História Always - Capítulo 1


Escrita por: ~

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Categorias Chapeuzinho Vermelho, Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Drama, Fábulas, Romance, Terror
Visualizações 30
Palavras 2.070
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Fantasia, Harem, Mistério, Orange, Romance e Novela, Sobrenatural, Suspense, Terror e Horror, Violência
Avisos: Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Pansexualidade, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Chapeuzinho vermelho.

Capítulo 1 - -1-Como o sangue


Fanfic / Fanfiction Always - Capítulo 1 - -1-Como o sangue

"Eu estremeço, o frio batia nas janelas e passava por entre as pequenas aberturas da parede de madeira. As janelas rangiam com o forte vento e a porta ameaçava abrir. Meu irmão já havia saído a horas. A lua brilhava no alto da janela, sua luz refletida no piso gasto de madeira. 

Minha mãe, alheia à minha preocupação, me levantou pelo braço e apertou-me com fervor, tentando nos aquecer, ela então segura meu rosto entre as mãos, me forçando a encarar seu rosto em forma de coração e maçãs do rosto altas, seus olhos pálidos brilhavam com a fraca luz da vela acima da lareira apagada. 

-- Charlot, querida, preciso que vá atrás de seu irmão... Sabe que eu não duraria cinco minutos do lado de fora nesse frio, mas você, minha preciosa, tem a juventude que me falta... Faça isso por sua mãe... Por seu irmão... Leve os cobertores, assim, se o encontrar, pode ir para casa de sua avó. Ela os acolheria com certeza.

-- Mas, mamãe, o frio está congelante, a lua está cheia e meu irmão disse que não deveríamos nos preocupar...

--É justamente por esse frio e lua cheia que me preocupo... Bruxas fazem mal à homens, mas mulheres, elas não tem o que fazer. Pode protegê-lo com isso... -- Mamãe tirou de dentro de sua capa preta, um tecido avermelhado com um brilho incomum. -- Ele te protegerá de todo o mal. Bruxas e Feiticeiros não a farejarão. --Ela me deu uma cesta -- E esse é para seu irmão. Faz a mesma coisa. Agora, minha pequena preciosidade, vá atrás de seu irmão.

 

O frio cortava minha pele descoberta, minhas mãos e antebraços tremiam com a ventania, um uivo ao longe me fez acelerar o passo, meu irmão não pode ter ido tão longe assim. As luzes da cidade já haviam desaparecido a tempos antes. Eu andava a mais de uma hora. Meus pés começaram a fraquejar quando ouvi uma voz... Parecia pedir ajuda... Então eu reconheci... A voz de meu irmão... Ele estava assustado... Só tinha quatorze anos. Mamãe deveria saber dos limites. Eu continuei andando, um pouco mais lentamente a cada passo, o frio me fazia flutuar entre um sonho e a realidade. Um cheiro metalizado irrompeu o ar ao meu redor e então levantei o olhar, apenas neve podia ser vista, neve e os galhos nus das árvores e amoreiras. A voz ficou mais alta conforme me aproximava, mas parecia mais arrastada. O vento se intensificou e eu pensei em voltar, meus instintos afirmavam que algo estava muito errado... O vento se revoltou ainda mais e poderia jurar que ele entoava um canto me pedindo pra voltar, no entanto eu continuei, não poderia parar agora, além disso, já não tinha certeza de onde estava, a cesta em meus braços caiu, e assim que atingiu o chão, o vento parou.

Como num sonho, os flocos de neve ficavam no ar, parados, podia tocar cada um, ao me mover, os flocos parados tocavam minha pele e se prendiam em meus cabelos. A minha frente, havia uma trilha, mas não ouvia nada, era tudo um silêncio interminável e insuportável. Eu entoei uma leve cantiga, levemente baixa, para me acalmar um pouco, podia sentir meu coração pulsando dentro de meu peito, então finalmente me abaixei para pegar a cesta que havia derrubado, o pano vermelho cor de sangue parecia brilhar na luz da lua, estiquei levemente o braço, pegando a cesta e notando que tremia, meus dedos se enrolaram no pano aveludado e eu o puxei, o colocando apertado contra o peito. Mas somente parte dele veio, imaginei. Estiquei a outra mão, tremendo ainda mais que anteriormente, mas ao tocar o vermelho do chão eu me calei. Minha cantiga se silenciou e meus olhos arregalaram levemente, meu coração acelerou ao ouvir mais um pedido de desculpas, desse vez bem próximo. Quando levantei o olhar do sangue derramado no chão, pude ver algo que nunca irei esquecer enquanto viver. Meu irmão, com s costas presas em arbustos e o peito perfurado por um galho o mantendo de pé... Dilacerado da barriga pra baixo.

O terror percorreu minhas veias e meus olhos se encheram de lágrimas enquanto um grito irrompia minha garganta, as lágrimas desciam quentes em meu rosto gelado e o grito cortante no ar parado. Dei um passo para trás, caindo no chão quando meus pés se enroscaram no vestido longo. Meus olhos, ainda brilhando de terror observaram a vida se esvair do corpo de meu irmão. Não ouvia mais nada a não ser o som de meu coração em meus ouvidos, não via mais nada a não ser um borrão causado pelas lágrimas, não sentia mais nada a não ser o gosto cortante de sangue no ar daquela madrugada.  Foi quando ouvi... O som mais agonizante que já experimentei, o uivo de um lobo a poucos quilômetros de mim. As lágrimas congelaram quando chegavam ao meu queixo. Me levantei com o vestido molhado de neve e sangue e o coração pulsando em meus ouvidos. Tudo que fiz depois disso foi correr.

A trilha parecia querer me jogar pra trás, a cada passo meus pés afundavam mais na neve enlameada, a cada passo mais galhos prendiam em meu vestido e braços, a cada tropeço, um novo arranhão em minhas pernas ou braços. A casa da Vovó estava perto... Mas o lobo também. Continuei correndo e tropeçando, perdi um de meus sapatos e deixei o outro pra trás, podia ouvir os passos do lobo ao meu encalce, o cheiro de sangue a minha volta, meus olhos voltaram a se encher de lágrimas enquanto relembrava todos os momentos  bons em que eu havia passado naquela trilha. A ironia é que o pior deles também seria por ali. 

Atravessei o portão da frente, entrando no jardim de ervas castigado pelo inverno, meu vestido já estava todo enlameado e as bordas rasgadas. Tudo que conseguia ouvir era minha respiração pesada. Entrei pela porta destrancada e a tranquei, me perguntando se Vovó estaria bem. O frio do interior da casa era quase tanto quanto o de fora. Minhas pernas bambeavam de tanto correr e minha respiração queimava de tão forte. Tudo que eu sentia era um turbilhão, não sabia o que pensar, o que imaginar, o que sentir.

Continuei andando, meus pés faziam o assoalho ranger. A mesa estava posta com um pedaço de pão e um pote de geleia de mirtilos, o cheiro se misturava com o de sangue preso em meu vestido e a única coisa que fez foi me deixar mais enjoada. 

--Vovó...? -- O silêncio continuou o mesmo. -- Sou eu, Charlot... --Meus pés continuavam se movendo, deixando marcas enlameadas no chão.--  Eu sei... Sei que não esperava mas... -- Todas as portas do corredor estavam trancadas, exceto a do quarto.-- Meu irmão... Chuck... --Quando me aproximei, pude ver um machado no chão, onde a luz da janela não pegava, eu o peguei, mantendo o passo e o único barulho sendo o do meus pés. -- Vó...?

Entrei no quarto e tudo que vi fora um corpo encolhido debaixo das cobertas enquanto tremia. Mamãe sempre dizia que Vovó era doentinha demais para viver sozinha, então deixei  o machado de lado, o colocando em cima da lareira e me abaixei para acender o fogo, o quarto era um dos cômodos mais frios da casa. Me distraía olhando as chamas dançarem a minha frente, aproveitando para me aquecer, a noite de hoje tinha sido um pesadelo e a última coisa que eu precisava agora era relembrá-la. Ouvi o barulho dos lençóis se mexendo e imaginei que minha vó estivesse se levantando.

--Posso esquentar o pão que está na cozinha, a geleia pode azedar se tentarmos.

Me virei, esperando ver Vovó, com seu sorriso doce e pele translúcida, mas o que vi foi uma cena terrível. O lobo estava sentado na cama, com as presas cheias de sangue e os olhos focados em mim, o cheiro de sangue no ar. Gelei. Meus olhos se arregalaram e o tempo pareceu parar enquanto eu prendia a respiração. O machado estava a poucos metros de mim, bastava eu me levantar e o pegar. O lobo rosnou e senti que se não fosse agora, não seria nunca. Me levantei, quase que perdendo o equilíbrio e peguei o machado, acertando o lobo em cheio quando o mesmo pulou em cima de mim, sua pata dianteira voou do outro lado do quarto, enquanto ele se contorcia de dor e gritava feito um filhote ferido, quando sua atenção se voltou a mim novamente já era tarde demais, o machado acertou sua jugular, de novo e de novo, não conseguia parar, tudo que via era meu irmão pendurado na árvore, com o sangue empapando suas roupas e derrubado na neve branca do chão. Meus gritos irromperam a batida compassada do machado contra os ossos do lobo,

"Morra! Morra seu cão sarnento!" 

A porta da frente se abriu, mas tudo que eu enxergava era o sangue do lobo derramado no chão, espirrando na parede e em meu rosto, manchando o carpete e a cama. Foi quando um homem entrou pela porta do quarto e quando me viu, não hesitou em atirar.

 

Acordei com o o som de gritos e xingamentos. Abri os olhos e tudo que via era fogo. Senti uma dor absurda em minha coxa esquerda e quando olhei para baixo senti meus olhos marejarem e todas as forças de meu corpo se esvaírem. Uma multidão de pessoas com tochas e garfos de feno afiados gritavam em minha direção, atirando coisas, quando uma pedra me atingiu no rosto. Virei o rosto gritando de dor e pude ouvir eles uivando de alegria. Minhas pernas nuas cobertas de sangue e hematomas mostrava que essa não era a primeira vez que me acertavam, com os braços presos para trás, não sentia nada além do frio cortante contra minha pele totalmente nua. 

Um homem, o reconheci como chefe da aldeia apareceu na minha frente, estremeci de frio quando um vento forte passou, ele se virou para mim com seus olhos cheios de desdém.

-- Está com frio, Bruxa? Não se preocupe. Logo tudo que vai sentir será as chamas do inferno dançando junto com o diabo ao seu lado.

Todos os cidadãos gritaram de "orgulho" quando ele se virou de costas para mim e começou um discurso.

-- Essa noite, meu povo, eu estava caçando um lobo, quando ouvi um grito. Acreditei ser de uma jovem pura e casta sendo atacada por algum animal, então a segui o som. Conforme andei, percebi, que tipo de jovem estaria fora de casa numa noite de nevasca como essa? -- O povo seguia cada gesto de mão e cada passo que o homem dava. -- Essa Bruxa, meu povo, -- Ele falava com desdém. -- arrancou a cabeça de um animal que a anos vem sido caçado por nós, homens de bem. Além de ter atacado um jovem de família. Ele foi encontrado morto, estilhaçado a poucos metros da casa de Dione. A mesma foi achada morta no quintal. Lhe faltavam as pernas... Acreditamos que essa mulher lhe fez essa terrível ocorrência. Algo a acrescentar, Bruxa?

-- E-era minha Vó! -- Lágrimas escorriam quentes em meu rosto, desciam pelo meu queixo e pingavam em meu peito nu. Era a única coisa que sentia a não ser terrível angústia. -- Meu irmão foi morto por aquele lobo... Minha Vó também... P-por favor... Acreditem....

-- Por que acreditaríamos num demônio? -- Alguém da plateia gritou e todos começaram a uivar.

Senti meus joelhos tremerem... Mas a última coisa que eu faria, era me ajoelhar para aquela gente... Ergui o queixo enquanto ouvia o barulho do fogo se aproximando, quando senti o calor em meus calcanhares e as lágrimas irrompiam em meus olhos. O fogo alcançou minhas pernas e foi a dor mais agonizante que já senti na vida. Meus gritos começaram a silenciar os gritos do povo e o cheiro de carne queimando tomou conta do ar. O fogo subia rapidamente e tudo que eu podia fazer era gritar, logo já estava em minha cintura e minha voz já havia acabado a muito tempo, eu continuava a gritar, espernear e xingar tudo e todos, meus olhos, mesmo fechados bem apertados, ardiam com a fumaça e a dor era insuportável. A última coisa que vi, foi a lua cheia brilhando no céu enquanto eu cedia ao fogo."


Notas Finais


Até a próxima, leitores.


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