História A morte de Eliza - Capítulo 3


Escrita por: ~

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Categorias The 100
Tags Clexa, The100 Jaredmerski
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Palavras 2.434
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Ficção, Luta, Policial, Universo Alternativo, Violência
Avisos: Álcool, Cross-dresser, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Spoilers, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Volteei?! 😘😘

Capítulo 3 - Capítulo Dois


Estamos andando há 28 minutos. Olho para o relógio do painel, os números azuis luminosos que já começam a queimar meu subconsciente. A americana não disse uma palavra. Nem umazinha. Sei que isso não tem nada a ver com medo. Sou eu que estou com a arma, mas sou a única de nós duas que está com medo. E não entendo por que ela não fala. Talvez, se ela apenas ligasse o rádio... alguma coisa... porque o silêncio está me matando. Estou tentando ficar de olho nela e ao mesmo tempo descobrir onde estamos. Mas até agora os únicos marcos que vi são árvores e uma ou outra casa de alvenaria ou um prédio em ruínas — tudo parece igual à fortaleza.

Com 32 minutos, percebo que em algum momento baixei a arma. Meu dedo ainda está no gatilho e estou pronta para usá-la, se precisar, mas fui idiota em pensar que poderia segurá-la apontada para ela por mais do que alguns minutos.

Não sei o que vou fazer quando me cansar. Por sorte, a adrenalina está me mantendo bem acordada, por enquanto.

— Qual o seu nome? — pergunto para ela, na tentativa de quebrar seu silêncio.

Preciso fazer com que ela confie em mim e queira me ajudar.

— Meu nome é indiferente.

— Por quê?

Ela não responde.

Engulo um nó na garganta, mas outro se forma no lugar.

— Meu nome é Eliza.

Ainda nenhuma resposta.

É um pouco como uma tortura, o modo como ela me ignora. Começo a achar que é exatamente isso que ela está fazendo: me torturando com o silêncio.

— Preciso que você me ajude — digo. — Sou prisioneira de Javier desde os 14 anos.

— E você acha que vou ajudar porque também sou americana — diz ela, simplesmente.

Hesito antes de responder:

— E-eu... bem, por que você não me ajudaria?

— Não é minha função interferir.

— Então qual é a sua função? — pergunto, com um toque de revolta. — Matar pessoas a sangue-frio?

— Sim.

Um arrepio percorre minhas costas.

Sem saber o que dizer em resposta a algo assim, ou mesmo se devo responder, decido que é melhor mudar de assunto.

— Você pode só me deixar do outro lado da fronteira? — pergunto, ficando mais desesperada. — Eu... — Baixo o olhar, envergonhada. — Eu faço o que você quiser. Mas por favor, por favor, me ajude só a cruzar a fronteira.

Sinto as lágrimas tentando brotar dos meus olhos, mas não quero que ela me veja chorar.

Não sei por que, mas não posso permitir isso. E sei que ela entende o que significa fazer o que ela quiser. Eu me odeio por oferecer meu corpo para ela, mas, como já falei sobre o desespero...

— Se você está se referindo à fronteira com os Estados Unidos — diz ela, e por alguma razão sua voz me surpreende —, então precisa saber que fica mais longe do que pretendo levar você no meu carro.

Desencosto do banco um pouquinho.

— B-bem, até onde vai me levar?

Eu vejo seus olhos claros no retrovisor de novo. Eles encontram os meus, e isso também envia um calafrio pelas minhas costas.

Ela não responde.

— Por que você não quer me ajudar? — pergunto, finalmente aceitando o fato de que tudo o que eu disser será inútil. E como ela continua sem responder, digo com exasperação: —Então pare o carro e me deixe descer. Vou fazer o resto do caminho a pé.

Acho que os olhos dela sorriram um pouco para mim no espelho. Sim, tenho certeza de que foi isso que vi. Ela sabe tão bem quanto eu que é melhor ser arrastada de volta para a fortaleza do que sair do carro e ficar sozinha.

— Você vai precisar de mais do que as seis balas que tem nessa arma.

— Então me dê mais balas — digo, ficando com mais raiva. — E esta não é a única arma que eu tenho.

Isso parece ter despertado seu interesse, ainda que pouco.

— Eu peguei o rifle do vigia quando bati na cabeça dele e passei pela cerca.

Ela assente uma vez, tão sutilmente que, se eu tivesse piscado naquele momento, não teria visto.

— É um bom começo — diz ela, e então volta a olhar para a estrada de terra por um momento e vira à esquerda no final. — Mas o que vai fazer quando acabar a munição? Porque vai acabar.

Eu a odeio.

— Vou correr.

— E eles vão pegar você.

— E eu vou esfaqueá-los.

De repente, a americana sai devagar da estrada e para o carro.

Não, não, não! Não era para acontecer assim. Eu esperava que ela continuasse dirigindo, pensando que, se me deixasse aqui sozinha desse jeito, o que acontecesse comigo pesaria em sua consciência. Mas acho que ela nem tem consciência, na verdade. Seus olhos verdes me fitam calmamente pelo retrovisor, sem um pingo de compaixão ou preocupação. Sinto vontade de dar um tiro na nuca dela, só por princípio. Ela apenas me encara com aquele olharzinho de o-que-você-está-esperando?, e eu não cedo. Olho com cautela para a porta, depois para ela, para minha arma e para ela de novo.

— Você pode me usar como moeda de troca — digo, porque é só o que me resta.

Suas sobrancelhas mal se mexem, mas já me basta ter chamado sua atenção.

— Sou a favorita de Javier — continuo. — Sou... diferente... das outras garotas.

— O que a faz pensar que preciso de uma moeda de troca? — pergunta ela.

— Bem, Javier pagou o total dos 3,5 milhões?

— Não é assim que funciona — diz ela.

— Não, mas eu sei como Javier funciona, e, se ele não pagou o total antes de você partir, não vai pagar nunca.

— Você vai descer?

Eu suspiro, olho pela janela de novo, levanto a arma outra vez e digo:

— Você vai me levar até a fronteira.

A americana passa a língua pelos lábios secos, e então o carro começa a se mover de novo.

A esta altura, estou improvisando tudo. Todas as partes planejadas da minha fuga terminaram quando entrei no carro dela.

Quando a americana falou da fronteira dos Estados Unidos, me pareceu que estou mais perto das fronteiras de outros países do que da americana, e isso me apavora. Se eu estiver mais perto da Guatemala ou de Belize do que dos Estados Unidos, então duvido muito que vá sair disso viva. Eu olhei os mapas. Fiquei naquele quarto, muitas vezes, correndo a ponta do dedo pelas estradinhas entre Zamora e San Luis Potosí e entre Los Mochis e Ciudad Juárez.

Mas sempre bloqueei por completo da minha mente a possibilidade de estar mais ao sul, porque nunca quis aceitar que poderia estar tão longe de casa.

Casa. Essa é, realmente, uma palavra muito artificial. Eu não tenho casa nos Estados Unidos. Acho que nunca tive. Mas mesmo assim, foi lá que nasci e fui criada, embora minha mãe pouco tenha feito para me criar, na verdade. Mas eu quero ir para casa porque vai ser sempre melhor do que o lugar em que estive nos últimos nove anos da minha vida.

Posiciono minhas costas coladas parte na porta e parte no banco, para olhar diretamente a americana. Ainda não sei por quanto tempo vou conseguir continuar com isso. E ela tem noção disso.

Talvez eu devesse simplesmente atirar nela e ficar com o carro. Por outro lado, pouco vai adiantar quando eu estiver dirigindo sem rumo neste país estrangeiro onde não vi nada além de violência, estupro, assassinato e tudo o mais que se possa imaginar. E Javier é um homem muito poderoso. Muito rico. A fortaleza é uma pocilga e engana. Ele poderia ser como os chefões do tráfico que eu via quando tinha o luxo da TV americana, aqueles com casas ricas e imaculadas, com piscinas e dez banheiros, mas pelo visto Javier prefere disfarçar. Não sei no que ele gasta sua fortuna, mas não é com imóveis.

Já faz mais de uma hora. Estou ficando cansada. Sinto o ardor no fundo dos meus olhos se espalhando pela borda das minhas pálpebras. Não sei quem penso que estou enganando. Vou ter que dormir em algum momento, e, assim que pegar no sono, vou acordar de volta na fortaleza, amarrada à cadeira do quarto de Javier, ou talvez nem acorde mais.

Preciso continuar falando para me ajudar a ficar acordada.

— Você não pode me dizer seu nome? — tento mais uma vez. — Olha, eu sei que não vou sair deste país viva. Nem do seu carro, aliás. Sei que minha tentativa de fuga foi desperdiçada assim que pus o pé para fora daquele portão. Então o mínimo que você pode fazer é falar comigo. Pense nisso como minha última refeição.

— Infelizmente, não sou muito boa como ombro amigo.

— Então você é boa em quê? — pergunto. — Além de matar gente, é claro.

Noto que sua mandíbula se move um pouco, mas ela não me olha pelo retrovisor há algum tempo.

— Dirigir — responde ela.

Bem, isso não está adiantando nada.

Eu quero chorar de frustração.

Mais quinze minutos de silêncio se passam e eu noto que os arredores começam a parecer familiares demais. Estamos andando em círculos desde que partimos. Por uma fração de segundo, penso em dizer algo a respeito, mas decido que talvez seja melhor não deixar que ela perceba que notei.

Ergo um pouco o corpo do banco, aponto a arma para ela e digo:

— Vire à esquerda aqui.

E faço isso por mais vinte minutos, obrigando-a a ir aonde eu mando, mesmo sem fazer ideia de aonde seja. E ela aceita esse jogo sem se estressar, sem me dar a mínima impressão de estar preocupada ou com medo por ter uma arma apontada para suas costas. Quanto mais continuamos com isso, mais eu começo a perceber que, embora eu esteja com a arma, ela tem toda a situação mais sob controle do que eu achei que tinha.

No que foi que eu me meti?

Outros longos minutos se passam e eu perco a noção do tempo. Estou muito cansada.

Minhas pálpebras estão ficando mais pesadas. Eu desencosto a cabeça do banco e aperto o botão para baixar o vidro. O ar quente noturno invade o carro, jogando meu cabelo loiro no rosto. Faço força para arregalar os olhos e fico em uma posição mais desconfortável para me ajudar a me manter acordada, mas logo percebo que nada disso está funcionando.

A americana observa cada movimento pelo retrovisor. Eu a noto de vez em quando.

— Por que você é a favorita dele? — pergunta ela, e isso me atordoa.

Eu estava convencida de que ela estava esperando todo esse tempo para que eu pegasse no sono; se tivesse esperado mais alguns minutos, é provável que isso acontecesse. E agora ela está conversando comigo? Estou completamente confusa, mas vou aceitar.

— Não fui comprada — respondo.

Ela enfim me fez uma pergunta direta que poderia levar a uma conversa e talvez motivá-la a me ajudar, mas ironicamente o assunto torna difícil tirar vantagem da oportunidade. É difícil falar disso, embora tenha partido de mim.

Espero por um longo momento antes de prosseguir:

— Fui trazida para cá há muito tempo... pela minha mãe. Javier viu algo em mim que não via nas outras garotas. Eu chamo de obsessão doentia, ele chama de amor.

— Entendo — diz ela, e, embora suas palavras sejam poucas, percebo que carregam mais peso do que parece.

— Sou de Tucson — digo. — Só quero voltar para lá. Eu pago. Se você não... me... quer...dou um jeito de pagar em dinheiro. Tenho palavra. Não ia tentar me esconder de você. Daria um jeito de pagar minha dívida.

— Se um chefão do tráfico acha que está apaixonado por você — diz ela, casualmente —,não é de mim que você precisa se esconder.

— Então você sabe que eu estou correndo muito perigo — respondo.

— Sei, mas mesmo assim, não é problema meu.

— Você é humana? — A cada vez que ela fala, eu a odeio mais. — Que espécie de pessoa não ia querer ajudar uma garota indefesa a escapar de uma vida de escravidão e violência, ainda mais depois que ela fugiu do cativeiro e está pedindo diretamente a ajuda?

Ela não responde. Por que isso não me surpreende?

Eu suspiro e me recosto no banco de novo. Meu dedo está com cãibra, de ficar tanto tempo encostado no metal do gatilho. Baixando mais a arma atrás do banco para que ela não veja, troco de mãos tempo suficiente para dobrar e esticar um pouco os dedos, depois forço cada um deles com o polegar para desentrevá-los. A gente não se dá conta do quanto uma arma é pesada até que precisa empunhá-la sem descanso por um bom tempo.

— Não estou mentindo para você — digo. — Sobre Javier e o seu dinheiro.

Flagro seus olhos me encarando pelo retrovisor de novo.

— Tive muito tempo para ver o modo como ele faz negócios — continuo, empunhando a arma na mão direita de novo, sob protestos dos meus dedos doloridos. — Ele prefere matar a pagar.

Seus olhos são esverdeados. Posso vê-los mais claramente agora que estamos atravessando a iluminação pública de uma cidadezinha. E bota “inha” nisso, porque em menos de um minuto somos engolidos de novo pela escuridão da rodovia desolada, sem nada à vista além da paisagem desértica e estrelada. 

E então eu simplesmente começo a falar; minha última tentativa desesperada de me manter acordada. Não me importa mais se ela vai fazer algum acréscimo ao meu monólogo; só preciso continuar consciente.

— Acho que se você tivesse uma filha ou uma irmã, ia se importar um pouco mais. Eu tinha uma vida antes de minha mãe me trazer para cá. Não era grande coisa, mas era uma vida mesmo assim. A gente morava em um trailer minúsculo, infestado de baratas e com paredes tão finas que era como dormir no chão no deserto, no inverno. Minha mãe era viciada em heroína. Crack. Metadona. Todo bagulho que você imaginar, ela adorava todos. Mas eu não. Eu queria terminar o ensino médio, arrumar uma bolsa em qualquer faculdade que me aceitasse e cuidar da minha vida. Mas aí fui trazida para cá e tudo isso mudou. Javier dormiu com a minha mãe por uns tempos, mas ele estava sempre de olho em mim...

Acho que cochilei por um segundo.

Abro os olhos de supetão e inspiro fundo, encostando a cabeça perto do vidro aberto, deixando o ar bater no rosto.

Quando dou por mim, sinto uma dor aguda na têmpora e tudo fica preto.


Notas Finais


Sei que ainda tá cedo... mas estão gostando?


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