História Amor de vizinho - Capítulo 4


Escrita por: ~

Postado
Categorias Flavia Pavanelli, Magcon, Shawn Mendes
Personagens Flavia Pavanelli, Shawn Mendes
Exibições 78
Palavras 4.622
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Romance e Novela
Avisos: Insinuação de sexo, Sexo, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 4 - 4


Fanfic / Fanfiction Amor de vizinho - Capítulo 4 - 4


Shawn só estava conseguindo dormir por alguns breves cochilos. E estes eram
invadidos por sonhos, sempre envolvendo Flavia de alguma maneira. Via-se em
lugares estreitos e era sempre como se ela o houvesse levado até ali. Então ela
se aproximava e o sonho se tornava perigosamente erótico, fazendo-o acordar
excitado e furioso ao mesmo tempo.
Também não estava conseguindo comer. Era como se nada o satisfizesse, como
se nada parecesse tão saboroso como a refeição que os dois haviam
compartilhado noites antes. Passara a se sustentar de café, até sentir seus
nervos à flor da pele e o estômago queimando em protesto.
Mas estava conseguindo trabalhar. Quando suas emoções ficavam
tumultuadas, seus surtos de criatividade se tornavam mais intensos. Era quase
doloroso ter de arrancar aqueles sentimentos de seu próprio coração,
transferindo-os para as atitudes de seus personagens, mas era assim que ele
trabalhava. Sempre fora. Arrancando seus próprios sentimentos e fazendo-os 
dar vida e personalidade àquelas pessoas, por meio das palavras. Em sua
mente, era como se já visse a peça sendo encenada no palco, com toda aquela
avalanche de emoções sendo trocada entre os atores e o público.
A certa altura, Shawn lembrou-se do que Flavia havia lhe dito antes de fechar a
porta. Que ele devia usar todas as emoções no trabalho, esquecendo-se de
aplicá-las à própria vida.
Ela tinha razão, e talvez fosse melhor assim. Para ele, havia muito poucas
pessoas nas quais poderia confiar. Seus pais, sua irmã... Ainda que sua
necessidade de atender às expectativas deles agisse em sua vida como uma
faca de dois gumes.
Havia também Delta e André, amigos leais que não esperavam dele mais do que
poderia oferecer. Mandy, que sempre lhe chamava a atenção nos momentos
certos e que o ouvia quando ele precisava de alguém para desabafar.
Não precisava de mais ninguém. Muito menos de uma mulher que, de um
momento para outro, poderia decepcioná-lo. Não passaria novamente por isso.
Aprendera a lição da primeira vez e ainda mantinha muito vívidas na
lembrança todas as conseqüências que as atitudes de Pamela haviam
provocado em sua vida.
Com todas suas mentiras, decepções e traições, ela meio que o deixara
imunizado quanto àquele tipo de armadilha sentimental. Uma lição dura como
aquela, aprendida aos vinte e cinco anos, não era algo fácil de se esquecer na
vida de um homem. Desde que percebera a tolice que era acreditar no amor,
nunca mais perdera tempo procurando por ele.
Ainda assim, não conseguia parar de pensar em Flavia.
Tinha ouvido ela sair várias vezes naqueles últimos três dias. E também
flagrara-se distraído com o som de risos, vozes e música vindos do apartamento
dela. Flavia não estava sofrendo, disse a si mesmo. Então por que ele estava?
Sentimento de culpa, concluiu. Havia magoado uma pessoa especial, ainda que
sua atitude não houvesse sido necessária ou intencional. Havia-se deixado
levar pelo charme de Flavia, mesmo relutantemente. Não tivera intenção de
magoá-la ou de fazê-la se sentir a pior das criaturas. As lágrimas de uma
mulher ainda surtiam um forte apelo em seu ser, por mais que ele soubesse
quanto elas podiam ser sinal de falsidade e de manipulação.
No entanto, as lágrimas Flavia não haviam lhe parecido falsas ou
manipuladoras. Muito pelo contrário.
Por fim, convenceu-se de que não resolveria seu problema, enquanto não
esclarecesse aquilo tudo de uma vez. Não havia se desculpado devidamente.
Sim, iria pedir desculpas mais uma vez, agora que Flavia havia tido algum
tempo para refletir sobre o que havia acontecido.
Não havia motivo para os dois se tornarem inimigos, claro que não. Afinal, ela
era neta de um homem que ele admirava e respeitava muito. Além disso,
duvidava que Daniel MacGregor ficasse satisfeito se soubesse que ele havia
feito sua querida neta chorar. E a opinião de Daniel MacGregor importava
muito para ele. Sempre importara.
Sabia que ela estava fora, pois a tinha ouvido fechar a porta algum tempo
antes. Talvez fosse melhor ficar esperando-a, para não perder a chance de falar
com ela enquanto ainda estava movido por aquela onda de determinação.
Porém, provavelmente teria desistido se visse a expressão furiosa de Flavia meia
hora depois, quando ela entrou no elevador, vindo do mercado. Estava
aborrecida com o simples fato de ter de passar diante da porta de Shawn.
Detestava o fato de ter de se lembrar dele ao passar por ali, de como agira feito
uma idiota, e pior: de quanto ele a fizera sentir-se uma idiota.
Equilibrando os dois pacotes que trazia nos braços, tentou encontrar logo a
chave na bolsa, para não correr o risco de passar muito tempo no corredor. O
elevador fez o característico ruído indiscreto ao parar em seu andar, mas ela
continuou procurando a chave depois de sair dele.
Então enrijeceu o maxilar e estreitou o olhar ao notar a presença de Shawn no
final do corredor.
- Oi, Flavia. - Shawn nunca vira um olhar tão gélido a ponto de deixá-lo
desconcertado. - Ah, deixe-me ajudá-la com isso.
- Não preciso de sua ajuda, obrigada - replicou ela, rezando para encontrar logo
a maldita chave.
- Precisa sim, se vai mesmo ficar aí vasculhando a bolsa.
Shawn tentou sorrir, antes de começar uma espécie de cabo-de-guerra por
causa de um dos pacotes. Por fim, conseguiu tirá-lo de Flavia.
- Escute aqui, já disse que sinto muito. Quantas vezes terei de dizer isso até
que você se convença de que estou sendo sincero?
- Vá para o inferno! - bradou ela. - Quantas vezes terei de dizer isso até que 
você comece a sentir o calor das chamas?
Flavia finalmente encontrou a chave e colocou-a na fechadura.
- Agora me dê meu pacote.
- Eu o levarei para você.
- Já disse para me dar maldito pacote - mandou ela, por entre os dentes. Os
dois voltaram a "brincar" de cabo-de-guerra, até ela deixar escapar um suspiro
resignado.
- Então, fique com ele!
Ela abriu a porta com um movimento abrupto, mas antes que pudesse fechá-la,
Shawn a segurou e entrou sem maiores dificuldades. Os dois se entreolharam,
estreitaram os olhos e Shawn teve a impressão de ver um brilho de vingança
nos olhos dela.
- Nem pense nisso - avisou ele. - Não estou usando cueca de ferro.
Ainda assim, Flavia pensou na possibilidade de causar algum dano. Mas
desistiu ao concluir que isso só o faria sentir-se mais importante do que ela
estava determinada a fazê-lo se sentir. Então, limitou-se a girar sobre os
calcanhares e tirar os tênis cor-de-rosa, como costumava fazer ao chegar em
casa. Em seguida foi até a mesa e colocou sobre ela o pacote que estava
carregando. Quando Shawn fez o mesmo, ela assentiu.
- Obrigada. Quer uma gorjeta?
-- Muito engraçado. Primeiro vamos acertar isso. - Shawn pegou a carteira no
bolso, tirou dela uma nota de cem dólares e a entregou a Flavia.
- Aqui está.
- Não vou aceitar o dinheiro de volta. Você fez por merecê-lo.
- Não vou aceitar seu dinheiro por aquilo que acabou se tornando uma piada de
mau gosto.
- Piada de mau gosto?! - A sombra de frieza nos olhos dela se transformou em
chamas verdes.
- Então foi isso para você? Bem, mas não estou surpresa. Já que tocou no
assunto, acho que ainda estou lhe devendo cinqüenta dólares, não?
Shawn enrijeceu o maxilar quando ela abriu a bolsa e começou a procurar o
dinheiro. Aquilo já estava indo longe demais.
- Não me provoque, Flavia. Pegue o dinheiro de volta de uma vez.
- Não.
- Eu disse para pegar esse maldito dinheiro de volta. - Dizendo isso, ele lhe
segurou o pulso e colocou o dinheiro palma da mão dela.
- Agora... - interrompeu-se, atônito, quando a viu rasgar a nota de cem dólares
em pedacinhos e jogá-los no ar.
- Pronto! Problema resolvido.
- Essa foi uma atitude muito idiota - Shawn a censurou.
- Idiota? Bem, para que quebrar a regra, não é mesmo? Pode ir embora agora.
A voz dela estava tão estridente e furiosa que Shawn teve de se conter para não
pestanejar.
- Muito bom, muito eficaz - disse ele. - A dama da voz supersônica finalmente
apareceu.
Quando ela voltou a falar, em um tom ainda mais abrupto, conseguiu
sobressaltá-lo.
- Muito eficiente mesmo - ironizou Shawn.
Furiosa demais para continuar o combate verbal, Flavia simplesmente foi até a
mesa e começou a esvaziar os pacotes. Se insultos e gritos não estavam
funcionando, talvez ignorá-lo desse algum resultado.
De fato, talvez até houvesse funcionado se Shawn não tivesse visto suas mãos
trêmulas, quando ela colocou uma caixa sobre a mesa. Ver aquilo, levou-o a
sentir mais uma vez aquela onda de culpa que vinha experimentando nos
últimos dias.
- Flavia, sinto muito. - Ele a viu hesitar, então pegar uma latinha de sopa e
colocá-la sobre a mesa.
- A situação me escapou do controle e eu não fiz nada para corrigir meu erro.
Eu deveria ter feito alguma coisa.
- Não precisava ter mentido para mim. Eu teria deixado você em paz.
- Eu não menti, pelo menos não comecei. Mas deixei que você, continuasse
pensando algo que não era verdade. Quero minha privacidade. Preciso dela.
- Pois agora a tem. Afinal, não fui eu quem acabou de passar pela porta do 
apartamento de outra pessoa.
- Não, não foi você. - Shawn enfiou as mãos nos bolsos, então tirou-as
novamente e apoiou-as sobre a mesa.
- Eu magoei você, e não queria ter feito isso. Sinto muito pelo que aconteceu.
Flavia fechou os olhos, sentindo que o muro que havia levantado para se
proteger começara a ruir.
- Por que mentiu?
- Porque pensei que isso a manteria em seu próprio lugar. Porque senti que sua
proximidade era um pouco perigosa demais para mim. E porque, no íntimo,
parte de mim desejava que você continuasse querendo me ajudar a encontrar
um emprego. - Shawn hesitou ao vê-la encolher os ombros. - Flavia, eu não
quis ofendê-la. Mas como poderia não me divertir vendo-a me oferecer cem
dólares para jantar com você? E tudo isso para não magoar uma velhinha de
setenta anos e poder, ao mesmo tempo, oferecer uma boa refeição a um
saxofonista desempregado. Aquilo foi muito... doce de sua parte. E isso não é
algo muito comum de eu dizer, pode acreditar.
- É humilhante - resmungou ela, pegando o outro pacote e se encaminhando
para a cozinha.
- Não deixe que seja. - Shawn deu a volta pelo balcão, de modo que os dois
ficaram na cozinha. - A situação só teve aquele efeito desastroso porque deixei
que a coisa fosse longe demais. Assumo a culpa por isso. Se eu tivesse lhe
contado a verdade durante o jantar, como deveria ter feito, aposto que você
teria rido muito de tudo. Mas, em vez disso, eu a fiz chorar e não consigo me
perdoar por isso.
Flavia permaneceu onde estava, diante da geladeira. Não imaginara que Shawn
fosse se importar tanto com aquilo, e que se desculpar houvesse se tornado
uma questão tão essencial para ele. Mas, pelo visto, enganara-se. E ela
simplesmente não conseguia resistir à completa sinceridade de alguém.
Respirando fundo, disse a si mesma que talvez valesse a pena tentar fazer as
pazes com ele.
- Quer uma cerveja?
Shawn relaxou os ombros no mesmo instante.
- Claro que quero.
- Foi o que eu imaginei. - Flavia pegou uma garrafa, colocou-a sobre a pia e
começou a procurar um copo para ele.
- Deve estar com sede. Eu nunca tinha ouvido você falar tanto de uma só vez
desde que nos conhecemos.
Quando se virou para ele com o copo de cerveja, Shawn estava com um brilho
de divertimento no olhar.
- Obrigado - agradeceu ele, aceitando o copo.
- Mas estou sem biscoitos.
- Ainda há tempo de fazer alguns.
- Talvez. - Flavia começou a examinar as compras.
- Para ser sincera, eu estava pensando em preparar uma torta. - Arriscando um
olhar por sobre o ombro, arqueou uma sobrancelha.
- Nunca comemos torta juntos.
- É verdade.
A visão foi sensual demais para sua paz de espírito, pensou Shawn. Flavia
estava vestida com um camisão branco de algodão e com uma calça justa de
um bonito tom de azul-claro. Porém, o detalhe mais provocante era o fato de ela
estar descalça. A visão dos pés delicados, com as unhas pintadas de cor-derosa,
provocou-lhe uma onda de excitação. As preferências exóticas de Flavia,
como aquela de usar dois brincos de argola em uma mesma orelha e uma
simples pedrinha de brilhante na outra, deixavam-no quase sempre encantado.
Flavia era uma surpresa constante. Deliciosamente inesperada.
Quando ela se virou para continuar esvaziando o pacote de compras, Shawn
lhe segurou o pulso com a mão que se encontrava livre.
- Estamos de bem novamente? - Parece que sim.
- Então há algo mais que preciso lhe dizer. - Ele colocou a garrafa cerveja sobre
a pia.
- Sonhei com você.
Foi a vez de Flavia sentir a boca secar.
- O quê?
- Sonhei com você - repetiu Shawn, aproximando-se dela o suficiente para que 
Flavia se encostasse contra a parede.
Pelo menos dessa vez era ela que estava contra a parede, não ele, pensou
Shawn.
- Sonhei que estava tocando você. - Sem desviar os olhos dos dela, ele roçou a
ponta dos dedos sobre os seios dela.
- E acordei sentindo o sabor dos seus lábios.
- Ah, meu Deus.
- Você disse que sentiu algo quando a beijei, e que achou que eu também havia
sentido. - Enquanto falava, foi deslizando as mãos devagar até os quadris dela.
- Você estava certa.
Flavia engoliu em seco, sentindo as pernas trêmulas.
- Estava?
- Sim. E quero sentir aquilo novamente.
Ela se endireitou junto à parede quando ele se aproximou mais.
- Espere!
Shawn parou os lábios a centímetros dos dela.
- Por quê?
Flavia não soube ao certo o que dizer.
- Eu não sei.
Os lábios dele se curvaram em um de seus raros sorrisos.
- Mande que eu pare quando achar que deve - sugeriu ele, antes de tomá-la nos
braços.
Foi a mesma coisa de antes. Flavia não tinha certeza de que voltaria a sentir
todas aquelas sensações maravilhosas se Shawn voltasse a beijá-la, mas foi
exatamente isso o que aconteceu. No entanto, era como se todo seu ser
estivesse preparado e esperando por aquele turbilhão de sensações. Jody tinha
razão, pensou ela. Shawn havia arrasado sua vida. Nunca mais ela conseguiria
exigir menos do que aquilo.
Linda, receptiva, doce, carinhosa... Flavia era tudo isso. Tudo aquilo que ele
havia esquecido de que tanto precisava estava bem ali, em seus braços, 
concluiu Shawn. Queria tê-la para si. E com uma urgência que nem mesmo ele
esperava sentir.
- Quero beijá-la, Flavia - disse, com voz rouca. Roçando os lábios sobre a curva
sensível do pescoço delicado, acrescentou: - Aqui, bem aqui...
Flavia fechou os olhos.
- Não.
Aquela era a última coisa que ela esperava ouvir sair de seus próprios lábios,
com as mãos de Shawn passeando por seu corpo e levando-a a desejar ir além,
muito mais além. Ainda assim, porém, ouviu-se repetir:
- Não. Espere.
Shawn levantou a cabeça, fitando-a com os olhos enevoados de desejo.
- Por quê?
- Porque eu... - Flavia se interrompeu com um gemido, quando Shawn pousou a
mão em concha sobre um de seus seios.
- Eu te quero, Flavia - sussurrou ele, junto ao ouvido dela. - E sei que você me
quer.
- Sim, mas... - Ela abriu e fechou as mãos sobre os ombros dele, lutando contra
a onda de desejo que a estava invadindo.
- Há certas coisas que não me permito fazer por impulso. Sinto muito, mas essa
é uma delas.
Flavia exalou um suspiro trêmulo. Shawn estava muito perto, pensou,
observando os detalhes daquele rosto bonito. Perto demais.
- Não se trata de um jogo, Shawn.
Ele arqueou uma sobrancelha, surpreso por ela haver sido tão perspicaz em
deduzir seus pensamentos.
- Não? Não - afirmou em seguida, entendendo o que ela quisera dizer.
- Você não aceitaria esse tipo de jogo, não é?
Alguém aceitara antes dela. E provavelmente magoara Shawn por isso,
deduziu ela, lamentando por ele.
- Não sei. Nunca agi assim antes.
Ele deu um passo atrás e se afastou, parecendo recobrar o controle enquanto 
ela ainda continuava trêmula.
- Preciso de um tempo antes de me sentir suficientemente segura para
compartilhar minha intimidade com outra pessoa. Fazer amor é uma espécie de
presente que não deve ser banalizado. Pelo menos na minha opinião.
As palavras de Flavia o tocaram de alguma maneira e, por motivos que nem ele
mesmo conseguiu entender, levaram-no a se acalmar.
- E ouvir isso de você significa que devo recuar? - perguntou Shawn, enfiando
as mãos nos bolsos, para conter a vontade de voltar a tocá-la.
- Significa que eu quero que você entenda por que estou dizendo "não", mesmo
estando morrendo de vontade de dizer "sim", sendo que ambos sabemos que
você poderia facilmente me levar a dizer "sim".
A chama de desejo se reacendeu nos olhos dele.
- Sua sinceridade chega a ser perigosa, sabia? - - disse a ela.
- Você precisa que eu lhe diga a verdade. - Flavia nunca conhecera alguém que
precisasse tanto ouvir a verdade.
- E não minto para alguém com quem eu esteja pensando em compartilhar
minha intimidade.
Shawn fitou-a nos olhos, parecendo surpreso com o que ouvira. Tinha noção
de que poderia seduzir Flavia, mas usar esse artifício só serviria para arruinar
algo que nem ele mesmo ainda estava seguro de que existia.
- Você precisa de tempo - Shawn afirmou.
- Tem idéia de quanto?
Ela exalou outro suspiro trêmulo, mas acabou curvando os lábios em um
sorriso incerto.
- Não posso dizer com certeza. Mas garanto que você será o primeiro a saber
quando eu estiver pronta.
- Então, por enquanto, vamos ficar apenas com isso...
Flavia se surpreendeu quando ele se aproximou e roçou os lábios nos dela. Ela
manteve os olhos abertos, esforçando-se para não se render às sensações.
Porém, foi impossível ignorar a onda de calor que invadiu seu corpo.
- Hum... Sim, acho que, provavelmente, isso vá funcionar - respondeu.
- Vamos esperar uma semana - sugeriu Shawn, aprofundando o beijo ao ponto 
de levar Flavia a se afastar subitamente. Ao fazê-lo, ela levou a mão ao peito
dele.
- Duas semanas - disse a ele.
A última coisa que Shawn esperava fazer em um momento de desejo tão
intenso era começar a rir.
- Não sei se agüentarei, mas poderei tentar - respondeu.
- Otimo.
Enquanto Flavia se esforçava para recuperar o fôlego, ele pegou novamente a
cerveja.
- Bem, com toda essa... - Ela gesticulou, esforçando-se forçando-se para
encontrar as palavras certas. - Não sei se preparo alguma...
- Comida? - sugeriu Shawn, lisonjeado pela maneira como seu beijo a afetara.
- Comida, isso mesmo. Bem, pensei em preparar...
Shawn ficou esperando que Flavia terminasse a frase, mas Flavia se limitou a
levar as mãos às têmporas e olhar para o fogão.
- O jantar?
- Isso. Isso mesmo, o jantar. Engraçado como as palavras nos escapam de vez
em quando, não? Vou preparar o jantar. - Virou-se para a pia, mas logo em
seguida voltou a se dirigir a ele.
- Quer ficar para o jantar?
Shawn tomou um gole de cerveja e encostou o quadril na pia.
- Posso vê-la cozinhar?
- Claro. Pode se sentar ali e até me ajudar a picar alguns legumes, se quiser.
- Está bem. - Pensando na visão interessante que teria, Shawn deu a volta pelo
balcão e sentou-se em um banquinho, diante dela.
- Você cozinha muito?
- Sim, acho que sim. Gosto de cozinhar. Para mim, cozinhar é um processo
inesperado, com todos aqueles ingredientes envolvidos, o calor e o tempo
corretos, a mistura de aromas, texturas e sabores...
- Alguma vez já cozinhou nua?
Flavia estava inspirando o aroma de um maço de manjericão, mas parou de 
repente.
- Shawn, isso foi uma piada? Se foi, não imagina quanto estou orgulhosa de
você. Nunca o vi fazer uma piada.
- Não, não foi piada. Estou falando sério.
Ela riu, surpreendendo-o ao se inclinar e dar-lhe um beijo estalado nos lábios.
Aquela imprevisibilidade de Flavia era o que mais o enfeitiçava. Tanto que o
levou a sorrir.
- E então? Costuma fazer isso?
- Nunca quando estou dourando pedaços de frango, que é o que pretendo fazer.
- Tudo bem. Tenho uma ótima imaginação. Ela riu novamente. Mas limpou a
garganta ao notar o brilho de sedução nos olhos de Shawn.
- Acho que quero um pouco de vinho. Você quer? - Ao vê-lo levantar o copo de
cerveja, murmurou:
- Oh, claro.
Em silêncio, tirou a garrafa de vinho da geladeira e voltou-se para ele, rindo.
- Terá de parar com isso.
- Parar o quê?
- De me fazer sentir como se eu estivesse nua. Vá pôr uma música no aparelho
de som, para ouvirmos - sugeriu, indicando a sala com um gesto.
- Oh, e também abra uma janela, porque está meio quente aqui. Depois me dê
algum tempo para voltar a pensar direito e poder pensar em algo para dizer.
- Você nunca teve problemas para falar.
- Sei que quer fazer isso soar como um insulto para mim, mas não é.
Considero-me uma perita na arte da conversação.
- Ah, então é assim que passaram a chamar os tagarelas agora?
- Ora, está mesmo muito engraçadinho esta noite, não?
E nada poderia tê-la deixado mais satisfeita, , concluiu Flavia, em pensamento.
- Deve ser a companhia - respondeu Shawn, indo até a sala. Então arqueou
uma sobrancelha, enquanto examinava os CDs.
- Tem um ótimo gosto para música.
- Não esperava isso?
- Na verdade, não esperava encontrar Aretha Franklin, Fats Waller e B.B. King.
Se bem que também há muita "tralha" aqui.
- E o que você considera como "tralha"? - indagou ela,
Em resposta, ele apareceu no corredor e mostrou um CD intitulado Greatest
Hits da Família Partridge.
Flavia conteve a vontade de rir.
- Tudo bem, reconheço que não é nenhum clássico, mas esse CD me foi dado
por um amigo muito querido.
- Com um amigo desse, quem precisa de inimigos? - Shawn resmungou em
resposta.
Com um sorriso, Flavia recomeçou a picar os legumes que seriam servidos com
o frango.
- Durante um período da adolescência, até fiz parte de uma banda, sabia? -
disse a ele.
- É mesmo? - Shawn se surpreendeu, enquanto colocava B.B. King para tocar.
- Hum-hum. Eu fazia o vocal principal e tocava guitarra. - Ela sorriu para ele,
que voltou a se sentar junto ao balcão da cozinha.
- Você tocava guitarra? - Shawn riu. Flavia era mesmo uma constante surpresa.
- Sim. Uma Fender vermelha, linda de morrer. Minha mãe ainda a guarda no
lugar que antes era meu quarto, junto com sapatinhos da época em que eu
ainda era bebê, meu kit de química, os desenhos que eu fazia quando
costumava dizer que ia ser designer de moda e também os livros sobre animais
que eu colecionava antes de descobrir que, para me tornar veterinária, teria de
fazer experiências de laboratório com os bichinhos.
- Começando a cortar cenouras, acrescentou:
- Tudo isso fez parte da minha busca.
Shawn estava encantado. Flavia era mesmo fascinante.
- Guitarras vermelhas e kits de química fizeram parte de sua busca?
- Eu não conseguia decidir o que ia ser. Tudo que eu começava a fazer parecia
muito divertido no início, mas logo eu me cansava daquilo. Sabe cortar
cenouras em cubinhos?
- Não. Nunca pensou que acabaria fazendo o que faz hoje em dia?
Flavia suspirou, começando a cortar a cenoura em cubinhos.
- Não - admitiu ela. - Mas gosto muito do que faço, embora eu tenha muito
trabalho. De qualquer maneira, é muito divertido. Você não gosta de escrever?
- Não completamente.
Flavia olhou para ele, surpresa.
- Então por que faz isso?
- Porque não consigo me imaginar fazendo nenhuma outra coisa. Essa é minha
única busca - respondeu Shawn.
Ela assentiu com um sorriso. Entendia-o muito bem.
- Também é assim com minha mãe – disse a ele. - Ela nunca pensou em fazer
outra coisa, exceto pintar. Às vezes, quando fico olhando ela trabalhar, noto
quanto é doloroso para ela ter uma visão e ter de se esforçar ao máximo para
conseguir retratar na tela aquilo que ela quer comunicar. Mas quando ela
termina um trabalho, quando este se mostra suficientemente bom, ela se realiza.
A satisfação, ou talvez o choque de ver o que ela é capaz de fazer, é que
surte esse efeito nela. Deve ser assim com você também.
Flavia levantou a vista, então notou que Shawn a estava observando com um
olhar perscrutador.
- Sempre se surpreende quando demonstro saber algo a respeito de um assunto
que você não esperava, não é?
Dizendo isso, colocou a tigela com os legumes picados sobre o balcão. Shawn
segurou-lhe o pulso, antes que ela pudesse de virar.
- Se isso ainda acontece, é porque sou eu quem não consegue entendê-la, Flavia.
E é provável que eu continue a magoá-la por isso.
- Mas é ridiculamente fácil me entender!
Shawn riu.
- Era isso que eu pensava antes, mas estava enganado. Você é um labirinto,
Flavia. Com dezenas de caminhos e curvas inesperadas.
Um belo sorriso se insinuou nos lábios dela.
- Esta é a coisa mais bonita que você já me disse.
- Não sou do tipo que vive se derramando em gentilezas. Teria sido melhor me 
manter fora de sua vida, deixando que eu continuasse trancado no meu
apartamento.
- Acho que até eu mesma já me convenci disso - admitiu ela. - Porém... -
Pousou a mão no rosto dele, com gentileza.
- Você parece haver se tornado minha nova busca.
- Até ela deixar de ser divertida e você deixá-la de lado?
A expressão de Shawn se mostrou muito séria. Ele parecia preparado demais
para acreditar no pior.
- Shawn, você está falando demais e trabalhando de menos. Sabe cortar
batatas em formato de palitos?
- Não tenho a mínima idéia de como fazer isso.
- Então olhe e aprenda, meu caro. Da próxima vez, quero que você prepare o
jantar. - Flavia pegou uma batata descascada e cortou-a com destreza,
formando palitos. Então arriscou um olhar para ele. - Ainda estou nua?
- Você quer estar?
Ela riu e tomou um gole do vinho que deixara ao lado.
Levava muito tempo para preparar um simples jantar quando se era distraída
por uma conversa agradável, por olhares provocantes e toques sedutores.
Levava muito tempo para comer uma simples refeição quando o perigo de se
apaixonar e a vontade de fazer amor com o homem sentado à sua frente se
tornavam cada vez mais evidentes.
Flavia reconheceu os sinais: as batidas aceleradas de seu coração, o insistente
calor pelo corpo acumulando-se deliciosamente entre suas pernas... Tudo isso
aliado a sorrisos irresistíveis e a suspiros incontidos era um forte indício de que
seria muito fácil se entregar ao amor.
Imaginou como seria se deixar levar. Provavelmente maravilhoso.
Levava muito tempo para se despedir quando se era arrebatada por longos
beijos provocantes à porta de seu apartamento. E mais tempo ainda para
conseguir pegar no sono quando seu corpo ardia de desejo e sua mente se
encontrava repleta de imagens eróticas.
De fato, só conseguiu dormir quando o som do sax vindo do outro apartamento
finalmente cessou. Somente então se entregou ao sono. E com um sorriso nos
lábios.
 


Notas Finais


vou começar uma outra fanfic só pra avisarr


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