História Anna - Capítulo 3


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Drama, Livro, Mistério, Originais, Policial, Suspense
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Palavras 1.567
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Mistério, Policial, Romance e Novela, Suspense
Avisos: Suicídio, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


"Veja através da névoa"

Interajam. Comentem. Favoritem. O destino de Anna está com vocês.
Boa leitura.

Com amor,

Evangeline.

Capítulo 3 - Capítulo 3


- Ah! 

A garotinha continuava lá, resistindo ao frio imperioso da manhã inglesa. Seu sorriso infantil continha também maturidade e leveza.

Virei o rosto rapidamente e voltei a olhar. Ela não estava mais lá.

Meu lábio inferior tremeu. Resisti com todo ímpeto para não chorar.

Mas parecia impossível.

 

5 de dezembro de 2008, Hawkshead, Inglaterra. 

- Anna, faça seu desejo.

Me estiquei sobre a mesa, obedecendo a mamãe. Meus nove anos já haviam chegado, e tudo que eu queria era um livro novo e um pote enorme de sorvete de morango. Mas sabia que esses desejos poderiam ser realizados com alguns beicinhos e pedidos feitos docemente.

Eu precisava pedir algo que quase ninguém pudesse me dar.

Depois de pensar por dois segundos hesitantes, desejei:

“Eu quero ser rica. Quero também ser muito inteligente e viver bem e feliz”

Era um desejo muito doce, inteligente e ingênuo. As coisas não funcionam assim. Mas para a pequena Anna debruçada sobre o bolo de chocolate, parecia a melhor escolha. 

Assoprei. A fumaça se esvaiu junto com minhas lágrimas.

 

18 de dezembro, Hawkshead, Inglaterra.

- Vamos para o Parque, Anna – a voz de April do outro lado da linha soava animada – posso levar minha avó e o Berry, o que acha?

- Está bem. Eu vou falar com meus pais – garanti.

Ela riu do outro lado.

- Será um sábado divertido.

Desliguei e olhei para o papel. Eu havia escrito e reescrito minha música favorita.

Debaixo da campina,

Nós vamos dançar

Não importa se é lá

Que podemos descansar

Tudo bem, criança, se é aqui que você sorri

Não te culpo, venha cá e sente aqui.

Algumas pessoas choram em vão,

Elas não sabem que repousa nosso coração

Algumas pessoas juram entender,

Outras nem ao menos querem saber

Não importa se debaixo da campina nós brincamos

Não importa se aqui, no carvalho, nós dançamos

Tudo bem, criança, se você se sente bem aqui

Venha aqui, vamos rir.

Aqui, todos amamos você

Aqui, você vai viver.

Pisquei, ainda pensando.

- Quer chocolate quente, filha? – papai apareceu na porta. 

- Hum?

Ele se aproximou.

- Quer chocolate quente? – repetiu.

Fiz que não.

- Pai, podemos ir até o Parque com April e a avó dela?

Ele passou a mão no cabelo.

- Eu irei trabalhar, peça a sua mãe – ele falou.

Suspirei e fui até mamãe.

- Podemos ir até o Parque com April e a avó dela?

Meu desânimo já era evidente.

- Eu não posso ir – ela resmungou – se quiser, pode ir com ela. 

Assenti e me arrastei até o quarto.

Pesquei uma calça jeans, uma blusa de algodão, e um grosso casaco preto.

Suspirei, cansada e arrumei uma bolsa.

- Estou indo – avisei.

Fui até a casa de April – que ficava a duas quadras da minha – e bati na porta com a guirlanda de Natal.

Ela abriu rapidamente e me pediu para entrar.

- Minha vó está arrumando a cesta de comida.

Sorri mecanicamente, sem estar feliz de verdade. Ainda não entendia como April podia ser tão alegre e animada. Será que ela não via a vida a nossa frente? Será que não percebia o mundo? 

Eu via. Eu percebia.

E eu estava cansada. 

- Bom dia, senhora Leigh – falei à senhora de cabelos grisalhos na cozinha.

- Olá, Anna – ela respondeu – fiz torta de amora para nós.

Sorri em agradecimento.

April pegou Berry, seu cachorro labrador, e sua mochila.

- Vó, vamos logo! Quero aproveitar o sábado – ela animou-se.

O cachorro se postou na minha frente, me observou e lambeu gentilmente minha mão.

Afaguei sua cabeça. Ele parecia me entender. Parecia ver também.

- Vamos! – April anunciou.

 

O Parque de Hawkshead era um lugar agradável, um campo aberto cheio de árvores e alguns lagos, sendo ladeado por uma floresta.

Eu costumava achar que ele era uma floresta encantada quando menor. Agora, até o verde das folhas parecia cinzento e morto. 

As coisas mudaram desde que a pequena Anna cresceu. 

-...e eu ri muito. Foi um ótimo dia – April falava.

- Oh, sim. Você era uma criança levada – a senhora Leigh concordou – o que há com você, filha?

Mal percebi que ela falava comigo.

- Comigo? Eu estou bem – afirmei.

Ela sorriu. Tive certeza que seus olhos sábios viam além de minha mentira.

- Berry! 

Virei minha cabeça imediatamente, alarmada pelo grito de April.

O cachorro corria velozmente campina abaixo.

- BERRY! – April berrou.

Mas ele não obedeceu. Simplesmente continuava correndo.

Anna.

Uma criança atravessava a rua no limite do Parque, exatamente na direção de Berry, a bons metros de distância. 

 

Veja o que acontece quando não há escolha.

 

Era um lindo menino de seis anos e cabelos dourados. Ele chamava pelos pais, dentro do parque, indo na direção deles. Um idoso comprando cachorro-quente na calçada do outro lado viu a cena com espanto. 

Um carro vermelho, antigo, mas bem cuidado vinha da direita.

- BERRY! – April gritou com toda a força.

Lá embaixo, a cena se repetia. O idoso e os pais berraram um nome, que eu não consegui identificar. 

- Ah – arquejei, prevendo a cena que se seguiria.

Fechei os olhos.

 

Não adianta fugir, Anna. Todos estão sujeitos a isso. Você pediu, lembre-se.

 

Levantei as pálpebras vagarosamente. 

Berry havia pulado sobre a criança, salvando-a. Ela e o cão caíram sãos e salvos na calçada oposta.

Apenas vi o vulto ruivo descer a todo vapor. Eu e a senhora Leigh descemos segundos depois.

- O cachorro salvou ele! – as pessoas vibravam.

- Berry! – minha amiga lançou-se sobre o animal ofegante.

Os pais abraçaram o garotinho.

- É seu cachorro? 

April assentiu.

- Obrigada – a mulher disse à menina e ao Berry, com um sorriso gentil.

Mas os olhos azuis intensos do garotinho estavam vidrados em mim. Ele, tão ingênuo, parecia compreender e ver meus segredos mais profundos.

Na sua boca sorridente, eu li meu nome.

 

Anna.

 

Sorri, enquanto ele também exibia um discreto sorrisinho com um dente faltando. Tive a sensação de estarmos ligados pela vida. Ele me convidava para ela também.

Uma lágrima escorreu pela minha bochecha. 

 

Anna. Você escolhe. Você decide. Aproveite a oportunidade, ela é dada uma só vez.

 

- Anna! – April já subia o campo com um sorriso no rosto – venha logo! Vamos comer nossa torta.

 

Eu gostava do domingo. O clima de paz e harmonia tão raro parecia surgir de repente. 

April ia algumas vezes a igreja comigo. Hoje, ela havia resolvido vir. Trouxe um doce para depois do culto e parecia bastante animada.

Ignorando alguns detalhes, como demasiada hierarquia, arrogância e orgulho, a igreja se tornava um dos meus locais preferidos. A biblioteca tinha uma preferência ainda maior. Eu gostava de ler enquanto escutava Hallelujah. Tudo parecia tão simples, cálido, amoroso e pacífico nesse momento. Mas bastava uma olhadinha no mundo lá fora para retornar a realidade. Aliás, eu nem precisava ir tão longe...ali mesmo, dentro dos muros da igreja, eu podia ver traços da devastação. 

Naquele domingo, me sentei no ponto mais distante, até que fui receber April.

Ela estava com seu habitual sorriso. 

- Bom dia, Anna. Trouxe algo para sua família – ela disse.

Sorri e recebi-a. 

Quando íamos cruzar a porta, April me parou.

- Ele está ali há um tempo. Disse que queria entrar – ela murmurou.

- Ele quem? – questionei.

Ela fez sinal para atrás dela. 

No outro lado da rua, Gale nos observava.

- Ele disse isso? 

Ela confirmou.

Fui até ele depois de atravessar a rua, com a menina atrás.

- Olá, Gale. O que faz aqui? – eu perguntei.

Ele passou a mão no cabelo penteado. Apesar de ter feito tudo para parecer que estava bem, se arrumando como um bom garoto, logo notava-se seus olhos com olheiras profundas e melancolia. Algo havia mudado bruscamente de um dia para outro. 

- Eu...queria entrar – ele murmurou, a voz quase um fio.

Assenti.

- Entre então – convidei

Ele deu um mínimo sorriso aliviado.

Sentamos lado a lado, no último banco. Ouvimos tudo com atenção, embora eu estivesse com os pensamentos voando de vez em quando.

Quase no final, fui beber um pouco de água.

- Anna.

Quase me engasguei. Gale se retesou assim que me virei para ele, com os olhos cabisbaixos. Não chegava a nem mesmo lembrar o mesmo menino da escola.

- Sim? 

Ele engoliu a seco.

- Eu queria perguntar algo...

- Fale – eu interrompi-o. 

Ele franziu o cenho, indeciso.

- Você...compreende essas palavras? Você vive elas?

Desviei os olhos. Não sabia se viver era a palavra certa. Eu tentava, pensava, mas não sabia se chegava a vivê-las.

- Por quê está me perguntando isso? – indaguei. Minha voz parecia agressiva, mas aguda, como se eu fosse um ratinho encurralado.

Ele suspirou.

- Porque elas parecem boas demais para serem verdades – respondeu.

No primeiro momento, eu digeri sua resposta, e no segundo eu dei um riso, que o constrangeu.

- Entendi – afirmei – mas por que está preocupado com isso? É muito curioso que tenha essa vontade.

Seu cabelo castanho brilhava na luz vinda do sino lá em cima.

- Nada. Não é nada. – ele se ajeitou, desconfortável – Eu...

Seus olhos se incendiaram de medo e ele saiu, sem completar a frase.

Me aproximei da porta para dentro do templo.

Um sorriso se esboçou em mim ao escutar Hallelujah vindo de dentro do templo.

Deixei as lágrimas caírem.

- Obrigada – eu murmurei, numa pequena e tímida oração.

Mas eu sabia da minha fraqueza.

 

Você ainda pode escolher, Anna.

 

 

 

 

 

 

 


Notas Finais


Onde estarão vocês??


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