História A Filha da Neve. - Capítulo 3


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LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Aventura, Romance e Novela

Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 3 - Capítulo 3.


Frona acenou com a mão a Andy e pôs-se a caminho. Bem apertados as
costas levava a sua máquina fotográfica e um pequeno saco de viagem.
Levava, ainda, como bordão de alpinista o varapau de salgueiro de
Neepoosa. O vestido era de estilo para alpinismo, com saia curta e estreita,
permitindo o máximo de amplitude com o mínimo de tecido e, além disso,
de cor cinzenta e simples.
A sua bagagem, as costas de uma dúzia de índios e aos cuidados de Del
Bishop, havia partido horas antes. No dia anterior, ao regressar, com Matt
McCarthy, do acampamento siwash, encontrara Del Bishop no armazém, a
espera dela. O assunto dele tinha sido rapidamente resolvido, porque a
proposta que apresentou foi concisa e objectiva. Ela ia para o interior. Ele
pretendia o mesmo. Ela ia precisar de alguém. Se não tivesse ainda
contratado ninguém, ele era o homem ideal. Tinha-se esquecido de lhe
dizer, no dia em que a trouxera para terra, que estava na região há anos e
que a conhecia como as palmas das mãos. É certo que detestava a água, e
que a viagem era grande parte por via fluvial, mas não lhe metia medo. Não
tinha medo de nada. Além disso defendê-la-ia em qualquer circunstância.
Quanto ao pagamento, quando chegassem a Dawson, uma palavra de
recomendação dela a Jacob Welse e equipamento para um ano seria a sua
remuneração. Não, Não! Nada de adiantamentos, nada que o sujeitasse!
Pagaria o equipamento mais tarde, quando tivesse ouro na sacola. Que é que
achava? E Frona achou bem, porque, antes que ela tivesse acabado de tomar
o pequeno-almoço, já ele andava lá fora a juntar as bagagens todas.
Descobriu que era capaz de andar mais depressa do que a maioria dos
seus companheiros, que iam muito carregados e tinham de pousar as cargas,
de espaço a espaço. Contudo verificou ter dificuldade em acompanhar o
andamento de uns quantos escandinavos que seguiam a frente. Eram uns
gigantes enormes e loiros, caminhando a passos largos, cada um com cem
arráteis as costas e puxando ainda um carrinho carregado com mais uns
seiscentos. De rostos risonhos como um raio de sol, irradiavam alegria de
viver. O trabalho parecia uma brincadeira de crianças e avançavam com
facilidade. Gracejavam uns com os outros e com as pessoas que passavam,
numa linguagem sem sentido, e os seus peitos robustos ressoavam com o eco
das suas gargalhadas. Os homens davam-lhes passagem e ficavam a olhá-los
com inveja; é que eles venciam as subidas do caminho a correr, deslizavampelas vertentes contrárias e sustinham firmemente as rodas chapeadas de
ferro em cima da rocha. Depois de atravessarem uma região sombria de
bosques, chegaram ao rio, no sítio do vau. Um homem afogado estava
deitado de costas na faixa de areia, fitando, sem pestanejar, o sol. Outro
homem, com voz irritada, repetia e tornava a repetir a mesma
pergunta: «Onde está o companheiro? Não tinha nenhum companheiro?»
Outros dois homens tinham pousado as cargas e faziam friamente um
inventário dos haveres do morto. Um mencionava em voz alta os vários
artigos, enquanto o outro os apontava num pedaço de papel sujo de
embrulho. Cartas e recibos, molhados e desfeitos, juncavam a areia. Umas
quantas moedas de oiro estavam empilhadas descuidadamente em cima de
um lenço. Outros homens, passando para trás e para diante em canoas e
barcos de remos, nem se davam conta do facto.
Os escandinavos olharam, e os seus rostos tornaram-se sérios durante um
instante. «Onde está o companheiro? Não tinha nenhum companheiro?»—
perguntou-lhes o homem irritado. Abanaram a cabeça. Não compreendiam
inglês. Meteram-se a água e avançaram, chapinhando. Alguém da margem
oposta gritou-lhes a adverti-los, ao que eles pararam e conferenciaram entre
si. Depois começaram de novo a avançar. Os dois homens que faziam o
inventário voltaram-se para ver. A corrente chegava-lhes quase as ancas,
mas era rápida, e eles cambaleavam, enquanto, de vez em quando, o
carrinho escorregava para um lado com a corrente. O pior estava passado, e
Frona retinha a respiração. A água baixara até aos artelhos dos dois homens
da frente, quando uma correia rebentou num dos mais próximos do
carrinho. A carga escorregou-lhe repentinamente para o lado,
desequilibrando-o. Ao mesmo tempo o seu vizinho escorregou, arrastando-se
um ao outro para o fundo. Os dois seguintes foram derrubados, enquanto o
carrinho, voltando-se, escorregou do fundo do vau para a água profunda.
Os dois homens que já quase haviam saído da água atiraram-se para trás
puxando as cordas. O esforço era heroico; embora gigantes, a tarefa era
demasiado grande e foram arrastados, polegada a polegada, para trás e para
o fundo.
As cargas prendiam-nos no fundo, com excepção daquele cuja correia se
partira. Este correu, não para a praia, mas pelo rio abaixo, tentando alcançar
os camaradas. Umas centenas de metros mais abaixo, o rápido despenhava-
se por cima de uns rochedos aguçados; aí, um minuto mais tarde,
apareceram eles. O carrinho, ainda carregado, apareceu primeiro,esmagando uma roda e dando voltas e reviravoltas para se despenhar a
seguir. Os homens seguiram-no, numa confusão horrível. Foram esmagados
contra as rochas submersas e continuaram a deslizar, à excepção de um.
Frona, numa canoa (já acorriam uma dúzia delas em auxílio dos sinistrados),
viu-o agarrar-se aos rochedos com dedos a escorrer sangue. Viu o rosto lívido
e a agonia do seu esforço; mas as mãos desprenderam-se-lhe e foi arrastado,
quando o seu camarada livre o estava mesmo a alcançar. Fora do alcance da
vista deram o salto seguinte, aparecendo durante um segundo, lutando
ainda, no baixio do rápido.
Uma canoa apanhou o homem que nadava, mas os restantes
desapareceram num comprido troço de águas rápidas e profundas. Durante
um quarto de hora as canoas andaram, as voltas, encontrando depois os
mortos, calmamente encalhados na reversa. Foi requisitado um cabo a um
barco que vinha a subir, assim como uma parelha de cavalos de uma
caravana da margem; os despojos foram rebocados para terra. Frona
contemplou os cinco gigantes jovens estendidos na lama, com os ossos
partidos, mutilados, indefesos. Continuavam presos ao carrinho, e as pobres
cargas inúteis estavam ainda presas as costas.
O sexto estava sentado no meio, de olhos enxutos e atordoados. A doze
pés de distância, a torrente permanente de vida corria. Frona misturou-se a
ela e prosseguiu caminho.
As sombrias montanhas cobertas de abetos apertavam-se no canhão
Dyea, e os pés dos homens pisavam o solo úmido, sem sol, transformando-o
num lamaçal. Procuravam então novos caminhos, até haver muitos. Num
desses caminhos Frona encontrou um homem estendido, ao abandono, na
lama. Estava deitado de lado, de pernas abertas e um braço enterrado
debaixo de si, sobrecarregado por um fardo volumoso. A face repousava
descansadamente na lama, no rosto havia uma expressão de
contentamento. Quando a viu os olhos brilharam-lhe alegremente.
— já era tempo—saudou-a o homem.—Há uma hora que estou a espera.
—Isso mesmo—disse, quando Frona se debruçou sobre ele.—Desaperte aí
essa correia. Maldita coisa! Não conseguia chegar-lhe.
— Está magoado?
Del Bishop libertou-se das correias, sacudiu-se e apalpou o braço torcido.
—Ná. São como um pêro, obrigado. E não tenho de que me queixar, não
senhor.—Adiantou-se e limpou as mãos enlameadas num arbusto baixo.—Éa minha pouca sorte. Mas descansei um bocado, por isso não vale a pena
pensar mais no caso. 'Stá a ver: tropecei naquela raizita ali e pumba,
catapumba! Virei de cangalhas, sem conseguir chegar a fivela. E aqui fiquei
estendido durante uma hora maldita pois toda a gente ia pelo carreiro de
baixo.
— Mas porque não chamou?
— Para os obrigar a subir a colina até aqui? Eles, já cansados com a sua
própria faina? Por nada desta vida! Não valia a pena. Se alguém me
obrigasse a mim a trepar até aqui, só por ter caído, eu tirava-o da lama, claro,
e depois tornava a atirá-lo pra lá. Além disso sabia que alguém havia de
aparecer, mais tarde ou mais cedo.
— Oh, você é desenrascado!—exclamou a rapariga, apropriando-se da
expressão de Del Bishop.—Está mesmo talhado pra esta terra!
— Pois 'stou — respondeu ele, colocando o fardo aos ombros e partindo
em passo ligeiro.—No fim de contas, descansei um bom bocado.
O carreiro descia através dum pântano íngreme a beira do rio. Um
pinheiro esguio estendia o alto tronco, dobrando-se a meio até tocar a água.
A corrente batia no tronco afilado, imprimindo-lhe um balanço rítmico, os
pés dos caminheiros haviam-lhe desgastado a superfície batida pelas ondas.
Estendia-se num comprimento de oitenta pés, numa insegurança
melindrosa. Frona subiu para cima dele, sentiu-o oscilar debaixo de si,
escutou o fragor da água, viu a torrente enrouquecida... e recuou. Desfez o
nó do atacador do sapato e fingiu atar o mesmo com grande cuidado,
quando um grupo de índios surgiu da floresta, através da lama. A frente
vinham três ou quatro rapazes, seguidos por muitas mulheres, todos
dobrados sob o peso de grandes fardos que transportavam a cabeça. Atrás
vinham as crianças, carregadas conforme as idades, e no fim, meia dúzia de
cães, de línguas pendentes e arrastando-se com dificuldade sob o peso das
várias cargas.
Os homens olharam-na de soslaio, e um deles murmurou baixo qualquer
coisa. Frona não o ouviu mas o riso que percorreu toda a fileira fez-lhe subir
o rubor da vergonha ao rosto, elucidando-a mais claramente do que as
palavras. O seu rosto escaldava, porque se sentia envergonhada aos seus
próprios olhos, mas não o demonstrou. O chefe pôs-se de lado, e um a um, e
nunca mais do que um de cada vez, percorreram a perigosa passagem. Na
curvatura, a meio, o peso deles obrigava a árvore a submergir e eles
tacteavam o caminho com água até aos tornozelos na torrente fria eimpetuosa. Mesmo as criancinhas fizeram a travessia sem hesitar, e depois
os cães, latindo, relutantes, mas incitados pelo chefe. Depois de o último ter
atravessado, o chefe voltou-se para Frona:—Caminho de cavalos—disse
apontando para o flanco da montanha.—Melhor seguir caminho cavalos.
Mais longe; muito melhor.
Mas ela abanou a cabeça e esperou até ele atingir a outra margem;
porque sentia o desafio, não só ao seu orgulho, mas ao orgulho da sua raça,
que era maior do que o daquele, tal como a raça era maior do que ela. E assim
subiu para o tronco e, com os olhos na gente estranha diante de si, avançou
para o turbilhão de espuma branca.
Encontrou um homem a chorar ao lado do caminho. O seu fardo,
desajeitadamente atado, estava pousado no chão. Tinha tirado um sapato, e
o pé descalço mostrava-se inchado e coberto de bolhas.
— O que tem?—perguntou Frona postando-se em frente.
O homem levantou os olhos para ela, em seguida baixou-os para as
profundezas onde o rio Dyea cortava a escuridão sombria com a sua prata
brilhante. As lágrimas ainda lhe borbulhavam nos olhos; ele fungava.
— O que tem?—repetiu.—Posso ajudá-lo em alguma coisa?
— Não. Como é que me havia de ajudar? Tenho os pés em ferida, as
costas quase quebradas e estou exausto. Pode remediar qualquer destas
coisas?
— Bem—afirmou a rapariga judiciosamente.—Tenho a certeza que podia
ser pior. Pense só nos homens que acabaram de chegar a praia. Levarão dez
dias ou duas semanas a andar com as bagagens as costas até ao sítio onde o
senhor já chegou.
— Mas os meus camaradas deixaram-me e foram pra diante—gemeu ele
num apelo servil a piedade.Estou completamente só e não me sinto capaz
de dar nem mais uma só passada. Só penso na minha mulher e nos meus
filhos. Deixei-os nos Estados Unidos. Oh, se eles me pudessem ver agora!
Não posso voltar para eles e não posso continuar pra frente. É de mais para
mim. Não aguento trabalhar assim como um cavalo. Não nasci pra trabalhar
como um cavalo. Morreria, sei que morreria, se o fizesse. Oh, que hei de eu
fazer? Que hei de eu fazer?
— Porque o abandonaram os seus camaradas?
— Porque eu não era forte como eles; porque não conseguia carregar
tanto peso como eles nem durante tanto tempo. Riram-se de mim e
abandonaram-me.— Tiveram alguma complicação?—perguntou Frona.
— Não.
— O senhor parece bem constituído e forte. Deve pesar uns setenta e
cinco quilos.
— Oitenta—corrigiu.
— Não tem aspecto de doente. Esteve alguma vez fraco?
— N...não!...
— E os seus camaradas? São mineiros?
— Nunca na vida. Trabalhavam no mesmo estabelecimento que eu. É o
que mais me custa, compreende? Conhecíamo-nos há anos. E irem-se assim
embora e deixarem-me só por eu os não poder acompanhar!
— Meu amigo—Frona sabia que defendia a raça -, o senhor é tão forte
como eles. Pode trabalhar tanto como eles e carregar o mesmo. Mas é fraco
de coração. Isto não é lugar para os fracos de coração. Não pode trabalhar
como um cavalo porque não quer. Por conseguinte esta terra não precisa de
si. O Norte precisa mas é de homens fortes... fortes de alma, não de corpo. O
corpo não importa. Portanto volte para casa. Não o queremos cá. Se vier
morre, e depois que será da sua mulher e filhos? Venda pois o seu
equipamento e volte para trás. Estará em casa daqui a três semanas. Adeus.
Atravessou o acampamento de Sheep. Algures, no alto, um imenso
glaciar, sob a pressão contida de um açude subterrâneo, tinha rebentado em
pedaços e caído com milhares de toneladas de gelo e água pela garganta
rochosa abaixo. Atrilha estava ainda escorregadia com a lama da enxurrada
e os homens rebuscavam desconsoladamente entre os destroços das tendas
e dos esconderijos de provisões derrubados. Mas aqui e ali trabalhava-se com
uma pressa nervosa, e os cadáveres rígidos a beira do caminho atestavam
mudamente a sua tarefa. Algumas centenas de jardas mais adiante, o
trabalho da fuga prosseguia ininterruptamente. Os homens pousavam as
cargas em cima de pedras salientes, contavam uns aos outros como haviam
escapado enquanto retomavam o fôlego e depois avançavam de novo aos
tropeções para o seu trabalho.
O sol do meio-dia batia nos rochedos da «Escalada». A floresta desistira
da luta, e o calor sufocante emanava da rocha despida. De cada um dos
lados elevavam-se nervuras de terra disfarçadas pelo gelo, nuas e vigorosas
na sua nudez. Ao cimo erguia-se o Chilcoot batido pela tempestade. Pela
sua vertente acima, descarnada e escabrosa, formigava um carreiro estreito
de homens. Mas era um carreiro interminável. Saía da última orla devegetação anã cá em baixo, traçava uma linha negra através de uma tira
deslumbrante de gelo passando ao lado de Frona, que comia o seu almoço a
beira do caminho. E prosseguia, pelo declive íngreme acima, tornando-se
mais delgado e estreito, até se contorcer e serpear, qual coluna de formigas, e
desaparecer na crista do Desfiladeiro.
Estava ela a olhar o Chilcoot envolvido numa neblina movediça e num
remoinho de nuvens, quando uma tempestade de granizo e vento desabou,
rugindo, sobre os pigmeus esforçados. A luz do dia extinguiu-se, e reinou
uma escuridão profunda. Mas Frona sabia que algures lá em cima,
segurando-se sempre e lutando incansavelmente, a longa fila de formigas
serpenteava em direeção ao céu. Tal pensamento emocionou-a. O velho
amor do Homem pelo domínio!—e meteu-se na fila que saía da tempestade,
lá em baixo, e desaparecia na tempestade adiante.
Atravessou a garganta do desfiladeiro num turbilhão de vapor, desceu
de gatas pelas ruínas vulcânicas daquilo que dera origem ao Chilcoot e
deteve-se na beira acoitada pelos ventos do lago que enchia o fosso da
cratera. O lago estava zangado e encapelado e, embora uma centena de
provisões aguardassem transporte, não havia barcos a navegar de um lado
para o outro. Um esqueleto frágil de varas coberto de lona encerada jazia em
cima das rochas. Frona procurou o proprietário, um rapaz de rosto alegre,
olhos negros e argutos e queixo saliente. Sim, era ele o barqueiro, mas não
trabalhava mais naquele dia. A água estava demasiado picada para
transportes. Levava vinte e cinco dólares pelos passageiros, mas não
aceitava passageiros nesse dia. Não tinha dito já que estava demasiado
picado? Era essa a razão.
— Mas leva-me a mim, não leva?
Abanou a cabeça e contemplou o lago.
— Lá no extremo está pior do que aqui. Nem os barcos grandes de
madeira conseguem manobrar. O último que tentou, com um grupo de
homens a bordo, foi arrastado para a praia ocidental. O vimos
perfeitamente. E como não há nenhum caminho por lá, tiveram de
acampar até o vento amainar.
— Mas eles estão em melhor situação do que eu. Os meus apetrechos de
acampar estão em Happy Camp, e não posso ficar aqui assim.—Frona sorriu
de modo cativante, mas no sorriso não havia qualquer apelo; nenhuma
fragilidade feminina apelando para a força e cavalheirismo do homem.—
Reconsidere, por favor e leve-me.— Não.
— Dou-lhe cinquenta.
— Não, já disse.
— Mas eu não tenho medo, sabe?
Os olhos do rapaz faiscaram, zangados. Avançou para ela
repentinamente, mas, pensando segunda vez, não pronunciou as palavras
que lhe acudiam aos lábios. Compreendera o insulto involuntário que
lançara, e ia pedir desculpa. Mas, pensando segunda vez, também
permaneceu calada; porque, tendo-o observado, compreendeu que era
talvez a única maneira de conseguir o que queria. De pé, os corpos vergados
pela tempestade, como os marinheiros nos convés inclinados, olhavam-se
nos olhos, obstinadamente. O cabelo do rapaz estava empastado formando-
lhe anéis molhados na testa, ao passo que o dela, em cachos mais longos,
esvoaçava-lhe furiosamente em volta do rosto.
— Então venha daí!—Atirou a embarcação a água com um empurrão,
zangado, e jogou os remos para dentro.—Suba! Levo-a, mas não pelos seus
cinquenta dólares. Paga o preço normal e nada mais.
Uma lufada de vento apanhou a leve embarcação e arrastou-a de lado
durante uma vintena de pés. A água entrava num chuveiro contínuo e
castigador, e Frona deitou-se imediatamente ao trabalho com a lata de
baldear.
— Oxalá sejamos arrastados para a praia - gritou ele, inclinado para
diante sobre os remos.—Seria embaraçoso... para si.—Levantou os olhos e
olhou-a selvaticamente no rosto.
— Não—corrigiu ela.—Mas seria muito aborrecido para nós ambos... uma
noite sem tenda, nem cobertores, nem fogueira. E além disso não vamos ser
arrastados para a praia.
Frona saltou para as rochas escorregadias e ajudou o rapaz a içar a
embarcação de lona e a deitar a água fora. De cada um dos lados erguiam-se
paredes de rocha nua a escorrer água. Uma forte saraivada caía
continuamente, através da qual se percebiam na escuridão que se adensava
alguns comboios de provisões em movimento.
— E melhor apressar-se—aconselhou ele, agradecendo-lhe a ajuda e
tornando a lançar o barco a água.—São duas milhas de caminho difícil até ao
«Acampamento Feliz». Não encontra abrigo nenhum até lá, por isso é
melhor apressar-se. Adeus.
Frona estendeu a mão e, pegando na dele, disse:—O senhor é umhomem valente.
— Oh, não diga isso!—Retribuiu-lhe o aperto de mão com ardor; o seu
olhar exprimia admiração.
Uma dúzia de tendas mantinha-se precariamente agarradas as cavilhas,
na extremidade da linha de barracas de madeira do «Acampamento Feliz».
Frona, extenuada pelo dia, foi de tenda em tenda. As saias molhadas
pegavam-lhe as pernas cansadas, e o vento açoitava-a com brutalidade, de
todos os lados. De uma vez, através de uma parede de lona, ouviu um
homem praguejar generosamente e teve a certeza de que era Del Bishop.
Mas uma espreitadela para o interior confirmou-lhe o contrário, e assim
continuou a vaguear em vão até chegar a última tenda do acampamento.
Desprendeu a aba da porta e espreitou. Uma vela crepitante iluminava o
seu único ocupante, um homem, de joelhos, a soprar com força a fornalha
de um fumacento fogão yukon.



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