História A Encantadora de Dragões - A História de Pansy Parkinson - Capítulo 10


Escrita por: ~

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Categorias Harry Potter
Personagens Daphne Greengrass, Draco Malfoy, Harry Potter, Hermione Granger, Mila Bulstrode, Pansy Parkinson
Tags Draco Malfoy, Pansy Parkinson, Sonserina
Exibições 19
Palavras 4.426
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ficção, Magia, Romance e Novela
Avisos: Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 10 - Briga de Gato


Fanfic / Fanfiction A Encantadora de Dragões - A História de Pansy Parkinson - Capítulo 10 - Briga de Gato

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Nos dias seguintes Draco e Pansy encenaram uma pequena peça cujo gênero oscilava entre o drama e a comédia. O público era toda a escola, e se houvesse um camarote especial este pertenceria aos professores.

Enquanto Draco jazia estirado num leito, fazendo caretas de dor e gemendo para o teto, Pansy atuava como correspondente exclusiva e de primeira mão do atentado que logo se espalhou como fogo pelas rodas de conversa. Sendo a única que viu Draco pouco após o acidente, alunos de todas as Casas e de todos os anos procuravam Pansy para pedir os detalhes. Para cada grupo ela narrava uma versão diferente:

“As garras do hipogrifo ainda estavam lá quando ele foi colocado na cama. Tiveram que fazer cirurgia pra tirar.”

“O braço chegou a ser amputado, mas com magia médica e muita sorte Madame Pomfrey conseguiu costura-lo de volta.”

“Ele morreu de hemorragia. Por exatos quinze segundos. Aí ele foi ressuscitado por respiração boca a boca.”

“Desculpa. Eu ainda não consigo falar.”

A última foi dita após um longo minuto de silêncio, em que no final ela enterrou o rosto nas mãos e começou a soluçar. Quando Pansy viu por uma fresta entre os dedos os calouros da Lufa-Lufa se afastarem assustadíssimos, desatou a rir. Talvez tivesse realmente talento para ser atriz, pensou.

Na quinta-feira Draco retornou às aulas após receber alta. Reapareceu na metade da aula conjunta de Poções, o braço pendurado numa tipoia, olhando para um ponto distante como se fosse o sobrevivente heroico de uma terrível batalha. Todos se viraram para observá-lo.

– Como está o braço, Draco? - perguntou em voz alta Pansy com um sorrisinho insincero, quando ele se sentou ao seu lado – Está doendo muito?

– Está. - respondeu o garoto, fazendo uma careta corajosa.

– Vá com calma, vá com calma. - disse o Prof. Snape, muito solidário.

Pelo restante da aula os dois se divertiram vendo Snape ordenar que Potter e Weasley fizessem todos os trabalhos manuais para Draco, incluindo picar raízes de margarida e descascar pinhão. Nunca uma aula de Poções havia sido tão divertida, e Pansy desejou que todas suas aulas fossem assim.

Ou que pelo menos fossem sempre ao lado de Draco.

Havia apenas uma aula que fugia a essa regra. Quando ingressou para o terceiro ano Pansy teve de escolher quais disciplinas extras faria, dentre as diversas opções disponíveis. Ela se inscreveu imediatamente em Trato das Criaturas Mágicas (para sua sorte, junto de Draco), mas não sabia dizer quais outras disciplinas ele pegaria (só tinha certeza que “Estudo dos Trouxas” jamais seria uma delas). No fim das contas ela escolheu Adivinhação, que era a que mais lhe havia despertado curiosidade e que também seria cursada por suas amigas. Para sua decepção Draco optara por estudar Runas Antigas, mas no fim das contas brincar de ver o futuro com Tracey e Dafne também se revelou muito divertido.

Todas as terças Pansy e suas amigas subiam a escada em caracol até o topo da Torre Norte, onde adentravam na luz suave de uma sala circular repleta de incensos e almofadas. A Prof.ª Trelawney, uma mística extravagante, recebia seus alunos em mesinhas repletas de objetos estranhos. Cada aula era uma arte diferente. Primeiro aprenderam a ler o futuro em borras de chá (o de Emília precisou ser lido no seu buço, de tão rápido que ela bebeu sua xícara). Depois passaram às bolas de cristal, em que Dafne parecia vislumbrar coisas fantásticas, tamanha a concentração em seu olhar (descobriram mais tarde que ela estava apenas admirando o próprio reflexo). E no tarô cigano Pansy trapaceou com o baralho para mostrar a Tracey as cartas mais trágicas (ela só parou quando a menina quase chorou com tanta desgraça).

As aulas de Defesa Contra as Artes das Trevas eram outra atração à parte. Apesar da aparência um tanto desalinhada, o novo professor era realmente talentoso, e apresentou aos alunos diversas criaturas perigosas. Devido à sua inclinação para praticar o mal, alguns animais mágicos eram estudados naquela disciplina, tais como o kappa e o barrete vermelho. Outras vezes porém eles estudavam seres (criaturas que não eram nem humanas e nem animais) ligados ao mundo das trevas, em que se incluíam dementadores, vampiros e lobisomens. Logo na primeira aula confrontaram um bicho-papão num armário, uma experiência que Pansy nunca esqueceu. Conhecido por assumir a forma daquilo que mais amedrontava a pessoa, o bicho-papão se revelou para cada aluno de uma maneira diferente. Foi um verdadeiro desfile de horrores, mas ao final todos se defenderam com o feitiço ensinado pelo Prof. Lupin (“Riddikulus”) e o que era medonho se tornava risível. Quando chegou a vez de Pansy, porém, o fato mais inusitado aconteceu. Quando ela ficou de frente para o armário no meio da sala, ele chacoalhou e a porta se abriu liberando um punhado de vassouras que escorregaram para fora. Na mesma hora Pansy corou: seu maior medo já era estupidamente ridículo, e todos agora sabiam disso. O Prof. Lupin lançou um olhar de surpresa para Pansy em meio ao silêncio constrangedor na sala.

– Essa é a primeira vez que vejo algo assim.. - disse muito devagar.

Pansy desejou ser engolida pelo chão.

– Nunca antes tinha visto o bicho-papão recuar diante de alguém. - acrescentou Lupin. – O armário dele simplesmente voltou a ser o armário comum de vassouras que era antes. Isso deve significar, damas e cavalheiros, que a Srta. Parkinson aqui não tem medo de nada!

A turma inteira irrompeu em aplausos admirados. Pansy ficou desnorteada. E os aplausos redobraram quando Lupin anunciou que daria vinte pontos para a Sonserina pela bravura dela. Na altura em que estava saindo da aula rodeada de colegas excitados, Pansy já estava se sentindo bem mais à vontade.

– Sabem como é. - dizia para todos – Nunca tive medo algum. É mais fácil o bicho-papão ter medo de mim.

 

As primeiras semanas passaram voando e logo chegou o mês de outubro. Na manhã do Dia das Bruxas, todos se levantaram empolgados. Aquele seria um dia especial - não particularmente pelo feriado, que sempre foi comemorado com um grande banquete noturno no castelo, mas sim porque pela primeira vez Pansy e seus colegas fariam um passeio para fora de Hogwarts.

Como era de costume, a partir do terceiro ano os alunos podiam visitar o vilarejo bruxo de Hogsmeade, desde que tivessem autorização por escrito dos pais ou responsáveis. Naturalmente Pansy não se deu ao trabalho de pedir a seus tios, durante as férias, a permissão necessária (sabia que eles jamais assinariam o formulário). Mesmo assim ela entrou na fila que se formou na porta do castelo aquela manhã, vestindo sua melhor roupa. Quando o zelador Filch passou por ela para checar seu nome na lista de autorizados, ela cruzou os dedos no bolso do casaco. O homem olhou carrancudo para ela, verificou o pergaminho por um minuto, e depois se afastou com um resmungo. Pansy sorriu: pelo visto seu pequeno truque tinha dado certo. Ela só precisou colocar o formulário de Hogwarts no meio dos formulários de entrega que fazia quando cuidava dos negócios em Adlington. Seu tio nunca lia a papelada mesmo: apenas assinava tudo o que ela lhe dava.

Quando todos atravessaram os portões de Hogwarts e começaram a subir as escadarias que ziguezagueavam por entre os pinheiros encosta acima, Pansy achou que não poderia se sentir mais satisfeita. Estava enganada: assim que chegou ao topo e vislumbrou a praça central de Hogsmeade se descortinar diante dela, seu júbilo se renovou. O vilarejo era um verdadeiro cartão postal: havia casas de todos os tamanhos, todas harmonicamente arranjadas sob a mesma arquitetura. Por todas as esquinas e muros se viam abóboras habilmente esculpidas, seus interiores tremeluzindo com a luz de velas. Velas com chamas de todas as cores também se viam dentro de lanternas penduradas nas árvores desfolhadas, e pelas ruas de pedra se espalhavam vários visitantes (as crianças menores fantasiadas de monstros e fantasmas).

A primeira parada foi na Dedosdemel, a famosa loja de guloseimas. Lá estava sendo realizado um evento promocional por ocasião do Dia das Bruxas. Todo visitante que trouxesse um sapo como aquele mostrado num cartaz teria direito a trocá-lo por uma determinada quantidade de doces. O sapo em questão era laranja-berrante com manchas pretas, e a loja havia espalhado centenas deles pelo povoado. Assim, nas próximas horas Pansy e suas amigas se divertiram saindo pelas ruas de Hogsmeade procurando os bichos. Dentro de vasos, atrás de vitrines, debaixo de pontes. Todos iam sendo coletados e jogados dentro de um chapéu cônico de bruxo. Tracey avistou alguns sapos dentro da Zonko´s, mas quando entraram correndo na loja perceberam que eram apenas uma isca falsa para atraí-las para dentro. Mesmo assim, elas não ficaram chateadas - afinal de contas, aquela era uma loja de logros e brincadeiras, e conhecê-la acabou sendo muito interessante também. A graça da brincadeira era que ao mesmo tempo que caçavam iam conhecendo o vilarejo, o que foi extremamente prático.

Ter Emília por perto acabou se mostrando muito útil. Primeiro porque ela era uma excelente caçadora de sapos, e segundo porque ela não tinha a menor vergonha na cara de disputar seriamente com crianças metade da sua idade. A maioria fugia só de olhar para sua expressão de guerra, mas se por acaso algum pirralho teimasse em competir com ela pelos sapos, Pansy e Tracey precisavam segurá-la para que ela não virasse a criança do avesso.

Ao chegar na Casa dos Gritos, entretanto, Emília já não se sentia mais tão valente. Muito menos Dafne e Tracey. Famosa por ser o lugar mais mal-assombrado da Inglaterra, a Casa ficava isolada do resto da aldeia no alto de uma colina. Os habitantes diziam que ouviam gritos e ruídos estranhos vindos de lá à noite, apesar de todas suas portas e janelas serem bloqueadas com tábuas. Pansy foi a única que se atreveu a pular a cerca e buscar o sapo no jardim morto. Depois de apanhá-lo num chafariz seco, ela voltou sob os olhares de assombro de suas amigas, como se ela própria fosse um fantasma.

– Você realmente não tem medo de nada, não é? - perguntou Tracey.

– Fala sério. É só uma casa velha.

Dessa vez ela não estava fingindo bravura. Pansy de fato se sentia à vontade ali, mas unicamente porque o lugar lembrava muito o casarão dos próprios tios.

Quando finalmente voltaram para receber o prêmio na Dedosdemel, Pansy estava com sapos saindo até pelos bolsos do casaco. Todos foram substituídos por balas, chocolates, gomas e pirulitos (Dafne preferiu comprar os dela). Elas saíram da loja rindo e experimentando os muffins de caldeirão, e deram de cara com os meninos vindo na direção oposta. Draco estava vestindo um elegante sobretudo, e vinha acompanhado de Crabbe, Goyle, Nott e Zabini. Assim que as viu, chamou:

– Querem se juntar a nós? Estamos a caminho do Três Vassouras. Creio que tenho uma notícia digna de comemoração.

Ele nada mais disse, e não restou outra opção a Pansy e as outras senão rumarem curiosas com o grupo para o popular pub de estudantes. Apesar de encontrarem-no cheio, eles conseguiram uma grande mesa nos fundos, e Draco ordenou uma rodada de cervejas amanteigadas enquanto Pansy derramava o conteúdo do chapéu na mesa para que todos se servissem.

– Então. - começou Dafne – O que estamos comemorando, Draco?

Ele puxou do bolso do sobretudo um informativo de aparência oficial, com o selo do Ministério da Magia.

– Acabei de ver isto quando fui visitar o Correio. - ele jogou o folheto em cima da mesa – A última edição do Diário Ministerial. Adivinhem quem vai ser oficialmente processado por lesionar um aluno?

Pansy arregalou os olhos enquanto abria um grande sorriso.

– Draco! Não me diga que..?

– Exatamente. Meu pai tem fortes ligações com o Ministério, e já confirmou: o Departamento de Controle das Criaturas Mágicas abriu um inquérito para apurar o caso. Agora é só uma questão de tempo até Rúbeo Hagrid ser expulso do cargo. Parece que em breve teremos nossa professora de volta.

A mesa irrompeu em aplausos animados, na mesma hora em que chegaram as canecas de cerveja amanteigada. Nunca haviam tido aulas com a Prof.ª Grubbly-Plank, mas ela era conhecida na Sonserina por ser uma excelente professora - ao menos era definitivamente melhor que o atual.

– Antes de brindarmos, porém, quero dar os créditos a quem realmente merece. - continuou Draco, e todos fizeram silêncio para ouvir – Afinal de contas, o Ministério só decidiu atuar depois da grande repercussão negativa que houve. E isso devemos, principalmente, à nossa formidável atriz.

Ele sorriu e ergueu a caneca para Pansy, que sentiu o rosto arder.

– À Pansy Parkinson, nossa agente do caos!

– À Pansy Parkinson! - entoaram todos em voz alta, erguendo suas canecas.

Pansy afundou o nariz na espuma de sua cerveja se sentindo muito grata por ter onde esconder seu rosto. Talvez pelo calor do momento, ou talvez por estar provando aquela bebida pela primeira vez, mas ela nunca sentiu um sabor tão quente e adocicado em sua boca.

 

***

 

Passaram-se os meses.

Pansy continuava aprendendo cada dia mais em Hogwarts, ao mesmo tempo que sentia sua popularidade começar a crescer. Suas notas não eram particularmente boas, mas também não eram ruins. Naquele momento sua disciplina favorita era Defesa Contra as Artes das Trevas - predileção que agora compartilhava com Draco. Ele sempre demonstrava um interesse ligeiramente maior nessa área, apesar de Pansy desconfiar que ele já soubesse de antemão tudo que lhes era ensinado. O que não era de se espantar: desde que encontrou o Espelho de Ojesed, ela começava a compreender um pouco mais o fascínio que ele tinha por essa matéria que para a maioria causava um certo desconforto.

Nas horas vagas no Salão Comunal, Draco continuava a professar para Pansy suas “aulas particulares” (como ela gostava de chamar). Ele ensinava que o verdadeiro mal eram os trouxas, e contava histórias incríveis sobre grandes bruxos do passado que dominaram as artes ocultas. O maior de todos sem dúvida havia sido Voldemort, a quem chamavam o “Lorde das Trevas”. Draco contou que ele alcançou um poder e um conhecimento além da imaginação, até se envolver num estranho encontro com o menino Potter que ocasionou seu desaparecimento. Desde então vinha sendo dado como morto, mas Draco confessou a Pansy que não acreditava nessa teoria. Para ele, o Lorde das Trevas continuava vivo, à espreita. Apenas esperando o momento certo de retornar, quando então traria para os bruxos uma era de ouro como nunca antes se viu. Pansy se pagava sonhando acordada mais tarde, em sua cama, como seria algo assim..

 

Entrementes, a pequena aprendiz de magia passava seus dias se divertindo no mundo bruxo atual.

Ela continuava assistindo às aulas e visitando Hogsmeade com os amigos nos fins de semana. Até Meia-Noite parecia mais inclinado a dar passeios ultimamente. Talvez para fugir das garras de Emília, mas Pansy já não o via com muita frequência na Sala Comunal. De vez em quando ela olhava pela janela de uma sala de aula e o avistava vadiando solitário pelas ameias e telhados do castelo: uma mancha preta se movendo furtivamente em meio a uma floresta de torres. Ela imaginou que ele fizesse o mesmo durante a noite.

Uma vez ela o surpreendeu com um rato debaixo das patas, quando cruzava um corredor em cima de uma muralha próxima à Torre da Grifinória. O rato era velho e ossudo, da cor da poeira. Pansy o reconheceu como o bicho de estimação de Rony Weasley, o amigo ruivo de Potter.

– Solta isso, Meia-Noite!

Ela pegou seu gato nos braços antes que ele enterrasse os dentes no pescoço do rato. O roedor disparou pela muralha e desapareceu por um buraco na parede da torre.

– Sabe que não deve comer porcarias! - repreendeu Pansy, aliviada por ter evitado uma catástrofe.

O gato ronronou e olhou com ressentimento para ela.

 

Por meados de abril, Meia-Noite voltou a ter um encontro desagradável com outro bicho. Dessa vez o confronto não foi com um rato, mas sim com outro gato. Um gato felpudo e alaranjado, que Pansy até então nunca tinha visto.

Aconteceu quando Pansy desfrutava uma tarde livre sob o teto de um coreto nos jardins. Estava sentada na bancada relendo Animais Fantásticos e Onde Habitam pela terceira vez, quando viu os dois passarem correndo no gramado em declive ao lado do castelo. Chiavam e bufavam com ferocidade, e Pansy se alarmou com a cena. Na mesma hora ela fechou o livro e o jogou na pasta pendurada ao seu ombro, e correu para separar a briga.

– Meia-Noite! Pare com isso!

Enquanto ela corria ela viu uma menina surgir da porta da cabana de Hagrid, ali próxima. Ela também vinha apressada na mesma direção.

– Bichento! Venha já aqui!

As duas alcançaram a briga exatamente ao mesmo tempo, e cada uma acudiu para socorrer o seu gato no momento em que eles se encaravam com os pelos das costas eriçados. Foi só quando estava com Meia-Noite seguro em seus braços que Pansy se deu conta que a menina na sua frente era Hermione Granger.

Ela por sua vez pareceu descobrir Pansy da mesma forma.

Por uns instantes as duas apenas se encararam em silêncio. Um silêncio incômodo, quase tão tenso quanto o rabo dos gatos ainda se agitando no colo delas. Pansy reparou que Hermione estava com os olhos vermelhos e inchados. Parecia que estivera chorando as últimas horas, e Pansy teria sentido pena dela não fosse a forma ultrajante que ela estava olhando para Meia-Noite.

– Esse gato é seu? - perguntou finalmente ela, rompendo o silêncio.

– Algum problema? - respondeu Pansy, um tanto ríspida.

Não estava gostando nem um pouco do olhar de Hermione. Era como se a visão de Meia-Noite lhe evocasse uma sensação ou lembrança muito ruim. Aposto como tem preconceito contra gatos pretos - pensou Pansy, observando o espécime laranja nos braços de Hermione. Era muito feio e tinha a cara amassada, mas nem por isso Pansy falou nada.

– Não.. nenhum. - murmurou Hermione, piscando como se retornasse à realidade. – Só vê se cuida por onde ele anda.

– Ele vai aonde ele quiser. - retrucou Pansy friamente.

Hermione nada disse por um segundo.

– Claro. - sorriu por fim, amargurada. – Seu gato é livre, não é? É uma pena que não se pode dizer o mesmo do Bicuço.

Quem?

– Bicuço! O hipogrifo! Aquele que você e Draco incriminaram. Quando forjaram aquele acidente, sabe? Graças a vocês, ele está acorrentado nos fundos da cabana de Hagrid agora, esperando um julgamento do Ministério que pode decidir sacrificá-lo!

Pansy se sobressaltou. Não havia sido informada de nada daquilo. Acreditava que o hipogrifo seria encaminhado para as mãos de um melhor cuidador, mas nunca imaginou que fossem mandar matá-lo. Não era isso que ela queria. Ela olhou para a cabana de Hagrid a alguns metros de distância, e se lembrou que viu Hermione frequentemente entrando e saindo de lá.

Aliás, agora que pensava: ela já não era mais vista acompanhada de Potter e Weasley havia algum tempo. Parecia ter voltado a ficar só, como nos primeiros dias de Hogwarts. Pansy se perguntou o que poderia ter acontecido, mas naquele momento ela estava mais absorta em outros assuntos. Por mais terrível que fosse a revelação de Hermione, a acusação que veio acompanhada dela lhe soou bastante ofensiva.

– Não faço ideia do que você está falando. Draco foi atacado por um animal raivoso e descontrolado!

– Ele só atacou porque foi provocado. Nós ouvimos, Pansy! Estávamos mais perto dele naquela hora. Draco insultou Bicuço de propósito! Todo mundo sabe que jamais se deve insultar um hipogrifo, foi a primeira lição que Hagrid ensinou.

Pansy ficou pálida. Não podia acreditar no que estava ouvindo. Não queria acreditar. Entretanto, alguma coisa nos olhos e no tom de voz de Hermione lhe dizia que a garota não estava mentindo.

Mas se Hermione estava dizendo a verdade, isso só podia significar que outra pessoa muito mais estimada lhe havia mentido.

– Não pode ser. - disse Pansy, muito devagar. – Eu não acredito em você.

Hermione pareceu ler a insegurança de Pansy, e de repente sua expressão suavizou. Era como se tivesse sido invadida por uma súbita onda de solidariedade, e quando ela falou foi numa voz branda, uma voz de compaixão, quase como se elas tivessem sido levadas de volta aos antigos encontros na biblioteca, quando por alguns breves dias elas foram amigas.

– Você não o conhece, Pansy.. não sabe do que aquele garoto é capaz. Ouça o que estou dizendo, ele é perverso..

As palavras escaparam da boca de Pansy num único lapso de cólera:

– Acho que conheço ele melhor do que você, sua sangue-ruim.

No mesmo instante Pansy se arrependeu do que disse.

Hermione se calou e olhou para ela em choque, cada traço de seu rosto exprimindo dor e humilhação. Pansy sabia que aquele era o pior insulto que existia no mundo bruxo, e tinha acabado de usá-lo pela primeira vez. O gosto que deixou em sua boca era amargo: era como o vazio turbulento deixado pelo remorso.

Hermione virou o rosto na mesma hora em que seus olhos começaram a lacrimejar. Em seguida ela virou o corpo inteiro, e começou a percorrer o caminho por onde veio. Após alguns passos, porém, se deteve, e virou-se de volta para Pansy. Subitamente seu semblante havia se transformado: seus olhos, apesar de estarem à beira do colapso, transmitiam uma dignidade surpreendente, e quando ela falou sua voz era altiva e firme:

– Sabe o autor desse livro, que você carrega pra todos os lados?

Pansy notou que a ponta surrada de seu livro estava à mostra em sua pasta. Antes que pudesse dizer alguma coisa, Hermione declarou com veemência:

– Ele era nascido trouxa. Inclusive pertenceu à Lufa-Lufa.

– Mentirosa! - gritou Pansy, um tanto infantilmente.

– Se duvida, então pesquise. - respondeu Hermione com aspereza. – Use um pouco o seu cérebro, pra variar.

E se afastou determinada, deixando Pansy trincando os dentes de raiva.

 

Minutos mais tarde, Pansy caminhava a passos rápidos pelos corredores do castelo. Estava à procura de um lugar reservado onde pudesse checar o seu livro sem ser vista por Hermione. O mais próximo era um banheiro feminino há muito abandonado. Pansy se abaixou para passar pelas faixas na porta, ignorando os dizeres de “INTERDITADO”, e se dirigiu até um conjunto de pias dispostas em círculo no centro. Ali abriu seu exemplar de Animais Fantásticos em frente ao espelho, próximo a uma torneira com pequenos detalhes ornados de serpente.

A biografia de Newt Scamander ficava logo no começo. Era um resumo simples, e Pansy já o havia lido inúmeras vezes. Sabia que ele havia se formado em Hogwarts, mas nunca viu em lugar algum menção a qual Casa frequentou. Seu olhar passou rapidamente das linhas para a foto do bruxo ilustrando a página, e viu que havia um brasão estampado em sua veste. Aquele era um pequeno detalhe do qual nunca tinha prestado atenção. Pansy estreitou os olhos para enxergar de perto. Lá estava o emblema preto e amarelo com o símbolo do texugo.

Hermione tinha razão.

E aquilo a enfureceu mais ainda.

Não apenas odiou Hermione por estar certa, como se sentiu traída por seu maior amigo. Nesse exato momento, como se debochasse de sua cara, a foto de Newt Scamander sorriu prazerosamente. Pansy fechou o livro com força na sua cara e o arremessou nos fundos do banheiro, fazendo-o atravessar os óculos de uma menina-fantasma que por acaso estava ali.

Antes que pudesse ouvir os prantos e lamentos da menina, Pansy saiu pela porta rasgando as faixas no caminho.

 

***

 

Não foi a última vez que Hermione despertou a ira de Pansy naquele ano.

Faltando poucos dias para as provas finais, ela estava fazendo par com Emília Bulstrode na aula de Herbologia quando ouviu às suas costas uma conversa entre Crabbe e Goyle que a deixou em histeria.

– A Granger fez o que?!

– Ela deu um t.. tapa na cara de Draco..

Crabbe estava visivelmente aterrorizado. Talvez fosse o brilho alucinado nos olhos de Pansy, ou talvez fosse a gigantesca tesoura de poda nas mão dela (ou vai ver era a combinação de ambos).

– Me conta tudo. Agora.

Crabbe e Goyle reportaram com máxima eficiência. Tinha acabado de acontecer no último intervalo, quando eles voltavam da aula de Hagrid. Aparentemente, Granger estava revoltada com a eminente demissão do gigante, e tinha vindo até Draco com xingamentos grosseiros e acusações absurdas. Mesmo depois de agredido Draco não revidou, nem permitiu que eles revidassem. Disse que não valia a pena, e simplesmente se retiraram.

Pelos poucos minutos restantes da aula, Pansy teve que se contentar em trucidar seus tentáculos espinhosos. Até Emília preferiu se afastar e manter uma margem de segurança nessa hora. Quando o sino tocou anunciando o intervalo, ela disparou das estufas para o castelo, procurando Hermione por todos os corredores. Draco podia ter sido cavalheiro com ela, mas Pansy não tinha a menor intenção de agir da mesma forma. Iria devolver a agressão em dobro.

Finalmente encontrou Hermione num corredor deserto. A menina vinha caminhando distraída e com os olhos abaixados, e foi pega desprevenida. Pansy a agarrou pela gola do uniforme e a prensou com tanta violência contra a parede que os escudos ali pendurados quase caíram. Hermione ficou absolutamente sem reação: estava em estado de choque. Pansy se preparou para socar o rosto assustado de Granger, mas na mesma hora ela ouviu passos vindos da sala de aula ao lado.

– Que está acontecendo aí? - ela ouviu a vozinha esganiçada do Prof. Flitwick.

Pansy amaldiçoou sua sorte. Antes que ele pudesse surgir, ela sussurrou para Hermione, seu rosto a centímetros do dela:

– Se encostar no Draco de novo, eu juro que te arrebento.

Hermione estava mais branca que cera.

– Algum problema com as senhoritas?

O professor de Feitiços tinha acabado de chegar, sua pequena estatura perfeitamente alinhada com as de suas alunas. Pansy ainda estava agarrando Hermione pela gola.

– Não, Prof. Flitwick. - respondeu Pansy, sem desviar os olhos de Hermione. – Nenhum.

Então ela soltou o uniforme de Hermione e fingiu ajeitar sua gravata. Em seguida se foi, deixando Granger e Flitwick completamente perplexos.

Entretanto, o soco que Pansy tinha guardado para Hermione nunca mais abandonou sua mão. Ela ainda sofria espasmos cada vez que Pansy via a menina, como se tentasse se libertar das amarras de civilidade para ir de encontro à cara de Granger. Restava apenas a Pansy canalizar sua raiva para outra parte, e esta acabou sendo a sua língua.

Pelos anos que se seguiram, Pansy não perdeu uma só oportunidade de atingir Hermione com suas palavras.

 

 

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