História Anty - Capítulo 3


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Personagens Personagens Originais
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Terminada Não
LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Romance e Novela, Suspense
Avisos: Álcool, Suicídio
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 3 - Capítulo 03


Eu tinha colocado em minha cabeça que, depois de tantos começos de ano e primeiros dias de aula, eu não ficaria nervosa daquela vez. Mas estava errada como de costume.

Para o primeiro dia, escolhi vesti meu antigo uniforme da aula de educação física. Era bem mais confortável o moletom do que ter que usar calças jeans. Ele estava velho, já que estava em uso já há uns bons anos, mas eu não iria comprar outro se faltava tão pouco para eu me livrar de vez de tudo aquilo.

Meu material já estava organizado dentro da mochila. Margot havia se dado o trabalho de arrumar aquilo para mim, provavelmente com medo de eu levar a mochila vazia e não conseguir assistir à aula pela falta dos livros. Seria ótimo não ter que ir para a escola, mas agora não tinha como evitar.

Abri a gaveta ao lado da cama e encarei por muitos e muitos segundos meus óculos e a caixinha das lentes de contato. Detestava usar as lentes, mas detestava mais ainda meus óculos, então preferi a opção menos humilhante. Era sempre bom causar uma boa impressão, lembrei desse conselho dado por alguma pessoa aleatória em algum programa aleatório de televisão.

— Vai chegar atrasada! — Escutei minha mãe gritar já na porta da garagem. Ela não precisava gritar na distância que estávamos, tudo o que se falava na porta de entrada podia muito bem se escutado no restante da casa.

Mesmo com a porta fechada, eu escutava meus irmãos se engalfinhado como de costume, felizes por serem ainda crianças e poderem se comportar daquele jeito. Minha tia já havia ido trabalhar, o que diminuía consideravelmente a quantidade de barulho. Judite e Margot conversavam sempre, vinte-e-quatro-horas-por-dia-sete-dias-por-semana, não conseguiam ficar caladas quando estavam juntas. O mesmo acontecia com meus irmãos, nenhuma outra pessoa importava quando estavam os dois no mesmo lugar. Então, sobrava eu e meu fiel amigo fones de ouvido para completar o último par da família. Era melhor daquele jeito.

Antes de sair do quarto, prendi os cabelos em um rabo-de-cavalo e passei o indicador novamente nas lentes de contato, não só porque elas me incomodavam, mas internamente desejando ter uma infecção que me impedisse de ir para a escola naquele dia. Melhor perder um olho do que entrar naquele lugar novamente.

Minha familiazinha já estava esperando dentro do carro. Sentei-me no banco ao lado da minha mãe, já esperando o que ela falaria da minha demora. Mas ela não comentou nada e eu não sei se aquilo me deixou menos pior do que já estava.

Pedro e Paulo conversavam sobre desenhos animados, um dando socos no outro enquanto gargalhavam alto. Margot ignorou as crianças o percurso inteiro, como era de costume, ela nunca se metia entre meus irmãos.

Eu apenas aumentei o volume da música e deixei meus pulmões sofrerem em paz com o ar das montanhas.

— Eu soube que você aprendeu a dirigir enquanto estava fora. — Margot interrompeu a voz da Dido em Stan.

— Aprendi sim.

— Não quer pegar o carro e levar o resto do caminho?

— Talvez outro dia, mãe.

Ela não insistiu. Acelerou e diminuiu pelo menos cinco minutos do nosso percurso. Mal esperei ela parar na frente da escola para me despedir e pular do carro. Não queria dar tempo para nenhum discurso motivacional, sobre como as coisas dariam certo, que era um novo ano, que logo acabaria e eu me formaria. Não era aquilo que eu precisava ouvir.

Eu sabia onde era minha sala, então cortei todos os corredores na velocidade da luz para chegar logo lá. O primeiro sinal já havia tocado, os alunos estavam na sala, sentados em suas carteiras, fazendo tudo menos esperar o professor em silêncio. Antes de entrar pela porta do fundo da sala, examinei meus colegas pela janelinha.

Conhecia todos de rosto, nunca entrava gente nova na escola, então todas as turmas eram as mesmas, apenas pulando os níveis. Eles estavam animados, conversando com seus velhos amigos, como bons adolescentes quase adultos costumam fazer. Entrei em silencio, sem chamar atenção, e me sentei na última carteira perto da janela.

Aquela janela dava para a quadra de futebol. Estava vazia àquelas horas da manhã, uma fina neblina a deixava mais sem cor do que costumava ser em minha memória. Mas não eram apenas as suas cores que a quadra me fazia lembrar.

Voltei meu olhar para a sala e esquadrinhei todos os colegas em meu campo de visão, devagar, detalhe por detalhe até meus olhos pararem na única mesa vazia, bem ao meu lado.  

O professor entrou na sala, arrumou seu material e começou a chamada. Nem assim a turma ficou mais silenciosa, mas ele pareceu não se importar. Era o professor de História, ele já havia me dado aula antes de eu passar o tempo fora.

— D... — Quando chegou ao meu nome, ele parou, subiu os olhos da folha para a sala e me procurou no meio dos alunos. — Ah, olá, Anty, não sabia que já tinha voltado.

Apenas concordei com a cabeça, não querendo que ele continuasse com aquele assunto ou levasse os alunos a prestarem atenção em mim. Ele não continuou e ninguém olhou para me encarar. Suspirei aliviada e deitei a cabeça no tampo da carteira, encarando o espaço vago ao meu lado.  

As aulas passaram como um borrão. Não falei com ninguém, ninguém falou comigo. Eu apenas arrastei meu corpo vivo-morto pelos corredores largos demais da escola, desejando com todo coração que aquela tortura acabasse logo.

Eu já tinha dezoito anos. Pensava. Não podia apenas fazer uma prova e me formar no lugar de passar por tudo aquilo? Na minha família não funcionava assim.

O sinal anunciou o fim da aula como os anjos anunciam a entrada para o reino prometido. Ou pelo menos para mim foi assim, não que eu acreditasse em coisas como aquilo. Tão rápido quanto cheguei na sala, saí da escola. Meu peito se expandia a cada passo que eu dava me afastando daquele lugar. Era como se eu tivesse passado seis horas seguidas sem respirar e só agora pudesse sentir o ar entrando em meus pulmões.

As lembranças daquelas horas de tortura foram muito bem trancadas em uma caixinha, a qual meu cérebro jogou em seu buraco-negro das coisas que não voltam. Era a coisa que aquele meu órgão fazia com mais perfeição. Esquecer.

Avisei minha mãe que voltaria mais tarde para casa, queria passar no café de Fernando. Ainda não havia me decidido se iria ou não aceitar a oferta de voltar a trabalhar lá, mas a caminhada de cinco quadras iria me ajudar a pensar.

As ruas, obviamente, estavam mais movimentadas do que durante o meu passei na madrugada. As pessoas passavam por mim digitando em seus celulares, mais interessadas com o que acontecia em suas telas do que com qualquer outra coisa. O dia estava mais escuro, o que podia indicar que iria chover, mas talvez fosse apenas um dia mais soturno mesmo.

Coloquei meus fones nas orelhas, mas não prestei atenção na música que tocava. Estava chutando as pedras do caminho, com a cabeça virada quase que de forma paralela com o chão. Não me lembrava como a calçada ali era pintada em um tom claro, o que a deixava muito mais suja do que se estivesse na cor original do concreto. Aquela cidade funcionava de uma forma peculiar.

Encarei novamente a rua à minha frente. As pessoas continuavam entretidas em seus afazeres para notar minha presença. Aquilo me dava liberdade para olhar para o que quisesse sem me sentir constrangida.

Eu conhecia muita gente ali, seja da escola, do café, dos passeios pela rua. Sabia o nome de muitas também, e guardava cada um com cuidado para não me confundir caso o destino me fizesse ter que falar com uma delas. Todos pareciam iguais desde a última vez que as vi, o que me fez pensar que eu também não havia mudado nada.

Se eu me sentia diferente? Minha mente perguntou, sempre com aquele dom de me atrapalhar. Eu não me sentia. Estava igual. Idêntica ao dia que deixei a cidade, de rosto e braços inchados, indo embora para o que seria a melhor coisa para mim.

Fernando estava servindo uma das mesinhas que ficavam do lado de fora do café quando me aproximei. Ele me chamou com um aceno de mão, convidando-me para entrar e me sentar no balcão.

Queria saber se eu havia aceitado voltar a trabalhar ali. Eu respondi que ainda não sabia, que estava considerando a oferta, e que, naquele momento, queria apenas uma xícara bem forte de café.

Café puro nunca foi minha bebida favorita ou ao menos uma das que se encontravam na minha lista de coisas bebíveis. Mas já estava acostumada com o sabor. Também, tomava sempre a bebida tão quente que minha boca se preocupava mais com a alta temperatura do que com o sabor amargo.

Sem perceber, rodei o banquinho na direção da janelona e encarei a rua do outro lado. Bem ali na frente havia uma escola de idiomas, o que garantia o sucesso do café de Fernando. Quando eu trabalhava ali, costumava olhar bastante a porta de entrada, principalmente na hora que os alunos chegavam e iam embora.

Olhei o relógio pendurado na parede e constatei que estava quase na hora de começar a aula. Meu coração acelerou por um momento e eu sabia que não era reação ao café. Os alunos entravam no prédio com suas mochilas ainda da escola, andavam sempre em grupos, conversando com os amigos sobre coisas que eu nunca saberia.

Gostava de pensar que estavam planejando os próximos dias, quando iriam descer para o litoral e aproveitar o fim de semana em uma praia deserta. Talvez acampassem por lá, todos em uma barraquinha pequena demais, dividindo o que havia sobrado do almoço-jantar. Voltariam depois muito felizes para Governador Hilário Smerte, e as garotas provavelmente teriam filhos nove meses mais tarde.

Mas era certo que não estavam planejando aquilo. Provavelmente não estavam planejando nada.

A aula se aproximava mais e mais, ao passo que meu coração acelerava ainda mais. Então, um grupo de três rapazes passou e eu senti meu peito murchar. Nem mais um ruído era produzido dentro de meu tórax. Nem meus pulmões queriam voltar a trabalhar.

Tentei respirar fundo, fazendo meu cérebro voltar ao controle da situação. Ele me obedeceu depois de muito esforço.

Tomei todo o resto do café de uma vez. Joguei algumas notas sobre a bancada e saí sem me despedir de Fernando.

Peguei o primeiro ônibus que passou, sem me importar se estava cheio. Por sorte, ele iria subir a montanha.

Entrei em casa como um raio e me joguei na cama. Devo ter conferido as facas guardadas sob o colchão antes de dormir, mas não me lembrava de mais nada quando acordei no outro dia. 



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