História A Price to Pay - Capítulo 3


Escrita por: ~

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Categorias Emilia Clarke, Justin Bieber
Personagens Emilia Clarke, Justin Bieber, Personagens Originais
Tags Drama, Emilia Clarke, Joey King, Justin Bieber, Reviravolta, Romance, Traição
Exibições 152
Palavras 4.701
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Famí­lia, Ficção, Romance e Novela
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Mais um capitulo hoje porque eu sou vida loka Grito
Espero que gostem deixem seu comentário
BOA LEITURA

Capítulo 3 - Chapter 3


 Charlotte fingiu espanto:

- O que foi que você disse?!

- Você me ouviu. - O tom frio de Justin denunciava a raiva. Charlotte sentiu um aperto no estômago, um calor in­tenso pelo corpo e, então, frio.

- A idade é compatível, e a cor dos cabelos e olhos tam­bém. Jessie é uma Bieber, não é filha de Phillip Carter. - Ele falava convicto, como se a prova fosse irrefutável... e que ninguém ousasse contradizê-lo.

Charlotte sentiu um arrepio. Teria corrido para dentro da casa, trancado as portas e transformado-a numa fortaleza, mas só se mantinha precariamente em pé.

- E então? Vai negar? - Justin conseguia ser gélido como os ventos nos topos de granito das montanhas.

Charlotte o fitava atônita, de olhos arregalados. Procurava uma saída para o pesadelo sem encontrar nenhuma.

Aborrecido com o silêncio, Justin lhe apertou o braço. Charlotte estremeceu quando suas reações retornaram. Sentir o toque de Justin novamente era pior do que tudo o que já acontecera naquele dia.

Era como se ele acionasse um botão mágico, capaz de transportá-la ao passado, reavivando sensações primitivas e impetuosas, todo o desejo esquecido, os momentos de amor... todas as sensações que ela imaginara ter enterrado como fatos mortos, inúteis, indesejados... sensações que não mereciam ser recordadas.

- Está maluco! - exclamou, finalmente, com dentes cer­rados. Meneou a cabeça, negando o efeito que ele tinha sobre ela. Os cabelos soltaram-se do coque e lhe emolduraram o rosto. Tentou desvencilhar-se, mas ele a segurava com fir­meza, achegando-se a seu corpo rígido.

Justin ignorou o insulto fraco. Só havia determinação me seus olhos cor de mel.

- Exijo saber, Charlotte. Nem que tenha de pedir teste de DNA. - Ele contraiu os lábios. - E vou pedir, se for preciso.

Ela sabia que ele cumpriria a ameaça. O disfarce char­moso que ele usara tão habilmente para conquistá-la caía por terra. Justin Bieber não precisava mais daquilo, não precisava seduzir uma mulher quase falida. Já não tinha nada material para ele cobiçar. Naquele momento, tudo o que ele precisava ou queria dela era uma resposta, e nada o deteria.

Charlotte estremeceu, apesar do sol forte. Ele devia ter lido a derrota em seus olhos, pois sorriu sombrio e aproximou-a mais um pouco. O bastante para ela sentir a tensão primi­tiva nele.

- E então? Quero a verdade. Jessie é minha filha?

Chocada demais para falar, Charlotte apenas assentiu e abaixou a cabeça. Os cabelos acompanharam o movimento, escondendo o rosto. Ouviu o suspiro dele e recebeu o im­pacto do olhar quando ele lhe tomou o queixo, forçando-a a encará-lo.

- Sabia que estava grávida de um filho meu e mesmo assim se casou com Carter - deduziu ele, o tom de censura.

Charlotte sentia o coração palpitante. Nunca, em toda a vida, recebera tal olhar de desprezo. E merecido, o que o tornava ainda pior. A Justin, por ser o homem que era, atri­buía-se a culpa do acontecido.

- Sim, eu me casei com ele!

Era impensável ter tomado qualquer outra atitude na época.

- Que escolha, eu tinha? - Fitou-o colérica, a raiva e a dor impressos nos olhos azuis. - Que escolha?

- Você tinha escolha - afirmou Justin. - Precisava de um marido e de um pai para seu bebê, pois não conseguiria, ou não queria enfrentar a situação sozinha. Assim, ponderou e fez uma escolha. O contador abonado era a melhor opção. Melhor que um trabalhador temporário, sem dinheiro para um pastelão! O pequeno detalhe de eu ser o pai, de ter di­reitos inegáveis também, não entrou nos seus cálculos.

Ele recuou e liberou-a, rompendo o contato físico que ob­viamente considerara extremamente desagradável.

Lágrimas brotaram quando ela identificou sofrimento nos olhos cinza, ao fitar os degraus em que, minutos antes, a pequena Jessie surgira.

Mas então a rápida percepção da alma do homem esvaiu-se. Talvez tivesse apenas imaginado o arrependimento do homem que perdera cinco anos da vida da filha, pois só via crueldade naquele instante. Crueldade que o fez levá-la ao Unicórnio, o local onde lhe declarara seu amor. Ele a levara lá deliberadamente para lembrá-la de como fora ingênua, idiota e vulgar?

Estremeceu, nauseada. Era típico de Justin jogar a culpa nos outros. Aquela devia ser a principal tática de um ver­dadeiro vigarista. Enfeitiçar as pessoas, induzindo-as a pen­sar que preto é branco. Depois, quando elas percebem o en­godo, dizer que a culpa é delas mesmas, por não terem en­xergado direito, em primeiro lugar!

- Carter sabe que Jessie não é filha dele?

Charlotte abraçou-se. A qualquer momento, a menina des­ceria os degraus novamente, imaginando o que retinha a mãe, pedindo-lhe que se apressasse, lembrando-a do prome­tido piquenique.

Não adiantava tentar fugir da verdade. Justin acabaria apurando tudo o que quisesse saber, não importava o quanto ela tentasse ocultar. Portanto, era melhor contar tudo logo, antes que a filha voltasse.

- Phillip morreu num acidente de carro há menos de dois meses. - Adotava um tom frio, pois só assim conseguia abordar o assunto. - E... sim, ele sabia que Rosie não era filha dele. Adotou-a. - Fora parte da barganha. - Mais ninguém sabe, nem mesmo meu pai. - Aquilo fora parte da barganha também. A parte mais importante. - E eu gos­taria de manter assim.

Imaginou se havia aquela possibilidade. Esconder de Justin a existência da filha fora uma terrível injustiça, ad­mitia. Agora, talvez ele quisesse fazê-la sofrer de todas as formas.

Justin não disse mais nada. Fitou-a demoradamente, enig­mático, deu-lhe as costas, entrou no carro e partiu.

- Agora, conte-me tudo. - Amy sentou-se à enorme mesa polida, misturou o chocolate quente e fitou a taça de vinho de Charlotte, reprovadora.

Era sua segunda dose e provavelmente não seria a última da noite, pensou Charlotte, histérica. Geralmente, aquela era a melhor hora de seus longos dias atarefados. Os clientes do restaurante já tinham ido embora, satisfeitos, as ajudan­tes já haviam completado a arrumação e saído. Era hora de relaxar e bater papo, como Amy dizia.

Desde o reaparecimento de Justin, Charlotte evitava ficar sozinha com a governanta, temendo suas perguntas que, sa­bia, seriam inúmeras.

- Quem diria que Justin Bieber acabaria se transfor­mando naquele homem? Seria cedo demais para ele fazer uma oferta consistente, sabemos, mas pense só... anos antes, quando vocês andavam juntos para cima e para baixo, ele quase não tinha dinheiro! Lembro-me de como ele ficou agra­decido por poder trabalhar aqui em troca apenas de um lu­gar para dormir e algo para comer. E agora ele reaparece para comprar Farthings Hall!

Dificilmente. Justin não ergueria um dedo agora para aju­dá-los a sair do poço em que haviam entrado. Charlotte sorveu um gole de vinho. Assentiu, embora soubesse que não havia esperança de que Justin recomendasse a compra de Farthings Hall ao Grupo Hallam. Não após ela confirmar que ele era o pai de Jessie.

Justin se afastara dela e de tudo o que tinha a ver com ela. Não haveria nenhuma oferta, nem contato futuro. Estranhamente, o que mais magoava era a falta de interesse dele na filha. Após arrancar-lhe a verdade, ele lhe dera as costas, sem manifestar o menor desejo de revê-la.

Tomara a atitude certa confessando toda a verdade? Justin desconfiara da paternidade de Jessie e, se ela conti­nuasse negando, ele simplesmente procuraria confirmar as suspeitas sozinho, quem sabia com que métodos!

Do modo como fizera, não haveria repercussões. Justin descobrira a verdade e fora embora. Ninguém mais saberia. Era tolice sentir-se magoada porque ele não se interessara pela filha, por não se preocupar com seu bem-estar, com seu futuro, simplesmente banindo-a de sua vida.

Tolice, porque ela não o queria em sua vida, ou na de Jessie...

- Então, vai dar a notícia a seu pai agora? Não pode protelar mais, não agora que deu o passo inicial. - Amy terminara o chocolate. Recostou-se e cruzou os braços sobre o peito avantajado. - Ele vai ficar aborrecido, mas não se aflija. Seu pai está bem mais forte agora. A negociação da dívida é que vai esgotá-lo...

Como se Charlotte não soubesse! Temia contar ao pai o real motivo de terem de vender o hotel-fazenda que era o lar dos Sullivan havia tantas gerações.

Teria de explicar ao pai que sua finada esposa, além de viver um degradante romance tórrido com o marido da en­teada, também andara desviando dinheiro do faturamento do hotel e do restaurante, deixando como heranças dívidas vultosas, as quais só conseguiriam honrar vendendo a pro­priedade. Jonh Sullivan iria se sentir ainda mais magoado e humilhado, como se já não tivesse sofrido o bastante!

Não havia a menor possibilidade de continuarem com o negócio. Uma segunda hipoteca era totalmente inviável, in­formara o gerente do banco. Charlotte levou a taça vazia à pia e a lavou. Por maior que fosse a tentação de se anestesiar com álcool, sabia que não devia beber mais.

- Vou contar tudo a ele na segunda-feira. - Recolheu a caneca de Amy. - Faremos o melhor possível no fim de semana, e ele terá mais alguns dias de relativa paz. Poderá relaxar ao sol. A previsão é de tempo bom novamente...

Na baixa temporada, o restaurante fechava aos domingos, os quais Charlotte sempre fizera questão de dedicar à família. A parte os problemas que atravessava, garantiria um final de semana maravilhoso. Então, na segunda-feira, contaria tudo ao pai.

- Certo. - Amy levantou-se. - Hora de dormir. Vou perguntar a Edith o que ela acha de eu ir morar com ela. Quando isto aqui passar para outro dono, claro. Não pensa­ria em ir embora antes disso.

A governanta pareceu abatida, e Charlotte sentiu um aper­to no coração. Amy passava os domingos com sua irmã, Edith, ali perto, em St. Mawes. Elas se toleravam em doses homeopáticas, mas era o máximo. Edith implicava demais com a solteirice de Amy, sempre comentando que ela e o marido tinham filhos e a irmã, não.

- Não por muito tempo, veja bem - acrescentou Amy, a voz trêmula. - Só até eu encontrar outro emprego com moradia.

- Oh, Amy! - Impulsivamente, Charlotte abraçou a velha senhora, oferecendo seu conforto e imaginando quanta mi­séria mais teria de enfrentar.

Amy era governanta em Farthings Hall desde que se lem­brava, sempre estivera lá para ela... principalmente após a morte de sua mãe. Agora, tudo o que podia lhe oferecer em troca de tantos anos de dedicação era seu profundo afeto.

E afeto era de pouca ajuda para alguém que vislumbrava um futuro sem teto e sem emprego...

- Por que o velho Ron gosta tanto de torta? - indagou Jessie, dançando ao lado de Charlotte.

A menina detestava tortas de qualquer tipo e, naquele domingo, como em todos os domingos, levavam duas tortas para o velho jardineiro no andar de cima do estábulo. Uma de fígado e a outra de maçã. Rosie preferia lingüiça e sorvete.

- Porque ele sabe o que é bom para ele. - Charlotte sorriu para a pilha de energia que se agitava a seus pés. Suas características... os cabelos loiros sedosos e os olhos cor de mel esverdeados... remetiam tanto ao verdadeiro pai que Charlotte duvidava de que aqueles que tivessem conhecido o jovem Justin Bieber já não tivessem feito a ligação.

Se tudo tivesse sido diferente e Jessie pudesse ser criada pelo pai e pela mãe... Charlotte sentiu um nó na garganta de emoção. Mas isso não seria possível.

Na época, quando Phillip Carter sugeriu que se casassem,o que a livraria das dificuldades, parecera-lhe uma opção fácil, a única viável.

Como podia, naquela tarde de outubro quase seis anos antes, saber como Phillip era um trapaceiro? Desconfiar de sua verdadeira intenção ao encontrá-la chorando na escada de serviço? Ainda se lembrava do diálogo...

- Charlotte? O que foi?

Se não estivesse tão perturbada, teria estranhado a pre­sença do contador na escada de serviço da mansão. Teria imaginado, tirado conclusões e, talvez, evitado o pior.

- Não precisar se preocupar - prosseguiu ele. - Seu pai vai se recuperar. Já saiu da unidade de terapia intensiva, recebe alta na semana que vem. - Tocou de leve em seu ombro e ofereceu conforto, desajeitadamente. - Ele vai ficar bem... desde que se cuide.

Charlotte soluçou mais forte. Sabia que estava constran­gendo o pobre homem, mas não podia evitar. Seu pai sofrera o primeiro e quase fatal ataque cardíaco, sem mais nem menos, uma semana antes, e o cardiologista recomendara poupá-lo de preocupações, ansiedades e situações estressan­tes por algum tempo.

Sendo assim, como lhe contar que estava grávida? Natu­ralmente, ele perguntaria quem era o pai da criança. Teria coragem de revelar? Sabendo que Jonh a amava, conhecendo seu caráter, tinha certeza de que ele moveria céus e terras para localizar o biltre Justin Bieber.

Como declarar que não se casaria com Justin Bieber nem que sua vida dependesse disso? Afirmar que fizera sexo com ele simplesmente porque tivera vontade, que não o amava? Como podia se pintar tão baixa e vil aos olhos do próprio pai?

Como contar a verdade... que não se ligaria a um homem que a fizera se apaixonar deliberadamente, propondo-lhe ca­samento, fazendo amor com paixão... provavelmente engra­vidando-a de propósito para lhe aplicar o golpe final... de olho no hotel-fazenda do qual ela a única herdeira? Um ho­mem que, além disso, entrara na mansão na ausência do dono e tentara seduzir Helena, sua esposa!

- Ouça... - Phillip pigarreou. - Você o visitou hoje cedo. Ele piorou? Por isso está preocupada? Poderei ajudar se... Bem, tenho certeza de que sabe disso, Charlotte, querida...

No limite, Charlotte desabafou tudo. Phillip era contador da empresa, praticamente um amigo da família, sempre cortês, gentil, um observador desinteressado, alguém que não fica­ria chocado demais, nem decepcionado, nem aborrecido com ela.

- Estou grávida! E não sei como vou contar isso a meu pai. Ele não pode ter preocupação... Não sei o que fazer.

- Foi aquele temporário, não foi? - deduziu Phillip, após um silêncio prolongado, a voz tensa. - Notei como andaram juntos no verão.

Ela apenas assentiu, abalada demais para falar, odiando Justin e odiando a si mesma por ter permitido que ele a enganasse. E Phillip sugeriu:

- Vamos conversar em outro lugar. Talvez eu possa aju­dá-la a decidir o que fazer...

A partir daí, Phillip assumira o controle, um grande alívio para ela. Desceram a escada de serviço e passaram pela cozinha. Embora estivesse vazia, porque as empregadas es­tavam de folga, não poderiam conversar ali, tampouco. Helena, que se recolhera pouco antes com enxaqueca, e por isso mesmo não pudera ir ao hospital em Plymouth, poderia aparecer a qualquer instante.

Secretamente, Charlotte apreciara ir sozinha ao hospital, pois, na volta, pudera passar numa farmácia distante e com­prar um teste de gravidez sem a companhia da madrasta.

- O camarada foi embora há algumas semanas, não foi? - De algum modo, Phillip conseguira levá-la ao bosque além do roseiral sem que fossem vistos por nenhum empregado. - Tem como localizá-lo?

Charlotte sentou-se no banco e amassou o lenço úmido. He­lena opinara que seria melhor todos acharem que Justin Bieber, da forma típica dos errantes, simplesmente fora embora sem avisar. Ninguém, exceto elas, sabiam o que realmente acontecera. Era melhor assim, insistira a madrasta. Menos humilhante.

- Nunca mais quero vê-lo - declarou, a voz embargada. Então, contou a história toda. Como Justin a enganara, usa­ra e traíra. Como ele contara a Helena que só estava interes­sado na herança da filha única do patrão.

Emocionada, afirmara o quanto odiava o ex-amante... mas lembrando-se, apesar da perturbação, de que era melhor não revelar a Phillip que o patife se oferecera também a Helena, sabendo que a madrasta detestaria que o fato viesse a pú­blico. A madrasta lhe recomendara inclusive que não comen­tasse o incidente nem com Jonh, porque o melhor seria ambas esquecerem que algo tão vil acontecera.

- Charlotte... - Phillip tomou-lhe a mão e acariciou-a gentil, a voz calma, apesar da emoção. - Você não está em condi­ções de raciocinar. Portanto, apenas ouça minha sugestão e reflita. Pense por um dia ou dois antes de se decidir.

Ela voltou para ele os olhos avermelhados. Se a sugestão fosse abortar, nem o deixaria completar a frase. De forma alguma, impediria seu filho de nascer. Ainda que o pai da criança fosse um patife!

Mas Charlotte ficou boquiaberta ao ouvir Phillip Carter:

- Eu me caso com você. Ninguém precisa saber que não sou o pai da criança. Isso ficaria só entre nós. - Sorriu, os olhos azul-claros cheios de compaixão. - Eu a vi florescer neste verão e, para ser sincero, tive inveja daquele camara­da. Ele podia convidá-la para sair, passar tempo com você. Eu, não. Você poderia ter me chamado de tio, e eu ficaria constrangido.

Ela quase sorriu. 

- Você não é tão velho. - Então, entendeu a importância do que ele dissera. - Não pode estar falando a sério! - exclamou, sem fôlego. - Você se casaria comigo... Por que faria isso?

Charlotte conhecia Phillip Carter havia anos, porém, percebia naquele momento, nunca o vira realmente. Tratava-se de um homem de feições agradáveis, tipicamente inglês, embo­ra os cabelos loiros começassem a escassear.

Ele tinha seu próprio escritório de contabilidade, um apar­tamento numa área nobre em Plymouth, dirigia um auto­móvel de bom preço, e certa vez vira duas garçonetes fler­tando com ele. Phillip era considerado um bom partido e po­deria ter a esposa que escolhesse. Sendo assim, por que se uniria a uma moça que já estava grávida de outro?

- Porque quero me casar - justificou ele. - Ou não é motivo suficiente? - Tomou-lhe as mãos e pressionou com gentileza. - Eu a conheço há anos e, pelo que sei, não há maldade em você. Charlotte, eu a vi se transformar de uma garota franzina e desajeitada em jovem sedutora. E fiquei com ciúme daquele errante, admito abertamente.

Charlotte enrubesceu e desviou o olhar. Fitou suas mãos entrelaçadas e, quase como se lesse seus pensamentos, ele soltou a dela e continuou:

- Completei trinta anos no mês passado. Já tive minha cota de aventuras. Quero me estabelecer. Quero uma famí­lia. Não posso ter filhos, Charlotte... uma enfermidade na in­fância me deixou estéril. Eu aceitaria o seu filho como meu... de bom grado... e ficaria muito orgulhoso se você concordasse em ser minha esposa. Tudo o que peço no momento é que pense bem antes de responder.

E ela pensara e se decidira, recordou Charlotte, vendo a filha brincar e o pai acenar do terraço, onde lia os jornais após o café da manhã. Casar-se com Phillip Carter lhe parecera a solução mais sábia para um problema terrível.

Fora o mais honesta possível, afirmando que simpatizava com ele e o respeitava. Talvez, com o tempo, viesse a amá-lo, mas nunca se apaixonaria por ele. Compreensivo, Phillip sub­meteu-se, assumindo o papel de marido e pai da criança por nascer.

Quanto a Jonh... bem, ele não escondeu a surpresa ao anúncio repentino, intrigado principalmente com sua deci­são de não ir mais para a universidade formar-se professora primária. Mas aceitou. Meses depois, apaixonou-se à primei­ra vista pela netinha.

           Jonh não disfarçava o amor quando pegava Jessie no colo e lhe dava toda a atenção do mundo.

- Se não pode mais brincar de pega-pega, vovô, então pode contar histórias - tagarelava a netinha. - Isso não cansa!

- Tem razão, querida. - Ele ergueu o sobrolho à filha, que se sentara diante deles à mesa de ferro fundido. - Que tal a do velho Ron?

- O velho Ron... - Charlotte recostou-se sob o sol fraco de outono e sorriu descontraída. Aquele domingo seria nor­mal e confortável. Não o estragaria com ansiedade pelo futuro, nem com a perspectiva de revelar ao pai que perderiam Farthings Hall. - Ele gosta mesmo é de reclamar.

Não disse mais nada. Não podia. A meia hora costumeira com o velho empregado, ouvindo-o reclamar de tudo, da falta de chuvas à incompetência daqueles que ora o substituíam, acrescentara mais peso a seu fardo, despedaçava seu coração. Os novos proprietários não permitiriam que o ancião continuasse naquele quartinho, nem o remunerariam pára "supervisionar" o trabalho nos jardins, função que Guy inventara só para fazê-lo se sentir inútil.

Não pensaria mais no velho Ron, nem no choque que fora reencontrar Justin. Não naquele domingo.

- Pronto para o café?

Jonh devia ter cortado o consumo de cafeína e álcool, e largado o charuto, mas fazia ouvidos moucos aos médicos. Sua teoria era de que, se estava para bater as botas, que matasse logo todas as vontades. Secretamente, Charlotte achava que ele se recusava a cumprir as ordens do médico porque, desde a morte de Helena e a descoberta de que ela o traía havia muito, não tinha mais ânimo para viver.

- Mas vou tomar suco de laranja hoje - cedeu ele, e Charlotte arregalou os olhos, surpresa. Ele sorriu. - Não vai adivinhar quem telefonou e se convidou para o jantar en­quanto você visitava o velho Ron!

Charlotte não via o pai tão contente havia meses.

- Papai Noel, pelo jeito! Jonh riu.

- Não chega a tanto! Mas é quase tão bom. Você se lem­bra dele... parece até que teve um fraco por ele, pelo que me lembro. Justin Bieber... um bom rapaz, sempre achei, inte­ligente demais para andar por aí, aceitando trabalhos espo­rádicos. Lamentei quando ele simplesmente desapareceu. - Desvencilhou-se dos bracinhos da neta e sorriu carinhoso enquanto a punha no chão para ir brincar com a bola.

Estava alheio à perturbação da filha.

- Ele conseguiu vencer... é presidente do Grupo Hallam, acredita? Gentil da parte dele entrar em contato, não acha?

Paralisada, Charlotte sentiu o estômago se revirar. Não podia estar acontecendo... Não podia! Mas estava!

- Você disse... disse que ele vem para jantar? - conseguiu verbalizar, controlando o impulso de gritar. - Mas quando?

- Esta noite. Você não vai estar ocupada com o restau­rante. Mas ele não faz questão da comida... pelo menos, foi o que disse. - O pai fitou-a confuso. - Não precisa se de­sesperar. Achei que nos faria bem... companhia nova e tudo o mais. Estou ansioso para saber como ele passou de errante a presidente de uma empresa como a Hallam.

Charlotte sabia. Justin calçara os sapatos de um homem morto. Mas não disse nada.

- Vou buscar o suco. - Levantou-se com as pernas trê­mulas.

- Não ficou chateada, ficou? - inquiriu o pai, estranhan­do a reação.

- Não, claro que não - disfarçou Charlotte. Mas se im­portava, muito. Correu para o vestiário dos funcionários e vomitou o café da manhã.

Sentia-se à beira da morte. Mirou-se no espelho sobre a pia em que molhara o rosto. E estava com a cara da própria.

Tinha de se recompor. Rápido.

Não imaginava por que Justin se convidara para jantar. Para ostentar seu sucesso e poder diante dos Sullivan quase falidos? Para dizer ao homem que um dia lhe permitira ocu­par o velho carroção, que o alimentara e lhe pagara uns trocados por um trabalho braçal, que agora estava em con­dições de comprar Farthings Hall mil vezes, se quisesse, mas que não o faria, porque a herdeira dera à luz uma filha

dele e nunca o procurara?

Ele seria tão cruel? Tão mau-caráter?

Não tinha como saber. Teria de dar um jeito de se encon­trar primeiro sozinha com ele naquela noite... para ameaçá-lo de morte se ele fizesse algo que perturbasse seu pai con­valescente!

Beliscou o rosto para ganhar cor, endireitou-se, respirou fundo e foi providenciar o suco de laranja. Passou o resto do dia preocupada, tentando disfarçar a preocupação, e já es­tava uma pilha de nervos quando chegou a hora de trocar de roupa para o jantar.

O que vestiria? Perturbada demais para se concentrar em detalhes tão fúteis, pegou a primeira roupa que viu no guarda-roupa. Era um vestido clássico, de crepe de seda preto, cortado no viés para ajustar-se bem ao corpo, sem mangas e com decote em V, discreto. Jovial, elegante.

Não se lembrava da última vez que o usara. Provavel­mente, num jantar de aniversário de casamento, poucos me­ses após o nascimento de Jessie. Devia ter sido. Quando com­pletaram dois anos de união, Phillip já não dava importância a essas bobagens.

Como se o descaso do finado marido importasse, àquela altura. Fazia ginástica para fechar o zíper nas costas. Ouvira o pai descendo pouco antes e teria de se arranjar sozinha. Ele devia estar acendendo a lareira na sala de jantar. Jonh gostava de proporcionar conforto aos visitantes. Embora os dias fossem relativamente quentes, esfriava à noite.

Não que Charlotte se importasse se Justin Bieber morresse congelado. Apenas precisava falar com ele antes do encontro com Jonh. Tinha quarenta e cinto minutos.

Felizmente, Jessie adormecera logo, cansada do passeio que fizera à enseada, enquanto o avô tirava a sesta. Para­lisou-se apreensiva, pensando na filha. E se Justin decidisse requerer a guarda de Jessie?

Nada o impedia de entrar com um processo na justiça.

Além de esconder do verdadeiro pai .a existência da criança, permitira que esta fosse registrada como filha de outro ho­mem. Após a venda de Farthings Hall e a renegociação da hipoteca vultosa e das outras dívidas, teriam que se mudar para uma casa modesta, e ela trabalharia o dia inteiro para sustentar a família. Rosie ficaria com o avô, cuja saúde pio­rava a cada dia, para dizer o mínimo!

Estava aterrorizada com a possibilidade. Seu coração ba­tia descompassado, os pensamentos sucediam-se sem con­trole. Arrepiou-se ao ouvir um automóvel estacionando dian­te da mansão, bem debaixo de sua janela.

Conseguiu fechar o zíper do vestido e correu à janela, confirmando seu pior pesadelo. Justin Bieber saltava de seu carro luxuoso, em terno preto, muito elegante e des­contraído. Parecia o que era... um homem poderoso em seu auge, com um toque de arrogância no posicionamento dos ombros largos... algo que inexistia quando o conhecera, quando o amara...

Praguejou deselegante e levou um segundo para calçar os sapatos e outro para avaliar-se no espelho, só para concluir, desolada, que estava horrível.

O vestido que um dia cobrira curvas tão femininas parecia apenas pendurado em seu corpo mais magro, acentuando o abatimento. Não havia tempo para se maquiar, nem para arrumar os cabelos.

Mas não se importava que ele a achasse um horror. Só queria abordá-lo antes que se encontrasse com Jonh e implo­rar, se necessário, que não dissesse nada que preocupasse o convalescente.

Era próprio do novo Justin chegar cedo. Provavelmente, fizera de propósito, para perturbá-la. Após descobrir que ela não lhe contara sobre a filha, que permitira que outro ho­mem registrasse Rosie, ele faria de tudo para infernizar sua vida.

Desceu apressada a escadaria imponente, mas não adian­tou. Jonh chegara antes e já recepcionava Justin Bieber. Um Justin Bieber que era só sorrisos.

Charlotte diminuiu o passo, buscando a dignidade que te­mia ter perdido irreversivelmente. Não confiava naquele ho­mem de repente afável. Como poderia?

- Ora, é bom vê-lo! - Jonh Sullivan parecia dez anos mais novo ao cumprimentar a visita, simplesmente feliz em ter a companhia de alguém... ou assim pensava... que não tinha nada a ver com a tragédia da família, ansioso por uma noite sem complicações. - Você ficou forte, rapaz, e, pelo que me disse, subiu na vida. Estou ansioso para ouvir tudo. Gosto de história de gente que ficou rica! Charlotte, não fique aí parada... venha dizer olá a um velho amigo!

- Já renovamos nossa amizade - informou Justin, com cordialidade.

O sorriso era puramente teatral, percebeu Charlotte, rija ao ouvi-lo recontar os detalhes da reunião mal-sucedida que tinham tido. Imaginava como minimizaria o dano... Então, fitou-o com desconfiança aberta quando ele se aproximou, o olhar penetrante e determinado.

- Antes de mais nada, Charlotte e eu temos algo para lhe contar, não é, meu amor?

Justin a segurou na cintura, e ela ficou arrepiada com a sensação incômoda. Sentiu o coração disparar com a proxi­midade do corpo forte e com o falso tratamento carinhoso. Raciocinando freneticamente, era incapaz de falar, de se mover.

- Sei que ela perdeu o marido há pouco tempo, mas, quando nos reencontramos, percebemos que o que sentíamos um pelo outro anos perdurava. Simplesmente aconteceu. Não podíamos negar... seria hipócrita fingir. Assim, planejamos nos casar o mais rápido possível, e esperamos que nos dê sua bênção e fique feliz por nós.



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