História A Filha da Neve. - Capítulo 2


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LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Aventura, Romance e Novela

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Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 2 - Capítulo 2.


Frona saiu do bosque de vidoeiros reluzentes e, com os primeiros raios de
sol a adornar-lhe o cabelo solto, correu ligeira através do prado úmido do
orvalho. Aterra estava encharcada e fofa debaixo dos seus pés, ao passo que
a vegetação molhada lhe vergastava os tornozelos, deixando cair borrifos
resplandecentes de diamantes líquidos. O rubor da alvorada tingia-lhe o
rosto, e o seu fogo brilhava-lhe no olhar. Ajovem resplandecia de juventude
e amor. Porque ela fora criada no seio da natureza—em substituição da mãe
—e amava as velhas árvores e todas as plantas verdes, com um amor
apaixonado; o odor úmido da terra era doce para as suas narinas.
No sítio onde a parte superior do prado se perdia numa vereda escura e
estreita da floresta, por entre dentes de leão, de hastes lisas e ranúnculos
berrantes, encontrou um molho de grandes violetas do Alasca. Estendendo-
se ao comprido, enterrou a cara na frescura fragrante e com as mãos puxou
as cabeças purpúreas, formando um resplendor em volta da sua própria
cabeça. E não se sentia envergonhada. Tinha vagueado por entre as
complexidades e sujeiras e paixões destruidoras do grande mundo e
regressara simples, pura e sã. Sentia-se contente por isso, ali deitada,
recordando os velhos tempos em que o universo começava e terminava na
linha do horizonte, e em que ela atravessava o Desfiladeiro para contemplar
o Abismo.
Fora uma vida primitiva a da sua infância, com poucas convenções, mas
essas poucas, severas. Podiam-se resumir, tal como lera algures, anos mais
tarde, como «a religião da lealdade». Esta religião conservara-a seu pai,
pensou ela, ao lembrar-se que o seu nome soava bem nos lábios dos homens.
E era esta a religião que ela aprendera—a religião que levara consigo para
além do Abismo, para o mundo onde os homens andavam afastados das
velhas verdades e inventavam dogmas egoístas e sofismas das mais subtis
espécies; a religião que ela tornara a trazer consigo, ainda fresca, jovem e
jovial. «E tudo era tão simples», pensava. Porque não seria a religião deles
como a dela—a religião da lealdade ? Religião dos trilhos e dos
acampamentos de caça? A fé com que os homens fortes e puros
enfrentavam o perigo rápido e a morte súbita nos campos ou nos rios?
Porque não? A religião de Jacob Welse? De Matt McCarthy? A dos rapazes
índios com quem ela brincara? Das raparigas índias que comandara em
guerras amazônicas? A dos próprios cães lobos, atrelados aos arreios oucorrendo com ela através da neve. «Era saudável, era real, era boa», pensou,
cheia de entusiasmo.
As notas harmoniosas de um tordo saudaram-na do bosque de bétulas,
abrindo-lhes os ouvidos para o dia. Uma perdiz voou lá longe na floresta, e
um esquilo arremessou-se, certeiro, no espaço, por cima da sua cabeça,
avançando de ramo em ramo, de árvore em árvore, resmungando gracioso.
Do rio escondido elevavam-se as vozes dos aventureiros que, já acordados,
prosseguiam no seu caminho para o Polo.
Frona ergueu-se, sacudiu o cabelo, seguiu instintivamente pelo velho
caminho, por entre as árvores, para o acampamento do chefe George e da
tribo dos Dyea. Encontrou um rapaz de tanga semelhante a um deus de
bronze. Andava a apanhar lenha e observou-a atentamente por cima do seu
ombro bronzeado. Ela deu-lhe os bons-dias, alegremente, na língua Dyea,
mas ele abanou a cabeça, largou uma gargalhada insultuosa e suspendeu o
trabalho para lhe gritar obscenidades. Frona fitou-o perplexa, pois não era
assim antigamente. Quando, depois, passou por um índio sitkan, enorme e
de olhar de poucos amigos, manteve-se calada. Na orla da floresta deparou
com o acampamento. E quedou admirada. Não era o antigo acampamento
de uma vintena ou pouco mais de tendas agrupadas e aninhadas juntas, na
clareira, como para se fazerem companhia, mas sim um acampamento
enorme. Começava no centro da floresta e espalhava-se para o interior e
para o exterior, por entre os grupos de árvores espalhadas na planície,
chegando até a margem do rio onde as compridas canoas se mostravam
alinhadas, metidas na água. Era uma reunião de tribo como jamais se fizera
no passado, e mil milhas de costa constituíam os limites. Eram todos índios
desconhecidos, com as mulheres, os haveres e os cães. Acotovelavam-na
homens juneau e wrangel, era empurrada por sticks, de olhares selvagens,
vindos do outro lado do Desfiladeiro, chilcats ferozes e ilhéus da Rainha
Charlotte. Os olhares que lhe deitavam eram negros e nada convidativos,
com excepção—e esses eram piores ainda—dos dos lascivos que lhe
atiravam olhares prometedores, e tasquinhavam.
Tal insolência, em vez de a assustar, provocava-lhe a cólera e azedava o
que devia constituir um agradável regresso a casa. No entanto, rapidamente
compreendeu o seu estado de alma: o velho ambiente patriarcal do tempo
de seu pai desaparecera, e a civilização, como um furacão violento, caíra de
repente sobre este povo. Espreitando por baixo das abas erguidas de uma
tenda, viu rapazes de expressões selvagens sentados em círculos no chão.Junto da porta, um montão de garrafas partidas denunciava a vigília
noturna. Um homem branco, de rosto vulgar e astuto, dava as cartas em
volta, moedas de ouro e prata estavam empilhadas em montes sobre a
prancha coberta com uma manta. Alguns passos adiante, ouviu o ruído de
uma roda-da-fortuna e viu os índios, homens e mulheres, a arriscar
avidamente os salários, ganhos com o seu suor, nos prêmios espalhafatosos
do jogo. E das tendas e barracas vinham as notas esganiçadas e malucas das
caixas de música baratas.
Uma índia velha, que descascava uma vara de salgueiro ao sol de uma
entrada de tenda aberta, ergueu a cabeça e soltou uma exclamação aguda:
—Hee-He! Tenas Hee-Hee!—murmurou o melhor e o mais excitadamente
que as suas gengivas desdentadas lho permitiram.
Frona vibrou, ao chamamento. Tenas Hee-Hee!
Pequena Risonha! O seu nome do passado índio tão longínquo. Voltou-se
e foi ao encontro da velha mulher.
— Então esqueceste assim tão depressa, Tenas Hee-Hee?—resmungou
ela.—Com esses olhos tão novos e vigilantes! Neepoosa não esquecer assim
depressa.
— Tu és a Neepoosa?—exclamou Frona, com a língua entaramelada pelo
desuso de anos.
— Sim, ser Neepoosa.—respondeu a velha, arrastando-a para o interior
da tenda e mandando um rapaz, a toda a pressa, fazer um recado qualquer.
Sentaram-se juntas no chão. A mulher afagou a mão de Frona com carinho,
observando-lhe, entretanto, o rosto com olhos turvos e nevoentos.—Aw, ser
Neepoosa, que envelhecer depressa, como acontecer as nossas mulheres.
Neepoosa que embalar a ti nos braços seus quando eras bebé. Neepoosa que
te dar a ti o nome Tenas Hee-Hee. Que lutar por ti com a morte quando
estiveste doente e apanhar plantas dos bosques e ervas do chão e fazer chá
delas que dar a ti a beber. Mas eu notar pouca diferença porque eu
reconhecer a ti imediatamente. Bastou a tua sombra no chão para fazer
levantar a mim a cabeça. Um pouco mudada, talvez. Estás alta, e graciosa
como um salgueiro esguio, e o sol beijar tuas faces com menos calor, dos anos.
Mas o cabelo ser o mesmo, solto e da cor das algas castanhas que flutuam nas
ondas, e a boca, pronta sempre a rir e avessa a chorar. E os olhos ser límpidos
e sinceros como nos tempos em que Neepoosa ralhar a ti por causa de
maldades e tu não teres nunca palavras falsas na tua língua. Ai! Ai! Não são
como tu as outras mulheres que agora vêm para a região.— E porque é que uma mulher branca não é respeitada entre vós?—
perguntou Frona.—Os vossos homens disseram-me coisas horríveis no
acampamento e, quando atravessei os bosques, até os rapazes. Nos velhos
tempos, quando eu brincava com eles, não era esta vergonha assim.
— Ai! Ai!—responde Neepoosa.—É como dizes. Mas não culpes a eles.
Não lances a tua cólera sobre as cabeças deles. Porque na verdade a culpa
ser das vossas mulheres, que agora vêm para a região. Não podem apontar
para nenhum homem e dizer: «Este ser o meu homem.» E não é bom
mulheres ser assim. E elas olhar para todos os homens atrevidamente e sem
vergonha, e terem línguas sujas e corações maus. Por isso as vossas mulheres
não ser respeitadas entre nós. Quanto aos rapazes, ser apenas rapazes. E os
homens, como haviam eles de saber? As abas da tenda foram afastadas, e
um velho entrou. Rosnou qualquer coisa para Frona e sentou-se. Apenas
uma certa vivacidade denunciava o prazer que ele sentia com a presença
dela.
— Então Tenas Hee-Hee voltou nestes tempos tão maus—disse ele
numa voz aguda e trémula.
— E porque são eles maus, Muskim?—perguntou Frona.—Então as
mulheres não usam cores mais garridas? Os estômagos não estão mais cheios
com farinha e toucinho e comida do homem branco? Os homens novos não
ganham bom dinheiro com os carregamentos e os barcos? E tu não te
lembras já das ofertas de carne e peixe e cobertores de antigamente? Maus
tempos, porquê, Muskim?
— Verdade—retorquiu ele com os seus modos patriarcais e delicados,
com um relâmpago reminiscente do fogo de antigamente a brilhar-lhe no
olhar. Ser bem verdade isso. Mulheres usar cores mais garridas. Mas
agradaram aos olhos dos homens brancos e não olhar já para os jovens do seu
sangue. Por essa razão a tribo não aumentar, nem as crianças já empecilhar
os nossos passos. É certo. Os estômagos estar mais cheios com comida do
homem branco, mas também estar mais cheios com o mau uísque do homem
branco. Nem podia ser doutro modo; os jovens ganhar bom dinheiro, mas
eles ficar sentados a jogar durante a noite e gastar ele todo e dizer palavras
desagradáveis uns aos outros, e encolerizados dar socos e correr sangue mau
entre eles. Quanto ao velho Muskim haver poucas ofertas de carne e peixe e
mantas. Porque as jovens não ser como antes, e os jovens já não honrar os
velhos tótemes e os antigos deuses. Por isso os tempos são maus, Tenas Hee-
Hee, e eles verão o velho Muskim ir para a sepultura cheio de dor.— Ai! Ai! É assim, é!—gemeu Neepoosa.
— Por causa da loucura do teu povo, enlouqueceu o meu—continuou
Muskim.—Vêm do mar salgado como as ondas do mar, o teu povo, e vão...
ah... quem sabe para onde?
— Ai! Quem sabe para onde?—lamuriou Neepoosa, balançando-se
lentamente para trás e para diante.
— Eles ir sempre na direção do gelo e do frio e sempre vir mais gente,
onda atrás de onda!
— Ai! Ai! Na direção do gelo e do frio. O caminho é longo, e escuro e frio!
Estremeceu e pousou a mão de repente no braço de Frona.—E tu, ires?
Frona fez que sim com a cabeça.
— E Tenas Hee-Hee ir! Ai! Ai! Ai!
As abas da tenda ergueram-se e Matt McCarthy espreitou para dentro.
—És tu, Frona, não és? Com o pequeno-almoço à espera há meia hora, e o
velho Andy a resmungar furioso como uma galinha choca que é. Bom dia,
Neepoosa!—dirigindo-se aos companheiros de Frona.—E Muskim, embora se
não devam alembrar da minha cara.
O velho casal resmungou uma saudação e permaneceu parvamente
calado.
— Mas apressa-te, rapariga—voltando a falar com Frona.- O meu barco
parte ao meio-dia, e já pouco tempo tenho para estar contigo. Além disso, há
o Andy e o pequeno-almoço, a ferver, os dois.



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