História Adormecido - Capítulo 1


Escrita por: ~

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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Abandono, Conto, Desejo, Dor, Drama, Incesto, Insanidade, Loucura, Maldade, Medo, Mistério, Solidão
Exibições 37
Palavras 6.033
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, Mistério, Misticismo, Sobrenatural, Suspense, Terror e Horror, Violência
Avisos: Incesto, Insinuação de sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 1 - Capitulo Único


Se há algum inferno, um lugar onde os mais temíveis demônios habitem, um lugar onde a ardência é repleta de desejo e a culpa nos consome, eu chamaria este lugar de mente.

Ainda consigo me lembrar em que ano estou. 1876. E também ainda sou capaz de me lembrar do meu próprio nome. Frederick Talbot. E embora os tratamentos a que eu tenha sido exposto tiveram efeitos colaterais irreversíveis na minha mente e corpo, eu ainda sou capaz de me lembrar detalhadamente da razão pela qual estou aqui, no hospício.
Não estou sozinho aqui dentro, embora esta seja uma solitária adequada para o tipo de louco que eu sou, segundo o que dizem. Mas eu não me considero louco, apenas um pouco mais perceptivo do que as pessoas normais.

A sala é escura, e o teto é muito alto, de forma que eu sou capaz de imaginar que qualquer tipo de criatura poderia estar escondida lá em cima observando a mim e ao meu companheiro que está riscando alguma coisa na parede.

Eu grito para ele que o barulho é insuportável, ele me olha, me lança um daqueles seus sorrisos sinistros, e volta a fazer o que estava fazendo. Eu volto a me encolher no banco onde estou sentado, sentindo frio e um leve desconforto por causa daquela sensação de estar sendo observado que nunca me abandona.

É que eu sei que “ele” está vindo. Eu sei! Sei que ele gosta de se esconder no escuro, e sei que sabe tanto quanto eu, que ninguém jamais acreditará em mim quando eu lhes disser que “ele” está atrás de mim.

Então por esta razão, mesmo estando enfraquecido por causa do tratamento, eu me mantenho acordado observando o escuro ali em cima. Observando o escuro em baixo da cama. O escuro em todo lugar.

Ah, eu sempre recebo visitas constantes, mas elas sempre me causam muito mal. Me cortam com lâminas, perfuram a minha carne até que eu grite, fazendo com que eu implore para sair daqui, e então me enganam, apenas para me deixar afundar de novo.

Mas embora eles queiram me fazer esquecer do que aconteceu, aqueles médicos todos, eles jamais conseguirão o que querem. Eu sei que “ele” os está mandando fazer isto. Os está mandando vir até mim todos os dias para me fazer esquecer tudo que vi, tudo que perdi e tudo que sei. Por isto fazem todos aqueles tratamentos de psicanálise comigo.

Eu vi o inferno. Juro que é verdade. E é isto que eles querem tirar de mim. Querem me fazer esquecer. Mas não vou deixar.

O barulho nunca me abandona. Grito para o meu amigo de novo, Jacques. Grito para que ele pare de arrastar as malditas unhas na parede, porque o barulho é insuportável, mas ele se limita a rir de mim.

Ele sempre riu de mim desta mesma forma, mas antes não era ele quem fazia o barulho. É que ele também sabe de toda a história, e por alguma razão deseja me atormentar também.

Fico me lembrando de quando o conheci, e quando me lembro desta época, lágrimas me vem aos olhos. Elas ardem, estas lágrimas. Parecem ácido, e quando começo a coçar os olhos, arde muito mais.

 

Na época eu ainda tinha uma filha, uma linda moça de quatorze anos que se chamava Alice, nome que eu havia escolhido. Nós havíamos adquirido um casarão em uma pequena cidade da Inglaterra, e estávamos nos mudando.

Era uma época de infindável tristeza para nós dois, e não conseguíamos viver no antigo lugar depois dos acontecimentos trágicos que mudaram nossa vida para sempre.

A pequena cidade era um daqueles lugares onde todos se conheciam, com uma população um pouco maior do que a de um vilarejo. Um lugar de pessoas simples, um lugar onde um homem atormentado como eu poderia ter paz.

Quando visitei o lugar pela primeira vez, eu não estava com Alice. Ela havia ficado na casa de parentes, e assim como eu, precisava de um tempo sozinha.

Desta forma, vaguei por esta pequena cidade, como se guiado por forças ocultas, observando as pessoas durante uma agradável tarde de outono. Era um lugar cinzento e frio, e deste tipo de clima eu gostava. Fiquei passeando, até encontrar um lugar para beber, e foi nesta tarde que conheci Jacques.

Enquanto eu bebia, sentado observando o movimento das pessoas lá fora, este homem elegante chegou até mim. Era alto, esguio e com cabelos muito pretos. Olhos profundamente azuis, que sempre me faziam ficar perdido, como se velejasse pelo próprio mar aberto.

Seu sotaque era estranho, porém agradável, e eu me perdi em conversas com este homem. Ele era uma daquelas pessoas que dizem aquilo que todos queríamos dizer, mas não temos coragem. Ele sempre me deixava chocado com suas palavras, e em certos momentos, talvez um pouco ofendido. Mas nunca pude odiá-lo. Não, odiá-lo jamais.

As pessoas nos olhavam de forma estranha enquanto conversávamos, pois eu ria muito alto.

Quando lhe perguntei onde vivia, ele me respondeu: “Pelas redondezas do inferno”. Durante alguns instantes lhe olhei atento, mas depois comecei a rir. Eu nunca havia sido um homem muito religioso, embora acreditasse em Deus com toda a convicção de um padre.

Suas respostas eram sempre assim. Sempre dizia algo que eu mesmo havia desejado dizer em algumas ocasiões, mas havia guardado para eu mesmo. Afinal, eu era um homem que prezava a boa educação, e dar respostinhas nunca havia sido um hábito que eu admirasse. Mas em Jacques este era um traço que eu apreciava.

Eu procurei não contar muito há respeito de minha vida, mas tive a sensação de que ele sabia de algumas coisas, certamente pela maneira como eu falava. Ele não perguntava. Eu também não perguntava muito há respeito do seu passado. Falávamos sobre o presente, sobre o futuro. E ele me recomendava que adquirisse moradia ali.

Fiquei por ali uns dias, e estava particularmente interessado por aquele casarão que eu observava de longe desde que ali chegara.

Um casarão em uma colina, que parecia observar a cidade de cima, como se fosse uma espécie de deus. Um lugar cuja beleza era composta por tudo aquilo que lá não devia estar. Era escura, com aspecto fantasmagórico e parecia estar morta.

Sim, morta é a melhor forma de definir aquela casa. Quando se adentrava os altos portões de ferro, que se assemelhavam muito com as grades de um cemitério, se tinha a impressão de se estar mudando de dimensão. Era como se os barulhos que viessem da cidade ficassem para sempre limitados ao lado de fora da propriedade.

Gastei horas do meu dia observando o lugar, e quando não aguentava mais de empolgação, acabei comprando-a.

Eu não era um homem pobre. Já havia nascido com riqueza o suficiente para viver bem, e ainda o casamento havia trazido mais uma pequena fortuna para mim, de forma que eu e minha falecida esposa havíamos vivido muito bem aos redores de Londres, até que a doença lhe roubara de mim.

Foi pensando nela, Ophelia, que adquiri o casarão. Foi pensando nas suas madeixas negras como o carvão, e em seus olhos cor de âmbar, em seu misterioso sorriso e na sua forma suave de caminhar. Aquela casa teria sido do agrado dela, certamente, e ficar observando o lugar me causava certa satisfação.

Nem eu, nem minha filha conseguíamos viver na antiga moradia, tamanha era nossa dor. Ophelia havia sido uma mãe exemplar e dedicada, e a melhor esposa que um homem poderia ter. Acordar e sentir seu cheiro nos lençóis arrancava lágrimas dos meus olhos, e me trazia certo desespero.

Eu caminhava então, até o quarto de Alice e com ela me deitava. Ela entendia a razão, e chorava junto comigo.

Uma parte de mim havia morrido com Ophelia. A melhor parte de mim. A parte que era sã e consciente, e a parte que era capaz de amar.

Nos mudamos, eu e Alice. Alice que também possuía cabelos negros, mas com olhos cinzentos, a cor que vemos no céu quando uma tempestade se aproxima. Olhos lindos para uma menina linda, com o nariz mais perfeito que um ser humano poderia possuir, e com os lábios mais delicados. Já tinha seus quatorze anos, mas para mim sempre seria um bebê que eu precisava pegar no colo e aninhar.

Quando eu a observava caminhando, dormindo ou fazendo qualquer outra coisa, eu tinha plena certeza de que ela seria a última pessoa que eu amaria neste mundo. Ela era o que me mantinha vivo.

Haviam três partes de mim, e uma já havia morrido, e a parte que era apenas minha não era bonita. Era algo sombrio e atormentado. Um terreno tomado por trevas, antes abençoado pela luz delas, agora estava mais perto de se tornar escuro novamente.

Eu amei aquela casa. Amei a morte que ela representava. Amei todos os aposentos fabulosos do primeiro andar, que eu decorei com a paixão que Ophelia teria sentido ao fazê-lo. Amei os quartos grandiosos do segundo andar. Amei as janelas que pareciam olhos, que observavam a cidade lá em baixo.

E eu observava a cidade lá de cima todas as manhas e todas as noites, sempre pensando nas lendas que existiam a cerca da casa, mas nunca me preocupando com elas mais do que nos preocupamos com qualquer história boba que ouvimos.

Havia apenas um problema em tudo isto. Alice odiava a casa.

Primeiro foram as reclamações sobre a escuridão do lugar, sobre o fato de ter que andar sempre carregando velas para todo o lado. Depois foram as reclamações sobre o espaço excessivo, que ela julgava ser desnecessário.

Discutimos há respeito disto, pois ela dizia que Ophelia jamais gostaria de morar em um lugar tão grande, e disse que eu estava mascarando meu desejo pela casa, usando do nome dela.

Lhe bati no delicado rosto. Um tapa que deixou mais marcas na alma do que na frágil pele. A tempestade se formou em seus olhos, e escorreu lentamente em forma de lágrima.
Ela se trancou no quarto naquela noite, magoada comigo, que jamais havia levantado a mão para ela antes. E antes que eu pudesse pensar em qualquer coisa, alguém bateu a porta.

Era Jacques, usando um terno preto, mas recusando a cartola. Um sorriso amistoso ao rosto, com um leve toque de bizarro. Ele logo perguntou se tudo estava bem, e eu lhe respondi que eram problemas familiares. O convidei para entrar e bebemos juntos enquanto falávamos sobre diversas coisas.

Mencionou o fato de eu ter escolhido muito bem, pois aquela certamente era uma casa com história. E eu curioso, lhe perguntei há respeito.

Naquela sala iluminada apenas pelas velas ao nosso redor, a história se tornou perturbadora. Era talvez a maneira como ele descrevia o modo em que o antigo proprietário, que havia vivido muitos anos antes, sofrendo de uma perturbação profunda na mente, havia encontrado a morte por meio de suicídio, logo ao pé da escada.

Pelo que eu pude entender sobre a história que meu amigo contou, alguém havia vivido ali antes, e este homem era muito ligado a própria mãe. Mesmo em idade adulta temia o escuro mais do que tudo, de forma que a mãe buscava sempre iluminar a casa para ele. Mas quando a mãe faleceu, ele não pode suportar a escuridão e a solidão, e deu fim a própria vida.

A história me deixou bastante intrigado, mas logo depois de contá-la, Jacques foi embora. Fiquei sozinho naquela sala escura, pensando que talvez a situação do homem fosse quase semelhante a minha. Sem Alice eu não teria razões para viver, e seria insuportável. Mas eu ainda não temia a escuridão.

Pensei também que quando um casal que se ama vive a vida inteira sem filhos, quando um morre, a vida do outro pode terminar em paz também. Mas o filho sempre é a corrente que vai prender aquele que sobreviveu.

Isto me levava a pensar que preferia ter morrido no lugar dela. Preferia isto do que viver sem a minha Ophelia. Sem ela tudo era tão escuro …

Fiz as pazes com a minha filha. Ou pelo menos foi o que pareceu, já que ela era uma menina amedrontada e vinha sempre para a minha cama no meio da noite.

Eu conversava com Jacques frequentemente. Ele sempre aparecia por ali. E eu o levava até a sala e ficávamos conversando durante horas. Alice nunca descia, e mesmo quando fazia, ficava tímida demais para se mostrar, e logo corria para o quarto.

Com o passar dos tempos, parecia que ela tinha medo de mim. Talvez fosse por causa do tapa que eu havia lhe dado, ou talvez fosse pelo meu crescente fascínio há respeito da história da casa, de modo que eu ficava horas trancado no sótão lendo os escritos dos antigos moradores. Estas histórias me deixavam cada vez mais perturbado e fascinado. Eu começava a acreditar no que Jacques me contava. Toda a história ia fazendo sentido aos poucos, para mim.

No café da manha eu conversava com a minha Alice, que sempre estava deslumbrante. Ela sentava-se a mesa e comia em silêncio. Outrora havia sido uma menina tão falante.

Ela me olhava com suspeita, mas eu lhe sorria sempre.

As minhas conversas se resumiam a lhe contar há respeito da casa. Histórias que a deixavam desconfortável, pois ela odiava saber que pessoas haviam morrido ali. Ela ainda tinha medo. Embora nas últimas noites estivesse se mantendo afastada da minha cama.

Eu descia até a cidade de vez em quando e ficava ouvindo as conversas das pessoas. Mas principalmente, eu ficava observando a casa lá longe na colina. Ah, ela se erguia tão soberana, tão linda. Como Alice poderia dizer que minha Ophelia não gostaria de tal lugar? Era uma representação perfeita dela. Majestosa, soberana, e dotada de beleza sem igual.

Os moradores conversavam há respeito, mencionando o fato de que sempre tiveram medo de se aproximar, tamanhas eram as histórias que se contavam. Me olhavam de forma estranha, pois agora eu vivia lá. Alguns até me perguntavam se não havia algo estranho, mas eu sempre lhes respondia que não.

Claro que a história me deixava chocado. E se eu já estivesse sendo vítima de pesadelos horríveis desde a morte de Ophelia, saber aquelas coisas não estava me ajudando nenhum pouco. Todas as noites eu sonhava e acordava desesperado. E desejava mais do que tudo que minha Ophelia estivesse ali comigo. Eu gritava por Alice nessas ocasiões, mas ela temia sair do seu próprio quarto.

Havia algo errado com a minha filha.

Certo fim de tarde, eu estava sentado em minha poltrona favorita na sala, observando a belíssima escada envernizada, quando como que em um sonho, Alice desceu. Passos lentos, passos de alguém que está perscrutando. Fiquei olhando para ela, que estava tão linda naquele seu vestido cinza. O cinza que era uma das cores favoritas de Ophelia. E com um laço roxo nos cabelos negros, da mesma forma que Ophelia usava.

Durante alguns instantes eu não pisquei, pois o que eu via ali era a imagem perfeita da mulher que havia sido minha esposa e companheira durante quase quinze anos. Mulher que eu amara de forma incondicional, mulher que eu adorava mais do que eu poderia ter adorado o próprio Deus.

Lágrimas me vieram aos olhos, e eu não consegui segurá-las. A última vez que vi minha Ophelia, a cena jamais sairia da minha cabeça, ela deitada em seu leito com a pele outrora branca como um creme levemente pálido, havia se tornado cinzenta, desprovida de vida. Os olhos ao redor estavam se tornando negros, e a vida estava se esvaindo. Ela morreu olhando para mim, eu segurando forte a sua mão, e gritei e chorei mais do que um bebê poderia fazer em um momento de desespero. Com a alma manchada e abandonada, totalmente escurecida, eu não podia soltá-la. Mas soltei.

E agora Alice havia se tornado Ophelia. Eu a olhava boquiaberto, mas ela não havia me notado, descia as escadas de forma despreocupada. A casa era tão escura que ela não me veria em meio as sombras. Eu não quis me revelar, com medo de que ela fosse embora.

Ela foi até a porta e saiu, sem me comunicar nada. E logo em seguida fui para a janela observar o que ela fazia, mas ela apenas ficou passeando ao redor da propriedade, se distraindo com as árvores antigas e com a paisagem, da mesma foma que faria sua amada mãe..

E sentado na poltrona, eu me perguntava: “Mãe e filha poderiam ser assim tão parecidas?” Deveriam ser assim? Uma lembrar a outra de forma tão completa que poderia confundir? A cada dia que passava, Alice se tornava Ophelia, e a cada dia que passava, meu fascínio se tornava maior. Eu fazia anotações em meus diários, especificando cada mudança no comportamento dela, e comparando com o de minha falecida e amada esposa.

Até mesmo uma vez em que Jacques estava comigo na sala, ela havia entrado e ficado parada me olhando daquela forma intimidadora que Ophelia olhava para as pessoas. Não cumprimentou Jacques e foi logo para cima.

Contei a ele o que estava acontecendo e ele riu de mim, mas seus pensamentos a cerca do assunto me fascinaram, de qualquer forma.

Ele me contava sobre a força que tinha o espírito humano, e sobre o desejo aparente que alguns tinham de permanecer aqui mesmo após o chamado divino. Me contou sobre as possessões, sobre os espíritos malignos que tomavam conta de um corpo humano e se recusavam a deixá-lo.

Eu ouvia todas as histórias com fascínio, e quando ele me deixou, eu tinha certeza de algo: Ophelia estava tentando voltar para mim, e havia escolhido o mais perfeito corpo. Justamente aquele que era parecido com o dela.

Eu apenas queria descobrir se ela já havia retornado totalmente. E sei que mesmo assim, seria tudo muito confuso, pois isto estava ligado a uma espécie de fusão de dois núcleos espirituais, ambos contendo suas próprias memórias e desejos. Era esta a razão da súbita mudança de comportamento de Alice, e os hábitos peculiares que ela havia adquirido.

Naquela mesma noite, acordei com ela batendo a porta, perguntando se estava tudo bem comigo. Não entendi, mas fui até ela, que estava apavorada. Disse ter ouvido barulhos estranhos vindos desse lado do corredor. Eu não havia escutado nada, fiquei ouvindo a descrição que ela deu sobre o som, dizendo que era como se alguém arrastasse algo pela parede.

Nesta noite, ela dormiu comigo.

E enquanto ela descansava profundamente, com o peito subindo o descendo, e os lábios entreabertos, eu tinha certeza de que estava assistindo minha amada dormir. Fiquei observando-a com fascínio a noite inteira, passando a mão pelo seu cabelo, pela linda face e pelo corpo.

A apartei forte contra mim na hora de dormir.

E nos dias que vieram depois deste, eu ficava sempre a lhe observar. Ia até a porta do seu quarto e ficava parado olhando para ela, que normalmente estava a cama lendo algum livro, hábito este que Ophelia possuía também.

Ela me olhava de forma estranha, não parecia o olhar de uma filha, e na verdade, se hoje bem me recordo, não parecia um olhar nada emotivo. Ela ainda tinha medo de mim.

Mas cada vez mais a ideia, aquele pensamento se tornava vivo em mim. Eu já não acreditava que minha filha habitava aquela casa, apenas ficava lhe observando com fascínio crescente.

Durante a noite, ela reclamava dos barulhos. Todas as noites ela reclamava muito sobre os barulhos. E mesmo que estivesse com certo receio, o seu medo a fazia deitar-se perto de mim. E eu ficava lhe adorando enquanto dormia. Eu amava isto demais, vê-la deitada perto de mim novamente. Ophelia e não Alice. Pois eu tinha certeza que aquela que havia sido a minha filha, não existia mais, ou existia de forma diminuta, com personalidade fundida a uma outra mais forte.

E eu acreditava que o seu medo, o seu modo estranho de agir estava ligado ao fato de que ela não compreendia o que lhe havia acontecido.

Eu admirava a mim mesmo em segredo por ter adquirido aquele casarão. Sem ele nada disto teria sido possível. Meus sonhos de ter Ophelia de volta nunca poderiam ter se tornado reais. Aquela casa possuía algo adormecido em seu interior, da mesma forma que os homens carregam seus próprios demônios, ela o faz também.

E eu sabia que aqueles barulhos que ela ouvia todas as noites, estava ligado diretamente a este fato. Havia sido assim que acontecera com a família no passado. A história não era tão simples como acreditavam. Estava lá nos diários do antigo morador.

Ele também sabia sobre o demônio adormecido. Ele também sabia que a coisa estava presa no solo do porão, e que se manifestava nas paredes da própria casa. E esta coisa, de forma indireta, estava realizando meus desejos, estava trazendo a minha Ophelia de volta para mim, e em troca, eu deveria libertá-lo.

Havia acontecido o mesmo com os antigos moradores, mas ele não havia tido coragem para libertar a coisa, havia enlouquecido no meio do caminho, havia descoberto que o demônio estava habitando o corpo de sua própria mãe, e então a matara. Para matar o demônio ele a matara lá em baixo no porão, e antes de se suicidar havia escrito as últimas páginas do seu diário contando a história.

E eu sabia que aquilo tudo era real. Eu tinha certeza, e Jacques acreditava em mim também. Ele que habitava pelas redondezas do próprio inferno, do meu inferno interior, havia me ajudado a descobrir tais segredos.

Na noite posterior a esta, ela se recusou a vir até minha cama. Naquela noite, eu acordei ouvindo os barulhos, horríveis barulhos, como se unhas fossem arrastadas pela parede com força. Saltei da cama e cruzei o quarto, mas o barulho havia parado. Ela provavelmente tinha ouvido, mas se recusou a vir até meu quarto. Fiquei esperando-a, esperando o meu amor, mas ela não veio até mim.

Cruzei o corredor escuro, com apenas uma vela em mãos, e cheguei até a porta do seu quarto. Estava trancada, e eu tive que insistir para que ela abrisse. Calafrios percorriam todo o meu corpo, eu me sentia observado. Mandei que a criatura se calasse, alegando não ter medo dela.

Minha adorada abriu a porta e ficou me olhando com espanto, perguntando com quem eu estava falando. Eu entrei e a ergui nos braços e a levei até sua cama. A vela estava na mesa de cabeceira. Deitado com ela na cama, eu sentia o seu cheiro forte, e na minha mente, aquele cheiro era praticamente idêntico ao de minha Ophelia.

Eu não precisava de mais provas do que isto, a pilha de livros ao redor da cama, os hábitos, e o cheiro … tudo era igual. Tudo era absolutamente perfeito. Cheirando a sua orelha, eu a beijei. Ela se estremeceu e virou olhando para mim, perguntando o que eu estava fazendo. Segurei-a pelos ombros e a beijei nos lábios, apertando o pequeno corpo contra mim, com toda a intensidade com que eu a beijava enquanto estava viva em seu próprio corpo.

Eu senti o desejo ardente percorrer meu corpo inteiro, ela me empurrava com vacilo enquanto eu lhe passava a mão pelo corpo.

Quando se livrou do meu beijo ela perguntou o que eu estava fazendo, se eu estava louco, que não bastava eu falar sozinho todos os dias, e que não bastava eu mesmo ficar arranhando as paredes do quarto, eu ainda estava lhe chamando pelo nome de sua mãe.

Eu ignorei suas palavras e voltei a beijar seu pescoço, pois a pele jovial me fascinava, e eu sabia que ela estava tomada pelo desejo também, mas havia algo muito errado. Ela continuava a me chamar de pai. Por que Ophelia me chamaria de pai, a menos que as personalidades não estivessem completamente fundidas, a menos que a parte que era a minha filha ainda fosse mais forte do que a de minha mulher.

Fiquei olhando para ela, que também me olhava apavorada e ofegante. Eu não me arrependia do que tinha feito, mas tampouco conseguia me orgulhar. Um desejo adormecido havia tomado conta do meu corpo, mas isto estava tão errado! Era tão diabólico que ela tivesse conseguido me seduzir …

E então percebi, enquanto as chamas da vela iluminavam os seus olhos. Percebi que eram cinzentos e não na cor do âmbar. Que criatura na terra possuiria olhos tão cinzas assim? Tão tempestuosos. Saltei da cama, pois agora eu estava com medo dela.

Ela pediu para que eu voltasse, pois estava com medo. Ela implorou para que eu voltasse, mas eu a chamei de mentirosa. Ela ficou chorando enquanto eu corria pelo corredor em direção ao meu quarto, mas parei.

Eu estava ouvindo os barulhos de novo, e tinha certeza de que vinham do quarto dela. Sim! Após esse tempo, após eles todos tentarem arrancar isso de mim, eu ainda me lembro. Os barulhos estavam vindo do quarto dela!

Desci as escadas correndo, temeroso, e fui até o porão. Eu sabia que lá ela não iria me procurar. Ela não entraria no porão.

Fiquei observando os móveis antigos guardados, a prateleira dos vinhos, as pesadas vigas de madeira que sustentavam a casa. Tudo isto perdido em meio a escuridão. E ali era a parte mais escura da casa que já era muito escura.

Voltei a ouvir os barulhos, e não estavam vindo do porão, como deviam estar. O demônio adormecido deveria estar ali! Ele não devia estar lá em cima. Não podia. Eu não o havia libertado!

Ouvi alguém bater a porta, e para lá corri. Era Jacques, vestido esplendorosamente como sempre. Lhe abracei, como se agradecesse pela sua presença e o trouxe para dentro, falando de forma preocupada e temerosa o que havia acontecido. Ele concordou comigo há respeito da estranheza dos fatos, e me aconselhou quanto ao que eu deveria fazer.

Eu sabia que havia algo errado com minha filha desde o momento em que ali cheguei. E havia acreditado que minha Ophelia tentava voltar para mim, mas descobri naquela noite que não. Os olhos da criatura a denunciaram, ela não pode me enganar. Eu sabia agora que o demônio adormecido havia se libertado e havia se manifestado sobre ela, da mesma forma que fizera sobre a mãe do antigo morador.

Chorei quando fiz tal descoberta, levando as mãos até o rosto. Elas doíam tanto, as minhas mãos. Eu sabia que precisava conseguir uma forma de destruir a criatura. Ela havia tentando me enganar, havia tentando se fazer passar por Ophelia, a mulher mais fascinante que já existiu, e isto eu não poderia perdoar.

Jacques foi para o porão, e disse que eu deveria levar o monstro até lá. Foi a coisa mais difícil que fiz na vida, subir aquelas escadas, sabendo que eu iria me confrontar com o mal encarnado naquele quarto. Sabendo que eu iria me confrontar com a coisa que um dia havia sido a minha filha.

Entrei no quarto suando, a porta ainda estava aberta e as velas ainda estavam acessas. Ela estava sentada aos pés da cama olhando para mim com seus olhos cor de tempestade. Lágrimas lhe escorriam pelo rosto, e os lábios estavam entreabertos. Uma cena de partir o coração. Me olhava da mesma forma que me olhou quando a bati. Parecia desesperada, com as mãos pousadas sobre o colo. A camisola ainda estava com as alças para baixo por causa dos meus toques, e eu me peguei sentindo desejo por ela novamente. Mas não era um desejo que o homem sente pela mulher, algo puramente carnal. Isto era outra coisa. Era um amor tão grande, uma vontade tão grande de fazê-la sentir coisas boas, uma vontade de beijá-la apenas porque esta era a maior carícia que um ser poderia fazer em outro. Eu apenas queria lhe fazer carinho de forma despreocupada. Eu precisava expressar todo este meu amor.

E quando eu caminhava na direção dela, tomei consciência de que estava me deixando seduzir por ela novamente. Que o amor que eu sentia por ela, na verdade era o amor que eu sentia pela minha filha que um dia habitara aquele corpo. Aquilo era o demônio!

Olhei com fúria, e ela me devolveu um olhar de medo. Me disse: “Pai, por favor.” E disse que me amava. Disse para irmos embora da casa, que era aquele ambiente deprimente que estava me fazendo mal. Mas eu sabia! Eu sabia que era o que o demônio queria. Sair da casa. Se libertar no mundo.

Eu ri dela, perguntando se teria mais força do que eu, tendo em vista que não era mais humana. Avancei em sua direção e a segurei pelo pescoço. Minhas mãos quase o quebraram, de tão frágil que era. Ela se engasgou e começou a soluçar e lutar para respirar. Tentou me empurrar, arranhou meu rosto, mas eu lhe bati na face. Ela caiu sobre a cama e tentou fugir engatinhando, sangrando, eu fui atrás dela, mas ela não poderia fugir por aquele lado do quarto. A menos que se jogasse pela janela!

Corri até ela, que estava tentando abrir a janela, ela me empurrou, eu a segurei e acabamos caindo sobre a mesa de centro. As velas fizeram um pequeno incêndio começar nos lençóis. Eu acreditava que era este o poder do demônio. O fogo!

Ela gritava e chorava, pedindo “por favor”. Eu lhe segurei com toda a força que tinha, chorando também. Eu chorava por alguma razão, e devia ser porque eu estava machucando a minha própria filha. Odiei o demônio com mais ódio do que qualquer um poderia odiá-lo.

Gritei ficando em pé com ela presa a mim, e a levantei e corri. O quarto estava em chamas. Eu estava dentro do inferno. Juro que estava.

Desci as escadas e ela gritava, implorando para que eu a soltasse, alegando que me amava, que devíamos sair dali. Que não havia demônio algum, e chegou a alegar que o antigo morador era apenas um escritor de contos. Que toda a história era mentira. Que não havia nada de errado com a casa.

Quando descia as escadas para o porão, percebi um forte cheiro de querosene. Jacques devia ter feito alguma coisa. Lá tudo ainda estava escuro e eu a joguei no chão. Ela caiu, e a primeira coisa que fez foi se colocar de pé. Me olhou com ódio e mágoa, algo que poderia destruir o coração de qualquer pai.

Gritou que eu estava enlouquecendo, que eu tinha alguma doença e que precisava de tratamento. Disse que eu conversava sozinho todas as noites na sala, e que agora havia passado dos limites.

Eu não podia deixar que o demônio me convencesse. Peguei um antigo machadinho que havia ali, e quando fiz isto ela me olhou com espanto e medo. “É isso mesmo que vai fazer?” Perguntou entre lágrimas.

“Não tente me ludibriar, criatura!” Eu gritei.

Avancei na direção dela e quando a golpeei, ela levantou as mãos para se defender. O golpe quebrou seu braço e ela gritou.

Eu gritei também, pois foi como se eu tivesse atingido a mim mesmo. Vacilei na hora de lhe bater de novo, meu deus, ela estava no chão sangrando, e era a criatura mais bela da terra. Estava tão escuro. Eu sabia que o demônio habitava ali porque era o lugar mais escuro.

Tentei me prender a possibilidade de a criatura ter saído dela, mas lembrei-me do acontecido com o antigo morador, que o demônio também havia tentando lhe ludibriar da mesma forma.

Eu não conseguia desferir o último golpe, e foi então que Jacques apareceu. Falando que eu deveria ascender o fósforo, que eu deveria queimar a casa e acabar com isto para sempre. Somente assim eu poderia destruir o demônio.

Enquanto eu olhava para Jacques, ali no escuro, ela se levantou e fugiu de mim. Ele mandou que eu a perseguisse, e fui isto que eu fiz. Lhe bati com o machado, pois certamente ela era o demônio, e o golpe foi certeiro do lado do pescoço. Ela caiu sem gritar na escada, e o corpo deslizou. Eu chorei tanto enquanto a trazia para baixo. Eu estava no inferno ali dentro, e quando ascendi o fósforo e o joguei no querosene, eu sabia que o inferno estava ali mesmo. Tudo se tornou ardente, meus olhos não podiam suportar olhar tal lugar. Corri para a escada e subi, enquanto o fogo consumia a madeira da mesma forma que a culpa me consumia. E me lembrei que havia esquecido o corpo dela lá em baixo, em meio as chamas.

Lá em cima, Jacques me aconselhou a queimar a casa ali em cima também. O fogo já havia se espalhado pelo segundo andar. Eu fiz o que ele disse, tendo a certeza de que isto era por um bem maior do que eu. O fogo se espalhou rápido, e pouco tempo depois ouvi barulho no portão. Pessoas entravam, e eu sabia que elas não deviam abrir a porta, não antes do demônio ser consumido completamente. Não antes disso. Tentei bloquear a porta, mas eles eram muitos. Jacques havia sumido. Fui atirado ao chão, e eles me arrastaram para fora, e perguntavam apenas onde estava a minha filha. Eu gritava para eles não deixarem o demônio escapar. Ainda era noite lá fora, e ele gostava do escuro. A porta estava aberta. Ele fugiria!

Quando perceberam que o fogo havia começado por minha causa, e viram o sangue em mim, não deixaram que eu me soltasse. Me bateram. Não pude revidar, pois eram muitos.

“Ela arde no porão!” Eu gritei.

Eles tentaram acabar com o fogo, mas não foram capazes. O inferno ardeu naquela noite, e quando me arrastaram para a cidade, eu via a casa arder como um grande farol ao longe. Era lindo demais. O fogo se espalhando pela grama. Pena que meus olhos doíam por causa dos golpes que eu recebera.

Todos me olhavam de forma horrível, e eu lhes gritava que o demônio havia sido libertado por causa deles. Todos assistiam.

E foi assim que fui trazido para cá. Fui dado como louco, acreditam? As pessoas nunca são capazes de acreditar no sobrenatural, e nem mesmo eu era antes de conhecer aquela casa. O demônio adormecido havia sido libertado por causa deles, que me impediram de destruí-lo.

Eu sabia que ele viria atrás de mim. Todas as noites eu sonhava com Alice e com Ophelia, minha família, e no sonho ainda vivíamos felizes aos redores de Londres.

Não havia mais nada para mim neste mundo, mas eu não podia acabar com minha própria vida ainda, não antes de destruir aquele demônio que acabou com a minha tudo o que eu tinha.

Jacques sempre alega que o demônio vive no nosso interior, mas não acredito nele. Ele sim que ficou louco depois do que aconteceu. Nunca me abandona, e fica aqui fazendo aquele barulho infernal para que eu ouça. E depois ainda quem leva a culpa sou eu.
Um dia conseguirei escapar daqui, um dia eu ainda conseguirei destruir o demônio. Não permitirei que eles arranquem a história de mim, as memórias. Isto não permitirei.

Mesmo com medo, continuo a viver pensando nelas, e a culpa nunca deixará de me consumir.

Neste momento, Jacques atravessa o quarto e senta ao meu lado no chão, Ele gosta que eu leia para ele antes de dormir, e eu o faço de bom grado para distrair minha mente. A história favorita dele é aquele conto que fala há respeito de um grande casarão, onde um pai enlouquecido assassina a própria filha. Não sei porque ele gosta tanto desta história, deve ser porque um dos personagens carrega o nome dele. E é difícil explicar para ele que o Jacques da história não existe de verdade, que é apenas uma criatura criada pela mente psicótica do protagonista.

Assim, eu adormeço enquanto leio para ele, e volto a ter meus pesadelos. Pois se há um lugar para ser chamado de inferno, este lugar é a nossa mente. Aquele lugar onde os demônios habitam, onde o desejo é ardente e a culpa nos consome.

O inferno está adormecido em mim.



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