História Almas Para Oblivion - Capítulo 4


Escrita por: ~

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Palavras 2.673
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Aventura, Drama (Tragédia), Ecchi, Fantasia, Mistério, Romance e Novela, Shounen, Sobrenatural, Survival, Suspense, Yaoi
Avisos: Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Mutilação, Nudez, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Espero que gostem desse capítulo!

Boa leitura ^^

Capítulo 4 - Innocentia genuina



Tiveram uma discussão ontem. Meu avô e minha tia, quero dizer. Apenas a ouvi gritando a própria identidade para o seu pai, e o mesmo gritou de volta, não a reconhecendo. E depois, me espancou porque estava ouvindo a sua conversa. Deve culpar as paredes, não a mim. Ou melhor, as paredes tem ouvidos e deve culpar Catarina de Médici por isso. Compreendo muito bem este provérbio, para variar um pouco. 


Ontem completei 14 anos, e, como presente, vi onde morrerei daqui a, mais ou menos, 365 dias. Vi o alaranjar do céu, o pôr do sol eterno. Tão lindo que não pensei que esta seria a última coisa que verei. Um círculo de fogo se encontrando com água. Uma beleza mortal. 


"Vamos Jon!", gritou Elizabeth, "Não podemos nos atrasar para a reunião! Os Ashworth ficarão furiosos...", segundos depois meu pai gritou de volta mandando-a se calar. Então ele desceu as escadas e foi para perto de Elizabeth, pelo menos foi o que pareceu, ouvindo o barulho de seus passos. "Nós voltaremos logo, papai", falou Jon. Em seguida, após Jon e Elizabeth saírem, escutei passos vindo em direção a porta de entrada de minha fortaleza de madeira. Escutei o barulho da tranca destravando e então, a porta abriu.


Ele parecia estar procurando alguma coisa. Estava olhando em volta, confuso. "Onde está o vinho?!", repetiu várias vezes, aumentando o tom a cada vez. Vinho?. Aqui nunca teve vinho e se já teve, faz muito tempo. O que está acontecendo com ele? Como pôde se esquecer de tantas coisas? 


"Não há vinho aqui!", gritei impacientemente. Ele se acalmou, mas ainda olhava em volta, procurando por seu vinho, talvez. Em seguida, saiu do cômodo, frustrado, e trancou a porta. Depois, subiu as escadas, vagarosamente. 


De repente, começaram umas batidas na porta. "Toc Toc", era uma voz um tanto aguda e jovial. "Quem é você?", perguntei, me aproximando da porta, que se abriu, batendo na parede, e por conseguinte, causando um barulho alto. Me assustei e dei alguns passos para trás, batendo de costas nas tábuas que cobriam as janelas. Está me ajudando a sair daqui? Por quê?. Muitos pensamentos surgiram em minha cabeça. Pensamentos estranhos, construídos por aquela voz pulsante em minha mente. O que poderia acontecer se eu saísse? 


Escolhi uma camiseta de manga comprida feita seda branca para vestir, que provavelmente era de meu pai, apesar de estar bem conservada. Vesti uma calça de brim azul marinho e botas marrons. Nunca havia me vestido assim antes, não havia motivo para tal coisa. Aliás, minhas roupas velhas são bastante confortáveis, mas a camiseta escondia as minhas linhas pretas. Eu parecia normal


Não tinha nenhuma chave na fechadura da porta.


Segurei nas mangas da camiseta ao sair. As batidas fortes de meu coração podiam ser sentidas nas veias de meu pescoço. Nem tudo era de madeira, saí de minha fortaleza. As botas faziam um pequeno barulho quando eu andava, engraçado... A luz do sol ainda estava branca, ainda faltava um bom tempo para alaranjar. A cozinha era bem mais fresca que meu quarto ou a antiga dispensa de vinhos, se preferir. As coisas eram mais duras, resistentes, feitas com um outro material. O fogão, ou o que, pelo menos, se parecia com um fogão, era feito de ferro negro. Meu avô me ensinou a identificar algumas coisas pelo som. Eu bato nos objetos com as costas da mão para saber o que é. O som do fogão era diferente do som da madeira. Era mais como um trovão; não sei descrever os sons muito bem. Mas havia madeira no fogão, embaixo, em um buraco e haviam dois círculos em cima do fogão. Estranho.


A maioria das outras coisas era uma junção de madeira com outros materiais. 


Andei até outro cômodo. Nesse haviam assentos, lamparinas, uma lareira e várias estantes com vários livros. A cor da parede era amarelo, mas era um amarelo mais puxado para o laranja, mas ainda sim, era amarelo. Haviam dois assentos grandes e um pequeno. Também eram amarelos, só que bem mais claros. Isso ainda é novo para mim, quero dar ênfase nisso. 


Parei na frente das escadas e de costas para a porta da frente. Subi os degraus e cheguei no segundo andar. Azul, a parede é azul. Haviam dois corredores paralelos, cada um com duas portas. Demorei alguns minutos tentando entender como as maçanetas funcionam, já que na porta do meu quarto não tem maçaneta, apenas uma fechadura. Nas paredes estavam pendurados quadros de vários tipos de flores. Um toque mais delicado, eu diria. No corredor da direita, uma das portas era a entrada para o banheiro e a outra estava trancada. Segurei a maçaneta e girei. O quarto trancado devia ser o quarto de Henry. Sussurros podiam ser ouvidos, caso colocasse seu ouvido contra a porta, mas não entenderia o que estava falando. 


No corredor da esquerda, as portas não estavam trancadas. O primeiro quarto era branco. Nas cômodas haviam vestidos de vários tecidos, roupas íntimas e corpetes. Era o quarto de Elizabeth. O tecido que cobria a cama também era branco, com detalhes na madeira. Era uma boa carpintaria. Enfim, não havia nada de meu interesse.


Saí do quarto dela e andei em direção ao último quarto. Quando me aproximei da porta, ela começou a estremecer, então a maçaneta girou e a porta abriu. "Obrigado", agradeci para o que quer que esta entidade fosse e a mesma retribuiu com risadas. 


O quarto era verde, um verde bem claro.


Na mesa de canto, ao lado da cama havia um retrato, feito com carvão. Meu pai e uma mulher. Peguei o retrato. A moldura era dourada e atrás tinham dois nomes escritos. Jon e Eleanor Huntington. Percebi que também havia um anel, com uma frase escrita. Em aeternum. Para sempre. Não era um anel, era uma aliança. "Mãe?".


Então ela, a entidade, arrastou algo que estava debaixo da cama. Uma caixa de madeira escura, com detalhes prateados. Me ajoelhei em frente a caixa e a abri. Estava cheia de papéis, um medalhão e uma chave. "A chave". Era idêntica à chave que usavam. 


As cartas eram todas de Eleanor Rosegardin, que depois passou a se referir como Eleanor Huntington, a partir do dia 21 de agosto de 1771. Estou em 17 dezembro de 1786, agora. 


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12 de Fevereiro de 1765,


Cara Elena,


Conheci uma pessoa hoje pela manhã. Um homem muito bonito. Meu futuro marido. Seu nome é Jon. Jon Huntington. É filho de um grande pescador e fazendeiro, Henry. Sua família é muito bem sucedida. 


Ele foi gentil comigo quando fomos apresentados e beijou minha mão de uma maneira que me arrepiou os pelos da nuca. Foi muito romântico. 


Papai falou que a união dos Rosegardin e os Huntington será bem lucrativa.
Um dia encontrará alguém para você se casar, irmãzinha, e será muito feliz.


Atenciosamente,
                                                                                                     Eleanor Rosegardin


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16 de Março de 1768,


Elena, 


Eles fazem sacrifícios nessa terra... Sacrificam uma criança para poder beneficiar a agricultura e até a pesca. 


Pobre criança. Ela será sacrificada em 4 anos e alguns meses.


Sua mãe ainda está esperando um bebê, pode acreditar? 


P.S: Se cuide, irmã... A mamãe gostaria que nada ruim acontecesse conosco.

 
Atenciosamente, 
                                                                                                        Eleanor Rosegardin

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21 de Agosto de 1771


Querida Elena,


Queria que pudesse ter vindo em nosso casamento, mas entendo que você tem assuntos pessoais para tratar em Londres. Também relacionado à herança que mamãe deixou para nós. 


Cuide-se, irmã.


Atenciosamente, 
                                                                                          Eleanor R. Huntington


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23 de Maio de 1772


Elena,


Você será tia! Estou grávida. Não sangro já faz semanas. Jon ficou muito animado, me disse que seu sonho sempre foi ter um filho. Já escolhi os nomes.


Thomas, caso seja um menino e Thomasyn caso seja uma menina.


Espero que esta notícia aqueça seu coração.


Atenciosamente,
                                                                                             Eleanor R. Huntington


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16 de Dezembro de 1772


Elena,


Thomas nasceu hoje. Tão lindo, mas havia tanto sangue. Me disseram que não posso ficar com ele e que ele é doente. Não, não acredito nisso. Você deve vir aqui salvá-lo.


Esta pode ser a última carta que lhe escrevo. Cuide-se,


Adeus,


Eu te amo.
                                                                                        E. R. H.


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Aparentemente, essas cartas foram enviadas para Elena, que as enviou de volta. Acabaram as cartas de minha mãe, de Eleanor. O medalhão tinha um formato oval, com uma corrente fina dourado. Quando abri, tinha duas gravuras figurativas humanas. Minha mãe e uma outra mulher. Talvez fosse Elena. Elas eram parecidas, quase do mesmo jeito que pareço com meu pai e lembro a minha mãe. Ambas tinham cabelos castanhos, sardas e lábios carnudos. 


Então, um barulho ecoou pela casa. Barulho de ferro. O fogão. Empurrei a caixa para debaixo da cama, mas levei o medalhão e a chave comigo. Desci as escadas e fui para a cozinha. "O que foi?!", falei me apoiando em meus joelhos, ofegante. O céu já estava alaranjado. Um barulho de madeira atingiu meus ouvidos, em seguida; vinha da porta da frente, que estava coberta por um tecido branco bordado. "Sr. Huntington!", gritou. Era visivelmente parecido com um homem e sonoramente, com um jovem. A voz não era tão grave. Ele continuou dando batidas na porta.


Eu não conseguia me mover, o medo havia me consumido. Ouvi um suspiro impaciente ao meu lado e depois, eu flutuei. Simplesmente flutuei - para perto da porta. Não caí, mas aterrissei com os joelhos dobrados. A mecânica da maçaneta parecia semelhante às das portas do andar de cima. Segurei, girei para a direita e puxei. 


O sol veio em meu rosto, me cegando, parcialmente. A sombra masculina foi clareando ao piscar algumas vazes, focando nela. Era um jovem mais velho do que eu. Era loiro, alto e carregava um balde de ferro - mais claro - com um líquido branco. "Desculpe, quem é você?", perguntou me olhando de cima a baixo. Não precisou mover a cabeça bruscamente para poder me ver inteiramente, o fez com um movimento curto. "Thomas... Rosegardin", ele pareceu surpreso. "Senhor Rosegardin, me desculpe por não tê-lo reconhecido", ele abaixou a cabeça, ainda segurando o balde. Para falar a verdade, era melhor assim e não havia como ele me reconhecer. Estava sendo educado. "Qual é o seu nome?", ele levantou a cabeça expressando, novamente, surpresa. "Com todo o respeito, por que quer saber meu nome? Alguém de uma família como a sua não precisa saber o nome de um simples fazendeiro como eu", falou e rapidamente repliquei: "É educado perguntar, certo? Perguntei por educação, aliás, você quis saber quem eu sou...", acho que a maneira como o olhei nos olhos o fez ficar desconfortável, pois ele virou o rosto para o ambiente logo em seguida. Sim, o ambiente. Longas relvas verdes, trilhas marrons, árvores de porte médio, várias casas, com o mar, o pôr do sol e várias nuvens avermelhadas pelo céu. 


Ele assentiu para a minha resposta, mas não falou nada. "Quer que eu seja mal educado?", ele sorriu com a minha pergunta. Gargalhou, na verdade. Fui consumido por um sentimento de constrangimento e ao mesmo tempo alegria. A sua sombra me protegia do pôr do sol. "Não, não, assim está ótimo... Sou Peter Mitchell", então estendeu a mão. Hesitei em segurá-la, mas, por fim, segurei. Me desculpe, Peter Mitchell. Ele a balançou para cima e para baixo com um sorriso no rosto. "Bom, aqui está..." estendeu o balde com o líquido branco. "O que é isso?", ao ouvir a minha pergunta arregalou os olhos - cor de mel - e levantou as sobrancelhas cheias. "É sério?", respondi que sim e ele parecia não acreditar, mas ao mesmo tempo acreditando que eu estava sendo completamente sincero. "É leite...". É claro!. "Ah sim, hã, obrigado", peguei o balde. Era bem pesado. Me pergunto como ele conseguiu segurá-lo por tanto tempo. "Meu pagamento, senhor...", coloquei o balde no chão. "Olhe, venha amanhã cedo que meu p... Jon pagará. Não diga que me viu ou que falou que comigo. Fale que Henry o deixou entrar e que falou contigo sobre vir amanhã", ele assentiu e acenou a cabeça em sentido afirmativo. "Por que não quer que saibam que falei com o senhor?", ele merecia a resposta. "Se souberem que falou comigo, você vai sofrer... Só posso lhe dizer isso...". Ele entrou na casa, segurou meu braço e puxou a manga da minha camiseta. Ele viu as minhas veias e então falou: "É um Filho de Oblivion", meu coração estava batendo muito rápido, entrei em pânico. O que eu faço?!. "Minha irmã mais velha também era... Foi a última a ser sacrificada", me acalmei quase que instantaneamente, o olhando nos olhos e ele não virou desta vez. "Não contarei para ninguém", garantiu, "Amanhã venho aqui e falarei com Jon". Ele se virou, foi em direção ao pôr do sol e depois virou para mim novamente. "Sinto muito, Thomas", deu um sorriso doce. Obrigado, Peter Mitchell. A entidade fechou a porta. Levei o balde com leite para a cozinha e o fitei por alguns minutos. Eu sou venenoso? Só há uma maneira de saber. Mergulhei meu punho no balde. Estava morno e era como água branca. Tirei a mão do líquido e sequei na blusa de seda.


Entrei no meu quarto e tranquei a porta por dentro. Tirei minhas roupas mais novas e vesti as de sempre. As velhas e confortáveis. Coloquei a chave embaixo de uma madeira solta, que ficava embaixo do meu colchão. Acendi a vela do lado do meu colchão e fiquei admirando o medalhão de minha mãe. A entidade ainda estava comigo. Soube quando ela apagou a vela. "Quem é você?", deu várias gargalhadas, mas consegui vê-la, após tudo que fez por mim. Apareceu para mim como um vulto, mas depois começou a tomar forma e cor, na forma de uma criança, na forma de um menino. Consegui vê-lo, apesar de estar escuro.  "Eu sou o Menino", ele sorriu. "O Menino?", ao perguntar, levantei do colchão e me ajoelhei na sua frente. "Sim, o Menino", falou e se ajoelhou. Instantaneamente o abracei, quando se tornou fisicamente presente e ele retribuiu o abraço. Ele chorou, eu chorei. Irmãos de épocas distantes, unidos pela morte. Uma morte causada por inocência genuína. Uma morte prévia e imprevista, seguida de uma aparição póstuma, anos depois. 


Percebi que existem pessoas que me entendem. Não sou uma alma só, muito menos incompreendido. Sou irmão de todos aqueles que sofrem, todos os antagonistas, todos os genuinamente diferentes. Saiba que se está sofrendo, não pense que está sozinho, pois eu estou aqui ou talvez não esteja mais. Fisicamente, quero dizer. A dor é um peso sobre as costas, que faz pressão sobre o coração e o faz murchar. Mas com o tempo, você adquire duas escolhas: tirar o peso das costas ou carregá-lo até que se torne leve o suficiente para não notá-lo. Para a segunda opção, é necessário força. Para a primeira, basta um sacrifício.

 
Estou disposto a ser forte. 

 


Notas Finais


Espero que tenham gostado!

Comentem as suas opiniões... Todas são bem-vindas! (Isso estimula bastante)

Favoritem!

Desculpe, por qualquer erro..

Próximos capítulos em breve!

Abraços,

~ Flexszible


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