História A Filha da Neve. - Capítulo 1


Escrita por: ~

Postado
Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Exibições 4
Palavras 4.324
Terminada Não
LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Aventura, Romance e Novela

Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Gente, eu li esse livro e achei muito bom.
Eu quero compartilhar ele com vcs, acho que muitos não sabem desse livro, né?

Capítulo 1 - Capítulo 1


— Está tudo pronto, Miss Welse, mas tenho pena de não lhe podermos
dispensar uma das lanchas.
Frona Welse levantou-se com vivacidade e veio para junto do
comandante.
— Estamos tão ocupados—explicou este—e os pesquisadores de ouro são
de uma impaciência, sabe...
— Eu sei...—interrompeu ela.—E também me estou a portar como eles.
Desculpe as maçadas que lhe estou a dar, mas... mas... – voltou-se
rapidamente e apontou para a margem.—Está a ver ali, entre o pinhal e o
rio, aquela casa grande feita de toros de madeira? Foi lá que eu nasci.
— No seu lugar também estaria impaciente—murmurou o comandante,
compreensivo, enquanto a guiava pelo convés apinhado de gente.
Andavam todos aos encontrões e aos berros. Mil pesquisadores de ouro
reclamavam o descarregamento imediato dos seus equipamentos. Todas as
escotilhas estavam escancaradas, e das profundezas os trepidantes
guindastes içavam uma miscelânea de apetrechos. De ambos os lados do
vapor, filas de barcaças recebiam a carga volante; em cada uma dmim as
barcaças uma multidão de homens suados assaltava os guinchos, logo que
estes desciam, e punham-se a remexer fardos e caixas, numa busca
frenética. Homens, acenando com guias de carga, gritavam-lhes das
amuradas do navio. Por vezes o mesmo artigo era identificado por dois ou
três, e estalava a guerra. O gado marcado com dois círculos e com um círculo
e um ponto originava disputas sem fim, e para cada serra aparecia uma
dúzia de reivindicadores.
— O comissário afirma que está quase louco—ia dizendo o comandante
ao ajudar Frona a descer a escada para a plataforma de desembarque. Os
despachantes entregaram a carga aos passageiros e lavaram daí as mãos.
Mas não somos tão desafortunados como o Star of Bethlehem—garantiu,
indicando um vapor ancorado a um quarto de milha de distância.—Metade
dos passageiros têm cavalos de carga para Skaguay e White Pass, e a outra
metade dirige-se para Chilcoot. Amotinaram-se, e está tudo parado.—Você
aí—gritou, fazendo sinal a uma embarcação que pairava discretamente na
periferia da confusão flutuante.
Uma lancha minúscula, remando heroicamente ao lado de um rebocador
enorme, tentou passar pelo meio, mas o barqueiro, atravessando-secorajosamente pela proa e precisamente quando já o conseguira, remou em
falso. Isto fez o barco girar sobre si próprio e parar.
— Cuidado!—gritou o comandante.
Duas canoas de setenta pés, carregadas de apetrechos, pesquisadores de
ouro e índios, deslizavam a toda a vela, vindas do lado oposto. Uma delas
desviou-se rapidamente em direção à plataforma de desembarque, mas a
outra apertou a embarcação de encontro ao rebocador. O barqueiro
tinha desengatado os remos a tempo, mas o seu pequeno barco gemeu sob a
pressão e ameaçou desintegrar-se. Então ele pôs-se em pé e em frases curtas
e nervosas condenou todos os canoeiros e capitães de lanchas à perdição
eterna. Um homem do rebocador inclinou-se lá de cima e cobriu-o de
injúrias incisivas e crepitantes, enquanto os brancos e os índios da canoa
riam, escarninhos.
— Anda prá frente—gritou um deles.—Porque é que não vais aprender
a remar?
O punho do barqueiro acertou na ponta do queixo do seu crítico,
fazendo-o cair, espantado, em cima da mercadoria amontoada. Ainda não
satisfeito com este acto sumário, tentou ir atrás do punho e entrar na outra
embarcação. O mineiro mais perto dele puxou com vigor um revólver, que
ficou preso no coldre de pele reluzente, enquanto os seus irmãos argonautas,
rindo, aguardavam o desfecho. Mas a canoa estava novamente em
movimento, e o timoneiro índio apoiou a ponta do seu remo no peito do
barqueiro atirando-o para o fundo da barcaça.
Quando a torrente de injúrias e blasfêmias estava no auge e pareciam
iminentes a agressão violenta e a morte rápida, o comandante volveu os
olhos para a rapariga a seu lado. Esperava encontrar um rosto de rapariga
chocado e assustado; não estava nada preparado para a expressão excitada
e vivamente interessada com que deparou.
— Lamento muito—começou ele.
Mas ela interrompeu-o, como se ficasse aborrecida com a interrupção.
— Não, não, de modo algum. Estou divertidíssima, apesar de contente
por o revólver se ter prendido. Se não...
— … poder-se-ia atrasar o nosso desembarque—rematou o comandante,
rindo-se e demonstrando assim o seu tacto.—Aquele homem é um ladrão—
prosseguiu, indicando o barqueiro que tinha tornado a deitar os remos à
água e remava ao lado deles.—Concordou em levar só vinte dólares por a
pôr em terra. Disse que levaria vinte e cinco, se fosse um homem. É umpirata, acredite, que ainda acabará por ser enforcado. Vinte dólares por meia
hora de trabalho! É incrível.
— Calma! Calma!—aconselhou o homem em questão, ao mesmo tempo
que executava uma atracagem desajeitada e deixava cair um dos remos pela
borda fora.—Não tem nada que me estar a chamar nomes—acrescentou em
ar de desafio, torcendo a manga da camisa, molhada por haver pescado o
remo.
— Tens bom ouvido, rapaz—começou o comandante.
— E punhos rápidos—vociferou o outro.—E língua pronta. Preciso dela
na minha profissão. Sem isso não se pode governar a gente no meio de
vocês, seus tubarões do mar. Com que então sou um pirata? E você com mil
passageiros apertados como sardinhas? Levam-lhes o preço de primeira
classe, dão-lhes alimentação de terceira e acomodações piores que as dos
porcos! Com que então eu é que sou pirata?!
Um homem de rosto rubicundo espetou a cabeça da amurada, em cima,
e começou a berrar vigorosamente:—Quero as minhas coisas desembarcadas!
Venha cá acima, Sr. Thurston! Venha imediatamente. Tenho cinquenta
caixotes meus a estragar-se nesta sua porcaria de barco, e verá em que
enrascada se mete se não trata de os desembarcar quanto antes. Estou a
perder mil dólares por dia e não o tolerarei. Está a ouvir-me? Não o tolerarei!
Tem-me roubado desde que zarpou de Seattle; e, pelo Inferno, não o
tolerarei mais! Arraso esta companhia, tão certo como eu me chamar Thad
Ferguson! Ouviu o que eu disse? Sou Thad Ferguson, e será melhor para si
vir ter comigo o mais depressa que puder. Está a ouvir?
— Pirata hem?—soliloquiava o barqueiro.—Quem é que é pirata? Eu?
O Sr. Thurston acenou com a mão apaziguadoramente para o homem do
rosto rubicundo e voltou-se para a rapariga:—Gostaria de ir a terra consigo, e
até ao armazém, mas bem vê como estamos atrapalhados. Adeus, e boa
viagem. Vou mandar dois homens imediatamente tratar da sua bagagem.
Estará no armazém amanhã de manhã, sem falta.
Ela apoiou-se lhe na mão levemente e saltou para a embarcação. O seu
peso fez o decrépito barco balouçar repentinamente; a água gorgolejou no
fundo, chegando-lhe à biqueira dos sapatos; mas ela não se deixou
impressionar e instalou-se nos assentos traseiros, encolhendo os pés debaixo
de si.
— Espere!—gritou o comandante.—Isso não pode ser, Miss Welse. Volte
para aqui, e eu arranjar-lhe-ei um dos nossos barcos, o mais depressa quepuder.
— Antes disso dava cabo de si—retorquiu o barqueiro, empurrando-o.—
Largue!—ameaçou ele.
O Sr. Thurston agarrara com força a amurada; em paga do seu
cavalheirismo, ficou com os nós dos dedos esfolados pela lâmina do remo.
Então perdeu a cabeça e, esquecendo a presença de Miss Welse, praguejou
com veemência.
— Parece-me que a nossa despedida podia ter sido mais digna—gritou-
lhe esta. E o seu riso ressoou pelas águas.
— Santo Deus!—murmurou ele, tirando o boné com galanteria.—Que
mulher!—E um desejo súbito tomou-o, um desejo ardente de se ver sempre
reflectido nos olhos cinzentos de Frona Welse. Não era um analítico; não
sabia porquê, mas sentia que com ela iria até ao fim do mundo. Sentiu uma
aversão pela sua profissão e vontade de largar tudo e partir para o Klondike,
para onde ela se dirigia, mas, relanceando o olhar para cima, avistou o rosto
rubicundo de Thad Ferguson e esqueceu o sonho que o possuíra durante um
instante.
Pás! Uma chapada de água, provocada por uma remada trapalhona,
atingiu-a em cheio no rosto.
— Espero que não se amofine, Miss—desculpou-se o barqueiro.—Faço o
melhor que sei, o que não é lá muito.
— Assim parece—respondeu ela, de bom humor.
— Não é que eu goste do mar—disse com amargura—mas precisava de
ganhar alguns dólares honestamente, e esta pareceu-me a maneira mais
fácil. Já devia estar agora no Klondike, se não tivesse tão pouca sorte. Já lhe
conto. Perdi o meu equipamento em Windy Arra, a meio caminho, depois
de ter conseguido atravessar o Desfiladeiro...
Trás! Pás! Ela limpou a água dos olhos, contorcendo-se quando parte do
líquido lhe escorreu pelas quentes espáduas abaixo.
— Asenhora é desenrascada!—animou-a ele.—Está mesmo talhada para
esta terra. Vai até ao fim?
Ela acenou com a cabeça, alegremente.
— Então há de desenrascar-se. Mas, como estava a contar, depois de ter
perdido o meu equipamento, voltei prá costa, pois não tinha massa para
arranjar outro. É por isso que estou a levar preços tão elevados. Espero que
não esteja aborrecida por aquilo que eu lhe fiz pagar. Não! Pior que os outros,
Miss, não sou. Tive de arranjar cem para esta banheira velha que nem dezvale lá na nossa terra. Por todo o lado os preços são o mesmo horror. Em
Skaguay os cravos das ferraduras custam um quarto de dólar. Vai-se ao bar,
pede-se um uísque. O uísque custa meio dólar. Bem, bebe-se o uísque, paga-
se com dois cravos, e pronto! Ninguém protesta por causa dos cravos. Usam-
nos pros trocos.
— O senhor deve ser um homem valente, para se aventurar a tornar lá
depois de tal experiência. Quer dizer-me o seu nome? Podemos tornar-nos a
encontrar no interior.
— Qual? O meu? Oh, chamo-me Del Bishop, mineiro. Lembre-se, se nos
tornarmos a encontrar, darei a minha última camisa... Quer dizer: o meu
último naco de pão é seu.
— Obrigada—respondeu a rapariga, com um sorriso doce, porque era
uma mulher que gostava das coisas que vinham direitas do coração.
Ele parou de remar, o tempo necessário para pescar na água, em volta
dos pés dela, uma lata velha de carne enlatada.
— É melhor começar a baldear a água—ordenou, entregando-lhe a lata.
—Mete mais água, desde que apanhou aquele apertão.
Frona sorriu mentalmente, arregaçou as saias e atirou-se ao trabalho. A
cada inclinação, quais vagalhões enormes elevando-se ao longo da linha do
horizonte, as montanhas, bordadas de geleiras, pareciam erguer-se e baixar.
De vez em quando, ela parava, a descansar as costas, e contemplava a praia
cheia de gente, para onde se dirigia, e de novo o braço de mar rodeado pela
terra no qual uma vintena ou mais de grandes navios estavam ancorados.
De cada um deles, em direção à praia e de regresso, circulava uma corrente
contínua de chatas, lanchas, canoas e toda a espécie de embarcações
pequenas. O Homem, o grande trabalhador, reagindo contra o ambiente
hostil, pensou ela, recordando os mestres de cuja sabedoria usufruíra nas
salas de conferência e meditações noturnas. Era uma amadurecida filha da
sua época, que compreendia perfeitamente o mundo físico e os seus
trabalhos. E amava esse mundo e respeitava-o profundamente.
Durante algum tempo Del Bishop limitara-se a sublinhar o silêncio com
chapinhadelas dos remos; mas ocorreu-lhe um pensamento.
— Não me disse ainda o seu nome—sugeriu, com delicadeza
complacente.
— O meu nome é Welse. Frona Welse.
Estampou-se-lhe na cara um grande espanto, que foi aumentando mais
e mais.— A senhora é... Frona... Welse?—pronunciou lentamente.—O seu pai
não é o Jacob Welse, pois não?
— É, sim. Sou a filha de Jacob Welse, para o servir.
Ele franziu os lábios, num assobio longo e baixinho, e parou de remar.—
Volte já para a popa e tire o pés da água!—ordenou.—E passe-me pra cá essa
lata.
— Não estou a tirar a água bem?—perguntou, indignada.
— Está! Está a tirar até muito bem; mas a senhora é... a senhora é...
— O mesmo que era, antes de saber quem eu sou. Ora continue lá a
remar... é o trabalho que lhe compete a si. Eu cuidarei do que me compete a
mim.
— Oh, a senhora é desenrascada—murmurou ele num êxtase,
curvando-se de novo sobre os remos.—E o Jacob Welse é seu pai! Eu devia
tê-lo adivinhado!
Quando chegaram à língua de areia, coberta de pilhas de mercadoria
heterogênea e apinhada de homens, ela deteve-se o tempo necessário para
apertar a mão ao seu barqueiro. Embora semelhante procedimento da parte
das clientes femininas fosse sem dúvida invulgar, Dei Bishop compreendeu-
o facilmente, pelo facto de ela ser a filha de Jacob Welse.
— Não esqueça que lhe darei o meu último naco de pão—tornou a
afirmar, segurando-lhe ainda a mão.
— E a sua última camisa também, não esqueça.
— Bom, a senhora é bestial!—explodiu, com um último aperto de mão.—
Isso é que é!
As saías curtas não lhe impediam os movimentos livres dos membros, e
ela descobriu com agradável surpresa que abandonara os passos curtos e
rápidos do andar citadino, que caminhava com as passadas compridas e
ágeis próprias dos trilhos e que só se adquirem após muitos trabalhos e
canseiras. Não poucos pesquisadores de oiro, lançando olhadelas ardentes
aos seus artelhos e às pernas calçadas de botinas cinzentas, confirmaram a
opinião de Del Bishop. Mais de um deles levantaram o olhar para o seu rosto
e repetiram a mirada, porque era um rosto franco, com a franqueza da
camaradagem; nos seus olhos pairava sempre uma luz risonha,
tremeluzindo 13
prestes a alvorecer. Se o observador sorria, os olhos dela sorriam também.
E a luz risonha era multiforme: alegre, simpática, divertida, zombeteira—o
complemento de fosse o que fosse que a ateasse. Por vezes a luz espraiava-sepor todo o seu rosto, até que o sorriso anunciado por ela se realizasse. Mas
era sempre uma camaradagem franca e aberta.
Aliás, muito havia para lhe provocar o sorriso, à medida que avançava
por entre a multidão, através da língua de areia e pelo terreno plano, em
direção ao edifício de toros de madeira que havia indicado ao Sr. Thurston.
O tempo retrocedera, e a locomoção e os transportes estavam de novo nas
fases mais primitivas. Homens, que nunca nas suas vidas haviam carregado
mais do que embrulhos, estavam transformados em bestas de carga. Não
caminhavam já direitos sob a luz do Sol, mas inclinavam o corpo para a
frente e curvavam a cabeça para a terra. Todas as costas estavam
transformadas em albardas, onde começavam a formar-se esfoladelas das
correias. Cambaleavam sob o peso não costumeiro, com as pernas
entorpecidas, a fala entaramelada, sempre para um lado e para outro,
hesitantes, e isto até a luz do Sol desaparecer. Carregadores e cargas caíam
pelo caminho. Outros homens, exultando secretamente, empilhavam as
suas mercadorias em carrinhos de duas rodas e puxavam quase
alegremente, mas paravam ao primeiro encontro com os grandes rochedos
redondos que invadiam o caminho. Então viam-se forçados a recorrer ao
típico sistema de viandantes no Alasca. Punham de lado o carrinho ou
empurravam-no de novo até à praia e vendiam-no por um preço fabuloso
ao último homem desembarcado. Novatos, com dez arráteis de pistolas,
cartuchos e facas de caça cingidas à cintura, trepavam corajosamente pelo
trilho e voltavam, rastejando alquebradamente, largando pistolas, cartuchos
e facas, num gesto sem esperança. E deste modo, arfando e suando
amargamente, estes filhos de Adão expiavam o pecado original.
Frona, vagamente perturbada por esta imensa e vibrante corrida de
homens tentados pelo ouro, avaliou, num relance, a imensa alteração
havida no local; a pequena comunidade de outrora já não existia; tudo se
mostrava empanado por estes forasteiros afadigados. Até os velhos marcos
lhe pareciam estranhamente desconhecidos. Tudo era o mesmo, sem no
entanto o ser. Ali, na planície verdejante onde brincara em criança e onde
sentira medo do som da sua voz a ecoar de glaciar em glaciar, andavam dez
mil homens para cima e para baixo, incessantemente, esmagando a
vegetação tenra contra o solo e zombando do silêncio de pedra. No alto do
carreiro estavam dez mil homens, que haviam passado já, em Chilcoot
outros dez mil. E atrás, ao longo de toda a costa do Alasca, semeada de ilhas,
mesmo até ao Horne, havia ainda outros dez mil, cavaleiros da quimera,vindos de todos os cantos da Terra. O rio Dyea, tal como outrora, descia,
rugindo turbulento, para o mar; mas as velhas margens eram agora pisadas
pelos pés de muitos homens que labutavam em filas movediças, puxando os
cabos encharcados dos reboques, e os barcos carregadíssimos seguiam-nos, à
medida que eles iam vencendo o caminho, sempre a subir. A vontade do
homem lutava contra a vontade da água, os homens riam-se do velho rio
Dyea e pisavam mais fundo as suas margens, para os homens que se lhes
seguiriam.
O portão do armazém, pelo qual tantas vezes entrara e saíra noutros
tempos e onde tinha observado com espanto o espetáculo invulgar que era
um caçador perdido ou um negociante de peles, estava agora repleto de
uma multidão barulhenta de homens. Onde antigamente uma carta à
espera que a viessem reclamar era uma coisa que causava admiração, viu ela
agora, ao espreitar pela janela, o correio amontoado do chão até ao tecto. E
era por aquele correio que a multidão clamava com tanta insistência. Em
frente do armazém, junto da balança, havia outra multidão. Um índio
atirava o seu fardo para a balança, o dono, um branco, anotou rapidamente
o peso numa agenda, e outro fardo se seguiu. Todos eles tinham correias,
prontas para serem carregadas às costas do carregador e para a precária
viagem através do Chilcoot. Frona aproximou-se mais. Estava interessada
nos transportes de mercadorias. Lembrava-se dos tempos em que o
explorador ou o negociante solitários despachava os seus equipamentos por
seis cêntimos... cento e vinte dólares por tonelada!
O novato que estava a fazer as pesagens consultou o seu guia.
— Oito cêntimos—disse para o índio.
Os índios presentes riram-se com desdém e responderam em coro:—
Quarenta cêntimos!
No rosto do homem surgiu uma expressão aflita. Olhou à sua volta com
ansiedade. Descobrindo a expressão de simpatia dos olhos de Frona,
observou-a com pasmo atento. Na realidade estava ocupado a reduzir as
três toneladas de equipamento a termos de dinheiro, à razão de quarenta
dólares cada cem arráteis de peso.
— Dois mil e quatrocentos dólares por trinta milhas!—exclamou.—Que
hei de eu fazer?
Frona encolheu os ombros.
— O melhor que tem a fazer é pagar-lhes os quarenta dólares —
aconselhou — senão eles desamarram-lhe.O homem agradeceu-lhe; mas, em vez de dar atenção, continuou a
regatear. Um dos índios adiantou-se e começou a desatar as correias. O
novato hesitou, mas, quando ia ceder, os carregadores subiram o preço para
quarenta e cinco cêntimos. Sorriu, amarelo, e abanou a cabeça em sinal de
rendição. Porém, um outro índio veio reunir-se ao grupo e começou a
segredar, excitado. Um clamor se levantou; e, antes que o homem pudesse
compreender o que se passava, eles largaram as correias e foram-se embora,
espalhando a notícia de que os carregamentos para o lago Lindermann
custavam cinquenta cêntimos.
De repente a multidão que se encontrava defronte da estação ficou
perceptivelmente agitada. Os seus componentes cochichavam, excitados,
uns com os outros, e todos os olhares estavam fixos em três homens que se
aproximavam, descendo o carreiro. O trio era constituído por criaturas
vulgaríssimas, mal vestidas e mesmo esfarrapadas. Numa comunidade mais
estável seria imediata a sua detenção pelo oficial de polícia, por
vagabundagem.
— Louis, o Francês—segredou o novato, passando a palavra.
— É dono de três demarcações seguidas no Eldorado—confidenciou-lhe
o homem próximo de Frona.—Vale dez milhões, pelo menos.
Louis, o Francês, que caminhava um pouco à frente dos seus
companheiros, não o parecia nada.
Perdera o chapéu, algures, no caminho, e trazia um lenço de seda
esfiapado atado descuidadamente em volta da cabeça. Apesar de todos os
dez milhões, transportava sobre os largos ombros o seu próprio saco de
viagem.
— E aquele, o da barba, é o Swiftwater Bill, outro dos reis do Eldorado.
— Como é que sabe?—perguntou Frona duvidosa.
— Ora, como é que hei de saber!—exclamou o homem.—O retrato dele
tem aparecido em todos os jornais nas últimas seis semanas. Ora veja!—
Desdobrou um jornal.—E está até muito parecido. Já o vi tantas vezes que
era capaz de distinguir a carantonha dele no meio de mil.
— Então quem é o terceiro? — perguntou ela, aceitando-o tacitamente
como uma autoridade.
O seu informador ergueu-se na ponta dos pés para ver melhor.
— Não sei—confessou, desgostoso; e em seguida bateu no ombro do
homem que estava mais próximo dele. -Quem é o magro, de face rapada? O
da blusa azul, com um remendo no joelho?Nesse preciso instante Frona soltou um gritinho de alegria, lançando-se
para a frente.—Matt!—gritou.—Matt McCarthy!
O homem do remendo apertou-lhe a mão com entusiasmo, embora a não
reconhecesse. O seu olhar exprimia claramente a dúvida.
— Oh, não se lembra de mim!—palrou ela.—E não se atreve a dizer que
sim! Se não houvesse tanta gente a ver-nos, eu beijava-o, seu urso velho!
«E então o Urso Grande foi para casa ter com os Ursinhos—recitou ela
solenemente.—E os Ursinhos tinham muita fome. E o Urso Grande 18
disse: «Adivinham o que lhes trouxe, meus filhos?» E um dos Ursinhos
disse: «Amoras»; e outro disse: «Salmão»; e o outro disse: «Porco-espinho.»
Então o Urso Grande riu-se: «Oh! Oh!» e respondeu “Um homem grande,
muito gordinho!”»
À medida que escutava, a recordação ia-lhe iluminando o rosto; quando
ela terminou, com os olhos todos enrugados, ele deu uma gargalhada
peculiar, uma gargalhada silenciosa e cômica.
— Não há dúvida que a conheço mas nem por nada me consigo
alembrar quem é.
Ela apontou para dentro do armazém e observou-o com ansiedade.
— Agora é que a topei!—Recuou e olhou-a da cabeça aos pés, e a
expressão transformou-se em desilusão.—Não podia ser. Confundia com
alguém. A senhora nunca apodia ter bibido naquela barraca—disse,
espetando um dedo na direção do armazém.
Frona acenou que sim com a cabeça, vigorosamente.
— Então és mesmo tu, afinal? Apequerrucha órfã de mãe, com o cabelo
de oiro que eu despenteei tanta vez? O diabretezinho que corria descalço e
sem meias por toda a parte?
— Sou! Sou!—confirmou ela, jubilosa.
— Aquele mafarrico que roubou a parelha de cães e atravessou o
Desfiladeiro no pino do Inverno pra ber onde o mundo acabava e
começava, só por o velho Matt McCarthy lhe contar histórias de fadas?
— Oh Matt, meu querido Matt! Lembras-te daquela vez que eu fui
nadar com as raparigas siwash do acampamento índio?
— E eu tirei-te de lá pelos cabelos?
— E perdeste uma das tuas botas de borracha novas?
— Pois foi, é verdade. Foi mesmo um escândalo, um desastre! E as botas
custavam dez dólares lá na loja do teu pai.
— E depois atravessaste o Desfiladeiro, para o interior, e nunca maisninguém ouviu falar de ti. Todos pensávamos que tivesses morrido.
— Alembro-me muito bem desse dia. E tu choraste nos meus braços e
num quiseste dar um beijo de despedida ao teu velho Matt. Mas por fim
sempre deste—exclamou triunfante—quando biste que eu te ia deixar, de
berdade. Que pedacito de gente que tu eras!
— Tinha apenas oito anos.
— E isto foi há doze. Doze anos que eu passei no interior, sem ter saído
de lá uma única bez. Deves ter binte agora?
— E sou quase tão alta como tu—afirmou Frona.
— Estás mesmo uma mulher: alta, bem feita e tudo.—Observou-a com ar
crítico.—Mas podias ser um bocadinho mais gordita, acho eu.
— Não, não—respondeu ela.—Aos vinte, não, Matt. Aos vinte, não. Toca
no meu braço e verás.—E dobrou aquele membro até fazer músculo com o
bíceps.
— Sim senhor! Que músculo!—admitiu ele, passando a mão com
admiração pelo músculo saliente.—Até parece que tens trabalhado para
ganhara bida.
— Oh, faço ginástica, sei jogar o boxe, esgrimir—exclamou ela, tomando
sucessivamente as posições adequadas—e nadar e dar mergulhos de grande
altura e saltar uma barreira vinte vezes e… e caminhar com as mãos no
chão. Ora aí tens!
— Então foi isso que andaste a fazer? Pensei que tinhas ido estudar—
comentou ele secamente.
— Mas há métodos novos de ensinar, agora, Matt, e não nos enchem só a
cabeça de coisas.
— E com essas pernas tão magras não podias aguentá-la! Bem, desculpo-
te os músculos.
— E tu, Matt?—perguntou Frona.—Como é que te correram as coisas,
estes doze anos?
— Olha para mim!—afastou as pernas, atirou a cabeça para trás, o peito
para diante.—Estás a olhar para o Sr. Matthew McCarthy, um rei do nobre
reinado do Eldorado, pelos seus próprios méritos. Os meus bens são
ilimitados. Ganho mais massa num minuto do que antes tinha visto em toda
a minha bida. Arazão desta minha biagem aos Estados Unidos é procurar os
meus velhotes. Tenho a certeza absoluta de que eles existiram. No Klondike
pode haver pepitas, mas bom uísque é que não há. Outra das razões é
também querer beber do autêntico antes de morrer. Depois disso, palavra dehonra, boltarei para dirigir as minhas propriedades do Klondike. Pois é como
digo: sou um rei do Eldorado. E, se desejares seja o que for, é só dizeres.
— Sempre o mesmo velho Matt que nunca ganha juízo—disse Frona
rindo-se.
— E tu és uma verdadeira Welse, apesar desses teus músculos de atleta e
desses miolos de filósofo. Mas anda daí atrás do Louis e do Swiftwater.
Disseram-me que o armazém ainda é do Andy; veremos se ainda se alembra
de mim.
— E de mim também—Frona agarrou-o pela mão. Era uma mania aquela
de agarrar as mãos das pessoas de quem gostava.—Há dez anos que me fui
embora.
O irlandês abriu caminho através da multidão, como uma escavadora, e
Frona seguiu com facilidade atrás do seu corpanzil. O novato olhava-os com
reverência, pois considerava-os uma espécie de divindades do Norte. O
rumor das conversas elevou-se de novo.
— Quem é a rapariga?—perguntou alguém. Quando ia a entrar a porta,
Frona ainda apanhou o princípio da resposta.
— É a filha do Jacob Welse. Nunca ouviu falar em Jacob Welse? Por onde
é que tem andado? 



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...