História A Viúva de Salisbury. - Capítulo 5


Escrita por: ~

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Categorias Originais
Exibições 18
Palavras 7.865
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), Fantasia, Hentai, Magia, Mistério, Sobrenatural, Suspense, Terror e Horror
Avisos: Heterossexualidade, Linguagem Imprópria, Mutilação, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Oi gente :)
Vocês ainda se lembram dessa história? huehuehue
Não atualizei durante todo esse tempo por uma única razão: Não sabia se deveria continuar.
Desde a minha primeira história, a única coisa que eu queria enquanto escritora era compartilhar os pequenos universos que eu criava. Mesmo que ninguém comentasse, o que não era raro, eu continuei.
Mas, desde BTI acho que me acostumei a ver em uma escala maior que eu gostava de saber a opinião de quem acompanhava meu trabalho e quando não o vejo, não vou esconder que me entristece um pouco. Mas, eu sou teimosa e não vou desistir da minha criação! Se eu desistir, por que iria querer que vocês continuassem gostando dela por mim? Não, isso não tem o menor sentido. Defenderei toda e qualquer criação minha porque eu não sou só a autora de BTI u.u

Espero que gostem e me desculpem pelo desabafo XD

Capítulo 5 - A Capela dos Três Sinos.


“Era hora de ver por mim mesmo o que o coveiro e o padre tanto temiam. Era hora de acordar os demônios de Salisbury.”

Eu estava imóvel diante do casarão. O vento uivava contra o terreno, balançando a copa das poucas árvores que ali estavam. O motor da moto estalava, resfolegando pelo esforço da subida. O capacete em minha mão, assim como a pesada mochila nas costas já não pareciam ter peso algum; nada era maior e nem mais imponente do que aquele casarão. Era uma construção magnífica pela rusticidade que tinha e, ao mesmo tempo, a delicadeza de seus detalhes. Tinha dois andares, com todas as janelas voltadas para norte, para nós; sua pintura há muito tinha sido desgastada e agora só se via um pálido cor-de-rosa empoeirado, com manchas de bolor e umidade no primeiro andar, bem diferente do rose vívido ao redor das janelas do andar superior. Ao sul havia uma dezena de rudimentares construções e a maioria delas não passava de ruínas; o vento entrava pelas janelas quebradas, fazendo a porta apodrecida balançar e jogar contra nós o cheiro putrefato. Via-se aqui e ali resquícios de uma escadaria bem trabalhada, assim como as ruínas de uma fonte. Devia ser o lugar mais lindo e agradável da cidade em seus tempos áureos.

-É grande, não é? – Scott assuntou, deixando a moto e o capacete. Eu estava embasbacado com aquele cenário, imaginando como uma criança o que poderia criar ali.

-É maravilhoso. – saquei o celular do bolso e mesmo trêmulo, me esforcei para tirar a melhor foto possível.

Angelina iria adorar aquele lugar; o único resquício de sua adolescência gótica era o gosto por casarões antigos e abandonados. Tentei lhe enviar a foto, mas não havia sinal algum naquele lugar, o que era um tanto estranho, visto que estávamos no alto.

-Seu celular tem sinal? – indaguei Scott. Ele espiou o aparelho dentro da jaqueta e balançou a cabeça.

-Sequer um pontinho, só chamadas de emergência. – respondeu.

-Estranho. – resmunguei.

-Esse lugar é mal assombrado, a última coisa que vai conseguir é pedir socorro. Se quer mesmo saber, acho que deveríamos entrar, olhar, e dar o fora, ou melhor, dar o fora sem nem olhar. – sugeriu. Sua pose de machão se dissolveu claramente naquele casarão.

-Não seja idiota, estou te pagando por isso. – embora você não saiba que estou te enganando. – É só uma noite, nada mais. – me ajoelhei nas ruínas da escadaria, tirando folhas secas dos degraus para fotografar. Eu queria documentar tudo, fundamentar a minha história naquele cenário tão horripilante quanto inspirador.

Fui tomado por diferentes sensações naquele momento. Havia o sentimento de euforia e o frio da minha mórbida curiosidade, de repente haviam folhas e mais folhas ao meu redor, subindo em suaves espirais; o vento trazia o cheiro de chuva e eu nunca estivera tão em paz com tudo. Chegar à mansão Bayel era para mim, um pseudo escritor ávido por uma boa história, como chegar a um lugar bem próximo ao paraíso. Um paraíso mal assombrado.

-Enquanto você contempla o seu solo sagrado aí, eu vou arranjar um lugar para passar a noite, vai chover caso não tenha notado. – Scott pendurou nossos capacetes no guidão e ligou a Dayvision apenas para facilitar enquanto a empurrava na direção do casarão.

Alguns relâmpagos iluminavam o céu atrás da mansão de vez em quando, rompendo o silêncio de qualquer atividade humana, e disputando espaço com a ventania. Eu já sentia o cheiro de terra molhada e tinha os joelhos imundos quando resolvi me levantar. Scott já tinha sumido há muito e eu não duvidava que tivesse tomado o caminho de volta a Salisbury.

Avancei pela propriedade, só então finalmente notando que esse tempo todo eu sequer passara do que outrora foram seus portões, agora certamente dissolvidos pela ação do tempo; a cada passo, meus tênis eram engolidos pela vegetação que crescia mais e mais conforme eu me aproximava do casarão, assemelhavam-se a silenciosos e exóticos guardiões de um tesouro amaldiçoado.

Parei diante da porta. Estava fechada, logo, Scott não podia ter entrado por ali. Um arrepio desceu rapidamente por minhas costas e isso era ótimo, enriqueceria minha narrativa descrever minhas próprias sensações. Observei o perímetro da casa até onde minha visão permitia; só haviam janelas quebradas e outras nem tanto, para a esquerda ou direita, para cima ou ao nível dos olhos, só a grande sombra do casarão. Algo lá em cima... algo me chamou a atenção, algo indistinto e mediano; parecia-se com um grande pássaro ou um gato desajeitado, esguio e esvoaçante, como asas ou uma roupa volumosa. Apertei a visão e desejei ter alguns graus a mais naqueles óculos para tentar ver; mais um relâmpago iluminou aqueles morros e por um momento, fosse aquilo o que fosse, parecia vir direto em minha direção. Meus pés se moveram para trás sem que eu conseguisse saber, até bater em alguma coisa.

-Não me ouviu chamar, Peter Parker? – Scott dissera, iluminando-me com a lanterna, como se faz em acampamentos. Olhei-o por um segundo, apenas o suficiente para saber que era ele e quando voltei os olhos para o topo do casarão, a tal coisa tinha sumido tal qual aparecera.

-Desculpa, eu estava distraído. – rebati. Ele fez uma careta de desdém.

-Estava dizendo que jamais vai conseguir entrar por aí – ele caminhava para dar a volta na mansão conforme falava. -, essa porta está trancada desde sempre. Há uma porta do outro lado, provavelmente era a da área de serviço, precisei arrombar, mas acho que não serei assombrado por isso.

Segui-o silencioso até a tal porta, tomando nota silenciosamente do susto que acabara de levar. Se a mansão Bayel era mesmo mal assombrada, não fazia lá muita questão de esconder.

A porta tinha pedaços podres nos quais se via os caminhos de cupins que a devoraram. Scott passou por cima de alguns deles com um único pulo e eu o acompanhei, procurando por minha lanterna enquanto ele esquadrinhava o cômodo.

-Parece o lugar mais seguro, especialmente porque não tem mais porta. Deus me livre ficar preso nesse lugar. – ele murmurava, chutando mais pedaços de qualquer coisa e cacos de vidro.

Quando encontrei minha lanterna, deixara de ser tão dependente; o cheiro de mofo tomou conta parecendo se levantar do chão e das paredes com a luminosidade da lanterna; por onde aquele feixe de luz passava, as partículas de pó subiam rodopiando.

Uma das primeiras coisas que vi foi que Scott botara a Dayvision para dentro também. Aquela moto parecia o único bem dele, por isso todo o cuidado, visto que ali a chuva era mais temida do que qualquer roubo.

Aos poucos nós nos distanciamos, posso até dizer que dividimos as tarefas, pois, enquanto Scott se ocupava de questões realmente importantes como, por exemplo, deixar o lugar suficientemente confortável para podermos dormir, ao passo em que eu, somente com o auxílio da lanterna, me ocupei em explorar os demais cômodos e muito provavelmente, tamanho o silêncio que eu fazia, ele nem sequer percebeu que me afastei – estava ocupado demais tirando os entulhos de um lugar surpreendentemente seco e protegido.

Avancei, então, por uma porta da qual somente a armação de batentes restava. A passagem dava acesso a uma espécie de saleta, que parecia mais um corredor intermediário entre a área de serviço e a sala de estar, ou poderia ser confundida com um erro de arquitetura, e não levava a lugar algum. Escolhi prosseguir para a esquerda. Iluminei cada centímetro que pude e só ficava mais fascinado; em contraste com a aparência extremamente castigada e arruinada, estavam as paredes com sua pintura e papéis de parede quase intactos.

-Isso é maravilhoso. – eu sussurrei feito um retardado mental, passando a mão na parede. Debaixo da camada de pó, estavam delicadas rosas em tons pastéis e até onde a luz da lanterna alcançava, não havia nada que perturbasse tal padrão.

Segui, correndo os dedos pelo papel, notando como a parede era espessa, um verdadeiro forte, preparado para canhões. A certa altura, quando meus dedos já estavam completamente negros e o cheiro de pó instigava minha asma, o padrão finalmente mudou; o papel encheu-se de emendas e as paredes tinham um som oco, muito semelhante aos ecos de um fundo falso. Subia as mãos até onde pude, sentindo o mesmo vazio atrás daquela barreira. Bati em algumas dezenas de sedimentos que encheram meus olhos; seu breve contato fez meus olhos arderem de um jeito enlouquecedor, mas minha teimosia em tentar descobrir o que tinha naquela parede me fez prosseguir. Soquei-a novamente. Mais sedimentos voaram em meus olhos; recuei alguns passos por reflexo, deixando a lanterna cair ao esfregar os olhos. A coceira era alucinante, mas eu ainda ouvia o estalar da madeira... e não era do chão.

De repente um estrondo e o pouco que eu enxergava ficou coberto de poeira e com um cheiro horrível de madeira apodrecida; ventou muito mais forte do que antes e pesadas gotas de chuva chicoteavam contra o meu rosto. Com os olhos irritados e com dificuldade para respirar por conta da poeira, eu me vi andando em círculos, completamente desorientado; o estalido da madeira continuava, parecendo estar logo acima da minha cabeça. Eles continuavam em um crescendo, parecendo correr pelo telhado e pelas paredes.

-Perry! – ouvi a voz de Scott em algum lugar próximo, em seguida, fui puxado com violência para longe dos estalos e poeira. Em seguida, mais um estrondo que estremeceu o chão. Longe do alcance de tudo que me fazia mal aos sentidos, percebi que realmente chovia ali dentro. – Se quer se matar, me avisa antes ou me paga, esquisito. – ralhou. – É só uma maldita noite, será que dá para me deixar inteiro? – esfreguei os olhos enquanto ele falava e desejei ter mais duas mãos para proteger os ouvidos de seus gritos.

Olhei ao redor quando pude.

-Isso é um desastre. – lamentei.

-Desastre? Eu chamo de grande cagada! – Scott completou, sádico. – Sério, é melhor tomar cuidado ou vai entrar pro time dos fantasmas daqui. – alertou, retornando ao cômodo pelo qual entramos. Eu permaneci, observando o cenário de destruição.

Checar a consistência da parede oca não fora uma boa ideia, especialmente em uma construção tão antiga. Parte do telhado tinha cedido, trazendo para baixo um madeiramento todo comido por pragas, pedaços de reboco e mais alguns entulhos. Chovia lá dentro realmente e debaixo de toda aquela pilha de destroços, minha lanterna estava estraçalhada – e eu também estaria se não fosse por Scott.

Ironia eu perturbar a paz e a estrutura daquele lugar, logo eu que precisava tanto dele! Não me esforcei pensando em quais partes do telhado estariam tão comprometidas, tão velhas que até mesmo eu as trazia abaixo. Fui até onde Scott estava, afinal, não iria muito longe sem minha lanterna. Ele arrumava dois sacos de dormir com certa distância, mas ainda sim, suficientemente próximos; colocou minha mochila na acomodação da esquerda e quando ali apareci, estava sofrendo, suando e praguejando, tentando reajustar o que sobrara da porta.

-Precisa de ajuda? – ofereci, aproximando-me. Ele nem se deu ao trabalho de responder, simplesmente jogou parte do peso da porta em mim. O impacto me fez recuar e grunhir e Scott achou graça. – Quero ver se vai achar engraçado quando se deparar com uma das almas penadas. – provoquei; seu sorriso, a única coisa debochada e branca na escuridão, se escondeu.

-Me ajude logo com isso e cale essa boca. – ralhou, empurrando a porta em minha direção. – Precisa levantá-la um pouco, senão ela cai no primeiro pé de vento, Peter Parker. – instruiu.

-Meu nome não é Peter Parker, idiota. – devolvi, usando toda a força dos meus braços franzinos para forçar a porta contra o batente como ele fazia.

-Não preciso me lembrar do seu nome, só não posso me esquecer da grana. – assim que colocamos a porta no lugar, Scott forçou seu corpo contra a mesma para firmá-la. – Mais protegidos que isso, só se tivesse deixado o telhado inteiro. -zombou, apanhando a lanterna em sua cintura. A chuva lá fora tinha se transformado já em uma garoa insistente, que não diminuía minha culpa por ter destruído o patrimônio alheio. – Uma casa velha pode desabar a qualquer momento, sabia?

Nos dirigimos para nossos sacos de dormir.

-Aquela parede estava oca. – eu disse, sentando-me.

-Material porcaria. – respondeu com desdém, também sentando-se e apanhando sua mochila.

-Estou te dizendo que a parede estava oca, como se tivesse um fundo falso, entendeu? – ele fixou o olhar em mim por um segundo e depois baixou-o para a mochila em seu colo.

-Realmente acha que pode tirar algum proveito desse lugar? – retrucou, pela primeira vez parecendo sério.

-Tenho certeza, é por isso que estamos aqui. – respondi, procurando por minha bombinha. Mesmo o pior já tendo passado, ainda era um pouco difícil de respirar. Usei-a, como um viciado que traga o seu cigarro. Scott sorriu, mas não em tom de deboche, parecia estar se lembrando de alguma coisa.

-Então, como irá fazer? Vai simplesmente armar câmeras em pontos estratégicos e aguardar que capturem algum ectoplasma? – fitei-o sério. Inteligência não era o seu forte.

-Eu não sei se deixei meus objetivos claros, mas vou tornar a explicar: não sou um caçador de fantasmas, meu caro, sou um escritor. – dissera com tanta confiança que até mesmo Angelina ficaria surpresa. – Meu primeiro passo é saber mais sobre esse lugar e  para isso vou sim passar a noite em claro vagando pelo casarão, reparando em coisas que pessoas como você não dão a mínima importância.

-OK. – ele deu de ombros, abrindo sua mochila e tirando uma garrafa de uísque de lá. – Acho que essa é a hora de saber exatamente onde você está. – Scott destampou a garrafa e deu um longo gole, exatamente como faziam os bêbados de Southampton na noite em que ouvi o nome Bayel pela primeira vez.

Era exatamente aquilo que estivera procurando. Histórias! Dizeres! Lendas! Tudo o que faria de mim alguém notável para Angelina.

-Pois bem, está esperando o que para começar? – apressei-o, fuçando a mochila em busca do gravador.

-Calma, ainda não estou bêbado o suficiente. Relaxa, Peter Parker. – ele se encostou na parede, dando longos e ruidosos goles no uísque. Permaneci encarando-o, duvidando que ele soubesse mesmo de alguma coisa ou se era só alucinação de bêbado.

Scott levou cerca de cinco minutos para tirar a garrafa da boca, como um bebê esganado que mamava. Ele me olhou com o olhar já visivelmente afetado pelo álcool.

-Eu ouço falar desse lugar desde que tinha três anos. – começou, finalmente. A memória do gravador rodava mais rápido que suas palavras. – Acho que até mesmo na barriga da bastarda da minha mãe. Sabia que minha mãe era uma prostituta e meu pai, o namorado drogado dela, me ensinou a roubar com seis anos?

-Não estou interessado na sua vida. – cortei-o imediatamente e o tom grosseiro era proposital. Ele curvou os lábios, ofendido.

-OK, você quem sabe, só estava tentando tornar as coisas melhores. – ele se ajeitou e tomou mais um gole. – Ninguém na cidade gosta muito de falar sobre essa casa, é um lugar realmente amaldiçoado e dizem ser assim desde que foi construída há mais de 150 anos. – mais um gole acompanhado de careta. – Minha avó, que foi quem me trouxe aqui quando tinha dez anos, costumava dizer que esse lugar estava a um passo do inferno e que qualquer um que aqui pisasse, também iria. Acho que é por isso que eu voltei. – ele sorriu sem graça.

-Se é como sua avó dizia, por que veio?

-Isso é uma coisa interessante a se contar, meu caro! – sua voz se embrulhou de tal forma que mais parecia uma fita retrocedendo. – Minha avó tinha certas, hum, habilidades. Além de me criar enquanto meu pai e minha mãe se matavam de cheirar pó e me botar na droga da faculdade, ela era o que as pessoas chamavam de paranormal. Ela conversava com os mortos, especificamente as vítimas de crimes brutais e mortes prematuras. – deixei-o continuar apesar de pouco estar falando sobre a mansão, pois, poderia me ajudar a construir a personalidade dos meus personagens. – Eu descobri esse dom dela quando tinha oito anos, quando a vi parada no altar da catedral, logo depois da missa de domingo, dizendo que o antigo padre, morto esfaqueado na missa de sétimo dia de um sujeito alguns anos antes, estava ali.

-Podiam dizer que ela era louca. – ele balançou a cabeça em negativa.

-Não, não a minha avó. As pessoas a conheciam e eu sabia que era verdade porque por muitos anos, eu também os via. Nunca disse isso a ninguém, mas ela conseguia sentir isso em mim. Só não os vejo quando estou bêbado demais, eis a justificativa. – ele ergueu a garrafa e deu mais um gole.

Um arrepio desceu por minhas costas. Quais as chances reais de estar em um lugar assombrado com um paranormal? Era interessante demais para que eu voltasse a interromper. Scott continuou.

“Quando minha avó me trouxe aqui, a cidade toda movia céus e terras para achar William Shane, um garoto problemático e retardado que vivia querendo se matar. Minha avó sempre disse que havia algo sombrio sobre os ombros daquele garoto para que chegasse a viver mais do que os dezenove anos que viveu. O corpo nunca foi entregue a família, muito embora tenham sido avisados por minha avó, e ninguém duvidada daquela mulher. Lembro que ela me acordou no meio daquela noite e disse: Venha, meu pequeno, nós temos um importante trabalho a fazer, por favor, não fique com medo.

Encontramos William aqui, ou melhor, o que restou dele. Ao sul da propriedade há uma série de pequenas casas onde moravam os empregados dos Bayel e atrás delas, próxima ao pomar, há uma capela conhecida como a Capela dos Três Sinos. Shane estava lá, com parte do pescoço arrancado e de olhos abertos há pelo menos três dias. O sangue estava seco e as moscas saíam de sua boca. Deus, ele fedia tanto que eu mal podia suportar! A imagem da minha avó arrastando-o para uma das casas nunca saiu da minha cabeça; ela sempre carregava um isqueiro, hábito que conservou depois que parou de fumar quando nasci e, então, ateou fogo ao pobre Will e disse mais uma vez que eu precisava ser forte e que nunca mais pisaria neste lugar. Eu prometi, e estava cumprindo até hoje. Dizem que se você passa aqui ao entardecer, ouve os gritos de William e o soar dos três sinos. Shane morreu por causas desconhecidas para a maioria, mas para a minha avó, que sabia que aquilo não era fruto de suicídio, era a maldição dos Bayel.

Em meados do século XVIII, eles eram as pessoas mais ricas de Salibsury, tinham muitas terras em toda a província e algumas propriedades em Londres. Viviam do comércio de perfumes, jóias e produções de algodão e vinho. Não se sabe muito bem de onde vieram, mas costumam deixar bem evidente o poder que tinham. Eurídice e Lázaro eram seus nomes; vieram do nada e construíram seu império, mas diz-se que especialmente este último tinha hábitos muito estranhos. Conta-se que ordenava a todos os empregados para que jamais o procurassem antes do pôr do sol. Ele e Eurídice não costumavam ser piedosos com os desobedientes e no período de um mês, seis de seus empregados sumiram sem deixar rastros. Não eram raras naquela época as notícias de desaparecimentos sem explicações e corpos encontrados mutilados no pescoço. A cidade se transformara no período de um ano, em uma banheira de sangue; ninguém se atrevia a passar por aqui com medo de morrer. Chegaram a acusá-los das coisas mais absurdas, até mesmo de bruxaria, mas Eurídice e Lázaro não permitiram que aquilo fosse levado adiante; no dia seguinte à acusação, três chefes do movimento estavam crucificados na praça central com todas as veias abertas. A cidade lhes pertencia daquele dia em diante e nem poderia lutar contra isso porque ninguém sabia quem ou o que eram.

Nunca foram vistos a luz do dia, eram nada mais que descrições de pessoas assustadas e fofoqueiras. A verdade é que ninguém que possa tê-los visto, sobreviveu. Alguns anos depois, Lázaro se casou com Natasha e Eurídice com Joseph White, seu pai. Depois dos Bayel, a família White era a mais rica, dona de vários negócios na capital e respeitados produtores de bebidas; estavam no exterior enquanto os Bayel mergulhavam a cidade em terror e quando retornaram, quase não acreditaram na cidade completamente devastada. Dizem que Lázaro e Eurídice conheceram os White na festa de aniversário da cidade. Natasha foi acompanhada por Lázaro por cerca de três anos, até que se tornasse suficientemente adulta e ele pudesse desposá-la, foi tempo suficiente para que a cidade se reerguesse; nestes anos o inferno saiu de Salisbury e recaiu sobre os White.

Gwen, a mãe de Natasha, morreu em alguns meses. Era uma mulher saudável até que Lázaro e Eurídice começassem a frequentar sua casa, mais ao norte de Salisbury, depois, segundo dizem, tornou-se extremamente apática e agressiva, seu marido estava cogitando interná-la cerca de duas semanas antes de sua morte, resultado de uma forte pneumonia que, com sua fraqueza extrema e loucura, levou sua vida. Natasha e Lázaro apressaram o casamento, sobre o argumento de que ele não queria os White devastados por conta daquela tragédia. Eurídice passou a se dedicar às irmãs White, pois Natasha tinha uma irmã alguns anos mais jovem, e acabou se casando com Joseph três meses depois. Foi um choque para os mais conservadores, mas enquanto Lázaro esteve casado, Salisbury viveu dias de imensa paz enquanto o monstro e sua esposa viviam nesta casa.

Mas, nem todos seguiram suas vidas. Emily, a irmã mais nova de Natasha, foi praticamente expulsa de casa.”

Emily White?

Então, eu estava certo. O mistério da garota sem um fim passava por aquele lugar. Scott fez uma pausa, bebericando seu uísque. Será que ele via alguma coisa? Será que via Emily enquanto ela nos assistia contando sua própria história?

Meu peito beirava a emoção com tudo aquilo; todos os mistérios estavam sendo despejados em cima de mim de uma só vez, muito mais real do que o chão sob meus pés.

-O que aconteceu com Emily? – perguntei, tão fascinado que mal conseguia falar. Scott pigarreou e cuspiu. Bêbado chulo e porco.

-Ninguém sabe ao certo. Dizem que era uma jovem perturbada, foi internada num sanatório em Londres e quando saiu, se matou cortando a própria garganta.

-Sabe onde ela está enterrada? – indaguei. Se estávamos falando da mesma Emily, eu tinha a obrigação de fazer aquele coveiro falar. Ao contrário do que esperava, Scott gargalhou, cuspindo por toda a parte.

-Ela era uma suicida, acha que alguém se importaria? Ninguém quis enterrá-la, nem mesmo sua família. Emily foi encontrada e largada para apodrecer aqui mesmo, dizem que na tal capela. Lázaro e Eurídice também sumiram, assim como o resto dos White. Dizem que Emily os matou em uma de suas crises, cortou suas cabeças e comeu seus corações antes de se matar. Desde então, qualquer um que entrar nesta maldita mansão, está condenado a morrer como seus donos. E sim, meu caro, é exatamente neste lugar que você está. – Scott virou o resto da garrafa.

O casarão ficou em silêncio. Somente o gravador rodava captando o barulho da chuva. Eu estava em choque, em um estado tão profundo de êxtase que sequer perceberia se parasse de respirar. Parte de mim estava chocada, querendo com toda a força dos meus instintos de sobrevivência fugir dali para nunca mais voltar, mas a vontade crescente de me desafiar, de provar para mim mesmo que não era o medroso que todos diziam que eu era, estava gritando em prantos e súplicas para que eu não desistisse. Parei o gravador e fiquei encarando-o como se encarasse os fatos que aquele bêbado tinha acabado de relatar. Ele beirava a inconsciência e, talvez, até mesmo o coma alcóolico; falar sobre sua avó e seus dons não parecia fácil, então, eu simplesmente decidi que dele já tinha tirado tudo.

Lázaro e Eurídice eram assassinos.

Os White foram massacrados.

E Emily White parecia cada dia mais interessante.

Havia algo sobre os suicidas que deixava secretamente fascinado, desde o modo como viam a vida à frieza de calcular seu último dia. O que eu deveria esperar de uma suicida com um histórico daqueles? Emily era tudo o que eu estive esperando.

Se seu corpo não estava no cemitério, onde exatamente estava? Se eu pudesse, se tivesse os dons que Scott dizia ter, com certeza perguntaria pessoalmente.

O barulho da garrafa de uísque rolando me despertou. Scott apagou encostando de mal jeito na parede. Eu estava começando a achar que ele merecia mesmo os dois mil. Talvez, eu me lembrasse disso quando falasse com meus pais, mas por hora, eu tinha outros planos e eles não incluíam seres de carne. Me estiquei com todo cuidado para apanhar a lanterna de Scott, presa debaixo de sua mão. Apanhei meu gravador e sai o mais silencioso que pude; fui em direção à sala de estar. Cada passo rangia no assoalho velho, mas Scott não acordaria tão cedo. Passei pelo ambiente que destrui, era pior olhando-o sem o espanto; pulei as madeiras, encharcando os pés nas poças que se instalaram até me encontrar na sala principal. Era um cômodo gigantesco e cinza de pó. A porta pela qual não conseguira entrar estava reforçada com largas madeiras de pregos enferrujados, as janelas quebradas não estavam muito diferentes. Uma escada luxuosa, digna de grandes casarões, estendia-se atrás de mim com aranhas descendo e subindo a olhos vistos, me encolhi em repulsa, mas não havia nada naquela sala que valesse meu tempo. Provavelmente tinha sido saqueada e levaram até mesmo um último fio de tapete. Esquadrinhei-a o mais que pude, mas só o que encontrei foram buracos feitos por ratos.

Tomei coragem para subir. A lanterna lançava uma luz vacilante sobre meus pés, oscilando pelo tremor de minhas mãos. Assim que firmei o pé esquerdo no terceiro degrau, a madeira cedeu e eu afundei até metade da coxa.

-Droga. – resmunguei.

O buraco era pouco maior que meu pé e seria trabalhoso tirá-lo de lá. Minha primeira preocupação foi deixar a lanterna próxima e a segunda, me arrastar para os degraus seguintes sem cair em outra armadilha.

A lanterna permanecera no degrau em que minha perna estava entalada, tentei me levantar, mas ardência na perna presa era tanta que eu pensava tê-la quebrado. Subiria me arrastando, então. Apoiei as mãos no degrau seguinte, forçando a subida para sair, minha força era insuficiente naquela posição e nem Scott acordaria se eu chamasse. Tentei mais uma vez. Icei meu corpo com mais força e felizmente obtive algum sucesso. A medida em que eu avançava, minha perna arrebentava o degrau, prendendo lascas grandes e pequenas de madeira em minha carne. Me segurei para não gritar e aguentar a dor e o ardor da forma mais valente possível, mas aquilo queimava como se a cada centímetro, eu deixasse um pedaço de pele. Quando cheguei ao quarto degrau – o sétimo na contagem total -, eu podia jurar que alguém me incendiou para que eu estivesse ardendo tanto.

A perna estava livre, mas não inteira.

Dava para ver manchas escuras de sangue que aumentavam gradativamente e pedaços de madeira espetados no joelho e no fêmur. Me estendi sobre os degraus, observando as aranhas no corrimão em silêncio, esperando que a dor se tornasse mais branda.

Aos poucos, e com a maior dor que já senti na vida, retirei a madeira do joelho e apanhei a lanterna. A coisa mais prudente a fazer era retornar e desistir daquele lugar, mas não naquela noite. Reiniciei minha subida. Por vezes as aranhas passaram por minhas mãos, mas eu continuei, ainda que me arrastando diante daquele acidente de percurso. No fim daquela escada, um suntuoso corredor se estendia. Ainda conservava o longo tapete azul, comido por traças e maltratado, mas ainda lá. Tinha portas de uma ponta a outra e uma grande janela a esquerda, de onde a fraca luz da lua tornava mais fácil enxergar.

Fui até o fim do corredor, tentando abrir cada uma das enormes portas, mas elas sequer estalavam. Caminhei até a última delas, próxima a grande janela.

-Última tentativa. – empurrei. Ela se abriu. Uma lufada de mofo me recepcionou, mas resolvi entrar.

Tudo ali estava intacto. A cama com a velha mosqueteira, o roupeiro, a penteadeira e uma cadeira virada para a janela do sul. O tempo não perturbou a arrumação e nem a surpreendente delicadeza daquela decoração. Até mesmo bibelôs e frascos de perfume permaneciam quietos, como se aguardassem o regresso de sua dona. Era claramente um quarto de mulher. A medida em que o cheiro de mofo se dissipava, um perfume delicado sondava-me tímido. Por mais que me valesse da lanterna, ainda não parecia o suficiente; fui até a janela e abri a cortina, sentindo-me menos sufocado ao ver a luz do luar entrar. Era tudo impressionante demais.

Uma caixinha de música, adornada com uma pequena sapatilha brilhava absoluta na penteadeira, agraciada pela luz. Sem que eu soubesse como e nem porquê, senti-me deprimido; tudo era tão arrumado e bem cuidado que eu me sentia mal em saber que muito provavelmente, sua dona jamais retornara, fosse ela Emily ou sua irmã. Lázaro tinha, quem sabe, se encarregado de acabar com tudo e deixar aquele quarto tão solitário e triste. Fui até a caixinha de música, apenas porque me sentia mal em somente observar todo aquele abandono. A sapatilha era mínima, menor até do que meu dedo mínimo, parecia feita de cristal e logo abaixo de uma de suas fitas, havia uma inscrição em francês. Infelizmente eu não me senti no direito de lê-la ou abri-la, eu não gostaria que fizessem algo parecido comigo. Devia ser um objeto extremamente particular.

Verifiquei os frascos de perfume e cremes. Todos franceses e de marcas que atualmente, valiam alguns milhões. Destampei um deles apenas por curiosidade e pulverizei um pouco no ar; parecia que diante de mim estava uma mulher belíssima, vestindo o dourado da embalagem, aos poucos, toda sua beleza se dissolvera, graças ao cheiro horrível que emanava da embalagem. Um perfume vencido, segundo o frasco, em março de 1891.

Dama alguma seria eterna, tão pouco um frasco de perfume.

O cheiro me deixou zonzo por alguns instantes, tanto que precisei me sentar. O colchão era duro e seus lençóis tão velhos que cediam sob meu corpo.

Eu não deveria estar ali para começo de conversa. Relaxei as mãos ao lado do corpo, sentindo um estranho volume a minha direita, próximo ao travesseiro. Eu não fazia ideia mesmo do que poderia ser, mas como tudo naquele lugar transpunha o meu bom senso, decidi por checar.

O volume estava debaixo de toda a roupa de cama. Sentia-o tão vivo quanto os batimentos cardíacos nas pontas dos meus dedos.

Seria uma daquelas imensas aranhas no corrimão da escada?

Não, não parecia se mover. Era um outro tipo de vida, como se implorasse para que o descobrisse e o tirasse daquele sufoco. Coloquei a mão por baixo dos lençóis, atento a qualquer sinal de que pudesse ser picado ou mordido; avancei, até sentir uma superfície dura sob meus dedos. Parecia couro. Um couro muito velho e liso; puxei-o, iluminando-o com a lanterna. As páginas protegidas pela grossa capa de couro eram amareladas e finas, chamuscadas em algumas partes.

Um diário?

Meu coração acelerou. Dessa vez não eram os dizeres de um bêbado ou as histórias contadas por alguém à beira do caos como Scott. Era uma das provas mais concretas de tudo que andava somente ouvindo. O senso de respeito que tive para com a inscrição na caixinha já não existia. Abri os registros com imenso cuidado, pois, ao mais breve toque, algumas centelhas de couro salpicavam meus dedos. Passei pela primeira página e soltei um suspiro frustrado ao perceber que não existia nenhum “este diário pertence à”, pelo contrário, era apenas uma página em branco com gotas enegrecidas nas bordas que se assemelhavam a sangue seco. A próxima página estava toda rabiscada, trazendo nada menos que raiva e desespero em cada ponto; os traços eram tão fundos que faziam sulcos no fino papel e mesmo quando virei a folha, estavam tão vívidos que pareciam recém-feitos. Ao virar, tive a impressão de desviar os olhos de alguém extremamente perturbado e pousando-os sobre um pássaro acuado, sangrando por suas asas cortadas e ainda sim, belíssimo.

“14 de Setembro de 1887

Não suporto estar aqui. Não suporto mais acordar dia após dia e ver que nada mudou, que ainda estou presa.

Eu não estou louca como dizem que estou, sei o que eu vi e quem eu vi. Acho que sou lúcida o bastante para que me vejam como uma ameaça. Uma ameaça àquele assassino desgraçado. Odeio a todos eles e espero que morram. Que morram por minhas mãos, de preferência, e Deus é testemunha de que nenhum deles merece ser salvo.

Tenho enjoos a cada cinco minutos graças aos remédios que me forçam a tomar. Injetam em meus braços agulhas imensas que, apenas em raras vezes, não saem cheias de sangue. Elas machucam, e meu braço esquerdo está tão dolorido e minhas veias tão inchadas que mal posso movê-lo. Tentei quebrá-lo noite passada no jardim, prendendo-o em um dos bancos. A dor de ter os ossos trincados, rompidos ou até mesmo expostos seria menos do que essa agonia. Às vezes tenho a impressão de que injetam em minha mente os monstros que vejo durante a noite. Não durmo a cerca de três noites completas; fecho meus olhos e só vejo dor e sofrimento.

Estou cansada. Minha alma está cansada. Gostaria de não acordar mais.”

O relato seguiu. Ora raivoso, ora tão desejoso de um fim que depois da última frase, eu não consegui raciocinar. Subiu-me um nó imenso na garganta, eu mal podia respirar com tanta tristeza. Tinha acabado de ler como uma vida foi covardemente roubada e substituída por algo artificial, mantida a fortes calmantes e sofrimento. Não havia nome, não havia nada e ainda sim, eu fui intimamente atingido.

Respirei fundo antes de virar a página. Era perturbador continuar, mas eu me sentia magicamente atraído por aquele diário, como se ele me aguardasse durante todos esses anos. Quisera eu ter salvo sua dona também, o que infelizmente, acho que ninguém fez. Assim que deslizei os dedos sobre a folha seguinte, fui desperto pela porta batendo escancarada. Scott estava de pé outra vez, com o rosto vermelho por conta do álcool e com uma expressão descontente ao extremo.

-Qual o seu problema, moleque? – ele se aproximou, cambaleando e arrastando as palavras. – Não consegue parar quieto um maldito segundo? Está em um lugar que não conhece e caindo aos pedaços!

-Não estava a fim de olhar para sua cara bêbada. – desdenhei, escondendo o diário nas costas.

-É melhor ficar quieto. – sugeriu e, em seguida, apertou o olhar percebendo que eu escondi algo. – O que tem aí? – antes mesmo que eu pudesse responder, ele se esticou e pegou o diário.

-Me devolve isso. – pedi, me levantando. Ele me empurrou de volta na cama e abriu-o, olhando-o com visível incredulidade. Logo no primeiro registro, soltou uma sonora gargalhada, que facilmente tomou aquele quarto.

-Você realmente acredita nisso? – zombou, atirando o diário em mim. – Já passou pela sua cabecinha tola e retardada que qualquer um poderia ter escrito isso e colocado aí para idiotas como você? Cai na real, Perry! Não há nada para sua historinha aqui, tudo o que você vai saber sobre os Bayel, os White e o raio que o parta, são as coisas que te contei! Não há mais nada, é o que todo mundo sabe!

De repente eu senti como se me jogassem um balde de gelo. Scott tinha razão, estava me envolvendo demais em algo que não demandava tanto esforço. Eu tinha o lugar, tinha a história e tudo mais que tinha ido buscar; não seria um diário, fosse ele autêntico ou não que mudaria as histórias de uma cidade toda. Eu receava que a mansão não tivesse mais tanto para mim.

-Quer saber? Você está certo. – cedi, me levantando. Scott me olhou com certa estranheza, parecendo não acreditar que eu estava lhe dando razão. – É só um diário de mais de um século, o que pode ter de interessante ali, não? – coloquei o diário exatamente onde o encontrei e desci.

-É sério que me deu razão? – Scott perguntou, descendo ao meu lado. Eu mancava, e descer aquelas escadas não era tarefa fácil. – Você é o primeiro cara que me ouve, sabia? – começou. Seu estado de embriaguez era quase cômico.

-Nem imagino porque ninguém mais te dá ouvidos. – resmunguei.  Ele concordou, sem muito raciocinar.

Cheguei a sala principal suando como se fizesse uma longa caminhada; meu joelho latejava e se me concentrasse, podia ouvir algumas farpas raspando na calça e o cheiro ferroso de sangue. Aquilo não estava lá muito bonito de se ver. Retornei às nossas acomodações; Scott se atirou em seu lugar e eu não fiz muito diferente.

Minha cabeça gerava com tudo aquilo, desde o início daquele dia, com o telefonema de Angelina até aquele exato momento. Eu tinha absolutamente tudo o que precisava, mas por onde começaria? Me estiquei para apanhar a mochila e pegar papel e caneta. A luz da lanterna era forte o bastante para que eu não precisasse esforçar a visão. Desejei que meus olhos parassem de arder com a poeira e que as palavras pudessem simplesmente jorrar de mim como acontecia com Daniel, mas para o meu azar, nem mesmo um lugar amaldiçoado tinha tamanho poder.

A pertinente sensação de que algo estava incompleto me incomodava. Quem seria a dona do diário, a dama de dourado do perfume e a mulher cuidadosa que não desfez sua cama? Haviam, também, lacunas que me incomodavam na versão contada por Scott. Como os White puderam se envolver com Lázaro e Eurídice, sendo estes últimos o terror da cidade? Que motivos teria Emily para surtar de tal maneira? E havia ainda o coveiro, o padre e mais uma centena de pontos que não condiziam com o que eu estava pensando. Lázaro e Eurídice pareciam as criaturas mais poderosas de Salisbury, como se permitiram terminar pelas mãos de Emily, estando essa tão doente mentalmente?

Ninguém previu?

O assassino do diário seria Lázaro? Mas, a quem ele matara?

Eu tinha centenas de perguntas e nem um décimo das respostas; não me atreveria a inventar qualquer coisa só para ficar mais fácil, eu precisava da história que ninguém sabia.

Da história real.

Não importavam quantas voltas eu desse sobre a reputação dos antigos habitantes da mansão, o nome de Emily sempre estava ali, fosse sendo um cadáver sem data fim, fosse sendo uma maluca, provavelmente esquizofrênica, como na história de Scott ou ainda como a provável dona daquele diário, de uma maneira ou de outra, ela sempre estava lá.

Estava lá... na Capela dos Três Sinos. Lá, mais ao sul da propriedade.

Eu simplesmente precisava ir até lá, nem que tivesse que me esconder de Scott como um garoto arteiro, era mais forte que eu. Levantei-me, trazendo comigo o gravador e a lanterna; me aproximei de Scott, para ver se estava suficientemente adormecido e se não fosse por sua respiração ruidosa, eu diria que estava morto.

Foi outra luta sair daquele lugar, ainda mais com a porta prestes a emperrar, mas lá fora, o ar fresco fez maravilhas por mim. Era uma propriedade bela, ainda que abandonada; imensa, e a cada passo que dava em direção à capela, dava-me a impressão de mergulhar em sua história. Quase podia ver os empregados circulando atarefados com sacas de algodão; o pouco cascalho que estava debaixo do meu andar manco não me permitia sentir só, já que nem mesmo um inseto batia suas asas ali naquela noite. O silêncio estava digno de um túmulo, e de certa forma, a mansão Bayel o era.

Passei vagarosamente por uma casa incendiada. A casa onde Scott e sua avó cremaram o tal garoto; não pude deixar de perder alguns instantes observando como tudo ainda estava chamuscado, tal qual um incêndio recém contido. Vi até mesmo um farrapo de camisa, tremulando ao sabor dos ventos. Senti meu estômago embrulhar com o simples pensamento de que a camisa pudesse guardar um esqueleto. Em uma coisa eu precisava concordar: A mansão Bayel não tivera dias muito felizes. Balancei a cabeça, tentando recuperar o foco e continuei.

Começava a suar frio conforme me via mais distante do casarão e se fosse compelido à retornar, desobedeceria sem peso na consciência. O trajeto todo era cercado por casas pequeninas, intercalados com barracões, onde provavelmente, armazenava-se a produção e bem mais ao fundo, beirando o pomar, estava a capela.

Sua sombra era absurdamente projetada acima de mim. Era pequena, em largura, mas alta e robusta. Construída com grandes blocos de pedras cinzentas; estava fechada, impedindo-me de ver qualquer coisa pela pequenina janela de vitral, havia uma cruz em seu topo, mas nada de sinos.

Algo dentro de mim achou estar no lugar errado. Era aquela sensação que é impossível de ignorar. A mansão estava brincando com a minha mente? Tomei, naquele instante, o que talvez fosse a pior das alternativas: Entrei no pomar.

Fui logo recebido por uma centena de ervas daninhas e espinhos poderosos. Eu precisava medir cada passo e escolher qual parte do corpo ferir. Cada pequenino corte ardia como uma queimadura de grau leve, o que já era tremendamente incômodo na situação em que eu me encontrava. Todos os cheiros e sons que não ouvira até então me tomara de assalto. O cheiro do mato sendo pisado, os espinhos se agarrando na minha pele, o aroma de algumas flores silvestres e o alvoroço de pássaros noturnos, que pareciam descontentes com a minha presença. Um ambiente selvagem e que até mesmo poderia me matar, mas que me dava a sensação de estar no lugar certo. Eu sabia que havia a possibilidade daqueles espinhos serem venenosos, por isso, eu tentava avançar o mais rápido possível – depois de algum tempo, eu já sentia tonturas.

Alguns morcegos começaram a aparecer; eles passavam em rasantes ameaçadores por mim, por várias vezes, suas asas batiam contra o meu rosto e aquilo estava começando mesmo a me irritar.

-Seus...! – resmunguei, gesticulando contra eles na ilusão de afastá-los e por um reflexo, ao virar-me, tive ciência do quanto estava longe da mansão. E automaticamente me perguntei onde raios eu estava.

Me virei e assim que meu pé direito se moveu, prendeu-se na raiz de um grande carvalho e pela segunda vez naquela noite, eu estava caído. Praguejei ao me soltar, mas me vi tão agradecido àquele tropeço tão logo ergui meus olhos.

A Capela dos Três Sinos estava bem diante de mim.

Ao contrário da primeira, estava levemente entreaberta, uma abertura tão tímida que só parecia existir para que o vento circulasse. Mais daqueles espinhos estavam crescendo na construção, prestes a tomá-la por inteiro e lá em cima, os três sinos pendiam. Um após o outro, anunciando qualquer coisa com maior poder. Três mensageiros. Três formas de alertar aos que ouviam que algo aconteceria. Avancei, e tão logo empurrei a porta, meu braço foi rasgado por mais um potente espinho, deixando um rastro leitoso por onde passara.

Veneno.

E eu soube que precisava voltar logo. Joguei-me contra a porta, diretamente para seu interior. Tinha um altar, não tinha bancos, apenas castiçais velhos, empoeirados e cheios de teias de aranha; o lugar cheirava mal, tão mal que precisei puxar a camisa no nariz para prosseguir sem vomitar. Cheirava como se algo estivesse se decompondo lá.

A cada passo, minha visão se tornara mais turva. Subi até o altar cambaleando e, para a minha surpresa, não era uma mesa sagrada.

Era um caixão.

Lacrado e acorrentado.

A mórbida surpresa me fez recuar antes que pudesse tentar abri-lo; em questão de segundos, tudo girava tanto que eu sequer conseguia controlar meus movimentos. Meu corpo balançava como um pêndulo, de um lado para o outro e quando consegui – ou pelo menos achei ter recobrado a consciência – recobrar a consciência, me vi longe daquele caixão; o cômodo estava alguns degraus abaixo do salão principal funcionando como uma sacristia improvisada. Diferentemente do primeiro, tudo estava arrumado e até limpo; os castiçais se estendiam pelos quatro cantos da sala, com velas queimando suas últimas chamas.  Corri os olhos pelo local e mais ao fundo, presa a parede mais úmida e escura do lugar, estava o que me parecia uma estátua.

Estava acorrentada, nos pés e nas mãos, como pregada em uma cruz. Cheguei mais perto para avaliar e a cada centímetro, o cheiro de podridão aumentava, exatamente como se eu visitasse uma carnificina. Os passos estavam letárgicos e inertes por conta da toxina se espalhando veloz por meu corpo, mas foi nítido perceber que eu pisara em alguma coisa a poucos metros da estátua. Algo ruidoso como um osso se quebrando.

Engoli em seco, com um medo terrível de olhar para baixo, como quem caminha sobre uma ponte suspensa e traiçoeira. Um arrepio me rasgou da cabeça aos pés, especialmente no pé que estava chafurdado na coisa. Tentei desviar o pânico, observando a estátua.

Tudo nela era assustadoramente real, desde o vestido ao cabelo jogado no rosto abaixado; tudo muito velho, mas ainda impressionante; as correntes que a seguravam eram fortes e pareciam-se muito mais com as do caixão. Me estiquei em um impulso para tocá-la, mas fui impedido pela coisa no meu pé. Respirei fundo para olhar.

Todo o sangue se congelou e até mesmo a lanterna escorregou de minha mão. O cheiro de podridão não era à toa e muito menos alucinação. Meu pé estava afundado em um cadáver humano. O resto do cadáver, mal coberto por suas roupas, estendia-se a minha direita. O terror me tomou de forma avassaladora; o asco era tão grande que eu não conseguia respirar. O cadáver parecia me segurar com aquelas mãos magras e expostas, quando finalmente me vi livre, busquei apoio e segurança na estátua, abraçando-a como se tivesse passado meses à deriva em um mar revolto. Fechei os olhos, me negando a olhar para baixo mais uma vez, nem que fosse para me certificar que aquilo não era alucinação, embora todos os meus sentidos estivessem bagunçados pelas descargas de adrenalina e a toxina dos espinhos. O coração pulsava tão rápido que minhas veias pareciam explodir com tanto sangue, as pernas estavam moles e mal me sustentavam, a respiração tão descompassada quanto em uma das minhas crises de asma.

Aquilo foi horrível e eu agradeceria a Deus se não passasse por aquilo de novo.

Agarrei-me mais a estátua, inabalável e segura. Era fria e seu vestido era sim de tecido, que parecia se dissolver debaixo dos meus dedos. Passaram-se longos minutos e eu consegui recobrar o meu controle mínimo, muito embora sentisse cansaço pelo esforço quase sobre-humano para respirar, sentia um fluxo insuficiente de oxigênio passar. Passei a inspirar pela boca, com receio de uma crise, mas a respiração cálida e quase inexistente não me deixou. Afastei-me da estátua e pude respirar normalmente. Fiquei intrigado com aquela situação e tornei a me aproximar para um tira-teima.

A estátua estava respirando.


Notas Finais


E então? O que tem achado da história? Eu sou suspeita pra falar, mas eu realmente amo esse enredo <3
Espero que tenham gostado!
xoxo


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