História A Rainha Vermelha-Aguslina - Capítulo 14


Escrita por: ~

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Categorias A Rainha Vermelha, Sou Luna
Tags Aguslina, Aventura, Romance
Visualizações 42
Palavras 3.658
Terminada Não
LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Ação, Aventura, Crossover, Ficção, Mistério, Romance e Novela

Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


OI!
#Voltei!
BOA LEITURA!
Nos vemos nas notas finais!

Capítulo 14 - Capítulo 13


Fanfic / Fanfiction A Rainha Vermelha-Aguslina - Capítulo 14 - Capítulo 13

 

O PRÓXIMO PROFESSOR ME AGUARDA NUMA SALA abarrotada do chão ao teto com livros. Mais publicações do que já vi na vida, mais do que pensei existir. Parecem antigos e inestimáveis.

Apesar da minha aversão a escolas e livros em geral, sou atraída por eles. Mas os títulos e as páginas estão escritos numa língua que não entendo, um amontoado de símbolos que não tenho qualquer esperança de decifrar.

Tão intrigantes quanto os livros são os mapas espalhados pelas paredes: do reino e de outros países, novos e antigos. Emoldurado na parede oposta à porta, protegido por um vidro, há um mapa enorme e colorido montado a partir de diferentes folhas. Com pelo menos duas vezes meu tamanho, sua presença domina a sala. Desbotado e rasgado, trata-se de um emaranhado de linhas vermelhas, costas azuis, florestas verdes e cidades amarelas. É o velho mundo, o mundo de antes, com seus nomes e fronteiras que já não têm qualquer serventia.

— É estranho olhar para o mundo como era antes — diz o professor, saindo de trás das pilhas de livros. Sua túnica amarela, manchada e desbotada pelo tempo, dá a ele a aparência de uma folha de papel humana. — Consegue adivinhar onde estamos?

A imensidão do mapa me faz engolir em seco, mas, como sempre, tenho certeza de que é um teste.

— Posso tentar.

Norta fica a noroeste. Palafitas fica à beira do rio Capital, e o rio deságua no mar.

Após um minuto de sofrida procura, finalmente encontro o rio e a enseada perto do meu vilarejo.

— Aqui — respondo com o dedo apontado um pouco mais ao norte, onde imagino que fique Summerton.

Ele assente, feliz por eu não ser uma burra completa.

— Reconhece mais algum lugar?

No entanto, o mapa também está escrito numa língua desconhecida.

— Não consigo ler.

— Não perguntei se consegue ler — responde ele, ainda simpático. — Além disso, as palavras mentem de vez em quando. Veja além delas.

Dou de ombros e me forço a olhar de novo. Nunca fui boa aluna na escola, o homem logo vai descobrir. Para minha surpresa, porém, até gosto do jogo: examinar o mapa, procurar lugares conhecidos.

— Aqui talvez seja Harbor Bay — balbucio afinal, circulando com o dedo a área em torno de um cabo recurvado.

— Correto — ele confirma, abrindo um sorriso. As rugas ao redor dos olhos ficam mais evidentes e transparecem sua idade. — Aqui é Delphie — acrescenta, apontando para uma cidade bem ao sul. — E Archeon é aqui.

Ele põe o dedo sobre o rio Capital num ponto a poucos quilômetros daquela que parece ser a maior cidade do mapa, do país do mundo de antes. As Ruínas. Já ouvi esse nome sussurrado pelos garotos mais velhos e pelos lábios do meu irmão Shade. A Cidade Cinzenta, os Escombros. Sinto um calafrio só de pensar no lugar, ainda coberto por fumaça e sombras por causa de uma guerra ocorrida há mais de mil anos. Será que nosso país vai ficar assim se a guerra não acabar?

O professor recua um pouco e me deixa pensar. Sua ideia de ensinar é bem estranha: provavelmente vai acabar num jogo em que fico na parede analisando mapas por quatro horas.

É então que, de repente, o rumor no quarto me deixa alerta. Quer dizer, a falta de rumor. Senti o peso elétrico das câmeras ao longo do dia todo, tanto que até parei de me importar. Até agora, quando não sinto nada. Foi embora. Ainda posso sentir a eletricidade das luzes, mas nada de câmeras. Nada de olhos. Elara não pode me ver aqui.

— Por que ninguém nos observa?

Ele apenas pisca para mim.

— Há uma diferença na minha aula — ele murmura. Não sei o que quer dizer, e isso me deixa furiosa.

— O quê?

— Caro, estou aqui para ensinar sua história, para ensiná-la a ser prateada e ser, hum, útil — diz, com uma expressão amarga. — Mas também vou tentar compreender exatamente como você existe e como seus poderes funcionam.

Encaro o professor, meio confusa.

— Meus poderes funcionam porque... porque sou prateada. Os poderes dos meus pais se misturaram: meu pai era oblívio e minha mãe tempestuosa — gaguejo a explicação que Elara me ensinou. — Sou prateada, senhor — finalizo, tentando fazê-lo entender.

Para meu horror, ele balança a cabeça.

— Não, você não é, Caro Kopelioff, e jamais pode esquecer isso.

Ele sabe. Estou arruinada. Acabou. Tenho que implorar a ele para guardar segredo, mas as palavras entalam na garganta. O fim está próximo e sequer consigo abrir a boca para impedir.

— Isso não é necessário — ele continua ao perceber meu medo. — Não tenho planos de avisar ninguém sobre sua ascendência.

Sinto um breve alívio que logo se transforma em outro tipo de medo.

— Por quê? O que quer de mim?

— Sou, acima de tudo, um homem curioso. Você entrou na Prova Real como uma criada vermelha e saiu como uma nobre prateada perdida. Tenho que dizer que fiquei bastante curioso.

— É por isso que não há câmeras aqui? — disparo enquanto me afasto dele. Cerro os punhos e desejo que o trovão venha me proteger deste homem. — Para que não existam registros de você me examinando?

— Não há câmeras aqui porque tenho o poder de desligá-las.

Uma centelha de esperança brilha na escuridão absoluta em mim.

— E que poder é esse? — pergunto, trêmula. Talvez ele seja como eu.

— Caro, quando um prateado diz “poder”, quer dizer “autoridade”. Embora poder também tenha a ver com todas essas bobagens que fazemos.

Bobagens. Como partir um homem em dois ou afogar alguém na praça.

— O que quero dizer — ele prossegue — é que minha irmã já foi rainha, e que isso ainda tem algum valor por aqui.

— Lady Blonos não me ensinou isso.

Ele ri sozinho.

— Isso é porque Lady Blonos está lhe ensinando baboseiras. Jamais farei isso.

— Então, se a rainha era sua irmã, você é...

— Julian Jacos, ao seu dispor — ele faz uma reverência cômica. — Chefe da Casa Jacos, herdeiro de nada além de um punhado de livros velhos. Minha irmã era a falecida rainha Coriane, e o príncipe Tiberias VII, que chamamos de Agus, é meu sobrinho.

Agora que diz, dá para notar a semelhança. A cor de Agus veio do pai, mas o rosto calmo e a ternura dos olhos só podem ter vindo da mãe.

— Então você não vai me transformar em alguma experiência científica esquisita para a rainha? — pergunto, ainda receosa.

Em vez de ficar ofendido, Julian gargalha alto.

— Minha cara, a única coisa que a rainha quer é que você desapareça. Descobrir o que você é e ajudá-la a entender é a última coisa em que ela pensa.

— Mas você vai fazer isso mesmo assim?

Algo brilha em seus olhos, algo como ódio.

— A influência da rainha não é tão abrangente como ela quer que você pense. Quero saber o que você é, e tenho certeza de que você deseja o mesmo.

Meu interesse agora é tão grande quanto meu medo era instantes atrás.

— Sim.

— Foi o que pensei — diz, sorrindo. — Sinto muito em informar, porém, que terei de fazer o que me pediram: prepará-la para o dia da sua apresentação ao mundo.

Fico pasma. Lembro-me do que Agus disse na sala do trono: “A campeã dos plebeus. Uma prateada de sangue, mas vermelha de criação”.

— Eles querem me usar para acabar com a rebelião. De algum jeito.

— Sim. Meu caro cunhado e sua rainha creem que você pode fazer isso, se usada adequadamente — ele confirma amargurado.

— É uma ideia idiota e impossível. Não serei capaz de fazer nada e então... — minha voz desaparece. Então vão me matar.

Julian segue minha linha de raciocínio.

— Está errada, Caro. Não compreende o poder que possui agora, quantas coisas pode controlar.

Ele faz uma pausa para levar as mãos atrás das costas de um jeito estranho.

— A Guarda Escarlate — retoma — é drástica demais, muito, muito rápida. Mas você é a mudança controlada, do tipo em que as pessoas podem confiar. Você é a chama lenta que pode dissipar uma revolução com um punhado de discursos e sorrisos. Você pode falar aos vermelhos, dizer-lhes quão nobres, benevolentes e corretos são os prateados. Você pode convencer seu povo a voltar para os grilhões. Mesmo os prateados que questionam o rei, aqueles que têm dúvidas, podem ser convencidos por você. E o mundo permanecerá igual.
Para minha surpresa, a perspectiva parece desanimar Julian.

— E você não quer isso? — sem as câmeras barulhentas, acabo me soltando e fazendo cara de desdém. — Você é prateado. Tem que odiar a Guarda e... me odiar.

— Pensar que todos os prateados são maus é tão errado quanto pensar que todos os vermelhos são inferiores — ele rebate com a voz grave. — O que meu povo vem fazendo com você e seu povo é uma ofensa aos fundamentos da humanidade. Oprimir e aprisionar os vermelhos num círculo perpétuo de pobreza e morte, apenas por pensarmos que vocês são diferentes de nós? Não é certo. E como todos que conhecem história podem lhe contar, termina em desastre.

— Mas somos diferentes — respondi. Um dia no mundo prateado já me ensinou isso. — Não somos iguais.

Julian se inclina para mim e lança um olhar penetrante.

— Estou diante da prova de que você está errada

Você está diante de uma aberração, Julian.

— Vai deixar que eu prove que está errada, Caro?

— Pra quê? Nada vai mudar.

Julian suspira enfadado. Passa a mão pelos cabelos castanhos e escassos.

— Por centenas de anos os prateados caminharam sobre a terra como deuses de carne e osso, ao passo que os vermelhos não passam de escravos sob seus pés. Até você aparecer. Se isso não é uma mudança, não sei o que é.

Ele pode me ajudar a sobreviver. Melhor ainda: talvez até me ajude a viver.

— E o que fazemos, então?

*

Meus dias são ritmados, sempre com a mesma programação. Protocolo de manhã, aulas à tarde. No meio-tempo, Elara me faz desfilar em almoços e jantares. Aparentemente, Sonya e Pantera ainda desconfiam de mim, mas não disseram mais nada desde nosso primeiro encontro. A ajuda de Ruggero parece ter funcionado, por mais que odeie admitir.

No evento seguinte com mais pessoas — na sala de jantar particular da rainha —, as Iral ignoram completamente minha presença. Apesar das aulas de protocolo, o almoço ainda é perturbador; passo o tempo todo tentando lembrar o que me ensinaram. Osanos, ninfoides, azul e verde. Welle, verdes, verde e dourado. Lerolan, oblívios, laranja e vermelho. Rhambos e Tyros e Nornus e Iral e muitos outros nomes. Nunca vou entender como alguém consegue gravar tudo isso.

Como sempre, meu lugar fica ao lado de Malena. É doloroso ter a consciência de que todos os utensílios de metal na mesa são armas letais em suas mãos cruéis. Cada vez que ela levanta a faca para cortar a comida, meu corpo fica tenso à espera do golpe. Elara, como de costume, sabe o que estou pensando, mas continua a refeição com um sorriso. Talvez pior que a tortura de Malena seja saber que a rainha se diverte ao assistir à nossa guerra silenciosa.

— E o que achou do Palacete do Sol, Lady Titanos? — pergunta a garota à minha frente.

Atara, Casa Viper, verde e preto. Foi ela quem matou os pombos. Ela acrescenta:

— Suponho que não haja comparação com o vilarejo onde você morava antes.

Ela pronuncia a palavra “vilarejo” como se fosse uma maldição, e não deixo passar seu sorriso malicioso.

As mulheres riem com ela. Umas poucas cochicham como que escandalizadas.

Levo um tempo para abrir a boca, esperando o sangue esfriar.

— O Palacete e Summerton são muito diferentes do lugar a que estou acostumada — forço a resposta.

— Óbvio — diz outra mulher, que se inclina para entrar na conversa. Uma Welle, a julgar pela túnica verde e dourada. — Fiz um passeio pelo vale do rio Capital uma vez e devo dizer que os vilarejos vermelhos são simplesmente deploráveis. Não têm sequer estradas adequadas.

Mal conseguimos comer, quanto mais asfaltar estradas. Cerro a mandíbula quase ao ponto de rachar os dentes. Tento sorrir, mas o que sai é uma careta. Enquanto isso, as outras concordam com a Welle.

— E os vermelhos... Bom, acho que aquilo é o melhor que podem fazer com o que têm — ela continua, torcendo o nariz. — São feitos para aquele tipo de vida.

— Não temos culpa de terem nascido para servir — uma Rhambos de vestido marrom diz, leviana, como se falasse do tempo ou da comida. — É simplesmente sua natureza.

O ódio cresce dentro de mim, mas o olhar da rainha me diz para aguentar e cumprir meu dever. Preciso mentir.

— Sim, de fato. — Ouço as palavras saírem da minha boca. Debaixo da mesa, cerro os punhos e sinto meu coração se partir.
Por toda a mesa, as mulheres escutam com atenção. Muitas sorriem e a maioria concorda com a cabeça diante da minha defesa às suas crenças terríveis sobre meu povo. Seus rostos me dão vontade de gritar.

— Claro — continuo, incapaz de me conter —, qualquer um forçado a levar uma vida assim, sem descanso, férias e escapatória, acabaria como servo.
Os poucos sorrisos desaparecem e se contorcem espantados.

— Lady Titanos terá os melhores tutores e toda a ajuda necessária para adequar-se à nova vida — Elara me interrompe rapidamente. — Já começou as aulas com Lady Blonos.

As mulheres murmuram em aprovação ao passo que as garotas fazem caretas. Isso me dá tempo suficiente para recuperar o autocontrole necessário para sobreviver à refeição.

— O que sua majestade real pretende fazer com os rebeldes? — pergunta uma mulher com rispidez. A indagação produz um choque de silêncio na mesa e desvia o foco de mim.

Todos os olhos se voltam para a questionadora: uma mulher de uniforme militar. Outras mulheres também usam farda, mas a dela brilha com mais medalhas e fitas. A feia cicatriz que rasga seu rosto sardento indica que talvez as tenha merecido. Aqui no palácio é fácil esquecer que há uma guerra acontecendo, mas seu olhar assombrado diz que ela não vai, não pode, esquecer.

A rainha Elara baixa a colher com elegância ensaiada e abre um sorriso, igualmente ensaiado.

— Coronel Macanthos, dificilmente podemos chamá-los de rebeldes...

— E esse foi o único atentado que assumiram — rebate a coronel, interrompendo a rainha. — E a explosão em Harbor Bay? E, já que estamos nisso, a base aérea de Delphie? Dois jatos destruídos e outro roubado de uma das nossas próprias bases!
Arregalo os olhos e, como outras presentes, não consigo conter a surpresa. Mais ataques? Só que, enquanto as outras parecem assustadas e levam a mão à boca, tenho que segurar a vontade de sorrir. Farley tem andado ocupada.

— Você é engenheira, coronel? — a voz de Elara soa aguda, fria e definitiva. Não dá a Macanthos a chance de negar com a cabeça.

— Então não é capaz de entender que foi um vazamento de gás que causou a explosão em Harbor. E, por favor, refresque minha memória: você comanda as tropas aéreas? Ah, não. Sua especialidade são as forças terrestres. O incidente na base aérea foi uma manobra de treinamento supervisionada pelo próprio general Lord Laris. Ele garantiu pessoalmente à sua majestade que a base de Delphie é segura.

Numa luta justa, Macanthos provavelmente deixaria a rainha em pedaços com as próprias mãos. Em vez disso, Elara a partiu no meio com nada além de palavras. E ela sequer terminou.

O comentário de Julian ecoa em minha cabeça: as palavras mentem de vez em quando.

— O objetivo deles é ferir civis inocentes, prateados e vermelhos, para incitar medo e histeria. São poucos, restritos e covardes. Escondem-se da justiça do meu marido. Considerar toda desgraça ou infortúnio deste reino obra desse mal apenas colabora com seus esforços de aterrorizar o resto da população. Não dê a esses monstros a satisfação que desejam.

Algumas mulheres aplaudem e inclinam a cabeça em concordância com a mentira deslavada da rainha. Malena segue o exemplo e o gesto rapidamente se espalha, até que apenas a coronel e eu permanecemos em silêncio. Dá para notar que ela não acredita em nada do que a rainha diz, mas não há como chamá-la de mentirosa. Não aqui, não na casa dela.

Por mais que queira continuar sem fazer nada, sei que não posso. Meu nome é Carolina, não Caro, tenho que apoiar minha rainha e suas palavras desgraçadas. Minhas mãos juntam-se num aplauso à mentira de Elara ao passo que a coronel inclina a cabeça, repreendida.
 

Embora eu esteja constantemente rodeada de criados e prateados, sinto-me só. Não vejo Agus com frequência graças à sua agenda ocupada com treinamento, treinamento e mais treinamento. Ele às vezes sai do Palacete para falar às tropas de uma base aqui perto ou acompanhar o pai em negócios de Estado. Imagino que possa conversar com Ruggero, com seus olhos azuis e meios sorrisos, mas ainda não confio muito nele. Por sorte, nunca somos deixados a sós de verdade. Trata-se de uma tradição boba da corte: evitar que rapazes e moças da nobreza se sintam tentados, nas palavras de Lady Blonos. Duvido que isso se aplique ao meu caso.

Para ser sincera, passo a metade do tempo sem me lembrar de que um dia terei que casar com ele. A ideia de Ruggero como meu marido não parece real. Não somos sequer amigos, quanto mais parceiros. Por mais simpático que ele seja, meus instintos me dizem para não confiar demais no filho de Elara. Ele esconde alguma coisa. O que é, não sei.

Os ensinamentos de Julian tornam as coisas mais suportáveis. A educação que eu antes lamentava agora é uma luz no mar de trevas. Sem as câmeras ou os olhos de Elara, podemos passar o tempo descobrindo o que sou de verdade. Mas as coisas caminham devagar, e ambos estamos frustrados.

— Acho que sei qual é o problema — diz Julian ao fim da minha primeira semana.

Ouço essas palavras de pé, com os braços estendidos do jeito idiota de sempre. Um estranho dispositivo elétrico está preso em meus pés e de vez em quando solta faíscas. Julian quer testá-lo, mas de novo falhei em produzir os raios que me botaram nesta bagunça.

— Talvez eu precise correr um risco mortal — digo bufando. — Que tal pedir a arma de Lucas emprestada?

Julian geralmente ri das minhas piadas, mas agora está ocupado demais pensando.

— Você é como uma criança — ele finalmente afirma. Torço o nariz, ofendida, mas ele continua mesmo assim. — É assim que as crianças são no começo: não conseguem controlar seus poderes. Eles só se manifestam em situações de estresse ou medo, até a pessoa aprender a domar as emoções e usá-las em benefício próprio. Existe um gatilho, e você precisa encontrar o seu.

Lembro de como me senti no Jardim Espiral ao cair em direção à minha aparente morte. Não sentia medo nas minhas veias quando colidi com o escudo elétrico; sentia paz. Sabia que meu fim tinha chegado e aceitava que não havia nada a fazer para mudar isso. Deixei-me ir.

— Vale a pena ao menos tentar — provoca Julian.

Resmungando, volto-me para a parede mais uma vez. Julian enfileirou umas estantes de pedra, todas vazias, para que eu tivesse onde mirar. Pelo canto do olho consigo ver o professor se afastar, mas sem deixar de me observar.

Solte-se. Deixe-se ir, sussurra a voz em minha cabeça. Meus olhos fecham levemente enquanto me concentro. Meus próprios pensamentos desaparecem para que minha mente busque a eletricidade que tanto deseja. As ondas de energia, vivas sob minha pele, agitam-se em mim mais uma vez, até vibrar em cada músculo e nervo. Geralmente o processo termina aí, mas não desta vez. Em vez de segurar, vou ao encontro dessa força, me deixo levar. Mergulho em algo que sou incapaz de explicar, uma sensação que é tudo e nada, luz e trevas, calor e frio, vida e morte. Logo, o poder é a única coisa na minha cabeça, ofuscando todos os meus fantasmas e lembranças. Mesmo Julian e os livros deixam de existir. Minha mente está limpa, como um vazio negro a ressoar força. Agora, me concentro na força e ela não desaparece; na verdade, se move pelo meu corpo, dos olhos à ponta dos dedos. À minha esquerda, Julian deixa escapar uma interjeição de espanto.

Abro os olhos. Um feixe de faíscas lilás salta do dispositivo até meus dedos, como em fios elétricos.

Pela primeira vez, Julian fica sem palavras. E eu também.

Não quero me mexer. Tenho medo de que a menor mudança faça os raios desaparecerem. Mas eles não desaparecem. Continuam, saltando e se contorcendo em minhas mãos. Parecem brincar, inofensivos, como um gatinho e seu novelo. Lembro então do que quase fiz com Malena. Este poder é destrutivo se eu quiser.

— Tente movê-lo — Julian fala baixinho enquanto me observa entusiasmado.

Algo me diz que o raio vai obedecer meus desejos. É parte de mim, um pedaço da minha alma vivo no mundo.

Aperto o punho, e as faíscas reagem aos músculos tensos; ficam maiores, mais brilhantes e mais velozes. Expandem-se até a manga da minha camisa, e em segundos consomem o tecido.

Como uma criança que vai arremessar uma bola, chacoalho o braço na direção das estantes de pedra e abro a mão no último instante. O raio voa pelos ares numa bola de centelhas brilhantes e colide com o alvo.

O estrondo da explosão me faz gritar e cair para trás sobre uma pilha de livros. Meu coração dispara. Durante a queda, vejo a estante de pedra sólida se desfazer numa nuvem grossa de pó. As faíscas reluzem por um segundo sobre os escombros antes de desaparecer, deixando apenas ruínas.

— Desculpe pela estante — digo. A manga da minha camisa ainda faísca, convertida num chumaço de fios soltos. Mas isso nem se compara aos tremores na mão. Meus nervos parecem cantar, latejar de poder. E a sensação é boa.

A silhueta de Julian se aproxima através das nuvens de pó. Rindo a plenos pulmões, ele examina a obra. Seus dentes alvos brilham através da poeira.

— Vamos precisar de uma sala de aula maior.
 


Notas Finais


OI!
Voltei!!
Gostaram?
Obrigada pelo carinho!
Amo vocês!! #Amo #ARainhaVermelha #Aguslina
Abraço a todos!
Nunca deixem de sorrir!


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