História Amor de vizinho - Capítulo 1


Escrita por: ~

Postado
Categorias Flavia Pavanelli, Magcon, Shawn Mendes
Personagens Flavia Pavanelli, Shawn Mendes
Exibições 268
Palavras 5.402
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Romance e Novela
Avisos: Insinuação de sexo, Sexo, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 1 - Vizinho do 3b


Fanfic / Fanfiction Amor de vizinho - Capítulo 1 - Vizinho do 3b


- Então ainda não falou com ele?
- Hum? - Flavia Pavanellil continuou a trabalhar em sua mesa de desenho,
marcando traços divisores no papel com uma experiência adquirida ao longo de
anos.
- De quem você está falando?
Seguiu-se um longo suspiro de censura. Ao ouvi-lo, Flavia teve de se esforçar
para não rir. Conhecia muito bem Jody Myers, sua vizinha do andar de baixo, e
sabia exatamente sobre quem ela estava falando.
- Do irresistível sr. Misterioso do 3B, Cyb. Ele se mudou para cá há uma
semana e ainda não trocou uma palavra com ninguém! É mistério demais para
mim. Seu apartamento fica bem em frente ao dele e você nem tentou dizer
"olá"? Pelo amor de Deus, mulher! Você precisa fazer alguma coisa!
- Tenho andado muito ocupada ultimamente. - Flavia levantou a vista e arriscou
olhar para Jody, que estava andando pelo estúdio com ar impaciente, fazendo
os cabelos loiros balançarem com veemência.
- Mal notei a presença dele.
Jody revirou os olhos, parecendo não acreditar no que estava ouvindo.
- Não me venha com essa história, Cyb. Notou a presença dele, sim.
Jody se aproximou da mesa de desenhos e inclinou-se por cima do ombro da
amiga, então torceu o nariz. Nada além de algumas linhas azuis. Gostava mais
quando Flavia começava a esboçar as figuras.
- Ele ainda nem pôs o sobrenome na caixa do correio. E ninguém o vê sair do
prédio durante o dia. Nem mesmo a sra. Wolinsky, e olha que ninguém escapa
àquele olhar de falcão.
- Talvez ele seja um vampiro.
- Uau... - Intrigada com a idéia, Jody apertou os lábios. - Sabe que essa
hipótese seria mesmo excitante?
- Excitante demais - anuiu Flavia, voltando a se concentrar no desenho,
enquanto Jody retomava sua caminhada impaciente pelo estúdio, falando sem 
parar.
Flavia nunca se importara em ter companhia enquanto trabalhava. Na verdade,
até gostava disso. Não era do tipo que gostava de isolamento e quietude. Talvez
por esse motivo se sentisse tão feliz vivendo em Nova York, em um prédio de
apartamentos cheio de vizinhos animados e, quase sempre, muito barulhentos.
Aquele tipo de coisa a satisfazia não apenas em nível pessoal, mas também
servia de base para seu próprio trabalho.
De todos os moradores do prédio, Jody Myers era sua vizinha preferida. Três
anos antes, quando Flavia se mudara para o prédio, Jody era uma enérgica
recém-casada que acreditava plenamente que todo mundo tinha de ser tão feliz
quanto ela. E felicidade, para Jody, era sinônimo de casamento.
Depois que se tornara mãe de Charlie, um adorável bebê de oito meses, Jody
passara a se empenhar ainda mais em sua campanha casamenteira. E Flavia
sabia muito bem que era a principal "vítima" da amiga.
- Nem mesmo o viu no corredor? - Jody quis saber.
- Ainda não.
Pensativa, Flavia pegou uma caneta e apoiou-a entre os lábios rosados e
polpudos. Seus olhos expressivos eram de um profundo tom de verde, semelhante
ao das águas de algumas praias privilegiadas ao redor do mundo. Os
suaves matizes amarelados, que permeavam o estonteante tom de verde das
íris, sugeriam a imagem das luzes do crepúsculo sobre o mar. Seriam
considerados "olhos de tigresa", não fosse o fato de viverem constantemente
iluminados por um brilho de bom humor.
- Acho que a sra. Wolinsky está é perdendo a prática. Eu o vi sair do prédio
durante o dia, o que elimina a "hipótese vampiresca".
- Viu mesmo? - Jody se aproximou dela no mesmo instante, com ar de
interesse. - Quando? Onde? Por quê?
- Quando? De madrugada. Onde? Indo na direção leste da cidade. Por quê? Por
causa de uma crise de insônia. - Decidindo entrar na brincadeira, Flavia girou a
cadeira, mostrando um brilho de divertimento no olhar.
- Acordei cedo e fiquei pensando nos biscoitos que sobraram da festa da outra
noite.
- Biscoitos atômicos - brincou Jody.
- Sim. E não consegui voltar a dormir até provar outro deles. Já que havia 
levantado e estava sem sono, decidi vir até aqui trabalhar um pouco e, em certo
momento, acabei indo parar diante da janela. Foi quando o vi sair. Aliás, é
impossível não notá-lo. Deve ter um metro e oitenta, mais ou menos. E aqueles
ombros...
As duas reviraram os olhos, imaginando como deveria ser tudo aquilo de perto.
- Bem, ele estava carregando uma espécie de mochila de ginástica e trajava
jeans e camiseta pretos. Portanto, deduzi que ele estivesse saindo para o
trabalho, em alguma academia. Ninguém consegue ter aqueles ombros
comendo batatinhas fritas e bebendo cerveja por aí, meu bem.
- A-ha! - Jody estalou os dedos no ar. - Você está interessada.
- Não estou morta, Jody. Ele é lindo de morrer. E como se não bastasse isso,
aquele ar misterioso e o traseiro perfeito moldado no jeans justo... - Flavia
levantou as mãos no ar. - O que mais uma mulher pode fazer, senão fantasiar?
- E por que só fantasiar? Por que não bate à porta dele e lhe oferece alguns
biscoitos ou algo do gênero? Dê-lhe as boas-vindas como vizinha. Quem sabe,
assim, conseguirá descobrir o que ele faz lá dentro o dia inteiro. Tente descobrir
se ele é solteiro, no que trabalha... Se é solteiro... E o que... - Ela se
interrompeu, levantando a cabeça, em alerta. - Charlie está acordando.
- Eu não ouvi nada. - Flavia virou a cabeça, mirando o ouvido na direção da
porta. Concentrou-se, mas não ouviu nada.
- Puxa, Jody, desde que deu à luz está com uma audição de morcego.
- Vou trocá-lo e levá-lo para um passeio. Quer vir também?
- Não, não posso. Preciso trabalhar.
- Nos veremos à noite, então. O jantar será às sete horas.
- Está bem.
Jody foi até o quarto de Flavia, onde havia deixado o filho dormindo, e o pegou
no colo. Acenou para a amiga, ao passar pela porta do estúdio, e saiu em
seguida. Flavia sorriu consigo. Jody podia até ser meio excêntrica, mas havia se
tornado uma mãe maravilhosa.
Com uma careta, lembrou-se do jantar que teria pela frente. Um jantar tedioso
com Frank, primo de Jody. Quando criaria coragem para dizer a Jody que
parasse de tentar lhe arranjar um pretendente? Provavelmente no mesmo instante
em que reunisse coragem para dizer o mesmo à sra. Wolinsky, concluiu.
E à sra. Peebles do primeiro andar. Por que as pessoas insistiam em manter 
aquela obsessão de ficar lhe arranjando pretendentes?
Estava com vinte e quatro anos, era solteiríssima e feliz por isso. Não que não
pensasse em formar uma família algum dia. Como qualquer garota, queria ter
uma casa confortável, com um jardim onde seus filhos pudessem brincar. Ah, e
um cachorro... Sim, teria de haver um cachorro. Mas isso era coisa para o
futuro. Gostava de sua vida no presente e não pensava em mudá-la. Não
mesmo.
Mantendo os cotovelos sobre a mesa de desenho, apoiou o queixo sobre as
mãos unidas e se permitiu olhar através da janela e divagar um pouco. Devia
ser o ar da primavera, pensou, que a estava fazendo se sentir tão inquieta e
cheia de energia.
Considerou a possibilidade de sair com Jody e o bebê para se distrair um
pouco, mas logo em seguida viu sua amiga já no portão do prédio, saindo para
seu passeio. Suspirou. Bem, não estava mesmo com vontade de sair.
"Então desenhe, Flavia Pavanellil", pensou consigo, voltando a se concentrar na
mesa de trabalho, onde os primeiros esboços de sua tira de jornal aguardavam
ser terminados.
- Amigos e vizinhos - leu o título em voz alta.
Tinha uma mão bastante firme e treinada para desenhar, por isso os traços
seguintes foram surgindo naturalmente, sem grande esforço. Sua mãe era uma
.artista de sucesso, reconhecida internacionalmente. Seu pai, o gênio recluso
por trás das famosas tiras de jornal do personagem "Macintosh". Juntos,
haviam transmitido a ela e aos irmãos o amor pela arte, o senso do ridículo e
uma sólida formação.
Mesmo depois de haver deixado a atmosfera de segurança da casa dos pais, em
Maine, Flavia sabia que seria aceita de volta com todo carinho, se Nova York a
rejeitasse.
Mas, felizmente, não fora o que acontecera. Havia mais de três anos que vinha
apresentando suas tiras cômicas em um famoso jornal local e seu trabalho
estava ganhando cada vez mais reconhecimento. Sentia-se orgulhosa disso,
orgulhosa da simplicidade, do contexto agradável e do humor que conseguia
criar com seus personagens, em situações vividas no dia-a-dia. Não tentava
imitar a ironia de seu pai ou as sátiras políticas que ele costumava fazer. Seu
estilo era outro. Para ela, a vida era uma fonte de risos. Entrar em uma fila
quilométrica para ir ao cinema, encontrar um par de sapatos que combinasse 
com a roupa, sobreviver a outro almoço de negócios, esse tipo de coisa.
Enquanto muitos viam sua personagem, Emily, como uma criação
autobiográfica, Flavia a via sempre como uma maravilhosa fonte de idéias,
nunca como um reflexo de si mesma. Afinal, Emily era uma linda loira alta que
vivia sempre com problemas para se manter nos empregos e para arranjar
namorados.
Flavia, por outro lado, era morena, de estatura mediana, e tinha uma carreira
bem-sucedida. Quanto aos homens, bem, eles não eram exatamente uma
prioridade em sua vida para que ficasse se preocupando muito com isso.
Um ar de censura surgiu em sua expressão, fazendo-a estreitar os belos olhos
verdes ao se flagrar tamborilando a caneta, em vez de estar usando-a para
trabalhar. Não estava conseguindo se concentrar. Passou a mão nos cabelos
castanho-claros, mordeu o lábio bem delineado e deu de ombros. Talvez
estivesse precisando mesmo parar um pouco e comer alguma coisa. Provavelmente
um chocolate resolvesse seu problema.
Empurrou a cadeira para trás, colocando a caneta atrás da orelha, repetindo o
gesto do qual vinha tentando se livrar desde a infância. Então deixou o estúdio
ensolarado e desceu para o andar de baixo.
Seu apartamento dúplex era incrivelmente arejado e um pouco separado de seu
local de trabalho. Aliás, fora justamente esse o motivo que a levara a ficar ali
quando se mudara para Nova York. Um longo balcão separava a cozinha da
sala, criando um espaço aberto e agradável para receber visitas. As janelas
amplas permitiam que a luz do sol entrasse com vigor no ambiente, criando
uma atmosfera saudável. Nos primeiros dias em que se mudara para ali, o
único problema que tivera de enfrentar fora o barulho vindo da rua, que a
mantinha acordada durante a maior parte da noite. Nova York nunca dormia,
mas, aos poucos, ela acabara se acostumando com isso.
Com seu andar elegante, outra característica herdada de sua mãe, Flavia
encaminhou-se descalça para a cozinha. Tinha pernas esguias, adquiridas na
época em que implorara para fazer aulas de balé, só para, pouco depois, enjoar
e abandonar o curso.
Cantarolando baixinho, abriu a geladeira e examinou seu interior. Poderia
preparar alguma coisa para si. Também havia tido lições de culinária na
adolescência, e só se cansara delas quando sua criatividade começara a
sobrepujar à de sua instrutora.
Suspirou, quando começou a ouvir aquele som que já estava se tornando
familiar. Atravessando as paredes do prédio e o corredor, a música lhe chegou
aos ouvidos com a mesma suavidade dos últimos dias. Triste e sexy, pensou
ela. Era assim que definia aquela espécie de lamento do sax alto. O sr.
Misterioso do 3B não tocava todos os dias, mas Flavia gostaria que ele o fizesse.
Aquelas lânguidas notas prolongadas surtiam um efeito estranho em seu ser.
Uma espécie de emoção que ela não sabia explicar. Bem, talvez porque a
música era sempre tocada com muita emoção.
Seria ele um músico em começo de carreira, tentando encontrar seu lugar ao
sol em Nova York? Sem dúvida, devia ter sofrido alguma desilusão amorosa
para tocar daquele jeito, pensou ela, enquanto tirava alguns ingredientes dos
armários. Devia haver uma mulher por trás de todo aquele sentimentalismo.
Provavelmente uma ruiva deslumbrante que o enfeitiçara com seus encantos
sedutores, fizera-o abrir o coração e depois pisara nele, ainda vivo, vulnerável e
pulsante, com seu salto de sete centímetros.
Poucos dias antes, havia inventado um contexto diferente para seu novo
vizinho. Nele, o sr. Misterioso havia saído da casa de sua renomada família com
dezesseis anos. Vivera nas ruas, tocando sax nas esquinas de Nova Orleans,
uma de suas cidades preferidas, e recebendo alguns trocados por isso. Depois
seguira em direção ao norte, enquanto aquela mesma família perseguidora, liderada
por um tio insano, vasculhava o país à procura dele.
Não desenvolvera muito bem a idéia do motivo pelo qual eles eram
perseguidores, mas isso também não importava muito. Ele estava buscando
seu lugar ao sol no mundo, confortado apenas por sua música.
Também havia a possibilidade de ele ser um agente federal trabalhando
disfarçado. Ou um ladrão de jóias internacional fugindo de um agente do
governo. Ou, quem sabe, um serial killer à procura da próxima vítima.
Sorriu consigo, então olhou para os ingredientes que havia acabado de separar
sem prestar muita atenção. Quem quer que ele fosse, ponderou com outro
sorriso, pelo visto estava prestes a ganhar biscoitos feitos por ela.
O nome dele era Shawn Mendes. Não se considerava particularmente
misterioso, apenas reservado. De fato, fora justamente o desejo de privacidade
que o levara, ironicamente, a ir parar bem no coração de uma das maiores
cidades do mundo.
Felizmente, seria por pouco tempo, pensou ele guardando o sax na maleta
própria para o instrumento. Seria por pouco tempo. Com sorte, dali a alguns
meses a reforma de sua casa na costa rochosa de Connecticut estaria
terminada. Algumas pessoas diziam que o lugar parecia um forte, mas ele não
se importava com isso. Pelo menos em um forte era possível se ter paz e silêncio
durante semanas, caso fosse necessário. Além disso, ninguém podia entrar no
local sem permissão.
Começou a subir a escada, deixando para trás a sala praticamente vazia.
Costumava ficar ali apenas quando decidia tocar, pois a acústica do ambiente
era ótima. Ou então para se exercitar, quando não tinha vontade de caminhar
até a academia alguns quarteirões adiante.
O segundo andar era o local onde ele passava a maior parte do tempo. Mas
felizmente aquilo não duraria muito, pensou mais uma vez. Tudo que precisava
enquanto estava ali era de uma cama, um guarda-roupa, iluminação adequada
e uma mesa de escritório com um tamanho suficiente para comportar seu
notebook e os papéis de trabalho que ele costumava usar. Não quisera ter um
telefone, mas sua agente insistira para que ele mantivesse pelo menos um
telefone celular, para o caso de ela precisar entrar em contato com ele. Shawn 
aceitara a idéia, mesmo não gostando dela.
Sentou-se à mesa de trabalho, satisfeito por seus pensamentos estarem mais
claros depois do breve exercício com o sax. Mandy, sua agente, andava
preocupada com o progresso de seu último roteiro teatral. Mas, em sua mente,
tudo já estava bem definido. A peça ficaria pronta quando tivesse de ficar, e
nem um minuto antes. Fora assim que ele sempre trabalhara, e não seria
àquela altura de sua carreira que iria mudar de atitude, devido ao nervosismo
de uma agente.
O problema com o sucesso, pensou ele, era o nível de cobrança que ele trazia
consigo. Ao fazer algo que as pessoas apreciavam, você era sempre cobrado a
repetir o feito, só que de maneira mais rápida e mais eficiente. Shawn não dava
a mínima para o que as pessoas queriam. Elas poderiam arrombar as portas do
teatro para ver sua próxima peça, laureá-lo com outro Pulitzer ou lhe pagar um
caminhão de dinheiro. Nada disso era importante para ele. Também não dava a
mínima para críticas. Se o público não gostasse, que fosse à bilheteria e
exigisse seu dinheiro de volta.
Para Shawn , o trabalho em si era o mais importante. E isso dizia respeito
apenas a ele e a mais ninguém.
Financeiramente, estava seguro como sempre estivera. Mandy costumava dizer
que isso era parte do problema. Sem a necessidade ou o desejo de ganhar
dinheiro para incentivá-lo, ele havia se tornado arrogante e indiferente ao
público. Por outro lado, dizia ela, isso também era o que o tornava um gênio da
criação teatral. Shawn não se importava com nada, e isso era o que fazia seu
trabalho ser tão especial.
Continuou sentado à mesa, pensativo. Porém, logo despertou do devaneio e
passou a mão por entre os cabelos castanho-avermelhados. Seus olhos, de um
azul intenso, perscrutaram as últimas palavras que havia digitado. A expressão
séria e os lábios ligeiramente apertados denotavam sua concentração.
Com os ruídos característicos da rua chegando-lhe aos ouvidos, Shawn estava
tendo de se esforçar mais para voltar a penetrar na alma do homem que ele
havia criado no texto mostrado na tela do computador. Um homem que lutava
desesperadamente para superar os próprios desejos.
De súbito, o incômodo som da campainha o fez praguejar, desconcentrando-o
mais uma vez. Pensou em continuar ali e não dar atenção, mas sua noção da
natureza humana o fez mudar de idéia, ao concluir que provavelmente o
intruso continuaria insistindo até obter uma resposta. Por isso, decidiu
despachá-lo de uma vez por todas.
Imaginou que se tratasse da senhora do andar térreo. Aquela com olhos de
águia, que parecia viver bisbilhotando a vida de todos. Ela já havia tentado
abordá-lo por duas vezes quando ele estava saindo para o clube à noite, mas
não tivera êxito. Shawn sempre fora muito bom em escapar àquele tipo de
situação, mas aquela insistência já estava começando a aborrecê-lo. Seria
melhor bancar o mal-educado de uma vez e deixar que ela saísse falando mal
dele, afinal, não era do tipo que se importava com isso.
Porém, ao espiar através do olho mágico, não se deparou com a mulher
corpulenta que ele havia imaginado estar ali, mas com uma bela morena de
cabelos castanhos e lindos
olhos verdes.
O que diabos ela poderia querer? Reconheceu-a como uma vizinha do mesmo
corredor, cujo apartamento ficava quase em frente ao que ele estava ocupando.
Depois de haver sido deixado em paz por quase uma semana, imaginara que a
situação fosse continuar assim. O que, em sua mente, faria dela a vizinha 
perfeita. Mas, pelo visto, enganara-se mais uma vez.
Ainda aborrecido por ter sua paz perturbada, abriu a porta e apoiou-se nela. -
Sim?
- Olá. - Oh, Deus, ele era a ainda mais bonito de perto, pensou Flavia, contendo
a vontade de suspirar.
- Sou Flavia Pavanellil, sua vizinha do 3A - apresentou-se com um sorriso
amigável, in- dicando a porta de seu apartamento.
Shawn se limitou a arquear uma sobrancelha.
- Pois não?
Um homem de poucas palavras, concluiu Flavia, mantendo o sorriso. Desejou
que ele se distraísse pelo menos por um instante, para que ela pudesse esticar
o pescoço e dar uma espiada no interior do apartamento. Claro que não poderia
tentar fazer isso com aquele olhar perscrutador centrado bem em seu rosto,
sem nenhuma indicação de que iria se desviar.
- Eu o ouvi tocar há alguns minutos. Trabalho em casa e, você sabe como é... O
som atravessa as paredes.
Se ela fora até ali para reclamar do barulho, não iria conseguir nada, pensou
Shawn . Ele tocava quando sentia vontade de tocar, e isso não mudaria devido
à mera reclamação de uma vizinha, por mais encantadora que fosse ela.
Continuou a observá-la com atenção. Nariz arrebitado, lábios polpudos,
sensualmente curvados...
- Geralmente esqueço de ligar o aparelho de som quando estou trabalhando -
continuou ela em um tom animado, interrompendo os pensamentos de Shawn .
- Por isso gosto de ouvi-lo tocar. Ralph e Sissy ouviam Vivaldi durante a maior
parte do tempo. Não deixa de ser agradável, mas se torna monótono quando
isso é a única coisa que você ouve o dia inteiro. Eram eles que ocupavam o
apartamento antes de você se mudar. Ralph e Sissy - acrescentou ela,
indicando o apartamento atrás dele.
- Eles se mudaram para White Plains, depois que Ralph teve um caso com uma
vendedora da Saks. Bem, ele não chegou a ter um caso de verdade, mas parecia
estar pensando na possibilidade. Por isso Sissy deu-lhe o ultimato: se não
mudassem de cidade, ela pediria o divórcio. A sra. Wolinsky deu seis meses de
prazo para os dois continuarem juntos. Particularmente, acho que eles vão
conseguir resolver o problema.
Dizendo isso, mostrou um prato com uma simpática decoração com detalhes
amarelos cheio de biscoitos de chocolate cobertos por um plástico protetor,
próprio para alimentos.
- Estes biscoitos são para você - disse, estendendo o prato na direção dele.
Shawn abaixou a vista para olhá-los, dando a Flavia a breve oportunidade de
espiar a sala vazia atrás dele. Pelo visto; ele não tivera condições nem mesmo
de comprar um sofá, pensou ela. Então os introvertidos olhos azuis voltaram a
fitá-la.
- Por quê?
- Por que o quê?
- Por que me trouxe os biscoitos?
- Bem, fui eu mesma que os fiz. Às vezes, cozinho para arejar um pouco a
cabeça, quando não estou conseguindo me concentrar no trabalho. Na maioria
das vezes, é cozinhando que eu consigo relaxar o suficiente para voltar a
trabalhar. Mas se eu ficar com tudo isso, acabarei comendo tudo sozinha e vou
me detestar por isso. - O brilho bem-humorado continuou presente nos olhos
verdes.
- Não gosta de biscoitos?
- Não tenho nada contra eles.
- Então, sirva-se - falou Flavia, entregando o prato a ele.
- E bem-vindo ao prédio. Se precisar de alguma coisa, estou sempre por aqui. -
Indicou a porta do outro apartamento com um gesto vago. - Se quiser conhecer
os outros vizinhos, também poderei apresentá-lo a eles. Moro aqui há alguns
anos e conheço todo mundo.
- Não quero conhecer ninguém - respondeu Shawn , dando um passo atrás e
fechando a porta.
Flavia ficou ali parada por algum tempo, atônita com o que acabara de
acontecer. Em seus vinte e quatro anos de vida, nunca alguém havia fechado a
porta em sua cara, mas, mesmo tendo acabado de passar pela experiência,
felizmente concluiu que aquilo não a afetara tanto assim.
No entanto, teve de se conter para não bater à porta e pedir seus biscoitos de
volta. Não iria descer tão baixo, disse a si mesma, girando decididamente sobre 
os calcanhares e encaminhandose para seu apartamento.
Agora sabia que o sr. Misterioso era irresistivelmente atraente, que tinha o
corpo de um deus grego e também que ele era tão mal-educado quanto uma
criança de dois anos necessitada de umas boas palmadas no traseiro. Mas tudo
bem, tudo bem. Iria sobreviver àquilo e aprender a ficar longe do caminho dele.
Não bateu a porta de seu apartamento, para não dar a ele o gostinho de ouvir e
deduzir que ela ficara irritada. Mas ao se ver no ambiente seguro de seu
apartamento, virou-se para a porta e fez uma porção de caretas, mostrando a
língua e mexendo as mãos ao lado das orelhas. E isso a fez se sentir
incrivelmente melhor.
Contudo, a questão principal era que ele havia ficado com seus biscoitos, seu
prato de sobremesa preferido e com uma boa dose do seu bom humor. E tudo
isso sem que ela sequer soubesse o nome dele!
Shawn não se arrependia das atitudes que tomava. Nem por minuto. Tinha
quase certeza de que sua rudeza propositada manteria sua atraente vizinha a
distância por algum tempo. A última coisa que precisava era do comitê local de
boas vindas reunido à sua porta, principalmente sendo este liderado por uma
bela morena falante, falante até demais, e com olhos de fada.
"Droga!", praguejou ele, em pensamento. Em Nova York, era de se supor que as
pessoas ignorassem os vizinhos. Ao se mudar para ali, tinha quase certeza de
que esse era o comportamento vigente, mas, pelo visto, enganara-se.
A sorte era que ela era solteira, segundo Shawn pudera notar, pois se tivesse
um marido, o pobre coitado provavelmente já estaria maluco com toda aquela
tagarelice. O fato de ela trabalhar em casa e de haver deixado claro que estaria
sempre por ali não era um detalhe lá muito agradável.
Como se não bastasse, também fazia os biscoitos de chocolate mais apetitosos
que ele já tinha visto, isso também não era nada promissor. De fato, era
quase imperdoável.
Conseguiu ignorar os biscoitos por algum tempo enquanto trabalhava. Na
verdade, era capaz de ignorar até mesmo um holocausto nuclear quando
assunto em questão era lidar com palavras em um texto. Entretanto, assim que
Shawn se desconcentrou voltou a lembrar-se dos biscoitos que havia deixado
na cozinha.
Continuou pensando neles durante horas, ao se vestir e enquanto massageava
a nuca dolorida depois de horas sentado no mesmo lugar, em uma postura que
sua professora do terceiro ano fundamental, irmã Mary Joseph, classificaria
como "deplorável".
Por isso, quando foi à cozinha buscar sua merecida latinha de cerveja, não
conseguiu deixar de olhar para o prato sobre a mesa. Abriu a latinha, tomou
um gole de cerveja e continuou olhando para os biscoitos, pensativo. E se provasse
alguns deles? Afinal, não havia motivo para jogá-los fora, se já havia
deixado bem claro para Flavia Pavanellil que não estava interessado em
amizades.
Evidentemente, ela iria querer o prato de volta, e ele teria de esvaziá-lo de
alguma maneira. Foi então que provou um deles e gemeu baixinho, aprovando
o delicioso sabor. Depois comeu outro, com um suspiro de pura apreciação.
Quando já havia comido quase duas dúzias, foi que se deu conta do que estava
fazendo e praguejou. Olhou para o prato quase vazio com um misto de
autocensura e de indignação. Então foi para a sala e pegou seu sax. Seria mais
saudável fazer uma breve caminhada antes de ir para o clube.
Ao abrir a porta, ouviu Flavia se aproximando com passos firmes pelo corredor.
Com ar de desagrado, ele deu um passo atrás, deixando apenas um pequeno
vão aberto na porta. Mesmo a certa distância, ouviu a voz dela e arqueou- uma
sobrancelha ao notar que ela estava sozinha.
- Nunca mais! - protestou Flavia. - Nem que ela me ameace de morte. Nunca
mais passarei por essa tortura novamente! É isso, e ponto final!
Shawn notou que ela havia mudado de roupa. Estava vestida com uma
pantalona e um blazer pretos, por cima de uma elegante blusa de seda lilás.
Um par de brincos de argola dourados deixaram-na com uma aparência mais
sensual.
Continuou falando sozinha, enquanto abria a bolsa do tamanho de um
envelope do correio.
- A vida é curta demais para ter suas horas desperdiçadas com uma pessoa tão
insuportável. Ela não vai me fazer isso novamente. Sei como dizer "não", e é
isso que farei da próxima vez. Preciso apenas praticar um pouco, só isso. Onde
diabos está aquela chave?
O som de uma porta se abrindo atrás dela a fez se sobressaltar e virar-se de 
repente. Shawn , notou que os brincos que ela estava usando não eram
totalmente iguais e imaginou se aquilo seria um novo tipo de moda ou falta de
atenção mesmo. Porém, ao se lembrar de que ela não estava conseguindo
encontrar uma chave dentro de uma bolsa menor do que a palma de sua mão,
optou pela última hipótese.
Flavia parecia refrescada, como se houvesse acabado de sair do banho, deixando
para trás uma nuvem de um perfume maravilhoso. E o fato de Shawn haver se
sentido afetado por isso, deixou-o ainda mais aborrecido.
- Espere um pouco - pediu a ela, então voltou ao apartamento para pegar o
prato.
Flavia não tinha a mínima intenção de ficar ali esperando. Finalmente
encontrou o esconderijo da chave: no canto do bolso interno, onde ela mesma a
havia colocado justamente para se lembrar de onde encontrá-la quando fosse
necessário.
Shawn conseguiu alcançá-la antes que ela entrasse. Saiu do apartamento
pouco depois e fechou a porta atrás de si. Em uma mão, trazia a maleta do sax
e na outra o prato onde Flavia havia colocado os biscoitos.
- Aqui está - disse a ela, jurando a si mesmo que não iria perguntar o que
provocara aquele brilho de indignação nos olhos dela. Se o fizesse, era bem
capaz que ela passasse a meia hora seguinte contando a história a ele.
- De nada - ironizou ela, aceitando o prato.
Estava com a cabeça doendo, depois de haver passado as duas últimas horas
ouvindo a conversa monótona de Frank, primo de Jody. Mas do que estava
reclamando?, pensou com sarcasmo. Afinal, agora estava sabendo tudo sobre o
mercado de ações e sobre as aplicações mais seguras que poderiam ser feitas
nele. Levada pelo mau humor, decidiu dizer poucas e boas ao sr. Misterioso.
- Ouça, se não quer fazer novas amizades, tudo bem. Não preciso mesmo de
mais amigos - declarou ela, balançando o prato para enfatizar o que dizia.
- Na verdade, tenho tantos no momento que estou querendo me livrar de alguns
deles. De qualquer maneira, não havia motivo para você ser tão rude. Tudo o
que fiz foi me apresentar e lhe oferecer alguns malditos biscoitos!
Shawn teve de se esforçar para se manter sério.
- Malditos biscoitos deliciosos - confessou ele, arrependendo-se assim que viu
um brilho de divertimento surgir nos olhos dela.
- E mesmo?
- Sim.
Dizendo isso, ele seguiu pelo corredor em direção à saída, deixando-a surpresa
com aquela reação.
Foi então que Flavia decidiu seguir seu impulso, um de seus hobbies preferidos.
Destrancou rapidamente a porta de seu apartamento e deixou o prato sobre a
mesinha de centro. Em seguida, saiu novamente e trancou a porta. Então
começou a seguir o sr. Misterioso, esforçando-se para não fazer nenhum
barulho ao andar.
Seria um ótimo roteiro para uma nova aventura de Emily, pensou ela, contendo
a vontade de rir. Claro que seria preciso criar um contexto onde Emily estivesse
completamente apaixonada, concluiu, enquanto tentava descer a escada com
rapidez e na ponta dos pés. Uma atitude como aquela não poderia ser
justificada como normal, advinda de uma mera curiosidade. Teria de ser algo
mais intenso, uma espécie de paixão desenfreada.
Ofegante sob o efeito de uma intensa expectativa, flagrou-se com a mente
repleta de possibilidades. Ao sair do prédio, olhou rapidamente para os lados.
Ele já se encontrava no meio do quarteirão. Uma boa distância, concluiu Flavia,
começando a segui-lo e disfarçando um sorriso.
Em seu lugar, claro que Emily manteria um ar de mistério, escondendo-se
atrás de postes e nas esquinas, para o caso de ele se virar de repente e...
Com um sobressalto, escondeu-se de repente atrás de um poste, quando a
"vítima" de sua perseguição arriscou um olhar por sobre o ombro. Levando a
mão ao peito, Flavia inclinou-se ligeiramente para frente a tempo de vê-lo virar a
esquina.
Aborrecida por haver decidido usar saltos em vez de sapatos mais confortáveis
para o jantar, ela respirou fundo e seguiu na mesma direção onde ele havia
virado.
Seu vizinho caminhou durante vinte minutos, até Flavia sentir os pés em
chamas e todo aquele ânimo inicial se desfazendo como uma nuvem assaltada
por um sopro insistente. Teria ele aquela mania de caminhar todas as noites
pelas ruas com o saxofone?
Talvez não fosse apenas mal-educado, mas também maluco. Provavelmente fora
liberado de algum hospício naqueles últimos dias, e por isso não sabia ao certo 
como se dirigir às pessoas de uma maneira normal.
A família abastada e cruel o mantivera em uma espécie de cativeiro, afastandoo
do resto do mundo para que ele não reivindicasse seus direitos sobre a
herança da avó falecida, que morrera sob circunstâncias suspeitas, deixando
toda sua fortuna para o neto. Por fim, era provável que todos aqueles anos de
cativeiro, tendo de lidar com um psiquiatra corrupto, haviam-no deixado meio
amalucado.
Sim, seria exatamente isso que Emily deduziria, chegando à conclusão de que
somente seu amor puro e dedicado seria capaz de curá-lo. Então todos os
amigos e vizinhos tentariam dissuadi-la, tentando mostrar os riscos que ela
estaria correndo. Mas Emily, sendo Emily, iria até o fim.
E antes que o sr. Misterioso pudesse...
Flavia parou de repente, quando ele entrou em um clube chamado Delta's.
Finalmente, pensou ela, afastando os cabelos para longe do rosto. Agora, tudo
que precisaria fazer seria entrar ali, encontrar um canto escuro onde pudesse
se ocultar e ver o que aconteceria em seguida.
 



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