História Amor de vizinho - Capítulo 3


Escrita por: ~

Postado
Categorias Flavia Pavanelli, Magcon, Shawn Mendes
Personagens Flavia Pavanelli, Shawn Mendes
Exibições 92
Palavras 11.083
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Romance e Novela
Avisos: Insinuação de sexo, Sexo, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 3 - Duplo


Fanfic / Fanfiction Amor de vizinho - Capítulo 3 - Duplo


Quando muitas idéias a respeito de cenas e de pessoas preenchiam sua mente,
Flavia era capaz de trabalhar até seus dedos começarem a doer e se recusarem a
segurar adequadamente o lápis ou a caneta.
Nos dias em que isso acontecia, geralmente alimentava-se apenas com biscoitos
e bebidas diet, por gostar de ter a sensação de que estava equilibrando as
calorias em relação aos dias em que havia abusado delas.
No papel, a cada tira cômica, Emily e sua amiga Cari, que durante os últimos
anos vinha apresentando muitas características da personalidade de Jody,
planejavam e arquitetavam mil maneiras de descobrir os segredos do sr.
Misterioso. Iria chamá-lo de "Quinn", mas não por muitos episódios.
Durante três dias, Flavia mal saiu da mesa de desenho. Jody tinha uma cópia
da chave de seu apartamento, por isso não era necessário ficar se preocupando
em atender à porta quando a amiga aparecia para uma visita. E Jody nunca
fazia cerimônia para abrir a porta para a sra. Wolinsky, ou para algum outro
vizinho que decidia visitar Flavia.
De fato, em um dado momento da terceira noite, havia tantas pessoas no
apartamento de Flavia que foi possível fazer até uma festinha informal, enquanto
ela terminava de colorir a tira cômica que sairia no jornal de domingo.
Alguém havia ligado o aparelho de som, mas a música não a distraiu. Os risos e
a conversação chegavam até seus ouvidos, vindos do andar de baixo, mas ela
não se importava com isso. Gostava da animação de seus vizinhos, mesmo
quando não podia compartilhá-la.
Sentiu um delicioso aroma de pipoca e imaginou se alguém levaria um pouco
para ela. Encostando-se na cadeira, examinou o que já estava pronto em seu
trabalho. De fato, não tinha a veia irônica de seu pai nem a genialidade
artística de sua mãe, mas tinha o que poderia ser considerado como um
"talento inusitado".
Tinha a mão muito ágil e precisa para o desenho. Sim, gostava do que fazia e do
resultado final de seu trabalho. Mas gostava principalmente do fato de ele fazer
as pessoas rirem.
Se Mendes, do 3B, achava que ela ficara ofendida com o comentário dele,
estava muito enganado. Flavia estava mais do que contente com seu "talento
inusitado para o absurdo".
Agitada pelo êxito de três dias de trabalho intenso, pegou o telefone assim que
este começou a tocar.
- Alô?
- Ora, ora, se não é minha neta preferida.
- Vovô! - Flavia se encostou na cadeira, com um sorriso satisfeito.
- Eu estava morrendo de saudade, mas não me venha com essa história de
"neta preferida", porque eu sei que você diz isso para todos.
Tecnicamente, Daniel MacGregor não era avô de Flavia, mas isso nunca a havia
impedido de considerá-lo como tal. Para ela, o amor ignorava tecnicidades.
- "Morrendo de saudade"? - Daniel repetiu. - Então por que não me telefonou
ou para sua avó? Você sabe quanto ela se preocupa com você, aí sozinha, nessa
cidade imensa.
- Sozinha? - Com um sorriso, ela segurou o telefone no alto, para que o som da
festa no andar de baixo de seu apartamento pudesse ser ouvido por seu avô. –
Parece mesmo que estou sozinha, vovô?
- Está com seu apartamento cheio de pessoas de novo?
- É o que parece. E vocês, como estão? Está tudo bem por aí? Quero saber
tudo.
Os dois passaram a conversar a respeito da família. Flavia ouvia tudo com um
brilho de divertimento no olhar, rindo e fazendo seus próprios comentários de
vez em quando. Ficou contente ao saber que havia uma reunião familiar
marcada para dali a algumas semanas.
- Que bom! Mal posso esperar para ver todos novamente. Parece que faz tanto
tempo que nos vimos, desde o casamento de lan e Naomi, no último outono.
Estou morrendo de saudade de vocês.
- Ora, então por que esperar até a reunião de família? Você sabe que estamos
aqui o tempo todo.
- Talvez eu faça uma surpresa a vocês.
- Pois telefonei para fazer uma a você - declarou Daniel, com seu costumeiro
tom firme mas bem-humorado. - Aposto que ainda não sabe que nossa Naomi
está esperando um bebê. Teremos mais uma caixinha de presente sob nossa
árvore no próximo Natal.
- Oh, vovô, isso é maravilhoso! Vou telefonar para eles ainda hoje. E com Darcy
e Mac prestes a ter o deles nos próximos dias, teremos uma porção de bebês
para mimar nesse Natal.
- Para alguém que gosta tanto de bebês, deveria estar preocupada em ter um
também - insinuou Daniel.
O velho tema, mais do que conhecido por Flavia, fez com que ela começasse a
rir.
- Meus primos já estão cuidando disso muito bem, vovô.
- Ah, se estão! - concordou ele. - Mas isso não a livra de sua incumbência,
mocinha. Você pode até ser uma Campbell de nascimento, mas carrega a
chama do amor dos MacGregor no coração.
- Bem, em último caso, ainda me resta a chance de jogar tudo para o alto e me
casar com Frank.
- Aquele sujeito com boca de peixe?
- Não, vovô. - Ela riu. 
- Ele só beija como um peixe. De qualquer maneira, sim, é ele mesmo.
Poderíamos dar algumas "trutinhas" como netos para você.
Daniel fungou, impaciente.
- Você precisa é de um homem, não de uma truta vestida com um terno
italiano. Um homem com mais interesses na mente do que apenas dólares e
investimentos. Alguém que entenda de arte e que tenha juízo suficiente para
mantê-la longe de problemas.
- Sei me manter longe de problemas - lembrou Flavia, achando melhor não
mencionar o incidente daquela fatídica noite.
- Além disso, vovó não iria gostar que eu o roubasse dela, portanto, terei de me
conformar em continuar sozinha, aqui, nesta imensa cidade.
Daniel riu alto, do outro lado da linha.
- Com todos os homens que existem em Nova York, não é possível que não
acabe encontrando um que lhe sirva. Você sai para passear de vez em quando,
não sai? Não acredito que passe o dia inteiro sentada aí, desenhando seus
papéis engraçados.
- Tenho feito isso apenas ultimamente, porque tive uma ótima idéia e precisei
aproveitá-la logo. Estou com um vizinho novo, vovô. Ele é meio taciturno e
reservado. Bem, digamos que ele é "certinho" demais e que detesta que invadam
o espaço dele. Acho que ele está desempregado, embora toque sax de vez em
quando em um clube aqui perto. É simplesmente o vizinho perfeito para Emily.
- Só isso?
- Bem, ele passa o dia inteiro fechado no apartamento e não fala com ninguém.
O nome dele é Mendes.
- Mas se ele não fala com ninguém, como sabe o nome dele?
- Vovô. - Flavia sorriu com ar travesso. -
Alguma vez já me viu desistir de falar com alguém quando decido fazer isso?
Não que ele seja do tipo que se solta depois de alguns biscoitos de chocolate,
mas, mesmo assim, consegui descobrir o nome dele.
- E o que achou dele? - indagou Daniel, fingindo um tom casual.
- Ele parece muito, muito incrível. Capaz de deixar Emily maluquinha.
- É mesmo? - Daniel riu com satisfação.
Quando conseguiu saber tudo o que precisava da neta, Daniel fez a ligação
seguinte. Cantarolando baixinho e examinando as unhas, lustrou-as sobre a
camisa e sorriu quando Shawn atendeu ao telefone com um impaciente:
- Sim, o que é?
- Ah, essa sua natureza dócil sempre me deixa surpreso, Mendes. Chega até a
me comover.
- Sr. MacGregor?
Shawn-se ajeitou na cadeira no mesmo instante. Não havia como confundir
aquele sotaque escocês. Mudando subitamente de humor, riu e afastou-se do
computador.
- Isso mesmo, meu rapaz. Como está se saindo no apartamento?
- Muito bem. Quero lhe agradecer mais uma vez por me deixar usá-lo enquanto
minha casa continua naquela infinita reforma. Eu nunca conseguiria trabalhar
com todo aquele barulho. - Dizendo isso, lançou um olhar de censura para a
parede, enquanto o barulho do outro apartamento lhe chegava aos ouvidos.
- Não que a coisa esteja muito diferente por aqui esta noite. Minha vizinha
parece estar comemorando alguma coisa.
- Flavia? Ela é minha neta, sabia? Uma garota muito sociável.
- Até demais - falou Shawn, quase em um resmungo.
- Não imaginei que ela fosse sua neta.
-Bem, apenas informalmente. Precisa se soltar um pouco, rapaz, e ir participar
da festa.
- Não, muito obrigado. - Ele preferiria saltar de pára-quedas, sem pára-quedas.
- Acho que metade da população do bairro deve estar lá nesse momento. Este
seu prédio, sr. MacGregor, está cheio de pessoas que preferem mais falar do
que viver. E sua neta parece ser a líder da "gangue de tagarelas".
Daniel riu. Admirava a sinceridade de Shawn Mendes.
- Ela gosta apenas de ser amigável com todos - disse, em defesa da neta.
- De qualquer modo, fico mais tranqüilo em saber que você está morando no
apartamento em frente ao dela. Você é um rapaz sensível, Shawn. Por isso não
me importo em pedir que você fique de olho nela. Flavia é muito ingênua às 
vezes, se é que entende o que eu quero dizer. Eu me preocupo com ela.
Shawn riu, lembrando-se de quando a vira acertar uma boa ajoelhada nas
"partes baixas" do bandido que tentara atacá-la.
- Eu não me preocuparia se fosse o senhor. Pode acreditar.
- Bem, não vou mesmo me preocupar sabendo que você está por perto. Minha
Flavia... Ela é uma gracinha, não é?
- Linda como uma flor - anuiu Shawn.
- E inteligente. Também é responsável, embora às vezes pareça levar a vida feito
uma borboleta esvoaçante. Ora, mas também não é possível ser um iceberg e
conseguir produzir uma tira cômica por dia para um jornal, não é mesmo? Só
tendo muito senso de humor, e isso é o que não falta à minha Flavia.
- Sem dúvida, sr. MacGregor.
- Para trabalhar nesse tipo de coisa - continuou Daniel -, é preciso ser criativa,
ter uma boa veia artística e ser prática o suficiente para encontrar temas nas
situações do dia-a-dia. Mas você sabe de tudo isso melhor do que ninguém,
certo? Escrever roteiros de teatro também não é um trabalho fácil.
- Não mesmo - concordou Shawn, massageando os olhos cansados depois de
horas diante do computador.
- Mas você tem o dom, meu rapaz. Um dom raro que eu admiro muito.
- Esse dom tem sido mais como uma maldição para mim ultimamente, sr.
MacGregor, mas obrigado pelo elogio mesmo assim.
- Precisa sair um pouco, arejar a mente, beijar uma bela garota... Não que eu
entenda muito do processo de escrever, embora tenha dois netos que se
dedicam a isso, e muito bem por sinal. Deveria aproveitar mais o fato de estar
aí, em Nova York, antes de voltar para sua cidade e se fechar em sua casa.
- Talvez eu ainda faça isso.
- Oh, Mendes? Poderia me fazer o favor de não mencionar a Flavia que eu lhe
pedi para ficar de olho nela? Ela não gosta muito de superproteção. Mas é que
a avó dela vive preocupada com aquela menina e, você sabe como é, na idade
em que estamos não é bom facilitar...
- Pode ficar tranqüilo, sr. MacGregor. Não direi nada a ela - Shawn prometeu.
Ciente de que aquele barulho não o deixaria mesmo trabalhar, Shawn saiu do
apartamento. Tocou no clube de Delta, mas, dessa vez, nem mesmo a música o 
distraiu dos pensamentos que andavam rondando sua mente.
De onde estava, sobre o palco, não era difícil imaginar Flavia sentada no fundo
do salão, com o queixo apoiado sobre a mão, os lábios curvados em um sorriso
e um brilho sonhador no olhar. De fato, ela conseguira invadir um de seus bens
mais preciosos: a música. E ele estava se sentindo profundamente irritado com
isso.
O Delta era um de seus refúgios. Havia noites em que ele viajava de carro de
Connecticut a Nova York só para subir no palco com André e tocar até que toda
sua tensão desaparecesse por meio da música.
Então voltava para casa ou, se já. fosse muito tarde, apenas se acomodava em
um sofá no fundo do Delta e dormia até a manhã. Ninguém o aborrecia no
clube ou esperava que ele desse mais do que queria dar.
Mas depois que Flavia estivera ali, seu olhar insistia em se voltar para a mesa
que ela havia ocupado, enquanto ele se flagrava imaginando se ela não estaria
ali, observando-o com aqueles olhos de pantera.
- Rapaz - disse André, tomando um gole de água da garrafa deixada ao lado do
piano -, você está mesmo esquisito esta noite.
- Sim, acho que sim.
- Geralmente, quando um homem fica com essa expressão, é porque há alguma
mulher envolvida na história.
Shawn balançou a cabeça, negando o fato mais para si mesmo do que para o
amigo.
- Não, não há nenhuma mulher. Estou preocupado com o trabalho.
André se limitou a dar de ombros enquanto Shawn levava o sax novamente aos
lábios. - Se é o que você diz...
Shawn chegou em casa às três horas da manhã, preparado para bater à porta
do apartamento de Flavia e exigir silêncio. Por isso, foi um alívio chegar e
descobrir que a festa havia terminado. Não se ouvia nenhum ruído vindo do
apartamento dela.
Entrou em casa, trancou a porta e prometeu a si mesmo que aproveitaria ao
máximo aquele momento de paz. Depois de preparar um café forte, acomodou
se novamente diante do computador, preparando-se para entrar na mente das
personagens que estavam arruinando suas próprias vidas por não conseguirem
seguir os impulsos de seus corações.
O sol já estava alto quando ele parou de trabalhar, depois que o súbito surto de
energia criativa que se apoderara de sua mente finalmente se desvaneceu.
Concluiu que aquele fora o primeiro trabalho mais consistente que ele
conseguira realizar na última semana, e decidiu comemorar isso caindo sobre a
cama com a mesma roupa com que estava vestido.
Não demorou muito para começar a sonhar. Um belo rosto com expressivos
olhos verdes se apoderou da maioria das imagens que surgiram em meio a seu
estado onírico. E juntamente com ele, uma voz insistente que parecia não parar
mais de falar.
Por que tudo tem de ser tão sério?, ela perguntou, rindo ao deslizar a mão sobre
o peito dele.
Porque a vida é um negócio sério.
Mas esse é apenas um dos lados da moeda. E há muitas e muitas moedas em
nossa vida. Não vai dançar comigo?
Ele já estava dançando. Estavam no Delta, e embora o clube estivesse vazio,
havia música no ar. Uma música suave e sensual.
Não vou ficar de olho em você. Não conseguirei fazer isso.
Mas você já está.
Shawn apoiava o queixo no alto da cabeça dela. Quando ela inclinou a cabeça
para trás e mordiscou-lhe o queixo com sensualidade, ele sentiu um arrepio
pelo corpo.
Ficar de olho em mim não é tudo que você quer fazer comigo, não é?
Eu não quero você.
Ouviu-se uma risada leve como o ar.
Acha que adianta negar isso até mesmo em seus sonhos? Pode fazer o que quiser
comigo em seus sonhos. Não fará diferença.
Eu não quero você, ele repetiu, já deitando-se com ela sobre o chão.
Shawn acordou ofegante e suando, enrolado entre os lençóis. Depois de alguns
segundos, quando sua mente finalmente começou a clarear, não conteve o riso.
Flavia era mesmo uma ameaça, concluiu. De fato, a única coisa que parecera
mais sensata em seu sonho erótico fora o detalhe de ele repetir que não a
queria.
Depois de passar as mãos pelo rosto, olhou para o relógio ainda em seu pulso.
Já passava das quatro horas da tarde, e foi somente então que ele se deu conta
de que aquela fora a primeira vez que ele conseguiria dormir por oito horas na
última semana. Que culpa tinha ele, se seu relógio biológico andava meio
maluco?
Ao chegar à cozinha, notou que teria de descer e comprar algo para comer.
Tomou um banho e se barbeou pela primeira vez, depois de três ou quatro dias
sem fazê-lo.
Pensou em comer algo fora, para ter uma refeição decente. Quem sabe assim
teria mais ânimo de enfrentar o horror de ter de fazer compras e ver todas
aquelas pessoas armazenando carrinhos e mais carrinhos de comida no
mercado.
Já vestido e sentindo-se mais bem-disposto, abriu a porta.
Flavia abaixou a mão que havia acabado de levantar para tocar a campainha.
- Graças a Deus que você está em casa.
Shawn não conseguiu deixar de se lembrar do sonho que tivera havia poucas
horas.
- O que foi?
- Você precisa me fazer um favor.
- Não, não preciso não.
- Mas é uma emergência! - Ela o segurou pelos braços antes que ele pudesse se
afastar. - E uma questão de vida ou morte! A minha vida e muito provavelmente
a morte de Johnny, sobrinho da sra. Wolinsky. Sim, porque um de nós vai
morrer se eu tiver de sair com ele! Foi por isso que eu disse a ela que já tinha
um encontro esta noite.
- E você acha que eu tenho algo a ver com isso porque...
- Oh, não seja ranzinza justo agora, Mendes. Não está vendo que sou uma
mulher desesperada?! Ouça, ela não me deu tempo de pensar, e eu sou
péssima com mentiras. Quero dizer, não minto com muita freqüência, por isso
não consigo mentir direito. Ela ficou insistindo em perguntar com quem eu ia
sair, e eu não consegui pensar em ninguém mais a não ser você.
Flavia continuou de pé bem diante dele, impedindo-o de sair. Shawn respirou
fundo, tentando se manter paciente.
- Vamos deixar uma coisa bem clara, está bem? - disse a ela. - Isso não é
problema meu.
- Não, eu sei que é meu. E com certeza teria inventado uma coisa melhor se ela
não houvesse me pegado de surpresa, enquanto eu estava trabalhando e
pensando em outra coisa. - Desesperada, Flavia passou a mão pelos cabelos.
- Ela vai ficar me vigiando, entende? Vai querer se certificar de que eu vou
mesmo sair com alguém.
Dizendo isso, começou a andar de um lado para outro massageando as
têmporas, como que para estimular os pensamentos. Shawn aproveitou o
momento de distração de Flavia e começou a seguir em frente pelo corredor.
- Ouça, tudo que terá de fazer será me acompanhar para fora do prédio fingindo
ser alguém que está interessado em mim - falou ela, atrás de Shawn.
- Poderemos tomar um café, ou algo do gênero, e passar algumas horas fora antes
de voltarmos. Sim, porque ela também vai saber se não voltarmos juntos.
Aquela mulher sabe de tudo! Prometo que lhe pagarei cem dólares por isso.
Ouvir aquilo o fez parar de repente.
- Quer me pagar para que eu saia com você?
- Não é bem assim, mas é quase - admitiu Flavia. - Sei que o dinheiro lhe será
útil, e acho justo compensá-lo pelo tempo que você vai gastar. Cem dólares,
Mendes, por algumas horas. Ah, e eu pagarei o café.
Shawn se encostou na parede e ficou observando-a. A idéia parecia tão
absurda que chegava a ser cômica.
- Nem um pedaço de torta? - perguntou a ela. A risada de Flavia foi de puro
alívio. - Torta? Você quer torta? Pois terá sua torta.
- Onde está ele? - indagou Shawn, olhando para o bolso dela.
- Ele? Ah... o dinheiro? Espere um pouco aqui.
Flavia entrou no apartamento e Shawn pôde ouvi-la andando de um lado para
outro, abrindo e fechando gavetas e armários.
- Deixe-me apenas me arrumar um pouco - disse ela, lá de dentro.
- O cronômetro está correndo, garota.
- Tudo bem, tudo bem. Onde diabos está minha... A-ha! Dois minutos, só dois
minutos. Não quero que ela fique dizendo por aí que saio com rapazes sem nem 
mesmo passar batom.
Shawn teve de admitir: quando ela dizia dois minutos realmente eram dois
minutos. Quando voltou, dois minutos depois, estava usando um par de
sandálias de salto alto, batom cor-de-rosa e um par de brincos de argola.
Segundo ele pôde notar, quando ela lhe entregou o dinheiro, os brincos
continuavam não combinando. Devia ser uma questão de preferência mesmo,
concluiu ele. Uma "inusitada preferência pelo absurdo".
- Ficarei muito agradecida por isso - disse Flavia.
- Sei que a situação deve estar parecendo ridícula, mas é que não tenho
coragem de magoá-la.
- Se os sentimentos da mulher valem cem dólares para você, tudo bem. -
Shawn deu de ombros.
- E melhor para mim - acrescentou, guardando o dinheiro no bolso de trás da
calça. - Agora vamos. Estou faminto.
- Oh, quer jantar? Também posso lhe pagar um jantar. Há um restaurante
ótimo no final da rua, onde eles servem massas deliciosas. Tudo bem, vamos
começar o teatrinho agora - avisou ela, enquanto se encaminhavam para a
saída do prédio.
- Finja que não sabe que está sendo observado por ela. Aja naturalmente e
segure minha mão, está bem?
- Por quê?
- Ah, pelo amor de Deus, Mendes! - respondeu ela por entre os dentes,
entrelaçando os dedos com firmeza entre os dele e sorrindo com ar sonhador. -
Estamos saindo para um encontro, lembra-se? Nosso primeiro encontro. Faça
um esforço e finja que está se divertindo.
- Mas você só me deu cem dólares.
A ironia fez Flavia dar uma gargalhada.
- Puxa, você é mesmo "durão", 3B. Vamos saborear uma refeição quente e ver
se isso melhora seu humor.
De fato, melhorou e muito. Seria preciso ser um sujeito muito mais malhumorado
do que ele para conseguir resistir ao apelo de uma enorme travessa
cheia de espaguete com almôndegas, aliada à esfuziante companhia de Flavia.
- Maravilhoso, não é mesmo?! - falou ela, gostando de vê-lo saborear o prato 
com tanta empolgação.
Provavelmente o coitado não tinha uma refeição decente havia semanas,
pensou ela, lembrando-se do apartamento vazio. Talvez ele estivesse mesmo
com dificuldades financeiras.
- Sempre como demais quando venho aqui - confessou. - Eles servem uma
porção suficiente para meia dúzia de adolescentes famintos, mas acho que é
isso que dá um certo charme ao lugar. Toda essa fartura. Depois, termino
sempre levando para casa. o que sobrou e comendo demais também no dia
seguinte. Mas dessa vez poderá me salvar levando um pouco para sua casa -
acrescentou ela, com um sorriso.
- Negócio fechado - respondeu Shawn, tocando a taça de Chianti na dela.
- Sabe de uma coisa? Aposto que há dezenas de clubes noturnos na cidade que
se mostrariam mais do que interessados em contratá-lo.
- Hum?
- Para tocar sax.
Flavia sorriu novamente para ele, que não resistiu ao impulso de observar
aqueles lábios polpudos e convidativos.
- Você é muito bom no que faz - continuou ela. - Aposto que conseguirá
arranjar um bom emprego logo, logo.
Divertindo-se com o comentário, Shawn levantou a taça novamente, sugerindo
outro brinde. Então a srta. Flavia Campbell pensava que ele era um músico
desempregado? Bem, melhor assim.
- As oportunidades vêm e vão - foi tudo que Shawn falou.
- Você toca em festas particulares? - Subitamente animada, ela se inclinou
sobre a mesa. - Conheço uma porção de pessoas, e há sempre alguém
oferecendo uma festa.
- Imagino que isso seja mesmo muito comum no seu círculo social - ironizou
Shawn.
- Posso divulgar seu nome, se quiser. Importa-se de viajar?
- E para onde eu iria?
- Alguns dos meus parentes são donos de hotéis - explicou Flavia. - Atlantic City
não fica muito longe daqui. Acho que você não tem carro, certo?
Shawn conteve a vontade de rir, lembrando-se de seu Porsche "novinho em
folha" guardado em uma garagem da cidade.
- Não aqui comigo - foi sua resposta.
Flavia sorriu, mordiscando um pedaço de pão.
- Bem, de qualquer maneira, não é difícil se deslocar de Nova York para Atlantic
City.
Por mais divertido que aquilo estivesse sendo, Shawn achou melhor amenizar
um pouco as coisas.
- Flavia, não preciso de alguém para administrar minha vida.
Ela fez uma careta.
- Eu sei. Esse é um dos maus hábitos dos quais não consigo me livrar. - Sem
parecer ofendida, ela partiu o pedaço de pão em dois e ofereceu um a ele.
- Eu me envolvo demais com as coisas - admitiu.
- Depois fico aborrecida quando as outras pessoas se metem na minha vida.
Como a sra. Wolinsky, atual presidente do partido "Vamos Encontrar um
Pretendente para Flavia". Isso me deixa furiosa.
- Porque você não quer um pretendente - afirmou Shawn.
- Oh, sei que encontrarei um no devido tempo. Vir de uma família grande meio
que nos predispõe... A mim, pelo menos... A querer ter uma também. Mas ainda
há muito tempo para isso. Gosto de morar na cidade grande e de fazer aquilo
que quero quando eu quero. Detestaria ter de me submeter a horários rígidos, o
que, definitivamente, não combina com meu trabalho de criação. Não que o
meu trabalho não exija um certo tipo de disciplina, mas sou eu quem a faz, do
meu jeito. Como acontece com sua música, imagino eu.
- Creio que sim - anuiu Shawn.
O trabalho dele raramente se tornava um prazer, como o dela parecia ser. Mas
sua música, sem dúvida, era feita por prazer.
- Ei, Mendes - começou ela, com outro de seus sorrisos marotos -, quantas
vezes você realmente já se soltou e respondeu a uma pergunta com mais do que
três frases curtas em uma mesma conversa?
Shawn comeu o último pedaço de almôndega de seu prato e olhou para ela.
- Gosto do mês de novembro. Geralmente, falo muito mais em novembro. É o 
tipo de mês de transitoriedade que faz com que eu me sinta mais filosófico.
- Três de uma única tacada - brincou ela. - E todas inteligentes. - Sorriu para
ele.
- Você tem um senso de humor escondido em algum lugar, não tem? - Antes
que ele pudesse responder, ela se recostou na cadeira com um suspiro e perguntou:
- Quer sobremesa?
- Claro que sim - respondeu Shawn, como se aquela fosse a resposta mais
óbvia.
Flavia sorriu.
- Tudo bem, mas não peça o tiramisu, porque serei forçada a lhe implorar um
pedaço, depois dois e então terminarei comendo metade dele e provavelmente
entrarei em coma.
Sem desviar os olhos dos dela, Shawn fez um sinal para o garçom, com a
autoridade casual de um homem acostumado a dar ordens. Aquilo fez Flavia
franzir o cenho.
- Tiramisu - pediu ele, sem hesitar. - E dois garfos - acrescentou, fazendo Flavia
rir alto. - Talvez entrando em coma, você fale menos.
- Acho que nem assim - salientou ela, ainda rindo. - Falo até dormindo, sabia?
Minha irmã costumava ameaçar pôr um travesseiro na minha cabeça.
- Acho que eu iria gostar de sua irmã.
- Adria é maravilhosa. Provavelmente o seu tipo também. Contida, sofisticada e
inteligente. Ela dirige uma galeria de arte em Portsmith.
Shawn notou que estavam quase terminando de tomar a garrafa de vinho. O
Chianti era mesmo muito bom, e provavelmente estava sendo a causa de ele se
sentir tão relaxado. De fato, não se sentia assim havia semanas. Ou meses.
Talvez anos.
- Então vai me apresentar a ela?
- Acho que ela iria gostar de você - considerou Flavia, observando-o por sobre a
borda da taça e apreciando a sensação de leveza que a bebida lhe dera.
- Você é bonito de uma maneira meio... Como posso dizer... Meio selvagem,
acho. Além disso, toca um instrumento musical, o que apelaria para o lado de
Adria que é sensível às artes.
E é auto-suficiente demais para tratá-la como alguém da realeza. Muitos
homens fazem isso.
- E mesmo? - Shawn se surpreendeu.
- Ela é tão linda que eles não conseguem deixar de agir assim. Adria detesta
esse tipo de atitude, por isso acaba sempre tendo de dispensá-los. Provavelmente
terminaria arrasando seu coração - completou Flavia, fazendo um
gesto com o copo.
- Mas a experiência seria boa para você.
- Não tenho coração - declarou ele, quando o garçom chegou com a sobremesa.
- Pensei que já houvesse deduzido isso.
- Claro que tem. - Com um suspiro de rendição, Flavia pegou o garfo e provou a
primeira porção do doce, com um gemido de prazer. - Só que você o mantém
guardado dentro de uma armadura, para que ninguém possa feri-lo novamente
- finalizou ela. - Deus, não é maravilhoso? Não deixe que eu coma mais do que
esse outro pedaço, está bem?
Shawn continuou a observá-la, aturdido com a precisão com que Flavia tão
casualmente o descrevera, sendo que nem mesmo aqueles que diziam amá-lo
haviam chegado tão perto.
- Por que disse isso?
- Isso o quê? Eu não lhe disse para não me deixar comer mais disso? Está
querendo me matar?
- Esqueça. - Decidindo deixar o assunto de lado, Shawn afastou o prato do
alcance dela. - O restante é meu - disse e começou a comer.
Felizmente, teve de ameaçar dar uma garfada na mão de Flavia apenas uma vez.
- Nem sei como agradecer por você haver me livrado de ter de sair com Johnny
- disse Flavia, quando os dois voltavam para casa.
- Por que simplesmente não diz a toda essa gente que não está interessada em
ter um namorado? - perguntou Shawn, intrigado.
Ela suspirou.
- O problema é que não tenho coragem de magoar ninguém, e acabaria fazendo
isso ao dizer a verdade. Eles só querem o meu bem.
- Mas estão controlando sua vida, Flavia, mesmo que com a melhor das
intenções.
- Oh, eu não sei o que fazer! - Ela exalou outro suspiro. - Veja meu avô, por
exemplo. Bem, na verdade ele não é meu avô no sentido estrito da palavra. Ele
é sogro de Shelby, irmã de meu pai. Pelo lado da minha mãe, ela é prima das
esposas de dois netos dele. É meio complicado, mas tentarei resumir ao
máximo.
- Será que terei mesmo o privilégio de presenciar esse milagre? - Shawn
arqueou uma sobrancelha.
- Pare de me provocar - ralhou Flavia, sem conter o riso. - Bem, a ligação
familiar entre Daniel e Anna MacGregor e meus pais é mesmo complicada,
então para que me esforçar em simplificar? Minha tia Shelby se casou com o
filho deles, Alan MacGregor, você já deve ter ouvido falar nele, da época em que
morava na Casa Branca.
- O nome não me parece estranho.
- E minha mãe, que antes tinha o sobrenome Grandeau, é prima dos irmãos
Justin e Diana Blade, que se casaram, respectivamente, com outros dois netos
de Daniel e Anna MacGregor, Serena e Caine MacGregor. Por isso, Daniel e
Anna são considerados como meus avós, entendeu?
- Acho que sim, mas já esqueci o motivo que nos levou a falar sobre isso.
- Oh, eu também. - Flavia começou a rir, tendo de se apoiar nele para não
perder o equilíbrio. - Acho que tomei vinho demais. Deixe-me ver... Sim, já
lembrei. Casamenteiros. Estávamos falando de pessoas casamenteiras,-o que
meu avô, que por acaso é Daniel MacGregor, mostra ser em todos os sentidos.
Quando o assunto é arranjar casamentos, é ele quem dita as regras. O homem
é uma verdadeira raposa, Mendes. Você nem imagina... - Flavia parou um
instante e começou a contar nos dedos. - Hum... Até agora, acho que sete dos
meus primos se casaram com pretendentes arranjados por ele.
- O que você quer dizer com "arranjados"?
- Não me pergunte como, mas ele meio que escolhe a pessoa certa para os netos
e depois dá um jeito de uni-los de alguma maneira, deixando a natureza seguir
seu curso. Então, antes que você se dê conta, já está a caminho do altar. No
último telefonema, ele me contou que meu primo, lan, e a esposa dele, que se
casaram no último outono, já estão esperando o primeiro filho. Meu avô está
nas nuvens.
- E alguém já mandou ele parar de se meter na vida dos netos?
- Ah, constantemente - respondeu Flavia, lembrando-se das reprimendas da avó. 
- Mas ele não dá atenção. Tenho a impressão de que a próxima "vítima" será
Adria ou Mel, enquanto ele ainda estiver disposto a dar algum tempo de paz a
meu irmão, Matthew.
- E quanto a você?
- Ah, sou esperta demais para ele. Conheço todos seus truques e não pretendo
me apaixonar tão cedo. E você, já esteve lá?
- Lá onde?
- Na terra dos apaixonados, Mendes. Não seja tão lento.
- Ora, não é um lugar, é uma situação. E não, acho que realmente não estive lá.
- Mas acabará indo - falou Flavia, com ar sonhador. - Eventualmente... - Ela ia
dizer mais alguma coisa, mas parou de repente.
- Essa não! Aquele é o carro de Johnny. Pelo visto, ele acabou vindo mesmo de
Nova Jersey. Droga, droga, droga! Muito bem, lá vamos nós novamente com o
plano. - Dizendo isso, virou-se para Shawn, mas teve de se apoiar nele ao
sentir uma onda de tontura. - Eu não deveria ter tomado aquela última taça de
vinho, mas acho que ainda sou dona do meu destino.
- Pode apostar que sim, menina.
Flavia fez uma careta de desagrado.
- O suficiente para saber que o fato de você me chamar de "menina" demonstra
que está sendo arrogante e querendo parecer superior a mim, mas isso não vem
ao caso. Teremos apenas de andar mais um pouco de mãos dadas, até
passarmos pela janela da casa dela. Com muita naturalidade, está bem?
- Não vai ser fácil, mas verei o que posso fazer.
- Adoro essa sua veia sarcástica. Muito bem, estamos prontos e preparados.
Agora vamos ficar só mais um pouco aqui porque ela está olhando -
acrescentou Flavia, arriscando um -olhar na direção da janela da casa da sra.
Wolinsky. - A qualquer momento a cortina vai se fechar. Tenho certeza.
O fato de a situação não oferecer nenhum risco, e de ele estar começando a se
divertir com tudo aquilo, manteve Shawn no lugar. Segundos depois, olhou
disfarçadamente para trás, tentando notar se a mulher continuava à janela.
- Parece que ela não vai desistir assim tão fácil. O que faremos agora?
Flavia moveu os olhos com rapidez, como que tentando pensar em algo.
- Terá de me beijar.
- O quê?!
- E terá de ser convincente - salientou ela. - Se formos convincentes, ela se
convencerá de que não estou realmente interessada em Johnny. Prometo que
lhe pagarei mais cinqüenta dólares por isso.
Shawn teve de se esforçar para continuar sério.
- Então, vai me pagar cinqüenta dólares para que eu a beije?
- Como um bônus - justificou Flavia. - Farei qualquer coisa para mandar
Johnny de volta para Nova Jersey. Aja como se estivesse sobre o palco,
representando. Isso não precisa significar realmente alguma coisa. Ela ainda
está olhando? - perguntou, mudando de posição.
- Sim - respondeu Shawn, mesmo sem olhar para a janela da sra. Wolinsky.
- Ótimo, então vamos lá. Aja com romantismo, está bem? Posicione os braços
assim, em torno de mim, incline-se um pouco e...
- Sei como beijar uma mulher, Flavia.
- Claro que sabe. Mas um pouco de ensaio não fará nenhum mal...
Shawn se deu conta de que a única maneira de fazê-la parar de falar seria
agindo. Em vez de circundar os braços em torno dela, puxou-a de uma vez para
si. A última coisa que viu antes de seus lábios esmagarem os dela, foram os
expressivos olhos verdes se arregalarem de espanto.
Ele estava certo. Completamente certo, pensou Flavia. De fato, ele realmente
sabia como beijar uma mulher. Teve de se apoiar nos ombros dele para não
cair, pois seus pés mal estavam tocando o chão. Então, para seu próprio
espanto, deixou escapar um gemido.
Sentia a cabeça zonza, como se, de repente, os dois estivessem em outro lugar,
longe das pessoas e do mundo. Seu coração acelerado parecia estar batendo
alto a ponto de ser ouvido, e seu corpo se tornara trêmulo, vulnerável ao apelo
sensual da proximidade máscula daquele que estava se tornando uma pessoa
cada vez mais presente em seus pensamentos mais íntimos.
Era quase como no sonho, pensou Shawn, só que melhor. Muito melhor. O
sabor dos lábios de Flavia era adocicado e único, incapaz de ser resgatado
apenas pela imaginação. Depois de saboreá-los com voracidade, afastou-a um 
pouco, mas somente para verificar se o ar de desejo estava tão evidente no
semblante dela quanto deveria estar no dele.
Flavia ficou olhando para ele, ofegante, ainda com os braços circundando seu
pescoço.
- O próximo é meu - disse ele.
Então Flavia se entregou mais uma vez àquele turbilhão de sensações deliciosas
e provocantes. Não protestou quando ele insinuou a língua por entre seus
lábios e começou a explorar os recantos mais secretos de sua boca.
Quando ele se afastou pela segunda vez, moveu-se tão devagar que foi quase
como se não quisesse fazê-lo. Shawn queria poder tê-la ali mesmo, em meio à
penumbra da noite e sob os olhares surpresos, e provavelmente escandalizados,
dos transeuntes. Pouco lhe importava que olhassem. Queria saciar aquela sua
sede pela energia sensual de Flavia. De fato, só se conteve por saber que uma
atitude mais ousada acabaria assustando-a. Ele próprio estava assustado com
sua reação. Era como se sempre houvesse guardado um vulcão dentro de si
que, de repente, resolvera entrar em erupção.
- Acho que isso será suficiente - disse a ela.
- Suficiente? - repetiu Flavia, como se houvesse acabado de chegar de outro
planeta.
- Suficiente para convencer a sra. Wolinsky.
- Sra. Wolinsky? - Ela balançou a cabeça, tentando ordenar os pensamentos. -
Oh, sim, claro. Puxa, você é mesmo muito bom nisso, Mendes.
Um sorriso relutante curvou os lábios dele. A sinceridade de Flavia era
realmente encantadora, pensou Shawn. E perigosamente irresistível.
- Você também é muito boa nisso, menina - respondeu ele, conduzindo-a em
direção à entrada do prédio.
Flavia começou a cantar enquanto trabalhava, fazendo um dueto com Aretha
Franklin. Atrás dela, a janela aberta revelava um belo dia ensolarado, vez por
outra assaltado pela leve brisa fria de abril e permeado pelo inevitável ruído das
ruas de Nova York.
No entanto, o sol do lado de fora não estava menos radiante do que o humor de
Flavia. Virando-se para o espelho preso à parede, a seu lado esquerdo, tentou
imitar uma expressão de espanto que pudesse ajudá-la na caracterização de
sua personagem. Porém, tudo que conseguiu fazer foi sorrir. Sorrir com plena 
satisfação.
Já havia sido beijada antes, claro. E também fora envolvida pelos braços de um
homem. Entretanto, todas as experiências que tivera se comparavam a um
mero "incendiozinho" local, se comparadas à explosão vulcânica que fora se ver
nos braços de Shawn.
Na noite anterior permanecera com aquela deliciosa sensação de zonzeira
durante horas. Adorara cada um dos momentos daquela espécie de
arrebatamento de sensualidade feminina. Poderia haver algo mais incrível do
que sentir-se vulnerável e forte, boba e sábia, confusa e esclarecida, tudo ao
mesmo tempo?
E tudo que precisava fazer para sentir aquilo era fechar os olhos e deixar sua
mente devanear, livre de qualquer censura. Imaginou o que ele estaria
pensando, o que estaria sentindo. Ninguém conseguiria ficar indiferente a um
experiência daquela... magnitude. Um homem não poderia beijar uma mulher
daquela maneira e não sofrer... digamos... algum efeito colateral.
Sofrer até que era uma palavra adequada, concluiu ela, pensando nas
conseqüências em seu próprio corpo. Riu, suspirou alto, então voltou a se
concentrar no trabalho, cantando com Aretha Franklin as maravilhas de se
sentir like a natural woman. Sim, estava mesmo se sentindo como mulher
natural. Natural até demais. O beijo de Mendes deixara um rastro de chama
em seu corpo e, embora aquilo fosse delicioso, era também assustador ao
mesmo tempo.
- Pelo amor de Deus, Fla, está muito frio aqui!
Flavia levantou a vista.
- Oi, Jody. Olá, meu amor! - acrescentou, olhando para Charlie.
O bebê olhou para ela com um sorriso sonolento, enquanto Jody se aproximava
da janela, mantendo-o apoiado sobre seu quadril.
- Está sentada diante de uma janela aberta, e a temperatura não deve estar
mais do que quinze graus lá fora. - Jody fechou o vidro, com um arrepio de frio.
- Eu estava sentindo um pouco de calor - declarou Flavia, deixando o lápis de
lado para apertar a bochecha rechonchuda de Charlie.
- É milagroso, não, que os homens se transformem dessa maneira? Nascem
como bebês lindinhos assim e depois... Uau! Transformam-se naquilo tudo.
Jody franziu o cenho, olhando a amiga com ar de curiosidade.
- Está com uma expressão meio engraçada - disse ela. - Sente alguma dor? -
Pousou a mão sobre a testa de Flavia, em uma atitude maternal.
- Não está com febre. Agora mostre a língua.
Flavia obedeceu, ficando vesga ao mesmo tempo só para fazer Charlie cair na
gargalhada.
- Não estou doente. Estou é em estado de graça.
- Hum... - Jody apertou os lábios, não parecendo muito convencida. - Vou pôr
Charlie em sua cama para tirar uma soneca. Ele está até zonzo de sono. Depois
prepararei um café para nós duas e quero que me conte o que está
acontecendo.
- Claro.
Voltando a adquirir o mesmo ar sonhador, Flavia pegou o lápis novamente e
desenhou pequenos corações sobre o papel. Então se empolgou e começou a
desenhar outros maiores, esboçando o rosto de Mendes dentro de um deles.
Sim, ele tinha traços fortes e marcantes, mas que se amenizavam quando
sorria. Ela adorava fazê-lo sorrir. Aliás, fazer as pessoas sorrirem era um de
seus talentos.
Ficaria mais tranqüila quando conseguisse arranjar um emprego para ele.
Depois providenciaria um sofá para aquela sala vazia, mas isso não seria difícil
com seus contatos. Tinha muitos amigos que poderiam ajudá-la a encontrar
móveis práticos e por um bom preço. Queria ver Mendes instalado com mais
conforto, só isso. Claro que não havia nenhum interesse de sua parte, afinal,
faria isso por qualquer pessoa. Ainda mais por um vizinho maravilhoso que
beijava como um deus saído diretamente do sonho de toda mulher.
Satisfeita com seus planos, cruzou as pernas sob si e voltou a se concentrar no
trabalho.
Depois de deixar Charlie no quarto, dormindo feito um anjinho, Jody desceu
para o andar de baixo e abaixou o volume do aparelho de som. Então, sentindose
como se estivesse em sua própria casa, foi até a cozinha e preparou o café.
Subiu a escada pouco depois, carregando uma bandeja com duas xícaras de
café e alguns biscoitos. Aquele pequeno ritual matinal era um de seus
momentos preferidos do dia.
Considerava Flavia como uma irmã e por isso fazia de tudo para vê-la feliz. De
fato, não se dava tão bem nem com as próprias irmãs, que só sabiam viver
reclamando da vida e dos maridos.
Deixando a bandeja sobre a mesa, entregou uma xícara de café a Flavia.
- Obrigada, Jody.
- Fez uma ótima tira esta manhã. Não acredito que Emily esteja disfarçada com
um casaco e um chapéu, seguindo o sr. Misterioso por todo o distrito de SoHo.
De onde ela tirou essa idéia?
- Você sabe que ela é uma criatura impulsiva e dramática. - Flavia provou um
biscoito. Era comum as duas se referirem a Emily e aos outros personagens
como se fossem pessoas de verdade.
- E abelhuda também. Ela simplesmente precisava saber.
- E quanto a você? Já descobriu alguma coisa sobre nosso sr. Misterioso?
- Sim - respondeu Flavia, com um suspiro. - O nome dele é Mendes.
- Também ouvi dizer isso. - Instantaneamente alerta, Jody apontou o dedo para
a amiga.
- Ei, você suspirou!
- Não, só respirei mais fundo.
- Não, você suspirou. E por qual motivo?
- Bem, na verdade... - Flavia estava morrendo de vontade de falar sobre aquilo.
- Nós... acabamos saindo ontem à noite.
- Vocês saíram? Como um casal? - Jody puxou a cadeira mais para perto da
amiga no mesmo instante. - Onde? Como? Quando? Detalhes, Fla. Quero
detalhes.
- Está bem, então. - Flavia virou mais a cadeira, até ficarem uma de frente para
a outra. - Você sabe que a sra. Wolinsky está sempre querendo que eu saia com
o sobrinho dela, não é?
- Ah, de novo?! - Jody revirou os olhos. - Será possível que ela não vê que vocês
não têm nada a ver um com o outro?
O imenso carinho que Flavia sentia pela amiga foi o que a impediu de dizer que
aquilo também servia para ela e Frank.
- Bem, é que a sra. Wolinsky adora o sobrinho. De qualquer modo, ela arranjou
outro encontro entre nós ontem à noite, só que eu não estava com a mínima
vontade de ir. Mas você terá de jurar que não vai dizer isso a ninguém.
- Exceto Chuck.
- Tudo bem. Maridos estão excluídos do voto de silêncio nesse caso. Bem, o fato
é que eu disse a ela que já tinha um encontro... com Mendes.
- Você tinha um encontro com ele?
- Não, eu só disse isso porque fiquei desesperada. E você sabe como começo a
gaguejar quando minto.
- Deveria praticar mais. - Jody comeu outro biscoito.
- Talvez. Mas assim que acabei de dizer isso, percebi que ela iria ficar olhando
pela janela para se certificar de que eu ia mesmo sair com ele, por isso tive de
apelar e fazer uma espécie de acordo com Mendes. Dei cem dólares a ele e lhe
paguei um jantar.
- Você pagou a ele?! - Jody arregalou os olhos, mas estreitou-os em seguida,
com ar especulativo. - Mas isso é brilhante. Se eu houvesse tido essa idéia na
época da faculdade, quando não estava namorando ninguém e nem tinha com
quem sair, a história teria sido outra, minha amiga. Como se decidiu pela
quantia de cem dólares?
- Achei que parecia justo. Ele não está trabalhando regularmente, e achei que
ficaria agradecido pelo dinheiro e pela refeição. Até que nos divertimos -
acrescentou, com um sorriso. – Foi realmente muito bom. Só espaguete e boa
conversa. Bem, na verdade, o encontro tendeu mais para o monólogo, porque
Mendes não é muito de falar.
- Mendes - Jody repetiu o nome devagar. - Ainda soa misterioso. Não sabe o
primeiro nome dele?
- Ele não o disse em nenhum momento e nem me ocorreu perguntar. De
qualquer maneira, é melhor assim. Acho que fui meio precipitada, Jody. Ele
estava parecendo relaxado, quase amigável, então vi o carro de Johnny e entrei
em pânico. Imaginei que a sra. Wolinsky não iria me deixar em paz se eu não
demonstrasse com clareza que estava interessada em outra pessoa. Então fiz
outro acordo com Mendes e ofereci a ele cinqüenta dólares por um beijo.
Jody apertou os lábios, antes de tomar outro gole de café.
- Deveria ter deixado claro que esse valor estava incluído nos cem dólares -
disse ela.
- Não houve tempo - justificou Flavia. - Já havíamos definido o acordo e não
havia mais tempo para renegociar. A sra. Wolinsky estava nos espiando através
da janela. Então ele me beijou bem ali, na calçada do prédio.
- Uau! - Jody comeu outro biscoito. - E qual movimento de impacto ele usou?
- Ele me puxou de uma vez e colou meu corpo ao dele.
- Minha nossa! A puxada súbita. Oh, adoro esse movimento.
- Então fiquei lá, em meio aos braços dele e mal conseguindo me equilibrar na
ponta dos pés, porque ele é alto.
- Sim, ele é bem alto - anuiu Jody, ainda mastigando o biscoito. - E atlético
também.
- Realmente atlético, minha amiga. Quero dizer, seus músculos parecem rocha.
- Oh, Deus. - Jody lambeu os dedos, sem desviar os olhos da amiga. - Então
você estava lá, na ponta dos pés. E depois?
- Bem, ele... se inclinou.
- Ah, meu Deus... Uma puxada súbita com inclinação! - Em sua empolgação,
Jody quase derrubou o outro biscoito que havia acabado de pegar. - Um
movimento clássico. Quase nenhum homem utiliza isso hoje em dia, minha
cara. Chuck fez isso em nosso sexto encontro, e foi assim que terminamos no
meu apartamento, experimentando a comida de um fast food chinês, na cama.
- Pois Mendes agiu como um perito no assunto. Então, quando eu estava
sentindo a cabeça girar, ele se afastou de repente e simplesmente olhou para
mim.
- Homens - disse Jody, com ar de censura.
- E fez tudo novamente! - festejou Flavia.
- Um duplo?! Não acredito! - Jody segurou a mão da amiga, quase dando umpulo
de alegria. - Você recebeu um duplo, Fla! Há mulheres que passam a vida
inteira sem sequer saber o que é isso! Sonham com isso, claro, mas nunca
passam pela emoção de experimentar a puxada súbita com inclinação seguida
de beijo, olhar intenso e beijo.
- Foi minha primeira vez - confessou Flavia. - E foi... maravilhoso!
- Tudo bem, tudo tem. Agora apenas a parte do beijo, certo? Apenas a parte dos
lábios e das línguas. Que tal foi essa parte?
- Muito ardente.
- Ah, meu Deus! Acho que terei de abrir a janela de novo. Estou começando a
suar.
Dizendo isso, levantou-se com um movimento súbito e abriu a janela,
respirando fundo.
- Então foi ardente. Muito ardente. Continue.
- Foi como ser... Sei lá, devorada. Sabe quando seu corpo inteiro fica trêmulo,
um calor gostoso se espalha por seu corpo e... - Flavia moveu as mãos, tentando
encontrar as palavras certas para se expressar. - Não sei como descrever.
- Tem de se esforçar. - Aflita, Jody segurou-a pelos ombros. - Tente isso: -na
escala de um a dez, que nota você daria?
Flavia fechou os olhos.
- Não há escala...
- Sempre há uma escala - Jody a interrompeu. - Não é possível...
- Não, Jody, o que eu senti não se enquadra em nenhuma escala.
Jody deu um passo atrás.
- Deus meu... Preciso me sentar. - Jody sentou-se, passando a mão pela testa. -
Você experimentou um beijo que não se enquadra em nenhuma escala.
Acredito em você, Fla. Mas muita gente não acreditaria. Muitas pessoas
poderiam até zombar dessa afirmação, mas eu acredito no que disse.
Flavia sorriu.
- Eu sabia que poderia contar com você.
- Sabe o que isso significa, não sabe? Significa que Mendes arruinou sua vida.
Agora, nem mesmo um beijo nota dez vai satisfazê-la. Você vai sempre procurar
um que não se enquadre em nenhuma escala.
- Isso já me ocorreu. - Pensativa, Flavia pegou lápis e começou a tamborilá-lo
sobre a mesa.
- Mas creio que será possível levar uma vida tranqüila e feliz, alcançando com
certa regularidade uma escala entre sete e dez, mesmo depois dessa 
experiência. O homem pode até ir à lua, Jody, viajar pelo espaço e se ver em
outro mundo por algum tempo, mas tem de voltar para a terra e continuar
vivendo.
- Puxa, isso foi sábio. - Jody tirou um lencinho de papel do bolso da calça. -
Quase heróico.
- Obrigada - Flavia agradeceu e, com um de seus sorrisos marotos, acrescentou:
- Mas, enquanto isso, não fará nenhum mal bater à porta em frente de vez em
quando, certo?
Flavia estava descendo para o andar de baixo, após uma manhã de intenso
trabalho. Ao ouvir o familiar e agradável som do sax, pensou em bater à porta
de seu vizinho para lhe oferecer um café, mas o som do interfone lhe
interrompeu os pensamentos.
- Sim?
- Estou procurando o sr. Mendes, do 3A - disse uma voz feminina.
- Não, ele está no apartamento 3B.
- Oh, droga, então por que ele não está respondendo?,
- Provavelmente porque não ouviu o interfone, já que está tocando sax -
explicou Flavia.
- Então poderia me anunciar, querida? Sou a empresária dele e já estou
cansada de ficar aqui tocando esse interfone.
- Empresária dele? - Flavia repetiu.
Bem, se Mendes tinha uma empresária, queria conhecê-la. Já havia pensado
em indicá-lo a várias pessoas e talvez essa fosse sua chance de ajudá-lo de
alguma maneira.
- Claro, pode subir - dizendo isso, acionou o botão que destravava o portão de
entrada.
Em seguida, abriu a porta de seu apartamento e ficou esperando do lado de
fora. A mulher que saiu do elevador parecia muito profissional e bemsucedida,
segundo Flavia notou- com certo espanto. O tailleur vermelho lhe atribuía um ar
de elegância e sofisticação, assim como a pasta executiva de modelo feminino.
Flavia franziu o cenho. Então por que o cliente dela parecia estar passando por
dificuldades financeiras?
- Você é a moradora do 3A?
- Sim, meu nome é Flavia.
- Sou Amanda Dresher, mas pode me chamar de Mandy. Obrigada por haver
aberto o portão para mim, Flavia. Nosso "garotão" aqui não está atendendo ao
telefone e, pelo visto, esqueceu-se de que tínhamos uma reunião à uma hora,
no Restaurante Four Seasons.
- O Four Seasons? - Flavia se surpreendeu. Aquele era um dos restaurantes
mais caros da região. - No parque?
- Esse mesmo. - Com um sorriso, Mandy apertou a campainha do apartamento
3B. - Shawn é muito talentoso, mas temperamental demais de vez em quando.
- Shawn? - Flavia levou um instante para entender sobre quem ela estava
falando. - Ah, Shawn Mendes. - Com um suspiro de indignação, acrescentou:
- O autor de Rede de Almas.
- Isso mesmo - confirmou Mandy. - Vamos lá, Shawn, abra logo esta porta... -
falou ela, tamborilando os dedos sobre a madeira. - Quando ele decidiu passar
alguns meses na cidade, pensei que conseguiria ter mais acesso a ele. Mas,
pelo visto, eu me enganei mais uma vez. Ora, até que enfim.
Ambas ouviram o ruído das trancas sendo abertas com gestos súbitos e,
aparentemente, mal-humorados. Então ele abriu a porta.
- O que diabos... Mandy?
- Você perdeu o almoço - ironizou ela. - E não atendeu ao telefone.
- Eu me esqueci do almoço e o telefone não tocou.
- Você carregou a bateria?
- Provavelmente não. - Shawn continuou no mesmo lugar, olhando para Flavia,
logo atrás de Mandy.
- Entre - disse à empresária. - Só me dê um minuto, sim?
- Eu já lhe dei uma hora - ironizou Mandy, falando por sobre o ombro enquanto
passava pela porta. - Obrigada mais uma vez, querida - ela agradeceu a Flavia.
- Não há de quê. - Flavia forçou um sorriso. Então fuzilou Shawn com o olhar. -
Canalha - disse ela por entre os dentes, antes de entrar em seu apartamento e
bater a porta.
- Não há nenhum lugar para se sentar aqui? - protestou Mandy, atrás dele.
- Não. Quer dizer, sim. No andar de cima - resmungou em resposta, tentando
ignorar a onda de culpa que o atingiu. - Não costumo ficar muito neste andar.
- Estou vendo. Quem é a garota que mora em frente?
- O nome dela é Flavia Campbell.
- Achei que ela me parecia familiar. É a criadora das tiras cômicas Amigos e
Vizinhos, não é? Conheço o empresário dela. O homem é louco por ela. Vive
dizendo que ela é sua única cliente à prova de ego e livre de neuroses. Nunca se
queixa, não atrasa os prazos e está sempre lhe dando lucro com a venda de
seus personagens em agendas, calendários e outras coisas do gênero.
Diante do silêncio de Shawn, Mandy acrescentou:
- Imagino como seria bom ter um cliente livre de neuroses, que se lembrasse
dos almoços de negócios e que me mandasse presentes no meu aniversário.
- As neuroses fazem parte do pacote, mas sinto muito sobre o almoço.
O aborrecimento de Mandy cedeu lugar à preocupação.
- O que aconteceu, Shawn? Parece alterado por algum motivo. O roteiro não
está indo bem?
- Não, ele está caminhando. E melhor do que eu esperava. O problema é que
não tenho dormido muito bem ultimamente.
- Continua saindo para tocar seu sax até altas horas da noite?
- Não.
Estava era passando as noites em claro pensando em Flavia, Shawn admitiu
para si mesmo. Andando de um lado para outro e desejando tê-la em seus
braços. Só que agora ela devia estar profundamente magoada com ele.
- Bem, já que não teremos mesmo o almoço, que tal me oferecer um café? -
sugeriu Mandy.
- Ainda há um pouco na garrafa - disse ele. - Estava fresco às seis horas da
manhã.
- Então, deixe-me preparar outro.
Depois de preparar o café, com os ingredientes que já se encontravam sobre a 
pia, Mandy abriu alguns armários, à procura de algo para comerem.
Considerava o bem-estar de Shawn como parte de seu trabalho.
- Meu Deus, Shawn, por acaso está fazendo greve de fome? Não há mais nada
aqui, além de restos de batatas fritas e do que um dia foi um pão francês, mas
que agora só serve para experimento científico.
- Não fui ao supermercado ontem - explicou ele, sem conseguir deixar de
pensar em Flavia. - Para jantar, geralmente faço um pedido a algum
restaurante.
- Pelo mesmo telefone que você não atende? - Eu vou recarregar a bateria,
Mandy.
- Espero que sim. Se pelo menos ele estivesse funcionando, agora estaríamos
sentados a uma mesa do Four Seasons, tomando champanhe Cristal para
comemorar. - Com um sorriso, acrescentou: - Fechei o contrato, Shawn. Rede
de Almas vai se transformar em um grande sucesso do cinema. Terá os
produtores que quiser, o diretor que preferir e a opção de fazer o roteiro
pessoalmente. Tudo isso regado a uma generosa quantia, claro.
- Não quero que estraguem o roteiro - foi a primeira reação dele.
- Isso só dependerá de você. - Mandy suspirou.
- Para não correr o risco de que algo não o agrade, faça você mesmo o roteiro.
Sem dizer nada, Shawn se aproximou da janela, ainda tentando absorver a
notícia. Um filme mudaria a perspectiva que a peça havia atingido no teatro,
mas, por outro lado, geraria uma renda de milhões de dólares.
- Não quero me envolver demais nisso, Mandy. Toda aquela loucura do cinema
não me agrada.
Ela serviu duas xícaras de café e se aproximou da janela, entregando uma a
ele.
- Então faça apenas o trabalho de supervisão. Ou de consultoria, se preferir.
- Sim, acho que isso será suficiente para mim. Providencie tudo, está bem?
- Pode deixar comigo. Agora, se você conseguir parar de dar pulos de alegria,
poderemos conversar sobre seu trabalho atual.
Shawn curvou os lábios, sem conter o sorriso.
Levado por impulso, deixou a xícara sobre o parapeito da janela e segurou o
rosto de Mandy entre as mãos.
- Você é a melhor e, com certeza, a mais paciente empresária desse ramo.
- Está absolutamente certo. Espero que esteja tão orgulhoso de você quanto eu
estou. Vai dar a notícia à sua família?
- Deixe-me primeiro digerir a idéia por alguns dias.
- A notícia vai se espalhar logo, Shawn. Não vai querer que eles a recebam por
outros meios, não é?
- Tem razão - anuiu ele. - Vou ligar para eles. - Com um sorriso, completou: -
Depois de recarregar a bateria do telefone, claro. Por que não saímos para
comemorar, tomando champanhe?
- Pensando bem, por que não? Ah, só mais uma coisa - falou Mandy, em um
tom casual. - Não vai me dizer o que está havendo entre você e a bela garota do
apartamento 3A?
- Não tenho certeza de que haja alguma coisa para dizer - respondeu Shawn,
em um resmungo.
Shawn continuava a não ter certeza sobre aquilo quando bateu à porta de
Flavia naquela mesma noite. Mas sabia que tinha de fazer alguma coisa a
respeito daquela sombra de indignação e tristeza que vira nos olhos dela, horas
antes.
Não que aquilo dissesse respeito a ela de alguma maneira, lembrou a si mesmo.
Não pedira a ela que bisbilhotasse sua vida. De fato, fizera tudo para que ela se
mantivesse afastada. Pelo menos até a noite anterior, concluiu ele, com um
suspiro exasperado.
Sempre detestara agir por impulso, e fora justamente isso que fizera na noite
anterior. Para começar, não deveria ter aceitado sair com ela. Ainda mais por
um motivo tão idiota. E muito menos beijá-la, ainda que por um motivo
louvável: puro desejo.
Quando Flavia abriu a porta, Shawn estava mais do que pronto para um pedido
de desculpas.
- Ouça, sinto muito - começou, com um certo tom de impaciência. - De 
qualquer maneira, isso não era da sua conta. Vamos apenas esclarecer as
coisas.
Ele fez menção de entrar, mas parou de repente quando Flavia o deteve, levando
a mão a seu peito.
- Não o quero na minha casa.
- Não diga tolices, Flavia, foi você quem começou. Talvez eu tenha deixado as
coisas saírem um pouco do controle, mas...
- Comecei o quê?
- Isso!
Shawn levantou as mãos, aborrecido pela falta de palavras e detestando ver
aquela sombra de tristeza no olhar dela.
- Tudo bem, eu comecei - Flavia admitiu. - Nunca deveria ter levado biscoitos
para você. Sim, foi pura idiotice da minha parte. Também não deveria ter me
preocupado em arranjar um emprego para você e nem em lhe oferecer uma refeição
decente, por pensar que você não tinha condições de pagar uma.
- Droga, Flavia...
- Você deixou que eu pensasse tudo isso! - ela o interrompeu, furiosa. - Deixou
que eu acreditasse que estava passando por dificuldades, que era um músico
desempregado, e aposto que deve ter rido muito disso. O brilhante e premiado
roteirista Shawn Mendes, autor da magnífica peça Rede de Almas. Aposto
que está surpreso por eu conhecer o seu trabalho. Uma idiota feito eu não anda
por aí lendo críticas sobre peças de teatro.
Shawn continuou em silêncio, e ela o fez dar um passo atrás.
- Não é mesmo, Shawn? O que uma "desenhistazinha" de tiras cômicas de
jornal iria entender de arte? Ainda mais sobre teatro, sobre literatura séria?
Deve ter rido muito à minha custa, não? Seu arrogante elitista! - A voz de Flavia
falhou, sendo que ela havia prometido a si mesma que isso não aconteceria. -
Eu estava apenas tentando ajudá-lo.
- Mas eu não pedi sua ajuda. Eu não queria sua ajuda.
Shawn notou que ela estava prestes a explodir em lágrimas. E quanto mais
isso se evidenciava, mais furioso ele se sentia. Sabia muito bem como as
mulheres usavam o choro para arrasar um homem, e não deixaria isso voltar a 
acontecer em sua vida.
- Meu trabalho diz respeito apenas a mim - acrescentou.
- Seu trabalho é produzido na Broadway e, se você não sabe, isso o torna
público – retrucou Flavia.
- Não tinha nada que andar por aí fingindo ser um saxofonista.
- Toco sax porque gosto de tocar, só isso. Não estava fingindo ser, alguma coisa,
foi você quem deduziu isso.
- E você não fez a mínima questão de me esclarecer.
- E se eu tivesse feito isso? Eu me mudei para cá em busca de um pouco de paz
e tranqüilidade. Queria ficar sozinho. Mas quando me dei conta, lá estava você
me trazendo biscoitos, seguindo-me pela rua e me fazendo passar metade da
noite em uma delegacia de polícia. Como se não bastasse, depois apareceu
pedindo que eu saísse com você para se livrar do olhar bisbilhoteiro de uma
mulher de setenta anos, só porque não tem coragem de dizer a ela para não se
meter em sua vida pessoal. E quando pensei que já tinha visto tudo que
poderia ver, qual não foi meu espanto ao receber a proposta de ganhar
cinqüenta dólares por um beijo.
O sentimento de humilhação finalmente fez uma lágrima rolar pelo rosto de
Flavia, enquanto uma espécie de nó se formava em sua garganta.
- Não comece com isso - disse Shawn.
- Quer que eu não chore vendo-o me humilhar desse jeito? Vendo você me fazer
sentir idiota, ridícula e envergonhada? - Flavia não se importou com as lágrimas
que começaram a molhar seu rosto. Simplesmente continuou a encarar Shawn
com toda sua indignação. - Sinto muito, mas não sou tão fria assim. Ainda
choro quando alguém me magoa.
- Foi você mesma quem pediu isso.
Shawn tinha de dizer aquilo. De fato, ele estava desesperado para acreditar
naquilo.
- Você conhece os fatos, Shawn - disse ela, num fio de voz. - Tem todos eles à
sua disposição, mas insiste em ocultar seus sentimentos por trás deles. Levei
biscoitos para você porque pensei que poderia precisar de um amigo. Já me
desculpei por havê-lo seguido, mas posso me desculpar novamente.
- Eu não quero...
- Ainda não terminei - Flavia falou com tanta dignidade que o fez sentir uma
onda de culpa. - Levei-o para jantar porque não queria magoar uma senhora
muito doce e por pensar que você poderia estar faminto. Gostei de sua
companhia e senti algo diferente quando você me beijou. Na verdade, pensei
que você também houvesse sentido. Portanto, você está certo - ela assentiu, enquanto
outra lágrima rolava por seu rosto. - Fui eu mesma quem pediu isso.
Suponho que guarde todas suas emoções para o seu trabalho e que por isso
não encontre uma maneira de aplicá-las em sua vida. Sinto muito por você. E
sinto muito por haver pisado em seu solo sagrado. Nunca mais farei isso.
Antes que Shawn pudesse pensar em algo para responder, Flavia fechou a
porta. Então ele ouviu as trancas sendo acionadas com fúria. Girando sobre os
calcanhares, voltou para seu apartamento e seguiu o exemplo dela, também
fechando as trancas da porta.
Finalmente tinha o que queria, disse a si mesmo. Solidão. Quietude. Flavia não
voltaria a bater à sua porta, não o interromperia, não o distrairia e nem o
envolveria em conversas das quais ele não queria participar. Não lhe traria
sentimentos com os quais ele não sabia o que fazer.
De pé, na sala vazia, suspirou alto. Estava exausto daquilo tudo.
 



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