História AFTER (Vol.1) - Capítulo 35


Escrita por: ~

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Categorias After, Amor Doce
Personagens Ambre, Castiel, Debrah, Lysandre, Nathaniel, Rosalya, Viktor Chavalier
Tags Amor, Brigas, Intenso, Mentira, Romance, Tatuagens, Traições
Visualizações 304
Palavras 5.802
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Comédia, Crossover, Drama (Tragédia), Famí­lia, Festa, Ficção, Poesias, Romance e Novela, Suspense
Avisos: Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 35 - Capítulo 34


Deixo de lado o livro e vejo as horas no telefone. É pouco mais de meia-noite, então acho melhor dormir. Castiel tentou me atrair para a cama um pouco mais cedo, dizendo que não conseguia dormir sem mim, mas me mantive firme e o ignorei até ele desistir.

Estou quase pegando no sono quando o ouço gritar: - Não! – Pulo do sofá sem pensar duas vezes e vou correndo para o quarto. Ele está se debatendo sob o cobertor pesado, todo suado.

- Castiel, acorda. – Digo baixinho, e o sacudo pelo ombro, afastando com aoutra mão uma mecha de cabelo que o suor fez grudar em sua testa.

Ele abre os olhos cheios de terror.

- Está tudo bem... shh... foi só um pesadelo. – Faço o melhor que posso para acalmá-lo. Meus dedos passam por seus cabelos e depois pelo seu rosto.

Castiel está tremendo quando subo na cama e o abraço por trás. Sinto que relaxa quando encosto meu rosto em sua pele suada.

- Por favor, fica comigo. – Ele implora. Solto um suspiro e fico em silêncio, abraçando-o com mais força. – Obrigado. – Ele sussurra, e em questão de minutos já está dormindo de novo.

 

A água quente não é suficiente para relaxar a tensão dos meus músculos, por mais que fique debaixo do chuveiro. Estou exausta por causa da noite maldormida e da frustração com Castiel. Ele estava dormindo quando entrei no banho, e rezo para que continue assim até eu sair para ir à editora.

Infelizmente, minhas preces não são atendidas, e ele está de pé ao lado do balcão da cozinha quando saio do banheiro.

- Você está linda hoje. – Castiel diz com a maior tranquilidade.

Reviro os olhos e passo direto por ele para tomar uma xícara de café antes de sair.

- Não vai falar comigo?

- Agora não. Preciso ir trabalhar, e não estou a fim de papo. – Esbravejo.

- Mas você... dormiu comigo. – Ele argumenta.

- É, mas só porque você estava gritando e tremendo. Isso não significa que está tudo perdoado. Preciso de uma explicação para isso tudo, os segredos, as brigas, e até os pesadelos, ou então chega. – Fico surpresa comigo mesma ao dizer isso.

Castiel solta um grunhido e passa as mãos pelos cabelos.

- Abby... não é tão simples assim.

- Na verdade é. Confiei em você o suficiente para cortar relações com minha mãe e vir morar com você depois de pouquíssimo tempo de namoro.

Você deveria confiar o suficiente em mim para contar o que está acontecendo.

- Você não vai entender. Sei que não. – Ele diz.

- Tenta.

- Eu... e-eu não consigo. – Ele gagueja.

- Então não posso mais ficar com você. Sinto muito, mas você teve inúmeras chances, e mesmo assim... – Começo a dizer.

- Não diz isso. Nem pensa em me abandonar. – Seu tom de voz é raivoso, mas em seus olhos só vejo dor.

- Então me dá uma resposta. O que acha que eu não vou entender? É sobre seus pesadelos? – Pergunto.

- Diz que não vai me abandonar. – Ele pede.

Manter uma postura firme com Castiel está se revelando muito mais difícil do que eu imaginava, principalmente quando fica assim tão abalado.

- Preciso ir. Já estou atrasada. – Digo antes de ir para o quarto me trocar com a maior pressa que consigo. Parte de mim fica contente por ele não ter me seguido, mas a outra parte gostaria que ele tivesse.

Castiel ainda está parado de pé na cozinha, sem camisa, segurando a caneca de café na mão, quando saio.

Fico pensando no que ele me disse hoje de manhã. O que acha que sou incapaz de entender? Jamais o julgaria por nada que pudesse lhe causar pesadelos. Espero que seja sobre isso que estava falando, porque não consigo ignorar o fato de que estou deixando passar alguma coisa bem óbvia nessa história toda.

Fico me sentindo culpada e tensa quase toda a manhã, mas então Rosalya me manda um e-mail com links para vídeos engraçadíssimos no YouTube, e meu humor muda. Na hora do almoço, já quase me esqueci dos problemas de casa.

Desculpa por tudo. Por favor, volta depois do trabalho. A mensagem de Castiel chega quando estou sentada com Rosalya comendo uma cesta de muffins que alguém mandou para Leigh Vance.

- É ele? – Ela pergunta.

- É... – Eu digo. – Falei um monte, mas por alguma razão estou me sentindo muito mal. Sei que estou certa, mas você precisava ter visto a cara dele hoje de manhã.

- Que bom, assim aprende. Ele contou onde estava?

- Não, o problema é justamente esse. – Solto um grunhido e como mais um muffin.

Responde, Abby, por favor. Eu te amo. A segunda mensagem chega minutos depois.

- Responde logo para o coitado. – Rosalya abre um sorriso, e eu balanço a cabeça.

Vou voltar, respondo.

Por que é tão difícil manter uma postura firme com ele? O sr. Vance deixa todo mundo sair pouco depois das três, então decido passar em um salão de beleza para cortar os cabelos e fazer as unhas para o casamento de amanhã.

Espero que esteja tudo certo entre mim e Castiel até lá, porque a última coisa que quero é arrastá-lo de mau humor para o casamento do pai.

Quando chego em casa já são quase seis horas, e recebi inúmeras mensagens de Castiel, que ignorei. Quando chego à porta de casa, respiro fundo para me preparar para o que está por vir. Vamos acabar gritando um com o outro, e então terminar, ou vamos conseguir conversar e resolver tudo numa boa? Castiel está andando de um lado para o outro quando entro. Seus olhos se voltam para a porta imediatamente, e ele parece aliviado.

- Pensei que você não vinha. – Ele fala e vem até mim.

- Para onde mais eu iria? – Respondo, e passo direto por ele a caminho do quarto.

- Eu... Bom, fiz o jantar para você.

Castiel está totalmente irreconhecível. Seus cabelos estão caídos sobre a testa em vez de penteados para trás como de costume. Está usando uma blusa cinza com capuz e uma calça de moletom preta, e parece nervoso, preocupado, quase... assustado?

- Ah... Por quê? – A pergunta é inevitável. Também visto uma calça de moletom, e a expressão de Castiel fica ainda mais aflita quando vê que não ponho a camiseta que ele deixou em cima da cômoda para mim.

- Porque sou um babaca. – Ele responde.

- É mesmo. – Respondo, indo até a cozinha. A comida está com uma cara muito melhor do que eu imaginava, apesar de não saber direito o que é — algum tipo de massa com frango, parece.

- É frango à florentina. – Ele responde, como se estivesse lendo meus pensamentos.

- Humm.

- Se não quiser não precisa... – Seu tom de voz é bem baixo. É uma situação bem diferente da habitual, e pela primeira vez quem parece estar por cima sou eu.

- Não, parece estar bom. Só estou surpresa. – Digo antes de dar uma garfada.

O gosto está ainda melhor que a aparência.

- Seu cabelo está bonito. – Ele comenta. Meus pensamentos se voltam para a última vez que os cortei. Castiel foi o único a notar.

- Preciso de respostas. – Lembro.

Ele solta o ar com força.

- Eu sei, e vai ter.

Dou mais uma garfada para esconder minha satisfação comigo mesma por me manter firme.

- Para começar, quero que saiba que ninguém a não ser minha mãe e meu pai sabem disso. – Ele diz, cutucando as casquinhas das feridas nas mãos.

Faço que sim com a cabeça e dou outra garfada.

- Certo... Bom, aí vai. – Ele diz nervosamente antes de começar. – Uma vez, quando eu tinha uns sete anos, meu pai foi até o bar em frente à nossa casa. Ele ia quase todas as noites, e conhecia todo mundo, então sabia que era uma péssima ideia entrar em alguma encrenca por lá. Mas, nessa noite, ele fez justamente isso. Arrumou briga com uns soldados que estavam tão bêbados quanto ele, e acabou quebrando uma garrafa na cabeça de um deles.

Não tenho ideia de onde essa história vai parar, mas sei que não pode terminar bem.

- Continua comendo, por favor... – Ele pede, e eu balanço a cabeça e tento manter os olhos na comida durante o restante do relato.

- Ele saiu correndo do bar, e os caras foram até nossa casa para dar o troco pela garrafada, acho. O problema era que ele não tinha ido para casa como eles pensavam, e minha mãe estava deitada no sofá, esperando por ele. – Seus olhos cinzas encontram os meus. – Assim como você ontem à noite.

- Castiel... – Eu murmuro, e seguro sua mão do outro lado da mesa.

- Então, como eles encontraram minha mãe primeiro...

Ele se interrompe e olha para a parede por um tempo que me parece ser uma eternidade.

- Quando ouvi os gritos dela, desci correndo e tentei tirar os caras de cima. Com a camisola toda rasgada, ela ficava gritando para eu sair dali... Não queria que eu visse o que estavam fazendo, mas não dava para virar as costas para aquilo, né?

Quando o vejo segurar as lágrimas, meu coração fica apertado ao pensar no menino de sete anos que testemunhou uma coisa tão horrível acontecendo com a própria mãe. Subo em seu colo na cadeira e encosto o rosto em seu pescoço.

- Resumindo, tentei tirar os caras de lá, mas não consegui. Quando meu pai entrou cambaleando pela casa, eu tinha posto um monte de curativos nela para tentar... sei lá... consertar minha mãe ou coisa do tipo. Que idiotice, né? – Ele pergunta com a boca nos meus cabelos.

Quando olho para cima, ele franze a testa.

- Não chora... – Castiel murmura, mas não consigo evitar. Não imaginava que aqueles pesadelos tivessem um motivo tão terrível.

- Desculpa ter feito você contar. – Digo em meio aos soluços.

- Não, linda... tudo bem. É bom poder falar com alguém. – Ele garante.

- Quer dizer, na medida do possível.

Castiel acaricia meus cabelos, enrolando uma mecha com os dedos, perdido em seus pensamentos.

- Depois disso, passei a dormir no sofá da sala. Assim, se entrasse alguém... eu seria o primeiro a ser encontrado. Aí começaram os pesadelos... e nunca mais pararam. Fiz terapia algumas vezes depois que meu pai foi embora, mas nada foi capaz de ajudar, pelo menos até você aparecer. – Ele abre um sorrisinho ameno. – Desculpa ter passado a noite fora. Não quero ser assim. Não quero ser como ele. – Castiel diz e me abraça com força.

Agora que tenho mais algumas peças do quebra-cabeça que é Castiel, consigo entendê-lo melhor. E, assim como minha disposição em relação a ele muda, minha opinião sobre Ken se altera completamente. Sei que as pessoas evoluem, e que hoje ele obviamente não é mais o homem que costumava ser, mas não consigo ignorar a raiva que borbulha dentro de mim. Castiel é desse jeito por causa do pai, por causa de sua bebedeira, de sua negligência, e da noite odiosa em que provocou um ataque contra sua esposa e seu filho e não estava lá para protegê-los. Não consegui respostas para todas as perguntas, mas acabei descobrindo muito mais do que esperava.

- Não vou fazer isso de novo... Juro... Diz que não vai me abandonar... – Ele murmura.

Todo direito que eu sentia de me sentir irritada se evaporou.

- Não vou abandonar você, Castiel. Não vou. – E, como ele me olha com cara de quem está precisando ouvir isso, repito a frase mais algumas vezes.

- Eu te amo, Abby, mais do que tudo. – Ele diz, e limpa minhas lágrimas.

Ficamos sentados no mesmo lugar por pelo menos meia hora antes de Castiel enfim levantar a cabeça do meu peito e dizer: - Já podemos comer?

- Já. – Abro um sorrisinho e começo a descer de seu colo, mas ele me puxa de volta.

- Não disse para você sair daqui. Só arrasta meu prato para cá. – Ele abre um sorriso.

Puxo o prato dele para perto e pego o meu do outro lado da mesa estreita.

Minha cabeça ainda está a mil por causa do que acabei de ficar sabendo, e não me sinto mais confortável com a ideia de ir ao casamento amanhã.

Sentindo que Castiel não quer mais conversar sobre sua confissão, dou mais uma garfada e digo: - Você cozinha bem melhor do que eu esperava. Agora que mostrou que leva jeito, espero que faça o jantar mais vezes.

- Vamos ver. – Ele diz com a boca cheia, e terminamos nossa refeição em um silêncio agradável.

 

Mais tarde, quando estou pondo as louças na máquina, ele aparece atrás de mim e pergunta: - Ainda está brava?

- Não exatamente. – Respondo. – Ainda estou chateada por você ter passado a noite fora, e quero saber com quem brigou e por quê. – Ele abre a boca para falar, mas eu o interrompo. – Mas não hoje. – Acho que nenhum de nós dois aguenta mais uma conversa tensa na sequência.

- Certo. – Ele diz baixinho. A preocupação em seus olhos é visível, mas mesmo assim deixo passar.

- Ah, e eu também não gostei de você ter jogado na minha cara o fato de ter conseguido o estágio para mim. Fiquei muito chateada.

- Eu sei. Essa era minha intenção. – Ele responde, sendo sincero até demais.

- Pois é. E foi por isso que não gostei.

- Desculpa.

- Não faz mais isso, certo? – Ele concorda com a cabeça. – Estou morta de cansaço. – Resmungo, em uma tentativa de mudar de assunto.

- Eu também. Acho que já podemos ir deitar. Mandei ligar a TV a cabo.

- Pensei que eu ia fazer isso. – Reclamo.

Castiel revira os olhos e se senta ao meu lado na cama.

- Você pode me devolver o dinheiro se quiser...

Fico um tempo olhando para a parede.

- A que horas vamos para o casamento amanhã?

- Quando você quiser.

- Começa às três, então acho melhor chegarmos às duas. – Sugiro.

- Uma hora mais cedo? – Ele protesta, e eu faço que sim com a cabeça.

- Não sei por que você insiste em... – Ele começa a dizer, mas se interrompe quando meu celular começa a tocar.

O olhar no rosto de Castiel quando pega o aparelho me diz imediatamente quem é.

- Por que ele está ligando? – Esbraveja.

- Não sei, Castiel, para descobrir preciso atender. – Arranco o telefone da mão dele. – Noah?- Minha voz sai baixa e trêmula, pois sinto o olhar de Castiel fuzilar o apartamento inteiro.

- Oi, Abby, desculpa ligar em uma sexta-feira à noite, mas... bom... – Ele parece estar em pânico.

- Que foi? – Insisto, porque sei que ele sempre fica hesitante em situações de estresse.

Quando olho para Castiel, ele me pede para pôr a ligação no viva-voz.

Lanço um olhar de perplexidade para ele, mas acabo fazendo isso, para que também possa ouvir.

- Sua mãe recebeu uma ligação do administrador do dormitório confirmando a multa do cancelamento do seu quarto, então ela sabe que você mudou. Falei que não faço ideia de onde você está, o que é verdade, mas ela não acreditou em mim. E agora está indo para aí.

- Para onde? Para o campus?

- É, acho que sim. Não sei, mas ela disse que vai encontrar você, e está absolutamente cega de raiva. Só queria avisar.

- Não acredito nisso! – Grito na direção do telefone, mas em seguida agradeço e desligo. Eu me deito na cama. – Que ótimo... Era só o que faltava para completar minha noite.

Castiel se apoia sobre o cotovelo ao meu lado.

- Ela não vai conseguir achar você. Ninguém sabe onde você está morando. – Ele garante, e afasta minha franja da testa.

- Ela até pode não me encontrar, mas com certeza vai atormentar Íris, interrogar qualquer um que encontrar pela frente e fazer o maior escândalo. – Escondo meu rosto entre as mãos. – Acho melhor ir até lá.

- Ou então ligar para ela e passar o endereço daqui. Na nossa casa a autoridade vai ser você. – Ele sugere.

- Você não se incomoda? – Tiro as mãos da frente do rosto.

- Claro que não. É sua mãe, Abby.

Olho para ele sem entender nada, considerando a maneira como Castiel trata seu pai. Mas, quando vejo que está falando sério, lembro-me de sua intenção de se reconciliar com a família, e acho que preciso ter a mesma coragem.

- Vou ligar então.

Fico olhando para o telefone por um tempo antes de respirar fundo e apertar o botão de chamada. Ela atende com a voz carregada de tensão, falando bem depressa. Dá para dizer que está economizando toda a raiva para descarregar sobre mim quando me vir pessoalmente. Não dou nenhum detalhe sobre a questão do apartamento nem falo que moro aqui.

Simplesmente passo o endereço de onde estou e desligo o quanto antes. Por reflexo, pulo da cama e começo a ajeitar a casa.

- O apartamento está limpo. Mal tocamos nele. – Castiel comenta.

- Eu sei. – Respondo. – Mas me sinto melhor assim.

Depois de dobrar e guardar algumas roupas espalhadas pelo chão, acendo uma vela na sala e fico esperando a chegada da minha mãe sentada à mesa com Castiel. Eu não deveria estar tão nervosa — sou uma mulher adulta capaz de tomar minhas próprias decisões —, mas sei como ela é, e com certeza vai perder a cabeça.

Meus nervos já estão à flor da pele por causa do que acabei de descobrir sobre Castiel, e não sei se tenho energia para encarar uma batalha com ela ainda hoje. Olho para o relógio e vejo que já são oito horas. Espero que não fique muito tempo, para poder ir para a cama cedo abraçadinha com meu namorado enquanto tentamos descobrir como lidar com nossa família.

- Quer que eu saia da sala um pouco para vocês terem tempo de conversar sobre tudo isso? – Castiel pergunta.

- Acho que precisamos mesmo de um tempinho a sós. – Respondo. Por mais que queira ter Castiel ao meu lado, sei que isso só vai fazer com que ela se volte ainda mais contra mim.

- Espera... Acabei de lembrar uma coisa que Noah falou. Ele disse que a multa do cancelamento do quarto tinha sido paga. – Lanço um olhar inquisitivo para Castiel.

- E daí?

- Foi você que pagou, né? – Questiono, quase gritando. Apesar disso, não estou com raiva, só surpresa e incomodada.

- O que tem? – Ele dá de ombros.

- Castiel! Você precisa parar de pagar as coisas para mim. Não gosto disso.

- Não sei por que não. Nem foi tão caro assim. – Ele argumenta.

- Você por acaso é rico e não me contou? Está vendendo drogas?

- Não, é que tenho um dinheiro guardado que nunca usei. Passei o ano passado inteiro morando de graça, então não usava meu salário para nada. Na verdade nunca tive com que gastar... mas agora tenho. – Ele abre um sorriso. – E gosto de gastar com você, então para de brigar comigo.

- Sorte sua que minha mãe está vindo para cá e só tenho energia para encarar uma briga com um de vocês. – Digo em tom de brincadeira, e ele dá uma risadinha. Em seguida, voltamos a esperar em silêncio.

Alguns minutos depois, ouço alguém bater na porta... na verdade, espancar a porta.

Castiel se levanta.

- Vou para o quarto. Eu te amo. – Ele me dá um beijinho antes de sair.

Respiro bem fundo antes de abrir a porta. A aparência da minha mãe é impecável. Seus olhos estão pintados com perfeição, o batom vermelho não tem um borrão e seus cabelos loiros estão presos cuidadosamente.

- O que você estava pensando quando saiu daquele alojamento sem me comunicar? – Ela grita logo de cara e vai entrando no apartamento.

- Você não me deu muita escolha. – Retruco, concentrando-me em manter minha respiração sob controle.

Ela se vira para me encarar.

- Como é? Como assim, não dei muita escolha?

- Você ameaçou suspender o pagamento do quarto. – Lembro, cruzando os braços.

- Então você tinha escolha, mas fez a escolha errada. – Ela rebate.

- Não, quem está errada aqui é você.

- Escuta só o que está dizendo! Olha só para você. Não é a mesma Abby que deixei na faculdade três meses atrás. – Ela faz um gesto com o braço, apontando-me dos pés à cabeça. – Está me desafiando, e até gritando comigo! Que audácia! Fiz de tudo para você chegar até aqui e agora tenho que ver você jogar tudo fora.

- Não estou jogando nada fora! Tenho um ótimo estágio que me paga muito bem, tenho um carro e notas excelentes. O que mais você quer de mim? – Grito em resposta.

Seus olhos faíscam quando ela se sente desafiada, e sua voz sai carregada de veneno.

- Bom, para começar, você podia ter pelo menos trocado de roupa quando ficou sabendo que eu vinha. Sinceramente, Abby, você está muito desleixada. – Quando olho para meu pijama, ela muda o foco da crítica. – E que história é essa de usar maquiagem? Quem é você? Com certeza não é a minha Abigail. A minha Abigail não estaria de pijama no apartamento de um marginal em uma sexta à noite.

- Não fala assim dele. – Digo entre os dentes. – Já avisei você.

Minha mãe estreita os olhos e cai na risada. Ela joga a cabeça para trás em uma gargalhada, e tenho que segurar a vontade de enfiar um tapa em sua cara perfeitamente pintada. Imediatamente reprimo meus pensamentos violentos, mas ela está abusando da minha paciência.

- E mais uma coisa. – Digo bem devagar, tranquila, tentando fazer o anúncio da forma mais calma possível. – Este apartamento não é dele. É nosso. – Ela para de rir imediatamente.

 

A mulher com quem convivi minha vida inteira valoriza tanto o autocontrole que poucas vezes a vi surpresa, muito menos perplexa. Mas agora consegui deixar minha mãe absolutamente atordoada. Sua postura está toda empertigada, e sua cara está fechada.

- O que você disse? – Ela pergunta lentamente.

- Você me ouviu. Esse apartamento é nosso, nós dois moramos aqui. – Ponho a mão na cintura para dar um efeito dramático.

- Não é possível que você more aqui. Não tem como pagar um lugar como este! – Ela desdenha.

- Quer ver o contrato de aluguel? Tenho uma cópia.

- A situação é ainda pior do que eu pensava... – Ela diz, desviando os olhos de mim, como se eu não merecesse um olhar enquanto minha vida é avaliada. – Eu sabia que você estava sendo tonta por se envolver com aquele... aquele rapaz. Mas morar com ele é idiotice pura! Você nem conhece o sujeito! Não conhece os pais dele... Não tem vergonha de ser vista em público com ele?

Minha raiva chega ao limite. Olho para a parede, tentando manter a compostura, mas antes que consiga me controlar já estou a poucos centímetros do rosto dela.

- Como tem a cara de pau de vir na minha casa e falar assim dele? Conheço Castiel mais que ninguém, e ele me conhece muito melhor que você! E conheço a família dele, sim, o pai, pelo menos. Quer saber quem ele é? É o reitor da WCU, porra! – Eu grito. – Pensa um pouco antes de sair julgando as pessoas desse jeito.

Detesto ter que usar a posição do pai de Castiel como argumento, mas esse tipo de coisa costuma funcionar com ela.

Provavelmente por ter me ouvido levantar a voz, Castiel sai do quarto com uma expressão preocupada. Ele vem até mim e tenta me afastar da minha mãe, assim como da última vez.

- Ah, que ótimo! Ele chegou. – Minha mãe ironiza, apontando para Castiel. – O pai dele não pode ser o reitor. – Ela diz com uma risadinha.

- Mas é, sim. Está surpresa? Se não estivesse tão ocupada julgando todo mundo, poderia ter conversado com ele e descoberto isso sozinha. Quer saber? Você nem merece isso. Castiel me faz muito bem, e de um jeito que você nunca foi capaz de fazer. Não existe nada — nada mesmo — que você possa fazer para me afastar dele! – Meu rosto está vermelho e cheio de lágrimas, mas não estou nem aí.

- Não fala assim comigo! – Ela grita, chegando mais perto. – Está pensando que só porque arrumou um apartamentinho bacana e pintou a cara é uma adulta? Detesto acabar com a graça, querida, mas morar com o namorado aos dezoito anos só te faz parecer uma vagabunda!

Os olhos de Castiel se estreitam, mas minha mãe o ignora.

- É melhor acabar com isso antes que perca sua dignidade, Abby. Se olhe no espelho, depois olhe para ele! Vocês dois ficam ridículos juntos. Você tinha Noah, que era um bom menino, e abriu mão dele por... isso! – Ela faz um gesto apontando para Castiel.

- Noah não tem nada a ver com isso. – Respondo.

Castiel cerra os dentes, e fico torcendo em silêncio para que não diga nada.

- Noah ama você, e sei que o sentimento é recíproco. Agora para de dar uma de rebelde e vem comigo. Vou pegar seu quarto de volta, e Noah com certeza vai te perdoar. – Ela estende a mão com uma expressão autoritária, como se eu não tivesse alternativa além de ir embora com ela.

Agarro a bainha da camiseta com as duas mãos.

- Você é louca. Sinceramente, mãe, pensa no que está falando! Não quero ir embora. Eu moro aqui com Castiel, sou apaixonada por ele. Não pelo Noah. Até gosto do Noah, mas foi sua influência que me fez pensar que estava apaixonada, porque me pareceu ser a coisa certa. Sinto muito, mas amo Castiel, e ele me ama.

- Abby! Ele não te ama, só está dizendo isso para te levar para a cama. Abre o olho, menina!

Por algum motivo, ouvi-la me chamar de “menina” é a gota d’água.

- Ele já me levou para a cama, e adivinha só: ainda estamos juntos! – Grito.

Castiel e minha mãe trocam um olhar assustado, mas a expressão dela logo assume um ar de desdém, enquanto a dele, de preocupação.

- Só digo uma coisa, Abby: quando ele partir seu coração e você não tiver para onde ir, é melhor nem vir me procurar.

- Ah, eu não faria isso, pode acreditar. É por isso que você vai morrer sozinha. Não tem mais nenhum controle sobre mim, sou adulta. Só porque não conseguiu controlar meu pai, isso não te dá o direito de querer fazer isso comigo! – Assim que essas palavras saem da minha boca, eu me arrependo. Falar de meu pai é um golpe baixo, muito baixo. Antes que tenha tempo de pedir desculpas, sinto o impacto de sua mão contra meu rosto. O susto é ainda pior que o tapa.

Castiel se coloca entre nós e segura minha mãe pelo ombro. Meu rosto está ardendo, e eu mordo os lábios para não cair no choro de vez.

- Puta que pariu, se você não sair daqui agora, vou chamar a polícia. – Ele avisa. O tom controlado de sua voz me faz sentir um frio na espinha, e vejo minha mãe estremecer, também abalada com a reação dele.

- Você não faria isso.

- Você acabou de bater nela bem na minha frente e ainda acha que eu não chamaria a polícia? Se não fosse a mãe dela, eu faria muito pior. Você tem cinco segundos para sumir daqui. – Castiel avisa, e eu olho para minha mãe com os olhos arregalados e a mão no rosto.

Não gosto da maneira como ele a ameaçou, mas quero que vá embora. Os dois se encaram, e Castiel diz com um grunhido: - Dois segundos.

Ela solta uma bufada e se encaminha para a porta. O barulho de seus saltos batendo no chão ecoa pelo chão de concreto.

- Espero que seja feliz com sua decisão, Abigail. – Ela diz e bate a porta.

Castiel me envolve em um abraço reconfortante e carinhoso, e é exatamente disso que preciso.

- Sinto muito, linda. – Ele diz com a boca colada aos meus cabelos.

- Desculpa pelas coisas horríveis que ela falou de você. – Minha vontade de defendê-lo é muito maior que a preocupação comigo mesma ou com minha mãe.

- Shh. Não esquenta comigo. As pessoas falam merda sobre mim o tempo todo. – Ele diz.

- Mesmo assim, não é aceitável.

- Abby, por favor, não se preocupa comigo. Quer alguma coisa? O que posso fazer para ajudar? – Ele pergunta.

- Quer pegar um pouco de gelo? – Digo em meio a um soluço.

- Claro, linda. – Ele me beija na testa e vai até a geladeira.

Eu sabia que a visita dela não tinha como terminar bem, mas não esperava que fosse ser tão ruim. Por um lado, estou orgulhosíssima de mim mesma por ter enfrentado minha mãe, mas por outro estou muito arrependida por ter falado do meu pai. Sei que não foi por culpa dela que ele foi embora, e sei que ela se sentiu muito sozinha nos últimos oito anos.

Minha mãe nunca se envolveu com mais ninguém, dedicou todo o seu tempo a mim, preparando-me para ser a mulher que gostaria que eu fosse. Mas não quero ser como ela. Sinto um profundo respeito por minha mãe e admiro sua força de vontade, mas preciso abrir meu próprio caminho, e ela precisa entender que não há como remediar seus erros através de mim. Preciso cometer meus próprios erros, afinal de contas. Queria que ela ficasse feliz por ver que estou apaixonada por Castiel. Sei que a aparência dele assusta, mas se ela pudesse fazer um esforço para conhecê-lo com certeza ia gostar dele tanto quanto eu.

Se pelo menos Castiel pudesse moderar sua grosseria... É pouco provável, mas já percebi pequenas mudanças nele, como andar de mão dada comigo em público e me dar um beijo toda vez que um de nós chega. Talvez eu seja a única pessoa para quem ele é capaz de se abrir e revelar seus segredos, e a quem ele é capaz de amar, mas por mim tudo bem. Para ser sincera, meu lado egoísta até gosta.

Castiel põe uma cadeira ao meu lado e encosta o gelo no meu rosto. O toque da toalha em que o gelo está é agradável contra minha pele sensível.

- Não acredito que ela me bateu. – Digo baixinho. A toalha cai no chão, e Castiel se agacha para pegá-la.

- Eu também não. Pensei que fosse perder a cabeça. – Ele conta, olhando nos meus olhos.

- Também pensei. – Admito, abrindo um sorrisinho.

Meu dia parece interminável. Foi o mais longo e cansativo da minha vida.

Estou exausta, e não quero ter que pensar em nada. Só quero ir para a cama com Castiel e esquecer o fundo do poço que minha relação com minha mãe atingiu.

- Ainda bem que eu te amo demais, caso contrário teria feito uma besteira. – Ele sorri e beija meus olhos fechados.

Prefiro acreditar que Castiel jamais faria nada contra ela, e que é só um modo de dizer. De alguma forma, sei que, apesar de toda a sua raiva, ele jamais tomaria uma atitude realmente drástica, e isso me faz amá-lo ainda mais. Com o tempo, aprendi que Castiel late muito mais do que morde.

- Quero ir para a cama. – Digo, e ele faz que sim com a cabeça.

- Claro.

Puxo o cobertor antes de me deitar.

- Você acha que ela algum dia vai aceitar? – Pergunto.

Castiel encolhe os ombros e joga o travesseiro extra no chão.

- Eu até queria dizer que sim, que as pessoas mudam e amadurecem. Mas não quero alimentar falsas esperanças.

Eu me deito de bruços, enterrando o rosto no travesseiro.

- Ei. – Castiel diz, tocando de leve meu pescoço e passando um dos dedos pela curvatura das minhas costas. Eu me viro de barriga para cima e solto um suspiro ao notar a preocupação em seus olhos.

- Está tudo bem. – Minto. Preciso de uma distração. Levo a mão ao seu rosto e passo o polegar pelos seus lábios. A argola de metal pende para o lado, e ele sorri.

- É divertido ficar me olhando como se eu fosse uma espécie de experimento científico? – Ele provoca.

Faço que sim com a cabeça, brincando com o piercing entre os dedos e tocando a argola em sua sobrancelha com a outra mão.

- É bom saber. – Ele revira os olhos e morde meu dedão, pegando-me de surpresa. Puxo a mão com força e acabo batendo com ela na cabeceira.

Faço menção de dar um tapinha nele, como de costume, mas Castiel segura minha mão dolorida e a leva até a boca. Faço um biquinho de brincadeira, e ele passa a língua na ponta do meu indicador de uma forma bem provocativa, e continua fazendo isso até que eu fique toda ofegante e necessitada. Como ele consegue fazer isso? Esses gestos estranhos de carinho me afetam demais.

- Está gostoso? – Castiel pergunta, pondo minha mão sobre meu colo. Faço que sim com a cabeça, sem saber o que dizer. – Quer mais? – Ele passa a língua sobre os lábios para umedecê-los. Faço outro gesto afirmativo. – Quero ouvir você, linda. – Ele insiste.

- Sim. Quero mais, por favor. – Meu cérebro claramente não está funcionando. Inclino-me na direção dele, necessitada de seu toque, da distração que me proporciona. Castiel se ajeita na cama, enfiando uma das mãos sob o elástico do meu pijama e afastando seus cabelos da testa com a outra. Minha calcinha é puxada até os tornozelos, e minha calça já está no chão. Quando ele se inclina para a frente, eu abro bem as pernas.

- Sabia que o clitóris é uma área do corpo feminino feita exclusivamente para o prazer? Ele não tem nenhum propósito além disso. – Castiel me informa, pressionando com o polegar o lugarzinho ao qual se refere. Solto um grunhido e afundo a cabeça no travesseiro. – É verdade, li isso em algum lugar.

- Na Playboy? – Provoco, fazendo um esforço tremendo para soltar essas palavras.

Ele dá um sorrisinho divertido antes de baixar a cabeça. Assim que sua língua toca meu sexo, eu me agarro aos lençóis, e ele não perde tempo em combinar a ação dos dedos com a de sua boca perfeita. Levo as mãos aos seus cabelos, agradecendo silenciosamente o autor da descoberta enquanto me leva duas vezes ao orgasmo.

Castiel fica agarradinho comigo a noite toda, sussurrando que me ama. Quando estou pegando no sono, penso no dia que tivemos. Minha relação com minha mãe está deteriorada, e talvez nem tenha solução, e Castiel compartilhou comigo mais informações sobre sua infância.

Meus sonhos são permeados pela presença de um menininho assustado de cabelos ondulados chorando por sua mãe.



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