História A Price to Pay - Capítulo 2


Escrita por: ~

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Categorias Emilia Clarke, Justin Bieber
Personagens Emilia Clarke, Justin Bieber, Personagens Originais
Tags Drama, Emilia Clarke, Joey King, Justin Bieber, Reviravolta, Romance, Traição
Exibições 189
Palavras 4.214
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Famí­lia, Ficção, Romance e Novela
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Capitulo lindo, maravilhoso e cheiroso pra vocês espero que gostem
BOA LEITURA

Capítulo 2 - Chapter 2


Silêncio. Charlotte ficou acuada com o choque. Sentia-se tão pressionada que mal podia respirar, quanto mais falar.

Como ele se atrevia a aparecer ali? Oh, como se atrevia?

Então, o silêncio aplacou-se um pouco, invadido pelos sons comuns e rotineiros. O badalar do relógio imponente... o som do motor vindo de fora enquanto Bill, o novo jardineiro, ten­tava dar partida no cortador de grama... a voz de Amy, in­compreensível, seguida de seus passos para a cozinha... as batidas de seu próprio coração.

Ele mudara, mas ao mesmo tempo continuava o mesmo. Foi o primeiro pensamento coerente que lhe ocorreu. Coe­rente e contraditório.

Aos trinta anos, Justin Bieber era um homem muito bo­nito. Os cabelos louro escuro, um dia longos, estavam bem apara­dos, o que acentuava as feições de deus pagão, mais defini­das após seis anos. O corpo maravilhoso continha-se no terno preto elegante que substituíra os shorts esfarrapados e ca­misetas velhas, suas roupas habituais naquele verão distan­te, quando ela o amara tanto.

Um homem com aquela aparência, com aquele físico tor­neado, sempre se sustentaria nos próprios pés, principal­mente se ainda possuísse aquele charme tranquilo, charme que a deixara a sua mercê desde aquele primeiro sorriso inesquecível.

Obviamente, ele se casara com alguma herdeira. Bravo!, pensou, cínica, imaginando se ele voltara a Farthings Hall para se vangloriar da façanha, enquanto ela estava pratica­mente falida.

- O que quer, Justin? - A voz saiu tensa, quase como de uma velha. Sabia que não exibia mais a exuberância da garota de dezoito anos que ele convencera a ir para cama anos antes. Não precisava analisar a expressão dele para saber disso. Justin conseguira fazer sexo com ela seis anos antes, mas agora devia achá-la lamentável.

Pois ergueu o queixo, convencida de que não se importava.

- Estou esperando outra pessoa - declarou, gélida. - Sabe onde é a saída?

Charlotte sabia que soava arrogante... a senhora da mansão mandando o ex-empregadinho se retirar de sua presença. Ele estreitou o olhar, mal contendo a raiva. Não havia sinal de divertimento nos olhos cinza.

- Está me esperando, sra.Carter - A voz dele saiu con­trolada. Tensa. Tão tensa quanto o olhar. - Sou do Grupo Hallam.

Adam sempre a considerara tola. Acreditava que ela pos­suía hormônios em profusão onde os outros tinham cérebro. A herdeira boboca, ansiosa para se casar com um errante que estava interessado só em seus bens, os quais, naquela época longínqua, eram consideráveis.

Em poucas semanas, ele a enfeitiçara, tornara tão ávida por se casar que ela mal se lembrava do período. Até que o encanto se quebrou, ao ver com seus próprios olhos...

Justin saindo do quarto de Helena, tenso, furioso. De tão alterado, ele nem a vira no topo da escada de serviço, os braços sustentando uma pilha de roupas de cama lavadas.

E Helena. Estava sentada na beirada da cama em trajes sumários. Furiosa também, ela advertiu que o errante esta­va interessado somente na perspectiva de lucro financeiro.

- Ele deve ter me visto aqui em cima... e sabe que seu pai saiu. Eu estava me preparando para tomar banho. Ele simplesmente entrou e começou a falar... que sempre se sen­tiu atraído por mim. Que podíamos nos divertir... diverti­mento adulto... que estava cansado de brincar com uma criança... criança que um dia herdaria uma fortuna. É você, minha pobre querida! Então, exigi que ele arrumasse seus pertences e fosse embora de Farthings Hall. Avisei que, se ele ainda estivesse por aqui quando seu pai voltasse, lamen­taria muito.

- Disseram-me que viria o herdeiro do falecido sr. Hal­lam - declarou Charlotte, a voz tensa com as lembranças dolorosas. - Não o copeiro!

Justin sorriu sarcástico.

- Costumava ter boas maneiras. - Tomou o corredor, em direção à biblioteca. - Harold Hallam era irmão de mi­nha mãe. Ele não se casou e, pelo que sabemos, não teve filhos. Eu herdei suas ações no grupo. Talvez agora possa­mos iniciar a reunião, se estiver satisfeita com minhas cre­denciais. A menos, claro, que não esteja mais interessada na oferta que minha empresa tem a apresentar.

Confusa, Charlotte o observou se afastando no corredor. Ombros largos, tronco chato, pernas longas. Tudo coberto por um terno elegante que só podia ser da grife mais cara.

- Então, finalmente conseguiu. - Ela não percebeu que falara em voz alta, até ele se voltar, o olhar implacável.

- É o que parece.

Charlotte empinou o nariz, desafiadora, os olhos azuis mui­to frios. Após o que ele lhe fizera, achava mesmo que con­seguiria fazê-la sentir-se envergonhada por tratá-lo com ru­deza? Achava realmente que ela lhe pediria desculpas?

Pois ficaria muito satisfeita em lhe pedir que fosse embora.

Mas ele entrou na biblioteca... como se já fosse dono da casa. Charlotte respirou fundo, endireitou os ombros e fez o mesmo caminho.

Amy chegou em seguida, com os itens de porcelana tilin­tando na bandeja.

Charlotte deixou a governanta passar primeiro e se man­teve sisuda enquanto ela pousava a bandeja.

- Bem, não é uma virada e tanto, jovem Justin? - co­mentou Amy, espantada. - Quem imaginaria...

- Obrigada, Amy - interrompeu Charlotte, hábil. A go­vernanta simpatizara com o jovem Justin Bieber no passa­do, provendo-lhe comida e conforto no carroção. Ele tinha a capacidade de encantar qualquer um que pudesse lhe ser útil!

Amuada, Charlotte serviu duas xícaras de café sem açúcar,

pois era assim que ela gostava. Ele podia fazer o que bem entendesse com seu café.

- Querem que eu acenda a lareira? - ofereceu-se Amy. - Está um pouco frio, não acham?

Justin a deteve com um sorriso. Aquele sorriso, sabia Charlotte, podia parar um trem desgovernado.

- Estamos bem, Amy. De verdade: Além disso, depois do café, a sra. Carter e eu iremos a um restaurante tranquilo para almoçar, mas obrigado pela oferta.

O homem ganhara autoridade, concluiu Charlotte, mordaz, enquanto a governanta se retirava. Muita autoridade. Mas nada a obrigaria a almoçar com ele. Assim que a porta se fechou, manifestou-se:

- Lamento que tenha perdido seu tempo, mas decidi não fazer negócio com a sua empresa.

- Cuspindo para cima? - Justin pegou a xícara e sorriu ofensivo.

Charlotte sentiu o corpo tremer de raiva.

Naqueles seis anos, realmente acreditara que superara o que ele lhe fizera, que superara a traição. Se alguém lhe dissesse que vê-lo novamente a afetaria daquela forma... co­mo se ele ainda tivesse o poder de feri-la, de enfraquecê-la com um olhar apenas... teria rido.

Ele a avaliava por sobre a borda da xícara.

- Também levei um choque, Charlotte. Você era a última pessoa que eu esperava ver esta manhã. - Devolveu a xí­cara e o pires à bandeja sem alarde. - Ouça, por que não respiramos fundo, vestimos nossos personagens de empre­sários e começamos novamente?

- Estendeu a mão ao sofá. - Não quer se sentar?

Ela ignorou a atitude profissional que ele assumia, fran­ziu o cenho, pegou sua xícara e foi para junto da janela. Estava trêmula, sem motivo. Ocupou uma poltrona e ergueu o sobrolho interrogativa.

- Quem mais esperava ver? A viúva alegre? Não pode ter se esquecido de a quem pertencia Farthings Hall.

- Há seis anos, Jonh Sullivan, seu pai, era o dono da propriedade. Nunca mais tinha pensado neste hotel-fazenda, até que o anúncio de venda chamou minha atenção. O nome Carter não significava nada para mim. Seu pai... - Pela pri­meira vez, Justin mostrou-se hesitante, como se só então percebesse que a mudança de proprietário poderia significar que Jonh Sullivan não era mais vivo. - Seu pai sempre me tratou com justiça - completou, cauteloso.

Que sarcástico! Ele partira naquela velha motocicleta bem antes de seu pai retornar naquele dia, assim, sem imaginar o que Jonh Sullivan diria ou faria se soubesse... como Helena ameaçara contar... o que acontecera em sua ausência.

Ele recebera o tratamento merecido, dela e de Helena. Não era um prazer saber que ele não pensara nela nem por um segundo em seis anos?

- Meu pai está visitando um amigo hoje. – Charlotte per­cebeu a tensão dele diminuir, surpresa por ver que ele real­mente sentia-se aliviado.

- Mas você é a proprietária atual? - Justin cruzou os braços, o olhar estreito, como se sopesasse cada palavra dela.

- Sou.

- A única proprietária?

Ela meneou a cabeça confirmando, e ele grunhiu, como se a perspectiva não fosse atraente.

- Então, faremos negócio. Não preciso ver a propriedade. Lembro-me o suficiente.

Charlotte forçou-se a não expressar o desgosto ante a ob­servação. Ele a esquecera sem maior dificuldade, mas, du­rante a breve estadia, avaliara cada centímetro da proprie­dade. Jamais se esquecera do que vira e decidira conquistar.

Haviam passeado por toda a fazenda, desde os jardins formais, passando pelas pastagens, pontos altos, cabos, sem falar no vale imaculado, que levava à enseada, seguindo a trilha junto às águas claras, de mãos dadas, totalmente fe­lizes. Ou assim ela acreditara.

Claro, em pouco tempo, Justin aprendera o bastante sobre o interior da casa para ir direto ao quarto de Helena no momento em que a oportunidade surgiu. Ele nunca tivera problema em encontrar o aposento da herdeira. Fizeram amor em muitos locais... na relva macia, na areia sedosa da enseada, até na cama apertada do carroção, mas nunca na mansão.

Ele tivera muito respeito por Helena, encantado pela loira sensual, a ponto de não querer seduzi-la nos campos? Concluíra ter mais chance no conforto da suíte dela, entre lençóis de cetim?

- Então, como o restaurante não abre para almoço fora da temporada, sugiro irmos a outro estabelecimento tranqüilo para discutir aspectos gerais durante a refeição.

Charlotte piscou e voltou ao presente. Justin agia como se não houvesse acontecido nada entre eles no passado, ou co- mo se o que acontecera não valesse a pena ser lembrado, pensou, magoada, sentindo a raiva crescer aos poucos. Tal- vez a única maneira de conviver com as lembranças do próprio comportamento desprezível era ignorando-as, proeza de que Adam parecia mais do que capaz.

Charlotte levantou-se e devolveu a xícara e o pires à bandeja. Mantinha a expressão calma, controlada, ocultando a perturbação que sentia. Já ia repetir que não pretendia fazer negócio com ele, mas, antes que se manifestasse, ele constatou:

- Você se casou.

Devia ser óbvio, claro, pela mudança no sobrenome. Justin parecia bastante indiferente ao fato. Por que deveria reagir de outra forma? Nunca sentira nada por ela, só ganância.

- E você? - Ela mordiscou o lábio para controlar o tremor mor involuntário. - Está casado?

- Não, mas isso não vem ao caso. É casada em comunhão de bens? - Os olhos dede eram puro aço, gélidos, os lábios apresentavam uma curva irônica. - Não precisa ficar tão defensiva, sra.Carter. Meu interesse em você e seu marido não é pessoal. Antes de assinar qualquer documento, preciso saber exatamente em que terreno estou pisando.

Ele era esperto, admitia Charlotte. Sabia que ela se sentia ameaçada... devia estar evidente, por sua linguagem corpo­ral. E, verdade fosse dita, ela se sentia assim desde que entrara na horta, seis anos antes, e pousara os olhos nele.

Justin comprometera sua felicidade, sua inocência, sua crença inabalável na bondade intrínseca da natureza huma­na. Quase a destruíra. Portanto, tinha todo o direito de ficar na defensiva.

- Sou a única proprietária. - Não via motivo para revelar a morte recente de Phillip. - Embora isso não venha ao caso. Talvez não tenha ouvido, mas lembro-me claramente de ter dito que decidi não fazer negócio com a sua empresa.

Voltou-se para a lareira, esquivando-se ao olhar pene­trante.

- E eu disse que você cuspia para cima - rebateu Justin. - Entretanto, se prefere tentar o mercado livre, cruzando os dedos para que o comprador tenha o dinheiro necessário para pagar o preço pedido, em vez de considerar as vanta­gens óbvias de negociar em particular com uma empresa de sucesso como o Grupo Hallam... então, claro, é prerrogativa sua.

Justin aproximou-se. Cláudia sentia o refrescante aroma cítrico de sua loção pós-barba, a vibração de sua voz grave... E sentia-se confusa. Desprezava-o, porém compreendia por que se apaixonara por ele na adolescência, entregando-se de bom grado. Teria dado a própria vida, se ele pedisse...

Charlotte engoliu em seco. Desajeitadamente, afastou-se. Detestava admitir, mas ele tinha razão. Se vendesse logo para o Grupo Hallam, pouparia muita dor de cabeça. Uma empresa segura como a dele não regatearia um preço justo. Precisava fazer o melhor negócio possível, para honrar as dívidas vultosas.

Uma venda rápida pouparia seu pai, também. Ele não sofreria com a especulação que costumava preceder os leilões públicos. Já estaria perturbado por ter de vender Farthings Hall... poderia ser poupado de explicar os motivos àqueles que indagassem.

Sobre a mesa lateral, encontrava-se o livro que Cláudia estava lendo. Considerando que a trama não agradava, re­colheu-o, pois era algo a fazer e, com sorte, induziria Adam a pensar que ela estava perfeitamente composta, indiferente em estar na mesma sala com ele.

Só que tremia desajeitada ao tentar recolocar o volume no espaço vago da estante. Deixou o livro cair, e uma foto­grafia em que aparecia com a filha voou sobre o tapete persa.

Rápido, Justin pegou o livro e a foto. Cláudia enrubesceu e levou a mão à boca, apreensiva.

- Tem uma filha? - indagou Justin. Olhou de novo a foto e a encarou, exigindo resposta.

Charlotte assentiu.

- Ouça... pensando bem, vamos almoçar. Trata-se me­lhor de negócios em campo neutro. Estou disposta a ouvir a sua oferta. - Teria dito qualquer coisa... qualquer coisa... para mudar de assunto, para fazer Justin se esquecer da foto. Tirou-a das mãos dele ao passar em direção à porta. - Obrigada. - Sentia o calor do olhar dele nas costas. - Vou pegar minha bolsa e avisar Amy que vou sair. Serão só dois minutos.

No quarto, Charlotte pressionou a mão na têmpora latejante. Se as seis últimas semanas tinham sido um pesadelo, o retorno de Justin Bieber era a coroação! Após a conversa com o gerente do banco, imaginara ingenuamente que nada pior poderia acontecer.

Como estava enganada!

Suprimiu um gemido e se mirou no espelho sobre a cômoda. Parecia cansada, velha, abatida. Deu de ombros, pe­gou a bolsa e guardou a foto com cuidado.

Que importava se parecia uma morta-viva? Adam não estava interessado em sua pessoa, em sua aparência. Nunca estivera. Ele sempre pensara só em sua herança.

Nem ela desejava despertar o interesse dele. Claro que não. Não era mais uma adolescente idiota que achava o mun­do um lugar maravilhoso e as pessoas, anjos encarnados. Era uma mulher experiente agora. E podia controlar a si­tuação, podia até almoçar com a serpente. Pelo pai e pela filha, suportaria a provação e, com determinação, faria Justin Bieber pagar muito caro para pôr as mãos em Farthings Hall!

 

Mas os negócios, aparentemente, não estavam nos planos de Justin. Charlotte também se esqueceu do que tinham ido tratar ao perceber onde estavam.

O Unicórnio. Uma criatura mística. Nada mais adequado, porque fora ali que ele lhe declarara seu amor anos antes, recordou, amarga, diante do bar-restaurante antigo.

- Lembra-se daqui? - indagou ele, desligando o motor de seu automóvel de altíssimo luxo.

Cláudia encarou-o indiferente.

- Deveria? - Saltou sem esperar que ele lhe abrisse a porta.

Claro que se lembrava. O pequeno bar-restaurante afas­tado da trilha do vale estreito e arborizado. Nunca mais voltara ali, em todos aqueles anos, mas não confessaria a Justin que sempre recordava os momentos que tinham vivido ali.

Certa tarde, seis anos antes, chegaram na motocicleta de­le. Tinham dinheiro apenas para comprar uma taça de sidra e um enorme pastelão de carne da Cornualha, que dividiram.

Após a refeição, ocuparam uma das mesas externas de piquenique e sorveram a sidra devagar. A certa altura, Justin limpara uma migalha do canto de seus lábios.

- Eu te amo, Charlotte- declarou. - E te quero. Sempre. Agora, você sabe. - Concentrou-se na boca, e ela sabia que ele iria beijá-la. - Você tem o resto do verão para se acostumar com a idéia de me ter por perto, amando-a, desejando-a...

Ela não precisara do resto do verão para se acostumar com aquela idéia. Adorara saber que Adam a amava e de­sejava, porque sentia o mesmo por ele.

Ele já a tocara antes, claro, roçara a mão em seu quadril, beijara de leve... acariciara os seios, delicadamente, como se não estivesse seguro de si mesmo, ou dela. Ela retinha o fôlego à mercê das sensações maravilhosas, com a reação de seu corpo. Após a declaração de amor, sabia que haveria mais, sabia que nenhum dos dois queria ou seria capaz de se conter.

Voltaram para Farthings Hall, agarrada à cintura de Justin na motocicleta. A lua subia no céu. Após estacionar a motocicleta ele a conduziu para além do carroção. Normalmente, Charlotte entrava para preparar café, após cada passeio.

Ela não perguntou para onde estavam indo. Não precisa­va. De algum modo, sabia que a enseada banhada ao luar seria o local onde se entregaria pela primeira vez ao homem que amaria para sempre...

Só que o amor não durara nada, lembrou-se, severa, per­correndo a área do estacionamento vários passos à frente do acompanhante. Seu amor morreu quando soube da verdade, pela madrasta. Por isso, morreria antes de admitir que se lembrava de cada detalhe daquele lugar, daquele verão per­dido no passado.

Embora pequeno, o Unicórnio tinha reputação de ótimo restaurante caseiro. Escolheram uma mesa discreta junto à janela. Quando Justin passou-lhe o menu, Charlotte nem o abriu.

- Vou querer só salada e café. - Mantinha os lábios comprimidos. Seria tolice pedir algo além do que seu estô­mago suportaria.

Ele ergueu o sobrolho, irônico.

- Foi assim que emagreceu tanto? Vive só de alface e café preto?

Então, ele não se esquecera de tudo. Lembrava-se dela o bastante para poder comparar a mulher esquelética com a jovem de dezoito anos abençoada com todas aquelas curvas. Sentiu um prazer primitivo. Justin tentava convencer de que não pensara em Farthings Hall, nem nela, durante todos aqueles anos, porém acabara de se contradizer.

Por outro lado, ele era um mentiroso hábil. Provavelmen­te, diplomara-se na arte da farsa!

- Estamos aqui a negócios. - Charlotte desdobrou um guardanapo de linho grande e ajeitou-o sobre os joelhos quan­do a refeição chegou. - Sugiro que nos concentremos nisso, em vez de remoer coisas antigas.

- Remoer? - Justin quase sorriu. - Quer dizer que fica remoendo o que aconteceu?

Charlotte optou por não responder. Com o garfo, levou à boca uma porção da torta de frutos do mar, mas não a sa­boreou, incomodada com os olhares e insinuações de Justin. Desistiu de saborear a refeição quando o acompanhante se recostou na cadeira e indagou:

- Sua filha... Como se chama?

- Jessie. - Ela detestava ter de responder, mas não podia se recusar. Não queria partilhar sua amada e preciosa filha com ele. Nunca.

- Muito bonita. - Ele a fitava detidamente. – Jessie Carter. Isso me lembra algo... Carter? Eu conheci o seu marido?

Charlotte suspirou. O assunto não interessava a ele. Teria respondido isso, mas a necessidade vinha antes do orgulho. Tinha de considerar o bem-estar do pai e da filha. Precisava fazer o melhor negócio possível com aquele homem, e de­monstrar aversão por ele não ajudaria em nada.

Revolveu o café preto demoradamente, reunindo paciência.

- Talvez - concedeu, vaga, e sorveu um gole do excelente café. Era evidente que Justin não estava satisfeito, e teve de elaborar: - Deve tê-lo visto na mansão na época em que trabalhou lá. - Recusava a dar importância à estadia dele em Farthings Hall. - Phillip era o contador de meu pai e nos visitava com regularidade.

- Aquele camarada calvo que parecia estar sempre atrás da sua madrasta? - Justin sorriu irônico, mas o tom era amargo. Seria porque Helena passara uma descompostura no jovem ajudante de jardineiro, deixando claro que preferia as atenções do dito primo distante, mais experiente?

Teria Justin percebido o que ela e o pai falharam em no­tar... o caso amoroso entre aqueles dois? Charlotte sentiu que enrubescia. A idéia magoava e, de certa forma, degradava.

- Ele deve ser uns vinte anos mais velho do que você. - Justin mantinha o olhar implacável, como se desprezasse tudo nela.

Charlotte corrigiu:

- Na verdade, doze anos. Não que isso importasse. Ele era gentil.

À parte o romance ilícito com Helena, Phillip sempre fora gentil com Charlotte. Era irônico que ela descobrisse como ele a tratara com crueldade somente após sua morte.

- Que bom para você. - Justin sorriu forçado. - Então, quando se casou com o "tio"?

- Há seis anos, no mês de outubro. Satisfeito? - Como Justin não percebera seu uso do verbo no passado, Charlotte imaginou por que não lhe contava logo que Phillip estava mor­to. Mas sabia a resposta... não queria que ele soubesse de­mais sobre sua situação. - Talvez agora possamos tratar dos negócios.

- Claro. - Ele tomou o café. - Quantos anos Jessie tem? Os olhos azuis de Charlotte obscureceram-se de raiva. Por que ele insistia no tema?

- Não entendo o que a idade da minha filha tem a ver com a venda de Farthings Hall. - Arrebatou o guardanapo, largou-o ao lado do prato de salada quase intocado, pegou a bolsa e levantou-se. - Só posso achar que não tem intenção de fazer uma oferta, que me trouxe aqui com o único objetivo de me causar os maiores transtornos possíveis, porque, há seis anos, eu tive a audácia de dispensá-lo!

Charlotte tomou o rumo da saída deixando-o para acertar a conta. Esperou impaciente junto ao carro, até que ele apa­receu, finalmente, após o que lhe pareceu uma eternidade.

- Gostei da nervosa exibição de dignidade. - Justin sor­ria genuinamente pela primeira vez naquele dia.

Charlotte desviou o olhar. Aquele sorriso sempre fora letal e nada mudara nesse aspecto, exceto que ele o usava com menos freqüência. Perto dela, ao menos.

- Detesto desperdiçar tempo, sr. Weston. - Ela olhou as horas no relógio. Precisava voltar logo a Farthings Hall, para pegar Jessie na escolinha da vila. Só rezava para que Justin não a retivesse. Não fechariam acordo. Aquela manhã fora um doloroso desperdício de tempo.

- Eu também, sra. Carter. - Ele abriu a porta do passa­geiro. - Embora não concorde que tenhamos desperdiçado... ainda que tenham surgido mais perguntas do que respostas. - Ajudou-a a se acomodar e fechou a porta.

Enquanto Justin contornava o carro, Charlotte imaginou do que ele estaria falando, mas então decidiu que nem queria saber.

Só tinha certeza de uma coisa... ele não pretendia fazer oferta alguma pelo hotel-fazenda. Justin devia ter desistido da compra assim que percebera que era com ela que trataria. Era evidente que guardava rancor pela maneira como fora expulso de lá, seis anos antes, depois de ter sido contratado apenas para trabalhar.

Ele não se sentiria inclinado a lhe fazer nenhum favor. Cláudia suspirou e se segurou quando o automóvel comple­tou uma curva fechada.

- Relaxe - aconselhou ele, manifestando-se enfim. - Vou mandar nosso perito à sua propriedade. Qualquer dia da semana que vem, talvez. Nossa oferta formal vai depen­der do relatório dele.

Charlotte se esforçou e relaxou. Bem, o quanto podia, con­siderando a companhia. Justin não descartara a possibilida­de de comprar. Poderia esconder a triste verdade de seu pai por mais alguns dias... até ser forçada a avisá-lo sobre a chegada do perito. A cada dia, Jonh se fortalecia e, quanto mais ela conseguisse retardar as más notícias, melhor.

Mais alguns minutos e estariam em Farthings Hall. Justin a deixaria lá e iria embora, consolou-se, e ela nunca mais o veria, porque toda a negociação poderia ser feita pelos advogados. E ela poderia novamente se esquecer do quanto o amara, e do quanto o odiara nos primeiros anos...

- Aquela é Jessie?

Já trafegavam pela via particular de cascalho, e ela nem notara. A pergunta arrancou-a das divagações. Sua filha des­cia os degraus da entrada principal, com macacãozinho de algodão, os cabelos loiros flutuando ao redor do rosto. Amy, enrubescida e ofegante, corria atrás da criança.

Justin freou o veículo. Charlotte saltou e abraçou a filha, mantendo-a protegida junto a si.

- Mamãe! Amy disse para esperar o carro... eu vi que era você! - O sorriso largo iluminava o rostinho lindo, os olhos cor de mel. - O telhado da escola caiu - contou, exagerada. - A escola inteira caiu!

- Só uma parte do teto da varanda - explicou Amy, sem fôlego. - Mas a srta. Possinger telefonou na hora do almoço e pediu que alguém fosse buscá-la, porque as crianças seriam dispensadas mais cedo. Vão arrumar o estrago hoje à tarde.

Charlotte afrouxou um pouco o abraço, o coração ainda dis­parado.

- Vá com Amy, querida. Não vou demorar. - Não demo­raria nada se, no afã de deter a filha correndo pela estrada, não tivesse deixado a bolsa no carro. - Então, vou trocar de roupa e poderemos fazer um piquenique na enseada.

Charlotte não queria a filha perto de Justin Bieber além do necessário, e blasfemava o destino que provocara o en­contro. Com a promessa do piquenique, Jessie pegou na mão da governanta e voltou saltitante para casa.

Estava tudo bem. Charlotte suspirou de alívio, mas então passou a suar frio, como se a terra se abrisse a seus pés, quando Justin afirmou:

- Jessie é minha filha.



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