História Absinto - Capítulo 1


Escrita por: ~

Postado
Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Jungkook, Rap Monster
Tags Jeongnam, Namkook
Exibições 41
Palavras 4.579
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Drama (Tragédia), Romance e Novela, Universo Alternativo, Yaoi
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Suicídio
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


Estava dando views para blood, sweat and tears quando esse plot surgiu hihihih
leiam as notas finais!

Capítulo 1 - Belle Époque


Janeiro de 1914.

Admirava como a tristeza lhe tornava poético embora a única coisa que lhe deixasse abatido fosse a humanidade e os tempos que vivia, observava o êxodo acontecer debaixo de seu nariz, um nariz burguês, diga-se de passagem. Viu os únicos amigos abusando da boemia noturna e sabia que todos ali acabariam morrendo de algum dos males do século, alguma praga ou infestação e por isso esperavam por alguma cirrose que os levasse fazendo o que preferiam. Escondiam-se das poucas obrigações nas casas de cancã enquanto afogavam-se em conversas sobre o mundo onde viviam e o tempo que sempre foi o grande maestro, havia muitas coisas acontecendo desde o final dos mil e oitocentos, ouvia a família dizer com orgulho sobre os avanços tecnológicos e os benefícios que traziam para a sociedade, pelo menos para eles tudo caminhava muito bem e enriqueciam com as manufaturadas e trabalhos mal remunerados, o pai costumava dizer que mão de obra era uma engrenagem muito importante e forte e por isso mesmo deveria ser bem controlada.

Por ser o único herdeiro de uma família burguesa, sua maior obrigação era estudar para administrar corretamente em um futuro não tão distante e mesmo que tivesse plena consciência de seu destino, não significava que concordava com o que estava fadado a fazer pelo resto da vida. Via a chama na classe operaria, via jovens cheios de vigor que trabalhavam arduamente em fabricas como a que ele herdaria e a maioria deles havia saído do interior, possuíam um sotaque extremamente forte e a estrutura física era diferente dos oriundos da cidade; aqueles garotos praticamente nasceram com calos nos dedos e as mãos grossas, ombros esculpidos para o trabalho pesado nas plantações e o tom de pele um pouco mais escuro. Sempre quis se juntar ao grupo que se formava algumas vezes depois do trabalho para gastar as poucas moedas em bebida nos cabarés, mas nunca foi bem aceito por ser um pouco temido, se ao menos eles soubessem.

Namjoon queria ver, mais do que isso, queria sentir a mudança drástica de quem tem que se adaptar à tecnologia de um ambiente diferente, queria entender o que os levava a sair do habitat natural para buscar novas oportunidades na verdadeira selva que era a capital.

Embora simpatizasse mais com o tipo de pessoa que ele não conseguia se aproximar, por vezes acabava nos braços dos luxos que lhe eram proporcionados, tais quais os cinemas e os bares mais rebuscados. O cinema era a maior novidade, mesmo que amasse a sensação de ler historias e pensamentos diretamente das folhas amareladas de uma brochura, achava fascinante a arte ali praticamente viva na sua frente, não havia fala mas havia movimento e tudo era bem feito o suficiente para que a historia lhe rendesse alguma emoção, fosse uma comedia onde conseguisse gargalhar ou um romance que florescesse em seu peito pelo menos um pouco do que era sentir-se enamorado de alguém. Sobre os bares mais caros, gostava de ir só por encontrar com mais facilidade sua bebida favorita, o absinto.

O absinto se popularizava cada vez mais, mas ainda estava longe de ser popularizado. Não era qualquer um que pudesse apreciar o que chamavam de “guia pelo caminho da poesia”, ainda mais em sua forma mais pura e era essa a que Namjoon pedia sempre que tinha vontade de se embebedar em álcool e na paixão pela poesia da existência.

Naquela noite tinha acabado de ler um livro de Oscar Wilde e pensou o suficiente até que estivesse cansado de não concluir nada, colocou suas vestes meio elaboradas e saiu acompanhado da luz da lua, não encontrou os amigos em nenhuma das esquinas que dobrou e então entendeu que os pobres diabos deveriam estar com os rostos enfiados em algum decote de uma dançarina bonita ou simplesmente em um dos encontros com prostitutas, apenas seguiu o caminho enquanto desviava de algumas distrações; geralmente quando se encontrava com mulheres da vida, pagava-lhes o que fosse pedido apenas para ouvir suas historias de meninas jovens que saem de casa com um proposito mas a vida na capital acaba se tornando um verdadeiro tormento sem deixar outras oportunidades e era triste ouvir cada uma delas, mas era real. Chegou ao bar e estava mais movimentado do que nunca, havia um pianista solo no palco fazendo uma performance um tanto melancólica, homens estavam reunidos em grupos enquanto conversavam alto e fumavam seus cigarros e charutos, bonitas mulheres exibiam seus charmes para alguns sortudos e aquela era a atmosfera perfeita.

Como estava sozinho, aproximou-se do balcão e procurou pelo garçom loiro de baixa estatura que estava lá todos os dias mas não o encontrou, no lugar do vulto já reconhecível, viu uma figura esguia e mais alta. Pigarreou para chamar atenção.

— Me desculpe, senhor. — o outro parecia um pouco atrapalhado com uma bandeja cheia de doses de uísque. — Um momento, por favor.

Não tinha pressa nenhuma e até tinha certo apreço pela languidez de algumas situações.

— Perdão pela demora, senhor. — não havia se passado nem quinze minutos, não era uma real demora. — O que deseja?

— Uma taça de absinto, Absinthe Suisse. — observou o semblante do garoto se tornar ainda mais preocupado, o olhar perdido. — O mais forte. — provavelmente o outro estava tendo um dia complicado.

Depois de alguns instantes procurando os itens ideais para o absinto, o menino finalmente colocou tudo sobre o balcão, havia uma magica antes de beber o absinto e era bom que o consumidor observasse tudo com seus próprios olhos para entender a procedência e grau de pureza da bebida que ingeria. Namjoon ficou atento ao La Louche, a dose da bebida esverdeada na taça e a colher horizontalmente posicionada por dedos longos e não tão ágeis, foi adicionado o cubo de açúcar e algumas gotas de agua gelada até que estivesse devidamente pronto para ser servido. Ouviu um suspiro aliviado assim que o garoto se afastou do balcão para tentar atender outro pedido.

A madrugada se aproximava e Namjoon já estava em sua segunda taça, agora era mais fácil ouvir o som que vinha o palco, o pianista continuava lá e grande parte dos clientes havia debandado para algum lugar mais agitado. Era mais fácil e ao mesmo tempo mais difícil focar em algo que não fossem os primeiros chamados da fada verde e sua sede de liberdade, mesmo com todo o inicio de confusão em sua mente, agora que o menino que havia lhe servido estava sentado secando alguns copos, Namjoon teve quase certeza de que o rosto era familiar, mas não sabia exatamente de onde que se conheciam ou se nunca haviam trocado meia dúzia de palavras; não parecia nenhum garoto do interior devido a magreza e ao tom de pele bem claro, não poderia dizer sobre o sotaque já que não havia prestado muita atenção.

— Você é novato aqui. — se espantou com a rouquidão da voz que não havia sido usada durante todo o tempo que esteve ali.

— Sim. — existia um leve sotaque do interior, ou era apenas uma armadilha de seu cérebro levemente alcoolizado. — Sim, senhor.

— Não há necessidade de tanto uso do senhor se somos todos a mesma poeira, o grão de areia oriundo da mesma ilha. — o outro tombou a cabeça para o lado, claramente sem compreender o que Namjoon queria dizer. — Nunca trabalhou em fabrica quando chegou à capital?

— Sim, se— recebeu um olhar duro e desistiu do tratamento. — Era um ambiente muito insalubre para meu irmão e então viemos parar aqui.

Agora tudo fazia sentido, ele era o garoto que seu pai havia falado alguma vez que tinha um irmão mais novo que ainda não sabia trabalhar direito e atrapalhava a produção, lembrou também que realmente já se encontraram em uma das visitas que Namjoon fez até a fabrica mas naquela ocasião o menino estava muito sujo de fuligem e graxa, agora aparentava mais limpeza e era quase irreconhecível.

Que vida dura para alguém que não aparenta mais do que dezoito anos e tem que se manter com um irmão mais novo e longe de tudo o que lhe é conhecido.

Namjoon queria ignorar os sussurros que o instigava a questionar coisas que sempre quis saber sobre essa perspectiva de um estranho que teve que ser moldado, era a oportunidade que sempre pediu para compreender com seus próprios olhos e não pelos sentidos dos que já tiveram essa chance, seus autores favoritos que sempre viajavam e conheciam grande parte do material didático que só a experiência pode proporcionar. Queria ignorar por saber que estava tarde e o jovem ali era milhões de vezes mais responsável do que ele, aquele menino tinha que cuidar de uma vida, da perpetuação, enquanto ele estava reservado apenas para a burocracia; queria ignorar por saber que era egoísmo encher o rapaz de perguntas apenas para satisfazer algo que ele nunca poderia sentir na pele e pensava qual seria o sentido de entender depois de tudo se ele não poderia mudar a si.

— Se importaria de me responder algumas coisas sobre o lugar de onde veio? — ah, a curiosidade.

— Ninguém nunca se importou com isso. —secou a ultima taça e guardou na devida prateleira. — E o senhor nem perguntou o meu nome antes de perguntar minha origem.

— E qual é teu nome?

— Jeongguk.

Foi ali que Namjoon encontrou o final de sua procura e o inicio de seu entendimento, Jeongguk tinha toda a vivencia que seria capaz de sanar grande parte das duvidas que rondavam os pensamentos de Namjoon assim que ele começou a abrir os olhos para o mundo fora de seu mundo, e Jeongguk queria ser escutado.

Jeongguk era oriundo de uma família pobre do interior, não possuíam mais do que uma pequena plantação que mal dava para equilibrar o que era vendido ou trocado e o que poderia ficar para o consumo da família; o pai era um homem forte e com um bom coração apesar de não aparentar isso, a mãe era uma mulher gentil porem de saúde frágil e essa fragilidade era facilmente reconhecida no irmão mais novo que passava muitos dias de cama por qualquer mudança climática, mal podiam brincar entre os pomares sem que o mais novo se ferisse muito em um simples tropeço. Jeongguk não podia dizer que teve uma infância ruim, aproveitou o máximo que podia antes que a ingenuidade infantil fosse bruscamente substituída pelas preocupações com o pai sobrecarregado e os esforços da mãe que parecia mais cansada e doente a cada minuto, sua maior preocupação era com o bem estar das pessoas que mais amava, a solução ingênua que teve foi que saindo de casa com o irmão, sobraria mais comida para os pais e se tudo desse certo na cidade que todos diziam ser mil maravilhas, talvez no futuro ele e o irmão pudessem voltar às origens e dar uma vida bem melhor aos progenitores.

Era muito complicado sair de casa e buscar novas oportunidades, era ainda mais difícil abandonar o abraço da mãe e o pedido para que cuidasse bem do irmão, havia também o olhar preocupado do pai que se sentia extremamente culpado por não ter conseguido dar uma vida melhor aos filhos. Doeu ter que deixar tudo para trás com a promessa de que voltaria e que tudo seria melhor, daria um jeito de melhorar tudo para todos que lhe eram importantes.

Nos primeiros dias ainda tinham comida suficiente para os dois durante o caminho, claro que a maioria não ficava com Jeongguk. Demoraram muito até chegar à cidade, contavam com a ajuda de alguns carroceiros mas quando não davam essa sorte acabavam caminhando e a cada quinze minutos Jeongguk ouvia a reclamação de cansaço do irmão, esperava se recuperar um pouco do seu próprio esgotamento e levava o irmão nas costas, isso sempre lhe garantia o dobro da dor mas era um pedido da mãe e ele não mediria esforços para manter a saúde do irmão.

Depois de muito tempo finalmente chegaram à cidade e não tinham onde dormir, não conheciam nada e também não tinham nenhum bem precioso para se preocupar, a única coisa valiosa que tinham era um ao outro. Na primeira noite que passaram na cidade se espantaram com o barulho dos carros, com as luzes e também com a vestimenta das pessoas, tudo era extremamente desconhecido e ao mesmo tempo fascinante. Jeongguk pensou que em um lugar onde todas as pessoas parecem ser arrumadas era muito fácil ser um dos arrumados também, onde haviam muitos carros ele poderia ter um carro dentro de pouco tempo e era tudo uma questão de esforço. Procuraram um lugar que os cobrisse um pouco do sereno da noite para dormir e Jeongguk queria que aquele fosse o maior de seus problemas e que tudo se tornasse menos complicado.

Era tolo.

A luz do dia mostrou tudo aquilo que o brilho da lua transformava em bonito e poético, percebeu então que ele e o irmão não eram os únicos garotos maltrapilhos naquele lugar e que era muito mais perigoso do que parecia, seria necessário proteger ainda mais o irmão para que não se perdessem em algum grupo de meninos que Jeongguk viu praticando pequenos roubos, um relógio aqui, um óculos acolá e não era aquele o proposito que tinha quando resolveu que teria uma vida melhor, não tiraria proveito pelo azar dos outros e  cidade não o corromperia. Agarrou-se ao irmão e seguiu alguns homens com roupas parecidas que sempre passavam por eles seguindo a mesma direção, chegaram a uma fabrica e um homem logo fez questão de dar funções para ambos enquanto vociferava “tempo é dinheiro” e dinheiro era o que Jeongguk queria. Acabaram não durando nem seis dias corridos, não sabiam como manusear as maquinas, pediam muita ajuda aos outros funcionários e a maior parte deles dava apenas sermões e respostas ríspidas, Jeongguk não poderia dizer que não se esforçou para aprender, muito pelo contrario, o trabalho era importante demais para não ser levado a sério mas assim que o irmão começou a ficar debilitado por causa do ambiente, Jeongguk entendeu que não poderia forçar tanto o mais novo e também não poderiam se separar; as reclamações por parte dos outros funcionários começaram a aumentar até que os dois foram expulsos da fabrica.

Jeongguk percebia que o irmão sabia o que estava acontecendo quando não se alimentavam direito e nem tomavam banho desde que chegaram, enxergou nos olhos do irmão o mesmo que havia acontecido com ele quando se preocupou com a saúde dos pais, não queria que o irmão ficasse com esse fardo pelo menos não tão cedo, nada estava acabado e ele definitivamente acharia um jeito de fazer coisas acontecerem. Ao final da primeira semana longe de casa, um grupo de meninos reivindicou pelo lugar que estavam, Jeongguk poderia tentar brigar mas não era confiante o suficiente em seus punhos e era uma disputa desleal, ainda havia o risco de machucarem o irmão, foi complicado mas ainda por trás de toda a preocupação ainda buscou forças para dar um sorriso para o irmão assim que saíram de mãos dadas e começaram a andar novamente pelo desconhecido.

Dessa vez andaram sem pausas e era preocupante o irmão não ter reclamado de cansaço durante todo o caminho embora seu semblante mostrasse o quão esgotado estava. Mais uma vez Jeongguk sentiu dores piores do que físicas.

As casas pareciam ficar mais bonitas a cada passo que davam, os portões ficavam gradativamente mais altos e algumas varandas pareciam fazer uma sombra satisfatória, depois de andar ainda mais, escolheram uma casa para dormir em frente, o lugar parecia calmo mas quanto mais tarde ficava, mais ouviam barulho e era sempre o característico de pessoas conversando e garrafas sendo quebradas ao fundo, mesmo assim, Jeongguk se permitiu dormir um pouco mas não se lembrava quanto tempo descansou até que fosse acordado pela tosse alta e incessante do irmão, tentou fazer com que o mais novo acalmasse a respiração na esperança de amenizar a tosse mas nada melhorava. Jeongguk estava com medo de serem descobertos e hostilizados ali, pediu para qualquer um dos santos que a mãe costumava chamar em suas orações que os protegesse naquele momento, nunca foi um garoto religioso, mas naquela ocasião estava apavorado e não tinha nenhuma solução.

Ouviu um estrondo que parecia uma porta sendo fechada, em seguida ouviu passos e abraçou o irmão do jeito mais protetor que conseguiu. Os passou ficavam cada vez mais próximos e o abraço de Jeongguk também, uma lagrima escapou quando sentiu uma mão em seu ombro e demorou muito antes de levantar a cabeça para ver quem era e o que a pessoa faria, mal conseguia respirar de medo mas ainda ouvia a tosse do irmão sendo abafada em seu peito. Levantou a cabeça pouco a pouco até avistar uma figura feminina bem diferente da mãe, era uma mulher muito mais voluptuosa do que sua progenitora, mas reconheceu de imediato aquele olhar de ternura que apenas as mães possuem.

“Ele vai acabar morrendo se continuarem nesse relento” ela disse de imediato. A mulher usava um vestido longo de cores vivas e um decote profundo que salientava os grandes seios, calçava sapatos de salto e o cabelo dela era loiro e cacheado. Jeongguk tinha ainda o medo de confiar nas pessoas mas concordava com o que aquela desconhecida havia dito e, no final das contas, ela era sua ultima esperança então apoiou o irmão nos ombros e seguiu a mulher sem fazer perguntas, acabaram na frente de um bar onde foi mandado que esperassem um pouco na rua e depois do que pareceu uma eternidade, a mulher saiu acompanhada de um casal de idade e Jeongguk e o irmão entraram pelos fundos daquele lugar barulhento e descobriram que era uma casa.

Finalmente encontraram um lugar para ficar, o casal os olhava com ternura e acabou cuidando deles, principalmente do irmão que depois de um tempo da recuperação da gripe começou a ler as primeiras palavras. O casal disse que aquela mulher que os levou até eles tinha lhe feito um favor há muitos anos atrás e que o debito foi pago com o abrigo; Jeongguk nunca entendeu os motivos e nem o tipo de favor que ela havia feito mas ficava muito grato por isso, não teve outras oportunidades para agradecer o gesto que salvou seu irmão, mas gostaria de retribuir de alguma forma. Não era como se Jeongguk e o irmão tivessem se tornado filhos daquele casal, mas agora eram tratados como humanos e depois de um mês ganhando peso, pediu que fosse útil ao casal e que ajudasse de alguma forma e então aos poucos foi permitido que conhecesse o bar requintado do casal e fosse apresentado às bebidas até que pudesse trabalhar junto do outro jovem que servia bebidas.

Em nenhum momento Jeongguk deixou o irmão se preocupar com trabalho e ficava feliz sempre que via as bochechas do mais novo coradas de saúde e não de febre.

Claro que Namjoon não ouviu essa historia da noite para o dia, foram necessárias semanas até que Jeongguk contasse os detalhes de tudo e de forma que seu coração não ardesse em saudade do pai e da mãe que estavam no interior. Namjoon pedia sempre alguma dose de bebida alcoólica e ela sempre ficava intocada, queria absorver cada palavra que o mais novo dizia enquanto estava plenamente são e assim não deixava nada passar despercebido.

Depois que entendeu tudo o que Jeongguk tinha a dizer, permitiu falar um pouco de sua vida e isso encantava o outro, falava sobre as aulas de arte que teve durante a infância e a adolescência e tudo parecia muito mais encantador aos olhos de Jeongguk do que na sua memoria, quando finalmente perguntou, Jeongguk disse que queria ver pelo menos um pouco desse universo que esteve presente no seu amadurecimento; primeiro Namjoon o mostrou materiais de pintura e Jeongguk parecia ter muito jeito para aquilo mesmo sem nunca ter tido uma aula, era fascinante. Passou dois meses desvirtuando Jeongguk do trabalho para mostra-lo lugares que o mais novo deveria tentar desenhar, mostrava livros que Jeongguk precisava ler e não media esforços para ajudar quando o outro demonstrava dificuldade com a leitura; apresentou o livro mais importante que já havia lido e que escondia um pouco do pai para não ouvir reclamações, era o Manifesto Comunista de Marx e sentia algo dentro de si iluminar imensuravelmente quando explicava tudo o que aquilo significava para a nação.

Jeongguk ficava cada vez mais encantado com a cidade e a vida que as pessoas tinham na capital, agora estava seguro de que seu irmão estava saudável e por isso se permitia ir aos lugares que Namjoon queria mostrar, achava incrível que o mais velho conhecesse tudo como se a cidade lhe pertencesse. Um dia Namjoon citou o cinema e então os olhos de Jeongguk brilharam mais do que nunca com a ideia de ver algo tão diferente quanto aquilo que Namjoon descreveu e quando finalmente foram, era tudo aquilo que ouviu e muito mais, nunca na vida tinha visto algo tão belo.

Namjoon era a primeira pessoa que se aproximou de Jeongguk espontaneamente e isso era importante demais para o mais novo que se sentia tão perdido ainda.

Os tempos começaram a ficar complicados e Namjoon dizia sobre o aumento da fabricação de armas, estava receoso de que algo ruim acontecesse até que Junho chegou e com ele, o caos.  Haviam cartazes espalhados por toda a cidade incentivando jovens a se alistarem, cartazes que mandavam estocar comida e os que exigiam por enfermeiras e meias de lã.

— Eu me alistei. — Jeongguk disse orgulhoso. — Em pouco tempo estarei lá combatendo.

Inicialmente Namjoon perdeu o ar com as palavras de Jeongguk, era quase como se tivesse levado um soco no estomago e não entendia o motivo de tanta preocupação mas sentiu uma angustia muito grande com a ideia de que Jeongguk não voltasse, sabia que muitos não voltavam.

— Você nunca segurou em uma baioneta. — sorriu para tentar mascarar a tensão. — É impossível que você se torne um soldado.

— Não sou filho único. — Jeongguk começou a dizer com um tom que demonstrava que ele sabia exatamente o que estava fazendo. Namjoon sentiu medo. — Tudo está desorganizado e caminhando para a ruína, proteger o meu irmão foi tudo o que me pediram e é isso o que eu vou fazer, vou lutar pelo futuro dele.

— Não pode ir sem ver seus pais antes, já disse que posso dar um jeito para você e seu irmão voltarem para lá pelo menos visita-los. — sabia que a família era importante para Jeongguk, mas naquele apelo havia um pouco de si. — Espere mais um pouco.

— Já está feito. — e estava.

Jeongguk foi em setembro para a linha de combate, logo no mês que fazia aniversário e no dia primeiro daquele mês tomou a primeira quantidade de álcool que o fez ter dor de cabeça, foi chamado para combater exatamente no dia do aniversario de Namjoon e aquele foi o pior presente que o mais velho ganhou em toda a sua vida, foi uma comemoração com gosto de despedida onde os dois beberam e foram ao cinema novamente, mesmo que Jeongguk tivesse ainda um dia para organizar seus objetos pessoais mais importantes, Namjoon não conseguiu aparecer para se despedir oficialmente. Jeongguk disse adeus ao casal que lhe acolheu e eles pareciam preocupados, se despediu do irmão mais novo e disse que aquilo era por ele e que o amava mais do que tudo, dentro de pouco tempo os dois voltariam para casa com boas novas.

 Em outubro do ano de 1918 a guerra já estava acabando, a maioria dos soldados já podia sentir o gosto do retorno e Jeongguk nunca se sentiu tão completo por contribuir para um futuro melhor mesmo depois de ter visto o sangue inimigo tão perto. Faltava muito pouco quando os inimigos bombardearam a trincheira onde ele estava e uma granada sem pino foi a ultima coisa que viu.

x

“28 de Agosto, 1924

Querido amigo,

Essa não é a primeira carta que lhe escrevo, assim que você se foi eu escrevi várias delas, tenho todas arquivadas aqui comigo pois tive receio de enviá-las.

Eu cuidei de seu irmão, o tirei daquela família assim que ele começou a se tornar um homem, ele ainda é um sujeito frágil mas agora está com a família verdadeira no interior, pessoalmente o entreguei nos braços de sua mãe e ela é amável como você sempre disse que ela era, me acolheu com uma torta de maçã quando eu disse ser um amigo teu. Faço questão de enviar uma quantia de dinheiro satisfatória para eles mensalmente, ofereci lugar aqui na capital mas eles preferem a calmaria do interior e eu não os julgo por isso.

Esqueci aquelas historias de socialismo e tudo acabou se tornando uma linda utopia para mim, amadureci e me tornei o dono daquela empresa que te rejeitou logo quando você e seu irmão mais precisaram. Tornei-me um capitalista e espero que não tão explorador quanto meu falecido pai.

Sobre meu presente, não tive filhos e também não me casei; nunca encontrei uma mulher que fosse importante pra mim a ponto de me fazer pensar em morrer distante dela e houveram inúmeras tentativas até de casamentos arranjados, eu não poderia fazer aquilo e me deixar cada vez mais infeliz até deixar minha companheira infeliz.

A verdade é que sempre fui um covarde que se escondia atrás de bebidas e livros ideológicos, nunca tive coragem de dizer o quanto que aos poucos (embora subitamente) você se tornou uma das pessoas mais importantes para mim, o jeito que chegou sem saber nada e ainda assim sabia muito mais do que meus olhos hoje cansados nunca viram, todo o seu carinho para com teu irmão, como você se encantava com as coisas que eu dizia sobre minha adolescência e éramos de universos tão diferentes. Você tinha algo por lutar e eu o deixei ir, não sei se depois de quase dez anos eu me arrependa de não ter feito nada, aquele era teu sonho e você conseguiu, não existe mais guerra e estamos nos reerguendo, seu irmão e sua família estão bem.

Sim, algo dentro de mim floresceu quando conheci um jovem que entendia e aceitava os meus ideais, um jovem que eu podia mostrar o pouco que eu conhecia e esse jovem era você, mas agora isso murchou e eu tentei lidar com essa tristeza por anos, te esperei e vi outros voltando até compreender que o Jeongguk que conheci só estava vivo em meu imaginário.

Não me alimento mais tão bem quanto deveria e agora só o absinto faz com que eu me sinta mais perto de ti.

Devo confessar que deixei mais de metade de todo o meu dinheiro com sua família semana passada, espero que renda e seu pai sabe administrar as coisas melhor do que você pensa, ele saberá o que fazer.

Com amor,

Namjoon”

Essas foram as ultimas palavras antes do projetil atravessar seu coração.

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Março de 2016.

Jeongguk acordou de um sonho que não se lembrava, só restou o sentimento de medo, ignorou isso e se arrumou pra mais um dia típico de veterano do ensino médio.

No outro lado da cidade, Namjoon pegava o trem com direção à faculdade, cursava economia no período da manhã e enquanto cochilava no vagão podia sentir o gosto amargo do período de sociologia que teria assim que chegasse à sala de aula. Odiava as quintas-feiras.


Notas Finais


OS CARAS COLOCARAM ARTE NO MV FOI PRA QUEBRAR MINHAS PERNAS
Deus sabe como eu tava evitando escrever uma namkook mas a dona @jiminight não me deixa desistir das coisas (ela é madrinha dessa criança) e esse couple não é lá meu favorito, mas jikook me esqueceu em museu :<

Alguns pontos importantes sobre esse capitulo:
O êxodo foi >>depois<< da primeira guerra mundial mas resolvi inverter pra dar mais sentido e colocar aquele drama;
28 de agosto de 1924 realmente foi uma quinta-feira;
Muitas coisas aqui não são muito relevantes para entender os próximos capítulos MAS muitas coisas terão uma explicação contemporânea logo no próximo capitulo;
Não encontrei muita coisa sobre a Belle Époque, queria ter feito algo bem mais detalhado :(
Tecnicamente esse capitulo é na europa mas o que tem a ver o nome asiático? Meros detalheskkkkk

Até o próximo sz (e buy wings on itunes)


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