História Amor de vizinho - Capítulo 2


Escrita por: ~

Postado
Categorias Flavia Pavanelli, Magcon, Shawn Mendes
Personagens Flavia Pavanelli, Shawn Mendes
Exibições 74
Palavras 5.134
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Romance e Novela
Avisos: Insinuação de sexo, Sexo, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 2 - Se conhecendo Melhor


Fanfic / Fanfiction Amor de vizinho - Capítulo 2 - Se conhecendo Melhor


O lugar tinha cheiro de uísque e cigarro. No entanto, não chegava a ser
necessariamente ofensivo, segundo Flavia pôde notar. Era algo mais...
atmosférico, se é que se poderia chamar assim. O ambiente era permeado por
uma iluminação suave, tendo como destaque o agradável tom de azul dos
holofotes que iluminavam o palco. Pequenas mesas redondas se distribuíam
por todo o salão, e embora a maioria delas estivesse ocupada, o nível de ruído
era bem baixo.
Flavia percebeu que as pessoas conversavam sussurrando, desfrutando a
companhia umas das outras ou realizando novas conquistas.
Diante do espesso balcão de madeira do bar, à direita da entrada, alguns
clientes se mantinham ligeiramente inclinados sobre suas bebidas, como que
protegendo-as de possíveis invasores.
O ambiente lembrava o tipo de clube noturno que aparecia nos filmes em pretoe-branco
da década de quarenta. Aquele tipo no qual a heroína usava vestidos 
longos e justos, batom vermelho escuro e uma mecha de cabelos caído sobre o
olho esquerdo, enquanto se mantinha no palco, iluminada por um único foco
de luz, interpretando canções a respeito de amores frustrados.
Enquanto cantava, os homens que a desejavam, e contra os quais ela fazia seu
protesto, mantinham-se debruçados sobre seus copos de uísque, com os olhos
parcialmente ocultos pelas abas de seus chapéus.
Em outras palavras, pensou Flavia com um sorriso, o ambiente era
simplesmente perfeito.
Esperando não ser notada, andou sorrateiramente junto a uma das paredes e
sentou-se à mesa mais próxima. Então passou a observá-lo através da nuvem
formada pela fumaça dos cigarros.
Ele estava todo vestido de preto. Flavia não conteve um suspiro. O jeans e a
camisa pretos ressaltavam ainda mais aquele ar sedutoramente másculo. A
jaqueta preta de couro havia sido deixada sobre uma cadeira próxima ao palco.
A mulher com quem ele estava conversando era uma linda negra trajando um
macacão vermelho feito de um tecido brilhante e muito justo, evidenciando
cada curva do corpo perfeito. Flavia calculou que ela devia ter mais ou menos
um metro e oitenta de altura. Como se não bastasse toda aquela beleza,
quando ela inclinou a cabeça para trás, o rico som de seu riso se espalhou pelo
ambiente.
Pela primeira vez, Flavia o viu sorrir. Mas aquilo não era apenas um sorriso,,
pensou ela, encantada com a transformação na, expressão do atraente
semblante masculino. Aquilo era um intenso raiar do sol após uma noite
sombria. Aquilo que o tornava tão irresistivelmente atraente a seus olhos, não
poderia ser chamado meramente de "sorriso". Era uma expressão repleta de
afeição, divertimento e charme. Mesmo àquela distância, Flavia sentiu todo seu
impacto. Com um suspiro, apoiou o queixo sobre a mão e sorriu, como se o
sorriso houvesse sido dirigido a ela.
Imaginou que ele e a bela negra fossem amantes, e confirmou isso quando a
mulher segurou o rosto dele entre as mãos e o beijou enfaticamente. Claro que
um homem magnífico como aquele tinha de ter uma amante, no mínimo,
exótica, concluiu Flavia. E o lugar perfeito para um encontro entre os dois seria
um clube noturno permeado por fumaça de cigarro e músicas melancólicas.
Flavia suspirou alto, considerando aquilo tudo romântico demais.
No palco, Delta pousou a mão afetuosamente sobre o rosto de Shawn.
- Então, agora passou a ser seguido por mulheres, meu querido?
- Ela é maluca.
- Quer que eu a ponha para fora?
- Não. - Shawn não olhou para trás, mas podia sentir aqueles olhos verdes
observando-o.
- Estou quase certo de que ela é uma maluca inofensiva.
- Um brilho de divertimento surgiu nos olhos negros de Delta.
- Então, vou só verificar se isso é mesmo verdade. Quando uma mulher começa
a seguir um homem, meu querido, é melhor averiguar do que ela é capaz.
Certo, André?
O homem negro e magro sentado ao piano parou de dedilhar as teclas por um
instante e sorriu para ela, em resposta.
- Faça isso, Delta. Mas não assuste a moça. Olhando daqui, ela parece ser
bastante inofensiva. Pronto para começar? - perguntou ele, dirigindo-se a
Shawn.
- Você começa, eu acompanho.
Enquanto Delta descia do palco, os dedos longos de André começaram a
exercer sua magia. Shawn deixou-se levar pelo ritmo do piano, então fechou os
olhos, permitindo que a música entrasse em seu ser.
Era assim que sempre acontecia. Aquilo sempre esvaziava sua mente das
palavras, das pessoas e das cenas que geralmente a preenchiam. Quando ele
tocava, era como se não houvesse nada além da música e do magnífico prazer
de executá-la.
Certa vez, dissera a Delta que aquilo era como sexo, que tirava algo de você
mas lhe dava o dobro em troca. E que quando terminava, era como se houvesse
sido rápido demais.
No fundo do salão, Flavia também se deixou levar pelo ritmo suave e contagiante
da música. Era diferente vê-lo se apresentar de simplesmente ouvi-lo tocar,
com o som abafado atravessando as paredes do prédio. Vê-lo ali no palco era
algo mais poderoso, mais excitante, quase como um apelo sensual.
Aquela música era um sonho. Do tipo perfeito para servir de fundo musical
para um casal em pleno ato de amor. Deus, como ele tocava bem, pensou ela,
mal contendo outro suspiro. Será que ele faria amor com aquela mesma
intensidade? O pensamento provocou-lhe um arrepio pelo corpo.
Estava tão concentrada no que estava acontecendo no palco que não viu Delta
se aproximar da mesa.
- Está gostando, meu bem?
- Hein? - Flavia levantou a vista, sorrindo com ar de distração. - Oh, é
maravilhoso. Quero dizer, a música é maravilhosa. Causa uma espécie de
nostalgia em mim.
Delta arqueou uma sobrancelha. A garota tinha um rosto lindo e até inocente.
Não parecia ser a lunática que Shawn descrevera.
- Está bebendo ou apenas ocupando o lugar?
- Oh. - Flavia se deu conta de que um lugar como aquele se sustentava pela
venda de bebidas. - Esta música pede um uísque - disse com outro sorriso. -
Então vou tomar um uísque.
Delta arqueou a sobrancelha com mais ênfase.
- Você não parece ter idade suficiente para andar tomando uísque por aí,
mocinha.
Flavia suspirou. Estava acostumada a ouvir aquele tipo de coisa. Sem dizer
nada, abriu a bolsa e tirou seu documento de identidade.
Delta o examinou.
- Está bem, Flavia Ângela Pavanelli. Vou pegar seu uísque.
- Obrigada.
Satisfeita, Flavia apoiou o queixo sobre a mão mais uma vez e continuou
ouvindo a música. Ficou surpresa quando Delta voltou com dois copos de
uísque e sentou-se à mesa, a seu lado.
- O que está fazendo em um lugar como este, minha cara Flavia?
Ela abriu a boca para responder, mas, no mesmo instante, deu-se conta de que
não poderia revelar que seguira seu misterioso vizinho até ali.
- Moro perto daqui, e acho que apenas segui um impulso. - Levantou o copo de 
uísque e indicou o palco com ele.
- Estou contente de ter vindo - disse e tomou um gole da bebida.
Delta apertou os lábios. A garota podia até parecer inocente, mas tomava
uísque como um homem.
- Se continuar andando sozinha pelas ruas, à noite, pode acabar tendo
problemas, minha cara.
Um brilho de sagacidade surgiu nos olhos de Flavia, acima da borda do copo.
- Não se preocupe, minha cara - respondeu ela, no mesmo tom.
Delta assentiu, considerando a resposta.
- Talvez não seja mesmo preciso eu me preocupar. Sou Delta Pardue -
acrescentou ela, tocando o copo no de Flavia, em um brinde. - Este é meu clube.
- Gostei do seu clube, Delta.
- Ora, que bom - admitiu ela, com outra de suas ricas risadas. - Mas vejo que
também gostou do meu homem, logo ali. Não tirou seus olhos felinos dele desde
que chegou.
Flavia moveu o uísque no copo, pensando em como deveria atuar naquele jogo.
Mesmo sabendo que poderia se cuidar nas ruas, ou em qualquer outro lugar,
calculou que Delta era muito mais forte do que ela. Além disso, estavam no
território de Delta, e sua desvantagem era mais do que evidente. Aquele modo
de dizer "meu homem" deixara a situação bem clara. De qualquer maneira, não
havia motivo para estragar logo no primeiro encontro aquilo que poderia se
transformar em uma boa amizade.
- Seu homem é muito atraente - admitiu, em um tom casual. - Confesso que é
difícil não olhar para ele. Portanto, vou continuar apenas olhando se isso não a
incomodar. Além do mais, aposto que ele não tem olhos para outra mulher
tendo alguém como você por perto.
Delta riu, exibindo os dentes alvos e perfeitos.
- Acho que não preciso realmente me preocupar. Sabe mesmo se cuidar, não é,
menina?
Flavia sorriu, tomando outro gole de uísque.
- Sim, eu sei. - Decidindo mudar de assunto, ela acrescentou: - Gostei mesmo
deste lugar. Há quanto tempo você o tem, Delta?
- Estou aqui há dois anos.
- E antes? Esse seu sotaque é de Nova Orleans, não é? -
Delta inclinou a cabeça de lado, com um sorriso.
- Tem bons ouvidos, garota.
- Tenho sim, mas foi fácil reconhecer seu sotaque. Tenho família em Nova
Orleans e minha avó foi criada lá.
- Não conheço nenhum Pavanelli... Qual é o sobrenome de solteira de sua mãe?
- Grandeau.
Delta se encostou uma cadeira.
- Ei, conheço os Grandeau! Por acaso, é parente da srta. Adelaide?
- Ela é minha tia-avó.
- Grande dama - asseverou Delta.
Flavia fez uma careta, tomando outro gole de uísque.
- Impaciente, ranzinza e fria como um iceberg. Os gêmeos e eu costumávamos
pensar que ela fosse algum tipo de bruxa ou algo do gênero.
- Gêmeos? - Delta se surpreendeu.
- Sim, meu irmão e minha irmã são gêmeos - explicou Flavia.
Após uma breve pausa, Delta falou:
- Ela tem poder, mas apenas por causa do dinheiro e do sobrenome que
carrega. Então você é parente dos Grandeau? Mas que agradável surpresa.
Quem é sua mãe?
- Luciana Grandeau Pavanelli, a famosa artista.
- Srta. Gennie. - Delta deixou o copo sobre a mesa e levou a mão ao peito,
encostando-se na cadeira com um sorriso.
- Quem diria que a filha da srta. Gennie algum dia visitaria minha boate. O
mundo é mesmo pequeno.
- Conhece minha mãe?
- Minha mãe trabalhou como governanta para sua grandmère, minha cara.
- Mazie? Você é filha de Mazie? Ah, meu Deus!
- Flavia tocou a mão de Delta, comovida. - Minha mãe falava de Mazie o tempo
todo. Nós chegamos a visitá-la uma vez, quando eu ainda era criança. Lembro
que ela fez bolinhos maravilhosos para nós - acrescentou com um sorriso
saudosista. - Sentamos na varanda da casa, tomando limonada enquanto
comíamos aqueles bolinhos divinos. Meu pai fez um desenho dela.
- Ela mandou emoldurá-lo e pendurou o quadro na parede. - Delta riu.
- Vivia toda orgulhosa dele. Eu estava na cidade quando sua família nos
visitou. Estava trabalhando. Minha mãe falou daquela visita durante semanas.
Ela gostava muito da srta. Gennie.
- Espere até eu contar a eles que encontrei você. Como está sua mãe, Delta?
- Ela morreu no ano passado.
- Oh. - Flavia segurou a mão de Delta com mais firmeza. - Sinto muito. Muito
mesmo.
- Ela teve uma boa vida. Morreu dormindo, portanto, acho que também teve
uma boa morte. Seus pais compareceram ao funeral. Teve uma base familiar
muito boa, Flavia.
- Sim, eu sei. O mesmo serve para você - acrescentou ela, com um sorriso.
Shawn não estava entendendo mais nada. Lá estava Delta, a mulher que ele
considerava a mais sensata das criaturas, conversando com aquela maluca
como se ambas fossem velhas amigas. Compartilhando o uísque, as risadas e
segurando a mão uma da outra como as mulheres costumavam fazer quando
tinham muita amizade.
As duas já estavam ali, no fundo do salão, havia mais de uma hora. De vez em
quando, Flavia começava um daqueles que só poderia ser outro de seus
monólogos, gesticulando muito e rindo. Então Delta ouvia algumas palavras
com atenção, e logo inclinava a cabeça para trás, rindo com satisfação e
balançando a cabeça com ar de surpresa.
- Veja só aquilo, André - disse, inclinando-se sobre o piano.
André parou de tocar e acendeu um cigarro.
- Como velhas comadres - falou ele, após a primeira baforada. - A garota é
muito bonita, Shawn. Tem uma animação fora do comum.
- Detesto pessoas animadas demais - resmungou Shawn, já sem vontade de
continuar tocando. Em silêncio, começou a guardar o sax. - Até a próxima -
despediu-se, ao terminar.
- Até - foi a resposta de André.
Shawn pensou em sair e ir direto para casa, mas sentiu-se irritado com a
possibilidade de sua amiga estar sendo aborrecida por aquela lunática. Além
disso, seria bom mostrar à sua vizinha abelhuda que também estava de olho
nela, e que sua perseguição não passara despercebida.
Quando parou ao lado da mesa onde as duas estavam acomodadas, Flavia se
limitou a levantar a vista e sorrir para ele.
- Oi. Não vai tocar mais? A música estava maravilhosa.
- Você me seguiu.
- Eu sei. Foi indelicado de minha parte, mas estou contente por tê-lo feito.
Adorei ouvi-lo tocar e nunca teria encontrado Delta se não tivesse vindo até
aqui. Estávamos acabando de...
- Nunca mais faça isso - falou ele, antes de se encaminhar para a saída.
- Ooh, ele está mesmo uma fera. - Delta riu. - Esse olhar fuzilante é capaz de
intimidar qualquer um.
- Preciso pedir desculpas a ele - declarou Flavia, ficando de pé.
- Não quero que fique bravo com você.
- Comigo? Mas...
- Voltarei logo - dizendo isso, Flavia deu um beijo estalado na face de Delta,
fazendo-a pestanejar de surpresa.
- Não se preocupe, vou resolver isso.
Enquanto ela se afastava, Delta ficou observando-a por algum tempo, antes de
soltar outra de suas sonoras risadas.
- Não tem idéia de onde está se metendo, menina. E nem meu querido Shawn -
acrescentou, com um brilho de divertimento no olhar.
Do lado de fora, Flavia saiu correndo pela calçada.
- Ei! - gritou para Shawn, que já se encontrava a certa distância.
Então se repreendeu por não haver sequer perguntado o nome dele a Delta,
depois de todo aquele tempo de conversa.
- Ei! - repetiu, acelerando a corrida e conseguindo finalmente alcançá-lo.
- Sinto muito - começou a falar, segurando a manga da jaqueta dele.
- A culpa foi toda minha.
- E quem disse que não foi?
- Eu não deveria tê-lo seguido. Mas foi um impulso, eu tenho dificuldade de
resistir aos impulsos. Sempre tive. Além disso, eu estava irritada por causa do
idiota do Frank e... Bem, isso não vem ao caso agora. Eu só queria... Poderia
diminuir um pouco o ritmo dos passos?
- Não.
Flavia revirou os olhos.
- Tudo bem, tudo bem. Sei que está desejando que um piano caia sobre minha
cabeça, mas não precisa ficar bravo com Delta. Nós começamos a conversar e
acabamos descobrindo que a mãe dela trabalhou para minha avó e que ela,
Delta, conhece meus pais e alguns dos meus primos de sobrenome Grandeau.
A partir daí, não paramos mais de conversar.
Shawn parou de repente e olhou para ela.
- Com tantos clubes noturnos em tantas cidades do mundo... - resmungou ele,
fazendo-a rir.
- Já sei: eu tinha logo de segui-lo até aquele e fazer amizade justo com sua
namorada. Sinto muito.
- Minha namorada? Delta?
Para espanto de Flavia, ele sabia rir. Rir de verdade, fazendo o som grave de sua
voz se espalhar pelo ar.
- Por acaso Delta parece ser namorada de alguém? Puxa, parece que você veio
mesmo de outro planeta.
- Foi apenas uma suposição. Eu só não quis parecer indelicada, chamando-a de
sua "amante".
O brilho de divertimento continuou nos olhos dele quando Shawn voltou a fitá-
la.
- Não deixa de ser uma idéia engraçada, mas a verdade é que aquele homem
com quem eu estava tocando é o marido de Delta, um velho amigo meu.
- O homem alto e magro que estava ao piano? É mesmo? - Mordendo o lábio,
Flavia pensou no lado romântico daquele contexto. - Não é lindo? - disse quase
para si mesma.
Shawn se limitou a balançar a cabeça e continuou a andar.
- O que eu quero dizer é... - Flavia recomeçou a falar, confirmando a certeza que
Shawn tivera de que ela não havia terminado o raciocínio, e de que, como
sempre, não o terminaria tão cedo.
- E que percebi que ela foi apenas verificar qual era minha intenção. Para ter
certeza de que eu não iria aborrecê-lo entende? Então uma coisa acabou
levando a outra, e você sabe como é... Só não quero que fique bravo com ela.
- Não estou bravo com ela. Você, por outro lado, já me deu razões mais do que
suficientes para ficar bravo.
Flavia pareceu desapontada.
- Bem, sinto muito por isso. Prometo que o deixarei em paz, já que isso,
aparentemente, é o que parece agradá-lo.
Shawn ficou parado por um momento, observando-a se afastar pela rua
deserta, em direção à calçada oposta. Por fim, deu de ombros e virou a esquina,
tentando se convencer de que ficara aliviado ao se livrar dela. Afinal, não era de
sua conta se Flavia não se importava em se arriscar andando sozinha à noite.
Além do mais, se não houvesse decidido segui-lo de repente, não estaria
usando aqueles saltos tão altos e teria mais chance de correr, caso fosse
necessário, diante de algum perigo.
Não, não iria se preocupar com isso.
Seguiu em frente com passos firmes, mas bastou percorrer alguns metros para
girar sobre os calcanhares com um resmungo abafado. Iria apenas certificar-se
de que ela chegaria em casa em segurança, só isso. Assim que tivesse certeza
disso, lavaria as mãos de qualquer responsabilidade e trataria de esquecê-la.
Havia acabado de virar a esquina, quando se espantou com o que viu. Mais
adiante, um homem surgiu das sombras e agarrou Flavia, que soltou um grito e
começou a lutar. Shawn soltou a maleta do sax no mesmo instante e saiu
correndo para ajudá-la.
Entretanto, parou de repente ao ver que Flavia havia não apenas se livrado do
marginal, como o atingira com um golpe certeiro do joelho em sua parte mais
sensível, fazendo-o cair gemendo de dor no chão.
- Eu só tinha dez míseros dólares aqui. Dez míseros dólares, seu imbecil! -
gritou ela para o homem, enquanto Shawn se aproximava.
- Se precisava de dinheiro, por que simplesmente não pediu?
- Está ferida?
- Sim, droga. E por sua culpa! - protestou ela. - Eu não teria batido nele com
tanta força se não estivesse tão furiosa com você!
Notando que ela estava massageando a junta dos dedos da mão direita, que
provavelmente havia sido usada antes do "golpe fatal" com o joelho, Shawn lhe
segurou o pulso.
- Deixe-me ver. Mexa os dedos.
- Vá embora.
- Vamos, obedeça. Mexa os dedos.
- Ei! - gritou uma mulher abrindo a janela de uma casa do outro lado da rua.
- Querem que eu chame a polícia?
- Sim - respondeu Flavia, movendo os dedos, como Shawn lhe pedira. Então
gemeu quando ele tentou massageá-los.
- Já estou bem, obrigada.
- Vítima polida, você, não? - ironizou ele. - Pelo visto, não quebrou nada. Mas
será melhor fazer um exame mais detalhado.
- Muitíssimo obrigada, doutor. - Flavia afastou a mão e levantou o queixo,
indicando a rua com a outra mão.
- Pode ir agora, eu estou bem.
Quando o homem caído na calçada começou a se mexer e a gemer, Shawn o
imobilizou com o pé.
- Acho que vou ficar mais um pouco por aqui. Por que não vai pegar o sax para
mim? Eu o deixei perto da esquina enquanto ainda estava sendo ingênuo o
bastante para pensar que você corria perigo.
Flavia quase mandou que ele mesmo fosse pegá-lo, mas mudou de idéia ao
pensar que se tivesse de bater novamente naquele bandido talvez já não tivesse 
tanta força quanto antes. Com o que lhe restava de dignidade, andou em direção
à esquina e pegou a maleta que Shawn deixara para trás.
- Obrigada - agradeceu ao se aproximar.
- Por quê? - indagou ele, surpreso.
- Por haver se preocupado comigo.
- Não precisa agradecer.
Shawn forçou mais o pé ao ver o marginal começar a praguejar, querendo se
levantar. Somente quando a polícia chegou, dez minutos depois, foi que ele se
afastou do bandido.
Flavia não teve nenhuma dificuldade em descrever o que havia acontecido,
enquanto Shawn rezava para que ela conseguisse ser breve o suficiente para
que eles fossem liberados logo. Evidentemente, tinha noção de que sua
esperança era vã. Mas um homem podia sonhar, não podia?
Porém, sua esperança arrefeceu de vez quando um dos policiais uniformizados
se voltou para ele.
- O senhor viu o que aconteceu aqui? Shawn suspirou.
- Sim.
Portanto, já eram quase duas horas da manhã quando ele e Flavia finalmente
voltaram para casa. Continuava com aquele gosto horrível do café da delegacia
na boca e com aquela dor de cabeça que começara quando o policial lhe fizera a
primeira pergunta.
- Foi um bocado excitante, não foi? Todos aqueles policiais e marginais
reunidos em um mesmo lugar... A certa altura, notei que a única diferença
entre eles era o fato de os policiais estarem uniformizados, por que os rostos
intimidadores pareciam todos os mesmos. Por que será que eles insistem em
manter aquela expressão todo o tempo? Um sorrisinho não faria mal a
ninguém. Foi muito gentil da parte deles me mostrar a delegacia. Você deveria
ter nos acompanhado. As salas de interrogatório parecem exatamente como
aquelas que vemos nos filmes: escuras e assustadoras.
Shawn tinha certeza de que ela era a única pessoa do mundo que se
interessava em fazer excursões por delegacias.
- Estou elétrica - anunciou ela. - Você não está? Acho que não vou dormir tão 
cedo. Quer alguns biscoitos? Ainda tenho uma porção deles.
Shawn quase ignorou o convite enquanto tirava a chave do bolso, porém a
sensação de vazio em seu estômago o fez lembrar-se que não havia comido
nada nas últimas oito horas. E aqueles biscoitos eram um pequeno milagre.
- Acho que vou aceitar.
- Ótimo! - festejou Flavia, abrindo a porta e tirando os sapatos, antes de se
dirigir à cozinha. - Pode entrar - disse por sobre o ombro. –
Vou colocá-los em um prato, para que possa comê-los no refúgio de sua casa,
mas também não precisa ficar esperando no corredor.
Shawn entrou no apartamento, deixando a porta aberta atrás de si. Não ficou
surpreso ao ver um ambiente decorado com cores alegres e com detalhes
chamativos. Andou pela sala, mantendo as mãos nos bolsos, enquanto ouvia a
voz de Flavia vinda da cozinha.
- Você fala demais.
- Eu sei - respondeu ela, colocando os biscoitos no mesmo prato que
emprestara antes para ele. - Principalmente quando estou nervosa ou elétrica.
- E alguma vez você já se sentiu de outra maneira?
- Sim, mas isso é raro.
Shawn viu uma série de porta-retratos sobre a estante, vários pares de
brincos, um par de sapatos a um canto da sala, um romance sobre a mesinha
de centro e sentiu um leve aroma de maçã pelo ar. Tudo aquilo combinava com
ela. Continuou examinando os detalhes da sala até parar diante de uma tira de
jornal emoldurada e presa à parede.
- Amigos e vizinhos - leu o título impresso e observou a assinatura no canto
direito inferior da tira. Lia-se apenas "Flavia". - Isto é seu? - perguntou, no
momento em que ela entrava na sala.
Flavia olhou para o quadro.
- Sim, é minha tira de jornal. Não acho que você seja do tipo que lê as tiras
cômicas do jornal, ou estou enganada?
Sabendo muito bem reconhecer uma pergunta pessoal quando uma lhe era
dirigida, Shawn olhou-a por sobre o ombro. Devia ser o sono, concluiu, que o
estava levando a considerá-la tão atraente àquela hora da noite.
- "Macintosh", de Flavio Pavanelli - Shawn leu outra tira emoldurada,
pendurada ao lado da de Flavia.
- É seu pai?
- Sim - ela assentiu.
Ler o sobrenome "Pavanelli" era o mesmo que ler "MacGregor", pensou Shawn.
Não era mesmo uma interessante coincidência?
Atravessando a sala, serviu-se de um dos biscoitos que Flavia havia colocado
sobre o balcão que separava a sala da cozinha.
- Gosto do estilo do trabalho dele.
- Tenho certeza de que ele ficaria lisonjeado em ouvir isso. - Flavia sorriu ao vê-
lo pegar outro biscoito.
- Quer um pouco de leite?
- Não. Você tem cerveja?
- Com biscoitos chocolate?
Ela fez um ar de quem considerara aquilo muito esquisito, mas mesmo assim
foi até a geladeira. Shawn teve a chance de ver que estava muito bem
abastecida quando Flavia se inclinou para examinar seu conteúdo, que também
lhe deu a chance de ver o que uma calça preta sob medida era capaz de fazer a
um traseiro feminino irresistivelmente
arredondado. De fato, só se deu conta de que havia contido a respiração
quando Flavia se virou para ele com uma garrafa de Beck's Dark.
- Isto não serve? O Chuck gosta.
- Esse tal de Chuck tem bom gosto. É um namorado?
Enquanto pegava os copos para servi-lo, ela respondeu:
- Chuck é o marido de Jody. Jody e Chuck Myers do 2B - explicou ela. - Fui
jantar com eles esta noite e com Frank, o primo excessivamente insuportável de
Jody.
- Por isso estava resmungando quando voltou para casa?
- Eu estava resmungando? - Flavia franziu o cenho, então apoiou-se sobre o
balcão e comeu outro biscoito. Resmungar era outro dos hábitos dos quais ela
não conseguia se livrar.
- É provável. Essa foi a terceira vez que Jody arranjou um encontro entre mim e 
Frank. Ele é corretor da bolsa. Trinta e cinco anos, solteiro e bonito, se você for
do tipo que aprecia tipos atléticos e másculos. Tem um BMW, um apartamento
em Upper East Side, Westchester, uma casa de praia em Hamptons, só usa
ternos Armani, aprecia a cozinha francesa e tem dentes perfeitos.
Divertindo-se com a maneira como Flavia estava descrevendo o sujeito, Shawn
tomou um gole de cerveja e perguntou:
- Então por que já não está casada com ele e morando em Westchester?
- Ah, você acabou de descrever o sonho de Jody.
E vou lhe dizer por que não quero isso para mim. - Ela comeu outro biscoito.
- Primeiro, não quero me casar ou ir morar em Westchester. Segundo, e mais
importante, eu preferiria a morte a ter de me casar com Frank.
- O que há de errado com o sujeito?
- Ele... Ele me cansa! - desabafou ela, com uma careta de desagrado.
- Oh, droga, acho que fui indelicada, não?
- Por quê? Soou sincera para mim.
- Sim, estou sendo completamente sincera. - Flavia pegou outro biscoito e o
comeu, sentindo-se apenas um pouquinho culpada.
- Ele é uma boa pessoa, mas acho que não leu um livro ou foi ao cinema nos
últimos cinco anos. Talvez tenha assistido a alguns filmes selecionados, mas
não a um filme para se divertir, entende? Tudo que ele sabe fazer é criticar o
cinema o tempo inteiro, ou melhor, durante os cinqüenta e nove minutos de
cada hora em que não fica falando das aplicações da bolsa de valores.
- Eu nem conheço o sujeito e já me cansei dele.
O comentário fez Flavia rir e pegar outro biscoito.
- Ele é conhecido por ter a mania de olhar o próprio reflexo na colher quando
está sentado à mesa - continuou ela. - Para se certificar de que continua
perfeitamente "irresistível". E como se não bastasse tudo isso, ele beija como
um peixe.
Shawn arqueou uma sobrancelha.
- Como é isso exatamente?
- Ah, você sabe... - Flavia fez um biquinho arredondado com os lábios e depois 
começou a rir. - É possível imaginar como os peixes beijam, mesmo que eles
não façam isso. Mas se beijassem, seria como Frank. Quase consegui escapar
sem ter de passar pela experiência esta noite, mas Jody, como sempre, deu um
jeitinho de interferir.
- E não lhe ocorreu simplesmente dizer "não"?
- Claro que me ocorreu! Todo o tempo! - Flavia forçou um sorriso, exasperada. -
Mas parece que nunca consigo me expressar no momento certo. Jody me adora
e, por razões que até a própria razão desconhece, ela também adora Frank.
Está convencida de que formamos um casal perfeito. E você sabe como é
quando alguém que você estima começa a fazer esse tipo de pressão "para o seu
bem".
- Não, não sei.
Flavia inclinou a cabeça. Então lembrou-se da sala vazia no apartamento dele.
Nenhum móvel, nenhum membro da família...
- A situação se torna muito inconveniente por que você corre o risco de magoar
alguém, e isso não me agrada nem um pouco.
- Como está sua mão? - perguntou Shawn, ao vê-la massagear as juntas.
- Ainda está um pouco dolorida. Provavelmente terei dificuldade para trabalhar
amanhã. Mas tentarei transformar a experiência em uma boa tira cômica.
- Não consigo imaginar Emily tendo coragem de nocautear um bandido - disse
Shawn.
- Ei, você lê minhas tiras! - exclamou Flavia, rindo com satisfação.
- Uma vez ou outra.
Ela era realmente encantadora, pensou Shawn, admirando aquele lindo sorriso
e o brilho de divertimento nos olhos incrivelmente verdes de Flavia. De súbito,
flagrou-se imaginando como seria provar o sabor daqueles lábios rosados.
Era isso que acontecia quando um homem se dava a liberdade de ficar
comendo biscoitos de chocolate no meio da noite na casa de uma linda mulher
capaz de fazê-lo ver o mundo sob uma nova perspectiva. Uma perspectiva que,
para ele, ainda oferecia riscos.
- Não tem o tom irônico de seu pai nem o gênio artístico de sua mãe, mas tem
um talento inusitado para o absurdo.
Flavia riu com indignação.
- Ora, muitíssimo obrigada pela crítica construtiva.
- Não há de quê. - Shawn pegou o'prato que ela havia separado para ele levar.
- E obrigado pelos biscoitos.
Flavia estreitou o olhar enquanto ele se dirigia à porta. Bem, ele iria ver quanto
talento ela tinha para o "absurdo" ao longo das próximas tiras.
- Ei!
Ele parou e olhou para trás.
- Ei, o quê?
- Você tem nome, apartamento 3B?
- Sim, eu tenho um nome, apartamento 3A. Mendes.
Dizendo isso, levantou no ar a latinha de cerveja e o prato, em sinal de
agradecimento, e saiu, fechando a porta atrás de si.
 



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