História A Vila - Capítulo 3


Escrita por: ~

Postado
Categorias Fifth Harmony
Personagens Ally Brooke, Camila Cabello, Dinah Jane Hansen, Lauren Jauregui, Normani Hamilton
Exibições 96
Palavras 2.463
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Romance e Novela, Suspense, Terror e Horror
Avisos: Estupro, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Nudez, Sexo, Tortura, Transsexualidade, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


Boa noite, como estão vocês? Como passaram o feriado? Abraço, e boa leitura!

Capítulo 3 - Camuflagens


Apesar de estar cansada de saber que as empregadas, assim como todos os outros moradores da Cidade Baixa, sequer sabiam ler. Lembrava-se da reação de Alicia, anos antes, quando havia se oferecido para ensiná-la. Misto de desprezo, indignação e raiva. Como se tivesse proposto algo... Imoral. Leis que Camila simplesmente não entendia, nem conseguia aceitar. Como alguém poderia decidir quem tinha permissão para aprender a ler ou não? Mais absurdo ainda era o fato de os poucos que podiam ler terem o tipo de leitura regulado de acordo com a família, posição social e função. Por que proibir qualquer tipo de leitura que não fosse didática ou científica? Camila não sabia. Não havia explicação. Uma única vez tivera coragem de perguntar. Jamais esqueceria o horror causado pelo questionamento, muito menos a resposta quase gritada do pai, depois de tê-la calado com uma bofetada no rosto forte o suficiente para que dos olhos, ainda pequenos, brotassem lágrimas.

- Nunca mais fale ou pense sobre isso! Entendeu, Camila? - A mãe, em meio ao quase desmaio que sempre a acometia quando algo a aborrecia, sussurrando para o marido com a falta de ar dramática.

- O que eu fiz de errado? A culpa é minha? - O pai correndo, pegando a mulher nos braços e a acalmando.

- Calma, custe o que custar, eu corrijo essa menina! - Fizeram com que Camila se arrependesse e aprendesse a não expor o que realmente tinha por dentro. A partir daquele momento, passou a simular, camuflar, esconder todo e qualquer questionamento. No entanto, não se rendeu. Recusando-se a seguir, mesmo que em segredo as regras estabelecidas. Os livros clandestinos debaixo do assoalho do quarto eram a única forma de alívio que conhecia. Era relativamente fácil consegui-los. Por sorte, o velho barbado de roupas muito surradas que cuidava da estufa de flores da mãe os trocava por coisas que Camila surrupiava e que para ela pareciam sem valor e triviais: roupas, comida, sapatos, cobertores, utensílios de casa. Para o velho, objetos inestimáveis. Essenciais. Ainda assim, evidente era o pesar com que ele se separava dos livros. Acariciando as capas surradas com um olhar nostálgico e perdido, sempre repetindo. - Eram do meu pai.

Os pensamentos de Camila foram interrompidos pela entrada de Alícia carregando uma bandeja com quatro taças. O encanto que a simples presença dela surtia a impedindo de perceber que não era comum tomarem champanhe no almoço. Quando deu por si, o pai estava sorrindo para ela, a taça erguida.

- Um brinde! - Não precisou pronunciar uma palavra para que a mãe percebesse que não havia entendido.

- Camila! Não ouviu nada do que seu pai disse? – Questionou a mãe dela.

Camila continuou em silêncio. A irmã deixou escapar uma risada alta, imediatamente inibida pelo olhar de reprovação do pai, segundos antes de voltar a atenção para a filha mais velha.

 - Camila... Às vezes chego a me perguntar se você não é autista. Será possível que...

- Alejandro! - A esposa o cortou. Não para defender a filha, e sim... Para resolver logo aquilo. Já estava começando a sofrer com as primeiras pontadas da enxaqueca crônica. O pai então pronunciou as palavras que Camila mais temia. Piores do que uma sentença de morte.

 - Seu casamento está acertado. Em menos de quarenta e oito horas você será a senhora Filipe Grimberg. Parabéns, filha! - Pela primeira vez na vida, Camila sentiu um forte ímpeto de reagir. Difícil, quase impossível, sufocá-lo como estava tão habituada a fazer. Mas conseguiu. Perfeitamente ciente de que não havia outra opção. Nada além de aceitar o que os pais tinham decidido: Filipe Grimberg, filho do homem mais poderoso da cidade vizinha. Casamento combinado desde que Camila havia nascido. Percebeu que, no fundo, nutria a esperança de... De quê? Desfazer um acordo de casamento era algo que nunca, jamais havia acontecido. - Um brinde! À prosperidade, felicidade e sucesso de nossa família! - A união indesejada significava para ela algo totalmente contrário. O fim do pouco que apreciava e possuía. Privacidade, livros e a perda mais profunda de todas: Alícia. Completamente desestruturada com a notícia, a mão trêmula que estendeu para pegar a taça foi a mesma que a derrubou. Alícia se aproximou e limpou a toalha de mesa com uma prontidão incrível. Por um breve momento, os olhos cruzaram com os de Camila, deixando entrever um brilho... Levemente triste. Seria possível? Ou estaria interpretando errado, vendo o que gostaria? Antes que Camila pudesse chegar a uma conclusão, Alícia pegou o último caco de vidro e desapareceu com a mesma rapidez com que havia surgido. - E então? Está feliz?  

- Sim. - Respondeu à pergunta do pai da melhor forma possível. Foi a mãe quem pronunciou as palavras que tornaram verdadeira a afirmativa.

- Pode escolher uma das criadas para levar com você, filha. - Com um sorriso que deixou os pais muito mais do que satisfeitos afinal, nem imaginavam o motivo verdadeiro, não hesitou, saboreou quando disse.

- Alícia.

Talita encerrou empolgadíssima.

- E, depois, a amiga da tia Lolo me deu uma maçã inteirinha.

- Talita, você sabe muito bem que não deve mentir! - Gustavo foi firme, mas gentil. Já Nívia puxou a orelha da menina. Talita gritou, entre gemidos.

- Ai! Juro que é verdade! Ai! Ai! Eu não tô mentindo! - Nesse momento, Lauren entrou na cozinha. Nívia continuou, olhando diretamente para a prima.

- Ninguém sai dando maçãs de graça por aí! - Lauren foi obrigada a interferir. Incapaz de deixar Talita sofrer por algo que não era absolutamente culpa dela.

- Não foi de graça. Dinah tinha uma dívida comigo. - Sentou-se à mesa, tirou uma faca do cinto e começou a afiar as flechas, deixando claro que o assunto estava encerrado. Gustavo e Nívia se entreolharam. Talita voltou a gemer, para lembrar que ainda continuava presa pela orelha. Depois de um último puxão, Nívia soltou a menina. Assim que se viu livre, a menina correu para bem longe dali.

- Que tipo de dívida, Lauren? Será que eu posso saber? - Nívia aproximando-se da mesa, perguntou aparentemente, não havia nada de mais na pergunta. Apenas o interesse natural que qualquer outro membro da família teria. Entretanto, Lauren sabia que existia muito mais por trás da curiosidade de Nívia. Respondeu sem parar o que estava fazendo, de forma bastante agressiva.

- O que você tem a ver com isso? - Nívia contestou num tom acima.

- Coisa boa não é, para você ficar tão na defensiva... - Ainda sem olhar para a prima, Lauren replicou.

- Meta-se com a sua vida! - Gustavo puxou a esposa pelo braço, evitando que ela continuasse a discussão. Muito a contragosto, Nívia saiu da cozinha com o marido. Lauren se deixou ficar com o olhar parado, milhares de lembranças dolorosas, mágoas subcutâneas a distraindo. O momento de ausência lhe custou um corte. Num reflexo, atirou a faca na mesa. Não gemeu, nem emitiu um ruído. Apenas xingou. - Merda! - Antes de levar o dedo indicador à boca para estancar o sangue do ferimento.

Lauren acordou cedo sabia pelas quatro badaladas do sino da Casa do Senhor e, num salto, levantou da cama. Partiu sozinha em direção ao campo Leste. O sangue fervendo, todos os sentidos aguçados e prontos. Sentada na boleia da carroça, fez o cavalo imprimir um trote rápido durante um bom tempo. Quando parou, amarrou o animal, tirou os sapatos, meias e roupas e se afastou. Inteiramente despida, levando algumas flechas, um embornal e o cantil pendurados nos ombros e nas mãos o arco e o candeeiro. Caminhou de olhos fechados, usando outro tipo de visão. As narinas a guiando, virando-a lentamente de um lado para o outro, procurando. Ao chegar ao local que os sentidos tinham farejado, colocou o candeeiro e o arco no chão e ajoelhou. Regou as mãos com a água gelada do cantil e as esfregou na terra, produzindo uma umidade pastosa que passou no cabelo, no rosto e no corpo. Milimetricamente encobrindo a respiração dos poros. Os gestos precisos preenchidos por uma energia ritualística que aumentava conforme a lama arenosa ia lhe tingindo e arranhando a pele, criando a perda de subjetividade que a camuflava ao chão. Quando terminou, apagou o candeeiro e esperou, com uma flecha pronta no arco. Parada ali imóvel, durante um tempo sem contagem além da própria pulsação, sentiu o silêncio deixar de ser quebrado apenas pelo vento. Com os ouvidos, percebeu os ruídos se aproximarem e, junto com o som, o cheiro de cascos, chifres e pelos. Intuiu o alvo de um jeito além de qualquer tipo de cálculo e compreensão. E, como sempre que atirava, acertou. Ainda ajoelhada de olhos fechados, Lauren levantou os braços e deixou escapar um grito satisfeito de comemoração. Esperou que a respiração e as batidas do coração estabelecessem o ritmo normal antes de voltar a acender o candeeiro. Iluminou o caminho em direção ao animal abatido. Tirou a faca da cintura e a enfiou no ventre do bicho. A sensação de pele, músculos e carne rasgando sob as mãos dela despertando um prazer gutural e primitivo que afastou. Retirou as entranhas da caça para fora e atirou-as – ainda quentes e pingando para distrair os predadores que por acaso se aproximassem antes que ela terminasse, atraídos pelo forte cheiro de sangue. Tudo, menos o coração. Este ela ficou segurando, até sentir o calor e as pulsações se extinguirem na mão. Vida que aos poucos se aquietou, como se soubesse que aquilo não era um fim, mas um novo existir na sobrevivência de outros. Respeitosamente, Lauren guardou o órgão adormecido no alforje que trazia junto ao peito. Quando mais tarde o consumisse, deixaria de estar totalmente morto. Depois, com movimentos rápidos e ágeis, retirou a pele do animal, e a enrolou. Cortou a carne em pedaços grandes que imediatamente salgou e deixou a carcaça já repleta de moscas. Depositou tudo na parte de trás da carroça, lavou-se, vestiu-se toda, jogou no chão o resto de água que sobrou no balde e então... Ouviu um barulho não muito longe. Invasor do local ermo e distante. Nada natural. Assustador, destruidor e estranho. Ruídos que alertavam para a presença do mais perigoso de todos os animais: o homem. O primeiro impulso que teve foi partir na direção contrária, mas não era o tipo de pessoa capaz de negar ajuda, muito menos omitir socorro quando alguém estava precisando. Com o candeeiro em uma das mãos e o arco na outra, correu guiada apenas pela audição.

Dualidade. Camila começava a entender a palavra em seu verdadeiro sentido. Alternando entre pesar e felicidade extremos. O balanço da carruagem fazendo com que a perna dela sem querer esbarrasse na de Alícia. Sem decifrar o que o olhar da mulher sentada ao seu lado realmente continha. Alícia havia aceitado a proposta de servi-la na nova casa de imediato. Isso a mãe havia garantido. Mas, desde que tinham saído e já estavam há mais de quatro horas na estrada, não havia pronunciado uma palavra sequer. Não que Alícia fosse de falar muito. Mesmo na infância, quando ainda eram íntimas, tinha uma economia de palavras tímida. Mas Camila esperava que, por estarem novamente sozinhas e juntas, em direção a um lugar desconhecido... Deixou escapar um suspiro audível.

- Algum problema, senhorita? Deseja alguma coisa? - Alícia perguntou. Envergonhada, Camila fez que não com a cabeça. Precisava aproveitar. Dizer alguma coisa. Diversas vezes tomou coragem. Molhou os lábios, chegou a abri-los, mas o nervosismo impossibilitou a emissão de som. Quando finalmente juntou forças e certezas suficientes para conseguir, ouviu o cocheiro gritar, estalando o chicote, acelerando a ponto de lançá-las com força contra o banco. Alícia perguntou, parecendo sinceramente preocupada. - A senhorita está bem? Não se machucou? Antes que Camila pudesse dar a resposta, um dos homens que cavalgavam escoltando-as gritou pela janela.

- Fiquem abaixadas! - Com a ajuda de Alícia, Camila obedeceu. E então, uma grande confusão. Ruídos que ela não conseguiu reconhecer. Sentiu o corpo de Alícia muito próximo, o hálito dela no rosto, sussurrando a materialização de um sonho.

- Dispa-se! - Sem conseguir acreditar, achando que não havia escutado direito, perguntou atônita.

- O quê?

- Vamos trocar de roupa. Para que não reconheçam a senhorita caso nos alcancem. Sem esperar resposta, ajudou Camila a livrar-se do que estava vestindo e a colocar o uniforme de criada. Só então se vestiu. Camila estranhou a aspereza do tecido. Em nada parecida com a leveza e maciez dos que estava acostumada a usar. Mal teve tempo de aspirar o aroma da outra, inebriada por tê-lo contra o corpo, e a porta se abriu. Dois homens estranhos um de bigode e o outro com uma cicatriz assustadora no rosto iluminaram o interior da carruagem. Camila viu com espanto Alícia empunhar uma faca e ameaçar os invasores.

- Nos deixem em paz! Depois de uma gargalhada rouca, o bigodudo exclamou.

- Ora, ora... A riquinha é brava, Armando!

- Eu não estou brincando! - Alícia não se intimidou. Foi tudo muito rápido. Muitas e muitas vezes depois, Camila tentou descobrir o que poderia ter feito para mudar o que se seguiu, sem nunca chegar a uma conclusão. Alícia saltou sobre o homem da cicatriz, brandindo a faca no ar. O outro gritou, enquanto um tiro o derrubava. Com um movimento rápido, o da cicatriz segurou o pulso de Alícia e enfiou a lâmina no peito dela, que caiu de costas no chão. Depois falou para Camila.

- Diga para o pai da riquinha que isso é apenas um aviso. Com os cumprimentos de Bevilhaqua. - Gritou em direção ao breu que os circundava. - Está feito. Vamos! - Depois que o homem se afastou, desaparecendo na escuridão, Camila saiu da imobilidade em que estava. De joelhos, tateando, aproximou-se de Alícia. Suspendeu a cabeça dela e a pousou no seu colo. Colocou a mão sobre os lábios macios, o ar quente confirmando que ela ainda respirava. Às cegas, o peito ardendo como se fosse nele a facada, só percebeu que as lágrimas caíam dos olhos molhando o rosto de Alícia quando ela sussurrou, com muito esforço, a voz assustadoramente fraca.

- Não chora... Por favor...

- Alícia... Alícia...- Entre os soluços que lhe tomaram a garganta, a única coisa que conseguiu balbuciar foi o nome da amada. O silêncio que se seguiu foi quebrado pelo facho de luz que a ofuscou. Forçando a vista para vencer a cegueira que a claridade repentina causou, Camila conseguiu enxergar os olhos abertos de Alícia parados. Reflexos vazios do nada. Um desespero insuportável a dominou. Sequer reparou a mulher que, do lado de fora, segurando um candeeiro numa das mãos e um arco na outra, testemunhou o primitivo, animalesco urro de dor que soltou. 


Notas Finais


OBRIGADA PELOS FAVORITOS E COMENTÁRIOS!!!


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...