História Amputado - Capítulo 8


Escrita por: ~

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Palavras 3.481
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Romance e Novela
Avisos: Álcool, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Hello, hello!
Atrasei um pouco com esta atualização, mas não queria postar nada que não estivesse 100% satisfeita. Então, apesar da demora, cá estou eu com um capítulo bem amorzinho.
► Estudos mostram que portadores de síndrome de Down tendem a ter maior intolerância ao glúten, um composto presente no trigo (centeio, cevada, triticale e aveia);
► Esse capítulo tem bastante cena voltada à natação, mas coloquei um presentinho Shather no final — espero que gostem;
► Preciso agradecer muito à Jess, Dessa e Rach pela ajuda com o capítulo.
Boa leitura, pessoal!
Espero vocês nas notas finais.

Capítulo 8 - Foco


Fanfic / Fanfiction Amputado - Capítulo 8 - Foco

"Foco e simplicidade. O simples pode ser mais difícil do que o complexo.

É preciso trabalhar duro para limpar seus pensamentos de forma a torná-los simples.

Mas, no final, vale a pena, porque, quando chegamos lá, podemos mover montanhas."

Steve Jobs.

Duas semanas se passaram desde o dia em que Elizabeth ligou para avisar do torneio classificatório, em Washington, para as Paralimpíadas. Talvez o erro tenha sido meu ao concordar. Naquela tarde chuvosa, eu estava em êxtase, a ligação me pareceu um presente dos céus. Tudo naquele dia me fez feliz, até mesmo os olhares e risadinhas confidentes de Ella e tia Alice. Elas nos ouviram. Os sussurros foram desnecessários. Também escutaram os gritos e pulos comemorativos pela convocação. De qualquer modo, o que, neste instante, desmotiva-me é o excesso de cobrança.

Os efeitos de um simples "sim" foram devastadores. Todos os dias treino duas horas a mais. Ralf está pegando pesado. Sei que a exigência é coerente, mas, ainda assim, isso é muito novo, para mim. Há poucos meses, mal sabia nadar, e, agora, carrego o peso de ter que me classificar às Paralimpíadas, representando o meu país. É muita responsabilidade, muito mais do que eu esperava ter.

— Shawn! — o tom de voz de meu pai simula um grito. — Está nas nuvens? — nego com a cabeça. — Salte do carro com a sua mãe, procurarei uma vaga e encontrarei vocês lá dentro.

— Desculpe-me. — seguro a mochila com toalha e roupas limpas. — Até logo.

Desço rapidamente, contudo, antes que a porta se feche de vez, ele chama o meu nome.

— Se, já estiver na piscina, quando eu chegar, lembre-se de que eu o amo. — sorrio de imediato. — Boa sorte, filho!

— Obrigado, pai! Também amo você. — encosto a lataria.

Junto à minha mãe, entro na academia moderna e cumprimento os funcionários na recepção. Este lugar é completamente diferente de onde estou acostumado a treinar. Tudo aqui é extremamente tecnológico e impecável. O piso da parte em que se tem o equipamento é de madeira escura, há luzes azuis por todos os lados. Ao final do corredor, algo familiar: a piscina.

Vejo os outros competidores se preparando. Meu estômago se revira. A ansiedade percorre todo meu corpo pelas artérias, veias e capilares. A mão sua. Molho os lábios com a língua, encarando os inúmeros rostos desconhecidos na arquibancada. Nunca vi tanta gente em um só lugar em toda a minha vida. As vinte meninas gritando o meu nome no racha representavam o ápice de fama que um dia imaginei alcançar. Não que participar desta competição me torne uma celebridade, mas todos aqui saberão o meu nome... e, dependendo do resultado, do meu fracasso.

Em meio aos jurados, enxergo Elizabeth conversando com Ralf e outros dois rapazes. Pelo visto, estou atrasado. Tiro a roupa às pressas e deixo-as com a mãe. Corro para falar com eles com o corpo quente, forjando um preparo prévio. Com a pele minimamente suada, achego, cumprimentando-os com um sorriso.

— Shawn! — a dona da academia coloca as mãos no meu rosto. — Chegou em boa hora! Este é o menino do qual falávamos... — minhas bochechas coram de imediato. — olhem o ar jovial.

Todos os pares de olhos travam sobre mim. Estou de sunga, mas, neste momento, sinto-me completamente pelado diante deles.

— Realmente, parece-me um campeão. — analisa um dos homens que desconheço.

— Obrigado.

— Você tem quantos anos, garoto? — indaga o outro.

— Dezenove. — ele assente, ao me ouvir. Não sei se isso é bom.

— Shawn, converse mais tarde. — Ralf adverte. — É melhor se aquecer.

Concordo com a cabeça e encaro a água cristalina. Atrás da piscina, alongo-me. Sinto meus músculos se confortarem. Pescoço. Braços. Pernas. Uma onda febril me alcança, o corpo está aquecido. A breve sensação de preparo chega junto ao aquecimento. É possível vencer.

— Mendes! — grita Ralf, ao se aproximar.

Chacoalho os braços, permitindo que a energia quente ganhe mais e mais partes de mim. O técnico para ao meu lado e abre um sorriso no rosto.

— Viu que Alice e sua não-namorada vieram vê-lo?

Meus lábios se esticam de modo involuntário.

— Heather e tia Alice? — procuro ao redor da piscina. — Onde?

— Logo na última fileira da arquibancada. — meus olhos vasculham os inúmeros rostos alinhados na plateia.

Consigo reconhecer as mãos balançando. Os lábios exagerados me jogam um beijo, assim como os ressecados da tia gritam. Aceno para elas, sem esconder tamanhas surpresa e felicidade em descobrir que estão aqui. Elas vieram à cidade vizinha para assistir a prova.

— Parece que Alice está muito interessada no nosso atleta... — incentiva o professor, surpreendendo-me. — não para de olhar para cá.

Solto uma risada ruidosa.

— Ralf, ela está olhando para você.

Este é meu momento de surpresa: as bochechas do treinador ruborizam em questão de segundos. Com o canto dos olhos, ele espia Alice a nos encarar. Percebo-o acenar e solto uma risada contida. Meu empurrãozinho foi dado, o resto é com eles.

Uma voz ressoa pelos alto-falantes, avisa quanto ao início da prova. Meu estômago se revira. Pego os óculos e a touca, visto-os e subo no pequeno trampolim sobre a borda. Encaro os meus pais sentados lado a lado e, bem ao fundo, Heather com tia Alice. Preencho os pulmões com o orgulho que eles estampam no rosto. Preparo-me na posição e aguardo o apito. Um. Dois. Três. O som estridente ecoa pelo ginásio. Atiro o corpo n'água.

Conforme meu rosto entra e sai da piscina, escuto a euforia unânime na plateia. Devido às diversas vozes misturadas, não consigo distinguir a de minha família, mas, em meu interior, sei que torcem por mim. Minhas braçadas são certeiras, bem como as respirações. Treinei muito nessas últimas semanas, preparei-me para isso. O que me trapaceia é a mente. Maldito medo de não ser suficiente.

Nadar toda extensão da piscina e retorna-la, em até sessenta segundos, é a missão. Eu consigo. Preciso conseguir. Preciso manter o foco. Enxergo a parede de azulejos submersa e dou a cambalhota, meus pés me impulsionam para o caminho de volta. Os braços insistem em afastar a água. Os pulmões clamam silenciosamente por ar. Perduro concentrado. Esforço-me para me manter são.

— Vá, Shawn! — o incentivo de meu pai me incentiva. — Eu acredito em você!

Tomado pelas palavras acelero os braços. Meu corpo desliza pelas águas. Vejo alguns dos outros competidores alcançarem a borda. Ignoro tudo ao redor. Só mente a minha raia. Eu versus a parede repleta de azulejo. A distância diminui. Minha mão toca à superfície gélida. Fico de pé e saio com a cabeça d'água. Outros chegam. Procuro o cronometro. 0:57,702.

Meu cérebro demora a digerir. Meus lábios se entreabrem em um grito, os braços se levantam e, enquanto minha mão esquerda cerra, posso jurar que a mão ausente vibra em emoção. Consegui! Estou na próxima fase. Na arquibancada, eles comemoram tanto quanto eu. Saio da piscina, tomo uma dose do energy drink e aguardo a prova seguinte. A vontade é de abraçar o meu pai com força. Todavia, os braços de Ralf e Elizabeth são meu consolo.

— Daremos início a próxima fase. — a mesma voz nos alerta.

Quarenta segundos. Preciso reduzir dezessete para conseguir me classificar. É possível. Qualquer coisa é. Se, há um ano atrás, alguém me dissesse que em menos de quatro meses minha vida estaria assim, eu jamais acreditaria. Todavia, está acontecendo.

Perdi o antebraço, a namorada e o melhor amigo. Larguei a faculdade, os rachas e o vídeo game. Aprendi a nadar com um dos braços pela metade, conheci uma mulher maravilhosa e estou em uma disputa para os jogos olímpicos. Isso tudo é insano, diria até inacreditável. Porém, real. Eu me classificarei. Sou capaz. É possível.

Retorno à posição. Preencho os pulmões de ar e expiro-o. Tudo ao meu redor some, restando, assim, apenas eu e a maldita borda.

O som ensurdecedor do apito me invade. Impulsionando-me no trampolim, mergulho. Minhas pernas batem inquietas. Os movimentos dos braços são ágeis. Dezessetes segundos a menos. Contorno na parede e dou início ao retorno. Foco. Tudo o que preciso é foco. Não desvie. A parede se encaixa na minha mão. Fico de pé, empurrando, às pressas, os óculos para cima. Meus olhos ansiosos se prendem ao cronometro.

0:31,291.

Eu, Shawn Mendes, estou classificado para as Paralimpíadas no Rio de Janeiro.

Sexta conquista.

Subitamente, sou tragado para um redemoinho de alegria. Saio da piscina com certa agilidade, ainda anestesiado pelo recente triunfo. Em minha mente, tudo se passa como um filme do qual sou meramente espectador; não me parece real, nem, muito menos, consigo crer que tenha sido o segundo a ultrapassar a chegada no tempo limite.

Abraço Ralf, sem pedir permissão. Elizabeth encaixa os braços sobre nós e comemora conosco. As palmas e gritos esbanjam a euforia de todos presentes no ginásio. Sorrio, completamente entorpecido. Nossos corpos são apartados e só consigo pensar em ver os meus pais. Corro com o olhar à arquibancada, no entanto, perco-os de vista em meio às inúmeras faces desconhecidas.

Antes que o desespero me ganhe, sinto os braços de minha mãe envolverem o meu corpo, sem ao menos se importar com a água que transfiro para suas roupas não mais secas. Ela me parabeniza e garante estar muito orgulhosa, mas sua alegria tamanha se perde em meio aos demais murmúrios de comemoração os quais me cercam. O pai vem em seguida, esmagando o meu corpo contra si, ele dá tapinhas felizes em minhas costas. O sorriso em seu rosto transmite um puro orgulho, o que faz meu coração bater com demasiada felicidade.

Embora tudo esteja perfeito, sinto falta de um abraço. Quero envolver a ruiva em meus braços e agradecê-la infinitamente pela vinda. Contudo, ao vê-la distante e quieta, percebo o receio. Visto a capa da coragem e afasto-me do emaranho de gente, como destino único de me afundar no cheiro adocicado de Heather. No instante em que meus pés param diante dos olhos verdes, um sorriso imenso estica os lábios exagerados.

— Você veio. — disparo.

— E você se classificou. — rebate.

Sem pedir permissão, abraço-a com força. Os braços magros e alvos envolvem a minha cintura antes úmida e aproxima os nossos corpos o máximo possível. Sinto a respiração quente da garçonete, quando ela encaixa o rosto na curva de meu pescoço. Neste abraço, nossos corações pulsam em perfeita sincronia. Fecho os meus olhos, apreciando ainda mais o momento de felicidade.

— Estou tão orgulhosa de você, Shawn. — murmura com os lábios rentes à minha pele. — Eu sabia que você conseguiria.

Todas as palavras somem de minha mente, porém a mesma coragem de segundos antes retorna e convence-me a inclinar brevemente o rosto, encontrando nossos olhares. Roço meu nariz no dela e sinto o suspiro hesitante da ruiva. Solto uma risada confidente e, sem mais tardar, colo nossos lábios. O choque de nosso encontro é elétrico ao ponto de energizar todos os poros, eriçando os pelos como num curto circuito. No entanto, uma salva de palmas e vibrações nos interrompe. Com ambas as bochechas coradas, rompemos o beijo e gargalhamos, constrangidos. Os olhos esverdeados se comprimem com a risada doce. As sardinhas quase desaparecem sobre a pele avermelhada de vergonha.

— Gostaria de ser um avestruz agora. — confidencia, ainda sob aplausos.

— Eu também. — uma das sobrancelhas se ergue. — Essa foi a primeira vez em que a minha mãe me viu beijar alguém.

Falando na mulher quem me pôs no mundo, sinto suas mãos alcançarem os meus ombros.

— Parece que, caso perca nas Paralimpíadas, já terá ganho o prêmio. — diz ela, corando-me completamente. — Você deve ser o motivo do Shawn ir à cafeteria. Não imaginava que era tão bonito...

— Obrigada, sra. Mendes. — estende a mão. — Sou a Heather, muito prazer.

— O prazer é todo meu, querida. — retruca em total simpatia, ao agarrar a mão da garçonete e cumprimenta-la. Assim que se desvencilham, ela a direciona para a tia, quem está parada ao lado da ruiva. — E você é a...?

— Alice. Sou a tia... tia da Heather.

Minha mãe não esconde a confusão em seu semblante por imaginar uma tia tão nova.

— É uma longa história. — explica-se.

— Acredito que teremos a noite inteira para me contar esta história incrível. — as duas arregalam os olhos. — Querem jantar lá em casa?

— Jantar? Mãe! Não precisa de jantar. — reprimo, de imediato. Tenho certeza de que a minha mãe fará de tudo para me constranger ao máximo.

— Meu filho está classificado para as olimpíadas, é claro que isso merece uma comemoração! — a empolgação da mãe é tamanha para ser interrompida. — Meninas, se vieram de Seattle só para ver o meu filho, estão mais do que convidadas!

— Fico honrada pelo convite, Sra. Mendes, mas não posso. Eu trabalho à noite. — bufa a de olhos verdes, ao recusar.

— Ora, você nunca falta o trabalho... hoje é uma exceção. — insisto descrente, o que faz com que ela sorria.

— Já que você está de acordo, eu aceito. — os dentes aparecem entre os lábios exagerados. — Uma falta não fará mal a ninguém...

— Eu-eu também aceito. — dispara tia Alice, animando-nos ainda mais.

Meu pai deixa de conversar com o técnico e junta-se a nós. Os assuntos rodeiam o possível cardápio do jantar. Cada um sugere uma coisa diferente e ninguém chega a um acordo, entretanto as risadas são suficientes para animar o evento de mais tarde. Ao menos, com o rebuliço, decidimos por dá-las carona de volta à cidade.

De súbito, Ralf se aproxima de nós e pede licença. O diálogo falho sobre a minha conquista é curto, suspeito, parece que tenta tomar coragem para chegar a um ponto específico. E chega. Antes de sairmos do ginásio de Washington, ele toca em um dos braços de Alice e pede ajuda com alguma coisa que não consigo escutar direito. Deixamos os dois ali, enquanto acompanhamos meus pais para buscar o carro.

Quando paramos o veículo em frente à academia, vejo Ralf se desvencilhar de um abraço em tia Alice. Ela o beija na bochecha e abre a porta, entrando sem dificuldade. O professor acena para todos, despedindo-se e, com a chegada de Elizabeth, vasculha o bolso atrás das chaves.

— Pessoal... pessoal — começa a tia —, nã-não poderei ir ao jantar. Tenho um encontro. Eu tenho. — revela, sem o menor pudor.

— Se eu me separar do seu pai, entrarei na natação. Isso está melhor que cupido. — alfineta a mãe no banco da frente, enquanto ajeita os cabelos, olhando-se num espelho pequeno.

Todos nós rimos. Um das mãos de Heather me procura no banco de trás e enlaça nossos dedos.

— Ralf e eu vamos a um restaurante chinês. — confidencia. — Pre-preciso pensar em roupa. Tenho que-que estar linda. Linda. — a ansiedade é nítida em seus trejeitos. — Quero-quero que ele me beije.

Antes que a ruiva possa sugerir alguma coisa, minha mãe dispara, inclinando o rosto para nós.

— Tenho um vestido da sorte. Acho que lhe servirá. — oferece um traje do qual nunca ouvi falar. — Usei-o na primeira vez em que sai com James. A gente não só se beijou naquela noite como também transou.

— Mãe, pelo amor de Deus! Que nojo! — esmurro o banco do motorista. — Pare o carro, pai, preciso descer. Céus... tarde demais. Estou imaginando a cena. Mãe, por que faz essas coisas?

— Shawn, deixe de graça. Acha que eu não sei que faz essas coisas? — a vergonha está estampada em meu rosto. — Heather, vocês usaram camisinha?

— Mãe!

A de olhos verdes solta uma gargalhada e entra na brincadeira... infelizmente.

— Não se preocupe, sra. Mendes, o seu filho é muito responsável.

— Sabia que esse jantar não daria certo... — resmungo entredentes.

— Prepare-se, meu filho, esta é apenas a carona. — adverte o pai.

Encaro a paisagem pela janela e torço para que minha mãe não me constranja ainda mais. Obrigo-me a concentrar a atenção na música a tocar no fundo, no entanto, as gargalhadas e confidências estão altas o bastante para me chamar atenção. Meus pais parecem gostar das meninas. Tia Alice os entretém bastante, contando situações engraçadas pelas quais passou. Permito-me rir vez ou outra. Até que as horas passam bem como a vista e chegamos à Seattle.

Em casa, minha mãe e Heather ajudam Alice com a roupa e maquiagem no andar de cima, enquanto meu pai e eu cuidamos do jantar. Já que a tia, quem tem alergia a farinha, não jantará conosco, escolhemos pela opção mais barata e pratica: macarrão. Para não ser mais uma macarronada de sempre, o pai faz molho Alfredo e eu cuido de grelhar o frango. O cheiro convidativo as alcança, e, tão logo, elas descem as escadas.

A buzina de um carro ecoa pela casa. Tia Alice bate os pés no chão e morde a parte de dentro da bochecha. As mãos cerram.

— Shawn, você é-é homem... — viro-me para ela.

— Desde que nasci. — brinco, e ela ri.

— Eu es-estou bonita?

— Você é linda, tia Alice. — elogio, enfatizando o verbo "ser".

De fato, ela é muito bonita. Mas, hoje, superou-se. Seus cabelos castanhos e compridos estão presos para trás com uma trança. O vestido azul marinho é rodado e tem um comprimento casto, nem tão curto, nem tão longo, acaba um pouco antes dos joelhos. A maquiagem é simples, apenas um contorno preto ao redor dos olhos para destacar o tom de verde e, nos lábios, um batom sutil.

Acenamos para a tia a se retirar e seguimos para a cozinha. Sentamo-nos e servimo-nos. Meu pai insistiu em fazer uma salada de entrada, mas do mesmo modo em que está servida se mantém. Todos devoram o macarrão, principalmente eu. Com o treino, a alimentação balanceada se tornou um hábito, contudo, umas calorias a mais me faziam falta.

— O frango está uma delícia, sr. Mendes. — elogia, educadamente a ruiva.

— Foi o Shawn quem fez. — rebate, enrolando o macarrão no garfo. — O mérito é todo dele.

— O que você não sabe fazer, Shawn? — ela ri maliciosamente. Engulo em seco. — Parabéns!

— Obrigado! Fico feliz que tenha gostado. — respondo, afundando o rosto no copo de refrigerante.

Desfazendo a arrumação da salada, minha mãe se serve. Ela observa o modo como a ruiva me encara e sorri. Tenho certeza que, em sua mente, fantasia diversas situações entre nós.

— Como vocês se conheceram? — quebra o silêncio com sua curiosidade.

— Na cafeteria no final da rua. — respondo antes que a ruiva diga algo constrangedor. — Heather é uma das garçonetes de lá.

— Sim, Shawn fez um escândalo porque derrubou a bandeja e fui ajudá-lo... — mas é tarde demais.

A mãe arregala os olhos.

— Foi logo depois do acidente, eu ainda estava muito afetado. — tento justificar o injustificável.

— Só isso explica, não faz o seu perfil. — reprova sabiamente. — E o primeiro beijo?

— Mãe, você não acha que é informação demais?

— Não tem nada demais no que ela está perguntando, Shawn... — defende a minha mãe.

— O que vocês acham de procurar um álbum de infância com umas fotos minhas em que estou pelado tomando banho? — interrompo-a, embarcado em sarcasmo.

— Se tiverem, mostre-me, por favor. — implora a de olhos verdes, entre risadas.

A moça quem me pôs no mundo coloca o pote com a salada sobre a mesa e abre um sorriso no rosto.

— Tenho uma foto do Shawn fazendo cocô na casa da avó! — comemora.

— Mãe, por favor. — suplico, cerrando os olhos, possuído pelo vexame.

Todos riem de forma ruidosa. Minhas bochechas ardem em vergonha, mas solto um riso contido. Meu pai liberta umas piadinhas também. Nego com a cabeça. Sem dúvidas, tenho a família mais implicante do mundo. E, neste ínfimo instante, consigo sentir como Heather está prestes a fazer parte dela.

Enquanto a conversa constrangedora e incessável perambula os espaços da mesa da cozinha, o toque do telefone se espalha pela casa. Ignoramo-lo, de início. Um jantar como este não pode ser interrompido facilmente. Não fazíamos uma reunião como esta há anos. Este momento é uma espécie de raridade.

No entanto, por mais que tentemos desprezar o som estridente na sala, ele persiste. Os diálogos começam a pausar, seguido por olhares à espera de que alguém tome a iniciativa de se levantar. Sem mais como procrastinar, preparo-me para ficar de pé, mas a mão da mãe me impede.

Prontamente, ela se ergue e persegue o ritmo insuportável.

— Alô? — podemos escuta-la falar, ao mesmo tempo em que retorna à cozinha. — Sim, é ela. Quem está falando? — ergue uma das sobrancelhas.

— Quem é? — sibilo, curioso.

A única resposta que recebo é sua mão elevada, fazendo menção para que eu espere. Estranho a frieza. Os olhos castanhos se arregalam, o que nos preocupa. Minha mãe entreabre os lábios, porém não fala nada até então. A agonia me ganha.

— Céus! — é tudo o que diz. — Tudo bem... tudo bem. Estou a caminho. — meu pai nega com a cabeça, ao ouvi-la. — Obrigada, senhor.

A mão delicada afasta o telefone da orelha e pressiona o botão luminoso. Seus olhos preocupados nos encaram, é possível notar o quão perdidos estão. Os três aguardam que minha mãe tome uma posição. Trêmula, ela repousa o aparelho sobre a mesa e procura as palavras.

— O que houve? — nossas vozes saem ao mesmo tempo.

— Stew... Stewart está no hospital.


Notas Finais


​Alguma teoria sobre o que aconteceu com Stewart? Será que ele perdeu alguma parte do corpo? Aguardo as teorias. Ahahah
Muitíssimo obrigada a todos que leram até aqui. Espero que tenham gostado do capítulo! Eu amei escrevê-lo.
Vejo vocês em duas semanas.
Com muito carinho,
Lali

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