História A Garota Oculta - Capítulo 2


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Cairo, Dinheiro, Divida, Domésticos, Egito, Empregadas, Escrava, Forçada, Irmãs, Menina, Pagamento, Rica, Roubo, Servente
Exibições 31
Palavras 1.084
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela
Avisos: Linguagem Imprópria, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Ooi Gente, se gostar, comente para eu saber que tem alguém lendo. Obrigada

Capítulo 2 - Capítulo Dois


Eu tinha quatro irmãos mais novos e cuidava deles enquanto meus pais estavam trabalhando.
Que eu saiba, apenas uma das minhas irmãs frequentou a escola. Ela era a quarta criança da família e foi criada pelos pais da minha mãe. Eu nunca a via, exceto nas férias. Essa irmã levou uma vida completamente diferente do resto de nós. Ela chegou até a ir para a faculdade, o que era algo raro no Egito para pessoas na nossa situação. Não sei ao certo por que ela vivia com nossos avós, mas talvez tenha sido por ela ser a caçula na época em que o terremoto aconteceu. Talvez meus avós tenham se oferecido para cuidar dela temporariamente, só enquanto meus pais se reorganizavam, e a situação acabou se tornando permanente.
Entre os meus irmãos, duas meninas gêmeas eram as mais velhas. Uma nos deixou cedo para se casar, e nunca mais a vi depois disso. Foi como se ela tivesse aproveitado a primeira oportunidade para escapar da família. A outra gêmea, Zahra, era a rebelde da casa. Ela estava sempre se metendo em encrenca. Deve ter sido por isso que meus pais a mandaram trabalhar para uma família rica que vivia a muitas horas dali.
Quanto aos meus irmãos homens, não sei ao certo o que eles faziam. Sei que alguns dos mais velhos estudavam, pois de manhã eles se levantavam, pegavam seus livros e andavam até a escola, que não era muito longe de casa.
Pelo menos isso é o que eu acho que eles faziam na maior parte dos dias. Em outros, talvez arrumassem trabalho ou ficassem enchendo a cara em uma esquina qualquer. Bem que eu poderia ter pedido aos meus irmãos para me ensinar a ler e a escrever, mas, por algum motivo, essa ideia nunca passou pela minha cabeça.
Meu irmão mais velho, Hassan, nasceu depois das gêmeas e antes da irmã que foi morar com os nossos avós. Sei o seu nome porque esse era o meu sobrenome de nascença. Nasci Shyima El-Sayed Hassan, e meu irmão, Hassan
Hassan. “El-Sayed” era o sobrenome de solteira da minha mãe – no Egito, era
comum usar o sobrenome de solteira da mãe como o nome do meio do filho.
Lamento dizer que, embora pudesse arriscar um palpite, não tenho cem por cento de certeza sobre o nome dos meus outros irmãos.
Sei que, depois da irmã que foi morar com os avós e antes de mim, vieram dois meninos. Eles eram meus irmãos, mas eu não gostava muito deles. Eu era
nova demais para conhecer bem o Hassan, mas aqueles dois garotos estavam se tornando iguais ao pai. Eram grosseiros, barulhentos e reclamões, mas minha
maior lembrança deles é que, sempre que reparavam em mim, vinham com toques inapropriados.
Ninguém jamais tinha me falado para não deixar os outros tocarem
minhas partes íntimas. Na verdade, nem tinha certeza de que era errado o que os
meus irmãos faziam. Não sei direito quando começou; talvez quando eu tinha uns
5 ou 6 anos. Os toques me faziam sentir mal por dentro, então eu evitava aqueles dois sempre que podia. Nunca soube se minha mãe tinha ideia do que eles estavam fazendo, mas acho que não. Não contei a ela, porque não sabia que era errado. Relações familiares eram coisas obscuras para mim, e eu não sabia nada sobre estabelecer limites.
Desde então, eu me pergunto se eles chegaram a tocar alguma das minhas irmãs mais novas, depois que fui embora. Minhas irmãs mais velhas tinham idade suficiente – e não ficavam em casa o suficiente – para não deixá-los se aproveitar delas. Pelo menos eu torço para que fosse desse jeito. Mas é esse o segredo dos agressores: eles escolhem as pessoas mais vulneráveis.
No entanto, certa vez, um dos meus irmãos me salvou. Eu tinha uns 7 anos.
A gente estava brincando sobre uns fardos de feno, empilhados perto de casa. Eu estava descalça e, quando pulei do feno para o chão, pisei em uma lâmina de vidro, decepando todos os dedos do meu pé direito. Eu devia estar em choque.
Nem tinha percebido aquilo até um garoto perguntar:
– Ei, o que aconteceu com o seu pé?
Naquele momento, ainda havia pouco sangue. Às vezes, no caso de amputações, o corpo passa por um choque tão grande que desvia o sangue daquela área por um tempo. Aparentemente, foi o que aconteceu comigo.
Uma das coisas mais estranhas dessa história é que eu não entrei em pânico. Após o acidente, voltei lá e recolhi meus dedos. Então, um garoto da vizinhança me pegou e me levou até meu irmão, que me colocou num tipo de maca. Essas “macas” eram um meio de transporte comum na nossa cidade.
Não senti nada até as pessoas que me carregavam na maca partirem para o hospital. Aí o sangue começou a jorrar e eu fiquei petrificada de medo e dor.
As únicas coisas que ainda lembro do hospital são a cama onde deitei e de estar em um quarto fechado, e não ao ar livre. A cirurgia para recolocar os dedos também permanece na minha memória, já que foi feita sem anestesia. Você pode imaginar a dor! Uma enfermeira segurava meu corpo, que se contorcia, enquanto os médicos trabalhavam no meu pé. Seus rostos estavam cobertos por
máscaras, por isso não pude ver nada além da preocupação em seus olhos.
Eu estava com muito medo de morrer. A dor durante o procedimento foi de longe a maior que já tinha sentido na vida, e depois, quando vi a quantidade assustadora de sangue nas toalhas cirúrgicas usadas na operação, quase desmaiei.
Logo após a cirurgia fui para casa, apesar de não saber exatamente como tinha chegado ali. E então fiquei de repouso, mantendo os pés para cima, por um longo tempo. Quando comecei a andar de novo, meu pai disse:
– Quer perder seus dedos outra vez? Eles não sararam. Sente-se.
O fato de aquelas palavras terem se gravado em minha mente é um sinal de que, naquela época, meu pai estava em casa parte do tempo. Sei que minha mãe trocou as ataduras do meu pé muitas vezes. Devo ter retornado ao médico para tirar os pontos, mas essa parte eu não lembro. Hoje tenho todos os dedos do pé, mas só dois deles funcionam normalmente – meu dedão e o dedo ao lado.
Minha vida no Egito era assim: felicidade simples interrompida por uma tragédia inimaginável. Era um mundo inseguro. Mas era o meu lar.



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