História Ambitious Love - Capítulo 24


Escrita por: ~

Postado
Categorias The Vampire Diaries
Personagens Alaric Saltzman, Caroline Forbes, Damon Salvatore, Elena Gilbert, Jenna Sommers, Jeremy Gilbert, Klaus Mikaelson, Matt Donovan, Rose-Marie, Stefan Salvatore
Tags Delena
Visualizações 112
Palavras 4.995
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Comédia, Famí­lia, Romance e Novela, Shoujo (Romântico)
Avisos: Álcool, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 24 - AL: Capítulo XXIV


Fanfic / Fanfiction Ambitious Love - Capítulo 24 - AL: Capítulo XXIV

 

I thought I saw the devil, this morning
Looking in the mirror, drop of rum on my tongue
With the warning to help me see myself clearer
I never meant to start a fire
I never meant to make you bleed

I'll be a better man today

I'll be good, I'll be good
And I'll love the world, like I should
Yeah, I'll be good, I'll be good
For all of the times that I never could

My past has tasted bitter for years now
So I will deny and face crazes just weakness
Or so I've been told
I've been cold, I've been merciless

But the blood on my hands
Scares me to death
Maybe I'm waking up today

— I’ll Be Good

 

Damon Salvatore P.O.V.

 

A minha garganta queimava, fazia um bom tempo que eu não ingeria bebida alcoólica dessa maneira. Um misto de sentimentos me tomava, medo, raiva de mim mesmo, saudade, solidão e todas as demais outras sensações que causavam angústia. Eu parti do hospital, deixando a metade de mim com ela. Foi extremamente difícil sair de lá, mas eu sabia que minha presença só iria piorar ainda mais o seu estado. Ao sair, permaneci, durante um tempo, sentado em um dos bancos do jardim, na frente da emergência, olhando em direção à janela do quarto dela. Tudo que eu queria era ficar ao seu lado na cama, cuidando dela, confortando-a, acariciando suas mãos que continuavam as mesmas, apesar de estarem frias. Aquele rosto todo machucadinho, aquela carinha exausta e dolorida me doía profundamente, se ao menos fosse possível trocar de lugar com ela e pegar todo aquele sofrimento pra mim. Se existe uma pessoa no mundo que não merece sofrer de jeito nenhum, essa pessoa é Elena Gilbert. Tão altruísta, tão boa, tão doce, quase não dava para acreditar em tamanha bondade e delicadeza. Talvez eu a colocasse sobre um pedestal e endeusava sua pessoa demais ultimamente, mas era inevitável.

Fora horrível entrar naquele quarto e ver o quanto debilitada ela estava, foi horrível ouvir aquelas palavras saírem de sua boca, odiando quem eu sou, mas na verdade era, querendo nunca ter me conhecido, me culpando pela fatalidade. Acabei falando o que não devia quando vi que ela não iria acreditar, de forma alguma, o quanto eu sentia muito pelo acontecido. Acabei culpando-a, de forma egoísta, pois sabia que, no fundo, a culpa era quase toda minha. Eu só não queria admitir. Eu só não queria pensar que o meu filho havia morrido por causa de mim. Eu levei Elena em direção à esse destino, eu era o responsável. Eu tinha consciência disso, mas continuava negando, evitando pensar nisso, porque era algo que seria impossível de conviver. Era um arrependimento que iria andar para sempre comigo.

Eu não sabia o que fazer. Na realidade, não havia o que fazer. Tudo havia se perdido. Talvez, se o acidente não houvesse ocorrido, eu teria chances de me redimir com Elena, porém as consequências foram maiores do que um simples término e decepção amorosa. Ela não iria esquecer e eu muito menos. Apesar de não querer reconhecer a nossa ruína, eu sabia que não tínhamos condições de seguir em frente. Aquilo que estávamos vivendo, aquilo tão bonito que estávamos construindo, havia se desgastado, danificado, e tão cedo, não sem muito empenho e força para lutar, não iria voltar a ser inteiro e durável novamente. Eu não tenho certeza se teria forças para aguentar vê-la sofrer e demorar para se reerguer. Para recuperar sua confiança quebrada, requer um bom tempo, eu iria lutar e lutar e demorar para ganhar algo em troca, nunca seria a mesma coisa. Nada seria igual a antes.

Pensar nisso me fez tomar o resto do álcool, tombar a cabeça nas mãos e vagar pelas dezenas de lembranças felizes que eu tinha com ela. Nós não estávamos há muito tempo juntos, fora apenas alguns meses, o que foi o suficiente para me apaixonar e perceber que aquela era a garota certa pra mim. Lembrei dos dias em que tomávamos café juntinhos na cantina da escola, quando ela me chamava para estudar e acabávamos nos distraindo, nos beijando e fazendo qualquer coisa que não fosse focar nos livros, quando fomos no cinema e assistimos um filme de terror, o qual ela adorou e eu morri de medo, fazendo com que ela se aproveitasse disso, tirasse sarro na minha cara e a todo instante me desse um susto. Lembro quando cantávamos a trilha sonora inteira do Rei Leão, quando caminhávamos em silêncio pelas ruas sem precisar dizer uma palavra. Ela adorava me dar carinhos involuntários, adorava receber atenção, mesmo não assumindo isso. Nos momentos íntimos era tudo muito intenso, nossos beijos eram sempre os melhores, a pele dela sempre dava choques em contato com a minha, o corpo esguio dela sempre me deixava a beira do limite. Costumávamos comer hambúrguer, pois ela não gostava muito de cozinhar e eu muito menos, e quando tentávamos, a cozinha sempre terminava bagunçada e a comida ficava uma gororoba. Assistíamos Netflix e jogávamos videogame, a qual ela sempre vencia, não importa qual seja o jogo.

Tudo era tão bom e tão simples. Éramos feitos um para o outro, disso eu tinha certeza, mas não havia mais volta.

— Sofrendo de desilusão amorosa, Damon? — Perguntou um homem, me tirando dos meus devaneios, e logo decifrei que era Klaus. Suspirei. Aqui tinha as melhores bebidas pelos melhores preços, por isso escolhi esse lugar para me encher de bebida até o talo. Se eu soubesse que ele estaria presente hoje, não teria vindo. Como ele era o dono, era difícil estar no local.

— Oi, Klaus. — Levantei o copo, tomando o restante, mostrando à ele, em seguida, a garrafa vazia ao meu lado. — Traz mais aí!

— Não acha melhor ir com calma? — Eu dei de ombros. Quem se importa com isso? Eu tinha que me afogar na tristeza hoje, nada iria me parar. — Na verdade, por que estou me importando mesmo? Você não se importa mais comigo. — Revirei os olhos com o drama dele. Até parece que ele realmente, alguma dia, foi o meu amigo de verdade. Tudo com que ele se importava era com o status, desde que saí do time de futebol, perdi a fama de pegador e comecei a namorar Elena, ele nem me procurava mais, se certificava de ficar bem longe de mim.

— Não exagera, Klaus. Faz tempo que não venho trabalhar e você não me despediu ainda porque não quer. Sei que eu já não comparecia antes com frequência, afinal, foi você quem decidiu me colocar de gerente e me deu liberdade de vir e não vir quando eu bem entendesse. Não sei como ainda continua dando a minha parte do restaurante, sendo que nunca mais nos falamos. Fazia dias, quase um mês, que eu não colocava os meus pés aqui dentro. — Minha voz estava embolada, eu já estava bêbado e, por isso, sinceramente, não sei como estava conseguindo falar com ele.

— Não fiz nada à respeito, pois sei que o “namoro” que você tem com aquela garota é passageiro. Não vai durar muito. Se olhe no espelho, Damon, sei que isso não faz seu estilo, você não é a pessoa mais agradável e relacionável do mundo. Não dá certo com ninguém e sabe disso. — Eu odiava o fato dele estar certo. Klaus se escorou no balcão e me olhou, sorrindo de forma diabólica. — Na verdade, pelo o que estou vendo aqui, já terminou, não é?

— Sim. — Minha voz saiu dolorosa e sufocada ao assentir.

— Não posso mentir e dizer que sinto muito. Eu sabia. Quem sabe agora, você toma juízo e volta a ser o verdadeiro Damon, aquele cheio de senso de humor, divertido e maneiro que era o meu amigo. Nós podemos comemorar sua volta e sair para gandaia. Quem sabe você volta a trabalhar aqui e nós reajustamos nossa amizade novamente? — Meu Deus, como ele é insuportável. — Quer saber? Essas bebidas aqui são por conta da casa, eu banco. Se elas vão lhe ajudar a superar aquela idiota, eu super aprovo. — Eu realmente não queria respondê-lo agora, pois entraríamos em uma discussão, eu estava prestes a pular da minha cadeira até o seu pescoço por ofender Elena, mas essa era a última coisa que eu precisava agora, já que quem estava pagando a minha bebedeira era ele.

— Saúde. — Foi a única coisa que eu respondi ao tomar mais um copo que ele tinha servido.

— Damon, aí está você! — Ouvi a voz aliviada de Stefan entrar pelo estabelecimento. Ninguém merece, era só o que me faltava! Ter que dar explicações à Stefan era uma das coisas que eu queria evitar.

— Fala, maninho. — Saudei sem ânimo, enchendo meu copo mais uma vez até em cima.

— Estou procurando por você desde ontem, você passou o dia inteiro desaparecido, onde diabos estava? — Vi que ele estava preocupado e a exaltação na sua voz realmente demonstrava que ele havia ficado desesperado.

Stefan realmente era um bom irmão, sempre foi. Apesar da minha inveja e da minha mágoa por ele sempre ser o melhor em tudo e o mais querido por todos, eu o amava, ele sempre foi a minha família, a única pessoa que sinceramente ligava para mim. Eu lembrava daquele garotinho loiro que eu sempre ajudava e protegia, apesar do ciúmes que sentia e da ambição por tudo que ele tinha e recebia.

— Elena está no hospital, eu estava com ela. — Respondi, olhando para um ponto fixo.

— O quê? Hospital? Meu Deus? Como ela está? O que houve? — Ele estava extremamente perdido.

— Ela sofreu um acidente de carro, quebrou uma perna, mas está bem. — Falei e vi ele soltar uma lufada de ar pela boca. — E, aliás, ela perdeu o nosso bebê.

O queixo de Stefan caiu e o silêncio permaneceu no ar. Vi que Klaus me olhou com certo remorso pelo canto dos olhos quando ouviu o que eu tinha dito. Senti a mão de Stefan no meu ombro e fechei meus olhos que já ardiam por causa das lágrimas teimosas que queriam escapar.

— Damon, eu... eu... Eu sinto muito, irmão. — Ele se aproximou e me abraçou mesmo sem ter retorno. Desandei a chorar, não segurei. Minha cabeça foi automaticamente para o seu colo e os soluços já eram altos. Ficamos minutos assim, paralisamos, ouvindo apenas o meu choro e as palavras de conforto de Stefan. — Como... Como isso aconteceu?

— Culpa daquele ser desprezível que você chama de mãe. — A agressividade e o desgosto ao falar daquela mulher era notável na minha voz.

— Mamãe? O que ela tem a ver com isso, Damon, está louco? — Ele logo se afastou e me olhou com aquela cara repreensiva.

— Não, eu não estou louco. Você que foi enganado esse tempo todo em relação a quem ela é. Ela mente pra você. Ela não gosta de mim. Ela me odeia. Ela voltou para me infernizar e me separar de Elena. Ela contou a Elena sobre quem eu era e a convenceu de que eu nunca a amei. Lily é uma víbora, uma louca psicopata. — Falar finalmente a verdade para ele era libertador, tirava um peso das minhas costas e fazia com que eu me sentisse bem melhor. Sempre passei como o ingrato da história, o filho rebelde que odiava e maltratava a própria mãe sem mais nem menos.

— Por que ela faria isso? Você agora passou dos limites, Damon, tem que parar de implicar com a sua própria mãe, que merda! Se você perdeu a Elena, é porque foi uma pessoa horrível e não a mereceu, não coloque uma pessoa inocente no meio disso. — Ok, essa realmente doeu. Ele estava furioso. Stefan desde pequeno defendeu sua mamãe com unhas e dentes, especialmente de Giuseppe, quando o mesmo chegava em casa embriagado e se tornava agressivo.

— O quão cego você é, seu idiota? Não vê que quem costumava fazer as intrigas entre nós era ela? Não vê que ela nunca me defendeu de Giuseppe? Não vê que ela não me tratava no mesmo jeito que tratava você? — Nós estávamos a meio de gritos agora e o pessoal aos arredores olhavam diretamente em nossa direção.

— E você? Não vê que nós brigamos por causa desse seu jeito impossível e medíocre? Não vê que mamãe era sozinha com dois filhos debaixo dos braços dependendo de um homem abusivo? Não vê que já está bem grandinho e que deve parar com a droga dessa dor de cotovelo? — Pra mim isso já era demais. Eu estava sofrendo, havia acabado de perder a única coisa valiosa na minha vida, a única pessoa que me amou por completo, e ainda tinha que ouvir meu irmão me xingando e duvidando de mim?

— Não adianta você nunca vai acreditar em mim. — Conclui.

— Não vou mesmo, afinal, está bêbado feito um gambá. Vamos, eu vou te carregar até o seu apartamento. — Ele tentou me puxar pelo braço, mas eu revidei, me esquivando do seu toque.

— Me deixa em paz! — Me debati contra suas tentativas de me levar.

— Para de ser birrento, Damon.

Enquanto estávamos naquela luta livre, ouvi o barulhinho do sino da porta. Adivinha quem compareceu? Ela, a coisa ruim da minha vida. Lily Salvatore entrou como se fosse a rainha de Atlanta, caminhou até nós e ainda teve a coragem de me olhar nos olhos e sorrir de forma vitoriosa.

— Encontrou o seu irmão? Que bom. — Ela se aproximou, não se importando com o meu olhar raivoso sobre si. Eu iria pular nela. Eu estava apertando meus punhos com força, tentando controlar toda a minha fúria. Apesar de não considerá-la como minha mãe, eu ainda pensava em Stefan, ele a amava demais e nunca me perdoaria caso fizesse algum mal à ela. — Você está bem, querido?

Por Deus, se eu pudesse, eu mataria essa mulher. Como ela tinha o sangue frio de barata de me perguntar uma coisa dessas? Ela tinha acabado de destruir a minha vida e por isso estava comemorando mentalmente.

— Ah, eu não poderia estar melhor! Você chegou. Agora nossa família está completa. — Ironizei, olhando para os dois, sorrindo cínico. — Meu irmãozinho querido e a mamãezinha coruja. — Ela ficou um pouco surpresa quando ouviu do que eu a chamei, afinal, fazia anos que eu não a chamava mais assim. — Só faltou o nosso papai querido, não é? Pena que ele está morto, bem enterrado. — Vi seus olhos me fuzilarem. Giuseppe sempre fora a fraqueza dela, afinal, foi por causa dele que ela enlouqueceu e resolveu descontar tudo em mim. — Ou devo dizer... Meu padrasto?

Stefan franziu o cenho e o semblante de Lily se contorceu em desespero repentino. Sorri com isso. Ela morria de medo disso, morria de medo que Stefan soubesse da verdade. Ela só tinha ele, se o mesmo resolvesse deixá-la, quem sobraria? Ela morreria sozinha.

— Oh, veja só, ele está falando bobagens já, viu como o seu irmão é? Não pode beber algumas que já viaja na batatinha! — Riu nervosa, balançando a cabeça. — É melhor levarmos ele para casa.

— Não, não, espera um pouco... — Stefan a puxou pelo braço quando a mesma já pensava em desviar do assunto e fugir. — Isso até que faz sentido. — Ele havia lembrado de alguma coisa, vi pela sua expressão. Finalmente, pensei, agradecendo aos céus por aquele momento tão esperado. A ruína de Lily. — Isso é verdade, mãe?

Vi ela empalidecer. Agora ela estava emboscada, parecia não ter mais o que inventar, Stefan realmente considerou a ideia e viu que eu não era tão lunático quanto pensava. É claro que ele tinha que acreditar em mim. É impossível não lembrar dos maus tratos que eu sofria dentro daquele inferno de casa.

— Isso! Responda, “mãe”. É verdade? — Olhei para ela com uma carinha de inocente e vi ela ferver ainda mais pela irritação. Ela devia estar com uma vontade louca de me estrangular.

— É claro que não! — Respondeu na defensiva. Bufei.

— É claro que ela não irá admitir, Stefan, mentiu por anos, por que iria ser honesta agora? — Stefan parecia um menininho sem rumo, tinha os olhos confusos, me dava até pena. Por um lado, eu não queria contar, não queria destruir a imagem de mãe perfeita que ele tinha, não queria estragar sua infância ou fazê-lo se sentir culpado. Por outro, eu precisava lhe dizer a verdade e nada mais que a verdade, não só por mim, mas por ele. Para ele não ser mais um idiota e saber sobre a mãe com quem ele dorme sobre o mesmo teto todos os dias. — Mas, não se preocupe, eu conto.

 

Carolina do Sul, há dois anos atrás.

 

Enquanto eu entrava dentro de casa com arroz, feijão, carne e algumas verduras e frutas nas sacolas, ouvi, lá de dentro, papai tossir forte. Meu coração apertou. Nós sabíamos que iríamos perdê-lo logo, dessa semana ou da próxima ele não passava. Estávamos em crise, Giuseppe, de vez, havia se entregado ao tabagismo e alcoolismo durante os últimos meses. Foi horrível. Ele gastou todas as nossas economias com essas besteiras e mais a sinuca, não que eu fosse muito melhor, mas ele sustentava uma família, tinha que ter controle, já não tinha mais idade e não era um adolescente irresponsável. Isso acabou agravando ainda mais a sua doença. Ele e mamãe não tinham dinheiro, ultimamente, para nada, nem ao menos para colocar comida na mesa quem dirá para pagar os diversos remédios caros que papai precisava para o tratamento. Eu tinha feito as compras da casa sem a permissão dele, fiz escondido, pois me preocupava com todos eles, especialmente com Stefan, o qual parecia um cego no meio de um tiroteio.

Ele estava isolado num quarto e apenas recebia a visita de mamãe, que entrava com uma máscara e luvas. Papai começou com um cansaço excessivo, no começo, depois passou a emagrecer demais, a ter fraqueza, falta de fome e febre. Nas últimas semanas, até sangue ele vinha perdendo, sua situação de fato estava mais grave. Tinha dificuldade para respirar, dor no peito e mal conseguia levantar da cama. Mamãe tinha chegado à conclusão de que era tuberculose, pois um vilarejo próximo do nosso estava passando por uma epidemia. O teimoso se recusava a ir no médico, dizia que isso era para os maricas e que ele teria sucesso em se recuperar em casa por contra própria. Como ele não podia enxergar que o seu fim estava próximo? Tudo que ele precisava fazer era ir até o hospital, pegar as receitas dos medicamentos e me deixar ajudar, assim iria se recuperar. Entretanto, ele não fazia nada disso, e, para piorar, mamãe estava o acobertando. Como sempre.

— Damon! — Gritou mamãe lá de dentro. — É você?

— Sim! — Respondi de volta.

Em segundos ela estava ali, arrancando das minhas mãos as compras.

— Trouxe tudo o que eu pedi? — Assenti. — Oh, que bom. — Colocou as mãos sobre o coração. — Seu pai não pode sair do quarto mesmo, nem irá desconfiar. Eu preciso alimentar Stefan, o coitado está azul de fome.

Um obrigado seria bom, pensei comigo mesmo.

— Como ele está? — Perguntei apenas por perguntar, pois já sabia da resposta.

— Pior. Você sabe. Acho que iremos perdê-lo essa noite. — Comentou como se já estivesse conformada. Arregalei os olhos.

— E você está de bem com isso!? — Quase gritei, batendo os pés na madeira do chão.

— O que você quer que eu faça, garoto? — Perguntou com raiva. — Quer que eu o leve a força para o doutor examiná-lo? Ele não quer! Eu vou obedecê-lo e fazer sua vontade.

Era espantoso o quão submissa mamãe era, me doía saber que ele a tratava como um objeto sexual, que a arrastava de um canto para o outro como se fosse uma boneca, lhe mandava sentar e falar como se fosse um cachorro adestrado.

— Até nisso você vai abaixar a cabeça pra ele? Como pode ser assim? — Ao questioná-la, recebi um tapa ardido no rosto.

— Não fale assim comigo, você não sabe de nada! — Xingou, vermelha pela sua ira. — Seu pai quer assim. Apesar de estar doente, em péssimo estado, eu sei que ele vai se recuperar, ele me prometeu isso.

— E você sempre acredita nas promessas dele. — Lamentei baixinho.

Ela deus as costas para mim e começou a preparar o jantar em silêncio.

Passei pela sala de estar e vi a porta do quarto de Stefan aberta. Ao entrar, vi ele deitado, de olhos fechados, com o semblante um pouco sofrido e pálido. Talvez estivesse faminto. Acariciei sua testa e saí do quarto.

Fui em direção ao de meu pai e não me importei em colocar as luvas ou a máscara. Eu precisava vê-lo. Eu quase que entendia mamãe. Nós éramos parecidos, sofríamos nas mãos dele, éramos espancados, xingados e amedrontados, mas mesmo assim não desistíamos de sua pessoa cruel. Eu só tinha ele como uma figura paterna, não tinha um avô, um tio, um nada. Ele era meu pai, oras, como eu podia deixá-lo morrer? Mesmo depois de tudo, mesmo depois de ter crescido no meio da ingratidão, do desgosto, da indiferença e da despreza, eu ainda sentia apelo por ele, compaixão.

Ele levantou a cabeça assim que entrei pela porta. Vi que pelas suas narinas saia um pouco de sangue, seu rosto estava branco como papel e transpirando, suas mãos tremiam e sua boca estava rachada. Não devia conseguir nem ao menos ingerir líquidos. Ao lado tinha uma bacia, a qual ele vomitava frequentemente pela febre muito alta.

— O que está fazendo aqui, seu imprestável? — Wow, até na beira da morte ele insiste em me insultar.

— Vim dar um basta nisso. — Vi sua testa franzir. — A partir de agora, eu irei comprar os remédios necessários e o senhor não vai me impedir. — Falei com firmeza, o enfrentando pela primeira vez na minha vida.

— Você não vai fazer isso. Eu... — Tossiu mais uma vez. — Eu prefiro morrer. Não quero o seu dinheiro imundo. Você não é um bom rapaz, não me dá orgulho, e, é por esse motivo que, não quero sua ajuda.

As palavras dele eram sinceras, eu podia ver isso. Ele sempre me odiou e talvez eu nunca fosse saber o porquê.

— Não me interessa. Eu me decidi. Você vai se tratar, querendo ou não.

Aquilo pareceu fazer com que ele ficasse nervoso, a veia que ele tinha na testa soltou para fora, o que eu sabia que sempre acontecia quando ele estava prestes a ficar temperamental.

— Você não vai ficar contra mim, seu idiota, não vai! — Exaltou a voz. — Você é um merdinha, acha que tem algum poder? Acha que pode vir aqui e me dizer o que eu tenho que fazer? Não seja burro. Você é insignificante, como se fosse um inseto que eu posso pisar a qualquer instante. Não se ache melhor do que eu. Você nunca será um homem. Não sabe fazer nada, não tem capacidade para as coisas, só sabe sair para se prostituir, roubar das mulheres e fazer apostas com os amigos, fumar, beber e consumir droga. — Eu realmente não imaginava que ele sabia de tudo isso. — O quê? Achou que eu não sabia? Achou que as fofocas não rolam soltas por aqui? Eu sei muito bem de onde vem o seu dinheiro. Ele é sujo. Você não trabalha e não se endireita.

— E VOCÊ, VELHO IMUNDO? ACHA QUE É MUITO MELHOR DO QUE EU? ACHA QUE É UM DEUS? BATE NA SUA MULHER E NOS SEUS FILHOS, DEIXA ELES PASSAREM FOME E AINDA FICA IMPRESTÁVEL NA CAMA. VOCÊ NÃO PASSA DE UM COVARDE. SE EU SOU UM MERDINHA, APRENDI COM O MELHOR, POIS VOCÊ SIM É UM GRANDE MERDA.

Ele me puxou pelo pescoço e não sei de onde arranjou forças para isso. Suas mãos enlaçaram na volta do meu pescoço e me tiraram todo o ar. Comecei a me debater e a me sacudir. Eu vi seus olhos sanguinários. Ele ia me matar. Eu tentava pedir ajuda, mas não era possível. Não havia como. Olhei pelo espelho e vi minha face roxa. Ele estava decidido a acabar com a minha vida.

— Eu vou te matar, seu bastardo. Sempre quis fazer isso. Chegou a hora. Eu te odeio, dou graças a Deus por não ser o meu filho de verdade. — Foi isso que ele revelou antes de pôr a mão sobre o peito e contorcer o rosto em uma expressão latejante.

Ele soltou finalmente a minha garganta, então pude inspirar com força. Olhei para ele novamente e o vi convulsionar sobre a cama, cuspindo sangue e mais sangue para todos ao lados. Tudo que eu precisava fazer era virá-lo e então ele não iria se afogar, mas eu estava paralisado, não sentia minhas pernas ou os meus braços. Caí de joelhos e vi, no mesmo instante, Giuseppe parar de se afogar, soltar ruídos estranhos e ficar sem mexer um músculo na cama. Ele estava morto.

— Que gritaria foi essa? — Mamãe entrou no quarto gritando, ficando, em instantes, horrorizada com a cena que via. Eu estava coberto de sangue, havia marcas de dedos envolta do meu pescoço e meu pai, aquele que não era meu pai, na verdade, estava esticado com os olhos abertos.

 

Stefan me olhava assustado, com lágrimas nos olhos verdes, como se estivesse prestes a ter um colapso. Contei cada detalhe. Lily havia desistido depois de ter tentado me impedir várias de contar a história, então estava sentada, com as mãos sobre a cabeça, me impedindo de ver sua expressão enquanto ouvia o que eu tinha para dizer.

— E essa é a verdade, Stefan. — Finalizei meu conto de terror, como se tivesse acabado de ter apresentado o meu melhor espetáculo. — E olha que deixei de fora as partes das surras, dos abusos e todas as outras coisas horríveis que Giuseppe fazia comigo. Isso posso deixar para lá, o mais importante está dito. Nós somos meios-irmãos.

— Era por isso que ele te tratava diferente... Eu achava que era sua culpa, pois era desobediente e mal educado... Era por isso que ele te olhava com raiva. Era por isso que eu não soube o que aconteceu de fato com ele naquela noite. Era por isso que você odeia ela. — Ele falava como se encaixasse todas as peças no quebra-cabeça.

— Meu filho... — Lily tentou falar e vi que ela estava chorando intensamente. Ouvi os sons cortantes quando ela, finalmente, olhou para mim e parou de abafar o choro.

— NÃO ME TOCA! — Ele desviou e veio para o meu lado. — Como pôde? Como pôde mentir? Como pôde expulsá-lo de casa depois disso tudo? Como pôde separar ele da Elena? Você é uma pessoa ruim, bárbara e impiedosa.

— Você não entendeu? Foi por culpa dele que Giuseppe morreu! Foi por puro desgosto! Se não fosse esse desgraçado, meu marido teria se recuperado e estaria vivo, comigo até hoje. — Dizia alucinada. Olhei para os lados e vi que não havia mais ninguém ali, Klaus devia ter limpado o lugar ao ver que estávamos exaltados no meio de uma discussão familiar e que tão cedo não iríamos embora.

— Estaria lhe assediando, aproveitando-se, te humilhando e escancarando até hoje, isso sim. Você é paranoica, lunática... Insana! Como pode dizer essas coisas? Quem diabos é você, afinal? Colocando a culpa no seu próprio filho sendo você a culpada por trair seu querido marido? O homem tentou MATAR seu filho, bateu nele por anos e tirou vantagem dele por ser desamparado e indefeso... E você? NÃO FEZ NADA! Ele também me batia, quando tinhas motivos, e ainda sim era errado, mas e Damon que levava cascudos e cintadas sem mais nem menos? Ele não tinha escrúpulos, era machista e tirano, como continuou casada com um crápula desses?

Stefan estava finalmente enxergando a realidade. Lily estava desesperada ao ver que perdia seu filho querido que a amava e a protegia de tudo.

— Eu o amava. Mais que tudo. Eu era jovem e não sabia o que estava fazendo. Minha família me obrigou a casar com ele por ser um homem influente com condições financeiras na época. Nem sempre ele fora assim, costumava ser doce e queria ter uma família, seu sonho era ter herdeiros. Só que eu era uma criança e não via valor nele. O traí com o criado que cuidava dos cavalos dele e engravidei. — Senti meus olhos queimarem pelas lágrimas. Lembrar disso partia o meu coração e me deixava em pedaços. Ela havia tirado o meu direito de ter um pai de verdade que talvez fosse me amar de verdade. Eu precisava de colo agora. Eu precisava de Elena e nem isso eu tinha mais. Essa mulher odiosa tirou de mim isso também. — Meu Giuseppe era tão gentil que quando descobriu, assumiu o filho. E ele amou Damon, por um bom tempo, pelo menos, até eu engravidar dele e nascer você.

— Então você simplesmente deixou que ele ignorasse e abandonasse o filho que prometeu assumir e cuidar? — Stefan parecia cada vez mais enjoado dela, parecia desprezá-la agora.

— Ele virou um homem amargo, mas sempre me deu do bom e do melhor. Eu passei a amar e precisar dele. Tente me entender... — Ela tentava se explicar, mas de nada adiantava.

— Você sabia que perdeu um neto? — Stefan perguntou e ela pareceu chocada. Abaixei a cabeça e liberei o choro. Meu filho. — Você IA ter um neto. Por causa dessa sua ilusão de achar que Damon é o culpado e merece infelicidade só porque você é infeliz, você fez um dos seus filhos perder a coisa mais importante que ele tinha na vida, causou um acidente a uma garota inocente e ainda fez um bebê, que nem crescido era ainda, morrer. Espero que consiga dormir no travesseiro da cama do hospício que irei colocar você.

Lily começou a ter um ataque e a gritar. Stefan ignorou e se virou para me olhar.

— Eu cuido dela. Vou pedir para Klaus levar você para casa. E quero que, amanhã, bem cedo, vá atrás de Elena, certo? — Sem pensar muito, eu assenti. — Você vai ser um homem melhor, eu irei lhe ajudar. Você já é, na verdade, mas te ajudarei a continuar no caminho certo. — Sorri fraco para ele. — Me prometa.

— Eu prometo.

 

 


Notas Finais


A CASA DA LILY CAIU! Gente, eu só queria deixar claro que esse capítulo é extremamente fundamental para mim, pois penso nele e o planejo desde quando tive a ideia para essa fanfic. E, sinceramente e modestamente, eu amei o resultado, espero que vocês também 💙
Esse capítulo foi todo do Damon sim, até a música combina extremamente com ele. Meu bebê merece 4 mil palavras só pra ele. Espero que tudo tenha se esclarecido em relação ao passado dele, o qual, aliás, é bem pesadinho, né? Comentem sobre isso, por favor, é importante pra mim o reconhecimento.
E sim, vocês leram certo, Damon vai ir atrás da Elena! Não vou dar spoilers sobre o que vai rolar entre eles, é surpresa, mas irei liberar a música do próximo capítulo: All I Ask — Adele. Vocês sabem que a música, normalmente, tem tudo a ver com o capítulo, então... Procurem a letra e tenham uma ideia do que vai acontecer.
Por conta do feriadão, se forem bonzinhos e comentarem e favoritarem, é bem possível que eu atualize ainda nesse final de semana, depende de vocês.

Por favor, deêm uma olhadinha na fanfic nova que continuei ontem mesmo e favoritem se gostarem: https://spiritfanfics.com/historia/consequences-of-the-past-8684806
E recomendo uma nova história para vocês, delena também, a autora é minha amiga e ela escreve bem pra caramba, na minha opinião: https://spiritfanfics.com/historia/into-your-arms-10468681


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