História A Rainha Vermelha-Aguslina - Capítulo 15


Escrita por: ~

Postado
Categorias A Rainha Vermelha, Sou Luna
Tags Aguslina, Aventura, Romance
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Palavras 5.397
Terminada Não
LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Ação, Aventura, Crossover, Ficção, Mistério, Romance e Novela

Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Oi!
#Voltei
BOA LEITURA!
Nos vemos nas notas finais!!

Capítulo 15 - Capítulo 14


Fanfic / Fanfiction A Rainha Vermelha-Aguslina - Capítulo 15 - Capítulo 14

 

Ele não está enganado. A cada dia somos obrigados a encontrar salas novas e maiores para praticar até finalmente descobrir um lugar adequado no andar subterrâneo. As paredes são de concreto e metal, bem mais resistentes que a pedra decorativa e a madeira dos andares superiores. Minha mira é decepcionante, para dizer o mínimo, de modo que Julian precisa tomar muito cuidado ao se posicionar nos treinos. Em todo caso, é cada vez mais fácil invocar os raios.

Julian toma notas o tempo inteiro, registrando tudo, desde os meus batimentos cardíacos até a temperatura de um cálice recém-eletrizado. Cada anotação nova faz surgir em seu rosto um sorriso confuso, mas feliz, embora ele não me diga o motivo de tanta alegria. Duvido que entendesse mesmo que ele explicasse.

— Fascinante — murmura ao ler algum valor de um dispositivo de metal cujo nome não sei. Ele diz que o aparelho mede energia elétrica, mas não entendo como.

Esfrego as mãos para “desenergizá-las”, como Julian diz. As mangas da minha camisa permanecem intactas desta vez, graças à minha roupa nova. É feita de tecido à prova de fogo, como o que Agus e Ruggero usam, embora eu ache que a minha deveria ser à prova de choque.

— O que é fascinante? — pergunto.

Ele hesita, como se não quisesse contar, como se não devesse contar, mas finalmente dá de ombros e diz:

— Antes de você se energizar e fritar aquela pobre estátua — ele aponta para o monte de entulho fumegante que uma vez fora o busto de algum rei —, medi a quantidade de eletricidade nesta sala: luzes, fiação, esse tipo de coisa. E agora acabo de medir você.

— E?

— Deu o dobro do registrado antes — ele anuncia orgulhoso, mas não sei por que isso é tão importante afinal.

Com um gesto breve, Julian desliga a “caixa de faíscas” — nome que dei ao aparelho. Sinto sua eletricidade morrer.

— Tente outra vez.

Respiro fundo e me concentro novamente. Depois de um tempo, a eletricidade volta, tão forte quanto antes. Mas, desta vez, vem de dentro de mim.

O sorriso de Julian vai de orelha à orelha.

— E então...?

— Então isso confirma minhas suspeitas.

Às vezes esqueço que Julian é um cientista e estudioso. Mas ele não demora muito para refrescar minha memória.

— Você gerou energia elétrica.

Agora fico confusa de vez.

— Certo. É meu poder, Julian.

— Não, pensei que seu poder fosse manipular, não criar eletricidade — ele diz em tom grave. — Ninguém consegue criar, Caro.

— Mas isso não faz sentido. Os ninfoides...

— Manipulam água. Não podem usar o que não está por perto.

— Bom, mas e Agus? Ruggero? Não vejo muitas labaredas por aí para eles brincarem.

Julian sorri e balança a cabeça.

— Você já viu as pulseiras, certo?

— Eles usam sempre.

— As pulseiras produzem centelhas, chamas minúsculas que os rapazes controlam. Sem algum recurso para iniciar o fogo, ambos ficam impotentes. O princípio é sempre o mesmo: os prateados manipulam algo. Nossa força depende do ambiente. Mas você é diferente, Caro.
 

Sou diferente. Diferente de todos.

— E o que isso quer dizer?

— Não tenho certeza. Você é algo completamente novo. Nem vermelho, nem prateado. Algo novo. Algo mais.

— Algo diferente.

Esperava que os testes de Julian me aproximassem de alguma resposta. Em vez disso, apenas levantaram mais perguntas.

— O que eu sou, Julian? O que há de errado comigo?

De repente, sinto um nó na garganta. Meus olhos marejam. Preciso piscar várias vezes na tentativa de conter as lágrimas quentes. Acho que tudo se acumulou: protocolo, aulas, a desconfiança de todos, um lugar onde nem posso ser eu mesma. É sufocante. Quero gritar, mas sei que não posso.

Não há nada de errado em ser diferente — ouço Julian falar, mas suas palavras são apenas um eco. O som é abafado pelas lembranças de Gisa e Mike.

— Caro?

Julian dá um passo em minha direção; seu rosto é a própria imagem da gentileza. Mas ele para a um braço de distância de mim. Não pelo meu bem, mas pelo seu. Para se proteger de mim. Também me assusto quando percebo que os raios voltaram. Eles avançam sobre meus braços e ameaçam se transformar numa tempestade de luzes e fúria.

— Caro, concentre-se em mim. Caro, controle.

Sua voz é suave e tranquila, mas firme. Parece até que Julian está com medo de mim.

— Controle, Caro.

Mas sou incapaz de controlar qualquer coisa. Nem meu futuro, nem meus pensamentos, nem este poder que é a raiz de todos os meus males.

Há pelo menos uma coisa que ainda consigo controlar por ora: meus pés.

Como a covarde que sou, corro.

Avanço pelos corredores vazios sob o peso de mil câmeras invisíveis. Não tenho muito tempo até que Lucas ou, pior, os sentinelas me encontrem. Só preciso respirar. Só preciso olhar para cima e ver o céu, não o vidro.

Passo dez segundos de pé na sacada antes de perceber a chuva, que extingue o calor da minha raiva. Os raios se foram; deram lugar a lágrimas vergonhosas e ardentes que escorrem pelo meu rosto. Um trovão retumba em algum lugar distante. Ar quente, sem umidade. O calor diminuiu. O verão acabará logo. O tempo passa. A vida mudou, não importa o quanto eu deseje que volte ao que era.
Uma mão forte se fecha em torno do meu braço e quase solto um grito. Dois sentinelas estão ao meu lado, com seus olhos sombrios debaixo das máscaras. Ambos têm o dobro do meu tamanho. Insensíveis, tentam me arrastar de volta para aquela prisão.

— Senhora — rosna um deles, sem qualquer aparência de respeito.

— Me deixa — a ordem sai fraca, quase um suspiro. Começo a perder o fôlego como se estivesse me afogando. — Apenas mais uns minutos, por favor...

Só que não sou mestre deles. Não respondem a mim. Ninguém responde.

— Vocês ouviram minha noiva — diz outra voz. As palavras vêm firmes e duras, no tom da realeza. Ruggero. — Deixem-na ir.

Não posso deixar de sentir um alívio ao ver o príncipe pisar na sacada. Os sentinelas aprumam o corpo em sua presença e inclinam a cabeça em sua direção. Aquele que me segura fala:

— Devemos assegurar que Lady Titanos cumpra a programação. São ordens, senhor — explica ao mesmo tempo que relaxa um pouco a mão.

— Pois agora vocês têm novas ordens — replica Ruggero, a voz fria como gelo. — Eu acompanharei Carolina de volta à aula.

— Muito bem, senhor — dizem os sentinelas em uníssono, impossibilitados de desobedecer um príncipe.

Assim que batem em retirada com suas capas flamejantes pingando água da chuva, solto um suspiro alto. Só então percebo que minhas mãos tremem, de modo que preciso cerrar o punho para esconder a agitação. Mas Ruggero é educado acima de tudo e finge não notar.

— Os chuveiros lá dentro funcionam bem, sabia?

Esfrego as mãos nos olhos, apesar de minhas lágrimas já terem se perdido na chuva faz tempo. Restaram apenas um vergonhoso nariz escorrendo e manchas pretas da maquiagem. Felizmente o pó prateado aguentou firme. O negócio é mais resistente à água do que eu.

— Primeira chuva da estação — me esforço para falar, tentando reproduzir uma voz normal. — Precisava ver pessoalmente.

— Certo — ele diz, chegando mais perto.

Viro o rosto para o outro lado na esperança de esconder as lágrimas mais um pouco.

— Entendo, sabe? — acrescenta Ruggero.

Entende mesmo, príncipe? Entende como é ser arrancada de tudo o que ama, forçada a ser outra pessoa? Mentir a cada minuto de cada dia pelo resto da vida? Saber que há algo errado com você?

Não tenho forças para aguentar seus sorrisos de complacência.

— Pode parar de fingir que sabe alguma coisa sobre os meus sentimentos.

Seu rosto se enche de amargura com o tom da minha voz, e seus lábios se contorcem.

— Acha que não sei quão difícil é estar aqui? Com essas pessoas?

A essas palavras, ele lança um olhar por sobre o ombro, preocupado que alguém possa ouvir. Mas ninguém ouve; apenas a chuva e os trovões estão presentes.

— Não posso dizer o que quero, fazer o que quero — Ruggero prossegue. — Com minha mãe por perto, mal posso pensar o que quero. E meu irmão...

— O que tem seu irmão?

As palavras entalam na garganta. Não quer pronunciá-las, mas as sente mesmo assim.

— Ele é forte, talentoso, poderoso... Sou sua sombra. A sombra da chama.

Aos poucos ele relaxa. Então me dou conta de que o ar ao nosso redor estava estranhamente quente.

— Desculpe — acrescenta, dando um passo para trás a fim de que o ar esfrie. Diante dos meus olhos, Ruggero dilui-se novamente na figura do príncipe prateado, mais afeito a banquetes e uniformes. — Eu não devia ter dito isso.

— Tudo bem — sussurro. — É bom saber que não sou só eu que me sinto deslocada.

— Isso é algo que você devia saber sobre nós, os prateados. Estamos sempre sozinhos. Aqui — ele aponta para a cabeça — e aqui — conclui, apontando para o coração. — Isso nos torna fortes.

Um relâmpago rasga os céus e ilumina seus olhos azuis, que parecem brilhar.

— Isso é burrice — digo a ele, que solta uma risada sombria.

— É melhor você esconder esse seu coração, Lady Titanos. Ele não vai levá-la a nenhum dos lugares a que deseja chegar.

As palavras me dão calafrios. Por fim, lembro-me da chuva e de como minha aparência deve estar lamentável.

— Preciso voltar à aula — balbucio.

A intenção era simplesmente abandoná-lo na sacada. Ruggero, porém, agarra meu braço.

— Acho que posso ajudar a resolver seu problema.

Ergo as sobrancelhas, desconfiada.

— Que problema?

— Você não parece do tipo que chora por qualquer besteira. Está com saudades de casa.

Antes de eu dizer qualquer palavra de protesto, ele levanta a mão e dispara:

— Posso dar um jeito nisso.

*
 

OS SEGURANÇAS PATRULHAM O CORREDOR que dá para o meu quarto em pares. Desta vez, porém, estou de braços dados com Ruggero, de modo que eles nem ousam me parar. Embora seja noite, bem depois do horário em que deveria estar na cama, ninguém diz nada. Não se bate de frente com um príncipe. Não sei para onde ele me leva, mas prometeu que eu chegaria lá: em casa.

Ruggero é tímido, mas determinado. Caminha lutando para conter um sorrisinho. Não consigo não estar radiante com ele. Talvez Ruggero não seja tão ruim. Mas nos detemos bem antes de nosso suposto destino. Na verdade, sequer saímos do andar dos aposentos.

— Aqui estamos — anuncia ele ao bater à porta.

Ela se abre quase que instantaneamente e revela Agus. A aparência dele me faz recuar um pouco: peito nu e restos da sua estranha armadura — placas de metal e lâminas costuradas sobre o tecido — ainda em seu corpo. Não deixo de notar o hematoma acima do coração ou a barba por fazer. Faz mais de uma semana que não o vejo. Obviamente cheguei num mau momento. Cal não me nota de cara. Para meu espanto, está mais concentrado em tirar o resto da armadura.

— O embarque já está certo, Rugge... — começa a dizer, mas interrompe a frase quando encara o irmão e me vê ao lado dele. — Caro, como posso... Hã... O que posso fazer por você? — ele gagueja, sem saber o que dizer. Pela primeira vez.

— Não sei direito — respondo.

Meus olhos vão de Agus para Ruggero. Meu noivo apenas sorri e levanta um pouco a sobrancelha.

— Por ser o bom filho, meu irmão vai cuidar de você — ele diz, num tom de voz surpreendentemente brincalhão. Até Agus dá um sorrisinho e faz uma careta. — Você queria ir para a casa, Caro, e descobri alguém que já esteve lá antes.

Depois de um segundo confusa, entendo o que Ruggero quer dizer e me sinto burra por não ter percebido antes. Agus pode me tirar do palácio. Agus esteve na taverna... Conseguiu chegar até lá e pode fazer o mesmo por mim.

— Ruggero — diz Agus através dos dentes cerrados, já sem o sorriso —, você sabe que ela não pode ir. Não é uma boa ideia...

É minha vez de falar para conseguir o que quero.

— Mentiroso.

Ele me encara com os olhos ardentes que parecem me atravessar. Espero que consiga ver minha determinação, meu desespero, minha necessidade.

— Tiramos tudo dela, meu irmão — murmura Ruggero, aproximando-se. — Será que não podemos dar ao menos isso?

E então Agus concorda devagar e relutante, e gesticula para que entre em seu quarto. Zonza de tanto entusiasmo, corro para dentro, quase aos pulos.

Vou para casa.

Ruggero passa uns instantes parado em frente à porta depois que saio do seu lado.

— Você não vem junto — diz o mais velho. Não se trata de uma pergunta.

O príncipe mais novo balança a cabeça desanimado.

— Vocês já têm coisas demais com que se preocupar sem a minha presença.

Não preciso ser uma gênia para reconhecer a verdade nas suas palavras. Mas não é porque ele não vai que vou me esquecer do que fez por mim. Sem pensar, lanço os braços em volta de Ruggero. Ele fica sem reação por um segundo, mas aos poucos deixa um braço cair sobre meus ombros. Quando me afasto, suas bochechas estão coradas de prata. Eu mesma sinto o sangue ferver nas veias e pulsar nas orelhas.

— Não demore muito — ele pede, dirigindo o olhar a Agus.

Ele dá um meio sorriso.

— Você fala como se eu não tivesse feito isso antes.

Os irmãos riem juntos, de um jeito que só fazem entre si; como vi mil vezes meus irmãos rirem. Quando a porta se fecha após a saída de Ruggero e fico a sós com Agus, reconheço que já não sinto tanta antipatia pelos príncipes.

O quarto dele é duas vezes maior que o meu, mas é tão bagunçado que parece menor. Armaduras e trajes de combate ocupam nichos nas paredes, dispostos no que suponho ser manequins do tamanho de Agus. Erguem-se ao meu redor como fantasmas sem rosto e me encaram com seus olhos invisíveis. A maioria das armaduras é leve, feita de chapas de aço e tecido grosso, mas algumas são mais robustas, feitas para batalhas, e não para treinamentos. Uma tem até um elmo de metal reluzente e um visor de vidro fumê. Uma insígnia brilha em uma manga, costurada no material cinza-escuro. Traz a imagem da coroa preta flamejante e de asas prateadas. O que significa, para que servem os uniformes, o que Agus fez com eles... Nem quero pensar no assunto.

Como Julian, o príncipe herdeiro possui pilhas de livros por toda parte; tantas que as obras caem umas sobre as outras como pequenas cachoeiras de papel e tinta. Só que os livros de Agus não são antigos como os de Julian; quase todos parecem recém-encadernados, impressos em páginas envernizadas para conservar as palavras. Enquanto o príncipe some para tirar o resto da armadura, arrisco uma folheada em seus livros. São estranhos, cheios de mapas, diagramas e gráficos: guias para a terrível arte da guerra. Um é mais violento que o outro, com detalhes cada vez mais minuciosos sobre manobras militares dos últimos anos e também do passado distante.

Grandes vitórias, derrotas sangrentas, armas e estratégias: é o bastante para dar um nó na minha cabeça. Pior ainda são as anotações de Agus guardadas entre as páginas: esboços das suas táticas favoritas, cálculos de ações que compensam a perda de vidas. Nas imagens, os soldados são representados por quadradinhos, mas vejo neles meus irmãos, Mike e todos que conheço na mesma situação.

Além dos livros, perto da janela há uma mesinha com duas cadeiras. Sobre ela, um tabuleiro com as peças já no devido lugar. Não consigo identificar o jogo, mas tenho certeza de que um dos assentos é de Ruggero. Os irmãos devem se encontrar de noite para jogar e rir, como fazem todos os irmãos.

— Nossa visita não pode durar muito.

O aviso de Agus me pega de surpresa, e chego até a pular de susto. Lanço um olhar para o closet a tempo de vê-lo descer a camisa pelas costas largas e musculosas. Também existem arranhões e cicatrizes ali, embora eu tenha certeza de que ele poderia ter acesso a um batalhão de curandeiros se quisesse. Por algum motivo, escolhe ficar com elas.

— Desde que consiga ver minha família — respondo ao mesmo tempo que me volto para o outro lado, desviando o olhar.
Agus reaparece, dessa vez totalmente vestido em roupas comuns. Levo um segundo para perceber que são as mesmas que trajava na noite em que nos conhecemos. Não acredito que não vi desde o começo o que ele realmente é: um lobo em pele de cordeiro. Agora sou um cordeiro em pele de lobo.
 

Saímos da parte residencial rápido, caminhando para o andar de baixo. De repente Agus entra num corredor que dá para um cômodo todo feito de concreto.

— É bem aqui.

O lugar parece um depósito, repleto de formas estranhas cobertas por lençóis. Algumas grandes, outras menores, mas todas ocultas.

— Não tem saída — protesto. De fato, não há outra porta além daquela pela qual entramos.

— Sim, Caro, trouxe você para um beco sem saída — ele bufa enquanto passa ao lado de uma das fileiras de coisas. Os lençóis levantam um pouco e consigo entrever o brilho do metal que escondem.

— Mais armaduras? — pergunto apontando para uma das formas. — Ia mesmo aconselhar você a arrumar mais algumas. Acho que as do seu quarto não bastam. E talvez seja melhor vestir uma delas agora. Meus irmãos são enormes e gostam de bater nos outros.

No entanto, a julgar pelos livros e músculos que Agus coleciona, acho que ele se garante.

Isso sem falar de todo o negócio de controlar o fogo.

Ele apenas balança a cabeça e diz:

— Acho que estou bem assim. Além disso, vou parecer um agente de segurança com uma coisa dessas. Não queremos passar uma impressão errada para sua família, queremos?

— E que impressão queremos passar? Acho que não estamos propriamente autorizados a apresentar você pelo nome.

— Diga que trabalho com você, que temos passe livre esta noite. Simples — ele propõe, dando de ombros.

Essa gente mente com tanta facilidade.

— E por que vai me acompanhar? Qual é o ponto?

Agus dá um sorriso maroto e aponta para um lençol ao seu lado.

— Carona.

Ele puxa o lençol e revela um aparelho reluzente de metal e tinta preta. Dois pneus, aros cromados, faróis e um longo assento em couro: nunca vi um veículo parecido.

— É uma moto — explica Agus, passando a mão pelo guidão feito um pai orgulhoso. Conhece e ama cada centímetro da fera metálica. — Veloz, ágil e vai aonde os outros veículos não vão.

— Parece... parece um convite à morte — comento finalmente, incapaz de mascarar minha apreensão.

Às gargalhadas, ele tira um capacete da parte de trás do assento. Desejo muito que não esteja esperando que eu o use ou me arrisque a andar neste troço.

— Meu pai disse a mesma coisa. E a coronel Macanthos também. Não querem produzir em série para o Exército ainda, mas vou convencê-los. Não caí uma só vez desde que aperfeiçoei as rodas.

— Foi você que construiu? — pergunto incrédula.

Agus dá de ombros, como se não fosse nada.

— Uau — deixo escapar.

— Espere só até andar nela — ele diz me estendendo o capacete.

Essa parece ser a deixa para a parede tremer. Mecanismos de metal rangem em algum lugar, e os blocos começam a deslizar para o lado. A nova abertura revela a noite escura lá fora.

Rindo, me afasto da máquina mortífera.

— Isso não vai acontecer.

Agus, porém, apenas sorri, joga a perna por cima da moto e ajeita o corpo no assento. O motor ronca vivo sob ele, rosnando e rugindo de energia. Consigo sentir a bateria no interior da máquina, fornecendo energia. A moto implora para escapar, para devorar a estrada entre o palácio e minha casa. Minha casa.

— É perfeitamente seguro. Prometo — ele grita mais alto que o motor.

Os faróis acendem e iluminam a noite escura à frente. Os olhos dourados de Agus encontram os meus. O príncipe me estende a mão.

— Caro?

Apesar do frio terrível na barriga, enfio o capacete na cabeça.
 

Nunca viajei de avião, mas agora sinto vontade de voar. De ser livre. A moto de Agus avança pelo percurso familiar em curvas elegantes e bem desenhadas. Ele é um bom piloto, admito. A velha estrada é cheia de lombadas e buracos, mas Agus desvia de todos com facilidade, mesmo daqueles que fazem meu coração saltar até a garganta. Quando faltam uns oitocentos metros, Agus para a moto no acostamento. Só então percebo que estou tão agarrada às costas do príncipe que ele precisa fazer força para se soltar. Sinto um frio súbito sem seu calor, mas tento não pensar nisso.

— Divertido, não é? — ele diz ao desligar o motor.

Minhas pernas e costas já doem por causa do assento estranho e pequeno, mas Agus salta da moto feito uma criança animada.

Desço logo em seguida, não sem alguma dificuldade. As pernas tremem um pouco por conta dos batimentos cardíacos que ainda estão acelerados. De resto, acho que estou bem.

— Nunca vai ser minha primeira opção de transporte.

— Me lembre de levar você num passeio de jato. Acho que depois você só vai querer motos — ele responde enquanto empurra o veículo para fora da estrada e o esconde na floresta. Depois de cobrir com galhos, Agus dá um passo para trás e admira sua obra. Se eu não soubesse exatamente para onde olhar, jamais notaria a moto ali.

— Dá para ver que você faz isso com frequência.

Agus se volta para mim com uma mão no bolso.

— O palácio às vezes é... sufocante.

— E bares lotados, bares de vermelhos, não são? — pergunto para forçar o assunto.

Agus, porém, põe-se a caminho do vilarejo a passos rápidos, como se pudesse deixar a questão para trás.

— Não saio para beber, Caro.

— Então você só sai para pegar batedores de carteira e distribuir empregos ao léu.

O príncipe para e se vira com tudo. Sem querer, acabo dando com a cabeça contra seu peito. Por uns instantes sinto o peso daquele corpo. Só depois ouço as gargalhadas.

— Você acabou de dizer “ao léu”? — ele diz, rindo.

Sinto o rosto corar por baixo da maquiagem. Dou um leve empurrão em Agus, em reprovação. Que inapropriado.

— Apenas responda a pergunta.

Seu sorriso permanece, apesar das gargalhadas sumirem aos poucos.

— Não faço isso por mim — explica. — Você precisa entender, Caro. Não... Um dia serei rei. Não posso me dar ao luxo de ser egoísta.

— Para mim, o rei era a única pessoa a ter esse luxo.

Agus nega com a cabeça e me lança um olhar desamparado.

— Quem dera isso fosse verdade.

Agus abre e fecha as mãos algumas vezes. Quase consigo ver as chamas em sua pele aparecerem de raiva. Depois, passa. Restam apenas as cinzas do arrependimento em seus olhos. Quando retomamos a caminhada, seu passo é mais ameno.

— Um rei deve conhecer seu povo. É por isso que saio às escondidas — ele cochicha. — Faço o mesmo na capital e na frente de batalha. Gosto de saber como o reino está ao vivo, e não pelas palavras de diplomatas e conselheiros. É o que um bom rei faria.

Pelo seu modo de falar, até parece que ele tem vergonha de querer ser um bom líder. Talvez, aos olhos do pai e de todos aqueles idiotas, esse desejo seja mesmo vergonhoso. Força e poder: as duas palavras que ensinaram a Agus desde a infância. Nada de bondade. Nada de gentileza. Nada de empatia, coragem, igualdade ou qualquer outra coisa que um governante deveria almejar.

— E o que você vê, Agus? — pergunto apontando para o vilarejo que começa a surgir atrás das árvores. Meu coração está agitado com a proximidade.

— Vejo um mundo na corda bamba. Sem equilíbrio, ele cai.

As palavras saem entre suspiros. O príncipe sabe que essa não é a resposta que quero ouvir.

— Você não faz ideia de como tudo é precário — ele continua —, de quão próximo este mundo está de voltar às ruínas. Meu pai faz o possível para proteger a todos, e eu farei o mesmo.

— Meu mundo já está em ruínas — rebato, chutando a poeira da estrada.

Ao nosso redor, as árvores parecem se abrir para revelar o lamaçal que chamo de lar. Perto do Palacete, parece uma favela, um inferno. Como ele não vê isto?

— Seu pai protege seu povo, não o meu.

— Mudar o mundo tem seu preço, Caro — diz ele. — Muitos morreriam, vermelhos na maioria. E, no fim das contas, a vitória não chegaria, não para você. Não conhece a história toda.

— Então conte — desafio, odiando suas palavras. — Conte a história toda.

— Lakeland é como nós: monarquia, nobres, uma elite prateada governando o resto da população. E os príncipes de Piedmont, nossos aliados, jamais apoiariam uma nação em que todos fossem iguais. Com Prairie e Tiraxes é a mesma coisa. Ainda que Norta mudasse, o resto do continente não aceitaria. Seríamos invadidos, divididos, despedaçados. Mais guerra, mais morte.

Lembro-me do mapa de Julian, aquela vastidão do mundo além do nosso país. Tudo dominado pelos prateados. Não há lugar para onde correr.

— E se você estiver errado? E se Norta for o começo? A mudança que os outros precisam? Você não sabe aonde a liberdade nos levaria.

Agus não tem resposta para me dar, e ambos caímos num silêncio amargo.

— É aqui — sussurro ao parar sob a sombra familiar da minha casa.

Meus pés caminham silenciosos pela varanda, bem diferente dos passos pesados e estrondosos de Agus, que fazem as tábuas de madeira ranger. Ele nota meu desconforto e põe sua mão cálida no meu ombro, mas isso não me acalma.

— Posso esperar lá embaixo se você quiser — ele sussurra, para minha surpresa. — Não vamos correr o risco de me reconhecerem.

— Eles não vão. Apesar dos meus irmãos estarem servindo o Exército, provavelmente são incapazes de diferenciar você de um poste.

Shade conseguiria. Mas ele é esperto o bastante e manteria a boca fechada.

— Além disso, você disse que queria conhecer o mundo pelo qual não vale a pena lutar — acrescento.

Após essas palavras, abro a porta e adentro aquela casa que já não é minha. É como entrar num túnel do tempo.

A casa vibra ao som de um coro de roncos, composto não apenas por meu pai, mas pela figura volumosa na sala: Bree, caído por cima da poltrona mais fofa da casa, formando uma pilha de músculos e mantas finas. Seus cabelos outrora longos agora estão raspados em estilo militar. Tem cicatrizes no rosto e nos braços, provas do seu tempo na batalha. Deve ter perdido uma aposta para Tramy, que se revira na minha cama. Não vejo Shade em parte alguma, mas ele nunca foi muito de dormir. Deve estar por aí no vilarejo, atrás das ex-namoradas.

— Hora de acordar — brinco ao puxar devagar o cobertor de Bree.

Meu irmão vai com tudo para o chão, que provavelmente fica mais prejudicado que ele, e rola até meus pés. Por uma fração de segundo, parece que vai voltar a dormir.

Então ele me encara. Pisca os olhos embaçados e confusos. Como sempre.

— Caro?

— Cala a boca, Bree. Tem gente querendo dormir! — Tramy urra na escuridão.

— QUIETOS TODOS VOCÊS! — ruge meu pai do seu quarto, o que faz todos nós pularmos de susto.

Nunca me dei conta de como sentia falta disto. Bree esfrega os olhos com sono e me puxa para si com uma gargalhada profunda. Um poft ao nosso lado anuncia que Tramy pulou descalço do sótão para a sala.

— Caro! — berra, e em seguida me ergue do chão ao me abraçar. Ele ainda está mais magro que Bree, mas bem longe daquele palito de que me lembro. Posso sentir os nós dos seus músculos sob minhas mãos. Os últimos anos não devem ter sido fáceis para ele.

— Bom ver você, Tramy — balbucio sob seus braços, sentindo-me prestes a explodir.

A porta do quarto abre de supetão e minha mãe surge em sua camisola esfarrapada. Ela abre a boca para dar uma bronca nos meninos, mas suas palavras morrem ao me ver. Em vez de brigar, minha mãe abre um sorriso e junta as mãos.

— Ah, finalmente você veio nos visitar!

Meu pai vem logo em seguida, fungando e rolando sua cadeira de rodas até a sala. Gisa acorda por último, mas não desce. Sua cabeça desponta da beira do sótão e apenas observa lá de cima. Está com raiva.

Tramy enfim me larga e me põe de volta no chão, perto de Agus. Aliás, o príncipe é ótimo em parecer constrangido e deslocado.

— Ouvi dizer que se rendeu e arrumou um bom emprego — provoca Tramy, cutucando minha barriga.

Bree acha graça e bagunça meus cabelos.

— O Exército não ia querer saber dela mesmo. Caro ia roubar até os olhos do pelotão.

Respondo com um sorriso.

— O Exército não quer nem vocês. Dispensados, né?

Meu pai responde pelos dois, aproximando sua cadeira:

— Uma loteria, dizia a carta. Os irmãos Barrow ganharam a dispensa honrosa. E também pensão completa.

Dá para notar que ele não crê em nenhuma palavra daquilo. Já minha mãe engole tudo sem hesitar.

— Ótimo, não é? Finalmente o governo fez algo pra gente — ela diz para em seguida beijar Bree na bochecha. — E agora você tem um emprego. — Minha mãe está radiante de orgulho como nunca vi: geralmente ela guarda tudo para Gisa. Ela tem orgulho de uma mentira. — Já era hora de esta família ter um pouco de sorte — conclui.

Lá do alto, Gisa desdenha. Não a culpo. Minha sorte quebrou sua mão e seu futuro.

— Sim, somos muito sortudos — bufa, finalmente descendo para se juntar a nós.
Com uma mão, ela vem devagar pela escada. Quando chega no chão, reparo na tala amarrada com um tecido colorido. Com uma pontada de dor, vejo que se trata de um bordado lindo que jamais terminará.

Chego perto para dar um abraço, mas ela recua. Seus olhos estão em Agus. Gisa parece ser a única que o nota.

— Quem é ele?

Corando, percebo que quase me esqueci completamente dele.

— Ah, é Agus. Um dos criados que trabalham comigo no Palacete.

— Oi — desembucha Agus, complementando a palavra com um aceno idiota.

Minha mãe ri como noiva em dia de casamento e retribui o aceno, com os olhos fixos nos braços musculosos do príncipe. Meu pai e meus irmãos, por outro lado, não ficam tão encantados.

— Você não é daqui — rosna meu pai, encarando Agus como se ele fosse algum tipo de inseto. — Dá para sentir no seu cheiro.

— É só o cheiro do Palacete, pai... — protesto, mas Agus me interrompe.

— Sou de Harbor Bay — ele diz, fazendo questão de pronunciar o r com o sotaque da região. — Comecei a carreira em Ocean Hill, na residência real de lá, e agora vou junto nas viagens.

Em seguida, me encara e conclui:

— Muitos criados fazem isso.

Minha mãe suspira consternada e me agarra pelo braço.

— Você também? Tem que viajar com essas pessoas quando elas forem embora?

Quero contar a eles que não fui eu quem decidiu isso, que não vou embora por vontade própria. Mas tenho que mentir pelo bem deles.

— Era a única vaga disponível. Além disso, o salário é bom.

— Acho que já sei o que está acontecendo — resmunga Bree, cara a cara com Agus, que se sai muito bem e não demonstra medo.

— Não está acontecendo nada — ele responde friamente, encarando Bree com a mesma tensão no olhar. — Caro escolheu trabalhar para o palácio. Assinou um contrato de um ano e é isso.

Bree solta um gemido e se afasta.

— Gostava mais daquele Ronda — reclama.

— Pare de ser criança, Bree! — grito.

Minha mãe se encolhe com minha rispidez, como se tivesse esquecido o som da minha voz em apenas duas semanas. É estranho, mas seus olhos estão marejados. Ela está esquecendo você. É por isso que quer que fique. Para não te esquecer.

— Não chore, mãe — peço.

Chego mais perto e a abraço. Sinto seu corpo tão magro, mais magro do que lembrava. Ou talvez nunca tenha notado quão frágil ficou.

— Não é só você, querida, é...

Ela desvia o olhar para meu pai. Seus olhos estão cheios de dor, uma dor que não compreendo. Os outros não suportam olhar para ela. Até meu pai fixa os olhos nos seus pés inúteis. Um peso sombrio paira na casa.

Então percebo o que está acontecendo, do que querem me proteger.

Com a voz trêmula, faço uma pergunta cuja resposta não quero ouvir:
 

— Onde está Shade?

** #TimeAgus ou #TimeRugge?
 


Notas Finais


Oi!! #Voltei!! #TimeAgus ou #TimeRugge?
Obrigada por tudo!!
Amo vocês!!
Abraço a todos!
Nunca deixem de sorrir!!! #Obrigada! #Leitores


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