História A Tragédia de Reykjavík - Capítulo 3


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Adolescência, Depressão, Desabafo
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Palavras 2.001
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Drama (Tragédia), Romance e Novela, Violência
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Linguagem Imprópria, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 3 - Ravnica


- Reykjavík – alguém chamou.

Olhou para trás e reconheceu os dois.

- Você tá aqui – disse Axel.

- Vocês tão aqui – disse Reiki.

Irmy fez uma festa de quinze anos e convidou Reiki, que nunca havia sido próximo o suficiente de alguém antes para tanto. Não sabia o que esperar de lá quando foi entrou no local, e se sentiu aliviado quando viu seus dois supostos amigos antissociais.

- Você é a última pessoa que a gente esperava encontrar aqui – disse Axel.

- Vocês também.

Sentaram-se em alguns bancos almofadados com uma mesinha no centro. Axel continuou:

- Reykjavík, você bebe?

- Não.

- Você vai dançar no baile?

- Não.

- Então o que você veio fazer aqui?

Era uma boa pergunta. O que ele estava fazendo ali? Tentando deixar de ser antissocial, o que era impossível, esperando uma menina bêbada pular em cima dele e tirar seu bv, o que era ainda mais impossível. Na verdade ele nem pensou sobre o assunto. Estava fazendo coisas sem pensar, por obrigação social, assim como havia passado a não expressar seu desgosto no rosto. Irmy o convidou, então achou que devia ir.

- E-eu vim… conv-versar… c-com m-meus amigos...

A pior coisa que uma pessoa antissocial pode fazer é ir a uma festa. Tudo o que se tem para fazer é ficar sentado num canto, quando se dá a sorte de ter um local para sentar, enquanto vê outras pessoas bebendo e gritando feito animais. De vez em quando algum nota sua existência quando a vê no canto com a morte estampada no rosto e vem falar algo que bêbados falam com ela, como “VAI DANÇAR PORRA” ou “NÃO LIGA PRA ELA”.

Sentou e os que estavam consigo passaram a beber, então ficou até as duas da manhã anotando no celular tudo o que falavam ou faziam. Aquilo foi divertido.


 

Sentia falta desses momentos, os raros em que convivia e se sentia parte de um grupo. Reikjavík estava de dependência em matemática, então não podia entrar nas melhores escolas de Ravnica, a menos que repetisse de ano, coisa que seu pai queria que ele fizesse, já que era adiantado. Recusou tal ideia absurda e foi colocado no único colégio particular que o aceitava, o S. Krister.

- Eu não quero ir – tinha dito à mãe antes, num esforço inútil para ficar em Halmberg. - Não tenho amigos lá.

- Você faz novos.

- Eu demorei quinze anos para fazer amigos, mãe. Não tenho facilidade nisso.

- Então vamos te por num psicólogo – tinha dito o pai, quando tocou no assunto para com ele. - Pra tratar essa timidez sua.

Seus pais eram divorciados desde 2013, o que não fazia diferença para Reiki, dado que seu pai foi ausente na maior parte do tempo de sua vida. Até então, seu pai Cesário morava em Ravnica e a mãe Josephine em Halmberg. Havia chorado bastante quando soube que ia voltar para Ravnica, onde sua vida foi um inferno, e mais ainda quando sua mãe mudou a data de junho para janeiro de 2015. Sentia falta de seus amigos, se arrependia do pouco tempo que teve com eles, embora não tivesse culpa disso, e de ter sido tão fechado para Gianne, que conheceu todos aqueles anos. Não conseguia se sentir triste por Gerda, por mais que tentasse. Sua única tristeza para com ela foi no último dia de aula, em que a turma voltou a comparecer, depois disso não via mais muita diferença entre ela e qualquer outra menina que achou bonita na vida.

Todos os dias ia e voltava da escola de bicicleta, atravessando a maior avenida da cidade e chegando mais suado que qualquer um na escola. Quando tinha contra-turno, ia para casa almoçar e depois voltava. Nunca olhava as pessoas nos rostos, o que o levava a correr o risco de entrar na turma errada, já que a sua trocava de sala pelo menos duas vezes ao dia. Mas isso nunca aconteceu. S. Kristen possuía apenas uma turma para cinquenta alunos do segundo ano e nenhuma porta para os banheiros. A Educação Física era obrigatória e feita em um dia em que havia um único horário à tarde, e não era na escola, embora lá tivesse uma quadra maior que todas as salas juntas, e sim em um ginásio particular difícil de encontrar. Reiki nunca havia estudado em uma escola pública, então não sabia como era a situação lá, mas quando o descreveram não sentiu muita diferença entre uma e S. Kristen.

Os alunos eram agitados e quase nunca deixavam um professor dar aula. Nada era feito para amenizar a situação. Nunca foi zoado diretamente por seus colegas, mas uma professora o zoou, implicando com ele por ser calado e falando que era puxa-saco da menina que sentava à sua frente, pelo fato de ter trocado uma ou duas palavras com ela alguma vez. Não disse nada nem demonstrou nenhuma mudança de expressão. Depois veio se desculpar, dizendo que era uma zoeira amigável. Reiki nunca acreditou, até pela situação semelhante que veio a acontecer meses depois, mas isso é outra história.

Seu amigo de infância, Hallgrimur, voltou para essa escola na segunda semana e Reiki conversou com ele algumas vezes. Em geral não conseguia, pois ele tentava forçar entrosamento com os amigos dele.

- Eu não quero ser amigo deles – disse a Hallgrimur certo dia quando saíam.

- Ohhh, por quê?

- Porque já os vi na sala e vi o que eles fazem – disse com desprezo. - Conheço o tipo deles, Hallgri, e não me importo se você mudou bastante desde a quarta série para integrar um grupo de famosinhos, eu não sou assim. Pare de forçar.

Mesmo assim, em outro dia, Hallgrimur o chamou para conversar com ele, e então tentou pela terceira ou quarta vez fazê-lo conversar com seu bonde. Reiki ficou puto com isso. Sua agressividade ainda era forte, e para explicar o que sentia, acertou uma caneta no braço dele. Ele gritou e disse que doeu, os outros nada disseram. Reiki não viu suas reações, pois não via seus rostos. De qualquer forma ele não se importava com mais nada.

- Eu não quero ficar aqui, mãe – disse a Josephine certo dia em que estavam os dois no carro. - Não gosto dessas pessoas.

- Você vai continuar até o fim do ano no S. Kristen fazendo sua dependência – disse com indiferença. - Depois, no ano que vem, você vai para o Colégio Católico ou o concorrente dele. - os dois eram considerados os melhores da cidade.

- E ser novato de novo?! Você sabe que eu tenho dificuldade de relacionar com pessoas novas.

- Isso, ou você fica no S. Kristen. Você escolhe.

- Não tem como eu voltar para Halmberg? Nem no ano que vem?

- E você ia morar lá como? Sozinho?

- Não – por ela dizia isso? Seu pai já havia dito que havia maneiras dele morar lá sozinho, ou talvez as disse sem pensar direito pela raiva que tinha de sua mãe. - Me põe numa república, numa pensão, me deixa em casa sozinho durante a semana, você sabe que eu consigo ficar em casa sozinho. Você me deixa ficar desde que eu tinha nove anos! - pediu. - Por favor. O terceiro ano é o último, é o mais difícil, é o que tem pra ficar com os amigos…

- ELES NÃO SÃO SEUS AMIGOS! - ela gritou. - SÃO PESSOAS COM QUEM VOCÊ CONVERSAVA! SE FOSSE AMIGO, TERIA IDO NA CASA DELES.

- Mãe, isso era na sua época. Nenhum de nós tem esse costu…

- EU NÃO QUERO SABER, NÃO VOCÊ QUE DECIDE ISSO. VOCÊ SÓ VAI DECIDIR ISSO NO DIA EM QUE FOR DONO DO SEU PRÓPRIO NARIZ! ATÉ LÁ, EU QUE DECIDO, E VOCÊ VAI MORAR COMIGO SIM SENHOR! - então se fez silêncio no carro. Logo depois ela sempre voltava a reclamar aos resmungos, se elevando aos gritos. Nunca sabia a hora de parar.

A casa do namorado de sua mãe era grande, e ele tinha o quarto de visitas para dormir. O namorado dela não falava muito consigo, mas em alguns momentos parecia ser legal e gente boa, e em outros brigava e gritava por pouca coisa tanto quanto sua mãe, o que era meio assustador. A filha dele era irritante. Reykjavík nunca gostou de crianças. Nunca sentiu como se morasse lá, sempre sentiu que estava só de passagem, preso num lugar estranho com pessoas que não conhecia, que sua mãe lhe forçava a convencer serem sua família.

- Eles não são minha família – disse numa das vezes em que ela usou esse termo.

- São sim, eles moram com você! - respondeu Josephine. - São o quê então?

- Eu nem conheço eles. Família ter que ser de sangue ou ter um vínculo afetivo, e eu não tenho nada disso com eles – tinha o primeiro com ela, infelizmente.

- Um dia eu vou engravidar e eu e ele vamos ter um filho, e esse filho vai ser irmão tanto seu quanto dela, e isso vai fazer ter um vínculo de família entre nós todos.

Reiki suspirou. Sempre quis ter irmãos quando era criança, agora não se importava mais. Sua mãe já tinha trinta e nove anos, e queria engravidar depois de se casar, no ano seguinte, quando já teria quarenta. Se engravidasse com essa idade, correria um maior risco do feto desenvolver alguma doença grave, mas ela bateu nele quando disse isso. Não gostava de ouvir a verdade.

- Meu pai Cesário é estéril, você sabe disso, e ficou casada com ele por vários anos. Ele sempre deixou você adotar um filho, você nunca quis.

- Porque eu queria um filho que parecesse comigo! - até porque se ela tivesse algum agora seria muito parecido com ela, pois ela era loira de olho verde e o cara era pardo.

- Podia ter feito inseminação artificial.

- E depois eu ia falar o quê para ele quando perguntasse quem era o pai biológico dele? Ia falar que era o banco de esperma?!

- O meu pai biológico era um viciado em maconha e crack que me abandonou quando eu tinha três meses!

- Pelo menos você sabe quem é ele!

- E isso é melhor?!

Desde que se entendia por gente (em teoria, na prática ele era um saco de lixo), Reykjavík chamava Cesário de seu pai e foi criado por ele. Na verdade, ele havia namorado sua mãe quando ele era novo e os dois se casaram quando havia seis anos. Nisso, o leitor deve imaginar que Cesário era um homem que se importava e cuidava do seu único filho incondicionalmente, e este jamais deveria decepcioná-lo em hipótese alguma. Não fez diferença, seu pai sempre foi ausente. Sua mãe suspeitava que ela o traía, mas nunca soube a verdade sobre isso. Reiki não duvidava que ele realmente fizesse isso. Os dois brigavam tanto que tinha ficado feliz com o divórcio. Fora isso, a separação dos dois nunca teve uma mudança significativa em sua vida.

O pai biológico de Reiki sumiu quando ele tinha três meses. Em 2013 ele lembrou de sua existência e mandou mensagens para sua mãe, tentando chamar Reykjavík para conviver com ele, e para o choque do garoto sua mãe disse que aprovaria. Reiki mandou ele se foder.

Cesário tinha raiva da separação e ainda nutria um grande ódio por Josephine. E quando Reiki estava com ele, qualquer coisa ruim que lhe acontecesse era o suficiente para dar um ataque de raiva, descontá-la toda no filho e acusá-lo repetidas vezes de ser paga-pau de sua mãe, quando na verdade Reiki detestava ela mais do que o pai. Quando teve que voltar para Ravnica, o pai começou uma implicância sem nexo sobre ele “ir aonde quer que a mãe vai”, como se tivesse alguma escolha.

Após um mês, sua mãe veio até ele chorando e lhe disse:

- Filho, nós vamos voltar a Halmberg.

Então, pela primeira vez em muito tempo, sorriu.


 


Notas Finais


Aproveitei esse capítulo de um ciclo de um mês sobre o breve retorno de Reiki à cidade em que morava, o que não é tão relevante para a história, para falar sobre a família.


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