História A Vila - Capítulo 2


Escrita por: ~

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Categorias Fifth Harmony
Personagens Ally Brooke, Camila Cabello, Dinah Jane Hansen, Lauren Jauregui, Normani Hamilton
Exibições 139
Palavras 2.172
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Romance e Novela, Suspense, Terror e Horror
Avisos: Estupro, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Nudez, Sexo, Tortura, Transsexualidade, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


Obrigada pelos favoritos, e comentarios...
Mais um para vocês

Capítulo 2 - Mercado Público


Não se deixou contagiar pela felicidade explícita da menina. Ainda não sabia se aquela era uma forma de expurgar ou aumentar os fantasmas que a perseguiam.

Somente o frágil raio de luz da lanterna da bicicleta rasgava a escuridão da estrada de terra cheia de pequenas pedrinhas que pareciam brilhar aos olhos de Camila. Estendeu as mãos, num desejo quase febril de tocá-las, mas logo desistiu, porque... A carta de baralho presa à roda produzia um estranho e sinistro som de roleta que a fazia se encolher em arrepios. Batidas simétricas que dolorosamente se repetiam. O barulho aumentou, como se penetrasse na mente de Camila. Ela se debateu, tentando em vão manter o sonho que fugia. Sentiu que caía. Tentou se agarrar a... A quê? Não conseguiu distinguir... Ouviu alguém gritar, sem perceber que era ela mesma. Sentiu o corpo saltar. Convulsões do organismo que voltava a si. E, então, com profundo pesar, soube que havia acordado. Não abriu os olhos de imediato. Não havia motivo. Nada para ver na escuridão total. Ficou imóvel, deitada sob o peso das grossas camadas de cobertores que usava para dormir, tentando se lembrar do que estava sonhando, mas, como sempre depois que despertava, não conseguiu. Nenhuma imagem. Nada. Apenas a estranha sensação que sempre persistia. De algo familiar que Camila não sabia dizer o que era. Angústia traduzida pelo suor frio que a percorria.

- Dá licença, senhorita Camila? - A voz suave, profundamente doce, soou tímida do outro lado da porta, depois de três leves batidas.

- Alícia...  - Camila sussurrou baixinho. Os anos não conseguindo extinguir o calor que aquelas sílabas produziam... - Entra. - Falou tentando manter um tom firme. Disfarçando a impressão amargurada, triste, nostálgica por aquilo que nunca havia acontecido. Bobagem pensar. Na verdade, jamais teria coragem de confessar para a companheira de brincadeiras de infância o que sentia. Como poderia? Todo e qualquer resquício da intimidade passada havia sido engolido pela realidade que agora as envolvia. Alícia, filha da cozinheira e, depois que ficara órfã, também parte da criadagem. E Camila... Camila sequer tinha palavras para se definir. Olhou para a mulher parada no vão da porta, segurando o lampião na altura do rosto, o reflexo das chamas fazendo com que a beleza dela luzisse, absolutamente inatingível... Esqueceu o que ia dizer. Na verdade, perdeu-se na imensidão que olhar para Alícia sempre produzia.

- Sua mãe mandou avisar que o almoço está servido e que estão todos esperando a senhorita na sala. - A distância na voz dela... De uma formalidade indiferente, quase maquinal... Ardeu no peito de Camila. Não um ardor de calor e fogo, como gostaria. E sim... Um gélido queimar de frio.

- Diga que já estou indo. - Respondeu com a voz tremida, mas, provavelmente, Alícia não percebeu. Sequer ouviu, porque... A voz de Camila foi abafada pelas badaladas das horas tocadas pelo sino. Doze ao todo. Um tempo em suspenso, em que as duas permaneceram paradas, sem se fitarem diretamente, numa espécie de limbo. Assim que o silêncio retornou, Alícia se retirou, fechando rapidamente a porta atrás de si, como se evitasse ficar um instante a mais do que o necessário ali. Imersa novamente no escuro absoluto, Camila deixou escapar um longo e amargurado suspiro.

Talita não precisou de ajuda para deixar a segurança da carroça. Chegou ao chão sozinha, de uma forma tão rápida e ágil que Lauren se surpreendeu. Independência, coragem e iniciativa. Excelentes qualidades para sobreviver ali. Afastando os pensamentos que a distraíam, Lauren deixou o único lampião aceso com a menina encolhida no casaquinho grosso. Precisava se manter alerta, naquele momento mais do que nunca, porque... Não era só a vida dela que dependia da prontidão com que pudesse antecipar qualquer tipo de perigo. E, definitivamente, o que menos precisava era ter mais uma culpa somada às muitas que já carregava consigo. Amarrou o velho cavalo sem se incomodar com os dedos estarem gélidos. Nunca, jamais usava luvas. O tato era um sentido importante demais para ser perdido. Esfregou as mãos antes de pegar o lampião de volta, e o manteve erguido na frente delas, iluminando o caminho.

- Tia Lolo... - Sem se virar, Lauren a interrompeu.

- Quieta! - Ordem ríspida, grave, brusca. Sussurrada para ser ouvida apenas pela menina. Talita a seguiu bem de perto. Encolheu-se mais ainda, enfiou as mãos nos bolsos, num silêncio que era... Um visível sacrifício. Obviamente, estava ansiosa, querendo fazer milhares de perguntas. Ainda assim, continuou completamente muda. Fazendo Lauren sorrir. Controle. Equilíbrio. Disciplina. Talita precisava compreender que eram coisas imprescindíveis. Pararam em frente a um grande portão de ferro, onde uma janelinha minúscula se abriu. Os dois olhos que surgiram imediatamente perderam o ar desconfiado e sorriram.

- Ora, ora... Lauren! Que bons ventos te trazem aqui? E trazendo companhia?  - O portão se abriu para que entrassem. O par de olhos se materializando na figura de um homem muito sorridente, da altura de Talita. A menina o fitou, absolutamente surpresa. Nunca havia visto um adulto tão pequeno, sequer cogitava a ideia de existir um assim. - Algum problema, menininha?  - Talita abaixou os olhos, envergonhada por estar encarando o que, para ela, era um homem em miniatura, e pediu, quase num sussurro.

 - Desculpa... Lauren interferiu.

- É a primeira vez que ela sai da vila. - A justificativa surtiu o efeito desejado. O homenzinho voltou a sorrir. Talita retribuiu e Lauren os apresentou. - Victor, essa é Talita. Talita, Victor.  - Só depois que os dois apertaram as mãos com uma seriedade que chegava a ser engraçada, Lauren completou. - Vou dar uma volta com ela, mostrar que a vida é mais do que aquele buraco onde vive.

- Ah, sim, sim. Bem vindas ao Mercado Público! - A resposta de Victor foi animada.  E, num aparte para Talita, completou. - E ao mundo! - Lauren estremeceu com a afirmação e seus milhares de sentidos. Afastou os pensamentos negativos apagando o lampião num sopro e o estendeu para Talita.

- Fique sempre perto de mim. É muito fácil se perder aqui. - Antes de prosseguir, Lauren a orientou.  Com os olhos muito arregalados, a menina fez que sim. E só então começou a reparar no lugar que era... Completamente diferente de tudo que já havia visto. Uma grande estufa onde se poderia obter absolutamente tudo: de objetos a seres humanos, assim Lauren o definiria se fosse o tipo de pessoa que perde tempo divagando em busca de definições para as coisas. Para a pequena Talita, era como... Uma maravilhosa e fantástica casa de vidro gigante. Pela primeira vez na vida, não sentia o corpo tiritando de frio. Mais incrível ainda, nunca havia visto tanta claridade junta. Archotes, lampiões, fogueiras, velas maiores que ela... Toda espécie de luz. Algumas que sequer conhecia. Uma curiosa diversidade de pessoas transitava no vai e vem frenético entre as incontáveis barraquinhas. Cheiros conhecidos a envolviam: alho, óleos aromatizantes, animais, frutas, pães... Outros cujos nomes não sabia... Parou ao lado da tia com todos os sentidos num movimento incessante, tentando absorver o maior número de informações possível. Enquanto isso, Lauren tirou as peles do alforje que carregava, e trocou por algumas coisas que precisava, ato que se repetiu em diversos estandes. No último, onde um sem número de frutas coloridas eram exibidas em profusão, quase pôde sentir a boca de Talita se enchendo de água. Por um momento, desejou satisfazer a vontade evidente da menina, mas não. "É preciso entender desde cedo que não podemos nos dar a certos luxos", afirmou mentalmente, como se tentasse convencer a si mesma. Hesitou, coisa rara, inexistente na vida dela, tentada a dar uma das frutas para a criança. Acabou chamando Talita num tom impaciente e irritado de frustração.

- Vamos! - Caminharam mais um pouco. Os passos de Lauren agora tão rápidos que, para acompanhá-la, Talita precisou correr. Ao perceber o esforço da pequenina, parou em frente a um homem suado e sem camisa que martelava um pedaço de ferro incandescente. Quando ele mergulhou o ferro em brasa na terrina de água ao lado, a fumaça chiada fez a menina deixar escapar uma exclamação de deleite.

- Dando uma de babá, Lauren? - Lauren não precisou se virar para saber quem era a autora da frase. A única que ousaria falar assim tão próximo ao ouvido dela. Uma voz muito mais do que conhecida. Portadora de incontáveis, inegáveis, inevitáveis perigos.

- Dinah... - Talita fitou com curiosidade a loira que sorria com o corpo quase grudado no da tia.

- Posso te ajudar, caçadora? - O tom malicioso e provocante fez Lauren rir. E se virar, exatamente como Dinah queria. Olharam juntas para Talita, que ainda as observava. Dinah abaixou, até ficar com os olhos na altura dos da menina, e perguntou. - Quer uma? - Talita fitou as maçãs na cesta que a loira carregava com cobiça. Mas, antes de responder, olhou pedindo permissão para a tia. Quando Lauren assentiu, murmurou um ansioso.

- Sim, por favor. - Dinah sorriu ao ver o prazer com que a maçã foi mordida. E, então, com a menina devidamente distraída, pousou a mão no ombro de Lauren e sussurrou.

- E você? Também quer... Uma maçã? - Imediata e bruscamente, Lauren a afastou.

- Está louca? - Mais do que desconforto, havia receio na voz dela. Dinah olhou em volta, tentando ver se alguém as observava, só então parecendo temer o ato impensado e suas consequências. Reação que fez Lauren murmurar de forma bem mais amena. - Tudo bem. -Ninguém percebeu. Roçou a mão de leve, disfarçadamente na dela. - Seja mais discreta. -Apesar da sutileza do toque, que ilustrava bem o que Lauren estava dizendo, Dinah se derreteu.

- Difícil quando estou perto de você, mas... Vou ser. - A loira então voltou a sorrir e sussurrou baixinho, com o mesmo tom malicioso de antes. - E então? Vai querer... Ou não? - Lauren pesou os prós e os contras. Uma olhada para Talita, mordendo a maçã com o mais puro e ingênuo entusiasmo infantil, fez com que mudasse de ideia. Não ia arriscar a inocência da criança.

- Hoje não. - Determinada a mudar a negativa para um sim, Dinah retrucou.

- Volta depois... Sozinha... E eu te dou... - Deixou a frase propositalmente em suspenso. Lauren não aguentou. Correspondeu com um riso tão rouco e provocante quanto a forma com que falou.

- O quê? - A loira não respondeu. Avaliou Lauren de cima a baixo, com um sorriso insinuante. Passou a língua nos lábios antes de sussurrar.

- Tudo que você quiser, meu amor. – Lauren respirou fundo. Sabendo perfeitamente que nunca, jamais conseguiria resistir ao que a loira oferecia. Não lamentava, mas também não se orgulhava disso. Durante anos havia conseguido evitar, sufocar o que o corpo pedia. Até Dinah surgir, proporcionando... Uma vergonhosa forma de alívio. Breve, fugaz e fugidia. Reprovável, mas, ainda assim, um alívio. Forte o bastante para afastar a culpa de Lauren durante os momentos em que se permitia ceder aos instintos. Apesar de errado, precisava daquilo. Foi esquiva.

- Vou tentar. Mas não prometo. - Dinah suspirou, sem esconder a decepção. Não era, nem de longe, a resposta que esperava. Porém, conhecia Lauren o suficiente para saber quando parar de insistir. Lauren a beijou no rosto, agradeceu a fruta e, sem olhar para trás, afastou-se, seguida de perto por Talita, que, alheia a todo o resto, roía prazerosamente o talo da maçã.

Camila respirou fundo antes de entrar na sala de jantar. Como quem toma coragem para o ritual diário. Não era à toa que, desde criança, adorava ficar doente. Única forma de obter permissão para fazer as refeições no quarto. Não que o ambiente fosse desconfortável. Pelo contrário. O cômodo aquecido, ampla e ricamente iluminado e decorado, regalia de alguns poucos privilegiados, e as criadas servindo a comida muito mais do que farta eram a ostentação daquilo que a maioria das pessoas almejava. E exatamente o que Camila mais abominava. Não compreendia como os pais e a irmã mais nova conseguiam usufruir de tudo aquilo com uma indiferença quase fatigada enquanto na Cidade Baixa... Camila não sabia ao certo, nunca havia estado lá, mas podia imaginar pelo pouco que conseguira juntar das conversas que furtivamente escutava da criadagem. Algo dentro dela rejeitava intensamente todo e qualquer tipo de desigualdade. Sentia-se desconfortável, quase envergonhada de ficar ali sentada à mesa enquanto as criadas de olhos baixos a serviam, sem dar uma palavra. Se pudessem, por um único momento, abandonar a mudez que a suposta inferioridade lhes impunha, o que diriam? O que teriam para reivindicar, questionar, acrescentar? Ou realmente seriam como o pai costumava constantemente declarar “ Quase irracionais”. No fundo, por mais que Camila se esforçasse em afastar qualquer forma de pensamento elitista, separatista ou preconceituoso, era muito difícil se livrar das rígidas estruturas moldadas em seu inconsciente desde a infância. Para ela, a ideia de alguém que nunca houvesse aberto um livro era... Uma grande tristeza. Um imenso infortúnio.


Notas Finais


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