Calma, garota! — Ela guardou o pacotinho de massa no bolso da jaqueta e fechou a porta.
Era o início de março. A noite em Oklahoma encontrava-se excepcionalmente quente, e o ar parecia denso com a promessa da primavera.
Suspirando, Lina deixou que Edith a levasse para o centro do pátio bem conservado.
Uma sombra passou depressa por cima delas e chamou sua atenção. A lua cheia ia alta no céu: redonda, brilhante e da cor do chantilly.
Ela a fitou. Que tom de amarelo era aquele? Era tão diferente que emprestava aos arredores do condomínio estilo Tudor um brilho etéreo, lançando sombras meio sinistras sobre as sebes e as calçadas.
— Ah, faça-me um favor, Lina… Não pode estar vivendo um momento Senhora dos Anéis, pode? — admoestou a si mesma. Dolores estava certa. Estava indo demais ao IMAX babar pelo Aragorn… O ritual e o frenesi em preparar aquela massa tinham, obviamente, lhe subido à cabeça se começara a ver formas estranhas por seu bem cuidado condomínio.
— Preciso contar isso a Anton — murmurou para si mesma. — Quem sabe eu o convença a dividir aquele Xanax comigo?
Na realidade, agora que estava lá fora, e o livro de receitas e feitiços se encontrava devidamente empilhado com os outros volumes de culinária em sua sala, estava começando a sentir-se um pouco tola.
— Eu devia ter tomado mais vinho antes desta parte da receita — resmungou para Edith, que moveu as orelhas para trás, em sua direção, e bufou, antes de prosseguir, apressada, por sua trajetória familiar. — Ou talvez eu só esteja esgotada e precise ir para a cama.
Estavam chegando à sua parte favorita do complexo: a enorme fonte de mármore que ficava bem no meio do pátio. Ao longo de todo o ano, esta jorrava água de um impressionante gêiser, a qual caía em cascata por três níveis côncavos e delicados.
Na verdade, fora aquela fonte que a convencera a comprar o apartamento no condomínio.
Durante o verão, ela considerava aquela área coberta de pedregulhos e sombreada pelos velhos carvalhos ainda mais refrescante do que a piscina… e muito menos lotada. Nos meses de inverno, a fonte, assim como a piscina, era aquecida, e ela havia passado muitas das tardes frias de Oklahoma enrolada num cobertor, enquanto escutava a melodia suave da água caindo.
— É este o lugar perfeito e especial — falou para Edith Anne, que farejava um arbusto de azaleia. — Fique aí. Isto não vai demorar muito — completou, largando a coleira da buldogue.
Obediente, Edith plantou o largo traseiro no chão, depois pareceu reconsiderar e, com o suspiro típico dos cães, relaxou e se esticou no solo, observando a dona com olhos sonolentos.
O carvalho mais próximo era também o maior daquela área. Lina se aproximou cuidadosamente sob a luz amarelada do luar, cuidando para não tropeçar nos nós imbricados das raízes que tinham proliferado ao redor da base da árvore.De súbito, eles lhe pareceram ameaçadores, despertando nela imagens de tentáculos ganhando vida e tentando agarrá-la, e de serpentes se contorcendo.— Não seja ridícula — disse a si mesma, no tom que costumava reservar para os vendedores de perfumes genéricos, e o som de sua voz dissipou a perturbadora visão,devolvendo o carvalho à sua forma sólida e familiar.Lina tirou o pequeno pacote de massa do bolso e olhou ao redor. Nada se movia. Nem mesmo Edith Anne, que parara de observá-la e agora roncava baixinho.Ela se agachou e posicionou a bolinha de massa no vértice de duas raízes especialmente espessas que se encontravam na base da árvore.Olhou em volta de novo. Certa de que, exceto pela buldogue que roncava, ela se encontrava sozinha, mergulhou os dedos no copo de vinho e espirrou gotas vermelhas sobre a massa.Sentiu-se bem e sorriu. Parecia a coisa certa a fazer.Ainda sorrindo, molhou os dedos outra vez e, divertindo-se, espirrou o excelente ChiantiClassico em torno da base da árvore antiga.Rindo tal qual uma menina, continuou espalhando a bebida sobre as raízes retorcidas até ver a taça de cristal vazia. Em seguida, endireitou os ombros e limpou a garganta.— Eu gostaria de dizer algo antes de encerrar este respeitável ritual.Sorriu, mas tratou de se recompor, querendo parecer mais sóbria. Decerto não tinha a intenção de desrespeitar nada nem ninguém, mas rir ao final da invocação a uma deusa poderia ser considerado uma gafe.Começou seu discurso novamente:— Deméter! — Sua voz saiu com tal energia que o nome da divindade pareceu ecoar por todo o pátio.Edith se agitou e abriu os olhos, mas apenas ajeitou o corpanzil e continuou com seu cochilo.Lina engoliu em seco e suavizou a voz.— Meu nome é Carolina Francesca Santoro, e eu quero que saiba que gostei muito do seu ritual. Creio que a massa vai dar uma pizza excelente, e estou ansiosa por prová-la.Seu discurso de improviso lembrou-a do motivo pelo qual ela experimentara a receita, o que a deixou momentaneamente surpresa: já havia até se esquecido de seus problemas.As linhas em sua testa se aprofundaram e seus ombros caíram.— Espero que fique boa… Não. Eu espero mais: preciso que ela fique boa. Não posso perder a minha padaria. Ela é responsabilidade minha e muitas pessoas dependem de mim.Deméter, se estiver ouvindo, por favor, envie-me alguma ajuda! Em troca, eu vou… vou… —ela gaguejou e depois desabafou: — Droga, não tenho ideia do que poderia fazer por você. —Encolheu os ombros. — E peço desculpas por ficar praguejando assim, em inglês… É melhor eu dizer, de mulher para mulher, que eu realmente gostaria da sua ajuda e ficaria feliz em recompensá-la com o que eu puder.Satisfeita, fechou os olhos, visualizando as palavras finais do ritual.— Ó, deusa da Colheita abundante, da força, do poder e da sabedoria, eu te louvo, te venero e te agradeço. Bendita sejas!Às palavras “Bendita sejas”, Lina foi invadida por uma imensa sensação de libertação.Seus lábios se curvaram de leve. Era como se sua oração tivesse sido escutada e atendida.Logicamente, ela sabia que aquilo não era possível, mas acreditava no poder do pensamento positivo, em promessas de autorrealização, em feng shui. Abriu um sorriso. Acreditava no poder da magia dell’Itália.Respirou fundo e abriu os olhos, surpresa, quando um ar adocicado lhe preencheu os sentidos. Que cheiro era aquele?Tornou a encher os pulmões. Era maravilhoso!Farejando a brisa suave como um cervo, Lina foi rodeando o carvalho. E parou abruptamente. Em meio ao emaranhado de raízes, na metade do caminho ao redor da árvore,uma flor perfeita havia crescido. Seu caule era longo e espesso, da largura de uma mangueira de jardim, e se estendia mais de meio metro até se transformar em uma espécie de sino com bordas onduladas.— Nossa! Como você é bonita! Mas é muito cedo para um narciso silvestre. — Lina sacudiu a cabeça e, no mesmo instante, se corrigiu: — Quero dizer, para um narcissus florescer.Podia ouvir a avó repreendendo-a:Não chama ela pelo nome comum, bambina! Chama as bei fiora, as flores bonitas, pelo nome certo!Mas, qualquer que fosse a sua denominação, a planta era incomum por outras razões além de sua floração precoce.Maravilhada, Lina se agachou diante dela. A flor era de um amarelo claro e luminoso, como se um pedaço da lua tivesse caído na Terra e florescido naquela noite.E ela não se lembrava de, alguma vez, ter visto um narciso daquele tamanho. Se fechasse a mão em punho, conseguiria fazê-la caber dentro das pétalas.E que perfume! Lina se inclinou para a frente e o aspirou. Nenhuma das flores de sua avó cheirava como aquela. Que aroma tinha? Ele lhe parecia familiar, contudo ela não conseguia nomeá-lo.Respirou fundo outra vez. A fragrância fez seu coração bater mais depressa e o sangue correr mais rápido por seu corpo. Havia algo naquele perfume fantástico que despertava nela um desejo quase juvenil.De súbito, Lina se lembrou de seu primeiro beijo. Acontecera muitos anos antes, porém o beijo continha aquela mesma doçura.Suspirou. Era o aroma do que aconteceria se o luar e a inocência da primavera tivessem se unido para criar uma flor.Piscou, surpresa, e soprou pelo nariz, como Edith, sua buldogue, costumava fazer. Estava ficando poética e romântica agora? Que coisa mais bizarra. Aquilo não tinha mais nada a ver com ela. Muito menos aos quarenta e três anos de idade!Fora muito romântica, melosa e blá, blá, blá quanto ao amor, até que a vida, a experiência e os homens haviam curado sua ingenuidade.Lina estreitou os olhos para a flor. Romance? Por que estava pensando naquilo agora?Jurara esquecer aquela baboseira em seu quadragésimo aniversário.Pronto. Fim.E não lamentara sua decisão.Uma imagem de seu último namorado lhe veio à mente: cinquentão, empresário bem sucedido, divorciado duas vezes, quatro filhos problemáticos… dois de cada casamento.A melhor coisa que poderia dizer a respeito dele? O homem era coerente. Durante todo o jantar caro em um dos restaurantes favoritos dela, ele se queixara do tamanho da pensão alimentícia que precisava pagar para os filhos e de suas duas malditas e interesseiras “ex”, as quais nunca o tinham compreendido ou gostado dele. Tanto que, antes de o prato principal ser servido, ela já se vira em total empatia com suas antigas esposas.E tal experiência resumia bem os homens de sua faixa etária. Podia até ser um clichê, mas,infelizmente, era a pura verdade: os melhores homens já haviam se comprometido, ou então eram gays. O restante não passava de carecas fracassados, que costumavam passar a noite se queixando sobre suas escolhas erradas.Ou que, como seu ex-marido, tinham optado por ter como companheiras mulheres mais jovens e perfeitas. Mulheres capazes de fazer mais do que criar animais de rua. Mulheres capazes de gerar filhos.Pare com isso! Lina se repreendeu. Por que estava pensando naquilo? Seu ex-marido era história, assim como seu desejo de se envolver com alguém. Falando com franqueza,considerava mil vezes melhor ficar em casa e fazer um bolo. Ou caminhar com o cachorro. Ou acariciar o gato… se ele estivesse disposto a aceitar tal mimo.Decididamente, ela não se arrependia de ter desistido do romance.Seus olhos focaram mais uma vez o estranho narciso. Era apenas uma flor… uma bela e apressada flor.E ela havia tido um dia difícil, estranho, o que explicava por que estava se sentindo tão esquisita.Ou talvez fosse uma questão hormonal.Com um suspiro, lembrou a si mesma de pedir à mãe algumas orientações sobre climatério na próxima vez em que se falassem. Uma leve brisa agitou o narciso, carregando outra nuvem de seu doce aroma até Lina.Só mais uma cheiradinha, ela pensou, então pegaria Edith Anne e iria para a cama, onde já deveria estar havia muito tempo.Apoiada nos calcanhares, projetou o corpo, tomando o pesado narciso nas mãos. Quando trouxe o rosto mais para perto, o miolo da flor em forma de sino se moveu.Lina piscou. Mas, que diabo?!Inclinou-se e olhou dentro das pétalas abertas.Como a boca de uma eclusa sendo aberta, o choque fez todo o sangue drenar de seu rosto.Ao olhar dentro do narciso, o que viu foi o rosto de uma mulher incrivelmente jovem e bela.Seus enormes olhos cor de violeta estavam arregalados, os cabelos em total desalinho, e os lábios adoráveis encontravam-se semiabertos, como se ela houvesse sido apanhada em flagrante.Lina tentou se mover, porém seu corpo se recusou a obedecê-la. Estava paralisada tal qual uma estátua viva.O medo pulsou através dela, e seu coração disparou dolorosamente em resposta.E então foi como se sua alma estivesse sendo arrancada do corpo por um gigante aspirador.Por um momento, ela ainda foi capaz de olhar para trás e mirar a concha imóvel em que se transformara seu corpo físico antes de ser impulsionada para a luz ofuscante que emanava do centro do narciso em expansão.Sua mente se rebelou conforme rodopiava para dentro da flor e do caule, e ela tentou gritar.Tentou parar. Tentou respirar… Mas não havia nada além daquele turbilhão e da sensação angustiante de deslocamento.Quando pensou que fosse enlouquecer, sentiu um chacoalhão e foi cuspida para fora do caule, batendo em algo.Lágrimas lhe inundaram os olhos e a impediram de ver mais do que imagens vagas e desfocadas. Numa reação instintiva, Lina buscou ar. Ainda levados pela vertigem, seus braços se moveram ao redor até colidir com a terra gramada na qual seu traseiro descansava. Lutou para se ancorar e deixou o corpo cair, os braços abertos agarrando o chão.Pressionou o rosto contra a grama. Estava ofegante e tremendo, e parecia presa numa teia de seda.— Tirem isso de mim! Tirem! — Ainda em pânico, ela puxou o que a aprisionava. — Ai!Merda!A dor de ter os cabelos quase arrancados penetrou sua mente conturbada e, no mesmo instante, sua visão clareou. Encontrava-se, na verdade, deitada sobre um gramado, e suas mãos tinham se enrolado em uma massa de cabelos cor de mogno, os quais, de tão longos,desciam até a cintura de sua dona…Sua cintura.Enquanto enxugava as lágrimas, Lina olhou para si mesma.Respirou fundo, abriu a boca e gritou tal como uma figurante de filme trash.


Notas Finais


Espero do capitulo


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