História A Rainha Vermelha-Aguslina - Capítulo 17


Escrita por: ~

Postado
Categorias A Rainha Vermelha, Sou Luna
Tags Aguslina, Aventura, Romance
Visualizações 30
Palavras 3.519
Terminada Não
LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Ação, Aventura, Crossover, Ficção, Mistério, Romance e Novela

Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Oi!
#Voltei!
BOA LEITURA!
Nos vemos nas notas finais!

Capítulo 17 - Capítulo 16


Fanfic / Fanfiction A Rainha Vermelha-Aguslina - Capítulo 17 - Capítulo 16

 

O criado me entrega um traje justo com listras roxas e prata. Ele indica uma saleta onde rapidamente troco minha roupa habitual pelo macacão. Me lembra as roupas velhas que eu usava em Palafitas, já gastas pelo tempo e pelo uso, mas suficientemente justas para não me deixar lenta.

Quando entro no salão de treinamento, tenho de cara a sensação dolorosa de estar sob o olhar de todos. Isso para não falar das dúzias de câmeras. O chão é macio, como um elástico, e amortece cada passo meu. Uma claraboia imensa se abre sobre nós para revelar o céu azul de verão, cheio de nuvens tentadoras. Escadas espiraladas ligam os diversos ambientes fechados, cada um a uma altura diferente e com equipamentos diferentes. Há muitas janelas. Sei que uma delas dá para a sala de aula de Lady Blonos. Não faço ideia de onde dão as outras ou de quem nos observa por trás delas.

Eu deveria estar tensa por adentrar um salão cheio de guerreiros adolescentes, todos mais treinados que eu. Em vez disso, penso no insuportável picolé de ossos e metais conhecido como Malena Samos. Sua boca abre para destilar seu veneno antes de eu conseguir chegar no meio do salão.

— Já completou as aulas de protocolo? Finalmente dominou a arte de sentar de pernas cruzadas? — ela zomba ao descer da máquina de levantamento de peso.

Seu cabelo prateado está preso numa trança complicada. Tenho vontade de cortá-la fora, mas as lâminas de metal mortalmente afiado em sua cintura me detêm. Como eu, como todos, ela veste um macacão decorado com as cores da sua Casa. O preto e o prata lhe dão um ar fatal.

Sonya e Elane vão para o lado dela, as duas com o mesmo sorriso malicioso. Agora, em vez de me intimidar, parecem dedicadas a bajular a futura rainha.

Faço um esforço para ignorar as três e, quando dou por mim, já estou à procura de Ruggero. Ele está sentado no canto, isolado dos outros. Pelo menos podemos ficar sozinhos juntos.

Sussurros me seguem, mais de uma dúzia de adolescentes nobres observam meus passos em direção ao príncipe. Alguns me saúdam com a cabeça na tentativa de parecer educados, mas a maioria parece desconfiada. As garotas estão ainda mais tensas; afinal, realmente tirei um dos príncipes delas.

— Demorou, hein? — brinca Ruggero quando me sento ao seu lado. Não está enturmado com o grupo, e parece querer continuar assim. — Se não conhecesse você, diria que está tentando ficar longe de nós.

— Só de uma pessoa em particular — respondo, lançando um olhar a Malena.

Ela está perto da parede onde ficam os alvos, rodeada de gente. Lá, exibe-se para os aduladores com um desempenho impressionante. Suas facas cantam pelo ar e se cravam bem no meio dos alvos.

Pensativo, Ruggero me encara enquanto a observo.

— Quando voltarmos à capital, você não a verá muito — cochicha. — Ela e Agus vão fazer uma turnê pelo país para cumprir seus deveres. E nós teremos os nossos.

A perspectiva de ficar bem distante de Malena me empolga, mas também me lembra de que o relógio corre contra mim. Logo serei forçada a deixar para trás o Palacete, o vale perto do rio e minha família.

— Você sabe quando vocês... — começo a dizer e em seguida me corrijo. — Quer dizer, quando nós vamos voltar para a capital?

— Após o Baile de Despedida. Já falaram sobre isso para você?

— Sim, sua mãe comentou... E Lady Blonos está tentando me ensinar a dançar — falo baixinho, envergonhada. De fato, ela tentou me ensinar uns passos ontem, mas acabei caindo sozinha. — Entenda bem: tentando.

— Não se preocupe. Estaremos livres da pior parte.

A ideia de dançar me causa pânico, mas engulo o medo.

— Com quem fica a pior parte?

— Agus — diz Ruggero sem hesitar. — Meu irmão mais velho vai ter que beijar um monte de anéis e dançar com um monte de meninas chatas. Lembro do ano passado.

Ele faz uma pausa para rir das recordações. Então retoma.

— Sonya Iral passou a noite inteira atrás dele para interromper as danças e arrastá-lo para um programa mais divertido. Precisei intervir e suportar duas músicas com ela para dar um descanso a Agus.

A ideia dos irmãos unidos contra uma legião de garotas desesperadas me faz rir. Imagino o que já tiveram de fazer para safar o outro. Conforme meu sorriso aumenta, o de Ruggero diminui.

— Pelo menos dessa vez ele levará Samos a tiracolo. As outras não ousarão incomodá-los.

Faço uma careta ao lembrar suas unhas afiadas apertando meu braço.

— Pobre Agus.

— E como foi a visita ontem? — pergunta Ruggero sobre o passeio até minha antiga casa.

Então Agus não contou nada. Mas respondo do único jeito que consigo descrever os acontecimentos:

— Difícil.

Agora minha família sabe o que sou, e Mike se jogou na cova dos leões. E, claro, Shade morreu.

— Um dos meus irmãos foi executado um pouco antes da dispensa — completo.

Ele senta um pouco mais perto. Imagino que vá ficar um pouco constrangido, afinal, a culpa é do seu povo. Mas não. Em vez disso, põe sua mão sobre a minha.

— Meus sentimentos, Caro. Ele com certeza não mereceu.

— Não mesmo — a voz sai fraca. Recordo o verdadeiro motivo da morte do meu irmão.

Estou no mesmo caminho.

Ruggero me encara fixamente, como se tentasse ler o segredo em meu rosto. Pela primeira vez, fico feliz por ter aulas com Blonos.

Do contrário, pensaria que Ruggero era capaz de ler mentes como a mãe. Mas não. Ele é só um ardente. Poucos prateados herdam o poder da mãe, e ninguém jamais teve mais que um poder. Assim, meu segredo, minha nova aliança com a Guarda Escarlate, é só meu.
Aceito a mão que ele estende para me ajudar a levantar. Ao nosso redor, os outros se aquecem, a maioria correndo ou se alongando pelo salão. Alguns, no entanto, são mais impressionantes. Elane some e reaparece, manipulando a luz ao seu redor até desaparecer completamente do meu campo de visão. Um dobra-ventos — Oliver, da Casa Laris — cria um redemoinho em miniatura entre as mãos e levanta nuvenzinhas de poeira. Sonya troca golpes com Andros Eagrie, um rapaz baixo, mas forte, de dezoito anos. Sonya é silfo — o que significa rapidez e habilidade — e deveria ser capaz de vencer o oponente sem dificuldade. Andros, porém, defende cada um dos seus golpes numa dança violenta. Os prateados da Casa Eagrie são observadores, capazes de ver o futuro imediato, e Andros no momento usa seu poder ao máximo. Nenhum dos dois parece levar vantagem. Na verdade, estão disputando um jogo em que o equilíbrio conta mais que a força.

Imagine o que são capazes de fazer fora de um treinamento. Tão fortes, tão poderosos. E aqui estão apenas os jovens. Com isso minha esperança evapora, dando lugar ao medo.

— Fila — diz uma voz tão baixa que parece um suspiro.

Meu novo instrutor entra sem emitir um som. Agus está ao seu lado, e atrás dos dois vem um telec da Casa Provos. Como um bom soldado, Agus sincroniza seus passos com os do instrutor, que parece minúsculo e nada de mais comparado ao porte físico do príncipe. Há algumas rugas em sua pele pálida, e seu cabelo é branco como sua roupa, um testemunho de sua verdadeira idade e de sua casa. Casa Arven, a Casa silenciadora, me lembro ao repassar de cabeça minhas aulas. Trata-se de uma das principais Casas, cheia de poder, força e tudo aquilo em que os prateados acreditam. Chego mesmo a lembrar dele antes de me tornar Carolina Titanos, quando ainda era criancinha. Ele supervisionava todas as execuções transmitidas a partir da capital. Era senhor dos vermelhos e até dos prateados sentenciados à morte. Agora entendo por que o escolheram para isso.

A garota Haven reaparece num estalo, repentinamente visível mais uma vez, ao passo que o minitornado se desfaz nas mãos de Oliver. As facas de Malena despencam e até eu sinto uma bolha de calma me envolver e reduzir minha percepção da eletricidade.
Tudo obra de Rane Arven, o instrutor, o carrasco, o silenciador. Ele é capaz de reduzir prateados àquilo que mais odeiam: um vermelho. Pode desligar seus poderes. Pode torná-los normais.

Admirada, nem me movo, e Ruggero é quem me puxa para meu lugar atrás dele na fila. Agus encabeça a fileira com Malena ao seu lado. Pela primeira vez, não está interessada em mim. Seus olhos permanecem fixos em Agus, que endireita o corpo, aparentemente bem à vontade em seu posto de autoridade.

Arven não perde tempo me apresentando à turma. Na verdade, mal parece notar que ingressei na aula.

— Corrida — ordena com sua voz áspera e baixa.

Legal. Algo que sou capaz de fazer.

Largamos em fila e damos voltas no salão com a maior calma e tranquilidade. Aperto um pouco o passo até ultrapassar Malena, desfrutando um pouco do exercício que tanta falta me fazia. Agora só vejo Agus ao meu lado, ditando o ritmo para o resto da turma. Ele me encara e sorri. De fato, consigo correr bem e até gosto.

É estranho pisar no chão amortecido, que faz meus passos quicarem. Por outro lado, o sangue a pulsar no corpo, o suor e o ritmo são bem familiares. Se fecho os olhos, posso fingir que estou de volta ao vilarejo, com Mike ou meus irmãos. Ou mesmo sozinha.

Simplesmente livre.

Isso até um pedaço da parede se deslocar e me acertar bem no estômago.

O objeto me nocauteia no ato e fico estatelada no chão. O que mais dói, porém, é meu orgulho. A manada de corredores passa ao redor, e Malena sorri satisfeita ao me ver caída. Só Ruggero diminui o passo e espera até que eu o alcance.

— Bem-vinda ao treinamento — ele brinca ao me ver passar pelo obstáculo.

Por todo o salão, outras partes das paredes começam a se deslocar e formar barreiras para os corredores, que vão superando uma atrás da outra. Estão acostumados já. Agus e Malena puxam o grupo passando por cima ou por baixo de cada um dos obstáculos que aparecem.

Pelo canto do olho, noto que o telec Provos controla as partes da parede e as move. Até ele parece me dirigir um sorriso malicioso.
Tenho que me segurar para não dar um tapa nele e continuar a correr. Ruggero segue à minha frente, mas nunca mais que um passo, o que por algum motivo me deixa furiosa. Aperto o ritmo até correr e saltar o melhor que posso. Só que Ruggero não é como os agentes do vilarejo: não é fácil fazê-lo comer poeira.

Terminadas as voltas, Agus é o único que não suou. Até Malena está acabada, apesar de fazer de tudo para não aparentar. Estou ofegante, mas orgulhosa de mim mesma. Apesar do mau começo, consegui acompanhar o exercício.

O instrutor Arven nos examina por uns instantes. Seus olhos se detêm sobre mim antes de se voltar para o telec.

— Os alvos, por favor, Theo — pede, mais uma vez quase aos sussurros. Meus poderes voltam como se alguém escancarasse uma janela para deixar entrar o sol.

Com um gesto, o assistente telec faz o chão se abrir para revelar a estranha arma que vi da janela da sala de Blonos. Só então percebo que não se trata de uma arma. É apenas um cilindro, que se move puramente por causa do poder do telec, não graças a uma tecnologia estranha e superior. Os prateados só têm seus poderes e nada mais.

— Lady Titanos — murmura Arven me fazendo estremecer. — Parece que você possui um poder interessante.

Ele pensa no raio, nos arcos lilás de destruição, mas penso, na verdade, no que Julian disse ontem. Não apenas manipulação. Eu crio.

Sou especial.

Todos os olhares se fixam em mim, mas expresso concentração e junto minhas forças.

— Interessante, mas não inédito, instrutor — digo. — Estou muito ansiosa para aprender mais sobre ele.

— Pode começar agora — diz o instrutor.

O telec atrás dele tensiona o corpo e um dos alvos esféricos voa pelo ar, mais veloz do que eu acreditava ser possível.
Controle. Repito as palavras de Julian. Foco.

Desta vez, consigo sentir o tranco ao sugar a eletricidade do ar e de algum lugar dentro de mim. Ela se manifesta em minhas mãos na forma de pequenas faíscas. Mas a bola cai no chão antes de eu conseguir projetar o raio, dissipando-se em faíscas. Ouço a risadinha de Malena atrás de mim. Quando me viro para encará-la, meus olhos encontram os de Ruggero.

Ele inclina a cabeça bem de leve e me incentiva a tentar de novo. Ao seu lado, Agus cruza os braços. Seu rosto sombrio não demonstra suas emoções.

Outro alvo gira pelos ares. As faíscas aparecem mais rápido agora, vivas e brilhantes quando o alvo atinge o ápice de sua trajetória.

Como fiz na aula de Julian, cerro o punho e, sentindo a violência do poder dentro de mim, atiro.

O raio faz uma bela parábola destruidora no ar e atinge o alvo em queda. Diante de tamanho poder, se desfaz em pó e fagulhas ao atingir o chão.

Não consigo evitar um sorriso de satisfação. Atrás de mim, Ruggero e Agus aplaudem, acompanhados de um punhado de gente. Malena e suas amigas com certeza não fazem o mesmo, parecendo até insultadas por minha vitória.

Já o instrutor Arven não diz nada, nem me dá os parabéns. Simplesmente encara o resto da classe e chama:

— Próximo.

O instrutor faz de tudo para esgotar a turma. Nos força a uma rodada atrás da outra de exercícios para calibrar nossos poderes. Eu, claro, sou a pior em todos, mas consigo perceber uma melhora. Ao fim da sessão, estou encharcada de suor e com dores em toda parte. A aula com Julian acaba sendo uma bênção, pois posso sentar e recuperar a força. Mas mesmo que o treino da manhã não tivesse acabado comigo, logo será meia-noite. Quanto mais rápido o tempo passa, mais próxima do horário fico. Mais próxima de tomar meu destino nas próprias mãos.

Julian não nota minha tensão, provavelmente por estar debruçado numa pilha de livros recém-encapados. Cada um tem a grossura de dois dedos e uma etiqueta elegante indicando um ano. E só. Nem imagino do que tratam.

— O que são estes livros? — pergunto com a mão num deles.

Ao abrir, dou de cara com uma mistura bagunçada de listas: nomes, datas, locais e causas de morte. A maioria menciona apenas hemorragia, mas também há doença, asfixia, afogamento e outros detalhes mais peculiares e sangrentos. Meu sangue gela nas veias quando percebo exatamente o que leio.

— Uma lista de mortos.

Julian confirma.

— Com cada uma das pessoas que morreram em combate na guerra com Lakeland.

Shade. Isso faz meu almoço se revirar no estômago. Algo me diz que seu nome não estará em nenhum livro. Desertores não recebem a honra de uma linha de tinta. Com raiva, me atento ao abajur que ilumina a leitura. A eletricidade dentro dele é um chamado tão familiar para mim quanto minha própria pulsação. Sem nada na cabeça, passo a acender e apagar a luz, que pisca em sincronia com meu coração exausto.

Julian nota a luz oscilante e, com os lábios apertados, pergunta secamente:

— Algo de errado, Caro?

Está tudo errado.

— Não gostei da mudança de horário — respondo, e paro de brincar com o abajur. Não é mentira, mas também não é verdade. — Não vamos mais poder treinar.

Ele apenas dá de ombros, e o gesto faz suas vestes amareladas se agitarem. Parecem estar mais encardidas, como se Julian estivesse se transformando num pergaminho, numa das páginas dos seus livros.

— Pelo que ouvi, você necessita de mais orientação do que posso lhe dar — comenta.

Essas palavras me fazem ranger os dentes, e eu as mastigo bem antes de cuspir de volta.

— Agus contou para você o que aconteceu?

— Sim — Julian responde sem emoção. — E ele tem razão. Não o culpe por isso.

— Posso culpar Agus pelo que quiser — bufo ao me lembrar dos livros e guias de guerra e morte espalhados por seu quarto. — Ele é como todos os outros.

Julian abre a boca para dizer alguma coisa, mas pensa duas vezes e, no último instante, volta aos livros.

— Caro, eu não chamaria o que fazemos de treino. Além disso, você se saiu muito bem nos exercícios de hoje.

— Você viu? Como?

— Pedi para assistir.

— Quê?!

— Não importa — diz Julian com os olhos cravados em mim. Sua voz se torna repentinamente melódica, como acordes profundos e calmantes.

Mais relaxada, concordo com ele.

— Não importa — repito. Embora Julian já não esteja falando, o eco de sua voz ainda paira no ar como uma brisa tranquilizadora. — O que vamos fazer hoje, Julian?

Ele sorri, divertido.

— Caro.
Sua voz volta ao normal, simples e familiar. Desfaz os ecos como se uma nuvem se dissipasse.

— Mas o que... o que foi isso?

— Suponho que Lady Blonos não falou muito da Casa Jacos nas aulas — diz, ainda sorridente. — Surpreende-me você nunca ter perguntado.

Realmente, nunca pensei em qual seria o poder de Julian. Sempre achei irrelevante, pois ele não era tão pomposo como os outros.

Ao que parece, eu estava bem longe da verdade. Ele é muito mais forte e perigoso do que jamais imaginei.

— Você pode controlar as pessoas. Você é igual a ela.

A possibilidade de Julian, um simpatizante da causa vermelha, uma boa pessoa, ser idêntico à rainha me estremece.

Ele não deixa se abalar com a acusação e volta a se concentrar no livro.

— Não, não sou. Meu poder não chega nem perto do dela. Nem minha brutalidade — explica, entre suspiros. — Nos chamam de cantores. Ou pelo menos chamariam, se existisse mais de nós. Sou o último da minha Casa e, bem, o último do meu tipo. Não consigo ler mentes, nem controlar pensamentos, nem falar dentro da sua cabeça. Mas consigo cantar: desde que a pessoa me escute e eu consiga encará-la nos olhos, posso levá-la a fazer o que quiser.

O horror invade meu corpo. Até Julian.

Devagar, recuo para deixar um espaço entre nós. Ele percebe, claro, mas não se irrita.

— Você tem razão em não confiar em mim — fala em tom baixo. — Ninguém confia. Por isso meus únicos amigos são as palavras escritas. Mas não uso meu poder senão quando absolutamente necessário, e nunca o usei para maldades. — Julian pausa um instante, solta uma gargalhada sombria e conclui: — Se quisesse mesmo, poderia chegar ao trono na base da conversa.

— Mas você não fez isso.

— Não. Nem minha irmã, não importa o que os outros digam.

A mãe de Agus.
 

— Ninguém parece falar muito sobre ela. Não para mim, ao menos.

— As pessoas não gostam de falar de rainhas mortas — dispara, para em seguida desviar o olhar discretamente. — Mas falavam durante a sua vida. Coriane Jacos, a rainha cantora.

Nunca vi Julian assim, nunca. No geral, ele é calmo, tranquilo, um pouco obcecado talvez, mas nunca nervoso. Nunca magoado.

— Ela não foi escolhida pela Prova Real, sabia? — prossegue. — Não como Elara, Malena ou mesmo você. Não. Tibe se casou com minha irmã porque a amava. E ela o amava.

Tibe. Chamar Tiberias Calore VI, rei de Norta, Chama do Norte, por qualquer nome com menos de oito sílabas soa absurdo. Mas ele também foi jovem um dia. Era como Agus, um menino nascido para se tornar rei.

— A odiavam por ser de uma Casa inferior, porque não tínhamos força ou autoridade ou qualquer uma das besteiras que essa gente valoriza — Julian não para, ainda com o olhar distante. — Quando minha irmã se tornou rainha, ameaçou mudar tudo isso. Era gentil, compassiva, uma mãe capaz de criar Agus para ser o rei de que este país precisava, para unir a todos nós. Um rei que não temeria mudanças. Mas isso nunca aconteceu.

— Sei como é perder um irmão — comento baixo ao me lembrar de Shade.

Não parece verdade. É como se todos estivessem mentindo e agora ele estivesse em casa, feliz e seguro. Em algum lugar, o corpo decapitado do meu irmão repousa como prova.

— Só descobri ontem à noite. Meu irmão morreu na guerra.

Julian finalmente se volta para mim, com o olhar opaco.

— Sinto muito, Caro. Não percebi.

— Nem ia perceber. O Exército não relata as execuções em seus livrinhos.

— Execução?

— Deserção — a palavra tem gosto amargo, como uma mentira. — Embora eu saiba que ele jamais faria uma coisa dessas.

Após um longo silêncio, Julian põe a mão em meu ombro e diz:

— Parece que temos mais em comum do que você imagina, Caro.

— O que quer dizer?

— Também mataram minha irmã. Ela ficou no caminho deles e foi eliminada. E... — O tom de voz diminui. — Farão de novo, com qualquer um que julguem necessário remover. Mesmo Agus, mesmo Ruggero e especialmente você.

Especialmente eu. A menininha elétrica.

— Pensei que você quisesse mudar as coisas, Julian.

— E de fato quero. Mas isso leva tempo, planejamento e muita sorte.

Ele me encara de alto a baixo, como se soubesse de algum modo que já dei o primeiro passo rumo ao caminho das trevas.

— Não quero que você perca o controle da situação — aconselha.
 

Tarde demais.

#TimeAgus ou #TimeRugge?
 


Notas Finais


OI!
Tudo bem??
Gostaram???
Espero que sim! #TimeAgus ou #TimeRugge?
Desculpe qualquer coisa!
E hoje tive muita lição de casa então não tive tempo de atualizar as outras FanFics! Desculpe!
Abraço a todos!
Nunca deixem de sorrir!
~Mare


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