História A Queda - Capítulo 16


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Categorias Originais
Tags Apocalipse, Apocalipse Zumbi, Drama, Suspense, Terror, Zumbi
Exibições 5
Palavras 1.951
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Ficção, Sobrenatural, Survival, Suspense, Terror e Horror, Violência
Avisos: Canibalismo, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 16 - De volta à ativa


Uma voz distante me chama insistentemente. Abri os olhos e imediatamente fui ofuscado pela claridade cegante do nascer do sol. Matheus está ao meu lado (a voz era sua), amarrado assim como eu, William e Angelo, todos lado a lado.

– O quê...

– Marcos. – Matheus me cortou, falando em voz baixa. – O maldito do Marcos que tirou a gente do Braga tá aqui.

– E com outros dois soldados. Tão revirando tudo lá atrás. Disseram que vieram atrás do Urutu e acabaram com os pneus dos jipes. – Angelo disse em urgência.

– E os filhos da puta estouraram nossa barreira. A Fiorino do seu pai já era e provavelmente vão atrair muita atenção pra gente. – William acrescentou, quase tombando pela falta de equilíbrio de seus membros amarrados.

– A gente tem que sair daqui assim que...

– Acordados? – A voz terrivelmente familiar de Marcos ecoou pelo hangar.

Ele surgiu dos fundos da estrutura, caminhando lentamente com a imponente Magnum presa ao coldre.

– Já tava na hora. Detesto executar prisioneiros que dormem.

Ele riu do próprio comentário e sacou a arma, engatilhando-a.

– Tenente! – Um soldado interrompeu seu caminhar.

O homem veio da entrada do hangar, ofegante e suando:

– Tem mais deles vindo, a base tá cercada!

– Eles conseguem esperar até eu terminar com esses aqui.

O soldado nos olhou em desespero e tornou a falar:

– Deixa eles de isca! Até estarmos longe daqui. Daí os infectados não nos seguem.

O tenente ponderou, coçando o queixo. Depois guardou a Magnum, parecendo satisfeito.

– É por isso que te mantenho por perto, André. Vou falar com o Almeida, ver se a porra do Urutu tá pronto. Fica de olho neles, na entrada, nos infectados, na porra toda. – E correu para os fundos do hangar.

O tal André nos fitou, ainda suando. Ele parece raciocinar, olhando rapidamente para vários cantos do local.

– Temos pouco tempo. – Disse, aproximando-se.

William deitou de costas no chão e esticou com força suas pernas presas, tentando dar um chute no militar que esquivou facilmente.

– Tô do lado de vocês, caralho! – Ele disse, arrancando uma faca da bainha.

– Não! – Berrei, enquanto o rapaz armado se aproximava de William que tenta se esquivar.

E ele o golpeou, cortando suas amarras. Nós quatro o fitamos, completamente perdidos.

– Não é certo o que esse imbecil tá fazendo. Fiquem abaixados até a gente sair daqui, depois vocês vazam. Tem muitos infectados vindo pra cá. É o máximo que posso fazer. – Ele explicou, enquanto libertava o resto de nós.

Nos fundos, um imponente ronco de motor retumbou, ecoando pelo hangar. André olhou para trás, assustado e levantou-se de um pulo.

– Fiquem abaixados. Escondi duas pistolas no banco de um dos jipes.

O Urutu se aproximou, rugindo como um dinossauro e soltando uma fumaça preta nada promissora pelo escapamento. O soldado entrou pela abertura traseira e o veículo arrancou, deixando o hangar com a pesada fumaça. Assim que o blindado sumiu de vista, nós nos levantamos, correndo até onde montamos nossa ‘base’.

– Arco e flechas ali no canto. – Apontei à William que correu nessa direção.

Eu fui até um dos jipes e comecei a revirá-lo, em busca das armas.

– Que cheiro é esse? – Matheus perguntou, do outro carro.

Funguei, tentando saber do que se trata, e o cheiro da fumaça invadiu minhas narinas, nocivo e forte. Olhei para o outro lado e vi que a pequena sala adjacente ao hangar está em chamas. O filho da puta botou fogo no aeroclube.

– Mais rápido! – Berrei, jogando vários objetos para fora do jipe.

– Achei! – Matheus gritou, mostrando as armas.

– China, pro carro! Eu pego o Gol! – Avisei, saltando do jipe e correndo até a direção do carro de minha mãe do lado de fora.

O fogo se espalha rapidamente, tornando difícil respirar. Ao sair do hangar, vi que uma coluna de fumaça já se destaca no céu, provavelmente atraindo ainda mais infectados até nós. Olhei para a saída do aeroclube, e aparentemente, os mordedores foram atrás do Urutu.

– É a nossa chance, vamos! – Berrei, entrando no carro.

Matheus sentou no banco do carona, engatilhando a pistola.

– Nunca atirei dentro de um carro em movimento.

– Tem uma primeira vez pra tudo. – Respondi, ligando o motor.

– Aqui! – Angelo berrou jogando para Mala um walkie-talkie. Depois correu até o Fiesta de William.

O Gol arrancou, jogando terra para trás, o Fiesta preto logo atrás. Matheus ligou o rádio, procurando a frequência.

– Pra onde vamos? – A voz de Angelo soou do aparelho.

– Longe daqui. – Respondi, acelerando. – China, fica esperto!

Três infectados caminham na direção do hangar em chamas. Ao nos verem, eles esticaram os braços, tentando nos alcançar. Desviei dos três, fazendo o carro patinar na terra e rodar ao fim da rua. Acelerei novamente assim que William passou zunindo pela direita, e o segui. O Urutu deixou um rastro de corpos mutilados pelo caminho (corpos que ainda tentam se levantar e nos perseguir).

– Pro outro lado. – Angelo disse, e o Fiesta virou à direita, na direção oposta dos corpos.

Eu os segui, forçando o motor do compacto carro da Volkswagen, tentando imaginar um lugar para nos abrigarmos. Uma ideia se acendeu em minha mente, mas o lugar oferece um alto risco. Peguei o walkie-talkie das mãos de Matheus:

– China, e a USF?

O outro lado ficou em silêncio por um tempo. William então desceu uma rua com o Fiesta, parando ao lado de uma esquina. Avancei alinhando-o com o veículo.

– A USF era um hospital, não era? – William perguntou quando parei a seu lado.

– Eu sei, é meio arriscado. Mas que outro lugar vai ter pra gente ficar? Qualquer casa é uma armadilha pra gente, a USF pelo menos é grande. – Argumentei, olhando periodicamente para os lados à procura de infectados.

– Já faz um mês que aquilo não é mais um hospital, China. Talvez seja uma boa. – Angelo disse do banco do carona.

William parece hesitante, apertando firmemente o volante. Ele então engatou a marcha, olhando-me:

– Vai na frente, se ver que não vai dar, foge que eu vou atrás.

Assenti com a cabeça e engatei a marcha, acelerando com o carro. O Gol arrancou, passando à frente do Fiesta que veio logo atrás.

– USF. Vamos torcer pra que os pacientes já tenham mesmo saído de lá.

– Ou isso ou temos que correr na direção do nada. De novo. – Respondi, concentrado na direção.

Depois de um mês de ócio, lá vamos nós de novo.

 

*               *               *

Os portões metálicos estão estourados, como se um veículo pesado os tivesse atravessado. À frente, podemos ver o autor do crime: um ônibus fretado, com a traseira branca inteira manchada de sangue, está tombado de lado no meio do estacionamento, com pedaços do portão presos em seus para-brisas.

O estacionamento da universidade está lotado de barracas brancas, e ao lado da maioria delas, sacos de corpos, espalhados no chão. Conforme passamos devagar, tentando navegar pelo mar de tendas, alguns desses sacos se mexem e gemem, tentando nos alcançar, aparentemente. Há alguns veículos militares canibalizados e destruídos no meio disso. Curiosamente, há até um tanque Leopard, pousado calmamente em suas esteiras, o canhão apontado para cima numa suave inclinação de poucos graus. Pelo jeito houve algum tipo de batalha aqui.

Parei o Gol um pouco à frente do tanque, e William estacionou o Fiesta ao lado. Peguei uma faca militar que achei na base do aeroclube e saí do carro, trancando-o. Mais à frente há uma espécie de barreira com pedaços afiados de madeira, apontados em nossa direção, como uma paliçada. Fincados nesses espetos, estão alguns infectados, que tentam nos alcançar sem nem poder se virar.

– Alguém tentou ficar aqui por um tempo. – Matheus comentou, olhando para a estrutura de proteção que guarda a entrada.

– Acha que ainda estão aí? – William perguntou, caminhando ao nosso lado.

Pulamos a barreira, cautelosamente desviando dos arames farpados enrolados aos pés dos espetos. O chão está manchado de uma tonalidade escura de vermelho (antes era cinza), indicando que a tal batalha não foi nem um pouco bonita de se ver. Entramos no prédio às escuras, e William acendeu uma lanterna, iluminando fracamente o ambiente.

A maioria das salas está fechada, com as portas de madeira bloqueadas e algumas com um grande “x” vermelho pintado. Poucas mesas estão jogadas pelo corredor, algumas tombadas, outras com corpos em cima. Provavelmente ao acabarem as macas, os médicos sem saber o que fazer utilizaram as mesas dos professores para improvisar leito para os doentes. O cheiro fica mais forte a cada metro.

Uma das salas de aula à frente está aberta, sendo a única neste corredor. Curioso, William entrou no recinto e eu o segui, atento. O cheiro veio com força, nauseante. A iluminação solar entra pelas janelas abertas, trincadas e algumas até completamente arrancadas. Vários sacos de dormir estão espalhados pelo chão, assim como diversos pequenos objetos pessoais, esquecidos no piso gelado. Grotescas manchas de sangue pintam a pedra cinza de vermelho escuro e a única coisa que se escuta, são as asas de dezenas de mosquitos, sobrevoando alguma coisa num dos cantos.

William apontou a lanterna para o extremo esquerdo da sala, revelando uma horrível pilha de corpos completamente mutilados. O cheiro é extremamente forte, e o som das moscas ao redor junto com a iluminação entrecortada ajuda a criar um ambiente macabro e tétrico, como uma casa de horrores num parque de diversões. Só que aqui é real.

– Tudo bem aí? – Angelo sussurrou da porta.

– Não. – Respondi, aproximando-me dos corpos amontoados.

Num espasmo coletivo, todos eles se remexeram, estalando ossos podres e decadentes. Os gemidos vieram em seguida e meia dúzia de mãos se ergueu, tentando me agarrar à distância. Duas dessas mãos caíram no chão assim que se levantaram, fazendo um aterrador barulho ao caírem. Os mordedores tentam se arrastar até mim, desfazendo a pilha e revelando outros corpos que aos poucos, também são reanimados.

Nenhum deles têm pernas e poucos tem braços intactos. Apenas uns três estão com a pele intacta, os outros estão com todos esfolados, vermelhos e sangrentos. William suspirou a meu lado, tirando uma das flechas do arco pendurado em seu ombro. Ele se aproximou dos infectados e, um a um, matou-os enfiando a flecha em suas cabeças.

Segurando firmemente a faca, aproximei-me do mordedor mais próximo, tentando me morder do chão e sem a parte inferior da mandíbula. Sentindo um pouco de dó, ajoelhei-me a seu lado e encravei a lâmina firmemente no crânio. O mordedor parou de gemer, desmontando no chão. Repeti o processo nos mais próximos, indo cada vez mais ao fundo da sala. Estaquei, no entanto, antes de chegar ao canto.

Saindo da decrescente pilha de corpos, estão ao menos cinco crianças de várias idades, todas terrivelmente novas. Uma garota de uns 12 anos no máximo se arrasta até mim, com apenas um braço e deixando pelo caminho todos os seus órgãos e vísceras. Enjoado, enfiei a faca na têmpora da menina, que após um raivoso lamento, desmontou no chão. Outras crianças ainda mais novas se aproximam de mim e de William, completamente perdido pela visão. Esta sala é uma sucursal do inferno.

Com 6, talvez 7 anos, veio um garoto sem metade do rosto e com a mandíbula num horrível ângulo quebrado. Outro, de talvez uns 10, sem ambos os braços e uma perna. Um terceiro, cortado pela metade, com os intestinos se arrastando pelo chão. Por último, outra garota, não mais de quatro anos, com uma grande mordida no pescoço, no rosto, no ombro, no que restou do braço esquerdo. Um a um, ceifamos suas meias-vidas, acabando com nossa humanidade a cada golpe novo. Ao fim, saímos da sala, enojados, aterrorizados e sem muitas esperanças de um mundo melhor. Em silêncio, voltamos a andar pelo corredor escuro, imaginando quantas outras atrocidades veremos ao fim deste prédio.



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