História Almas Sombrias - O Estripador de Lynnwood - Capítulo 9


Escrita por: ~

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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Abel, Bruxas, Caim, Fantasia Urbana, Lendas, Originais, Vampiros
Exibições 8
Palavras 4.067
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Fantasia, Ficção, Mistério, Romance e Novela, Suspense, Terror e Horror
Avisos: Álcool, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas da Autora


Olá, pessoal. Primeiramente, gostaria de cumprimentar os novos leitores. Sejam muito bem-vindos!

Sei que é chato falar sobre o número de comentários - e não, não estou exigindo que ninguém comente. Não vou parar de postar por conta disto. A história já está finalizada, então não tem risco de desanimar ou coisas assim. Mas seria bem legal se vocês comentassem, dissessem se estão gostando ou não, quais os pontos fortes e fracos dos capítulos, personagens ou da história em geral. Enfim, só gostaria de um pouco mais de entrosação com vocês.

P.S.: A história tem uma página no facebook. Se vocês pudessem ir lá e dar uma curtida, seria muito legal também. O link está nas notas finais.

Espero que curtam o capítulo õ/

Capítulo 9 - Capítulo Oito


Fanfic / Fanfiction Almas Sombrias - O Estripador de Lynnwood - Capítulo 9 - Capítulo Oito

Ocultada pelas nuvens, a luz do sol que iluminava o cemitério naquela manhã era cinzenta e difusa. Um ar gélido bagunçava os fios rebeldes de Candace, presos no alto de sua cabeça. Nas mãos, ela carregava uma única rosa branca, assim como o irmão. Sentados de braços dados, ambos assistiam o discurso fúnebre do padre.

Pouco a pouco, amigos, vizinhos e colegas de trabalho se dispuseram a discursar brevemente sobre o falecido casal. Steven prestava atenção em cada palavra, cada lembrança, sem nem ao menos tentar refrear a emoção. Candace, no entanto, mantinha-se quieta e distante. Era como se um transe tivesse lhe tomado o corpo e a mente, anestesiando-a.

Enquanto os caixões eram lentamente baixados, os irmãos seguiram de mãos dadas, cada um com uma rosa em homenagem aos pais; a primeira de muitas. Steven se dirigiu à mãe, soltando a flor que, levada pelo vento e a gravidade, pousou delicadamente sobre a madeira envernizada. Um par de mãos suaves lhe apertou os ombros em forma de apoio. Era Alison, vestida de preto, como a maioria dos presentes. Todavia, ao contrário do resto, Alison portava uma dor não direcionada aos falecidos; uma dor que nem ao menos a pertencia. O que estava sentindo era nada menos do que um reflexo dos sentimentos de Steven.

A compreensão daquilo acendeu algo em seu coração, antecedendo o calor dos braços dele, que a rodearam à procura de consolo. Alison o apertou firme, em uma promessa silenciosa.

Candace caminhou até o túmulo de Paul, fitando atentamente o caixão onde o pai repousaria. Um turbilhão de emoções a abateram naquele eterno instante, quase lhe fazendo perder o equilíbrio. No meio da multidão, porém, encontrou um olhar azul cristalino do qual emanava carinho e força. Ela deu um passo à frente, deixando a rosa cair ao mesmo tempo em que avistava uma silhueta se movendo à distância.

Um homem de terno e gravata caminhava em direção ao grande grupo de pessoas aglomeradas ao redor dos dois túmulos. Seus olhos e cabelos castanhos levemente grisalhos eram extremamente familiares, despertando pouco a pouco a curiosidade dos ali presentes.

Prevendo a reação da irmã, Steven agarrou seu pulso; Candace nem percebera quão alterada estava. Tremendo, ela arregalou os olhos em uma expressão em pânico.

- É o papai...?

Steven balançou a cabeça em negação, enxugando a lágrima que escapulia de seus olhos inchados.

- Aquele não é o nosso pai, Candace – respondeu com um tom rouco e infeliz. – É o tio Frances.

~*~

- Mais um dia?! – exclamou Sarah, trocando o celular de mãos enquanto caminhava de um lado ao outro da cozinha. Ao mesmo tempo em que discutia com o marido, mantinha um olhar fixo sobre os filhos; o pequeno casal de gêmeos, quase tão loiros quanto ela e donos de olhos castanho-esverdeados, tomavam o café da manhã tranquilamente. – Não acha que essa viagem já durou tempo demais, Robert?

- Querida, tenta entender... – a voz do outro lado da linha implorou, consternada. – Essa conferência é importante para a minha carreira. Sabe que se eu conseguir expandir os negócios...

- Eu não me importo com seus negócios! – vociferou. O silêncio que se sucedeu a fez se arrepender imediatamente de suas palavras. – Robert... sinto muito, eu não quis dizer isso.

- Não, eu entendo.

- Não entende não – choramingou, sentindo a frieza na voz do marido congelar seu peito. – Têm acontecido muitas coisas estranhas desde que a Megan... você sabe.

- Amor...

- Eu não consigo dormir, não consigo sair de casa, nossos filhos não vão mais à escola... – explicou, sentindo as lágrimas transbordarem seus olhos. Antes que os meninos notassem seu estado, Sarah se trancou no banheiro dos fundos. – Eu estou com muito medo.

- Amor, me ouça – pediu ele. – Você não disse que conseguiu proteção policial vinte e quatro horas por dia?

- Sim, mas...

- Então não há nada com que se preocupar – afirmou. – Amanhã eu estarei chegando e não vou deixar nada de ruim te acontecer, muito menos aos nossos filhos.

Sarah observou suas mãos pálidas e magras tremerem.

- Eu estou com tanto medo... – admitiu, caindo em lágrimas outra vez.

- Isso é completamente normal, querida. O que aconteceu à Megan foi... horrível. Você está passando por um trauma, um luto. Estranho seria se você não se sentisse assim.

- Robert, por favor... – gaguejou, observando o rosto perturbado no espelho. – Volta logo. Eu preciso de você aqui.

- Eu sei, amor – respondeu. O som de um sorriso foi abafado pelo celular. – Em breve eu estarei aí.

- Eu te amo – disse, um tanto insegura.

- Eu também te amo.

Sarah finalizou a ligação e guardou o celular no bolso traseiro da calça jeans. Antes de sair, lavou o rosto inchado e avermelhado na pia. De volta à cozinha, checou os filhos, que ainda atacavam o cereal matinal.

Ela sorriu por um instante e, discretamente, apanhou uma caneta marca texto vermelha dentro de uma das gavetas do armário. Na parede, havia pendurado o calendário mensal. Cada dia estava marcado com um X.

Aquela manhã fazia exatamente um mês que sua irmã fora assassinada.

- Espero que você esteja errada, Sarah – sussurrou para si mesma.

~*~

- Tem certeza que não quer que a gente fique? – questionou Jennifer, em um sussurro tão baixo que até mesmo Candace teve que se esforçar para ouvir.

- Não, tá tudo bem – garantiu, sem a usual firmeza presente em sua voz.

Zoe percebeu quão frágil a amiga estava, mas sabia também que Candace precisava de um tempo sozinha, longe da multidão que literalmente a sufocava com abraços e pêsames. Antes que Jennifer pudesse contrariar sua decisão, Zoe a impediu com um olhar breve e significativo.

- Olha, qualquer coisa que você precisar, nós estaremos aqui – afirmou, apertando as mãos frias da Kidman. Ela correspondeu o sorriso e abraçou as duas amigas que não se demoraram a partir.

Candace fechou a porta, sentindo a tensão percorrer seu corpo. A maioria das pessoas que compareceram ao funeral já havia partido, deixando os irmãos a sós com Frances, o tio distante do qual possuíam apenas lembranças esparsas.

 Na sala de jantar, Steven lhe servia um café. Por um rápido momento, ao avistar o irmão mais novo de seu pai, Candace teve um novo deslumbre de Paul; sentado à mesa, com seus óculos de leitura e o jornal do dia em mãos. Seu estômago se embrulhou, mas antes que pudesse escapar, o tio acenou entusiasmadamente.

- Candace Mary Kidman – disse, quase cantarolando. – A última vez que te vi, você mal alcançava os meus joelhos. E agora está mais alta que eu.

Candace mordeu os lábios, sem saber ao certo o que dizer. Não queria ser rude, mas, ao mesmo tempo, não tinha paciência para simular uma saudade que não sentia. Fazia um pouco mais de quinze anos que Frances rompera a amizade com o irmão; não os visitara, tampouco fizera ligações. Ela simplesmente não o conhecia mais.

Frances se virou para o sobrinho, sentado ao seu lado.

- Quantos anos vocês têm? – questionou, dando uma bebericada no café.

- Dezessete – respondeu Steven, olhando então para a irmã. – Ela tem dezoito.

Frances assentiu, pensando um pouco sobre o assunto. Candace cruzou os braços, aflita e apreensiva. Percebendo sua agitação, Frances a encarou.

- Você tem algo a dizer, Candace? – perguntou ele, sem rodeios.

- Na verdade, eu tenho sim – confirmou. – Por que você voltou, depois de tanto tempo sem se importar, sem nenhum cartão de natal ou telefonema de aniversário... o que te fez mudar de ideia sobre nós?

Frances abaixou a cabeça, rindo baixinho consigo mesmo.

- Querida... – começou, fitando seus olhos profundamente. – Não há mágoas que a morte não supere. Não importa o que aconteceu no passado entre mim e os seus pais, eu não deixaria as crianças do Paul sozinhas em um momento como esse.

- Crianças? – repetiu, quase gargalhando. – Acha que somos crianças?

Frances se pôs de pé, aproximando-se da sobrinha. – Não, certamente não crianças.  Mas dezoito anos é pouca idade para se cuidar sozinha, não acha?

- Dezoito anos é pouco? – ela riu novamente, com uma pose desafiadora. – Deixa eu te atualizar, ok? Você sabe quem fez o reconhecimento do corpo do meu pai? Eu. Sabe quem cuidou para que todo o velório estivesse pronto e fosse digno dos dois? Eu – então olhou para Steven. – Sabe quem cuidou e ainda tá cuidando desse moleque há dias? Eu, outra vez. Você não estava aqui, nunca esteve e nós não tínhamos ninguém! Afinal, eu continuo tendo apenas dezoito, mas quer saber? Idade é apenas um número. Não é isso o que realmente importa.

- Eu estou aqui agora – afirmou Frances. A garota bufou, balançando a cabeça em desalento.

- Tarde demais.

- Candace, o que tá acontecendo com você? – foi a vez de Steven confrontá-la. – Tá ficando maluca? O tio Frances só quer nos ajudar.

- Você quer a ajuda do homem que chamou sua mãe de cadela e disse pro seu pai que um dia ela destruiria a nossa família? – questionou, levando as mãos à cintura. Frances paralisou, deixando visível o pânico que sentia. – Não, não foram essas as palavras que você usou. Na verdade, foi algo como “transformar a vida de vocês num inferno”. Né, titio?

- Que diabos...?! – exclamou Steven, confuso. O irmão mais novo de Paul evitou o olhar de ambos os sobrinhos, repentinamente preso em lembranças obscuras do passado.

- Eu provavelmente nunca vou me perdoar pelas coisas que eu disse ao meu irmão naquela noite – admitiu, com um tom seco que beirava à tristeza. Candace bufou.

- Bem, então nós temos uma coisa em comum – afirmou ela. Já à beira das lágrimas, voltou-se para Steven, que ainda parecia espantado diante da situação. – Se depois de tudo você quiser ir morar com o seu titio, tudo bem. Mas eu vou ficar aqui.

Então caminhou em direção às escadas, seguindo para o primeiro andar. Sem olhar para trás, Candace adentrou o próprio quarto, batendo a porta com força.

A garota se jogou na cama, que mais cedo não tivera tempo de arrumar, afundando o rosto na maciez de seu travesseiro. Ela havia perdido completamente o controle, o que detestava mais do que qualquer outra coisa. Mas, apesar de saber que aquela história estivera enterrada durante tanto tempo, algo em seu interior lhe dizia para não confiar em Frances tão facilmente.

- Candace? – o irmão chamou, assustando-a. Ela sentou, enxugando o rosto depressa. Sabia que era inútil, pois o inchaço e a vermelhidão a delatariam, mas disfarçar a aparência já era quase um instinto.

- O que faz aqui? Não sabe bater?

Steven revirou os olhos. Após fechar a porta, sentou-se na beirada da cama.

- Eu não tô a fim de ouvir sermão, ok? – avisou, já em tom defensivo, mas o irmão apenas a fitou com uma expressão calma e levemente abatida.

- Não vim aqui pra isso – garantiu ele. – Eu só quero entender porque você reagiu daquele jeito. Quero dizer, agora eu sei de tudo o que aconteceu, mas isso já faz tanto tempo. Sinceramente, Candace, você acha que podemos nos manter sozinhos?

- Por que não? – rebateu. – Nós temos dinheiro guardado no banco pra faculdade, temos o que restou na poupança partilhada dos nossos pais, além do dinheiro investido em imóveis e os seguros de vida. Eu posso facilmente encontrar um emprego, assim como você...

- Você trabalhando? – interrompeu, sarcasticamente. Candace cerrou os olhos, deixando clara a sua irritação.

- Olha, Steven... – respirou fundo, fitando o interior dos olhos do irmão, idênticos aos seus. – Se você quer ir morar com o Frances, vai. Eu realmente não me importo.

Candace parou em frente às janelas do cômodo, as quais possuíam uma visão panorâmica da rua. Carros transitavam, crianças brincavam nas calçadas, pessoas passeavam distraídas; sua vida virara de ponta cabeça, mas o mundo continuava o mesmo.

- Eu me importo – ele afirmou. Candace não se virou para encará-lo, mas prestou bastante atenção às suas palavras. – Você é a minha única irmã. E não importa o que diga, você precisa de mim tanto quanto eu preciso de você.

Candace soluçou com o desabafo e uma mão macia afagou seu ombro.

- Eu não me importo com o que o Frances fez ou com quem ele é – continuou, com uma convicção surpreendente. – Mas eu nunca me separaria de você. O que te fez pensar isso?

Desistindo de esconder as emoções, ela abraçou Steven, que também chorava.

- Eu... – gaguejou devido aos soluços. – Eu me sinto tão sozinha...

- Nós temos um ao outro.

~*~

Acomodado no assento do motorista da pequena viatura policial, Jack observava a lua minguante no céu. Já era um pouco mais da meia-noite. A rua estava vazia e, de tempos em tempos, ele espiava a entrada da casa que havia sido designado a vigiar, mas tudo estava muito tranquilo. O silêncio reinava, exceto pelos ruídos que Colton – seu parceiro – produzia ao dormir.

Entediado, ele apanhou o celular no bolso da calça, checando as mensagens pela quarta vez. Sem mais o que fazer, tentou então relaxar, esticando um pouco as pernas ao reclinar o assento.

Jack despertou com o latido distante de um cachorro. Rapidamente, verificou o celular, constatando que passara pelo menos vinte minutos desacordado.

Em estado de alerta, o policial abriu o porta-luvas da viatura e apanhou uma lanterna. Então, sacudiu os ombros de Colton. O jovem demorou alguns instantes para acordar, mas assim que o fez, adquiriu uma expressão completamente encabulada.

- Vou checar a casa, ok? – avisou. – Se eu não voltar em quinze minutos, você...

- Me mando daqui imediatamente – completou, com um sorriso brincalhão que não foi correspondido. Recompondo-se, Colton assentiu. – Pode deixar, parceiro.

Jack lançou um olhar cético sobre o rapaz antes de caminhar em direção à residência de Sarah King. Ele verificou cada porta e janela, aparentemente trancadas. Nenhuma luz havia sido acesa desde a última ronda, o que provavelmente significava que a família dormia.

Iluminando o caminho à sua frente, Jack inspecionou o perímetro, sentindo a adrenalina lentamente se dissipar e o torpor que o cochilo lhe proporcionou retornar aos poucos.

Parando um instante, Jack fechou os olhos e respirou fundo a fim de se concentrar. No entanto, o relaxamento almejado foi brutalmente substituído por um pânico avassalador. O ruído doloroso de um cão quebrou o silêncio e, mais uma vez, despertou seus instintos. Correndo em direção ao estrépito interminável, Jack chegou à varanda dos fundos da residência. Em uma das arestas do belíssimo jardim, estava um pequeno chalé de madeira, que abrigava o animal de estimação da família.

Jack abaixou a lanterna, iluminando o chão de piso à sua frente, que havia sido manchado por um longo rastro de um líquido escuro e espesso. A trilha levava até a pequena porta do chalé que, por sua vez, abrigava os restos mortais do animal. Tripas e sangue proporcionavam uma singularidade macabra à cena que o fez prender a respiração.

A lanterna escorregou entre seus dedos trêmulos. Porém, o som de passos pesados em meio às plantas à sua retaguarda o deixou em alerta novamente, levando-o a sacar o revólver que carregava no cinto. Jack apertou o gatilho segundos antes de ser atingido por presas que dilaceraram sua carne com uma fome doentia.

Deitada no sofá da sala de estar, Sarah acordou com um estrondo que vinha dos fundos da casa. A TV ainda estava ligada, pois havia adormecido enquanto assistia um programa de culinária. Assustada, ela enfiou a cabeça entre as cortinas. Seu coração deu um salto ao perceber que a viatura desaparecera. Sem delongas, ela apanhou o celular em cima da mesinha de centro e discou o número de um dos policiais que a vigiavam.

Trêmula, Sarah levou o aparelho até o rosto. Enquanto a chamada acontecia, um barulho a distraiu. Caminhando lentamente em direção à cozinha, ela distinguiu na calada da noite uma música abafada vinda dos fundos. Conturbada, cancelou a ligação. E, juntamente com ela, o toque desapareceu, comprovando suas desconfianças. Em busca de respostas, Sarah abriu as cortinas da porta de vidro da cozinha e acionou um interruptor que ligava as luzes do jardim. Ao avistar os dois homens de pé, a assistindo, o smartphone escapou de suas mãos.

O primeiro deles era alto, austero e incrivelmente atraente. Iluminado apenas pela luz fluorescente e parca do quintal, seus cabelos dourados e encaracolados brilhavam tanto quanto seus vívidos olhos em tom de mel. Todavia, a expressão em sua face não possuía tal suavidade, muito pelo contrário. Tudo que emanava dele era sombrio.

Suas mãos comprimiam o pescoço de Robert, fazendo as veias quase saltarem através de sua pele pálida. Ao reconhecê-lo, Sarah vociferou, estapeando o vidro com força. Seu primeiro impulso foi destrancar a porta e correr até o marido, mas o que faria então? Fraca e desarmada, o que poderia fazer contra o desconhecido que os ameaçava?

O celular tocou próximo aos seus pés, fazendo-a pular de susto. Ao se abaixar para apanhá-lo, Sarah paralisou ao ver o nome da irmã piscando na tela. Com um sorriso prepotente, o psicopata a observava à distância.

- Olá, Sarah. Acredito que seu marido pretendia te surpreender essa noite... – disse ele, abrindo ainda mais o sorriso. – E que surpresa, não acha?

- Quem é você? O que você quer de nós?

O sorriso dele se esvaeceu e, por um instante, uma expressão de apatia abateu seu rosto, como se a reação de Sarah fosse tão clichê a ponto de ser exaustiva.

- Quem ou o que eu sou não importa muito – contrapôs, com o tom jocoso de antes. – O que importa, afinal, quando a morte está diante de você?

- Por que está fazendo isso com a gente? – continuou, desesperada. – Por quê?

- Por que não?

O tom cruel lhe arrancou ainda mais lágrimas. Após a desgraça que já havia lhe abatido nos últimos tempos, Sarah não fazia ideia do que aquilo realmente significava, muito menos os motivos que a levaram até ali. Será que havia sido escolhida aleatoriamente pelo destino? Será que estava fadada a sofrer?

- O que você quer de mim? – questionou, mais firme dessa vez. O olhar de Robert era de puro desespero, mas apesar de não estar amordaçado, ele nem sequer abria a boca. Seu marido parecia lutar internamente contra algo, preso por fim em um silêncio aterrador.

- Eu quero... apenas uma coisa – respondeu, abrindo um sorriso que, exceto pela situação em que se encontrava, poderia ser atraente. – Convide-me para entrar.

Se ele queria adentrar à casa, por que não havia tentado arrombar uma das portas ou janelas antes, enquanto ela dormia, completamente desprotegida? A residência não possuía um sistema de segurança ou mesmo alarmes, fato que Sarah sempre desaprovara. A anormalidade daquela chantagem, no entanto, era aterradora. Mas ela, contra todas as probabilidades, não poderia ceder. Seus dois filhos dormiam no andar de cima, o que era uma surpresa, pois com tanto barulho, ambos já deviam ter despertado.

- Como se eu fosse fazer isso.

Ele inclinou a cabeça para o lado, com um olhar torto e analisador. Então sorriu, satisfeito. Como podia ele estar satisfeito em ser desobedecido? Com que tipo de pessoa Sarah estava lidando?

- Sua escolha – afirmou, em constatação. Dois pares de presas afiadas cresceram em sua boca, rasgando a pele frágil da gengiva. Seus olhos tornaram-se negros como uma noite sem lua. Ele atacou Robert, cravando as presas em seu pescoço. Os olhos do marido de Sarah quase saltaram das órbitas. Ela se debateu contra o vidro novamente, incapaz até mesmo de gritar. Quando o rosto dele se ergueu, seus lábios gotejavam de um líquido escuro que Sarah sabia ser sangue. O sangue de Robert.

Temendo pela vida do homem que amava, Sarah apertou o aparelho celular contra o rosto novamente, sendo orientada unicamente por seu coração.

- Pare! Pare com isso! – implorou, exasperada. – Você quer a mim, certo? Então entre. Venha até mim seu filho de uma puta!

Ao ver o corpo imóvel de Robert despencar no chão, seu coração acelerou ainda mais. Ele se aproximava despreocupadamente, atravessando o jardim para chegar à varanda dos fundos. Sarah queria correr – todo o seu corpo gritava para que fizesse isso –, mas ao mesmo tempo, precisava saber se Robert estava vivo. O amor que sentia a esmagava de uma forma que nunca imaginara que fosse possível. No entanto, havia seus filhos também. Seus pequenos; talvez a única coisa que Sarah amasse ainda mais.

Em um impulso cheio de furor, ela correu até as escadas, seguindo cambaleante para o quarto dos gêmeos. A chave estava em um dos bolsos de sua calça moletom, como sempre deixava, por pura precaução. Depressa, ela trancou a porta do quarto deles, seguindo então para o próprio quarto. Trancando-se, Sarah correu até a janela, avistando a rua completamente vazia. Assim que conseguiu abri-la, sentindo o vento gélido da noite adentrar o cômodo e desgrenhar ainda mais seus cabelos loiros, Sarah ouviu a porta desabar. Era ele, de pé na entrada, com um sorriso nos lábios de onde ainda escorria sangue.

Em um ato de desespero, Sarah se jogou para fora irrefletidamente, despencando por fim no telhado da casa. Seu corpo rolou e, com a força e o impulso exercidos, foi lançado em direção ao jardim da frente. O vento a atravessou durante a queda; Sarah pôde sentir o frio selvagem da noite e então a dor extraordinária da queda. O ar em seus pulmões foi sugado instantaneamente. Naquele momento, ela teve certeza de que iria morrer.

Por alguns instantes, a mente de Sarah vagou dentre as lembranças mais ínfimas que guardava; sua infância, a morte de seus pais em uma queda de avião, as constantes brigas com Megan por conta de suas bebedeiras, a crescente frieza de um casamento cheio de amor, a primeira vez que ouviu a risada dos gêmeos...

Sarah se impressionou com aquela grande ironia. Diante da morte eminente, seus quase trinta anos de vida se tornaram apenas alguns míseros segundos.

Dois curiosos pares de olhos castanho-esverdeados esbugalharam-se contra o vidro de uma das janelas da residência, arrancando-a subitamente de suas alucinações. Sarah desejou poder correr e dizer-lhes que tudo estava bem. Mas não estava.

Ele apareceu no hall de entrada da casa, observando-a, estirada na própria grama. Incapaz de se mexer ou mesmo de sentir o próprio corpo, Sarah soube que era realmente o seu fim. E seus filhos assistiriam a tudo.

- A mamãe sente muito... – sussurrou, quase sem forças, para as crianças que a fitavam da janela, completamente aterrorizadas. Sarah sabia que elas não poderiam ouvi-la, mas precisava dizer mesmo assim. – Eu amo vocês....

A sombra do homem parou à sua frente, impedindo o contato visual. Os olhos dele haviam retornado ao mel e sua expressão sádica surpreendentemente havia desaparecido.

- Você realmente os ama, não é? – questionou, com o tom mais humano que ela o viu utilizar até aquele momento.

- Por favor... – implorou, desesperada. – Faça o que quiser comigo, mas não machuque os meus filhos, por favor...

Ele acompanhou seu olhar até a janela no alto da casa, onde os pequenos gêmeos ainda se encontravam. Então, ao virar-se novamente para Sarah, inclinou a cabeça como antes, pensativo. Enquanto procurava algo em um dos bolsos do sobretudo de algodão negro que vestia, ele abria também um pequeno sorriso.

- Por favor... por favor... qualquer coisa...

- Não estou aqui por qualquer coisa, minha querida – afirmou, ajoelhando-se ao seu lado. Abriu então sua pequena caixa retangular de madeira, de onde retirou uma seringa vazia.

- Então por que está aqui?

- Sabe, eu devo confessar que possuo uma certa empatia por essa tal lealdade familiar humana... – contou, antes de perfurar uma das veias de Sarah e retirar, pouco a pouco, o sangue da irmã de sua primeira vítima. – Mas isso é um segredo. E um segredo só é bem guardado por duas pessoas quando uma delas está morta.

- Você matou a Megan, matou o meu marido e agora vai me matar na frente dos meus filhos... por favor... não faça isso...

- Cruel, não? – perguntou, despreocupadamente, enquanto guardava a seringa cheia. – Não se preocupe, querida. Eu me certificarei de que eles sequer se lembrem da existência dessa noite.

- Você é um monstro... – constatou.

Ele se aproximou, mexendo com cuidado nos fios loiros dela, deixando seu pescoço desnudo. Ao expor as presas que a drenariam até a morte, ele aproximou os lábios de seu ouvido para sussurrar:

- Pode ter certeza disto.


Notas Finais


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