História Alucinação - Capítulo 1


Escrita por: ~

Postado
Categorias My Chemical Romance
Personagens Frank Iero, Gerard Way
Tags Frerard Mcr
Visualizações 17
Palavras 4.032
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Slash
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Baseada em uma história verídica.

Capítulo 1 - Capítulo único


A pior parte de ter uma alucinação é o sentimento de desespero que só você sente. Enquanto o mundo parece girar exatamente como deveria, em você algo está desmoronando sem volta, em seus olhos o medo do que vê. A confusão em ver todos seguindo a vida enquanto a desgraça está bem ali, em frente aos seus olhos, pronta pra ser vista por quem quiser. Mas ninguém quer, porque não é real e as pessoas não estão interessadas em histórias inventadas  por mentes imaginativas, a menos que seja algo relacionado ao mundo de Harry Potter,  porque todos estão sempre prontos para viajar ao mundo de J.K.

A sua assombrosa alucinação continua se alimentando da sua impotência, enquanto os olhos do mundo estão mais preocupados sobre o próximo filme adaptado das obras de Stephen King, seu terror não parece suficiente pra que vejam. Você vai se afogando na ilusão que você pode jurar ser real, mas eu disse, ninguém se importa, ninguém vê, ninguém tenta entender.

Ainda posso dizer que tão ruim quanto estar alucinando é o momento após a alucinação.  Quando os fantasmas se dissipam em frente aos seus olhos e sobra apenas os questionamentos sobre sua sanidade.  Logo você, que sempre se julgou tão consciente da realidade, parece se deixar levar pelos braços da loucura sem saber o que é verídico e o que é inventado. Todas as suas certezas se quebram em minutos, todas as suas respostas se dissolvem em um copo de plástico cheio de água gelada na mão da psiquiatra.  E todo o branco da clínica faz sua cabeça doer de um jeito que parece infinito. O silêncio físico só é interrompido pelos soluços infantis que lhe escapam, em sua mente tudo gira e faz barulho.  Você quer correr com os fones no último volume,  mas tem medo do que tem além da porta. Mesmo que não tivesse, você não pode sair da sala, porque pessoas que alucinam não são responsáveis por elas mesmas, independente de quantos anos já tenham vivido.

Então você decide não dizer mais nada, porque já não sabe o que é alucinação e o que vão pensar de você e quanto tempo vai ficar preso na sala se disser o que pensa. Você só pode esperar pela frase que certamente virá.  "Você precisa entender que fazemos isso pelo seu bem. Você precisa ficar e vão te ajudar no tempo que estiver internado". Você finalmente entende: está louco.

Quando eu o vi pela primeira vez eu poderia adivinhar que ele causaria minha ruína, era como se uma placa luminosa dissesse 'perigo' em letras grandes e vermelhas em cima da cabeça dele. Mas eu ignorei todos os avisos possíveis. Ele era lindo, problemático e popular. Claro que eu, um antissocial estranho e arruinado, me interessaria.
Quando conheci Gerard ele era namorado da minha única e melhor amiga, eu o odiei, de verdade.  Ele era o garoto rebelde e popular e  tinha toda aquela áurea artística o rondando, escrevia, pintava, era líder do grupo de teatro, tinha uma banda e tirava notas boas mesmo nunca estando dentro da sala de aula. Ele promovia protesto no pátio da escola e defendia as minorias.  Enquanto eu era invisível, ninguém se importava de verdade com minha presença e notas medianas, eu não tinha amigos e passava os intervalos na biblioteca. Ele queria o brilho e o estrelato e eu só queria sair dali o mais imperceptível possível.  Não podíamos ser mais diferentes, embora depois de alguns meses eu descobrisse que éramos atormentados pelos mesmo fantasmas do passado.

Gerard e eu passamos da antipatia aparente a uma espécie de amizade estranha muito rápido. Éramos obrigados a almoçar na mesma mesa, tínhamos aquela pessoa em comum que era a única coisa que parecia nos ligar.  Ele sempre estava tagarelando com ela enquanto eu me escondia atrás de um livro ou de fones.  Mas inevitavelmente eu tive que participar de algumas conversar e responder algumas perguntas, o que me fez notar que tínhamos mais coisas em comum do que eu gostaria.

Todas as manhãs eu ganhava carona até a escola, só que meus pais iam trabalhar muito cedo e eu chegava uma hora antes das aulas começarem. Gerard morava a alguns quarteirões de distância da escola e também ia mais cedo, pois odiava o novo marido de sua mãe e preferia sair antes que o padrasto acordasse. Foi ali que eu o vi pela primeira vez, mas antes do namoro com Mandy,  minha amiga, eu apenas o observava sentar encostado ao mastro da bandeira com o brasão do colégio. Logo após o namoro que selou meu destino, Gerard foi se aproximando do meu canto isolado, em baixo de um pinheiro que eu costumava chamar de Joe, até estar sentado ao meu lado disparando frases seguidas sobre o templo budista que frequentava ou sobre Goethe ou sobre a ascensão do capitalismo ou até sobre a quantidade de calorias no lanche da cantina ou sobre esquilos. Enfim, ele parecia ter infinitos assuntos aos quais poderia fazer monólogos por dias inteiros. Mas em algum momento entre os trinta minutos que nos separava da aula, Mandy aparecia, e Gerard e ela pareciam automaticamente esquecer da minha existência quando se viam. Os dois ficam trocando saliva enquanto eu ouvia rock clássico e lia qualquer porcaria yaoi que eu encontrasse, até finalmente o sinal tocar e nos separarmos até a hora do almoço. Eu estava no último ano, Mandy também,  mas Gerard estava uma série atrás por reprovar por faltas, como eu disse: ele não costumava assistir a muitas aulas.

Semanas seguiram nessa mesma rotina até Mandy me convencer a fazer parte do grupo de teatro,  além de conseguir nota extracurricular eu ainda poderia ter companhia pra ir embora afinal ela morava perto da minha casa e eu não precisaria ir sozinho no ônibus cheio de adolescentes irritantes. Acho que foi nesse dia que algo mudou. Eu fiquei até o final da aula esperando todos os membros do grupo chegarem. Quando estávamos todos reunidos naquela sala vazia, fui o primeiro a tirar os sapatos para me mover com mais facilidade e Gerard sorriu pra mim.

-Eu quero todos se apresentem, já que temos novos membros. -Gerard disse naquele tom de voz esquisito e animado que só ele possui.

Todas as apresentações foram bem genéricas, nomes, idades, séries e outras coisas dispensáveis. Até que chegou minha vez, e eu sabia que podia me definir com uma única frase e foi o que eu fiz.

-Eu sou o deus do meu mundo. -Foi tudo o que eu disse. Um olhar esverdeado me chamou a atenção,  os olhos de Gerard sorriam tanto quanto seus lábios.

Eu não me lembro do que aconteceu naquela tarde além disso, só me lembro de Gerard correndo atrás de mim quando eu estava indo ao banheiro tomar um banho para ir pra casa. Ele me disse que tinha ficado feliz por eu ter tirado os sapatos, que significava muito pra ele ver que alguém estava se entregando ao grupo. Que a forma que eu me apresentei o surpreendeu, pois não esperava que eu visse o mundo assim etc. Foi a primeira vez que eu sorri pra ele, foi a primeira vez que eu nos vi como iguais, mas eu não respondi nada. Fiquei com vergonha de dizer algo e estragar a recente admiração que ele tinha por mim. Então eu apenas aceitei o Abraço amigável e fui para o chuveiro repassar mentalmente o que eu havia feito de especial para ele ficar tão feliz.

Um dia depois do encontro com o grupo de teatro, uma sexta feira quente, lembro de Gerard chegar na escola sorrindo e se sentar ainda mais próximo de mim. Nesse dia ele não tagarelou sobre um assunto aleatório, ele começou a me falar sobre a vida dele e como ele havia sido expulso do antigo grupo de teatro do qual fazia parte. Nossa amizade foi evoluindo assim, ele me contava coisas particulares durante as manhãs, no almoço Mandy, ele e eu conversávamos sobre coisas que tínhamos em comum -como o gosto musical- e depois da aula trocávamos SMS até tarde da noite. Fui eu que mandei solicitação de amizade no Facebook, mas foi ele quem mandou a primeira mensagem.

Estava tudo normal até uma semana estranha quando Gerard ficou misteriosamente doente e não apareceu na escola na segunda e na terça. Chamei Mandy para ir até a casa dele e ver o que estava acontecendo.  Depois da aula passei em uma loja de doces e comprei tudo que meu dinheiro do almoço permitia. Quando chegamos na casa de Gerard, ele estava em baixo de três cobertas. Nunca vou me esquecer daquela cena: seu rostinho rosado e os olhos claros miúdos. Ele sorriu quando nos viu e eu fiz questão de passar o resto da tarde o mimando, inclusive dei a ele todos os doces que comprei. Antes de ir embora Gerard e eu caímos no chão da sala rindo numa luta tosca de cócegas sem vencedores. Foi tão bom sair dali e vê-lo sorrindo com seu poodle nos braços. Ver toda tristeza e febre fora de seu corpo frágil foi um presente pra mim.

Durante o restante daquela semana fomos até a casa de Gerard visita-lo,  e todas as tardes acabavam com nós dois jogados na varanda rindo enquanto o poodle estressado latia enlouquecido.  Na semana seguinte Mandy não foi comigo, mas isso não me impedia de ir assistir um filme idiota de comédia com Gerard em sua cama apertada. Eu sentado na ponta mais remota enquanto ele ficava só com os olhinhos fora do cobertor grosso.

Na última vez que fui a casa dele, Mandy foi junto, o namoro deles não ia muito bem e ela decidiu que seria um bom dia para uma reconciliação.  Em algum momento do filme o tema sexo foi abordado e Mandy teve a infeliz ideia de dizer que eu não poderia saber se realmente era gay já que nunca havia tocado em uma mulher ou sequer visto um porno hetero.

Gerard decidiu debochando que resolveríamos aquele problema naquele dia. Ele empurrou Mandy para a cama e começou a beija-la libidinosamente.  Os olhos da garota estavam fechados, mas os esverdeados dele estavam presos aos meus. Foi bastante perturbador vê-lo arrancar a roupa de minha amiga e as suas próprias enquanto me olhava com as íris flamejantes.  Por Deus, aquilo poderia me enlouquecer ali mesmo, mas sai correndo quando ele gemeu pela primeira vez,  era muito pra minha cabeça atormentada. Passei o resto da tarde sentado no sofá com o poodle dele no meu colo e os gemidos em meu ouvido.

No dia seguinte eu não conseguia olhar para Mandy e muito menos para Gerard, meu rosto ficava vermelho só de lembrar da cena dos dois juntos.  E os evitei, por dias eu fugi dos dois. Nem mesmo suas mensagens eu respondia. Mas eu tive que voltar a escola, minhas notas medíocres não iriam se manter sozinhas. E quando eu o vi se aproximar, com as sobrancelhas franzidas e olhos de quem havia chorado, eu soube que algo errado havia acontecido. 

Gerard, o prodígio rebelde da escola estava perdendo seu trono e de quebra havia perdido o celular. Ele me contou que acabara de ser assaltado e que enquanto eu estive fora todo seu mundo ruira  Ele não tinha mais seu amado grupo de teatro, nem seus amigos e seu namoro estava perto de ter o mesmo destino trágico. Ele deitou em minhas pernas e pediu para que eu colocasse uma música, seus olhos fechados jorravam água enquanto a canção lenta dos Beatles atingia todo o verde a nossa volta. Eu soube ali que o amava.

Sim, eu definitivamente o amava mais do que amava qualquer outro ser no universo, nem Han Solo era tão amado por mim quanto ele.  Passamos quarenta minutos naquele chão, com a luz do sol tocando nossos rostos enquanto minhas mãos acariciavam aqueles cabelos negros e embaraçados. Aquele seria meu novo vício e se repetiria por quase todas as manhãs do resto daquele ano.

Depois da primeira vez que Gerard chorou nos meus braços ele não se cansava de ir me procurar quando precisava de um ombro amigo. Não dá para contar nos dedos todas as vezes em que ele me ligou para se lamentar. Às vezes ele nem dizia nada, só chorava até soluçar e dormir, em outras ele ficava horas falando. Uma vez ele só repetia que era uma pessoa horrível por mais de trinta minutos. 

Mandy em uma manhã me ligou dizendo que não iria a aula, porque seu namoro tinha acabado. Eu deitei no gramado da escola e sonhei que Gerard estava bêbado e eu tinha cuidar dele, nos beijamos quando eu tentava dar banho nele.  Antes daquele sonho eu não tinha pensado na possibilidade de me envolver com ele em algo além de nossa amizade. Quando ele me acordou eu me senti sujo e estranho por tê-lo desejado, mesmo em sonho, o ex namorado da minha melhor amiga.  Naquela manhã ele deitou no meu colo e ficou calado, eu também não tive coragem de dizer nada.

Com o fim do relacionamento deles eu tinha uma nova rotina, durante as manhãs, antes das aulas, eu me dedicava a Gerard e passava o resto do dia com Mandy. Mas na minha vida as coisas não costumam duram muito,  Mandy se afastou de mim depois de uma discussão por causa de Gerard,  ela disse que o queria morto e eu me vi na obrigação de defendê-lo.

Em uma terça sem graça eu chorava a perda da amizade com Mandy jogado em uma das escadas da escola. Um casal hetero praticamente se comia na parede em minha frente e aquilo estava me incomodando. Eu chamei o monitor do corredor e ele só me disse que eu não poderia estar sentado nos degraus. Gerard chegou nessa hora, olhou minha cara de choro e ouviu o sermão que ganhei por atrapalhar a passagem.  Ele não demorou muito para deduzir que eu havia reclamado do casal. Um segundo depois ele puxava um dos calouros e o prendia em uma parede para o beijar de modo cinematográfico. O monitor me esqueceu e partiu furioso para separar os garotos que se beijavam freneticamente.* Gerard largou o garoto perplexo. O monitor estava vermelho de raiva quando Gerard com um sorriso travesso disse:

- Se quer me fazer parar primeiro pare o casalzinho lá. Afinal eles estão se beijando a mais tempo.  Ou você quer ser acusado por ser homofóbico? 

O monitor correu até o casal que ainda se pegava. Eu fiquei chocado com a atitude de Gerard,  ele puxou o menino que antes beijava e saiu dando uma piscadela para mim. Foi naquele dia que descobri que ele era bissexual.

Era novembro e  só um mês restava para eu me livrar do ensino médio. Gerard andava deprimido, mais do que o comum, sua febre ficava cada vez mais frequente e ele já não conversava com ninguém além de mim e mais um amigo. Em uma quinta feira cinza ele não apareceu no nosso gramado,  ele não estava em lugar algum daquela escola. Não consegui me concentrar em nenhuma aula, não parava de pensar nele. Na aula de história ouvi o som de sirenes e meu corpo inteiro gelou. Não tive coragem de sair da sala para ver o que estava acontecendo, mas eu sabia que tinha a ver com Gerard.  Ele foi encontrado no banheiro masculino,  na sua mochila um frasco vazio com os calmantes de sua mãe.

Foi o pior dia da minha vida,  ninguém me dizia nada e eu não sabia o que fazer. Liguei para a mãe dele vinte e duas vezes em uma hora. Tive uma crise de choro dentro de um ônibus e cogitei a possibilidade de me jogar em frente a um caminhão caso ele não resistisse. Eu não tinha mais lágrimas quando a mãe dele me mandou uma mensagem. "Ele está em casa, está dormindo agora." Eu fiquei tão aliviado que quase voei de felicidade.

Depois da tentativa frustrada de suicídio, Gerard não voltou muitas vezes a escola. E quando ele aparecia apenas deitava comigo no gramado e ficava em silêncio. Em uma dessas manhãs ele apareceu com um cigarro entre os dedos pálidos. Eu pedi para que ele apagasse -mais por medo daquilo fazer algum mal a ele do que por medo de ter outra crise de bronquite e ir parar em um hospital- mas ele não me ouviu e eu fui obrigado a virar um fumante passivo.

Gerard não foi se despedir de no último dia de aula. Eu estava sozinho, todos na escola pareciam felizes por estar em férias, mas eu só conseguia me sentir mal por saber que não teria mais meus rituais matutinos com Gerard.

Eu então me tornei um stalker,  perseguia Gerard na Internet e às vezes até no mundo físico. Eu perguntava para todos que conviviam com ele como ele estava, mas nunca mandava mensagens para ele. Foram exatos três meses sem ver Gerard, nem fotos eu via, pois ele tinha uma aversão a elas.

Quando o vi novamente ele estava com uma outra namorada, não me irritei ou algo assim. Eu fiquei feliz por saber que ele estava bem. Mas isso não me impediu de o seguir e tirar várias fotos dele com o celular. 

Na próxima vez que o vi foi no meu aniversário, eu estava almoçando no gramado da praça da cidade quando ele apareceu,  dei a ele toda minha comida e fiquei o resto da tarde com fome. Ele não lembrou do meu aniversário, no entanto eu considerava um presente a presença dele ali. Ele estava vendendo quadros na praça, as pinturas não me agradavam muito, mas gastei todo meu dinheiro com um deles.

No final do ano eu descobri que Gerard trabalhava em uma loja, eu ia até lá todas as semanas,  só pra ter certeza de que ele estava bem. Escondia-me por entre as araras de roupa e ficava horas o observando.  Eu deveria ter buscado ajuda ali, aquilo não poderia ser normal,  eu era obcecado por Gerard.

Quando Gerard foi demitido me vi na obrigação de falar com ele. Então apenas comentava em seus posts no Facebook, se ele dava like eu sabia que ele estava vivo e então podia levar a vida. Mas algumas vezes isso não acontecia e eu ficava desesperado imaginando mil formas as quais ele poderia ter morrido.

Em julho de 2015 meu pai morreu e eu tinha a certeza de todas as pessoas que eu amava morreriam também.  Eu não podia morrer sem dizer a pessoa que mais amava- e amo-  o que sentia. Eu finalmente tomei coragem e enviei um texto imenso a Gerard dizendo o quanto eu o amava.

Gerard me respondeu muito bem, com um texto lindo e poético e todos os dias daquele mês foram encantados. Gerard e eu conversávamos durante todo o dia, às vezes viravamos noites falando sobre assuntos aleatórios.

Foi inevitável eu me apaixonar por ele. Aquela voz de sono que me mandava 'bom dia' todas as manhãs, aquelas fotos de bagunça do quarto dele, as piadas internas e tudo mais. Era impossível eu não querer aquela criatura pálida e artística pra mim. 

Em um sábado ensolarado Gerard me deu uma flor, era a primeira vez que nos víamos depois de mais de um mês conversando ininterruptamente. Nos beijamos enquanto o mundo girava rápido. Foi quase mágico, era como se eu pudesse me ver de fora do meu corpo.

Vivemos algumas semanas de puro amor, cantávamos e trocávamos poemas, fazíamos planos e compartilhavamos segredos. Mas Gerard não estava pronto para uma vida homossexual.  Nem chegamos a brigar, ele só me disse que estava saindo com uma garota. Foi o início de minha ruína.

Eu nunca mais tive paz de espírito.  Gerard começou a namorar, mais uma vez, mas continuava conversando comigo e dizendo me amar. Eu tinha por ele um amor digno do movimento literário romantismo. Ele era pra mim o que a Charlotte era para o Werther. Eram dias e noites dedicadas a ele, tudo em minha vida girava em torno de Gerard. Se ele só falava comigo durante as noites, então eu dormia durante o dia. Se ele estava triste, eu ficava triste com ele.  Se ele gostava de uma série, eu a assistia  pra poder ter assunto com ele.

Foi assim que me tornei mais e mais dependente dele. Eu não tinha mais vontades ou escolhas, acatava tudo o que ele dizia sem questionar. E ficava feliz por migalhas de atenção.  Gerard doava a mim quatro horas de seu dia e eu as pegava como se fosse o exigir da vida eterna.

Gerard começou a me ignorar totalmente,  até hoje não sei o motivo. Na última vez que eu o vi, ele estava com sua namorada,  ele disse que a amava e só o vidro da rodoviária nos separava. Eu tentei desesperado encostar nos fios negros do cabelo dele, mas Gerard estava do outro lado. Ele estava indo embora...

Depois de ver Gerard partir começaram os pesadelos. Eram sempre os mesmo: ele morrendo ensanguentado depois de ganhar um tiro no peito. Ele deitado sem vida no asfalto. Ele sem vida de todas as formas possíveis e imagináveis.

É a partir daí que começam as alucinações. Eu já não sabia se Gerard estava morrendo nos meus sonhos ou na vida real. Parecia que era uma coisa só, eu não sabia quando eu estava dormindo ou acordado.

Nas primeiras consultas com a psiquiatra tudo que consegui foram remédios que me faziam vomitar de cinco em cinco minutos. Os pesadelos aumentaram e eu ficava cada vez mais confuso sobre o que era real.

Eu perseguia Gerard nas redes sociais, mas me recusava a acreditar em tudo o que estava escrito. Ele seria pai.  Eu não entendia o porque dele ter me trocado por uma mulher e escolher ter um filho com ela.  Não podia ser real, Gerard era meu, eu dedicava todo o meu dia a ele, ele não podia ter um filho com outrem.

Foi na quinta feira passada que tudo saiu do controle. Eu sai cedo para trabalhar, - sou um jovem de vinte um anos que finge saber se virar sozinho. Na real eu passo todas as noites chorando enquanto olho as fotos que Gerard me mandou. - no chão, há dois quarteirões do escritório onde sou estagiário havia um corpo no meio da rua.  Um ônibus havia esmagado a cabeça daquilo que um dia foi um jovem. Eu não conseguia enxergar seu rosto e por mais que eu soubesse que Gerard sequer mora nessa cidade eu podia jurar que era ele. Eu via o corpo de Gerard jorrar sangue enquanto o bombeiro o cobria  com um tecido branco. 

Ouvi alguém dizer que um ônibus havia atropelado o garoto. Eu só queria tirar Gerard dali, não queria todos aqueles estranhos em cima de seu belo corpo. Eu me debatia enquanto um policial tentava me afastar.  Não notei quando comecei a chorar, eu só queria tirar Gerard daquele chão frio. Meu Gerard não podia acabar ali.

Quando recobrei a consciência, estava em uma sala completamente branca.  Uma mulher segurava um copo descartável em frente aos meus olhos.

-Beba a água, Frank.  -Ela pediu tranquila e só me restava obedecer.

Esse foi o momento mais crítico: descobrir que eu estava alucinando.  Havia um morto no asfalto,  mas de forma alguma era Gerard.  A psiquiatra me fez repetir isso até estar convencida de que eu acreditava no que dizia.

Chamaram minha mãe para assinar alguns papéis. E eu era o mais novo paciente desse lugar. A psiquiatra me contou que eu falei sobre me matar e viver com Gerard, por isso seria mais seguro que eu não ficasse sozinho.  Eu não sai mais daqui, as paredes brancas me cercam vinte quatro horas por dia, eu não posso mais saber como Gerard está, algumas vezes volto a acreditar que ele está morto.

A médica disse que me encaixo no quadro de depressão psicótica e que preciso me tratar - isso inclui ficar longe de qualquer coisa que me lembre o Gerard,  acontece que tudo me lembra ele até mesmo as paredes sem graça desse hospital psiquiátrico.


Notas Finais


* Isso realmente aconteceu no meu colégio. foi uma cena muito engraçada. Eu devia ter filmado.
Faz tanto tempo que não escrevo nada, meus dedinhos estão tremendo, estou nervouser.


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