História A Morte veio do Céu - Capítulo 1


Escrita por: ~

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Categorias Mitologia Celta, Mitologia Grega, Mitologia Nórdica
Personagens Personagens Originais
Tags Dragão, Dragões, Guerra, Guerreiros, Medieval, Revelaçoes, Romance
Exibições 12
Palavras 3.830
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Fantasia, Saga
Avisos: Álcool, Linguagem Imprópria, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir culturas, crenças, tradições ou costumes.

Capítulo 1 - O Arco Quebrado


A estrada para Vau’Irian era no mínimo monótona. Não que a paisagem não fosse bela – afinal aqueles campos verdejantes tinham algum encanto – mas a planície por onde levava era extremamente entediante. Nada mudava até onde a vista alcançava. Para todos os lados era uma imensidão verde e plana,onde pequenos bosques se espalhavam e vez ou outra o caminho era cortado por estreitos cursos d’água, e suas frágeis pontes de madeira, nas áreas mais encharcadas.

Naquele tempo vivíamos em Rocha Branca, um pequeno vilarejo na metade sul das terras de Alben. Contam os anciãos do vilarejo, que centenas de anos atrás, antes mesmo da vinda dos primeiros homens, dois gigantes disputaram uma giganta no local. A diferença ridícula de tamanho entre os dois, ocasionou o esmagamento do menor, o qual fora martelado pelo vencedor, com a grande rocha que hoje é circundada pelo povoado. Sinceramente não acho que a história seja verdadeira... afinal, quem de fato já viu um gigante?

Já fazia horas que havíamos partido rumo ao Vau, e todo ano era a mesma coisa: terminada a colheita, uma pequena caravana era organizava para ir ao porto vender os excedentes do ano. E todo ano íamos eu, meu primo Joric, e meu tio Olen. Éramos responsáveis pela produção de lã e pastoreio das ovelhas. Eram pelo menos dois dias a cavalo, mas as carroças carregadas com a produção, além de é claro, nossos mantimentos para a viagem, pesavam, tornando o trajeto ainda mais lento.

Levávamos poucas armas, pois poucos eram os homens ricos o suficiente para esse luxo. Na verdade, a maioria dependia de suas foices e forcados para se proteger, pois éramos camponeses, exceto pelos cinco guerreiros fornecidos pelo Senhor Ferman, para escoltar o grupo. Eu carregava meu rústico arco de cerejeira, o qual eu mesmo fizera. Não era a arma mais letal, mas era o suficiente para manter os predadores longe do rebanho, e com certeza causaria algum dano, caso algum salteador surgisse.

– Uther, aproveite o arroio para pegar um pouco de água – me disse tio Olen, indicando os odres que levávamos em nossa carroça, quando nos aproximávamos de mais uma ponte.

Os carros moviam-se lentamente, logo não havia ficado muito para trás quando terminei de encher os odres. Subi a encosta que ladeava o arroio, e atravessei a ponte seguindo rapidamente o grupo, para subir novamente à carroça.

A viagem não era de todo ruim, era sempre divertido passear pela feira de Vau’Irian, apesar dos longos dias que a separavam de Rocha Branca. Além disso, era divertido acampar com o grupo. Sempre contávamos histórias em volta da fogueira, enquanto Edmund tocava seu alaúde ao fundo... Histórias de monstros, heróis, guerras e tesouros. Aquela noite não era diferente.

 

–  E então o valoroso Thurian, em um esforço pela salvação dos últimos povos de Avaloth, liderou a defesa do forte Fallskar, sendo lá sitiado por dezenas de legiões imperiais. Foram noventa dias de conflito – contava Lothar, o padeiro – onde Thurian reunira mil guerreiros, e suas famílias, sob a proteção de seus muros. Lá homens impediram a invasão imperial, mantendo firme os adarves da muralha. Queimavam os aríetes do inimigo, e cobriam o sol com flechas e lanças, as quais foram capazes de deter aqueles porcos, forçando-os ao Termo. - Eu já ouvira aquela história dezenas de vezes, era a favorita de Lothar.

 

Thurian forçara o Termo, reunindo-se frente ao forte, com o relutante Muriz, comandante das tropas imperiais, o qual desejava apenas a morte dos lothirianos. Eram suas ordens buscar apenas a rendição, mas por razões pouco claras – talvez as próprias baixas causadas pelo pequeno exército contra suas tropas – Muriz estendera o conflito por meses.

Foi então que no Termo, desafiou Thurian ao combate, prometendo salvo conduto ao mar – o que era quase o mesmo que uma sentença de morte, já que pouquíssimos homens algum dia haviam arriscado a travessia, na busca pelas terras dos anões – Se falhasse, os últimos lothirianos livres seriam aprisionados como rebeldes. Os guerreiros seriam executados, os velhos provavelmente morreriam escravizados, juntamente com as mulheres e crianças, que certamente seriam vendidas em algum mercado do oriente.

Thurian aceitou o duelo, munido de Estrela Caída, sua espada larga, a lendária lâmina que a mil anos teria sido concebida em forjas do próprio Sol.

Muriz era também um hábil guerreiro, mas Thurian o sobrepujou. Thurian bloqueava os ataques do inimigo, cansando-o. Até que o momento preciso, onde com um súbito golpe cortou o braço da espada de Muriz.

Humilhado, Muriz sangrava implorando misericórdia. Thurian concedeu, mas no momento em que se virava para retornar com seus homens ao forte, Muriz ergueu-se apoiado na mão ilesa, tentando um último e traiçoeiro golpe pelas costas do guerreiro. Thurian prevendo a traição, virou rapidamente, cravando sua espada no coração do comandante.

 

– Uther – chamou Joric, me acordando do devaneio – pegue um pouco de lã para dormirmos.

– Eu mandei você buscar, pivete – disse tio Olen, olhando seriamente para seu filho, enquanto se servia de outra costela de cordeiro.

– Tudo bem, eu te ajudo – eu disse, levantando-me para acompanhar Joric.

 

– Quero comprar uma adaga no Vau – contou Joric, enquanto juntávamos os pelegos.

– Ah... o grande Joric busca por reputação, iniciando sua jornada como guerreiro – brinquei – talvez um dia você possa palitar os dentes do gigante que arremessou a Rocha Branca, com sua faquinha!

– Ráh, disse o caçador de vento com suas flechas empenadas.

– Bom, ao menos quando erro a mira, vez ou outra levo uma lebre para casa. E já faz bastante tempo que nenhuma ovelha morre atacada por suçuaranas –  eu disse, rebatendo a troça.

– Talvez elas estejam cansadas da sua cara feia – disse Joric rindo – de qualquer forma, economizei desde nossas últimas viagens, nos verões passados, e acho que já tenho o suficiente para uma adaga de ferro.

– Certo, então não teremos que nos preocupar com salteadores em nossas terras.

– Quem sabe um dia, talvez eu entre para a guarda de Rocha Branca, ou até mesmo do Vau.

– Não sei... Você acha que seu pai aceitaria isso bem? Abandonar tudo o que construiu nas terras de Ferman? – Respondi, recolhendo o último pelego.

- A quinta nem ao menos é nossa, Uther. São terras de Ferman, e meu pai ainda é novo, provavelmente lhe dará outro primo para incomodar, e tocar os negócios da família. Além do mais, você não se tornaria um caçador ou arqueiro, se tivesse a oportunidade?

Era verdade, a ideia de se aventurar sozinho por Alben era um sonho, mas eu gostava da vida na quinta de tio Olen, ou de Ferman, não importa. Servíamos nosso suserano, mas ele nos tratava bem, éramos livres para ir e vir, desde que metade dos lucros de nossa produção fosse para suas mãos. E ainda assim, boa parte do lucro de Ferman, era investido em Rocha Branca, ele era um bom senhor.

Voltamos para junto do fogo, tio Olen conversava com Egbert, outro camponês que acompanhava o grupo, levando sacas de farelo de trigo. A semelhança entre meu tio e meu primo era impressionante, os dois tinham o cabelo curto, claro e desgrenhado. Eram fortes, e tinham a mesma dureza no olhar. Os olhos também eram claros, azulados. A única diferença estava na idade. Olen devia ter trinta anos, enquanto Joric mal chegava aos dez.

Naquele tempo, provavelmente eu já passava dos treze. Meu cabelo escuro,  como o castanho em meus olhos. A pele levemente queimada, por todas as horas sob o sol. Era magro e ágil, o que sempre me ajudou muito durante a caçada. Apesar disso, a maior parte de meu tempo, eu passava no campo, cuidando do rebanho. Garantia que nenhuma ovelha fosse roubada, e principalmente que nenhum predador oportunista, devorasse alguma desgarrada.

Aos finais de tarde costumávamos recolher os animais em um cercado, era então que eu ia ao campo, buscando cervos do banhado, lebres ou algum marreco.

Joric às vezes ia comigo, saíamos principalmente para pescar.  As terras próximas de Rocha Branca eram bem encharcadas, de forma que era fácil encontrar um bom lugar para a pesca.

 

Distribuímos as peles para tio Olen e os outros homens que compartilhavam nossa fogueira. Depois,  Joric e eu jogamos as nossas em um canto, próximo a uma das carroças e dormimos.

O dia seguinte trouxe uma manhã cinzenta… cerração baixa, sol que racha,  diziam nossos companheiros. A neblina tornava visível apenas algumas passadas de distância, de forma que a dianteira de nossa caravana, mal podia ver as últimas carroças.

Éramos guiados por Hrotgan, um dos guerreiros que nos guarnecia.  Havia anos que sua função era nos levar ao Vau, logo, mesmo sob a mais densa das neblinas, a tarefa não era difícil para ele.

Os demais guerreiros cavalgavam ao longo da fileira de carroças, guardando os flancos e a retaguarda, exceto por Willibin, que se mantinha à frente do grupo, observando qualquer problema no caminho.

A viagem seguiu tranquila, enquanto o sol se erguia, a neblina dissipava, de forma que perto do meio dia o sol reinava sobre o céu de Alben.

Acampamos para o almoço, junto a um velho moinho de vento abandonado, quase a meio caminho do Vau. Logo os homens dividiram suas tarefas. Tio Olen, Joric, Egbert e eu fomos buscar lenha para nossa fogueira, enquanto Lothar depenava um frango para o almoço.

Caminhamos rumo ao mato por alguns minutos, trazíamos alguns machados de lenhador, mas Joric e eu fomos colher galhos e folhas secas.

- Não se afastem muito, e fiquem atentos! - alertou tio Olen, enquanto caminhávamos em meio às árvores.

Na verdade não era um grande bosque. Apesar da planície possuir diversos pontos com agrupamentos de vegetações maiores, esses lugares são limitados a pequenas áreas, onde diversos animais costumam buscar refúgio, e aquele dia não era diferente.

- Está escutando isso? -  perguntei a Joric.

- Parece algo raspando... - ele respondeu, olhando para os lados a procura da fonte do barulho.

Puxei o arco de minhas costas e armei uma flecha - fique aqui Joric.

- Mas eu também q...

- Fique! - eu disse em um sussurro ríspido.

Com o arco em mãos, caminhei o mais silenciosamente que pude, sobre os galhos e folhas ressecadas que cobriam o chão, indo cautelosamente na direção do som. Abaixei as folhagens que barravam a visão na trilha, e então vi: um javali deixava marcas em um tronco caído, enquanto raspava suas presas, em uma pequena clareira.

Estava à distância de um tiro certeiro, mesmo para um aspirante a caçador com suas flechas empenadas. Restava apenas saber, se a flechada seria suficiente para abater o animal. Se não o fosse, com sorte o porco fugiria, se não, quem deveria correr era eu. Mesmo não sendo dos maiores que já havia visto, uma mordida daquelas presas poderia ser fatal.

Arrisquei. Estiquei a corda o máximo que pude, mirei próximo à cabeça do animal. Tranquei a respiração e disparei.

Em uma fração de segundo, a flecha deslizou sobre a mão que empunhava o arco e a apoiava. Como sempre faziam, os pequenos nós da madeira rusticamente preparada, passaram arranhando o dedo, em um ponto já calejado.

A flecha avançou cortando o ar, rompendo e transpassando o couro nas costas do animal. Correu guinchando e deixando sangue sobre as folhagens.

- UTHER - alguém gritou entre as árvores às minhas costas, mas eu não queria desperdiçar a oportunidade. Corri enquanto armava novamente o arco, passando rapidamente pelas árvores, atrás do javali em fuga.

Subitamente as árvores terminaram, revelando um pequeno córrego, onde o campo com juncos altos começava.  Nem sinal do javali. Foi quando percebi algo de estranho na paisagem: uma fumaça negra manchava o azul do céu no horizonte, a uma grande altura.

Observei o sol e a sombra das árvores, e percebi que olhava para o sul. Rocha Branca…

 

Afinal, onde você estava? - tio Olen me perguntou.

Quando estávamos juntando madeira, Joric e eu ouvimos um barulho em meio às árvores, resolvi olhar. Era um javali, acertei mas ví fumaça surgindo no sul. Acho que Rocha Branca pode estar em perigo!

Hrotgan, Willibin e Merida partiram a pouco, de volta para o povoado, deixando ordens para permanecermos no moinho até o meio dia de amanhã. Se ninguém voltar devemos enviar um mensageiro ao Vau, pedindo ajuda. - completou tio Olen.

O dia passou lentamente, estávamos todos preocupados com o que poderia acontecer com nossas famílias. Havíamos deixado Lúcia, minha tia, e Clara, minha priminha mais nova, a qual era ainda apenas um bebê. Apenas duas ou três mulheres vieram junto com o grupo, de forma que a maior parte do povoado estava em Rocha Branca, exceto pelos homens e alguns de seus filhos, que nos acompanhavam. Havia uma guarnição protegendo o vilarejo, mas fumaça nunca era um bom sinal.

Nunca conheci minha mãe, tampouco meu pai, por tanto meus tios e meus primos eram a única família que me restava. A única coisa que sabia, era que Miriah, irmã de meu tio, morrera ao me dar a luz, e desde então ele não falava muito sobre ela, e jamais me dissera algo sobre meu pai, a não ser o fato dele ter ido embora.

Almoçamos em silêncio, a galinha estava ótima, e junto comemos pão velho e tomamos um pouco de hidromel. Ninguém estava disposto a conversar, estávamos todos tensos. Depois, Joric e eu nos sentamos à sombra das árvores e conversamos sobre lendas.

Falávamos sobre heróis e monstros da escuridão, sobre o povo élfico que vivia nas terras ao extremo norte, e sobre os anões que um dia foram senhores em Alben. Eu conversava não porque tivesse disposição, mas porque não queria que Joric ficasse ainda mais preocupado. Ele já estava crescendo, mas não queria que pensasse nos perigos que nossa família poderia estar passando. Quando o assunto terminou, deitamos à sombra de nossa carroça e dormimos.

 

Uther, acorda! Anda! - Joric falava, e meio tonto eu tentava entender o que dizia - Temos problemas!

O que foi? - respondi cansado.

De repente ouvi os gritos. Estávamos deitados atrás da carroça, ainda não tínhamos sido vistos, mas a caravana entrava em pânico. Um grupo de salteadores vinha do oeste, todos armados com suas espadas e machados. A maioria vestia trapos velhos, alguns poucos vestiam cotas de malha, mas eram todas já danificadas pelo combate.

Os homens pegavam suas foices, forcados e os poucos machados que traziam, ninguém além de nossos dois guerreiros trazia escudo. Estávamos em grande perigo.

Consegui contar vinte e oito assaltantes. Éramos dois guerreiros e cerca de quarenta camponeses, desses, nenhum com treinamento para a batalha.

Mandem as crianças para o bosque! - ordenou um dos guerreiros - Peguem qualquer arma que possuírem e postem-se para o combate!

Uther!  Leve Joric para as árvores!  Fujam para o mais longe que puderem.

Eu quero lutar! - respondi beligerante, acreditando que estaria a altura de um bando qualquer de salteadores.

NÃO! VÃO AGORA! - berrou tio Olen, enquanto se armava com um de nossos machados de lenha.

E corremos. Puxei Joric pelo braço, e fugimos na direção das árvores. Olhei para trás e ví que naquele momento, o grupo de salteadores deveria estar a pouco mais de trinta passos do moinho. Corremos por alguns minutos em meio aos pinheiros, passando pela clareira onde mais cedo havíamos ouvido o javali. Seguimos e encontramos um pequeno desnível, um barranco que poderia servir como esconderijo.

Abaixe-se, e fique escondido, Joric.

Mas meu pai disse para você também se esconder.

Não vou voltar para o acampamento, vou só vigiar - disse, armando meu arco.

Me ergui, escalando o pequeno barranco. Permaneci abaixado atrás de uma árvore, enquanto puxava uma flecha da aljava de pele de veado, e esperei.

Ouvi gritos ao longe, o combate já começara. Podia ver as chamas altas, do moinho incendiado,distante, em meio às árvores.

O que está acontecendo? - perguntou Joric.

Não sei, não consigo ver direito.  Mas fique quieto - murmurei.

De repente as vozes ficaram mais próximas, homens gritavam, perseguindo outros camponeses em fuga.

Sentindo a tensão, estiquei a corda do arco com a flecha. E então surgiram dois vultos, um camponês sendo seguido de perto por um assaltante. Apontei a flecha e disparei. A flecha passou zunindo, acima do ombro do camponês, atingindo o perseguidor no braço da espada.

Por um segundo o homem parou, parecendo tentar entender o que havia acontecido, enquanto olhava para o ferimento. Depois ergueu os olhos em fúria,  encarando-me e erguendo com alguma dificuldade sua espada, com as duas mãos. Então corri, enquanto o homem vinha atrás de mim. Pulei sobre o barranco onde deixara Joric, e para meu desespero ele não estava mais lá. Na confusão do momento tropecei, enquanto olhava para os lados.

Foi então que alguém me arragou pela gola da camisa, e eu apaguei, acertado por uma pancada na cabeça.

 

Ouvi risadas distantes, estava tonto pelo murro que levara. O sol já caía no horizonte e o moinho em chamas iluminava o acampamento. Aos poucos a visão turva voltava ao normal, e percebi que os salteadores juntavam seus espólios. Nosso grupo fora derrotado.

Tentei me erguer, me ajoelhando, mas repentinamente fui chutado,  e uma dor lancinante atravessou minha barriga, fazendo-me cair no chão novamente.

Já era hora de acordar cachorrinho - ouvi alguém falar as minhas costas.

Virei-me lentamente, ainda estirado no chão,  e então vi o homem que feri no braço me encarando.  Atrás dele alguns homens de Rocha Branca eram mantidos presos ajoelhados e vigiados por outros dois salteadores.

Vocês poderiam ter baixado suas… -  começou o homem com desdém - Chamam isso de armas? Enfim, vocês agora pagarão pela rebeldia. Poderiam ter entregue a carga e, talvez, deixássemos vocês livres para voltarem para suas casas. Mas como vocês mataram alguns de meu homens, devo ser compensado, acho que os venderei como escravos - disse com um sorriso no rosto - É verdade que a maioria de vocês não deve valer grande coisa, mas todos devem ter alguma serventia. Menos você. Você vai pagar caro por aquela flecha. - apontou a espada para mim - traga ele aqui! - ordenou a um dos comparsas.

Fui arrastado até os pés do líder. A dor ainda castigava minha cabeça e minha barriga, não conseguia me erguer.

Levante ele - continuou com raiva na voz - devemos dar o exemplo. Rebeldia não deve ser tolerada, não concorda senhor arqueiro?

O som agudo de sua lâmina sendo desembainhada cortou o ar. Aquela altura a tarde já caíra, cedendo espaço ao breu noturno, vindo do leste. Os salteadores pararam para observar enquanto minha morte chegava. Nada mais de sonhos, nada mais de viagens se aventurando por Alben. Ao menos seria rápido.

O silêncio tomou o acampamento, era ouvido apenas o estalar da madeira em chamas. Aquele momento parecia durar uma eternidade.

O guerreiro que me segurava forçou minha cabeça para baixo, e olhei para o chão. Senti o coração batendo lento e forte, como quando me concentrava para o disparo de uma flecha.

GRRRRRAWWWWW - o terrível som rompeu a noite, e um clarão avermelhado surgiu no céu, não muito longe. Todos se assustaram, e a tensão transpareceu no olhar de todos, cativos e salteadores.

O que foi..? - começou o líder, abaixando a espada, mas no exato momento, o monstro surgiu das trevas noturnas.

A fera veio do céu, pousando em meio aos escombros do moinho flamejante.  Parecia banhar-se no calor das chamas, enquanto suas escamas refletiam o amarelo fogo.

Ergueu suas presas ao céu, e enquanto estendia suas asas, uma nova baforada escarlate iluminou o céu.

Salteadores atiravam flechas e lanças contra o monstro, em vão,  enquanto camponeses tentavam se arrastar para longe das chamas. A dor reduzira, mas ainda era um incômodo. Corri aos tropeços na direção dos que fugiam, na esperança de encontrar Joric ou tio Olen. Sem sucesso, saltei para as árvores, enquanto fugia do caos às minhas costas.

Podia ouvir os gritos dos homens que lutavam e fugiam da fera, clarões súbitos, ocasionados por suas baforadas, banhavam o céu.

O fogo se alastrou pelas árvores rapidamente. O fogo cuspido pelo monstro não era normal, era muito mais intenso e voraz, rapidamente consumindo em chamas tudo o que tocava. Minha única chance era atravessar o bosque e me esgueirar pelo canal que vira mais cedo. E foi o que fiz.

Corri o mais rápido que pude, passando pelo clareira do javali, e finalmente chegando à água. A essa altura o fogo já consumia quase todo o bosque.  Chapinhei na água rasa e barrenta, atravessando o estreito canal para chegar aos altos juncos. E ali esperei escondido. Não sei quanto tempo se passou, mas o tempo se arrastou por uma eternidade. Estava confuso e não sabia o que fazer, fiquei apenas esperando.

As horas passaram e o sol surgiu timidamente no leste. O fogo consumiu rapidamente a maior parte do bosque, que agora era um emaranhado de troncos negros retorcidos e cinzas. Eu estava cansado, confuso e molhado, sem ideia do que fazer. Por algum tempo hesitei, mas resolvi voltar ao moinho, pois parecia ser minha única opção. O silêncio tomava conta da planície, fosse o que fosse, o monstro trouxe fogo e morte para o lugar, de forma que nem mesmo os pássaros cantavam, era como se estivessem de luto.

Ainda havia brasas em alguns lugares do solo coberto de cinzas. O ar era quase sufocante, e tudo parecia emanar calor. Segui cauteloso, mal conseguia distinguir o caminho, estava tudo destruído.

Não havia mais chamas, nem fera, nem moinho, nem carroças. Tudo dera lugar às cinzas. A destruição tomava conta do lugar, que parecia marcar o túmulo de dezenas de homens. Fora os poucos que deveriam ter escapado, dezenas de corpos estavam carbonizados. Era uma paisagem terrível.

Segui na direção dos destroços.Procurando por algum sinal de meu primo ou meu tio, mas não consegui distingui-los entre os cadáveres. Preferi pensar que haviam escapado. Não sei quanto tempo fiquei lá, entre as cinzas. Parecia o fim do mundo, e talvez fosse o do meu. Senti lágrimas escorrerem em meu rosto, mas engoli o choro. Teria Rocha Branca enfrentado o mesmo destino? A fumaça do outro dia era um mau agouro.

Por fim procurei algo para comer, nos restos do acampamento, mas sem sucesso. Praticamente tudo derreteu ou virou cinzas, de forma que, quando resolvi partir, próximo ao meio dia, não havia encontrado nada além de uma faca, e uma pederneira.

Eu tinha duas opções: partir para o norte, em busca da ajuda do senhor de Vau’Irian, se é que poderia convencê-lo a enviar uma escolta à Rocha Branca… Ou partir para Rocha Branca, e tentar encontrar Joric e tio Olen no caminho. Pensei durante toda manhã sobre isso, mas a cada hora que passava, algo me dizia lá no fundo, que se estivessem vivos, meu primo e meu tio já teriam voltado, me procurando.

Olhei para o sul, procurando alguma fumaça negra no horizonte, mas não havia nada contrastando o azul do céu. Há muito a fumaça se extinguira na direção de Rocha Branca. Suspirei me voltando para o norte, e parti.

 



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