História A Rainha Vermelha-Aguslina - Capítulo 16


Escrita por: ~

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Categorias A Rainha Vermelha, Sou Luna
Tags Aguslina, Aventura, Romance
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Palavras 4.330
Terminada Não
LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Ação, Aventura, Crossover, Ficção, Mistério, Romance e Novela

Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


OI!
Tudo bem??
Voltei!!!
Boa leitura!
Nos vemos nas notas finais!

Capítulo 16 - Capítulo 15


Fanfic / Fanfiction A Rainha Vermelha-Aguslina - Capítulo 16 - Capítulo 15

 

Minha mãe se dobra sobre si mesma e quase não chega na cadeira da cozinha antes de desabar em soluços. Bree e Tramy não suportam assistir à cena e viram o rosto. Gisa não se mexe; apenas encara fixamente o chão como se quisesse mergulhar nele. Ninguém fala. Apenas o ruído das lágrimas da minha mãe e a respiração difícil do meu pai preenchem o vazio antes ocupado por meu irmão. Meu irmão, meu irmão mais próximo.

Perco o equilíbrio, quase caio para trás, mas Agus me segura. Gostaria que não o tivesse feito. Quero desmoronar, quero uma sensação dura e real para que a dor na minha cabeça não me faça sofrer tanto. Minha mão procura o ouvido e afaga as três joias que guardo com tanto carinho. Minha pele esfria ao toque da terceira, a joia de Shade.

— Não queríamos contar por carta — Gisa balbucia, cutucando sua tala. — Ele morreu antes da dispensa chegar.

O impulso de eletrizar, de despejar toda a minha raiva e tristeza num único raio poderoso e cortante nunca foi tão grande. Controle-se. Não acredito que me preocupei com a possibilidade de Agus incendiar a casa. Um raio destrói tanto quanto fogo.
Gisa luta contra as lágrimas e se esforça para pronunciar as palavras:

— Ele tentou fugir e o executaram. Foi decapitado.

Desta vez minhas pernas vacilam tão rápido que nem Agus consegue me segurar. Não ouço, não vejo, apenas sinto. Tristeza, choque, dor, o mundo inteiro girando ao meu redor. As lâmpadas vibram de eletricidade, gritam tão alto que acho que vão partir minha cabeça ao meio. A geladeira estala no canto; sua bateria velha e cansada pulsa como um coração moribundo. Elas me provocam, me insultam, querem que eu ceda. Mas não cederei. Não.

— Caro — sussurra Agus em meu ouvido. Seus braços estão ao meu redor, mas é como se sua voz viesse do outro lado do mundo. — Caro!

Solto um gemido doloroso na tentativa de retomar o fôlego. Sinto as bochechas molhadas, mas não lembro de ter chorado. Executado. O sangue ferve em minhas veias. É mentira. Ele não fugiu. Ele era da Guarda. Descobriram e o mataram por isso.

Assassinaram meu irmão.

Nunca experimentei tanto ódio. Nem quando os meninos foram para a guerra, nem quando Mike veio me procurar. Nem sequer quando quebraram a mão de Gisa.

Um chiado ensurdecedor ecoa pela casa. A intensidade da geladeira, das lâmpadas e da fiação aumenta. A eletricidade vibra, faz com que me sinta viva, brava e perigosa. Estou gerando energia, projetando minha própria força na casa, como Julian ensinou.

Agus grita, me sacode, tenta me trazer de volta. Mas não consegue. O poder está em mim e não quero parar. A sensação é melhor que a dor.

Uma chuva de vidro cai sobre nós quando as lâmpadas explodem como milho ao fogo: ploc, ploc, ploc. Os estouros quase abafam os gritos de minha mãe.

Alguém me põe de pé usando força bruta. Suas mãos seguram meu rosto enquanto fala. Não para me confortar nem consolar, mas para me tirar do transe. Conheço essa voz de algum lugar.

— Caro, vamos! Acorda!

Abro os olhos e dou de cara com dois olhos verde-claros e um rosto cheio de preocupação.

— Michael.

Suas mãos ásperas arranham minha pele, mas me acalmam. Ele me traz de volta à realidade, ao mundo onde meu irmão está morto.

A última lâmpada sobrevivente pende sobre nós, sua luz fraca mal ilumina o ambiente e minha família assustada.

Mas essa não é a única coisa a iluminar a escuridão.

Arcos lilás dançam em minhas mãos, cada vez mais fracos, mas ainda visíveis como a luz do dia. Meus raios. Não vai dar pra mentir agora.

Mike me senta numa cadeira com uma expressão nublada de confusão. Os outros apenas observam. Dói perceber que estão com medo. Mas não Mike; está apenas com raiva.

— O que fizeram com você? — explode, a centímetros de mim.

A eletricidade desaparece completamente. Restam apenas pele e dedos trêmulos.

— Nada.

Como desejo que fosse culpa deles. Como desejo poder culpar alguém.

Lanço um olhar para além de Mike, e meus olhos encontram os de Agus. Algo no príncipe se desfaz, e ele dá o menor dos acenos para se comunicar sem abrir a boca. Não preciso mentir.

— Eu sou assim.

Mike franze ainda mais a testa.

— Você é um deles?

Nunca ouvi tanta raiva, tanto nojo, condensados numa frase só. Tenho vontade de morrer.

— É? — ele pressiona.

Minha mãe é a primeira a recobrar os sentidos e, sem um pingo de medo, me toma pela mão.

— Caro é minha filha, Michael — ela diz, cravando os olhos sobre ele de um modo assustador que jamais imaginei poder vir dela. — Todo mundo sabe.

Minha família concorda e fica ao meu lado, mas Mike permanece descrente. Ele me olha como se eu fosse uma estranha, como se não nos conhecêssemos desde a infância.

— Me dê uma faca e encerro a discussão agora — digo, com um olhar fervente. — Vou mostrar a cor do meu sangue.

As palavras o acalmam um pouco e ele recua.

— É que... Não entendo.

Somos dois.

— Acho que estou como Michel neste aspecto. Sabemos quem você é, Caro, mas... — Bree gagueja à procura das palavras certas a dizer. Ele nunca foi bom com elas. — Como?

Mal sei o que dizer, mas explico o melhor que posso. Mais uma vez, a consciência dolorosa de que Agus está atrás de mim, escutando tudo, me censura, de modo que deixo de lado a Guarda Escarlate e as descobertas de Julian. Ainda assim, tento explicar as duas últimas semanas da maneira mais simples possível.

— Não sabemos como ou por quê, só sabemos que sou assim — finalizo e dou de ombros, gesto suficiente para fazer Tramy recuar um pouco. — Talvez a gente nunca saiba o que isso significa.

Minha mãe aperta minha mão em sinal de apoio. Esse pequeno conforto faz maravilhas por mim. Ainda tenho raiva, ainda sinto uma tristeza avassaladora, mas a necessidade de destruir desaparece. Recupero um resto de controle, suficiente para me manter na linha.

— Acho que é um milagre — ela balbucia com um sorriso forçado para mim. — Sempre quisemos o melhor para você e agora conseguimos. Bree e Tramy estão a salvo, Gisa não precisa se preocupar, podemos viver felizes, e você — seus olhos marejados encontram os meus —, você, minha querida, será alguém especial. O que mais pode pedir uma mãe?

Como desejo que suas palavras fossem verdade. Ainda assim, aceno com a cabeça e sorrio para minha mãe e minha família. Estou mentindo melhor e todos parecem acreditar em mim.

Só Mike não. Ainda fervilha, ainda tenta conter mais uma explosão.

— Como é o príncipe? — cutuca minha mãe. — Ruggero?

Terreno perigoso. Posso ver Agus ouvindo, à espera do que tenho a dizer do seu irmão caçula.

O que posso dizer? Gentil? Que estou começando a gostar dele? Que ainda não sei se posso confiar nele? Pior: que jamais poderei confiar em alguém novamente?

— Diferente do que eu esperava — respondo por fim.

Gisa percebe meu desconforto e se volta para Agus.

— Então quem é esse? Seu guarda-costas? — pergunta, mudando de assunto num piscar de olhos.

— Sou — Agus responde por mim. Ele sabe que não quero mentir para minha família, não mais que o necessário. — E sinto muito, mas precisamos ir embora logo.

Suas palavras me ferem como uma lâmina, mas tenho que obedecer.

— Sim.

Minha mãe levanta comigo. Aperta tanto minha mão que fico com medo de que quebre.

— Não contaremos nada, claro — promete.

— Nem uma palavra — meu pai concorda.

Meus irmãos confirmam com a cabeça o juramento de silêncio.

Mas o rosto de Mike ainda se contorce numa careta de ódio. Por algum motivo sente raiva, e eu sou totalmente incapaz de dizer qual é. Além disso, também estou com raiva. A morte de Shade pesa sobre mim feito uma rocha.

— Mike?

— É, não vou contar — dispara.

Antes que o possa deter, ele levanta da cadeira e sai rápido como um furacão a girar pelos ares. Bate a porta com tanta força que as paredes tremem. Já conheço suas emoções, seus raros momentos de desespero... Mas a ira é nova para mim. Não sei como lidar com ela.

O toque da minha irmã me traz de volta à realidade e me recorda de que o momento é de despedida.

— Você tem um dom — ela cochicha no meu ouvido. — Não desperdice.

— Você volta, não volta? — Bree pergunta depois que Gisa se afasta. É a primeira vez que vejo medo em seus olhos desde que ele partiu para a guerra. — Você vai ser princesa. Pode fazer as regras.

Antes fosse.

Agus e eu trocamos olhares. Seus lábios apertados e seu olhar sombrio me fazem perceber qual resposta devo dar.

— Vou tentar — balbucio, com a voz a ponto de falhar.

Uma mentira a mais não dói.

Quando chegamos aos limites de Palafitas, as palavras de despedida de Gisa ainda me assombram. Não havia qualquer vestígio de acusação em seus olhos, apesar de eu ter tirado tudo dela. Sua despedida ecoava no vento, maior que todo o resto. Não desperdice.

— Sinto muito pelo seu irmão — Agus fala do nada. — Não sabia que...

— Ele já estava morto?

Executado por deserção. Outra mentira. O ódio cresce novamente, e sequer quero controlá-lo. Mas o que posso fazer? O que posso fazer para vingar meu irmão, ou ao menos tentar salvar os outros?

Não desperdice.

— Preciso fazer mais uma parada.

Antes que Agus reclame, abro meu melhor sorriso e emendo:

— Prometo que não vai demorar.

Para minha surpresa, ele inclina a cabeça lentamente na escuridão.
 

— Um emprego no Palacete. Que prestígio — Will caçoa quando sento em seu trailer.

A mesma vela azul ainda arde, projetando sua luz bruxuleante ao redor. Como suspeitava, Valentina partiu há muito.

Quando tenho certeza de que as portas e as janelas estão fechadas, baixo o tom de voz:

— Não trabalho lá, Will. Eles...

Para minha surpresa ele faz um gesto e me interrompe.

— Ah, já sei de tudo. Chá?

— Hã? Não... — minhas palavras vacilam com o choque. — Como você...?

— Os macacos reais escolheram a rainha na semana passada. E, claro, tinham que transmitir o evento nas cidades dos prateados — diz uma voz por trás da cortina.

A figura se revela. Não é Valentina. Parece mais um varapau humano. Sua cabeça quase bate no teto, o que o faz andar encurvado de um jeito estranho. Seus cabelos rubros e longos combinam com o manto vermelho que cobre seu corpo dos ombros até a cintura, preso com a mesma insígnia de sol que Farley usou em sua transmissão. Não deixo de reparar em seu cinturão de armas, com pistolas e balas brilhantes. Ele também é da Guarda Escarlate.

— Você passou em todas as telas prateadas, Lady Titanos. — Ele pronuncia meu título como se fosse uma maldição. — Você e aquela Samos — continua. — Conte-me: ela é tão chata quanto parece?

— Este é Tristan, um dos tenentes de Valentina — intervém Will.

Depois, com um olhar de reprovação ao companheiro, completa:

— Tristan, tenha modos.

— Por quê? — desdenho. — Malena Samos é uma babaca sanguinária.

Sorrindo, Tristan lança um olhar presunçoso a Will.

— Mas nem todos são macacos — acrescento discretamente ao lembrar as palavras gentis de Ruggero mais cedo.

— Você fala do seu noivo ou do príncipe que está à sua espera na floresta? — Will pergunta calmamente, como se falasse do clima ou do preço da farinha.

Já Tristan, num contraste gigante, entra em erupção. Chego mais rápido que ele à porta e abro os braços. Ainda bem que consigo me controlar. A última coisa de que preciso é eletrocutar um membro da Guarda Escarlate.

— Você trouxe um prateado até aqui? — ele silva para mim. — O príncipe? Sabe o que poderíamos fazer se o pegássemos? O que poderíamos barganhar?

Embora ele se erga como uma árvore sobre mim, não recuo.

Não mexa com ele.

— Uma semana de luxo e seu sangue já é tão prateado quanto o deles — rebate, aparentemente querendo me matar. — Vai me eletrocutar também?

Tenho vontade, e ele sabe. Baixo as mãos com medo de que me traiam.

— Não estou protegendo ele. Estou protegendo vocês, seu burro ignorante. Agus é um soldado. Pode queimar o vilarejo inteiro se quiser.

Não que ele fosse fazer isso. Acho.

Tristan baixa a mão até a arma.

— Quero vê-lo tentar.

Mas Will leva a mão enrugada até o braço dele. O simples toque basta para que o rebelde desfaça a pose.

— Chega — Will sussurra. — Para que veio aqui, Caro? Michael está a salvo, e sua família também.

Respiro fundo e mantenho os olhos em Tristan. Ele acabou de ameaçar sequestrar Agus e pedir resgate. E, não sei por quê, isso me abala.

— Meu... — mal pronuncio uma palavra e já sinto dificuldade. — Shade era membro da Guarda.

Não pergunto, afirmo. Will encara o chão, como se pedisse desculpas, e até Tristan baixa a cabeça.

Foi morto por isso — continuo. — Os prateados mataram meu irmão e tenho que agir como se isso não me incomodasse.

— Você morre se não colaborar — Will responde, falando sobre o que já estou ciente.

— Eu sei disso. Falarei o que eles quiserem quando o momento chegar. Mas... — minha voz vacila antes de eu cruzar essa fronteira.

— Estou no palácio, no centro do mundo deles. Sou rápida, discreta e posso ajudar a causa.

Tristan toma um fôlego longo e se apruma. Apesar da raiva de antes, um quê de orgulho agora brilha em seus olhos.

— Quer se juntar a nós?

— Quero.

Will aperta o queixo e lança um olhar penetrante.

— Espero que saiba com o que está se comprometendo. Esta guerra não é só minha ou de Valentina. É sua. Até o fim. E não é para vingar seu irmão, mas todos nós. Lutar pelos que vieram antes para salvar os que ainda virão.

Sua mão calosa me toca pela primeira vez, e noto uma tatuagem em volta do seu punho: uma fita vermelha. Como aquelas que nos fazem usar. A diferença é que agora ele a usa para sempre. É parte dele, como o sangue em nossas veias.

— Você está conosco, Caro Kopelioff? — ele pergunta, fechando sua mão sobre a minha.

Mais guerra, mais mortes, disse Agus. Mas há uma chance de ele estar errado. Há uma chance de mudarmos.

Aperto a mão de Will. Consigo sentir o peso da minha ação, a importância por trás dela.

— Estou com vocês.

E vamos nos levantar — ele começa, fazendo uma só voz com Tristan.

Lembro das outras palavras e os acompanho.

Vermelhos como a aurora.

À luz bruxuleante da vela, nossas sombras se assemelham a monstros nas paredes.

 

Quando reencontro Agus na fronteira do vilarejo, estou um pouco mais leve, motivada pela minha decisão e pelo panorama do que virá. Ele caminha ao meu lado. Me encara de vez em quando, mas não diz nada. Em seu lugar, eu cutucaria e provocaria a pessoa até arrancar uma resposta na marra. Agus é o completo oposto. Talvez seja uma tática militar tirada de algum dos seus livros: espere o inimigo vir até você.

Porque é isso que eu sou agora: sua inimiga.

Ele me confunde, como seu irmão. Ambos são gentis, embora saibam que sou vermelha e não devessem sequer me ver. Mas Agus me trouxe até minha casa e Rugge foi bom comigo, quis ajudar. Que garotos estranhos.

Quando adentramos a floresta, Agus muda de atitude e fica mais sério.

— Terei que falar com a rainha para mudar sua agenda.

-Por quê?

— Você quase explodiu o lugar! — ele diz, simpático. — Precisa participar do nosso treinamento para garantir que algo assim não aconteça mais.

Julian está me treinando, diz uma vozinha na minha cabeça. Mas até ele entende que seu treino não está no nível de Agus, Ruggero e Malena. Se aprendesse ao menos metade do que eles aprenderam, quem sabe o tipo de ajuda que poderia oferecer à Guarda? À memória de Shade?

— Bom, se isso me tirar das aulas de protocolo, não vou recusar.

De repente, Agus se afasta da moto com um salto. As mãos flamejam com o mesmo fogo que arde em seus olhos.

— Alguém está nos observando.

Nem me incomodo em questionar. Agus tem um apurado faro de soldado. E, além disso, quem poderia representar uma ameaça séria a ele neste lugar? O que temeria no bosque de um vilarejo pobre e sonolento?

Um vilarejo repleto de rebeldes, minha mente lembra.

Mas em vez de Velentina ou revolucionários armados, é Mike quem sai de trás das folhas. Esqueci como é sorrateiro, como se move com facilidade no escuro.

As mãos de Agus se apagam numa nuvenzinha de fumaça.

— Ah, é você.

Mike desvia os olhos dos meus para cravá-los em Agus. Então, inclina a cabeça numa reverência condescendente.

— Com licença, alteza real.

Em vez de tentar negar, Agus endireita o corpo como o rei que nasceu para ser. Não responde e volta a tirar as folhas de cima da moto. Mas sinto que observa cada segundo do que se passa entre Mike e mim.

— Você vai mesmo fazer isso? — Mike diz parecendo um animal ferido. — Vai mesmo partir? Ser um deles?

As palavras doem mais que um tapa. Não tenho escolha, é o que quero responder.

— Você viu o que aconteceu lá. Viu do que sou capaz. Eles podem me ajudar. — Até eu me surpreendo com a facilidade com que a mentira sai. Um dia talvez consiga mentir para mim mesma, me enganar com a ideia de que sou feliz. — Estou onde devo estar.

Ele balança a cabeça e me pega pelo braço, como se pudesse me puxar de volta a um passado em que nossas preocupações eram mais simples.

— Seu lugar é aqui.

— Caro — chama Agus. Ele espera pacientemente no assento da moto, mas sua voz é firme, um alerta.
— Preciso ir.

Tento me soltar de Mike, deixá-lo para trás, mas ele não deixa. Sempre foi mais forte que eu. E por mais que eu queira continuar presa a ele, não posso.

— Caro, por favor...

Uma onda de calor pulsa entre nós, como um intenso raio de sol.

— Solte-a — troveja Agus, já de pé ao meu lado.

O calor emana dele, quase capaz de fazer o ar vibrar. Noto que o esforço que faz para manter a calma vai se dissipando, ameaçando se desfazer de vez.

Michael o encara, desafiador, louco para entrar numa briga. Mas é como eu: somos ladrões, somos ratos. Sabemos quando lutar e quando correr. A contragosto, ele recua, deslizando os dedos pelo meu braço. Talvez seja a última vez em que nos veremos.

O ar esfria, mas Agus não recua. Sou noiva do seu irmão; ele tem obrigação de me proteger.

— Você também pediu por mim, para me liberarem do recrutamento — Mike diz com suavidade. Enfim compreendeu o preço que paguei. — Tem o péssimo hábito de tentar me salvar.

Mal tenho condições de confirmar com a cabeça e logo ponho o capacete para esconder as lágrimas que se acumulam nos olhos.

Numa espécie de transe, sigo Agus até a moto e sento na garupa.

Mike se afasta. A ignição até o assusta um pouco. Ele então abre um sorriso malicioso, e seu rosto se contorce naquela expressão que costumava me dar vontade de socar sua cara.

— Direi a Valentina que você mandou um “oi”.

A moto ronca como um animal selvagem e me arranca de Mike, de Palafitas e da minha antiga vida. O medo percorre meu corpo como um veneno até me fazer temer dos pés à cabeça. Mas não por mim. Não mais. Temo por Mike, pela idiotice que está prestes a fazer.
 

Ele vai encontrar Valentina. E se juntar a ela.
 

NA MANHÃ SEGUINTE, abro os olhos e vejo a silhueta de alguém bem na cabeceira da cama.

Acabou. Saí, quebrei as regras e agora vou morrer.

Mas não sem lutar.

Antes de a figura ter qualquer chance, voo para fora da cama, pronta para me defender. Meus músculos enrijecem e aquela vibração agradável revive dentro de mim. Mas, em vez de um assassino, o que vejo é um uniforme vermelho. E reconheço a mulher que o veste.
Walsh parece a mesma de antes, embora eu certamente não pareça. Ela está ao lado de um carrinho de metal repleto de chás, pães e qualquer outra coisa que eu poderia querer no café da manhã. Uma criada sempre zelosa, mantém a boca fechada, mas seus olhos parecem gritar.

Ela observa minha mão, as famigeradas centelhas que se formam entre meus dedos. Chacoalho a mão e esfrego os tendões até fazê-las desaparecer.

— Sinto muito — exclamo, afastando-me. Ainda assim, ela não fala. — Walsh...

A criada, porém, continua ocupada com a comida, até que, para minha grande surpresa, seus lábios se movem sem produzir som, formando quatro palavras que começo a decorar como uma oração, ou maldição: Vermelhos como a aurora.

Antes que eu possa reagir, antes que possa assimilar o choque, Walsh enfia uma xícara de chá na minha mão.

— Espere...

Tento segurá-la, mas ela desvia e se inclina numa reverência:

— Lady — despede-se secamente para terminar a conversa.

Deixo que vá. Assisto à sua saída até não sobrar nenhum vestígio seu além do eco das palavras não pronunciadas.

Walsh também é da Guarda.

A xícara de chá está fria. Estranhamente fria.

Quando olho, descubro que não contém chá, mas água. E, no fundo da xícara, um pedaço de papel sangra tinta. A tinta se solta num pequeno redemoinho conforme leio. A água a leva, apaga qualquer traço até sobrar apenas um líquido acinzentado e um papelzinho em branco.

Não existem provas do meu primeiro ato de rebelião.

É fácil memorizar a mensagem. Tem apenas uma palavra.

Meia-noite.

Saber que tenho um elo aqui tão perto com o grupo deveria ser um alívio, mas, por algum motivo, sinto calafrios. Talvez as câmeras não sejam as únicas a me vigiar no Palacete.

Esse não é o único bilhete à minha espera. Meu novo horário repousa sobre o criado-mudo, escrito na caligrafia irritantemente perfeita da rainha.

Seu horário mudou.

6h30 — Café da manhã

7h — Treinamento

10h — Protocolo

11h30 — Almoço

13h — Protocolo

14h — Aulas

18h — Jantar

Lucas a conduzirá para todos os compromissos. O horário não é negociável.

S. M. R., Rainha Elara

— Então finalmente botaram você no treinamento? — Lucas provoca, deixando à mostra um raro orgulho enquanto me acompanha para a primeira sessão. — Ou você se saiu muito bem ou muito mal.

— Um pouco dos dois.

Mais pra mal, penso ao lembrar do episódio de ontem. Sei que o novo horário é obra de Agus, mas não esperava que ele agisse tão rápido. Para ser sincera, estou empolgada com o treinamento. Se for um pouco parecido com o que vi Agus e Ruggero fazerem — especialmente a parte dos poderes —, não tem como eu não ficar pra trás. Mas ao menos vou ter com quem conversar. E, se tiver muita sorte, Malena ficará de cama com uma doença grave pelo resto de sua vida miserável.

Lucas balança a cabeça e começa a rir.

— Esteja pronta. Os instrutores são famosos por conseguir dobrar até os soldados mais fortes. Não vão aceitar bem sua insolência.

— E não vou aceitar bem ser dobrada — rebato. — Como foi seu treinamento?

— Bem, fui direto para o Exército aos nove anos, então minha experiência foi diferente — ele responde. Seus olhos escurecem com a lembrança.

— Aos nove anos?

A ideia me parece impossível. Com poderes ou não, isso não pode ser verdade.

Mas Lucas dá de ombros como se não fosse nada.

— A frente de batalha é o melhor lugar para treinar. Até os príncipes receberam treinamento no front.

— Mas você está aqui agora — digo, com os olhos fixos no uniforme de Lucas, no preto e prata dos agentes de segurança. — Não é mais soldado.

Pela primeira vez, o sorriso seco dele desaparece completamente.

— Você acaba sentindo o peso — ele reconhece, mais para si que para mim. — Os homens não foram feitos para ficar muito tempo na guerra.

— E os vermelhos? — pergunto sem pensar.

Bree, Tramy, Shade, meu pai, o pai de Mike. E milhares de outros. Um milhão de outros.
— Eles suportam a guerra melhor que os prateados? — pressiono.

Chegamos no corredor que dá para a sala de treinamento. Lucas finalmente responde, com desconforto perceptível:

— É assim que o mundo funciona. Os vermelhos servem, os vermelhos trabalham, os vermelhos combatem. É nisso que são bons. Nasceram para isso.

Tenho que morder a língua para conter um grito.

— Nem todo mundo é especial — ele conclui.

A raiva ferve em mim, mas não digo uma palavra contra Lucas. Perder a calma, mesmo com ele, não vai provocar sorrisos.

— Posso ir sozinha daqui — digo secamente.

Ele nota que estou incomodada e fecha um pouco a cara. Quando volta a falar, sua voz sai baixa e rápida, como se não quisesse ser ouvido.

— Não posso me dar ao luxo de questionar — ele sussurra. Seus olhos pretos, cheios de significado, penetram nos meus. — Nem você.

Sinto o coração apertado, aterrorizado por essas palavras e seu significado oculto. Lucas sabe que minha história é bem maior do que lhe contaram.

— Lucas...

— Não cabe a mim fazer perguntas.

Ele franze a testa com a intenção de me fazer compreender, de me deixar mais tranquila.

— Lady Titanos — diz, fazendo o título soar mais firme que nunca, como se agora ele também fosse meu escudo, e não apenas a arma da rainha.

Lucas não fará perguntas. Apesar dos olhos pretos, do sangue prata e do sobrenome Samos, não vai puxar a cortina capaz de acabar com a minha existência.

— Atenha-se ao horário. — Ele se afasta mais formal que nunca. Com a cabeça, sinaliza para a porta onde um criado vermelho espera. — Volto ao fim do treinamento.

— Obrigada, Lucas — é só o que consigo dizer. Ele me deu muito mais do que imagina.

O criado me entrega um traje justo com listras roxas e prata. Ele indica uma saleta onde rapidamente troco minha roupa habitual pelo macacão. Me lembra as roupas velhas que eu usava em Palafitas, já gastas pelo tempo e pelo uso, mas suficientemente justas para não me deixar lenta.

**#TimeAgus ou #TimeRugge?
 


Notas Finais


Oi!
Obrigada por tudo!! #TimeAgus ou #TimeRugge?
Comentem isso me deixa muito feliz!!
Abraço a todos!
Obrigada!!!
Nunca deixem de sorrir!!


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