História Anty - Capítulo 2


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Terminada Não
LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Romance e Novela, Suspense
Avisos: Álcool, Suicídio
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 2 - Capítulo 02


A boca fina se movia rápida. O rosto era ossudo, com as pontas salientes deixando a face angulosa. Sua aparência era dura, mas a voz que saía de sua boca era quase angelical. Anunciava para o auditório lotado as mudanças para aquele ano letivo que começava. Sua postura impunha respeito, e ninguém tinha coragem de fazer um pio que fosse.

– Agora vamos dar as boas-vindas a turma das formiguinhas desse ano. – Ela ergueu a mão na direção da entrada atrás do palco. Todos olharam naquela direção.

Um grupo de dez crianças entrou em fila, todos vestindo o uniforme de cerimonia da escola e arrumados impecavelmente. As idades variavam de quatro a cinco anos, todas muito desconfortáveis com a cerimônia e o estouro de palmas.

Em seus peitos pendia o broche com o símbolo da escola, a série e o desenho da formiga. Era o primeiro dia delas ali, não sabiam o que esperar. Por sorte, ou talvez nem tanta, a cidade era pequena e quase todas se conheciam. Estavam nervosas por não estarem com os pais, mas estavam ainda mais ansiosas para as semanas que se seguiriam.

 

 

Minha família estava acostumada a dormir até tarde no domingo. Eu havia perdido aquele costume há algum tempo, antes mesmo de ter morado fora. Acordei cedo naquele dia, bem antes do sol pensar em sair. Havia passado longos minutos encarando o teto cinzento antes de olhar pela quarta vez o relógio preso à parede. Ele estava torto para a esquerda, quase caindo, e aquilo me incomodava mais do que o fato de que a hora simplesmente não passava.

Queria sair dali, mas me sentia colada à minha cama. Movi devagar os dedos dos pés, para certificar que eles ainda estavam ali e minha inércia era apenas psicológica. Encontrá-los no lugar que deveria estar não me deixou mais animada para me levantar. Mas respirei fundo, enchendo meus pulmões até quase senti-los estourar. Meu tronco se moveu para frente, utilizando-se da força que eu não tinha no diafragma, fazendo-me sentar.

Meus pés tocaram o chão e eu me ergui, temendo que minhas pernas me desobedecessem e resolvessem desabar. Eu sabia que, se por acaso, deixasse meu corpo cair no chão não iria sair dali tão cedo. Mas eu continuei em pé, continuei em pé e caminhei até a cozinha.

Detestava comer de manhã, mas naquele dia acordei faminta, o que só serviu para me aborrecer. Encontrei um bolo de trigo já pela metade em cima do fogão e, ao procurar por uma faca, notei que a gaveta onde os talheres costumavam ficar estava trancada. Foi o suficiente para minha fome fugir e eu ter desejado não ter levantado da cama.

Mesmo tendo desistido de comer, não voltei para o meu quarto. Entrei na garagem, onde estava meu velho skate (que eu vagamente me lembro de ter doado para meus irmãos). Tanto faz, eram cinco da manhã, eles não o usariam àquela hora.

Saí para a rua deserta, fechando o agasalho e arrumando o skate sob meus pés. O relógio do mercadinho brilhava na escuridão, mais do que as luzes dos postes. Passei na frente dele e parei, os ponteiros estralavam no ritmo dos segundos, fazendo meus pelos se arrepiarem a cada movimento.

Continuei meu caminho, passando vagarosamente pelas casas e notando qualquer mudança significativa. A quase falta de luz não influenciou tanto na minha busca por novos detalhes interessantes, mas não encontrei nenhum, eles não existiam, estava praticamente tudo do mesmo jeito.

Não que eu esperasse grandes mudanças no período de um ano, mas aquela estranha sensação de nunca ter saído dali me desconcertava.

Impulsionei os pés contra o chão, fazendo o skate acelerar e na rua que descia a montanha. Os primeiros indícios do nascer do sol apareciam ao longe, pintando a belíssima paisagem montanhosa. Era um lugar incrível, o vento gelado soprando o rosto enquanto me deliciava com aquela vista que, a meu ver, era o único ponto positivo de ter voltado para casa. Eram muitas montanhas, de vegetação escura. As árvores eram altas, o que criava uma silhueta peculiar sob aquela luz.

Deixei meus pés seguirem o caminho, desprendidos da minha mente. Eles chegaram rápido à cidade e resolveram que seria de bom gosto passear pelas ruas ali também.

As casas da parte principal eram diferentes da parte da montanha. Enquanto a minha vizinhança parecia ter saído de um livro de história, com suas casas baixas, de telhados escuros e janelas pequenas; as casas do sopé eram diferentes. Haviam modernizado a cidade, com construções um pouco mais altas, janelões de vidro e aquele ar falso de cidade grande.

Segui por aquela rua. O sol já havia aparecido, mas ninguém acorda cedo no domingo. Mesmo assim, acelerei um pouco mais, queria rever a cidade antes que ela acordasse. Passei pelas ruas que marcaram minha infância, mas que estranhamente não me lembrava muito bem. Em meio a nostalgia, parei na frente da escola.

Aquela era a maior e melhor escola da cidade, onde eu e meus irmãos estudamos desde que nos entendemos por gente, e para onde eu voltaria. Seria meu último ano escolar, havia perdido o tempo que passei longe e agora estava atrasada em comparação aos meus antigos colegas. Tinha certeza que muitos deles já haviam saído da cidade, como os jovens ali costumavam fazer, viajado ou ido montar suas vidas longe daquelas montanhas. Havia sido meu sonho também, ir embora, não voltar nunca mais. Mas depois de fielmente acreditar que minha viagem seria a chance de realizar o que queria, e ter voltado após um único ano, eu não sabia mais o que desejava para minha vida.

Um segredo sobre Governador Hilário Smerte: a cidade parece ter saído de um filme de terror, daqueles que o protagonista retorna para casa apenas para ser assassinado ou algo nesse naipe. Talvez eu estivesse exagerando? Talvez eu estivesse exagerando, mas os jovens ali tinham que ser rápidos para escapar antes que os espíritos da cidade agarrassem suas pernas e as transformassem em raízes.

Havia sido assim com meus pais. A família de minha mãe e de meu falecido pai eram de muito longe. Um belo dia meu pai e minha mãe resolveram conhecer a cidade, gostaram, resolveram se mudar. Se conheceram. Se casaram. Tiveram três filhos. Ele morreu. Ela virou professora do prézinho. Minha tia veio morar com a irmã. E eu tive a chance de ir embora, mas olha, aqui estou de novo.

Aquele era o poder da cidade. No mínimo assustador, eu diria. Porque, sendo sincera, quem iria querer se mudar para aquela cidade que tinha muito menos do que nada?

Deixei a velha escola para trás, teria que voltar no dia seguinte para meu primeiro dia de aula mesmo, não queria me adiantar tanto assim.

Já havia rodado uma boa parte das ruas principais, não estava tão motivada a entranhar-me ainda mais, então segui para o supermercado que ficava ao centro. Eu acreditava que aquele era o único mercado 24h da região, talvez estivesse errada depois de tanto tempo, mas tanto faz.

Entrei com o skate embaixo do braço e me surpreendi ao ver que não era apenas eu que havia decidido fazer umas comprinhas às seis da manhã. Aquilo me incomodou, não queria encontrar nenhum conhecido, então era melhor terminar as compras logo.

Peguei uma cestinha e me dirigi diretamente para as gôndolas que conhecia bem. Ou não tão bem, porque a organização do mercado havia mudado naquele tempo, o que me obrigou a passar por todas até encontrar o que eu queria.

Alguns biscoitos, muitas e muitas gomas de mascar, material escolar, meias novas (porque havia dado um chá de sumiço nas antigas), ligas de cabelo e algumas facas de cozinha.

A moça do caixa me pareceu familiar, provavelmente era alguém que encontrei nos corredores da escola. Era nova, de cabelos negros cheios, presos em um rabo de cavalo. Seu turmo deveria ser o da noite, já que parecia bem cansada e desanimada de estar ali. Eu não a julgava.

Coloquei minhas compras na esteira e esperei não muito paciente ela passar produto por produto. Eu puxava inquietamente a liga que trazia no meu pulso, quando senti alguém tocar meu ombro.

– Droga! – Arrebentei a liga com o susto.

– Ah, me desculpa, Anty, não queria te assustar.

Virei-me para dar de cara com meu antigo chefe, Fernando. No ano antes de me mudar, trabalhei no café dele. Era um bom emprego, conseguia comprar minhas coisas. Não tinha nada contra Fernando, mas ele estava na lista de últimas pessoas que queria encontrar às seis horas da manhã no mercado.

– Não, tudo bem. – Tentei esconder o rubor de minhas bochechas com um sorriso largo. Ele sorriu também.

– Não sabia que tinha voltado! Por que não passou no café? Ele mudou bastante no tempo que você tava fora. Cresceu bastante e tá bem mais popular.

– Eu cheguei ontem, nem tive muito tempo de rever a cidade direito. Mas vou passar lá assim que as coisas se arrumarem. E fico feliz que ele tenha crescido, você merece, Fernando.

– Obrigado. E como tá sua vida? Voltou para a escola? Já arrumou um emprego?

– Minhas aulas começam amanhã e eu não tive tempo de procurar nada ainda. – Respondi vagarosamente, tentando fazê-lo entender que eu havia chegado ontem.

– Se te interessar, volta pro café, eu vou adorar te empregar de novo. Tamos com noites musicais, você vai gostar.

– Muito obrigada, Fernando, assim que me acostumar com a volta às aulas eu passo lá para a gente conversar. – A moça havia acabado de passar minhas compras, apressei em pagar e terminar a conversa. – Foi muito bom encontrar você aqui. Agora eu preciso voltar para casa, mas depois conversamos com certeza.

– Foi bom encontrá-la também. Vai lá. Vou esperar você.

Enchi minha boca com gomas de mascar assim que atravessei a porta do supermercado. O sol já havia saído por completo e a cidade começava a dar sinal que deixaria de lado aquele vazio matutino.

Subi no skate e corri de volta para casa.

 

Estava cansada com a subida quando cheguei. Minha mãe abriu a porta antes que eu tivesse a chance de rodar a chave.

– Onde você foi?

– Bom dia. – Revirei os olhos. – Fui ao mercado.

– Quem vai ao mercado às 6 da manhã de domingo?

– Queria dar uma volta pela cidade, aproveitar que estava vazia para rever alguns lugares. Ai comprei meu material para a escola.

Margot desceu os olhos para a sacola. Senti que ela queria arrancar a sacola de minhas mãos e ver tudo o que comprei, mas não fez nada, apenas deu espaço para eu passar.

– Acordou cedo hoje. – Comentei, enquanto caminhava vagarosamente de volta para o meu quarto.

Ela deu de ombros e entrou na cozinha. Aproveitei a oportunidade para me fechar no quarto. Meu quarto não tinha tranca, o que diminuía minha privacidade. Pensei que Margot entraria ali, mas não, escutei ela voltando para seu quarto.

Joguei o skate no chão, junto com os tênis velhos que havia acabado de descalçar. Tirei da sacola meu material escolar e as meias, e os arrumei dentro do armário. Guardei os biscoitos, as ligas de cabelo e as gomas de mascar na gaveta do criado-mudo. Por último, juntei as facas de cozinha, enrolei em uma camiseta velha e as escondi sob meu colchão.

Deitei-me novamente. Havia me cansado bastante nas poucas horas que passei fora da cama.

Tentei voltar a dormir, mas não consegui tirar os olhos do relógio torto na parede. 



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