História Amisterium: O Herdeiro Legítimo - Capítulo 34


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Amisterium, Gay, Original
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Palavras 10.311
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Crossover, Drama (Tragédia), Famí­lia, Fantasia, Lemon, Luta, Romance e Novela, Saga, Shounen, Slash, Universo Alternativo, Violência, Yaoi
Avisos: Álcool, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Incesto, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas da Autora


Olá gente,
desculpa pela demora.
Nem sei por que demorei dessa vez, mas provavelmente tive motivos.
E o capítulo está grande pq não quis dar nada com menos de 10 000 palavras depois de tanta demora.
Amisterium está caminhando para o final, mas falo mais sobre isso nas notas finais.
Boa leitura, espero que gostem e não me matem.
Amo vocês.

Capítulo 34 - Capítulo 33- Promessas


 

Larissa gemeu, não dava para saber quanto sangue era dela, quanto vinha dos ferimentos de Louis, quanto ainda estava saindo ou onde estavam os ferimentos mais graves.

Augustus estava pálido, tinha curativos em todos os ferimentos e não sangrava mais, apenas olhava em desespero para a irmã deitada, apertando sua mão com força, como se pudesse acordá-la bem e saudável.

—Majestade, acho que Horace precisará de espaço para cuidar dela— Disse Louis, escondendo a preocupação e o cansaço na voz.

—Eu não posso... Ela...

—Otto vai voltar logo— Disse Ethan— Só está deixando os homens dele descansarem e nossos homens se abalarem com as perdas. Precisa descansar Augustus.

Gus suspirou e levantou em silêncio, seu rosto voltando a ser totalmente inexpressivo e sua postura como a de um rei.

—Certo, me chamem se algo acontecer com ela.

—Com certeza— Renly assentiu, não desviando o olhar da esposa, e Luca suspirou, segurando Augustus pela mão e garantindo que ele saísse da tenda quando parecia não conseguir se mover.

Não foi fácil se afastar do acampamento com o olhar de todos os soldados feridos os seguindo, a tristeza no ar era mais forte que o cheiro de sangue que não sumia, Lucian engoliu em seco, guiando o rei em total silêncio até o riacho.

Augustus sentou-se na grande rocha à beira do riacho, seu olhar fixo nas árvores distantes, mas ele não as via, sua mente estava em outro lugar, e seu silêncio estava começando a deixar Lucian desconfortável, coisa que raramente acontecia.

Luca pensou que, talvez, devesse tentar segurar sua mão, mas algo o manteve parado, até que os olhos do rei finalmente se voltaram para ele.

—Já te contei a história do Cavaleiro Invencível?

Lucian balançou a cabeça.

—Não tivemos tanto tempo assim para histórias.

—Essa era uma das minhas favoritas, Cordélia me contava quando eu era mais novo. É sobre um guerreiro que, como o nome já diz, era invencível. Sua primeira luta fora quando criança, ele cresceu lutando, se tornou um cavaleiro e nunca perdeu. Era um homem bom, mas um guerreiro ainda melhor, e era muito orgulhoso. Ele se gabava de ser invencível, por isso era desafiado com frequência, e vencia todas as vezes— Augustus bateu os dedos no medalhão dourado dos Collins— Um homem ouviu sobre este guerreiro, e, como adorava um desafio, viajou de muito longe até a terra em que ele se encontrava, desafiou vários guerreiros e venceu todos eles, erguendo a cabeça do último que derrotou ele bradou “eu sou invencível e matarei qualquer um se colocar em meu caminho, e continuarei matando até que o que se intitula invencível tente me derrotar”. O homem soube do desafio e marcou o dia do duelo, saiu de casa dizendo que iria trabalhar, não se despediu das filhas, nem da esposa, pois tinha certeza de seu retorno.

—E ele perdeu?

—Não, ele venceu. O outro homem não era um guerreiro, era apenas um bêbado muito forte que gostava de se meter em confusão. O estranho foi que, antes de morrer, quando já estava totalmente ferido e fraco, com uma lâmina apontada para o coração, o bêbado sorriu e disse: “você não é invencível, eu venci você”. O cavaleiro o matou e riu como se tivesse acabado de ouvir uma grande piada. Ele comemorou com o povo da vila e voltou para casa, apenas para encontrar sua casa reduzida à fumaça e cinzas. Ele entrou no esqueleto queimado da casa e encontrou o corpo das filhas, mortas queimadas enquanto ainda dormiam, e o corpo da mulher, também queimado, dentro do que costumava ser uma banheira. Ele não sabia que o bêbado levara consigo amigos que queimaram tudo durante a luta dos dois. Na manhã seguinte encontraram o cavaleiro enforcado em uma árvore alta no campo ao lado da casa. Ele foi vencido.

—Não é uma boa história para uma criança.

—Eu gostava. Dizia que todos têm fraquezas, e quem tem fraquezas não é invencível. Agora não sei mais se gosto dessa história. Por que agora não sou só um ouvinte distante, eu sou esse guerreiro.

—Você não é como aquele homem.

—Não, não sou. Nunca tive confiança em vencer essa guerra, mas acreditava em apenas duas opções: se eu vencer, minha família e meu reino sobrevivem, se eu perder, minha família e meu reino sofrem. A ideia de que possa voltar pra casa apenas para vê-la em chamas nunca passou pela minha cabeça. Se for assim, prefiro não voltar.

— Está de luto- percebeu Luca- Está de luto pela sua família sem nem mesmo saber se estão mortos. Podem estar vivos, Eric. Precisa se acalmar.

—Sinto o luto por todos que amo a partir do momento que se afastam de mim, agora minha irmã está morrendo por ter escolhido lutar ao meu lado. Não estão seguros perto, não estão seguros longe. Não sei o que fazer.

—É uma guerra. Ninguém está seguro. O máximo que podemos fazer é dar nosso melhor e tentar vencer. Tenha fé, Eric.

Augustus não parecia convencido, e suspirou.

—Mandei um mensageiro para Amisterium, disse a ele que voltasse se não houvesse ninguém para entregar a carta. A enderecei a meu pai, avisei sobre Larissa, e Gordon, e sobre como vai a guerra. Mas se o mensageiro retornar...

—Quer dizer que o seu pai está morto.

—E o castelo provavelmente foi tomado— Completou ele, balançando a cabeça— Espero que Larissa fique bem, assim posso manda-la para casa, para longe do campo de batalha onde ficará mais segura. Mas ela é uma guerreira, não vai querer fugir.

—Sim, ela é uma guerreira e quase morreu por Amisterium. Acho que até ela tem noção de que já serviu ao seu povo e pode ir agora. Quando se tem uma criança no ventre, lutar para sempre não é uma opção.

Gus assentiu, mas ainda parecia distante, com os dedos batendo distraidamente no medalhão dourado.

Luca estava tão assustado quanto, se não estivesse mais.

Nunca vira o parceiro daquela forma, as pessoas estavam assustadas, sensíveis, feridas e esgotadas. A dor da perda e o medo de morrer estavam começando a tomar conta de cada nervo de seu corpo.

Sempre temeu pelos que amava, mas nunca pensou que a ideia de morrer poderia deixa-lo assustado.

Ali, com a morte sussurrando ao seu ouvido, pensou que talvez não fosse tão corajoso assim.

Mas era um lobo, e um lobo nunca morre sem fazer um belo estrago antes.

—Otto já deve estar voltando, os homens dele tiveram tempo de sobra para descansar. Precisamos estar prontos— Disse Gus, pondo-se de pé e se preparando para voltar ao acampamento.

—Antes de irmos, você me prometeu algo há um tempo e essa pode ser a última chance de cumprir.

O rei fez uma careta.

—O que?

—Me contou certa vez o conto da família Collins, hoje me contou esta que Déli lia para você na infância. Quero saber o conto de origem de Amisterium.

—Quer saber isso agora?

Luca balançou a cabeça positivamente.

—Os Amisterium são diplomatas, intelectuais e heróis. São corajosos e não ambiciosos. Acho que um pouco de coragem pode ser positiva para nós agora. Preciso de inspiração para lutar quando tudo parece perdido.

Gus sorriu.

—Se precisa de um motivo para lutar, posso te dar mais que uma história. Posso oferecer uma promessa.

O mais jovem cruzou os braços, o encarando com curiosidade.

—Continue.

...

 

Larissa estava respirando fundo, os olhos totalmente cerrados, mas as mãos apertavam os lençóis com agitação, seu corpo tremia e a garota suava.

—Acha que ela pode ter sido envenenada?— Questionou Louis, se apoiando sobre o pé direito, apesar das instruções de Horace para que não o fizesse já que estava torcido.

—Sem veneno, apenas batida na cabeça— Respondeu Horace com confusão— Preciso do chá na mesa, alguém traga a mim.

Renly se apressou em obedecer, umedecendo um pedaço de tecido logo após e colocando na testa de esposa.

—Faça parar.

—Eu tento— Disse Horace com raiva, Will riu com apreensão.

—Está deixando um pacifista com raiva. Parabéns, Lorde M’Arhaem.

Renly lhe lançou um olhar cortante, mas não disse nada.

—Margarita conseguiria saber— Horace murmurava para si mesmo— Preciso saber se está bem, preciso saber se sobreviveu.

—O que está dizendo? Ela está viva— Disse Renly, parecendo ainda mais nervoso.

—Não ela— Respondeu Horace e Louis engasgou com o gole de rum que acabara de tomar.

—Há risco de que ela tenha perdido a criança?

—Gravidez avançada, guerra, medo, apreensão, queda de um morro alto— Listou Horace— Sim. Arriscado demais.

—Ela está bem— O sussurro foi tão fraco que por um instante todos pensaram ter imaginado, mas Larissa gemeu, antes de falar outra vez— Ela está bem, posso sentir. Está fraca, mas bem. Vamos ficar bem.

Renly suspirou de alívio e começou a chorar, abraçando a esposa.

Louis olhou para os dois por um minuto, e saiu da tenda, mancando, com tristeza no olhar.

Larissa também chorava, pedindo desculpas por ter tentado lutar e ter colocado a criança em risco, mas Horace ainda parecia apreensivo, murmurando rapidamente consigo mesmo, como se ainda não tivesse certeza que a princesa e criança estivessem a salvo.

Dorian, que estava o tempo todo escondido às sombras da tenda, observando a cena, preocupado que a princesa não acordasse, decidiu que deveria dar um tempo a eles- e que não estava com bom humor para tanto afeto, com guerras podia lidar, com afeto em família já era algo totalmente diferente.

Ele atravessou o acampamento, os soldados que conseguiram descansar e se recuperar já começavam a levantar, preparando para a batalha que todos sentiam estar próxima.

O próprio Dorian já carregava consigo sua espada, havia treinado pouco com ela desde que perdera um olho, já não tinha uma boa visão periférica e finalmente entendia o que significava ponto-cego, mas estava se adaptando aos poucos a essa nova visão de mundo, e sua audição parecia muito mais aguçada desde o incidente, por isso não teve que olhar para cima ao andar entre as árvores para saber qual era a certa e chutá-la no tronco.

—Os adversários já estão próximos.

—Não o suficiente para que eu possa vê-los— Disse a voz de cima da árvore— Mas derrubei alguns arqueiros e espiões. Não tive paciência para procurar os corpos.

Dorian ouviu uma movimentação nos galhos acima, antes de Ethan saltar no chão bem à sua frente.

—Vossa majestade tem tanta necessidade assim de se exibir?—Suspirou ele, e Ethan abriu seu sorriso lateral.

—Foi um pouso legal. Não tenho culpa em ter um ótimo equilíbrio e pernas fortes.

—Não vamos esquecer quem o ensinou a escalar árvores.

—Não vamos esquecer que quem me ensinou a escalar, só ensinou em árvores pequenas por que tinha medo de se machucar.

—Eu tinha medo que você se machucasse— Disse Dorian, então fez uma careta e acrescentou— Vossa majestade.

—Não me chame assim, Dorian. Já passamos disso. O que faz armado?

—Vou lutar ao seu lado, como nos velhos tempos.

—Não.  Sem chances.

—Majestade...— O homem o olhou com repreensão e Dorian suspirou— Ethan, vocês perderam muitos homens, Amisterium conta com cada homem que tem, esse não é o exército invencível e enorme de Collin. Sei que está acostumado a não ter que se importar com números, mas agora estes homens feridos são tudo que vocês têm, e cada homem importa. Posso ajudar. Sou só mais um, mas posso ajudar. Pense nisso.

—Já pensei e a resposta é não.

—Não estou te pedindo permissão, Ethan.

—Sou seu rei e ordeno que fique na tenda e não na batalha.

—Perdão, majestade— Disse o homem de cabelos loiros— Pode me trancar na masmorra quando isso acabar, mas, por ora, terei que desobedecer.

—Será que não vê que quero te proteger?— Se irritou Ethan— Já perdi meu reino, perdi Mayara, perdi Alicia, perdi a infância do meu filho, perdi a amizade de Arnold, eu perdi tudo. Por favor, não me faça perder você também.

Dorian ficou sem ter o que dizer, nem mesmo com a audição aguçada, como estava no momento, tinha certeza se ouvira direito.

—Me desculpe, Ethan. Não posso simplesmente ficar parado enquanto vocês se sacrificam. Eu vou lutar.

Ethan bufou e escalou a árvore outra vez.

Dorian fez uma careta.

—Ei, a conversa não acabou.

—Acabou para mim— Disse Ethan, por entre os galhos— Agora, se me dá licença, preciso ver se um exército inimigo se aproxima, ao contrário de você, não quero morrer se puder evitar.

—Pode ficar bravo comigo agora, mas faria o mesmo no meu lugar.

—Sim, eu faria. E é por isso que estou bravo.

Dorian franziu o cenho, odiava metáforas, frases poéticas e coisas do tipo, mas Ethan sempre tivera um talento dramático. Era terrivelmente irritante, parecia que as coisas não mudavam, não importava quanto tempo se passasse.

Com medo de pensar duas vezes, o homem de cabelos claros segurou nos galhos mais baixos da árvore e tomou impulso, escalando até o topo, com as mãos arranhando na casca de madeira, até chegar ao lado do verdadeiro rei de Collin.

—Não acredito que subiu até aqui, sempre esperou por mim lá embaixo.

—Cansei de esperar por você, Ethan— Disse Dorian com determinação— Todos esses anos tenho seguido cegamente o que me diz, tenho protegido você e seu filho à distância, e tudo que ganhei com isso foi me afastar de você. Mas fiz um juramento quando me tornei seu escudeiro, não vou me separar de você nunca mais, se tiver que te desobedecer para isso, assim o farei. Mas não vai se livrar de mim, não importa o quanto tente.

Ethan sorriu, tocando a faixa branca que cobria o lugar onde seu olho costumava ficar.

—Odeio o que fizeram com você. Mas ele vai pagar. E não precisa se preocupar com essa coisa de me livrar de você, sabe?— Ele cruzou os braços, encostado nos grandes galhos da árvore, olhando adiante a procura de qualquer sinal de movimento— Eu não pretendia tentar.

...

 

Miranda apoiou as mãos na enorme mesa do salão de reunião.

—Nossos soldados estão fazendo patrulhas pelas aldeias, apagando possíveis incêndios, perseguindo suspeitos, montando guarda e boa parte deles tomando conta da fortaleza com os seus homens— Disse ela para Arnold— Nenhum outro exército nos pegará de surpresa.

—Lamentamos nossa demora— Disse Joshua, com sincera tristeza no olhar— Demoramos muito para analisar a esperteza de Otto e deduzir que tentaria algo do gênero. Poderíamos ter evitado esse ataque.

—Não puderam evitar, eu não pude evitar, qualquer outra possibilidade é inútil já que o tempo apenas anda para frente— Disse Arnold, cansado, ferido e sujo de poeira e cinzas.

A batalha não fora tão longa após a chegada do exército de Snowinter, Miranda partiu para a batalha com todo ódio e revolta, e Arnold ficou surpreso, jamais vira tanta garra em alguém lutando.

Ao fim da batalha ela estava com tantas feridas que qualquer outra pessoa encolheria no chão e esperaria pela morte, mas ela sorria a ajudava os feridos a chegarem à enfermaria do castelo, só quando teve certeza que havia ajudado todos que podia ela aceitara os cuidados de Margarita e as moças que trabalhavam no castelo.

—A garota M’Arhaem, irmã do Lorde M’Arhaem, abriu um casarão da família para moradia temporária das famílias que tiveram suas residências queimadas— Disse o príncipe de Snowinter— Meu pai está com nossos homens tentando dar um funeral digno às perdas de nossos homens, de camponeses comuns que tentaram ajudar e homens de Amisterium.

—Agradeço por todo auxilio, mas Amisterium não é aliado de Snowinter e não nos devem nada.

—Isso é besteira, majestade— Disse Daniel, o comandante era silencioso na maior parte do tempo em reuniões sérias, mas sabia quando merecia ser ouvido — Sua família e seu reino acolheram dois de nosso sangue por anos. Nosso povo acredita mais em família que bens ou alianças forjadas e assinadas em papel. Snowinter deve muito a vocês por Mayara e Lucian.

—Maia morreu neste castelo— Disse Arnold— Nas escadas que subimos para chegar até aqui. Amisterium não a salvou.

—Mas a protegeu pelo tempo que pôde— Insistiu o comandante— O sangue de minha irmã não está nas mãos dos Amisterium e sim dos Collins. Temos um inimigo em comum, majestade. É assim que verdadeiras alianças nascem, de sangue e honra.

Arnold respirou fundo, aquele não era um momento de demonstrar fraqueza.

Suas costas estavam retas, os ombros alinhados, a cabeça erguida, não era um rei que, cansado com o peso das obrigações, passara a pesada coroa para o filho, era um homem defendendo seu lar na ausência do verdadeiro líder.

—Agradeço o auxílio de seus homens, mas acredito que meu filho precise mais deles que eu.

—Não vamos correr o risco de deixar o reino desprotegido outra vez, majestade— Disse Miranda, ainda tinha sangue seco nos cabelos castanho-avermelhados— Sentimos muito, mas a derrota em uma guerra começa com a perda de territórios. Se Otto vencê-los no reino de Eros e marchar para cá, estaremos prontos para responder a altura.

—Sei que nossa estratégia não o agrada— Disse Daniel, antes que Arnold pudesse começar protestar— Mas preciso lembrar-lhe de que tem mais duas filhas? E as duas não sabem lutar, este é o único lugar seguro para elas no momento. Se formos até eles, o exército de Collins pode nos interceptar no caminho e atacar seu reino outra vez. Não acredito que sobreviva mais uma vez na sorte se não estivermos aqui. Geralmente acredito no poder dos homens de Amisterium, mas eles não estão aqui.

Arnold fechou a boca, Daniel tinha razão, Cordélia e Geneviève precisavam de sua proteção no castelo, mandar os homens de Snowinter para longe abria caminho para um novo ataque que seu reino podia não suportar.

As portas do salão se abriram e um homem um pouco mais velho que Daniel entrou na sala, vestido com uma armadura dourada e prateada, e uma coroa brilhando sobre os cachos loiros, acompanhado por dois soldados com espadas embainhadas e bandeiras de Snowinter nas mãos.

—Vossa majestade— O homem fez um leve movimento com a cabeça em direção a Arnold, que o respondeu a altura.

Aquela terra era dele na ausência de Augustus, ele era o rei daquele lugar.

—Estava agradecendo seu auxílio agora, Rei Jonas.

—É o mínimo que poderíamos fazer, Rei Arnold. Há anos estamos aliados a Collins por medo de confrontar um reino tão grande. Snowinter é um reino pequeno, mas tem honra. Temos consciência que nos aliamos ao lado errado e assim demos assistência a eles em conquistas cruéis e massacres, quando deveríamos ter nos aliado a Amisterium. Estamos pagando com nosso sangue pelo erro que cometemos e tentamos consertar.

—Não há mais dívida alguma com Amisterium, nem por erros cometidos, nem por proteger Maia e Lucian. Vocês protegeram minha família, estarei sempre grato.

—Lucian sempre será um dos nossos e um de vocês, não há auxílio em batalha que ganhe disso. Querendo ou não, Amisterium ganhou um novo aliado— Jonas estendeu a mão para Arnold— É sua escolha aceitar de bom grado ou não. Mesmo que não aceite, por nosso amado Lucian, estaremos a dispor sempre que este reino precisar.

Arnold sorriu, apertando a mão do rei de Snowinter.

—As portas de Amisterium estarão sempre abertas para um Snowinter. Será um prazer me aliar a vocês.

O salão ecoou o baque das portas duplas abrindo furiosamente.

—Majestade— Uma serva se curvou— Um mensageiro quer vê-lo.

O rapaz entrou no salão atrás dela e se curvou, estava muito ferido e parecia cansado.

—Vossa majestade— Disse ele, estendendo um envelope— Tenho uma carta do rei Augustus, direto do acampamento.

...

Luca estava com a garganta seca ao voltar para o acampamento, os homens já estavam preparados, e o clima geral mostrava que todos sentiam o mesmo: Otto voltaria logo.

A tenda de Horace havia desaparecido ali do meio, tudo sendo transferido novamente ao topo da “colina”, longe do campo de batalha com todos os que não haviam melhorado a tempo.

—Se precisa de um motivo para lutar, posso te dar mais que uma história. Posso oferecer uma promessa— Dissera Augustus e Lucian o encarara , pedindo que continuasse, mas ele apenas sorriu começando a narrar uma história.

—Luca?— Louis chamou sua atenção, e o rapaz precisou piscar um pouco antes de voltar à realidade— Você está bem, está pronto para lutar?

—Sim. Na verdade eu tive uma ideia. Onde está Larissa?

—Ela está bem, está com Horace e não pode lutar.

—Não vou fazê-la lutar, não sou estúpido— Respondeu com rispidez e correu, escalando o mais rápido possível até a tenda.

—A lenda sobre a família Amisterium— A voz de Augustus ainda ecoava em sua cabeça— Pois bem:

“Diz-se que há muito tempo existia uma aldeia próspera cujos moradores viviam em paz e tranquilidade, a terra sempre lhes dava o que comer, a água era pura e eles viviam em harmonia, nunca pegando mais que o necessário para viver.

Certa vez, em um inverno sombrio, nevou pela primeira vez naquela aldeia, cobrindo e matando toda a plantação, adoecendo as pessoas e congelando os rios e poços.

O povo não conseguia sair de suas casas, a tempestade era forte, o risco de ficar soterrado embaixo de tanta neve era grande e ninguém tinha coragem de tentar.

Um rapaz, vendo que toda a comida que a família tinha em reserva estava prestes a acabar, e sua irmã mais nova estava doente, decidiu sair de casa em busca de um curandeiro, de terra, de um lugar seguro para que o povo pudesse fugir da grande nevasca e sobreviver.

Com medo de deixar a família faminta, o rapaz saiu com apenas alguns pedaços de pão e queijo, se cobriu de todas as formas possíveis e, após muito esforço, conseguiu tirar um cavalo do estábulo e obrigá-lo a cavalgar pela neve alta.

Ele levou dias, racionando seus alimentos e comendo o mínimo possível para sobreviver, antes de conseguir escapar da neve e descobrir um lugar também frio, mas com terra aparente em vários lugares e plantações crescendo aos montes.

Logo notou estar em uma outra aldeia, onde, bem no meio, havia um enorme castelo de uma pedra que mudava de cor com a luz do sol.

O rapaz, delirante de fome e cansaço, se apressou em correr ao castelo e bater furiosamente na porta até que a abrissem e ele, finalmente, desmaiasse de exaustão.

As serventes preocupadas o levaram para dentro e cuidaram dele, quando ele finalmente acordou , elas o alimentaram e perguntaram de onde viera e para onde ia.

O rapaz contou toda a história, sobre as doenças e fome que assolavam sua aldeia desde que o inverno começara, e pediu uma audiência com o rei para conseguir ajuda.

As servas, porém trocaram o olhar e lhe disseram com muita pena na voz:

—Oh, pobre jovem, veio de tão longe e tão sem esperanças. Este rei é dono de muitas terras, inclusive da terra onde sua aldeia se encontra, mas pouco se importa, apenas se importa com esta onde seu castelo fica, pois é daqui que sai toda sua riqueza. Se o povo da aldeia passa fome, não faz diferençara para vossa majestade.

Ainda assim o rapaz insistiu em se reunir com o rei, afinal não sabia quão longe conseguiria ir para encontrar ajuda antes que toda a aldeia perecesse, e, para a surpresa de todos, o rei concordou em vê-lo.

Com timidez, e escondendo a indignação de ver um rei gordo e bem alimentado, enquanto sua irmã adoecia e morria de fome aos poucos, o jovem contou a todos sua situação, os sábios e o rei ouviam com atenção, mas, ao fim do relato, riram entusiasmadamente e beberam vinho, dizendo que jamais haviam ficado tão entretidos e pediram por outra história.

O jovem ficou indignado que sua história os divertisse, mas era sagaz e disse:

—Se enviarem comida e curandeiros suficientes para toda a aldeia, posso ficar e contar-lhes todas as histórias que pedirem.

O rei refletiu um pouco, era muito rico, não seria grande perda, mas seu orgulho e avareza era tão grande quanto suas riquezas e ele riu ainda mais abertamente.

—Você vai ficar— Disse — E de mim não levará nada.

—Não pode me obrigar a contar histórias se me mantiver prisioneiro— Disse o rapaz— E se me matar não as terá do mesmo jeito. Já que não nos ajudará, então pelo menos deixe-me visitar minha família todas as semanas, para que minha irmã sempre tenha a chance de me ver antes que morra.

O rei, vendo que não perderia nada, deu de ombros e aceitou o acordo do jovem.

E assim foi, o rapaz passava noites acordado escrevendo as várias histórias que contaria ao rei durante a semana, e quando a semana acabava ele partia imediatamente para ver sua família.

O que o rei não previu, porém, foi que o jovem, com ajuda das servas, roubava sacos e sacos de alimentos, e todo tipo de ervas medicinais, e levava para a aldeia em suas visitas, os mantendo vivos enquanto o inverno não passava.

O inverno estava quase no fim quando o rei avarento descobriu os roubos do jovem e mandou que o matassem, mas o rapaz fugiu antes de ser encontrado.

O rei, com ódio, sabendo não conseguiria o encontrar, mandou vários homens a cavalo para aldeia e colocaram fogo em tudo, quando o rapaz chegou, o fogo já estava alto, tudo estava em chamas, pessoas gritavam e corriam tentando fugir, cegas e sufocadas pela fumaça, poucos realmente conseguiam sair.

Vendo o que a vingança do rei lhe causara, o rapaz lutou contra as chamas, entrando de casa em casa e tirando todos os que estavam vivos dali, feliz de ter encontrado a própria casa vazia, imaginando que sua família tivesse fugido.

Estava retirando os últimos sobreviventes quando ouviu a fraca voz de sua irmã, vindo de onde a família costumava comprar frutas, mas havia se tornado apenas um esqueleto de casa em chamas.

Desesperado, levou as pessoas que estavam com ele para fora do incêndio e voltou, entrando mais uma vez no meio do fogo alto, já sujo de fuligem, cheio de queimaduras, sufocando com a fumaça e com os olhos lacrimejando pelo calor.

Logo deparou-se com os pais caídos no chão, assim como o dono daquela pequena venda, queimados, e soube que estavam além de sua salvação.

A irmã doente estava encolhida, também já muito ferida, mas claramente resistindo aos ferimentos, embora estivesse fraca demais para se levantar.

Com pressa, ele a pegou no colo, achando que conseguiria sair dali com ela, mas uma viga caiu do telhado de madeira, fazendo-o cair e prendendo uma de suas pernas embaixo de destroços pesados.

Protegendo-a com o próprio corpo dos destroços que caíam e do fogo, ele tentou se soltar, sem sucesso, então, aceitando a própria morte, abraçou a irmã com força e deixou a fumaça sufocante deixa-lo inconsciente.

Milagrosamente, ele acordou no dia seguinte, e notou que chovia.

Não havia mais sinal de fogo ou fumaça, e, mais surpreendente ainda, sentiu a irmã respirar em seus braços.

Porém, quando a olhou, não viu seus braços, viu enormes asas como as de morcego, porém mais fortes, com escamas que pareciam metal.

O rapaz havia se tornado um dragão.

A menina quando acordou, não teve medo, mesmo sem que ele pudesse dizer ela o reconheceu, e os dois perceberam que foi essa mudança que os protegera do fogo.

Os dois estavam vivos pela proteção do corpo do dragão.

Ninguém sabia como aquilo era possível, e, para não assustar os aldeões, o garoto voltou a sua forma de homem e cuidou da irmã por tempo o suficiente até que ela se tornasse forte e vencesse a doença que quase a matara no inverno.

Tudo isso não mudava o fato de que o inverno e o incêndio tirara das pessoas suas casas e plantações, nada restara, então, assim que a menina ficou curada, os dois lideraram uma marcha até o castelo do rei cruel com todo o povo da sofrida aldeia, e uma enorme rebelião começou, apenas terminando quando o rapaz, tomando a forma de dragão, queimou o rei enquanto ele tentava fugir.

Eles distribuíram as riquezas do rei com todas as aldeias que sofriam de fome e deram as propriedades dos maldosos sábios para todos que perderam suas casas, e os dois foram coroados para reinarem em paz e justiça em nome do povo, prometendo a si mesmos que as guerras nunca seria parte das conquistas deles, para que nenhum rei como aquele surgisse entre eles, pois os gananciosos não merecem reinar”.

—Esses dois filhos, o rapaz dragão e irmã, são, de acordo com as histórias, a origem da família Amisterium, com toda sua sabedoria e justiça. Além de coragem— Dissera Augustus— A família real de Amisterium sempre se sacrifica pelo povo, pelo bem geral, às vezes essa é única saída. Nisso eu falhei, falhei com meu povo e minha família. Para mim, sacrifício inclui te deixar ir, e isso eu não posso fazer. Não consigo sacrificar o que sinto.

Luca estava pensando, e entendia completamente o que Eric tentava dizer.

— Isso não é nenhum pecado, mas está certo. Ás vezes a única saída é se sacrificar em nome do bem comum.

—É isso que a história quer passar.

—É claro que a história da sua família é heroica e a minha é cruel— Lucian rira sem humor, mas se calou, abraçando Augustus e o beijando com toda força que tinha, tentando passar toda força e confiança que sentia naquele momento, tentando mostrar tudo que sentia.

“Está vendo?”, ele parecia dizer, “é isso que sinto, é isso que você me causa”.

E Augustus sentia o mesmo, cada arrepio, cada sensação de dor e amor, como se fossem se afastar a qualquer momento e precisassem aproveitar aquele beijo como o último.

Gus torcia para estarem errados.

—Precisamos voltar— Dissera afinal, mesmo que não quisesse, e Luca concordou.

O silêncio do caminho de volta foi assustador, mas ambos tinham medo de falar.

—Luca?— Larissa o chamou assim que ele entrou na tenda, totalmente distraído.

—Lari. Você está bem?

— Já estive melhor— Ela segurava a mão de Renly, Hector, perto deles, ajudava Michael a colocar a armadura— Não posso mais lutar.

—Não queremos que lute— Disse, então pensou um pouco— Iremos manda-la para casa.

O suspiro de alívio de Renly foi audível.

—Ainda bem. Aposto que Arnold e Déli podem ajuda-la.

—E Margarita— Disse Horace com alegria— Minha irmã ajuda muito. Ajudar o bebê.

—A bebê— Corrigiu Larissa, com um sorriso— Consigo sentir que será uma menina.

Renly começou a chorar imediatamente, Luca sorriu a parabenizando, muito feliz que a criança tivesse sobrevivido.

—Eu insisto que ela se chame Narcisa— Murmurou Renly e Lari sorriu.

—Eu adoraria, é um lindo nome.

Luca hesitou, não querendo separar os dois, mas precisava falar com ela.

—Gostaria que Larissa partisse o mais rápido possível. Renly, Michael, poderiam..?

—Sim, com certeza— Renly beijou a esposa na testa, se levantando o mais rápido possível— Não esqueça que te amo, minha guerreira. Estarei em casa contigo logo.

Larissa sorriu e segurou a sua mão antes que ele fosse.

—Eu também te amo, Renly.

O sorriso dele foi impagável, e com muita dor ele se afastou dela, indo com Michael cuidar dos preparativos de sua partida.

—Talvez eu deva ajuda-los — Disse Hector, mas Luca já estava balançando a cabeça negativamente.

—Não, preciso falar com vocês dois, e com você também Horace.

Horace fez uma careta, mas se aproximou.

Lucian olhou ao redor certificando que não havia mais ninguém ali.

—Eu preciso de ajuda— Disse— Tenho um plano, mas ninguém além de vocês pode saber sobre. Me prometam que isso não sai daqui.

—Eu juro pela minha vida— Hector se curvou— Tem minha palavra e minha espada.

Larissa deu de ombros.

—Sabe que te amo, Luca. O que me pedir para fazer, farei.

—Devo minha vida ao senhor— Disse Horace— Estou vivo para servi-lo.

O príncipe não gostou muito da última observação, mas percebeu que não tinha tempo para discutir.

—Sei um jeito de vencer Otto— Falou com determinação, os olhos de Hector e Larissa se arregalaram, Horace ainda não sabia por que estava ali.

—Ei— Luca chamara Augustus, durante o silencioso trajeto até o acampamento— Disse que me daria uma promessa e não só a história. Qual é a promessa?

Augustus sorrira e o puxara para um abraço, Luca se sentia salvo e confortável em seus braços, sua pele se arrepiava só de estar tão próximo dele.

—Eu prometo, Lucian— O rei sussurrou ao seu ouvido— Prometo por tudo que é mais sagrado, que se vencermos essa guerra, se voltarmos vivos disso, você será a pessoa mais louvada de todos os reinos. Você será meu rei, Lucian. Não preciso de uma rainha, só de você. E o povo também. Você é o rei que eles precisam.

—Eric... Acha que pode fazer isso? Me fazer rei ao seu lado?

—Eu posso qualquer coisa, sou o rei.

Luca havia chorado ao ouvir naquilo e Augustus quase entrou em pânico, antes de perceber que era de alegria, era mais que qualquer um podia sonhar.

Uma história e uma promessa.

Os olhos cor de mel de Luca encararam os olhos escuros de Larissa.

—É hora de redimir minha família, Collins não é um nome de vilão, nós podemos ser heróis. Vejam bem, este é meu plano...

...

—Eu vou ficar bem, a viagem não é tão longa— Larissa abraçou Renly outra vez, o apertando o máximo que sua barriga deixava— Estaremos em casa logo.

—Sei que sim— Ele a beijou— Tome cuidado.

—Sempre tomo— Disse a princesa sorrindo, e olhou Louis por cima do ombro do marido.

Ele parecia emburrado, encostado em uma árvore distante, mas os observando atentamente.

—Volto logo— Disse ela ao marido, e se aproximou da árvore— Aposto que Déli está preocupada, não quer dizer algo a ela?

Louis hesitou.

—Diga a ela que Miles gosta do chá de menta que ela faz. Ele não consegue dormir sem beber pelo menos um pouco. E que ela foi a melhor amiga que já tive, mas nunca diga isso perto do Luca. Eu o amo também.

Larissa riu.

—Você parece preocupado.

—É uma guerra, e estou vendo-a partir pela segunda vez. Espero que, como antes, essa despedida não seja permanente.

—Acredite, Louis, eu também espero— Disse ela e pensou duas vezes antes de abraça-lo rapidamente— Suas crianças te esperam em Amisterium. Não as faça esperar para sempre.

—Cuide deles por mim, Lari. Ensine-os a guerrear como você.

—Farei isso, mas só quando você voltar— A princesa sorriu e começou se afastar, mas Louis segurou seu pulso, acariciando-a com o polegar.

—Não se preocupe com isso, Renly voltará para casa.

—Louis...

—É uma promessa, Larissa. Sua filha não vai crescer sem o pai.

A moça sorriu, escondendo as lágrimas que ameaçavam descer e se afastou, montando seu cavalo e ficando no meio de um grupo de soldados.

Renly se aproximou do soldado em silêncio, quase como se não quisesse ser notado.

—Ela vai ficar bem— Disse Louis, por algum motivo achou que Renly precisasse de consolo.

O lorde deu de ombros.

—Imagino que sim. Apesar de não poder lutar, ela nunca fica indefesa. Tem o colar, lembra?

Louis fez uma careta.

—Lembro, lembro sim. Mas que estranho, não vi no pescoço dela agora.

—Provavelmente ela o escondeu nas roupas.

O soldado hesitou, ficando em silêncio por alguns instantes.

—Provavelmente— Disse por fim, e se afastou.

 

Michael não sabia há quanto tempo encarava Hector enquanto os dois assistiam o cavalo que Larissa montava, seguida de um grupo de soldados, indo para longe, a caminho de Amisterium.

—Você está distraído, Hector. Não é algo bom para um soldado— Disse e Hec sorriu para ele.

—Estou bem. Viu meu pai?

—Ele foi acompanhar Larissa— Mike fez uma careta— Acabou de sair, na nossa frente.

—Ah sim, claro.

—Hec, o que príncipe Lucian te disse?

—Não posso te contar, Michael— Disse o garoto balançando a cabeça— Isso trairia a confiança dele.

—Entendo. Me diga se eu puder ajudar em algo.

Hector apenas sorriu, hesitante e segurou a mão de Michael.

—Apenas solte se precisar muito.

—Eu amo você.

—Eu também amo você.

Os dois se calaram, o exército ficou tenso, Augustus, Luca, Ethan, Dorian, Atlas, Maxon e Will estavam logo na linha de frente.

Mesmo assustados, Hector e Mike se juntaram a eles e viram de o exército em frente a eles, como se tivessem simplesmente surgido ali.

Não houve trombeta daquela vez, os homens de Otto não pareciam feridos, eram outros, homens descansados e prontos para uma longa batalha.

Storm e Ruffus, ao lado de seus respectivos donos, uivaram, e foi o sinal que todos precisavam antes de atacar.

Hector tentou soltar a própria mão, mas Michael o segurou com mais força.

—Vamos lutar juntos, Hec. Como nos treinos.

Hector sorriu.

—Como nos treinos— E juntos eles atacaram.

A batalha não era de igual para igual, às vezes um soldado era atacado por dois, às vezes precisava do auxílio de outros para derrotar um, e cada luta sobrevivida era uma ferida a mais, era mais cansaço, até que carregar a espada se tornasse um sacrifício e o mundo ao seu redor virasse um borrão.

Hector perdeu as contas de quantos chutes teve que dar, quantas pessoas havia cortado com sua espada, em algum momento Michael pegou um escudo no chão e entregou para ele, infelizmente não dava para os dois lutarem de mãos dadas, mas o tempo todo estavam cientes da presença um do outro ali, se protegendo, lutando, sobrevivendo.

Em um momento Michael derrubou Hector no chão e gritou de dor, o rapaz loiro levantou logo depois, atacando um homem que vinha com uma espada atrás deles, enquanto Mike tirava a flecha cravada em seu braço- que deveria acertar Hec no peito se ele não o tivesse empurrado- e voltava a atacar com toda força.

Ele estava ferido, mas continuava lutando ferozmente, com energia e coragem, o rosto totalmente concentrado nos próprios adversários, mesmo assim vez ou outra afastava Hector de uma lâmina ou o defendia de um ataque surpreso.

Era quase como se enxergasse todo movimento ao seu redor.

E Hector o achou mais lindo que nunca naquele momento, enxergando a ferocidade que o fizera se apaixonar por ele aos poucos quando se conheceram durante o treinamento.

Aquilo enviou uma corrente de energia por suas veias, o mundo parecia com mais possibilidades além de vencer ou perder, e se juntou a Mike, abrindo uma trilha de corpos adversários em seu caminho, tocando o bolso de ora em ora, tendo certeza de não ter perdido o que guardava ali.

Afinal, no meio daquilo tudo, sempre havia esperança.

 

Luca assobiou, e Storm praticamente voou atacando o homem que tentava atingir Augustus pelas costas e o chacoalhando como se fosse um boneco de pano.

Augustus fez uma careta.

—Não me defenda!

—Não dá— Respondeu em meio ao barulho da guerra, e grunhiu, usando ignis para bloquear a espada de um soldado e arremessando uma faca de seu cinto contra o peito do homem, que caiu imóvel, liberando seu braço bom do peso— Ele ia te acertar.

—Se preocupar comigo te deixa vulnerável— Gus tirou a faca do corpo no chão e atirou contra um homem que corria na direção deles.

—Vamos ignorar que você está me defendendo o tempo todo?— Reclamou Luca, enquanto Augustus defendia os dois de um ataque com o escudo e empurrava o soldado adversário para trás enquanto o mais jovem soltava duas flechas, uma contra quem estava atrás do escudo e outra para o que já vinha tomar o lugar dele— Também te deixa vulnerável.

O rei nem mesmo o olhou, os dois estavam ocupados demais lutando contra um grupo que tentou cerca-los, uma facada quase acertou Augustus na lateral do corpo, mas um soldado que ele não conhecia entrou na frente a tempo, ajudando os dois contra os inimigos.

—Estou aqui para sua proteção majestade— Disse o soldado.

Augustus suspirou.

—Lute por você, soldado. É sobrevivendo que vencemos— Disse ele, antes de atacar um homem que quase derrubava o recém-chegado, e o ajudou a levantar— Lute pelo seu povo, não por mim.

O rapaz o olhou inspirado e continuou atacando.

Por mais soldados que os homens de Amisterium derrubassem, um mar de inimigos tomava lugar.

Em algum lugar ao longe Luca ouviu Ethan gritar e Ruffus uivar, mas já conhecia o pai bem o suficiente para reconhecer seus gritos por excitação da batalha.

Por mais que odiasse a guerra, Luca precisava admitir, lutar era uma sensação maravilhosa.

Augustus ficava tenso, como se odiasse ter que fazer aquilo, Luca também não gostava, afinal estava matando seres humanos como se fossem nada, mas a adrenalina em seu corpo o deixava alerta, não conseguia ficar parado, cada ferimento, cada luta vencida, o fazia querer rir de uma forma que beirava a loucura.

Seu corpo se movimentava sozinho: defender, atacar, lutar, bater, defender, desviar, atirar, derrubar, atacar, defender. Não conseguia se acompanhar, mas seu corpo sabia exatamente o que fazer.

Sua mira era melhor em campo de batalha que em uma sala de treino, conseguia disparar flechas seguidas sem errar.

Mas essa agitação tinha um grande mal: quase não notava o quão ferido estava.

Não sentia tantas dores, nem cansaço, o sangue seu e de outras pessoas não incomodava, mesmo que o sangue grudasse em seus dedos e fizesse a espada deslizar de sua mão, não incomodava, conseguia lutar de forma alucinada.

Fazer isso com Augustus ao seu lado era mais difícil, sua mente se dividia entre reagir e defende-lo, mas não podia evitar sentir prazer em ver morto alguém que tentava matar aquele que ele amava.

Era uma sensação terrível de culpa, misturada com o regozijo da vitória.

Sabia, porém, que, por mais que estivesse vendendo inúmeras lutas, seu exército estava diminuindo cada vez mais.

Havia mais homens com os símbolos de Amisterium e do reino de Eros no chão que de Collin.

Não conseguiu ver Will, mas Maxon havia conseguido montar em um cavalo e estava atirando com uma besta, mesmo que sua especialidade fosse a espada, estava fazendo um excelente trabalho.

Sem conseguir evitar, Luca riu ao derrubar mais três soldados com um único arco de sua espada, Augustus o olhou com estranheza, mas seu sangue borbulhava de emoção, não dava para segurar.

Ele quebrou a haste de uma flecha que vinha em sua direção com a espada, e virou para Augustus, o sorriso sumiu de seu rosto, e o rei gritou de dor.

...

Cordélia estava chorando antes mesmo de Arnold terminar a leitura da carta, ambos podiam sentir a preocupação de Augustus ao falar do decorrer da guerra, de como Otto havia agido como o previsto e ainda assim os surpreendido com o ataque em Amisterium- nenhum dos dois ficou surpreso do rapaz ter adivinhado sobre o ataque, ele era esperto demais para não perceber a jogada de Otto-, ele avisou que possivelmente enviaria Larissa para casa assim que ela estivesse bem, mas Déli não queria incertezas, já chorava pelos dois.

Izzy estava impaciente ao lado deles, a única notícia de Luca era que havia sido envenenado por uma flecha e Horace garantira que ele ficaria bem, para ela isso não era nem perto do suficiente.

—Quero meu primo de volta— Ela reclamou, parecendo furiosa, e ela não era fofa furiosa— E meu tio. Meu tio Ethan, quero os dois de volta, quero agora.

Arnold bagunçou os cabelos da pequena, imaginando como ela e Geneviève poderiam se dar bem futuramente.

—Eles vão voltar, tenho certeza— Ele se levantou, caminhando para fora do quarto da filha, Margarita se apressou em tomar o lugar dele ao lado de Cordélia, que se apoiou na garota como se fosse desabar sem tê-la ali.

Jonas o olhou com curiosidade quando Arnold entrou na sala de jantar e parou de frente a ele.

—Minha filha mais nova, Larissa, está grávida e a caminho de casa. Preciso que mande seu cavalo mais rápido para pegá-la no caminho, ela ainda está ferida e precisa chegar logo.

O rei de Snowinter assentiu rapidamente.

—Joshua— chamou e o filho se curvou.

—Irei com meu próprio cavalo, senhor. É o mais rápido do meu reino.

—Irei com ele por segurança— Disse Miranda, mas Arnold fez que não.

—Gostaria de pedir que ficasse com Cordélia. Ela precisa de apoio e proteção caso haja algum imprevisto.

—Farei isso, vossa majestade. Como desejar.

—Vossa majestade— Uma voz jovem chamou a atenção de todos assim que Miranda abriu a porta para sair. Isabelle entrou em passos firmes, usando um vestido mais leve que os que princesas geralmente vestiam, com uma espada fina na mão direita.

—Onde pegou isso, alteza?— Perguntou Arnold, a espada parecia pesada, mas a garota não demonstrava estar incomodada com o peso, segurava com confiança e determinação, como se soubesse maneja-la.

—Veio comigo, entre meus pertences. Essa é a Devoradora de Almas e pertence a mim desde que nasci. Se há uma guerra lá fora quero lutar.

Se os presentes vissem qualquer outra criança agindo daquele jeito com uma espada em mãos teriam rido e confiscado a espada imediatamente, mas algo no olhar da garota fez todos hesitarem.

—Essa princesa me assusta um pouco— Confessou Josh, Arnold estreitou os olhos e sorriu.

—Eu reconheço esse olhar de qualquer lugar. Esses olhinhos raivosos são idênticos aos de Ethan e Lucian.

Daniel riu e estalou os dedos em uma ordem silenciosa para que um dos guardas na porta desarmasse a garota.

Um borrão branco e castanho atacou, rápido demais para acompanhar, e a espada do soldado caiu aos pés de Arnold.

A garota havia usado a vantagem de não ter medo de machuca-lo, enquanto ele não poderia fazer mal a ela, da diferença de tamanho e da velocidade de ambos para coloca-lo no chão e jogar a espada dele para longe, antes de voltar para a mesma posição que estava antes de ser atacada.

—Certo,— Murmurou Daniel— agora acredito nessa coisa dos Collins terem sangue de guerreiros.

—Treino desde muito jovem, senhor. Lutar é o que faço melhor.

—Mesmo que seja uma excelente guerreira, o que não é— Acrescentou Arnold— É apenas rápida e inteligente, não tem idade para participar de uma guerra real. Sempre haverá alguém mais rápido e mais esperto. Dê-nos mais tempo para treiná-la, Alteza. E poderá lutar.

Isabelle hesitou, por pouco tempo, mas tempo o suficiente para Arnold pegá-la de guara baixa, desarma-la e sorrir, antes de dizer suavemente.

—Sempre haverá alguém mais rápido e mais esperto— Ele repetiu— Você ainda não é tão forte e sua vantagem pode ser tirada por qualquer veterano de guerra mais experiente. Posso te ensinar todos os truques que conheço para que não seja pega de surpresa.

A princesa assentiu e sorriu.

—Mas, se precisar, minha espada está a seu favor— Disse, antes de sair saltitante pelo castelo, como uma criança comum.

...

 

Maxon olhou ao redor, atirando nos inimigos com uma besta até que ficasse sem flechas, então voltando a atacar com a espada, tendo a vantagem de estar montado em um cavalo, coisa que soldados comuns não tinham direito.

Procurou Will ao seu redor e o encontrou não muito distante, lutando contra um grupo de soldados de Collin, Hector e Michael lutavam suas próprias batalhas logo ao lado, e Maxon cavalgou até eles, ajudando a derrubar alguns soldados.

—Will, suba aqui— Chamou, mas o rapaz fez que não com a cabeça.

—Luto melhor daqui de baixo— Disse, concentrado nos homens que tentavam enfrenta-lo, trazia uma espada em cada mão, mas logo lançou uma delas contra a perna de um soldado, o derrubando e decapitando logo em seguida.

Havia sangue espalhado pelo seu cabelo, rosto e armadura, Max tentou não seu preocupar que a ferida que quase o matar poderia ter reaberto.

Incapaz de olhar a guerra de cima enquanto estava preocupado com Will, desceu do cavalo e passou a lutar ao lado dele, como Michael e Hector lutavam juntos, e Ethan fazia o mesmo com Dorian não muito distantes dali.

Ethan sorria impiedosamente, girando a espada na mão como se tivesse todo tempo do mundo, e de certa forma tinha.

Para ele era fácil prever os ataques dos soldados adversários, havia acompanhado o treino de grande parte deles, e pelo menos uma parte do que diziam dos Collins era verdade: quando se tratava de guerra, aqueles com sangue Collins eram quase invencíveis.

Ele tinha noção disso, e de seu próprio orgulho, noção o suficiente para nunca ser pego desprevenido.

Se vinham três homens em sua direção, sabia que Ruffus atacaria o da esquerda pois era seu lado mais fraco, sabia que teria que jogar o da direita contra o do meio para atordoa-los, e de alguma forma conseguia realizar todas essas coisas.

Um gesto simples com a espada em punho resultava em um novo corpo naquele mar de mortos.

Não era mentira quando diziam que ele praticamente desfilava pelo campo de batalha, aquela era sua área de conhecimento, não podia ser tão facilmente vencido.

Dorian, que treinara o triplo a vida inteira para ser levado a sério, havia se tornado seu escudeiro quando eram ainda muito jovens, então ambos já conheciam o modo de luta um do outro, lutavam individualmente, ao mesmo tempo formando uma dupla formidável.

O soldado loiro os machucava, o príncipe os matava, era fácil, simples, e uma multidão de mortos vinham de suas mãos.

O maior defeito de Dorian era justo esse: ele hesitava em matar.

Se pudesse apenas machucar e sair ileso era o que faria, mas ali, no meio do cheiro terrível de sangue e morte, tão úmidos e grudentos de sangue e poeira que era quase impossível respirar, com o corpo cansado de preocupação, agitação e ferimentos, não matar era o passo final para a própria morte.

E Ethan simplesmente não conseguia aceitar a ideia de que Dorian poderia ser só mais um cadáver naquele mar terrível.

Em alguns momentos não sabiam se pisavam no chão, em poças de lama e sangue ou em corpos frios e duros, Ethan tentava focar sempre a frente, tentando abrir caminho até Otto, mas sempre que imaginava poder andar até ele, uma nova onda de homens o surpreendia deixando-o ainda mais longe de seu irmão.

Lutar era ânimo em suas veias, mas não sabia por quanto tempo seu corpo ainda poderia aguentar.

Mesmo que sua força de vontade e a adrenalina o empurrassem para frente, tinha tantas feridas que não conseguia conta-las e sentia que a qualquer momento a espada cairia como uma pedra de suas mãos.

—Ethan?— Chamou Dorian, Ethan se aproximou, ajudando-o a se defender em seu novo ponto cego pela perda do olho— Está tudo bem? Está vacilando.

Dorian o conhecia como ninguém, sabia que os passos em falso de Ethan significavam exaustão.

Quando seu corpo começava a vacilar e seus pés o faziam cambalear, significava que estava desfalecendo, mesmo que não estivesse ferido o suficiente para isso.

Ele tropeçou nos próprios pés e Dorian o ergueu.

—Estou bem— Afirmou, mesmo que não adiantasse mentir.

Esse era um grande problema dos Collins, aprendiam a ser soldados muito rápido, eram tomados por adrenalina e perdiam o controle de si mesmos, até que o corpo não aguentasse mais a exaustão que nem sabiam estar sentindo.

—Não está, você precisa parar.

Ethan pôs-se de pé.

—Se parar, vou morrer.

—Se não parar, morrerá do mesmo jeito.

—Não do mesmo jeito. Não morrerei como covarde.

Dorian revirou os olhos, gemendo de dor por um ataque que o pegou de surpresa, mas logo se defendendo do soldado adversário.

—Preciso chegar nele, preciso chegar em Otto— Disse Ethan e Dorian assentiu.

—Se é o que precisa fazer, eu te ajudo.

Ethan olhou ao redor, encontrando Maxon e sorriu.

—Tenho uma ideia, precisamos de ajuda para abrir caminho— Disse e gritou— Ei, Max, preciso chegar em Otto. Preciso de ajuda.

Maxon assentiu.

—Will, Hector, Michael?

—Já ouvimos— Disse Will, avançando violentamente— Ele gritou, deu para ouvir.

Maxon deu de ombros, tirou a aljava de flechas do ombro de Will- ele evitava usar arco sempre que podia- e começou a atirar em qualquer um que não fosse aliado de Amisterium.

Will, recuperando as duas espadas, subiu em uma pedra e saltou no meio de um grupo de soldados, derrubando dois enquanto tentava alcançar o chão, e já atacando outros dois com as espadas afiadas.

Louis e Renly apareceram ensanguentados ao lado deles, e logo perceberam o que acontecia, formando uma inesperada dupla que lutava para abrir caminho até Otto.

Surpreendentemente, os dois, que nunca haviam conseguido trocar mais que algumas palavras, lutavam entendendo um ao outro com o olhar.

Renly pareceu respirar fundo quando Louis impediu que um homem o acertasse no peito, desviando a lâmina rápido o suficiente para apenas um arranhão ficar para trás.

—Louis, se algo acontecer...

—Isso é uma guerra, não um diálogo. Cale a boca.

—Escute— Renly se defendeu com um escudo— Cuide de Larissa e Narcisa por mim, por favor.

—Precisamos alcançar Otto— Reclamou Louis, e ouviu Renly gemer de dor— Você está bem?

—Sim— Ele sorriu, apesar de Louis conseguir ver sangue escorrendo de sua armadura.

—Renly, o que houve?

—Nada demais. Apenas continue, vou ficar bem— Ele retrucou e atacou.

Vendo que nada o faria falar, Louis o seguiu.

Hector e Mike lutavam em conjunto, defendendo e atacando, Michael entrou na frente de Hector uma segunda vez, por sorte a facada passou apenas de raspão em seu peito e ele revidou cortando o pescoço do soldado inimigo.

Hector agradeceu, mas estava visivelmente preocupado, tiveram sorte até ali, mas era questão de tempo até que Michael realmente se machucasse.

Otto e seus comandantes perceberam o que Ethan tentava fazer, aumentaram a linha de proteção que os separava do restante da luta e mandaram mais soldados para fechar o caminho que o grupo tão insistentemente tentava abrir.

Ruffus era um borrão negro entre eles, um lobo enorme atacando, mas mesmo ele já começava a ficar mais lento pelos diversos golpes que recebera durante a guerra.

Mike e Hector ficaram de costas um para o outro, cada um atacando por um lado o grupo que começava a se aglomerar em cima deles, Hector conseguiu desviar uma flecha que quase atingiu Michael na cabeça e Mike derrubou um homem e o matou antes que ele chegasse a Hector, mas nenhum dos dois previu o golpe seguinte.

Dois inimigos, também trabalhando em conjunto, atacaram os dois, Michael e Hector, distraídos em sobreviver a eles, não viram um outro soldado saltar quando o último dos dois caiu morto no chão.

Os olhos de Mike se arregalaram, não houve grito, foi rápido demais, apenas um suspiro surpreso, e Hector caiu no chão, com a ponta da espada saindo pelo peito.

Michael sabia que deveria atacar quem o havia matado, mas Will já havia feito isso e olhava para os dois com pena.

Por um momento foi como se o tempo parasse ao redor deles, Mike não sabia se os aliados os estavam protegendo, ou se aquilo pareceu uma eternidade apenas na sua cabeça, mas ajoelhou-se ao lado de Hector, segurando-o em seus braços, enquanto sentia a respiração dele diminuir.

—Mike...

—Não— Grunhiu Michael— Não fale. Você vai ficar bem.

Hector sorriu, saia sangue da sua boca.

—Não vou— Ele disse, e tossiu, um olhar desesperado tomou conta dele, enquanto tentava mexer as mãos que pareciam pesadas demais para se moverem.

—Não se mexa— Insistiu Michael, segurando a mão do outro e Hector puxou a mão do parceiro, com muito esforço, até o próprio bolso.

—Cuide disso— Disse ele, quase não conseguindo dizer nada, só sentia o gosto metálico de sangue— Cuide com sua vida...

Mike o olhou com estranheza, sentindo algo frio em sua mão e tirando aquilo do bolso do companheiro.

—Vai saber quando usar— Disse Hector, e fez uma careta— Está doendo... Mike, por favor...

—Não...

—Está doendo demais— Hector apertou a mão fechada de Mike em sua própria, com toda força, estava em pânico— Faça parar, por favor...

—Não, não posso...

—Mike...— O rapaz negro fechou os olhos, pronto para negar outra vez, mas ouviu um assobio.

A respiração dolorosa e lenta parou, as mão se soltou da sua, Michael abriu os olhos para vê-lo pálido, ensanguentado, mas com os olhos fechados e uma expressão tranquila.

No pescoço havia  a marca de mordida profunda de um animal grande.

O soldado ergueu os olhos para Ethan, que de alguma forma havia parado em pé acima deles, com o enorme lobo negro ao seu lado.

—Por que fez isso?

—Ele estava sofrendo, agonizando. Não podia ser salvo, apenas ficaria agonizando por sabe-se deus quanto tempo até morrer. Ele pediu por isso.

—Sempre há outro jeito...

—Lamento, Mike. Nem sempre.

Michael queria ter tempo de chorar e sentir luto, mas sabia que a guerra continuava ao redor dele. Mesmo assim, não queria que Hector fosse mais um corpo jogado naquele chão sujo e fétido.

Ethan percebeu sua hesitação e se abaixou, colocando uma mão no ombro do rapaz.

—Tire-o daqui, afaste-o da guerra e daremos a ele um funeral digno quando a guerra acabar, eu prometo. Pode ir, Ruffus te protegerá até que volte a lutar. Pode confiar em mim e nele.

Michael assentiu, mas os olhos do homem já estavam em sua mão.

—O que é isso?

—Eu não sei, estava com Hector, ele pediu que eu cuidasse...

—Desgraçado! Não Hector, ele não— Afirmou rapidamente e se levantou, Ruffus continuou parado, os olhos avermelhados fixos em Michael e o soldado percebeu que ele cumpriria a promessa do dono.

Ethan não teve tempo para ver se ele fazia o que havia sugerido, já estava correndo em meio ao campo de batalha, lutando sozinho e furiosamente, enfrentando qualquer ser humano que se levantasse contra ele.

—Ethan?— Maxon o olhou assustado— O que está fazendo? Para onde vai?

—Preciso impedir Lucian, ele irá fazer uma loucura terrível— Disse, e correu sem querer ouvir resposta.

Maxon fez uma careta para o vazio onde ele estava um segundo atrás.

—Certo, ele irá fazer uma loucura terrível. E não é isso o que ele sempre faz?

...

 

O grito de Augustus foi um choque, mesmo que sentisse dores horríveis, ele nunca murmurava, um grito, tão terrível, de dor, de aflição, tocou Luca como milhares de cacos de vidro perfurando sua pele.

Luca o viu caído no chão, havia um soldado sobre ele, seu coração parecia bater nas orelhas, toda agitação e excitação dera lugar apenas ao ódio e ao desejo de vingança a o que quer que tivessem feito a seu Eric.

Ele assobiou, deixou que Storm arrancasse o homem com violência de cima de Augustus, apenas para se aproximar e arrancar sua cabeça em um único golpe de Ignis.

Storm continuou atacando sem parar qualquer um que tentasse se aproximar, e Luca fez o mesmo, até perceber um grupo de mortos ao seu redor e ver o olhar assustado dos soldados que deveriam tomar o lugar deles.

Ele havia derrotado todos aqueles sozinho, um lobo o protegia mesmo quando estava distraído, e eles começaram a recuar.

Lucian não dava a mínima se estavam fugindo dele, logo notariam que sua raiva assassina havia passado e voltariam a atacar, mas não se importava, ajoelhou-se ao lado de Augustus que gemia de dor.

Ele estava ferido em vários lugares, mas assim estava desde o início da guerra, e nada parecia muito grave, exceto seu rosto que jorrava sangue.

—Lucian?— Ele chamou— Eu não consigo ver, não vejo você.

—Tem sangue no seu rosto, é por isso, calma. Vai ficar bem— Sua voz estava trêmula, mas Luca limpou o máximo possível do sangue que conseguiu com um tecido e um pouco de água, Augustus reclamou de dor quando o lado esquerdo de seu rosto foi limpo e Luca engoliu um grito.

—Ainda não consigo ver— Disse Augustus— Não com o olho esquerdo, não dá pra abrir, está doendo.

—Eu sei, eu sei— Lucian engoliu em seco, as lágrimas estavam o sufocando na garganta.

O rosto de Augustus estava perfeito, como sempre fora, exceto pelo corte da testa até a bochecha do rapaz.

O corte não parecia muito fundo, mas provavelmente muito doloroso, ou pelo menos Luca esperava que não fosse tão fundo.

—Meu rei, preciso que tente abrir seu olho esquerdo.

—Não dá...

—Por favor, preciso ver.

Augustus respirou fundo e gemeu, abrindo o olho calmamente.

Apesar do sangue que ainda saía, o ferimento aparentemente era apenas externo.

—Consigo enxergar— Disse, fechando-o outra vez— mas está doendo muito.

Lucian suspirou de alívio, mas ficou com ainda mais raiva ao fazê-lo.

Augustus estava bem, a ferida não fora tão profunda, mas isso foi sorte.

Um golpe um pouco mais forte poderia tê-lo cegado, ou o matado, e a ideia de vê-lo morto o enfurecia mais que qualquer coisa.

Otto o havia ferido, havia ferido seu Augustus, seu rei, seu Eric.

O príncipe olhou ao redor.

Podia ver apenas relances de seu pai, seus amigos ou aliados, havia corpos com símbolos de Amisterium, da fortaleza dos M’Arhaem, do reino de Eros e de todos que tentavam deter o avanço tirânico do governo de Otto.

Seus homens estavam resistindo, mas por muito pouco.

Viu vários dos soldados que lhe juraram lealdade avançar por uma chuva de flechas inimigas, lutando até o fim.

Viu Renly ser atingido na lateral do corpo, e ainda assim avançar matando quem o havia acertado e todos outros que tentassem deter seu avanço.

Viu Will lutando como um monstro, com duas espadas sangrentas.

Viu Storm tentando conter a barreira de homens que tentavam avançar para cima dele em um momento de vulnerabilidade, mas seus uivos fortes davam lugar a uivos de dor, mesmo ele já começava a fraquejar.

E por mais que esperasse vencer a guerra sem ter que usar seu plano reserva, percebeu que talvez não tivesse outra opção.

—Otto Collins— Ele gritou, e avançou na multidão de soldados inimigos.

                                                           

 

 

 


Notas Finais


Eeee é isso, espero que tenham gostado, vou tentar atualizar rápido, mas todos nós sabemos que não vou, vida que segue.
sério, as coisas são bem corridas aqui, mas faço meu melhor para entregar bons capítulos e boas histórias.
Como eu disse, Amisterium está quase acabando, mas eu planejo fazer três histórias neste universo, com estes personagens e tals, mas isso, claro, vai depender do feedback que eu tiver nessa história.
Não estranhem a mudança no título, isso é por conta da "trilogia" mesmo, isso se eu realmente fizer haha.
Espero que tenham gostado do capítulo, comentem e mandem pros amiguinhos que vcs acham que podem gostar.
Ter bastante leitores e comentários é um puta incentivo para escrever mais e vocês têm me ajudado muito em cada crise existencial e artistica que já tive, então obrigada.

Kissus gente, até mais.


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