História A Maldição de Levítico - Capítulo 34


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Drama, Fanatismo, Preconceito, Religião, Romance, Tragedia, Violencia
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Palavras 1.213
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Lemon, Romance e Novela, Violência, Yaoi
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Nudez, Pansexualidade, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 34 - Como um Band-Aid


Dante

Assim que entrei naquela sala fria com a uma iluminação tão forte que pareceu queimar minhas retinas, foi que comecei a tremer, encolhido de medo. Sempre fui muito medroso e quando me sentia ameaçado, começava a tremer como louco, era inevitável.

Tudo aconteceu muito depressa, a porta se fechou assim que entrei, com a mão boa úmida fechada num punho no momento em que me deparei com as paredes incrivelmente brancas, assim como todo o resto do recinto, mesas de cirurgia e um cara muito suspeito olhando para mim como se eu fosse uma presa.

Andei para trás, recuando como um covarde e senti a textura da porta, deixando claro de que nós estávamos sozinhos. Ele segurava um bisturi de modo ameaçador, não gostava de olhar para ele porque usava uma máscara que escondia a sua real expressão, deixando apenas exposto os dois abismos vazios e escuros que eram seus olhos.

Engolindo em seco, deixei que se aproximasse, porque não tinha mais para onde ir, para onde fugir. Como disse meu pai: aquela era a minha nova casa.

— Não tenha medo — disse com a voz tão abafada que nem deu para ter noção da sua tonalidade real, de suas intenções. — O que houve com seu braço?

Cheguei ainda mais para trás, querendo atravessar a parede e ficando na ponta dos pés. Nunca gostei de médicos ou de hospitais, cheiro de remédio me enjoava e aqueles seres de jalecos brancos cuja expressão era escondida ao ponto de mascarar suas reais intenções me deixavam ainda mais intimidado.

Com as luvas brancas, ele tocou meu braço ferido, me fazendo gemer e pressionar mais forte os lábios a fim de amenizar o som do grito que estava tentado a soltar.

— Dante Paiva, não é? — perguntou, com aquela mesma voz sem tom. — O novo paciente?

Assenti, tremendo tanto que mal consegui me manter em pé.

— Serzinho nervoso você, não? — sua tentativa de fazer humor só me deixou com ainda mais medo dele, principalmente depois da risada fria que soltou.

— Eu quero ver o meu pai — gani, girando meu corpo para alcançar a maçaneta.

Com a mão enluvada, ele tocou meu braço ferido, com uma força que me fez gritar, o grito mais alto que já soltei na minha vida, senti meus pulmões perderem completamente o ar, meus olhos revirarem, tudo ficando preto por alguns segundos.

— Com esse braço você não vai a lugar algum — falou, com uma calma bem assustadora.

Ele me puxou pelo ombro, tirando-me de perto da porta e a trancou na primeira oportunidade que teve. O lugar tinha algumas portas que ligavam aos consultórios vizinhos — uma de cada lado para ser mais exato e ambas pareciam trancadas — e a sala era repleta de macas e aparelhos que faziam barulhos estranhos.

Tenso, sentei-me em uma delas com aquela mesma dor na bunda que me fez respirar fundo por um tempo. Torci em silêncio para que me tirassem logo dali, que o tratamento fosse rápido e que realmente funcionasse, mesmo eu não colocando muita fé, até porque eu sabia melhor do que ninguém que não estava doente.

Comecei a balançar os pés, com as costas curvadas e tentando proteger meu braço a todo custo, porém me rendi assim que seu toque fez meus dentes trincarem.

Sem que eu sequer permitisse, suas mãos passearam pelo meu ferimento ainda coberto pelo lençol manchado e fechei os olhos com força assim que percebi que ele iria por fim tirar o pano, que já estava grudado na minha pele.

— Não devia ter colocado esse pano — disse, com a voz pausada e bem profissional. — Vai ser difícil tirar sem que você sinta dor — logo sua máscara se moveu, como se ele tivesse sorrindo — Não que você precise se preocupar com isso, não é? Como já deve saber, o tratamento não é muito amigável — Como sua afirmação não fez o menor sentido para mim, permaneci calado.

Ele examinou meu machucado com muita atenção e sua testa vincou, revelando rugas bem expressivas, sinais claros de velhice, mesmo que o cabelo branco coberto com a touca nada atrativa já fizesse muito bem o seu papel.

Comecei a inspirar com força no momento em que ele o puxou, do mesmo modo como as pessoas faziam com um band-aid, sem qualquer delicadeza, cuidado ou preocupação com o meu bem estar, como se não se importasse nem um pouco se eu sentiria dor ou não.

A dor foi tão intensa e instantânea, que mal deu tempo de gritar, meus olhos apenas reviraram um pouco e o fedor de carne podre invadiu minhas narinas, fazendo minha cabeça girar.

Abri a boca, soltando um gemido, lágrimas escorriam pelo canto de meus olhos e procurei fazer força para afugentá-las, embora não estivesse com condições de dar uma de machão. 

— Hum — Pude ver sua testa franzindo assim que seus olhos pousaram naquela coisa azulada e apodrecida, que antes era meu braço. O fedor era tanto, que deixava o ar terrivelmente claustrofóbico, estava louco para abrir as janelas — se houvesse uma — ou a porta, pois aquele lugar estava meio que prendendo minha respiração — Seu braço gangrenou.

— Gan o que? — Tive que fazer força para falar, estava suando. Parecia que toda a minha força estava sendo tirada de mim e eu não conseguia mais sentir meu braço, perdi completamente a minha sensibilidade, meus dedos não obedeciam meus comandos — se é que aquela carne apodrecida e azulada poderia continuar sendo chamada de dedos.

— Gan-gre-nou — repetiu, separando as sílabas como se eu tivesse um problema mental e não pudesse entender as coisas. — É uma gangrena úmida, tem que ser tratada imediatamente, caso contrário poderá ser fatal. Gangrena é a morte de um tecido, seu braço está infeccionado e não há muito a ser feito.

— Como não há muito a ser feito? — Com a mão livre, tapei meu nariz e comecei a respirar pela boca. — O senhor não é médico? Eu vou morrer?

— Não, mas se continuar dessa forma pode ser fatal, sua carne está apodrecida. O tecido morreu devido à infecção. Você quebrou o braço e não teve tratamento médico como posso ver — Ainda analisando-o, ele suspirou. — Como eu disse, não há muito a ser feito.

— Como assim? — sacudi a cabeça, soando desesperado. — Meu pai quebrou meu braço numa briga que tivemos — Não quis dar muitos detalhes, então fui bem direto ao ponto. — Fiquei só um tempo com o braço assim, falaram que vocês iriam cuidar de mim.

Meus olhos se encheram de lágrimas. Eu não queria morrer por causa daquilo e era quase isso que estava tentando me dizer.

— Você não vai morrer, meu jovem — tranquilizou-me, com um tom pacifico. — É só eliminar a área apodrecida.

— O que isso quer dizer? — Uni as sobrancelhas, demonstrando confusão.

— Quer dizer que teremos que amputar o membro — disse, se aproveitando do meu choque para me posicionar na cama da forma como bem entendia e logo vários fios foram conectados em mim, e minha cabeça afundada no travesseiro.

Pensei em gritar, mas sabia que não adiantaria nada porque ninguém me ouviria, ninguém se importava comigo, eu só tinha a mim.

Com o tempo, um dos tubos conectados através de uma agulha me causaram a sensação de sonolência, que fez com que eu apagasse quase no mesmo instante.

E aquela foi a primeira e única vez que usaram anestesia. 



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