História Alpha Guardians (Guardiães Alfa) - Capítulo 9


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Ação, Anjos, Demonios, guardiães, Mistério, Poderes, Romance, Sobrenatural
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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Comédia, Drama (Tragédia), Ficção, Luta, Magia, Mistério, Romance e Novela, Saga, Shoujo (Romântico), Shounen, Sobrenatural, Suspense, Violência
Avisos: Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


"... Eu o puxo para mim. Ele me abraça pela cintura com força e encosta sua cabeça em meu ombro. Pela primeira vez desde a noite passada, ele consegue colocar pra fora toda a dor que está sentindo. Ele chora, chora muito, e seus gritos desesperados são dolorosos de se ouvir..."

Capítulo 9 - Lágrimas Reprimidas


Fanfic / Fanfiction Alpha Guardians (Guardiães Alfa) - Capítulo 9 - Lágrimas Reprimidas

 

— Acho melhor você tomar um banho antes de se deitar.

— Está bem.

Estamos de volta ao meu apartamento. Eu não estou me sentindo muito bem, minha cabeça dói e sinto-me bastante zonza. Com alguma dificuldade eu entro no banheiro e me encosto na parede, pegando apoio para não cair. Rayner aparece na porta do banheiro e olha para mim.

— Precisa de mais alguma coisa? — Ele pergunta.

— Não, estou bem.

— Ok, estarei aqui no quarto se precisar.

— Rayner? — Eu o chamo quando ele já havia dado as costas para sair.

— Sim?

— Obrigada!

— Apenas tome um banho e relaxe.

Rayner volta para o quarto e fecha a porta do banheiro. Sozinha, eu retiro toda a minha roupa e ligo o chuveiro. Enquanto deixo a água escorrer por todo o meu corpo passo a recordar todos os momentos que passei nesse dia. Desde a conversa com o Rayner logo após ele acordar até agora, eu percebo uma coisa muito importante. Rayner não sorriu verdadeiramente uma única vez sequer. Ele podia estar sorrindo pelos lábios, mas seus olhos não sorriam junto. Eu não consigo mais ver o brilho em seu olhar.

— Isso não está nada certo — Balanço a cabeça de um lado para o outro sem concordar com essa situação.

Termino meu banho, enxugo-me, me enrolo na toalha e saio do banheiro. Rayner está em pé próximo a janela observando o lado de fora, mesmo assim eu não consigo ver felicidade alguma em seu rosto. Ao me ver saindo do banheiro, ele sorri, ou melhor, ele força um sorriso para mim.

— Ah, você terminou. Pode ir se arrumando, eu irei tomar um banho também.

Rayner desvia rapidamente seus olhos dos meus e sem mais falar nada, ele atravessa o quarto e entra no banheiro, trancando a porta. De alguma forma eu não consigo suportar vê-lo agindo assim, me machuca saber que ele está fingindo estar bem, quando na verdade ele deve estar sofrendo muito. Eu quero poder ajudá-lo.

Penso em ir até ele e faze-lo me contar tudo que está o atormentando, mas fazer isso enquanto estou apenas de toalha e ele está no banheiro sem roupa tomando banho, não é bem uma situação legal de se acontecer.

Respiro fundo e tento manter-me firme.

Vou ao meu closet e coloco meu pijama, ou melhor dizendo, apenas uma camiseta folgada e um short bem curto, confortável o suficiente para dormir. Sento-me na cama e fico encarando a porta do banheiro, ouvindo o chuveiro ligado.

— Ele realmente está no modo automático.

Essa voz é da Grace. Ela surge ao meu lado na cama e fica observando o banheiro assim como eu estou. Dessa vez eu não me assusto como sempre acontece, talvez porque eu esteja realmente muito preocupada com o Rayner.

— Eu sei  — Respondo a Grace. — Eu queria poder fazer algo por ele, mas não sei bem como agir.

— Você quer muito ajudá-lo, não quer?

— Eu quero sim.

Grace se encosta em mim e me encara séria. É raro os momentos em que ela não está sorrindo ou tentando brincar comigo.

— Você ainda continua a garota que adora cuidar das pessoas que ama, não é? — Ela me pergunta.

— Você me conhece tão bem.

Grace segura minha mão e olho para ela, notando que algo nela me parece familiar, um sentimento tranquilizador.

— Eu ajudei você quando mais precisou, talvez seja a sua vez de dar assistência  — Ela me diz olhando bem fundo em meus olhos. — Ele precisa desabafar, ou pode acabar pior do que já está.

Eu sei que ela está certa sobre isso. Na verdade, eu já sabia disso a muito tempo, só não sabia como lidar com esse fato.

— Eu vou tentar fazer alguma coisa — Digo determinada.

— Posso sentir aqui em você — Grace diz encostando sua mão em meu peito. — que esse garoto está praticamente em tudo dentro de ti.

— O que você está dizendo Grace? — Pergunto olhando alarmada para ela, enquanto ainda assim não vejo nenhum sorriso sarcástico em seu rosto.

— Você realmente é a mesma, sempre se doando por quem mais ama.

— O que você quer dizer com isso?

Não há tempo para eu obter uma resposta, pois ela some no instante em que a porta do banheiro se abre. Rayner está sem camisa, usando apenas uma calça limpa que havia pego antes de entrar no banheiro. Ele está enxugando o cabelo e percebe que eu estou o observando.

— Bem, acho que vou me deitar no sofá lá na sala, então... Boa noite Katie.

— Rayner, espere... — Eu me antecipo antes que ele pudesse sair. — Podemos conversar?

— Ah, claro.

Ele para próximo a porta esperando que eu diga algo. Eu me levanto e aproximo-me dele, e consigo a coragem que eu preciso para falar sobre esse tema delicado com ele.

— Eu quero te pedir para que você... — Eu pauso, mas logo prossigo. — chore, desabafe comigo.

— Eu não entendi o que você quis dizer com isso.

A surpresa é evidente em seu semblante. Eu preciso ser mais direta, eu necessito fazê-lo entender onde quero chegar.

— Eu venho observando você o tempo inteiro Rayner. Desde que te tirei do parque, quando você acordou e soube de tudo que aconteceu; no hospital conversando com o Lucca, na cerimônia de homenagem, no parque novamente procurando seja lá o que era; perseguindo uma sombra que viste e até mesmo quando estava ajudando a salvar aquelas garotas; em nenhum momento eu via a felicidade realmente em você.

— Você está paranóica Katie, eu estive sorrindo sim. Eu quase infartei com esse voo que fizemos alguns instantes atrás... eu continuo agindo normalmente.

— Não, você não está agindo normalmente — Eu estou começando a sentir-me desesperada de alguma forma, e esse sentimento sai junto com minhas palavras. — Você está fingindo agir normalmente, isso sim. Eu vejo você sorrir pelos lábios, mas não pelos olhos. Não há brilho em seu olhar Rayner, apenas uma escuridão total, um abismo sem fundo.

— Podemos não falar nisso, por favor?

Rayner desvia o olhar dos meus e se dirige até a janela. Eu não o deixo escapar, e vou atrás dele, segurando seu braço e fazendo-o olhar novamente para mim.

— Não, vamos falar disso sim. Você precisa se abrir Rayner, guardar essa tristeza e dor para si mesmo não irá te fazer bem algum, apenas irá te consumir até você não ter mais forças para nada. Agir assim pode te matar, cara.

— E o que exatamente você quer que eu faça? — Pela primeira vez eu sinto uma mudança em seu tom de voz e percebo que devo estar obtendo êxito, então continuo.

— Que desabafe comigo, eu posso te ajudar.

— Você não sabe o que está dizendo, você... você não pode me ajudar...

— É claro que eu posso, é só você permitir — Aproximo-me mais um pouco dele, sem querer perder meu olhar do dele, tentando passar para ele minha força de vontade em querer ajuda-lo, preciso faze-lo entender logo.

— Não é tão fácil assim... eu... eu não posso falar sobre isso, não vou... — Suas palavras começam a sair trêmulas e eu sinto que preciso, necessito pressioná-lo ainda mais.

— Rayner, você apenas está se reprimindo sem motivo algum... esses lágrimas reprimidas não estão te fazendo bem... você precisa me deixar te ajudar...

— Como você pode me ajudar Katie? COMO VOCÊ PODE ME AJUDAR?

— Eu... hã.

Finalmente explode. A raiva toma conta dele e suas palavras saem em tom de fúria, o mais alto que ele consegue liberar nesse momento.

— VOCÊ ESTÁ ME DIZENDO PARA SENTAR AO SEU LADO, CHORAR E FALAR O QUANTO ESTOU SOFRENDO COM ESSA DOR AQUI? QUE VANTAGEM ISSO TEM? VOU PODER TRAZER A SOPHIA DE VOLTA? VOU PODER TRAZER A VIDA DE CENTENAS DE PESSOAS QUE SE FORAM DE VOLTA? EU VOU PODER AJUDAR ATÉ MESMO O LUCCA? CHORAR NÃO VAI SERVIR PARA NADA.

Rayner vira violentamente e soca a parede, criando uma enorme rachadura nela. Eu não me importo com isso, eu apenas me aproximo mais dele, o máximo que consigo e seguro seu rosto com minhas duas mãos, fazendo-o olhar para mim, do mesmo modo que ele fez comigo quando estávamos conversando mais cedo na cozinha.

— Se acalme Rayner, por favor... — Eu sinto sua respiração pesada quando aproximo mais meu rosto, e tento passar a tranquilidade de meu olhar para ele. — Você não pode ajudar as pessoas que se foram, eu sei disso também. Mas você pode ajudar a si mesmo. Como pretende seguir em frente se não consegue ao menos se sentir bem consigo mesmo? Precisa confiar em mim, deixe-me te ajudar, por favor.

As primeiras lágrimas surgem no canto dos olhos dele, e quando fala a seguir, sua voz sai falhando, quase inaudível.

— Isso dói demais Katie, dói demais.

— Eu sei, eu sei. Não se preocupe, eu estou aqui com você, pode tirar tudo que conseguir de dentro de ti. Desabafe Rayner, encontre a si mesmo novamente.

Eu o puxo para mim. Ele me abraça pela cintura com força e encosta sua cabeça em meu ombro. Pela primeira vez desde a noite passada, ele consegue colocar pra fora toda a dor que está sentindo. Ele chora, chora muito, e seus gritos desesperados são dolorosos de se ouvir.

Eu continuo abraçando-o, mexendo em seu cabelo, sentindo um desejo enorme de protegê-lo. Não demora muito para minhas lágrimas virem também, mas eu choro em silêncio, apenas para evitar preocupa-lo ainda mais. Depois de alguns minutos, Rayner se entrega ao sono em meus braços. Eu o deito e percebo que não conseguirei desfazer o abraço, pois ele aperta seus braços à minha volta.

Eu não me importo, apenas fico deitada ao lado dele, vendo seu rosto banhado de lágrimas. Ele é fofo dormindo tenho que admitir, e vê-lo assim com esse rosto mais tranquilo me enche de felicidade. Eu quero sempre vê-lo assim, e farei o meu melhor para que isso aconteça, não importa o que eu precise fazer...

                                                                                                 ********

Só me dou conta de onde estou alguns segundos depois que abro meus olhos. Os edifícios mais altos da cidade parecem apenas miniaturas do tamanho de formigas, e vão desaparecendo cada vez mais que eu vou subindo. Eu estou flutuando cada vez mais alto e viro meu corpo para cima no momento que adentro as nuvens. A sensação que sinto é de paz, de alegria, de tranquilidade, e eu chego a conclusão mais óbvia: estou mais uma vez sonhando.

Desde que eu descobri meus dons, sonhar tornou-se cada vez mais frequente. Ou melhor dizendo, todas as noites quando eu me deito e apago, eu acabo sonhando com alguma coisa, e em todas as vezes, eu percebo que estou vivendo em um sonho e posso manipular o rumo a meu bel prazer.

Só que dessa vez por algum motivo eu não consigo controlar meu corpo, que continua subindo cada vez mais sem meu controle.

Ao sair das nuvens e subir um pouco mais, finalmente paro no ar. Estando no meio do nada praticamente, olho à minha volta e só vejo o céu acima e nuvens abaixo, captando um pouco da superfície e do oceano a centenas de quilômetros abaixo. Volto a tentar mexer meu corpo e dessa vez consigo o controle. Fecho meus olhos e imagino que as nuvens abaixo de mim estão sobrecarregadas e prontas pra despejar uma tempestade sobre a cidade abaixo, e isso acontece no mesmo instante. Notando que volto a ter controle de meu sonho volto a observar em volta, já que não me consigo esquecer o motivo para eu ter sido trazida até aqui em cima.

No mesmo momento que eu me faço essa pergunta, uma voz surge atrás de mim:

— Apreciando a vista?

Eu me viro e vejo a mim mesma me encarando de volta. Não há nenhum espelho ou qualquer outra coisa que possa fazer reflexo aqui, então aquela "eu" é real, pelo menos nesse meu sonho. Mas isso não evita que eu fique bastante confusa e surpresa com isso.

— Mas... Como? — Eu pergunto perplexa.

— Não fique tão surpresa assim. Eu sou você, ou melhor, sou uma parte viva de você — Até a sua voz é exatamente como a minha, o que me faz ter que acreditar no que ela me diz, mesmo que pareça estranho. Tento ao máximo entender essa situação, o que não está sendo nada fácil.

— Isso não faz sentido algum.

— Algo em sua vida alguma vez fez sentido?

Ok, é uma ótima pergunta e tenho que admitir que realmente nunca teve. Mas não quero simplesmente dar-me como tola na frente dela, ou de mim, ah tanto faz. Tendo a confirmação realmente que estou com meus movimentos de volta, sobrevoo até ficar mais próxima da minha segunda versão, tentando demonstrar que não sinto medo algum por estar vivenciando esse momento.

— Pode me explicar o que está acontecendo? — Me mantenho determinada, com intenção de me impor nessa situação.

— Não há muito o que explicar agora sobre isso, mas um dia você poderá entender.

— Ah — Por algum motivo começo a não me sentir confortável perto dela, e sinto vontade de sair daqui, mesmo que eu tenha decidido não temê-la. — Mas posso saber por que você, ou eu, sei lá... Por que estou tendo esse sonho?

— É a primeira vez que decido fazer contato com você. Eu ainda não posso tentar algo mais do que isso, mas é um começo, não é?

A minha "eu" em minha frente— que vou preferir chamá-la de "ela" mesmo, para não me confundir completamente— mostra-se estar com um semblante triste, preocupado, como se esperasse que alguma coisa aconteça e melhore seja lá o que ela quer. Ao perceber que a estou observando, ela tenta um sorriso, mesmo sendo obviamente falso.

— Você está preocupada comigo? — Ela indaga.

— É tão obvio assim?

— Então isso significa que você está preocupada consigo mesma.

— Como?

— Se está preocupada comigo, que sou você, então significa que há algo em você que te preocupas, e sente a necessidade de proteção ou de ajuda para comigo, assim poderá entender melhor a si mesma.

Eu já não estou entendendo mais nada, sentindo minha cabeça dá uns nós malucos, e quando faço menção de dizer isso, ela muda o rumo da conversa.

— Ele está bem? — Ela pergunta.

— Ele? — Sei que deve estar se referindo ao Rayner, mas não dói nada fazer essa pergunta.

— O rapaz que está nesse momento dormindo abraçado com você.

— Mas como... C-como você sabe disso?

— Tenho que dizer novamente que sou você, Katie?

Ao falar isso, uma imagem mais ou menos do tipo holográfica surge diante de nós, mostrando a mim e ao Rayner deitados na minha cama, dormindo. Realmente estamos abraçados, e a cabeça dele repousa próximo a meus seios. Ver isso me deixa muito encabulada, e devo estar muito vermelha agora, mas decido não demonstrar esse constrangimento para ela.

— Eu o ajudei da maneira que podia.

— Você fez bem.

— Não parecia estar nada bem, mas espero ter ajudado ele — Eu digo com esperanças que realmente seja verdade, vendo o semblante tranquilo dele na imagem.

No momento que a imagem some, ela entoa com a voz baixa:

— Espero que o seu instinto tenha melhorado.

— Como disse?

— Não é nada. É melhor eu ir... — Rapidamente, ela se vira para olhar o lado mas volta a me encarar logo depois, bem mais séria dessa vez. — Mas antes quero deixar um recado: fique mais forte, ou eu serei obrigada a devorar você.

Ao dizer isso, algo começa a brilhar do outro lado dela, como se alguma coisa estivesse sempre ali mas que até o momento se mantivesse invisível. Aos poucos um objeto enorme vai aparecendo, mas sem mostrar-se completamente sólido. Eu consigo ver e distinguir algum tipo de animal transparente, porém com um pouco mais de dedicação eu noto que é um pégaso, exatamente como a cicatriz que tenho gravado em meu peito.

O ar à nossa volta ganha força, fazendo-me ter dificuldades de me manter firme no mesmo lugar. Ela, que estava parada provavelmente na frente do pégaso até então, havia sumido sem eu notar, e sem conseguir controlar, meu corpo começa a despencar no ar. Ganhando velocidade, eu atravesso as nuvens e vou em direção ao chão...
 

Mesmo sendo um sonho, o medo e a sensação de morte toma conta de mim e a única coisa que consigo fazer é gritar. Antes de acertar o chão eu finalmente acordo, sentando rapidamente na cama e ofegando muito. Passo algum tempo me recuperando do susto e olho para a minha volta, notando que Rayner não está mais ali do meu lado.

Deito-me e fico encarando o teto, relembrando cada detalhe desse sonho que acabei de ter. Quem era ela e por quê apareceu igualmente a mim? O que o pégaso significa e por quê é exatamente idêntico à cicatriz que tenho cravado em mim desde que nasci? Isso com certeza tem algo a ver com quem realmente sou e sinto-me com vontade de descobrir as razões por trás desse sonho.

Levanto-me, lavo meu rosto na pia do banheiro e saio do quarto à procura de Rayner. Encontro-o sentado no sofá da sala, perdido em pensamentos enquanto segura uma carta. Eu sento ao seu lado e isso o faz perceber a minha presença.

— Ah bom dia Katie. Dormiu bem? — Ele entoa com um tom tranquilo, totalmente diferente de ontem, o que me deixa muito feliz.

— Acho que sim. E você?

— Tive uma de minhas melhores noites, de sempre.

— Que bom.

Ouví-lo dizer isso assim do nada me pega desprevenida e viro meu rosto para o lado oposto dele rapidamente, para que não note meu vermelhidão. Mas ele parecia não ter notado, ou se percebeu, não quis comentar sobre isso. Volto a olhar para o seu lado e Rayner novamente encontra-se perdido em pensamentos. Lembranças sobre a noite anterior retornam a minha mente e não consigo deixar de evitar me perguntar por que me preocupo tanto com ele, ou por que me sinto bem ao estar ao seu lado. Eu não consigo me recordar se já o conheço, o que torna tudo ainda mais misterioso para mim.

Encosto minha cabeça em seu ombro e apenas fico em silêncio, esperando ele ter a coragem de dizer seja lá o que quer, pois sinto que há algo nele que precisa ser posto pra fora. Ele não demora muito.

— Obrigado por... por aquilo.

Eu sei que ele se refere ao que aconteceu na noite passada, momentos ao qual não consigo tirar da cabeça. Na verdade, eu fiz algo realmente necessário e me orgulho disso, mesmo que eu tenha sido um pouco dura com ele, mas eu precisava muito ajudá-lo.

— De nada — É quase um sussurro meu de volta. Tentando mudar de assunto, eu aponto para a carta que ele segura e pergunto.

— O que é isso?

— Não sei bem, acho melhor você ver também.

— Tem certeza? Não é algo pessoal?

— Isso te envolve também Katie, então melhor você dar uma olhada.

Rayner me entrega o envelope e eu tiro a carta de dentro. Abro-a e começo vendo apenas uma pequena frase escrita com uma letra realmente bonita, alguns números embaixo e depois um P.S. A frase em si não é muito grande, apenas diz: "Vocês precisam vir o mais rápido possível". Os números representam sem dúvida coordenadas e o P.S diz: "Fico muito feliz por vocês dois estarem juntos".

Olho para Rayner de forma interrogativa e ele apenas balança os ombros, pedindo para que eu veja o outro lado da carta. Eu a viro e noto dois símbolos desenhados perfeitamente, e eu conheço um deles, ou melhor, é a marca de meu peito junto a outro símbolo que parece mais três figuras, duas alinhadas na parte de baixo e outra em cima indo em direção a elas, o que parece muito com uma mão um pouco deformada. Isso ativa meus sentidos completamente.

— Esse símbolo... — Eu aponto para a marca referente a mim.

— O que tem?

— Eu acabei de ter um sonho com esse símbolo, e está cravado em mim desde que nasci — Eu afasto um pouco da minha camiseta para que ele possa ver a parte de cima de meu peito esquerdo, onde a marca está cravada em minha pele.

Rayner fica muito surpreso e sem dizer nada, apenas afasta sua camisa para que eu possa ver seu peito esquerdo, e vejo o outro símbolo cravado nele. São nossas marcas, e seja lá quem seja essa pessoa que mandou essa carta sabe sobre nós. Voltando a ler a carta novamente, eu tento entender o significado por trás disso.

— Só diz "Vocês precisam vir o mais rápido possível". O que são esses números, coordenadas não é?

— Eu espero que sim, e eu já pesquisei para saber onde fica — Rayner pega seu celular e me mostra uma localidade no mapa.

— E esse lugar é?

— Não muito longe daqui, acredito que se formos voando chegamos no máximo em cinco minutos.

— Pensei que depois da noite passada não quisesse mais sair voando comigo por aí? — Digo sarcasticamente, fazendo-o lembrar do voo desastroso que tivemos. Apesar se eu ter ficado super bêbada ontem, não tenho problemas fortes de ressaca hoje e lembro muito de tudo que aconteceu, ou quase tudo.

— Não voarei mais se você beber... ou melhor, não deixarei mais você beber — Ele diz, sorrindo para mim, então dou um soco rápido em seu ombro, fazendo-o reclamar de dor.

— É na cidade? — Eu pergunto.

— Não na cidade exatamente, mas nas proximidades.

— Algo de específico no local?

— Uma capela abandonada, e as coordenadas dão exatamente nessa capela.

— Algo próximo a esse lugar?

— Não, a não ser uma casa que fica mais ou menos a um quilômetro da localidade indicada na carta.

Okay, tudo indo fácil demais até esse momento. Eu vasculho o envelope e a carta mais uma vez atrás de alguma informação que nos diga quem nos escreveu, mas não há nada. Isso perfeitamente é muito suspeito.

— Não tem remetente. É certo confiarmos nessa carta? Nem sabemos quem nos enviou isso, pode ser até uma armadilha.

— Eu pensei nisso também, mas... — Rayner olha para frente, praticamente para o nada, como se tivesse refletindo seriamente ou pensando em alguma lembrança sua, mas depois volta a olhar para mim decidido — Não temos mais pista nenhuma para seguir. Não estou dizendo que confio plenamente nisso, mas é melhor do que ficarmos aqui sem fazer nada.

— Tudo bem, você está certo. Mas vamos precisar tomar bastante cuidado.

— Eu sei. Quando você quer ir?

— Que tal agora?

— Tirou as palavras de minha boca.

— Ok, vou apenas trocar de roupa.

— Tudo bem, saímos em cinco minutos.

— Você não vai se trocar? — Eu pergunto para ele sem nem ao menos pensar, e só depois sinto-me envergonhada por ter aberto a boca para falar isso. Porém Rayner parece não ter se importado.

— Depois de você, ou quer que trocamos de roupa juntos? — Ele pergunta sarcasticamente, e eu respondo apenas jogando uma almofada nele, dirigindo-me para o quarto em seguida, segurando com os braços minha barriga e quase não me aguentando de tanto rir.

 

Demoramos exatamente oito minutos de voo da casa da Katie até o local indicado pela carta, numa velocidade constante de cem quilômetros por hora. Sobrevoamos a região, que por sinal é formado por uma mata densa, pelo menos nessa parte, e pousamos próximo ao nosso destino.

A capela abandonada fica num vale aberto no meio da mata, a alguns quilômetros da cidade propriamente dita.

Encostado em uma das árvores, eu analiso rapidamente o ambiente à nossa volta, para constar se realmente não há mais alguém por aqui.

— Beleza, está tudo limpo, pelo menos por enquanto — Eu falo com convicção. — Precisamos tomar cuidado com aquelas criaturas se aparecerem, e com os donos.

— Com os donos? — Katie pergunta atrás de mim.

— Sim, esse terreno atualmente faz parte de uma propriedade particular.

— Ah legal, e por que não me avisou sobre isso antes?

— Eu não achei importante, prefiro invadir assim do que ir pedir autorização para vir. Fazer as coisas no mais secreto possível.

— Ah que legal! — Katie bufa nervosa.

Olho para ela e noto a indignação em seu rosto. Eu já esperava que isso fosse fazê-la ficar assim, então espero uma reclamação por parte dela, mas não é bem o caso.

— Você precisa entender que não sou certinha assim sabe. Eu escolheria agir dessa mesma forma de agora do que ir falar com fulano ou cicrano. Eu amo uma certa adrenalina sabe?

— Huum... — Eu acabo soando mais dramático do que queria, e isso não passa despercebido por ela.

— Que foi?

— Nada. Vamos?

— Você primeiro.

— Vamos lá Katie, não precisa ficar tão rabugenta assim — O que ganho com esse meu comentário é um soco nas costas, que doeu pra caramba. Acho que está virando rotina ela querer me bater.

Saber que a Katie gosta de adrenalina é algo que de alguma forma me deixa animado, mas não sei dizer o motivo para isso. Talvez porque eu sou assim também, e notar que ela é mais parecida comigo do que eu imaginava, seja algo que eu desejo. Saímos de entre as árvores e nos dirigimos à capela. Realmente é notável que esse lugar está abandonado, já que podemos ver rachaduras nas paredes, janelas quebradas e parte do telhado desabou, isso percebemos enquanto voávamos.

— Tudo está indo bem demais até o momento — Eu entoo dramaticamente.

— Melhor parar de falar nisso antes que algo de ruim aconteça — Katie devolve em tom de provocação.

Alcanço a porta de madeira da capela e vejo que está fechada, mas nada que um bom chute faça-a cair. Estou me preparando para agir quando Katie segura meu braço.

— Está maluco? Esqueceu o que acabou de dizer? Agir com cautela meu amigo. Olhe para cima, tem janelas quebradas, vamos entrar por uma delas.

— Ok, seguirei seus passos até o além, comandante.

— Não enche.

Katie segura-me pela cintura e levantamos voo, passando por uma das janelas e pousando no interior da pequena igreja. O estado aqui dentro não é melhor que o lado de fora, mas pelo menos não está tão pior quanto eu imaginava.

— Esse lugar está a beira de desabar inteiramente — Eu falo após um longo assovio. — Onde está a faxineira quando mais se precisa?

— Então vamos agir o mais rápido possível e ver se encontramos algo interessante. E ela deve ter se demitido.... Cuidado com qualquer sinal de perigo.

— Pode deixar.

A procura por algo, seja lá o que for que estejamos procurando, é mais demorada que o esperado. Passamos meia hora vasculhando entre os escombros mas não achamos nada especificamente estranho ou diferente que possa nos servir. Katie acaba se levantando do chão onde estava fazendo sua busca no momento e murmura em voz alta.

— Está bem, acho que fomos enganados. Não parece haver nada de interessante para nós aqui.

— Não desista ainda querida, vamos encontrar alguma coisa, eu tenho certeza.

— Querida? — Ela pergunta com um tom de surpresa, e eu preciso olhar para ela antes de responder.

— Não gostou? Sinto muito, eu posso parar com isso, na verdade eu não sei nem porque eu te chamei assim.

— N-não tem problema, está tudo bem, eu... gostei, eu acho.

Eu estou no momento embaixo do altar que ainda consegue se manter firme, tentando encontrar algum pequeno detalhe que sirva para nós, o que é uma vantagem para mim, pois posso virar rapidamente e esconder meu rosto da Katie para que ela não veja meu estado desconcertado, porém acabo acertando minha cabeça embaixo do altar, o que doeu pra caramba. Quando levanto a cabeça para o fundo da capela acariciando meu cocuruto e reclamando baixinho, pelo canto do olho, algo me chama a atenção.

Atrás da estátua de nossa senhora eu vejo uma espécie de alavanca. Noto que só pode ser visto agora devido ao local estar em degradação, já que esse lugar deveria ser realmente bem escondido. Aproximo-me e puxo a alavanca. Um alçapão se abre bem atrás do altar da capela, revelando um túnel estreito e escuro.

— Acho que tem sim algo de interessante aqui, Katie.

— Legal, passagem secreta, agora sim estamos em um filme.

— Queria eu estar em um filme, não correríamos risco de vida em um.

— Talvez.

Crio uma chama em minha mão esquerda para iluminar o caminho e descemos as escadas. As paredes de pedra deixam o lugar um tanto claustrofóbico, por ser uma passagem muito estreita, o suficiente para apenas uma pessoa passar por vez. Eu sigo na frente enquanto a Katie vem logo atrás de mim.

O caminho é sempre o mesmo e praticamente em linha reta. Em alguns momentos eu ouço a Katie reclamar atrás de mim algo do tipo, "aranhas, eu não gosto de aranhas", fazendo-me lembrar de um dos filmes de uma saga sobre magia que amo muito. Não demoramos tanto até pararmos de descer e seguir em linha reta até nos esbarrarmos em uma barreira. Chegamos em uma localidade mais espaçosa e existe uma barreira nos quatro cantos protegendo algo que está no centro. Algo com sete símbolos gravados, sendo dois deles as marcas gravadas em mim e na Katie...

— Aquilo ali...

— É — Katie está tão surpresa quanto eu.

— Consegue ver o que exatamente é aquilo?

— É fácil perceber que é uma espécie de árvore que... que brilha... -Katie aproxima seu rosto até encostar na barreira. — Eu vejo algumas folhas de papel, um mecanismo que lembra uma bússola e uma chave ao pé da árvore!?

— Vamos tentar passar por essas barreiras.

Eu encosto minhas mãos na barreira e faço força, o máximo que eu consigo, e veja que é mais do que qualquer um, e não se move um milímetro se quer. Katie  também tenta me ajudar mas não dá em nada.

— Não dá, deve ter alguma maneira específica para se passar por isso. — Ela fala após desistir.

— Ok, vamos voltar. Sabemos que esse lugar existe, e que provavelmente não irá a lugar algum. Podemos ir para sua casa e tentarmos refletir mais calmamente para descobrirmos uma forma de chegar até a árvore. Não quero ficar nem por mais um minuto, eu estou sentindo um certo calafrio.

— Nem me fale.

Durante o caminho de vinda, nós permanecemos calados, provavelmente esperançosos sobre o que poderíamos encontrar. Agora que vimos a árvore, a barreira e estamos voltando, a vontade de manifestar nossos pontos de vista fica enorme. Katie é a primeira a falar.

— A pessoa que nos enviou a carta sabe desse lugar. Primeiro, isso é muito estranho e suspeito, pois nem quis se identificar. Segundo, nem teve a bondade de nos dizer como passar pela barreira.

— Talvez essa pessoa, se for uma pessoa, nem saiba também como passar. Viu todos os símbolos gravados na árvore? Acredito que isso tem a ver conosco, e que provavelmente somos os únicos capazes de passar, e também pelo que podemos notar deve haver mais cinco de nós por aí, pois existem sete símbolos cravados ali. Se cada marca daquela representa um de nós, somos sete ao todo... Acredito que essa pessoa quer que nós façamos todo o serviço e depois ele venha nos eliminar para ficar com o segredo desse lugar.

— Você é um grande otimista Rayner — Eu sinto o sarcasmo em sua voz.

— Só estou dando uma das probabilidades. Espere...

Eu seguro Katie e peço para ela fazer silêncio. Ela fica parada e me olha com ar de interrogação.

— O que? — Ela sussurra para mim.

— Tá ouvindo?

— Alguém se aproxima — Ela também nota o som de passos, depois de alguns segundos.

— Vamos nos esconder.

Corremos e nos escondemos atrás de alguns escombros do local. Esperamos até que ouvimos o som de chave sendo usado e a porta de entrada sendo aberta. Duas pessoas adentram a capela segurando uma espada cada uma. Fico surpreso por essas pessoas possuírem espadas.

Ao se aproximar mais, uma delas para e grita para o local.

— Quem quer que sejam e onde estejam, saiam imediatamente.

Eu reconheço elas, então saio de onde estou. Katie me segue.

— Vocês duas — Eu falo surpreso.

— Vocês dois — Alice responde.

— Que grande coincidência — Katie diz atrás de mim.

— O que estão fazendo aqui? — Annie pergunta.

— Tentando descobrir algo sobre nós — Eu respondo.

— O que vocês estão fazendo aqui? — É a vez da Katie perguntar.

— Esse lugar pertence à nossa família — Alice responde.

— Sua família é a proprietária desse lugar? — Eu faço a pergunta.

— Isso mesmo — Annie nos diz.

— Novamente, que grande coincidência — Katie suspira.

— O que foi isso? — Alice pergunta.

Tudo isso aconteceu rapidamente. Uma pergunta e fala atrás da outra, como se estivéssemos numa competição para ver quem conseguia falar mais rápido. Mas essa última pergunta da Alice se referia a um barulho vindo do lado de fora, e então vejo uma silhueta pela janela e grito.

— Se protejam!

Pulamos um para cada lado, evitando ser esmagados ou atingidos por uma criatura, daquelas que atacaram o parque. Mais delas começam a aparecer por todos os lados. Eu levanto-me e vejo que as irmãs estão bem.

— Vejo que vocês sabem se defender — Eu falo para elas. Acabamos formando um círculo, Katie, Alice, Annie e eu, sendo cercados pelas criaturas.

— Obviamente — Annie responde.

— Então é hora do show! - Eu dou o sinal verde para o combate e avançamos...


Notas Finais


"Podemos reprimir nossas dores, mas quando ficamos cheios de sentimentos, sejam eles bons ou ruins, necessitamos de pessoas que amamos e se importam conosco, para que possamos desabafar e esvaziar tudo dentro de nós, antes que possamos acabar nos matando por dentro" - Math.


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