História A Vila - Capítulo 1


Escrita por: ~

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Categorias Fifth Harmony
Personagens Ally Brooke, Camila Cabello, Dinah Jane Hansen, Lauren Jauregui, Normani Hamilton
Exibições 257
Palavras 1.834
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Romance e Novela, Suspense, Terror e Horror
Avisos: Estupro, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Nudez, Sexo, Tortura, Transsexualidade, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


Olá... Espero que gostem!
Ps: Feliz dia das crianças a todos nós...
Boa leitura.

Capítulo 1 - Convenções


Lauren apertou as mãos em torno da caneca fumegante. Sorveu o líquido negro rapidamente, ingerindo o calor antes que ele se extinguisse. Uma parcela ínfima, mas satisfatória, de alívio pelos segundos em que conseguiu afastar o enregelar dos dedos e de todo o resto do organismo, causado pelo intenso frio. Quando terminou, suspirou fundo. A fumaça escapou dos lábios, deixando neles um quase sorriso. Não que fosse o tipo de pessoa amarga, depressiva ou pessimista. Era apenas... Orgulhava-se de ser, na verdade. Realista. Absoluta e totalmente prática. Do tipo que não se apega sequer cogita, a coisas que não sejam palpáveis. Uma sobrevivente. Forte, firme e, acima de tudo, racional. Adaptada às intempéries de um tempo em que a escuridão é material, e não apenas subjetiva. Largou a xícara em cima da mesa com cautela. Aproveitando o restinho de vela que chegando ao fim trepidava, aproximou o rosto da janela e, com a ponta do casaco de lã, limpou o vidro embaçado antes de aventurar o olhar no breu. Forçou os olhos a vislumbrarem o pequeno ponto de luz que se erguia solitário acima de todas as janelas da Cidade Alta sempre o último a se extinguir.

Camila não se recordava de haver passado uma ocasião sequer sem insônia. Mesmo ainda muito pequenina, jamais havia conseguido cumprir a quantidade de horas que o senso comum dizia ser necessário dormir. Se é que, depois de tudo, senso comum ainda fosse algo que merecesse ser ouvido... Camila não se lembrava da bola brilhante que costumava arder no céu nem chegara a conhecê-la. Nunca a tinha visto. Mas os livros... Vários deles diziam que o sol realmente havia existido. Uma época em que o tempo se dividia, repartido entre claro e obscuro. Luz e escuridão. Noite e dia. Livros proibidos, lógico. Do tipo que Camila conseguia de forma clandestina, devorava e escondia debaixo das tábuas do assoalho para que os pais não descobrissem. Letras, palavras e frases que, juntas, pareciam formar nela sentimentos e questionamentos responsáveis, em grande parte, pela falta de sono e isolamento. E que a faziam... Lutar contra si mesma. Os olhos procurando algo no breu lá embaixo, enquanto a chama da vela se extinguia. Os pés descalços, apesar dos dedos ficarem dormentes e os ombros e o pescoço se encolherem debaixo do sobretudo pesado e do cachecol de lã vermelha. A ponto dos músculos reclamarem, doloridos pela tensão que o toque gélido da madeira produzia. O que procurava? O que desejava? O que realmente queria? Mesmo se tentasse, Camila não saberia responder. Nem poderia. Era algo totalmente irracional, desprovido de sentido. Mas que a fazia sentir-se viva.

As badaladas do sino da Casa do Senhor encontraram os olhos de Lauren já abertos. Fato que, por si só, não fazia diferença. Impossível enxergar um palmo que fosse antes de acender uma vela, um lampião ou um candeeiro. Ela não se importava. Na verdade, estava muito mais do que acostumada. Sequer sabia como era ter luz sem que ela fosse artificialmente produzida. Continuou deitada durante aqueles últimos segundos restantes enquanto contava mentalmente:

– Uma... Duas... Três... Quatro... Cinco... Horas.

Nunca havia se questionado, muito menos duvidado da veracidade do soar daquelas batidas. O número precisava, ou melhor, instituía o horário que a vila inteira, sem exceção, seguia. Afastou as cobertas e corajosamente enfrentou o ar frio. O corpo tiritando incontrolavelmente durante muito pouco tempo, porque a primeira coisa que fez ao se levantar foi se vestir. No escuro, como sempre fazia, com a precisão de quem consegue enxergar além do que os olhos podem fazer. Acostumada a ver muito mais pelo gosto, som, tato e cheiro. Capaz de fechar, com as pontas dos dedos, cada botão, zíper ou fecho. Sem entender direito o porquê das pessoas fazerem tanta questão da visão. Os olhos enganavam, enquanto a escuridão parecia trazer... Uma suave sensação de ser, realmente, livre. Como um confortável e seguro abrigo onde podia simplesmente descansar, respirar, esconder-se. De quê? De nada que Alexandra pudesse ou quisesse confessar. Prendeu os cabelos num rabo de cavalo frouxo, sempre com a peculiar intimidade que tinha com o não ver. Abriu a porta do quarto e atravessou o pequeno corredor com passos firmes e decididos. Na porta da cozinha, antes de entrar, parou por um momento. Fechou os olhos, sorrindo ao saborear melhor as vozes e os aromas tão conhecidos, o som do estômago que, ao despertar, sempre clamava por comida. Aquilo sim fazia sentido. Muito mais do que as sombras projetadas na parede indicando que a família toda já se encontrava ali reunida. Imagens. Lauren desconfiava delas. Mais do que isso: de alguma forma inexplicável, sentia que para ela significavam... Uma estranha e terrível forma de perigo.  

Quando o sino da Casa do Senhor bateu cinco horas, Camila ainda não havia conseguido dormir. Tapou os ouvidos com as mãos inutilmente. Mesmo se não pudesse escutar, poderia senti-lo vibrar perfeitamente. O chão, as paredes e a própria mente reboando a ordem estabelecida que todos deveriam seguir. Óbvio que, àquela altura da vida, Camila já havia aprendido a simular, ocultar, negar e... Mentir. Jamais demonstrar o que realmente pensava e sentia. Apesar de, no fundo, saber perfeitamente que não conseguia. Todos, principalmente a própria família, achavam-na... Estranha. Esquisita. E até um pouco mais do que isso. Notório era o fato de que, se Camila se mostrasse, fosse como realmente era, ao invés do disfarce nem um pouco convincente... Seria inaceitável. Em poucas palavras: ser quem era por si só já era, no mínimo, um perigo. Mas quem diabos estabelecia tudo aquilo? Como ter certeza de que eram cinco e não dez, quinze, ou vinte? Que diferença isso tinha? Toda a ideia da contagem de horas, minutos e segundos não passava mesmo de algo convencionado, concebido na vã tentativa de aprisionar o tempo, algo absolutamente relativo... Se o dia não mais existia, e nunca amanhecia, dormir num horário determinado também não fazia o menor sentido. Pensando um pouco... Só mais um pouco... Qual a diferença entre estar acordada e dormir? Em ambos os casos, a impressão que tinha era de estar sempre anestesiada, sonhando, fora de si... Como um zumbi que confunde reflexos mecânicos do próprio corpo com um verdadeiro sopro de vida. Mais uma vela chegou ao fim, o pavio ameaçando se afogar na cera derretida. Um último e breve aviso da escuridão que vinha. Só de pensar na possibilidade, Camila estremeceu, um arrepio de pânico subindo pela espinha. Detestava o escuro. Mais do que isso: o temia. Só suportava a ideia dos olhos se tornarem supérfluos enquanto dormia, porque... Por meio deles sentia, entendia, compreendia que o mundo – e não apenas ela, como havia demorado tanto para descobrir, realmente existia.

- Por favor, tia Lolo... - A decepção fez um brilho úmido surgir nos olhinhos ansiosos da menina. - Lolo, você prometeu! - A frase da prima foi muito mais do que incisiva. Cobrança que continha. Lauren sabia, e como sabia! Milhares de outras coisas. Situações e conflitos. Mágoas não resolvidas.

- Tudo bem. Pode vir comigo. - Talita saltitou com os bracinhos para cima, numa comemoração infantil muito mais do que efusiva. Nívia a olhou em silêncio. O canto da boca deixando escorrer um esgar amargo que qualquer outra pessoa poderia confundir com um semi sorriso. Não Lauren. Conhecia bem demais a prima. Muito mais do que gostaria. Se o passado é algo do qual não se pode fugir, a maior prova estava ali. Naquele par de olhos que pareciam nunca deixar de segui-la.

- Termine de comer, Talita! - A garota obedeceu, agarrando a colher e levando o conteúdo da tigela na frente dela à boca de uma forma que era... - Segura essa colher direito! Onde já se viu? - Voltou a corrigir. O silêncio de Gustavo mostrou que ele estava de acordo com a esposa. Já Lauren... Lauren sorriu. Achando a mãozinha com os dedos desajeitadamente fechados sobre a colher algo divertido, pueril. Talita, obviamente, corrigiu-os. Exatamente como eles queriam, passando a comer conforme os bons modos diziam. Num princípio de supressão da naturalidade infantil, que pouco a pouco seria substituída por regras de conduta, padrões, artifícios... Lauren conhecia bem aquilo. Convenções do que deveriam e poderiam fazer ou não. Muitas vezes suprimindo a possibilidade ínfima de alguns poucos momentos felizes. Mas quem tinha tempo para pensar nisso? Quando cada segundo perdido poderia significar a diferença entre se ter ou não um prato de comida? Assim era e assim sempre seria. A própria Lauren não questionava nada, apenas seguia o que lhe era cobrado e exigido.

 - Vai para o campo Norte, Lauren? – Perguntou seu tio e como resposta, Lauren sacudiu a cabeça numa afirmativa.

- E depois no Mercado Público. - Sem levantar os olhos do pedaço de pão que mordia. Não precisava olhar. A tensão do tio era perceptível.

- Acha prudente levar a menina? - Lauren deu de ombros. Precisava trocar as peles dos animais que caçava por outras coisas que necessitavam. Apesar de não ser considerado um lugar exatamente bem visto, somente no Mercado Público isso era possível. Percebeu quando Tio Dimas enxugou o suor da testa no tecido rústico da camisa antes de trocar um olhar significativo com a esposa. Ainda assim, Lauren continuou simulando estar absolutamente interessada na comida. Foi o calor da mão da tia no rosto dela, numa leve carícia, que a fez levantar os olhos para encarar a preocupação dos dois idosos que a haviam criado como filha.

- Não tem nada de mais. E vocês sabem disso.  – Disse Lauren.

- Se pudesse, nunca a deixaria sair daqui... - A voz de Tia Laila saiu embargada, como se contivesse algo que a impedisse de sair. Virou de costas, uma das mãos no rosto, tapando a boca, a outra na altura da cintura do avental que vestia. Inútil tentativa de disfarçar aquilo que Lauren podia farejar em forma de arrepio. O ardor dolorido que subia e, em forma de lágrimas, escorria sempre que falavam sobre algo que lembrasse o passado. Rapidamente, Lauren se levantou e passou os braços ao redor da tia.

- Fica tranquila. Cuido dela direitinho. Não tem perigo. - Mentira. E todos sabiam. Mas, cotidianamente, Lauren afastava toda e qualquer forma de receio se recusando a pensar naquilo... No momento fatídico em que... Tia Laila se virou em desespero para Gustavo, mas ele enfiou ainda mais a cabeça dentro do prato, abstendo-se de interferir. Incrivelmente, foi Nívia quem decidiu.

- Talita vai. - Apesar da mãe protestar.

- Mas, Nívia... Por favor, filha... - Nívia virou-se para Lauren e, olhando-a nos olhos, pronunciou de forma firme. - Ninguém cuidaria melhor dela do que você, Lolo. - O mesmo sorriso furtivo passou rapidamente pelo rosto das duas antes de Nívia encerrar, com um seco e definitivo. - Não podemos criar uma criança com medo, numa redoma de vidro. Depois de um último gole de café, e ainda sob o impacto das palavras que Nívia havia proferido, Lauren partiu com a pequena Talita saltitando atrás dela.


Notas Finais


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